sábado, 31 de julho de 2004

HELLB...





hã... HELLBOY


Aos poucos os super-heróis patrocinados pelo coisa-ruim estão saindo do inferno. Desde o filme do Spawn, no longínqüo 1997, que não vem uma única alma boa do reino das trevas pra salvar os indefesos traseiros humanos (excetuando o Ozzy, no final do Little Nick). No momento, estou em stand-by from hell, aguardando notícias do enrolado filme do Motoqueiro Fantasma (Nicolas Cage deve rezar todo dia pra ver se sai). E me parece que já houveram conversações à respeito de um longa com o Etrigan também. Tenho certeza de que um dia algum executivo de Hollywood (da New Line ou da Lions Gate, de preferência) ainda terá a grande idéia de adaptar Lúcifer, Estrela-da-Manhã, do Gaiman. O inferno será pop, se Deus quiser. E não esperem muito de Constantine. Tenho quase certeza que aquilo não vai vingar.

Mas por hora, curvem-se, súditos das profundezas... a malevolência quadrinhística a serviço de Hollywood ganhou um novo fôlego: Hellboy finalmente chegou à terra do Carnaval. E boas notícias: o filme é ótimo! Aêêê...!


Não é pra menos... O diretor Guillermo Del Toro é gente que nem a gente. Ele é fanático por HQs, Cinema (com ênfase no gênero Horror), enfim... é o meu melhor amigo dos que eu não conheço. E ele empreendeu uma verdadeira cruzada pra realizar esse filme, principalmente para manter o grande Ron Perlman no papel principal ("eles" queriam Vin "Riddick" Diesel) - para maiores detalhes, confira a ótima entrevista publicada no Omelete, o templo do timing.

Outro fator que somou vários pontos na qualidade da produção foi o respeito de Del Toro com o material original. Sabiamente, ele manteve o pai do personagem, Mike Mignola, perto da equipe criativa do filme. Em geral, diretores de adaptações não estabelecem conexão alguma com os criadores, o que é uma lástima.

Acho que numa altura dessas, todo mundo já conhece o background de Hellboy. Eu mesmo, já escrevi sobre isso várias vezes aqui e antes daqui também. Campanha de conscientização, saca.


Essa cena original da HQ também comparece no filme, intacta


Ainda sem o tratamento digital... o resultado ficou maravilhoso

"Gente... olha... o Hellboy é demais, é o que há. Sabem o Grigori Rasputin? É, aquele monge russo doido que fez a cabeça e a esposa do czar Nicolau II...? Então... na verdade ele não morreu em 1916... no fim da 2ª Guerra, ele, Dr. Karl Ruprect Kroenen e Ilsa Haupstein, tentaram abrir um portal para o inferno, a serviço do Fürher... mas foram impedidos por um destacamento Aliado e pelo dr. Trevor Bruttenholm, especialista em paranormalidade... durante a batalha houve uma enorme explosão e, em meio aos destroços, lá estava ele... Hellboy... um guri vermelho com uma enorme manopla de pedra no lugar da mão direita..."

Foi mais ou menos isso. Lembro que, na época, coloquei umas imagens cool e uns providenciais scans também. Inclusive tinha um todo azulado do então exaurido scanner do Eudes, ex-OutZ (aliás, fico me perguntando como é que ele respirava naquela época. Eram mais de mil HQs publicadas todos os dias... nem a FedEx trabalhou tanto).

Voltando ao filme, fica evidente o conhecimento que Del Toro tem sobre o universo do Hellboy e o feliz resultado de sua interação com Mignola. Por exemplo: para saber exatamente como são os 15 minutos iniciais do filme, é só conferir o começo da história Sementes da Destruição, roteirizada por John Byrne e publicada no Brasil pela Mythos. Até a lapidar sentença de Rasputin está lá: "Eu prometi um milagre a Hitler, e a promessa foi cumprida". Pô, ouvir isso live-action é uma maravilha. Dá vontade de gritar pra todo mundo da sala que você já leu isso há muito tempo.


