segunda-feira, 29 de novembro de 2004

ALÉM DO CIDADÃO LEE












Alvejado por uma de suas próprias flechas (disparada por dois junkies sem qualquer habilidade e em plena crise de abstinência), Oliver Queen, o Arqueiro Verde, se depara com um desafio muito pior do que os supervilões que estava acostumado a enfrentar: o tráfico de drogas. Dessa vez, o Mal não vinha dos confins do Universo ou de outra dimensão. O Mal agora era interior e contava com tantas nuances que tornava a sua resolução praticamente impossível. Para auxiliá-lo nessa verdadeira bad trip, o herói e amigo pessoal Hal Jordan, o Lanterna Verde, em sua concepção da Era de Prata - não por acaso, sua melhor fase.

E assim começava o arco O Pranto dos Pássaros Feridos/A Morte Cresce Dentro de Mim, publicada no Brasil nas edições #4 e #5 da saudosa Superamigos, e uma das melhores e mais atemporais histórias já concebidas nos quadrinhos. Um clássico da abençoada dupla Dennis O'Neil/Neal Adams. Quando eu classifico essa fase de "atemporal" não é à toa. Longe do maniqueísmo e escapismo tradicionais, o roteiro corajoso de O'Neil colocava os heróis enfrentando não vilões, mas pessoas reais, com todos os erros e acertos comuns a qualquer um.

Inteligentemente, os heróis também "sofriam" com os efeitos da realidade e, não raro, demonstravam falhas de caráter e cometiam erros de julgamento. Isso sem falar da temática barra-pesada, muito à frente de seu tempo e sem o glamour familiar das HQs. Já a arte clássica de Adams, além de ser um colírio visual, exibia uma técnica estilosa, bem-acabada e muito acima da média, mesmo para os dias de hoje. Aliás, principalmente para os dias de hoje, infectados por poses sexistas e músculos inexistentes na anatomia humana.

Tudo isso em uma história publicada originalmente em 1971 (!).


Às vezes eu fico com um pouco de receio de ser tachado de saudosista, mas relendo histórias antigas e com esse nível de qualidade, é impossível ficar impassível (putz). A perfeição mora nos detalhes, e até o formato de quadrinhização foi utilizado por Adams como uma ferramenta. Esse trecho, por exemplo, fala por si só. Para ilustrar a dor do Arqueiro ao levar um soco no braço machucado, ele driblou a falta de espaço com uma classe impecável. Conseguiu passar o sentimento surpresa-reação-dor-impotência em apenas um quadrinho fragmentado em sentido descendente. Perfeito.

Isso pode parecer simples (e até é - as melhores idéias não são as mais simples?), mas se fosse nos dias de hoje, qualquer Liefeld ou Bagley da vida transformaria esse mero quadrinho numa página dupla central e ainda assim não conseguiria transmitir a mensagem.


Outra sacada de mestre e característica principal da fase O'Neil/Adams. Mesmo habituados a enfrentar ameaças de porte incomensurável, ao lado da Liga da Justiça ou em suas aventuras solo, tanto o Lanterna como o Arqueiro encontravam as maiores dificuldades ao lidar com o "real". Seus dons acabavam sendo anulados pelo fato de que não há somente o bom e o mau. Na prática não é tão simples, e o uso dos poderes e habilidades ficavam extremamente restritos, pois não havia um "alvo" pré-definido.

Esse momento é bastante ilustrativo. Após a ajuda voluntária de um viciado "que não agüentava mais o seu vício", eles acabam sendo traídos pelo mesmo, que não suportou sequer olhar para o seu traficante sem querer se drogar novamente. Com apenas um golpe, ele pôs abaixo o Lanterna Verde, um dos maiores pesos-pesados das HQs. Irônico e trágico ao mesmo tempo. E genial também.




Até então, Ricardito era só mais um ajudante de Papai Noe... ops, de super-herói. Ele era um sub-Dick/Bucky travado, situação que piorava pelo fato de que o próprio Arqueiro (seu "patrão") sempre foi relegado à condição de coadjuvante. Mas nas idéias e mãos hábeis de O'Neil/Adams, Ricardito adquiriu mais dimensão que muito super-herói de destaque por aí. De bom moço aspirante a herói teen, ele se tornou um... drogadito (putz²) - talvez o primeiro personagem de HQ a passar por uma barra dessa. E bem debaixo da barbicha do Arqueiro, o que lhe rendeu um dos acessos de fúria mais singulares dos quadrinhos. Essa cena é clássica, sem dúvida uma das mais marcantes da história da nona arte.

Drogadi... digo, Ricardito, recebeu de O'Neil um senhor precedente para grandes histórias no futuro. Pense em Tony Stark, o Homem de Ferro, e seu onipresente fantasma do alcoolismo. Com Ricardito seria parecido, mas muito mais intenso, devido à ilegalidade do objeto de seu vício. Infelizmente, num belo equívoco editorial, o personagem ficou abandonado após essa fase, limitado a fazer pontas (sem trocadilhos!) nas entressafras das aventuras principais dos Novos Titãs.

Em novembro de 2000, a DC resgatou essa fase memorável de O'Neil/Adams à frente da revista Green Lantern/Green Arrow, através da série DC Archive Editions. The Green Lantern/Green Arrow Collection, trazia toda essa fase num encadernado de capa dura e 368 páginas. Seria um belo presente de Natal, não fosse o preço sanguinolento: US$ 75,00 (!).