Algumas das poucas alterações foram muito bem-vindas. Liz Sherman (a gatinha deprê Selma Blair), não tem aquele sex-appeal todo na HQ. Aliás, nos quadrinhos, ela é até bem feinha, não sei se de nascença ou se por causa do traço "caixotão" do Mignola (com todo respeito). E quando ela usa seus poderes pirocinéticos (criação e controle do fogo), é impossível não lembrar da Fênix Negra. Fico só imaginando as possibilidades visuais que X-Men 3 terá com essa personagem.

Já o veteranaço John Hurt exibiu um notável desempenho no papel do dr. Bruttenholm. Ele ficou igualzinho à HQ, é incrível. Mais incrível ainda foi a atuação de Kevin Trainor, na juventude do mesmo. As inflexões vocais e os tiques faciais dos dois estão totalmente sincronizados, e o resultado ficou perfeito.

Eu tinha algumas reservas em relação ao personagem John Myers (Rupert Evans), que não existe na cronologia das HQs. Mas ele não atrapalha, muito pelo contrário. Ele funciona como um contraponto sensato ao sempre insubordinado, sarcástico, agressivo e gente-fina Hellboy.


Talvez o Kroenen - vilão bacana por excelência - poderia falar uma ou duas palavras, como nas HQs, pois aqui ele entra mudo e sai calado. Contudo, sua habilidade com armas afiadas já faz valer o ingresso, assim como o momento em que a sua carinha linda é revelada.

A história em si, não tem nada demais. Fora a origem do Hellboy, é o tradicional "heróis tentando impedir que os vilões destruam o mundo". Mas sem nada que lembre aquela responsa incômoda que mutantes e adolescentes aranhudos têm de levar nas costas em suas incursões cinematográficas. Tudo aqui funciona tão harmoniosamente, tão fluído e despretensioso, que lembra até aquela época em que você ainda se impressionava com um filme de ficção/aventura.

Outra coisa: a trilha de abertura é muito show. Se eu não me engano, é do Marco Beltrami. Baixará-la-ei (sic?).


Agora, o trabalho de maquiagem foi realmente impecável. Hellboy tem uma das cabeças maquiadas mais legais do Cinema, ao lado do Escuridão (personagem tenebroso interpretado por Tim Curry no filme A Lenda, de 1985) e do hors concours Predador (Van Damme, durante uns 10 segundos, e depois Kevin Peter Hall).

Sem falar no trampo inacreditável que fizeram no Abe Sapien, mil vezes superior ao original. Foi um personagem que rendeu trabalho pra dois atores: Doug Jones na batera e David Hyde Pierce nos vocais. Um trabalho explêndido, que enche os olhos, e me faz pensar se eu não deveria ter prosseguido com a carreira de maquiador (brincadeira...).

E antes que alguém reclame que colocaram muito enchimento no peitoral do Hellboy, fique sabendo que aquele é o corpo do Ron Perlman de verdade. Só pintaram de vermelho. Quando eu chegar aos meus 54, vou comparar e tomar vergonha na cara.

Que venha Hellboy 2!

E Hellboy 3, 4, 5, 6... um por ano tá bom.

quarta-feira, 28 de julho de 2004

"FOI TUDO TÃO DE REPENTE... EU JAMAIS IRIA ESPERAR..."


...que o teaser mais comentado dos últimos tempos fosse liberado hoje...! Num puta capricho do destino, fiquei sabendo através do Guimba (e pra quê diabos estou linkando?), que assumiu que é freqüentador assíduo do Omelete. Nada de "antes de I, Robot", nem de "antes de Cat-Woman". Nada de intervalo milionário na Oprah ou no Superbowl. Foi sem ninguém esperar. Adorei isso.

Já havia lido descrições do teaser antes, mas vê-lo de fato foi uma emoção única. A impressão inicial é de que segue à risca os primórdios do texto original e um cuidado todo especial com as fontes. Nada de imagens impressionáveis e bombásticas, e sim, de citações com conhecimento de causa, construção de caráter e motivações. Está tudo lá: a amargura estampada nos olhos de Bruce ainda criança (após a morte dos pais), a presença zelosa - e quase paterna - de Alfred, a descoberta de um horizonte de possibilidades e... justiça poética.












Sem comentários. Normalmente eu analiso, faço uma piada... mas agora não consegui. Tô que nem o João Saldanha na Copa. É a 1ª vez que verei um FILME DO BATMAN (saca o conceito?) e estou sem palavras. Aliás, tenho certeza que a maioria não verá "nada demais" no teaser. É foda ter 27.

Ps.: Um dia ainda escreverei um análise tão intrincada de Amnesia, que pra entender será preciso a leitura de A Metamorfose, O Universo em uma Casca de Noz, A Insustentável Leveza do Ser e Menino de Engenho.

Teaser do futuro filmaço (já decidi que vai ser)
Site oficial


MILIONÁRIO E ZÉ RICO
(hoje eu tô um pândego com esses títulos)


Narc (a.k.a. Narco, EUA/2002), é um melhores filmes de suspense policial dos últimos 10 anos. Escrito e dirigido por Joe Carnahan, Narc traz seqüências de tensão pesada e visceral (os primeiros 5 minutos são de quebrar o encosto do sofá) e uma trama que, se não tão original, é muito bem estruturada. E também traz um trabalho nada menos que excepcional de dois atores que têm um histórico filmográfico bastante complicado: Ray Liotta e Jason Patrick.


Pra mim, Liotta sempre foi um bom ator - basta conferir filmaços como Os Bons Companheiros (1990) ou The Rat Pack - Os Maiorais (1998 - produção da HBO onde ele interpretava Frank "Old Blue Eyes" Sinatra). Como ele é um profissional altamente prolífico (tá em tudo quanto é filme!), é natural que suas escolhas nem sempre acertem o alvo. É a única teoria - minha, por sinal - que explica sua presença em buscapés como Turbulência e Fuga de Absolom (que até vale uma Sessãozinha da Tarde), e é justamente um dos fatores que torra o seu filme com os críticos.

Voltando ao assunto (e vocês nem imaginam aonde quero chegar...), aqui, no papel do tenente Henry Oak, Ray faz o tipo que sabe melhor: ele mesmo. Quando quer ser bonzinho, ele parece até político em final de campanha. Os olhos azuis e o sorriso sincero praticamente reluzem no escuro. Você compraria um carro usado da mão dele, sem pestanejar. Mas quando ele começa a rosnar, sai da reta. O cara fica ameaçador, e aquele olhar angelical do começo cai por terra.


Jason Patrick já foi um aspirante à cadeira que Brad Pitt ocupa hoje (e que pertenceu à Tom Cruise). Após um promissor início de carreira (iniciado pelo filme Garotos Perdidos), o rapaz deve ter ido morar lá pelas bandas do Oiapoque. Ele sumiu. Mas vez ou outra ele dava as caras, tanto em filmes interessantes (Incognito, 1997), quanto em bombas nucleares (Velocidade Máxima 2, também de 97).

A despeito de sua cara de galã de quinta, ele sempre demonstrou fôlego no que diz respeito à cenas de ação e, como ator, é um canastrão até razoável. Narc traz a sua melhor performance até hoje, na pele do policial Nick Tellis. Ele está bem transtornado, amargurado e um tanto psicótico. Cheguei à conclusão de que ele é o tipo de ator que depende 100% da natureza do personagem que vive, ao contrário de um Edward Norton ou um Johnny Depp da vida, que têm a manha (e o talento...) de se encaixarem em qualquer contexto.

No filme, Patrick e Liotta são parceiros em cena na maior parte do tempo. Surpreendentemente, conseguem uma boa química juntos - o que o diretor Carnahan espertamente explorou em longas seqüências de interação dramática entre os dois.

Analisando mais de perto, vemos uma certa "cadeia de comando" nessa dupla. Liotta tem a natureza de um líder, seja pela sua presença intensa, experiência de campo, ou mesmo pelo seu comportamento irascível. Diferente de Patrick, que demonstra ser uma pessoa introspectiva e pragmática - apesar de igualmente anti-social. Curiosamente, eles se complementam, mesmo tendo um modus operandi oposto. Essa é uma das (grandes) surpresas de Narc.

- - Daqui pra frente as imagens são de Grayson, curta realizado por John Fiorella - -
(uns 10 minutos depois de ver o quanto são parecidas...)


Agora, de volta pra casa: navegando pelo Cag@mba (tá arrebentando, hein Luiz), vi o teor do preview de Grayson - um curta do-it-yourself dirigido por John Fiorella. Eu já havia lido à respeito no grupo de discussão Somos X-Men (que de mutante só tem o nome...), o qual participo, e também no onipresente Omelete.

Agora, prepare-se para uma fragmentação gramatical irresponsável da minha parte: Ok, passada a primeira impressão (nada boa: oportunismo condescendente, produto "B" fake, alpinismo video-maker, sub-Collora, etc.), vi que tanto o personagem principal, Dick Grayson (o Robin, parceiro do Batman, pra quem se trancou em um bunker nos últimos 40 anos, achando que a Crise de Cuba iria culminar na 3ª Guerra Mundial), quanto o conceito da narrativa - abandonar os entes queridos por uma vingança, em uma guerra praticamente perdida - lembram muito a idéia básica de Narc (ufaaaa, cheguei ao ponto...!).


E agora, mais relaxadamente, por pontos: Dick (o próprio Fiorella - isso que é botar o seu na reta!) é cagado e cuspido o personagem do Jason Patrick em Narc. E não falo de leves semelhanças não, é o contexto inteiro do personagem, inclusive o visual! Aparentemente, ele está casado e tem uma filhinha com Barbara Gordon, ex-Batgirl. Há muito tempo ela abandonou as orelhinhas de morcego postiças e agora quer ser apenas uma dona-de-casa padrão.


Com o assassinato de Bruce (no curta... putz, isso é um elseworld então!), Dick não aquieta o faixo até ir atrás do culpado - aparentemente uma conspiração engendrada pelo Coringa, envolvendo Charada, Pingüim, Selina Kyle, Clark, Diana e até Hal Jordan (...!!). Com isso, o menino-prodígio, em sua obsessão, acaba abandonado por mulher e filha, o que é uma ótima desculpa para treinamentos, investigações e porradaria. Igual-à-Jason-Patrick-em-Narc².

Isso acaba sendo um excelente diferencial de Grayson. Durante muito tempo, sempre foi questionada a validade de uma "dupla" nesse universo fictício. Em especial a clássica Batman & Robin, prejudicada ainda mais pelo teor "Clóvis Bornay" do seriado dos anos 60. Acho que se houvesse uma abordagem mais ríspida e menos subliminar (como em Grayson, e na relação de Liotta e Patrick, em Narc), o formato de "parceria" poderia ser resgatado sem traumas. Afinal, originalmente, é uma ótima idéia, mas extremamente defasada nesses dias cínicos em que vivemos. Tenham em mente Vince Vega e Jules Winnfield... Dupla dinâmica é isso aí!


Sem contar que Dick é espancado que nem boneco de Judas em dia de Páscoa. Jason Patrick também levou na cara impiedosamente durante as duas horas de Narc.


...e é isso que eu chamo de Mulher-Gato... esse vídeo já é obrigatório só pelos sussurros e "quebradinhas" da gatinha Kimberly Page... meow... ;)

Grayson - -

domingo, 25 de julho de 2004

OPERAÇÃO RESGATENova pala. Filmes, discos e pontos altos de um passado distante à curto prazo. E na edição de estréia...


RÉQUIEM PARA UM SONHO
(EUA, 2000)

"Uma viagem ao inferno", segundo uma amiga. E é mesmo. Eu ficaria só nessa definição - justa e muito elucidativa - mas acho uma sacanagem com o trabalho excepcional dos atores, da montagem esquizofrênica e da direção milimetricamente cruel.

Aliás, o capitão do barco foi o the next big thing Darren Aronofsky, justificando em cada frame o hype que se formou ao seu redor. Com uma mão pesada, ele criou uma atmosfera claustrofóbica, urbanóide e paranóica. Durante todo o filme, a câmera se encontra em uma provável "linha de fogo" (caíam esguichos de água, sangue e até vômito na lente).

Mas o ponto alto do pacote foi a edição de som. Ruídos, distorções e tenebrosos feedbacks aparecem abruptamente e em volume alto (experimenta assistir esse filme com as caixas de som devidamente espalhadas). Já a trilha incidental é formada por 3 peças (Summer, Fall e Winter) dividida em várias suítes. A de Winter, em especial, é tristemente emocionante.


Réquiem aponta seus holofotes para o cotidiano chapado de Harry Goldfarb (Jared Leto), sua namorada Marion Silver (Jennifer... ai, ai... Connelly) e seu melhor - e único - amigo, Tyrone (Marlon Wayans, surpreendendo), todos viciados 24-7. "Dependente químico" aqui, seria inadequado, pois há muito eles ultrapassaram a linha vermelha. O curso dos personagens segue uma trajetória de descida ininterrupta. Não parece haver fim na suposta "queda", pois, aparentemente, essa é a natureza da vida errática que escolheram (ou a qual não conseguem sair). Por isso acaba sendo impactante assistí-los rearranjando toda a sua vida apenas por causa de mais uma (uma!) injetadinha de heroína ou congêneres, como se qualquer sacrifício fosse auto-justificado pelo "prazer de sentir o barato".

É difícil analisar esse filme sem se render à uma observação social irresponsável e hipócrita (afinal, às vezes eu bebo bagarái, o que não deve me dar o aval pra julgar os hábitos de terceiros). Então, colocarei o meu coração em cima da mesa por um instante para poder destrinchar essa belezura de filme de forma mais técnica.


Imagino que todo mundo conhece ao menos uma pessoa que desceu ao inferno escorregando pela agulha de uma seringa. Então aqui está um legitímo déja-vu drogado e prostituído. Jared Leto, um ator apenas razoável, encontrou o personagem da sua vida nesse filme. Toda a sua razoabilidade (existe?) conferiu um bem-vindo tom passive junkie no papel de Harry, um cara fraco demais para remar contra a maré.

Já Jennifer Connelly é atriz. Atriz mesmo. E uma das raras que não se deixa subjulgar pela sua beleza. Aliás, Jenny é famosa por criar climas de absoluta cumplicidade com seus parceiros de cena (que o digam os sortudos Billy Cudrup, Russell Crowe e Eric Bana). Aqui, o nível de sua atuação já era o esperado, ou seja, muito acima da média. Sua personagem, Marion, é o suporte de Harry. Os dois atingem tanta química juntos, que eu nem sei por quê eles ainda precisam se drogar. A cena em que Harry pede perdão à Marion, num momento derradeiro do filme, é de trincar a íris.

Marlon Wayans, distante das gags e das comédias fáceis (ê redundância), exibe uma insuspeita desenvoltura no papel de Tyrone. É patético, melancólico e caótico, mas ao lado de Harry, faz todo o sentido do mundo.


Mas o destaque mesmo fica por conta da veterana atriz Ellen Burstyn (O Exorcista). Claro, claro, a mulher é fera, sabe tudo, tinha de ser ela mesmo. Sua personagem, Sara (mãe de Harry), é a mais vitimizada do filme, e o link para assuntos tão ou mais espinhudos quanto drogas pesadas (massificação via TV, paranóia estética, anorexia, medicação indiscriminada, desamparo e solidão). Uma atuação memorável.

Fica a sensação de que, sem o aparato cinematográfico, os personagens, de tão tridimensionais e humanamente críveis, poderiam ser alguém que conhecemos na nossa vida real. E o grande mérito do filme foi ter dado à eles a possibilidade de continuar seguindo, mesmo que em sentido descendente. Réquiem é documento verdade. Não começa, nem termina, apenas continua. Que nem a vida.

Nota: esse filme é para poucos. A seqüência de acontecimentos finais é mostrada de forma muito gráfica e rápida, gerando um efeito psicologicamente denso e quase insuportável. Uma viagem ao inferno.


''Fear Factory - Demanufacture (1995)

Choque industrial-thrash carregado de futurismo fatalista à 1984 (George Orwell). Logo no início, uma introdução cibernética retirada do tema de Exterminador do Futuro já dá uma boa idéia do que está por vir.

Demanufacture é a trilha sonora de um futuro em chamas, desvastado pela guerra contra o sistema e as máquinas, onde individualismo deu lugar à códigos de barras. Esse álbum é, ao mesmo tempo, frio, minimalista, messiânico e absurdamente épico. Uma verdadeira bad trip com toques de pesadelo bio-mecânico.

Temas como clonagem, tecnologia, conspiração, manipulação das massas, desordem, sociopatia e fé (?), estão aqui, antecipando um caos urbano aterrador e, ao mesmo tempo, fascinante.

A performance instrumental da banda segue o mesmo conceito de precisão matemática e sangue frio. O guitarrista Dino Cazares (o Asesino, do grupo Brujeria) constrói bases efetivas, diretas e com quantidade zero de virtuosismo (praticamente não há solos) - atitude seguida pela linha baixo de Christian Olde Wolbers. Já os vocais de Burton C. Bell estão entre os melhores do rock atual. Balanceando entre a rasgação agressiva e um inacreditável (repito: inacreditável) alcance melódico, quase gregoriano, é daquele tipo em que você não consegue imaginar algo sequer comparável no gênero. Foi abençoado, com certeza. Mas o destaque final acaba vindo das batidas de Raymond Herrera. Nunca ouvi dois bumbos serem usados de maneira tão abusiva antes (nem depois). Parece uma metralhadora! Como está escrito no encarte, ele é o "gerador efetivo de pulsos maximizados". Tenho de concordar, seja lá o que isso quer dizer.

A abertura explosiva com a faixa-título, Self Bias Resistor, Replica, New Breed (não sei por quê, mas essa me lembra a onda de choque de uma explosão nuclear...!), Body Hammer, Flashpoint, HK (Hunter-Killer), Pisschrist, A Therapy for Pain... todas as músicas se complementam em uma seqüência incendiária. Embora seja muito difícil destacar uma faixa em especial, tenho a obrigação de dizer que Zero Signal é um arraso. Provavelmente, é a música de metal extremo mais perfeita da História. Demanufacture ainda traz ótimas covers: Dog Day Sunrise (Head of David) e Your Mistake (Agnostic Front).

Apesar do óbvio mérito da banda, muito de seu êxito artístico (e comercial, pois esse disco vendeu muito) foi absurdamente realçado pela excelente produção do veterano Colin Richardson e pelo trabalho do engenheiro de som Steve Harris (não o do Iron!). Com certeza, eles foram o quinto e o sexto componentes do grupo.

Disparado o melhor do Fear Factory e um dos melhores álbuns da década passada.

sexta-feira, 23 de julho de 2004

TEM UM ZUMBI NO MEU QUINTAL


Minha lista de filmes a se assistir urgentemente tem um novo 1º colocado: Shaun of the Dead. Essa produção inglesa, dirigida por Edgar Wright (escritor da série Spaced), foi lançado em abril no Reino Unido, e tem arrebentado no circuito independente. Por enquanto, só está circulando pelos festivais de cinema lá fora (como o Fantasia Film Festival, no Canadá) e sua estréia nos EUA está prevista pra 17 de setembro. Com o atraso costumeiro aqui do Brasil, só por um milagre ele chega este ano.


Shaun of the Dead faz um mix de terror e humor negro. Até aí, nada demais, se não fosse horror com zumbis (a prata da casa) e o corrosivo humor britânico (que eu entendo e aprecio, ao contrário dos Saturday Night Live’s da vida). Foi esse mesmo senso de humor carregado de cerol que deu o tom em filmaços como Cova Rasa e Jogos, Trapaças & Dois Canos Fumegantes, por exemplo.

Outra característica da produção é que ela coloca em perspectiva realista e cotidiana a aparição desses seres nada-usuais. Um exemplo é a reação dos personagens quando topam com um zumbi. A ficha demora horrores pra cair e o susto de ver uma criatura dessas "de verdade" é digno de uma video-cassetada, de tão realista.

SotD também traz várias citações e brincadeiras em cima da trilogia clássica de George A. Romero, e de outros mestres do gênero, como Mario Bava e Lucio Fulci. E também andam dizendo que é tudo muito sanguinolento. Muito. Eu quero ver. Agora, de preferência.


Shaun (Simon Pegg, também roteirista) e Ed (Nick Frost) , incrédulos diante da TV

A história é a seguinte: dois amigos, Shaun e Ed (bem feiões, o que é um ótimo sinal), tentam fazer uma média com as namoradas quando um apocalipse zumbístico se abate por toda a cidade. O mais interessante é que isso começa a rolar logo de manhã, e só (muito) mais tarde é que eles se dão conta que o bicho tá pegando (literalmente). Eles passam o dia cuidando das suas vidas, na maior rotina, e nem prestam atenção aos noticiários na TV, que relatam toda a barbárie. A cena em que eles esbarram com um morto-vivo no meio da sala é de rachar o bico.


Arsenal anti-zumbi

Uma seqüência que está sendo muito comentada é a que mostra os dois "heróis" improvisando uma arma contra os mortos-vivos. Eles só têm uma caixa cheia de velhos LPs e resolvem atirar as bolachonas na cabeça dos monstros (o tradicional ponto fraco deles). O problema é decidir quais discos... No trailer, pelo menos, quem se estrepou foi o Dire Straits...




E dá-lhe "Money for Nothing", "Sultans of Swing"...

O filme ainda conta com pontas de membros da banda Coldplay (o que elevou a moral – razoável – deles comigo). Falando em música, a seleção da trilha sonora está sendo muito elogiada também. Dizem por aí que é nível Trainspotting-Snatch-Pulp Fiction (uau). O pouco que ouvi no trailer me fez abrir um sorriso insano.

E não posso deixar de creditar essa dica esperta ao Chico, eventual comentarista no BZ e dono do blog que mais muda de nome na face da Terra - Blog do Chico. :P


"...e atenção para mais um Plantão Urgente: As cabeças!! Cortem as cabeças!!"


Sacanagem não terem maquiado o coroa...


Hmm... até que dando um trato nessa zumbi loirinha...


Putz... eu sempre quis fazer isso com alguém...


"Alô...? Ei...? Tudo bem com você...?"


"Aah... tudo bem comigo, não se preocupe..."


"...só estou com um pouco de fome..."

Shaun of the Dead ainda não tem estréia prevista para o Brasil. Pra falar a verdade, nem sei se um dia chega a estrear aqui, pois ele tem uma forte aura de filme cult e alternativo (ou seja, pouco comercial). Mas, como a distribuidora internacional do filme é a Universal, ainda há uma farpa de esperança. Particularmente, vou tentar baixar esse tijolo na web. Não tenho a mínima paciência pra esperar.

Trailer do filme
Site oficial

segunda-feira, 19 de julho de 2004

A GUERRA DAS MÁSCARAS


Faltou sangue. Devo ter adquirido uma certa imunidade à cenas de ultraviolência e carnificina em geral, após todos esses anos de cultura pop. Não é qualquer esguicho de sangue coagulado ou tripa dependurada que me satisfaz (putz, falando desse jeito parece até que eu sou um psicopata sanguinolento). Ainda mais em se tratando de um chá das seis com Jason Voorhees e Leatherface, dois chacineiros de mão cheia. Eu esperava, no mínimo, uma cachoeira de bile e carne putrefacta.


A coisa não funciona totalmente a contento (ao meu contento). Não sei se é por causa do traço limpo de Jeff Butler (contraste flagrante com as capas hardcore do ótimo Simon Bisley), das tintas ensolaradas de Steve Montano, ou da abordagem (o Dicró acabou com o prazer de se escrever "approach") "família-monstro" do roteiro de Nancy Collins. Pode ser culpa da minha mente doentia também, sempre querendo mais e mais caos e destruição. Mas aposto que tudo seria diferente se o grande Kevin O'Neill (Marshal Law, Era Metalzóica, A Liga Extraordinária, etc) estivesse envolvido. Carnificina pesada é com ele mesmo.


O mais engraçado é que está tudo lá: o circo de horrores da família canibal mais famosa do Texas, o rolo-compressor genocida do capiau de Crystal Lake, esqüartejamentos, vivisecções, antropofagia mórbida, demência e... fraternidade! Esse é o ponto alto da série, e talvez, seu objetivo principal (qualquer hora eu ligo pra roteirista pra confirmar). O órfão Jason encontra um lar quase ideal no casarão dos infernos da família Sawyer. É claro que saem algumas ótimas tiradas dali (também, em 3 edições...!).

Ao final, fica a impressão de uma bela diversão, mas não em sua totalidade (é como andar na montanha-russa só uma vez porque a grana acabou).

Scans by: sei lá, peguei no DC++
Tradução: G'Kar (é oficial? ficou ótimo!)

#01:
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#02:
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#03:
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EU ERA UM REBELDE PORQUE O MUNDO QUIS ASSIM


Cena heavy metal, década de 80. Slayer era o satânico, Metallica era o líder populista e Megadeth era o delinqüente juvenil. Por algum motivo que me foge à memória agora, a banda do Dave Mustaine era considerada a trilha sonora da rebeldia colegial, o píncaro da anarquia adolescente. Talvez seja pela absoluta falta de freio na vida loca do grupo (quartos de hotel dizimados, bacanais dantescos no backstage e drogas à rodo mermão!), ou talvez seja mesmo pela voz de moleque de 14 anos do Dave - que, sinceramente, às vezes soava mais assustadora que o Tom Araya cantando Hell Awaits.

Daí chegamos (ufa) ao universo de Evil Ernie, que é quase uma versão HQ do adolescente espinhento que ouvia o Mega naquela época - acrescido de superpoderes, claro. A motivação é uma vida marcada por abusos dos pais super-heróis e o objetivo é uma vingança desenfreada e sangrenta contra essa raça que usa cueca por cima da calça.


O tom de Evil Ernie é de total anarquia, estilo Lobo pós-Crise, embora sem a mesma eficiência. A narrativa é ultra-veloz, às vezes à beira do ininteligível, e isso se reflete nos desenhos também. Fica mesmo bem confuso em determinadas passagens, dando a impressão que os criadores estavam sendo sodomizados na hora em que trabalhavam.

Os desenhos de Justiniano são bem gráficos (=escatológicos), mas nada que se compare a um Doug Mahnke. Já o roteiro de Brian Pulido (criador do personagem) é um mix de inconseqüente-urgente-adolescente (só pra não perder o gancho), e nos faz pensar que idade ele teria. Não que isso seja uma característica ruim, afinal, espontaneidade anda em falta no mercado. Nota-se que ele leu bastante Ennis, Giffen, Mills e outras ferinhas da HQ virulenta. Ainda tem de aprender bastante (versões de heróis pré-existentes já foram exploradas Nx antes e muito melhor, como em Marshal Law), mas está no caminho certo (ele teve a manha de enfiar a gostosona da Lady Death na história). Daqui a alguns anos dá até pra ele encarar uma mini-série do Lobo.

Pra ler ao som de Killing Is My Business... And Business Is Good!, do Megadeth. A letra é a cara dessa HQ.

Scans by: Alguma boa alma fanboy norte-americana.

Traduzido por: Raziel (putz, esse cara tá em todas...!)
Letras por: Metric

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Lembrando que essas revistas foram devidamente "vitrinizadas" pelos coiotes do Newscans. A próxima cerveja que eu tomar, vou dedicar à essa rapaziada.