Mais recentemente (setembro último), a editora Opera Graphica resolveu entrar na brincadeira e lançou Lanterna Verde e Arqueiro Verde: Sem Destino, um álbum que contém duas histórias dessa fase: ...E Uma Criança Irá Destruí-lo e Um Mundo Feito de Plástico, ambas inéditas por aqui (essa Abril Jovem...). Agora, as más notícias: o álbum traz apenas 64 páginas à 'módicos' R$ 19,90.

Tudo bem que as histórias primavam pelo "realismo", mas isso não precisava chegar até o preço...

Link:
Excelente matéria sobre a fase O'Neil/Adams, escrita por Rafael Lima, no Sobrecarga



ANIME-SE!


Não sou tão entusiasta assim de animês, com exceção dos tour-de-force habituais do gênero (tipo Akira, Ghost In The Shell, Cowboy Be-Bop, Metropolis, etc.). Mas o estilo sempre me agradou - e muito - pela dinâmica e fluidez. Além do quê, o anime é uma clara representação da cultura japonesa moderna, repleta de inovação e tecnologia, e que, ao mesmo tempo, reverencia sua cultura milenar. É, talvez, o choque "velho/novo" mais harmonioso de toda a cultura pop contemporânea, com a grande vantagem de trazer um raro conhecimento de causa - coisa que o filme A Viagem de Chihiro realizou com maestria ímpar. Pra falar a verdade, até que eu saco um pouco de animês, sim...

E Quentin Tarantino também, ao inserir aquela antológica seqüência animada em Kill Bill. O mérito pela grande idéia é todo dele, já o mérito pela eficiência técnica vai pra Production IG, a empresa responsável pela inspirada animação. Para quem (como eu) ficou querendo mais daquele anime session surrealista, o Linkin Park (banda que eu rotulo de playstation rock) resolveu embarcar na onda e contratou a Production IG pra dar um "trato" no clip da música Breaking The Habbit, do álbum Meteora.

Claro que ali foi mais timing e oportunismo barato do que genialidade propriamente dita. Mas que ficou bom pra cacete, ficou (tem até um construto igualzinho ao do filme Contato, com a Jodie Foster).








A propósito, eu não assisto à MTV... mas imagino que você já deve ter assistido esse clip no mínimo umas 4.000 vezes. Eu baixei dia desses e só vejo de vez em quando. :P


QUE METEORO DE PÉGASUS QUE NADA...!


Porradaria de primeira mesmo rolava em Street Fighter 2 Victory, exibido no Brasil em 1995, pelo SBT. Num estranho (e feliz) acaso, a série estreou por aqui apenas seis meses após sua estréia no Japão. E depois de uma tenebrosa série animada americana (Street Fighter versão G.I.Joe?!), SF2V funcionou como uma espécie de catarse sensorial, devolvendo aos personagens toda aquela emoção e fúria em frente aos fliperamas, com direito a "geral" lotada. Eu já até comentei sobre isso por aqui uma vez, mas depois de reassistir à essa pérola... preciso dar vazão ao entusiasmo, e é aí que entra você, caro leitor. :)

SF2V conseguiu a proeza de criar um background, se não verossímil, ao menos aceitável, para os personagens. Na verdade, sempre houve um senso comum do que eles poderiam ser, e isso já era perceptível mesmo na velha plataforma 2D. Eu, por exemplo, nunca imaginei a Chun Li como uma vilã, ou o carniceiro Vega como um mocinho. A índole dos personagens já era subentendida, e pra saber a origem de cada um, bastava zerar o jogo (o que eu nunca consegui fazer com o desengonçado Dhalsim).

Em 29 episódios, a série era centrada em Ryu Hoshi e no playboy Ken Masters, amigos de infância e exímios lutadores. Eles se reencontram após vários anos e Ken banca uma turnê mundo afora, em busca dos maiores lutadores do planeta. E é isso...! A premissa era básica ao extremo (como de se esperar!), mas executada tão bem, de forma tão empolgante e competente, que era impossível não se emocionar. Sem o crivo da M.P.A.A. e das zilhões de siglas de órgãos de censura norte-americanos, a Capcom (dona dos direitos do game) largou a equipe japonesa à vontade. E a pancadaria comeu solta.

Pra alegria dos fãs, SF2V era violento com força! Espirros de sangue, lacerações e ossos fraturados eram lugar-comum na série. Dificilmente seqüências gráficas como a luta entre Ken e Vega passariam pelo crivo da censura norte-americana. Os combates era muito bem tramados e "coreografados", sempre ao som de muito rock pesado e tecno. A trilha sonora de abertura, aliás, é um primor à parte, lembrando um mix do tema de Exterminador do Futuro com a pegada épica de Jerry Goldsmith (tá, exagerei um pouquinho).

Outro detalhe interessante - e relacionado à cultura japonesa - é a maneira como o sexo comparece em SF2V. A sexualidade ali é mostrada de uma forma mais natural, libertadora e até inocente (da maneira como eles o enxergam), não libidinosa e contraventora (como nós o enxergamos e na maioria dos casos, queremos). Mas calma, não existem hentais nos desenhos não. Eu me refiro apenas ao subcontexto que veio camuflado, como na cena de topless da sexy Cammy e em seu uniforme pra lá de sumário, e, principalmente, no embate/dominação entre Bison e Chun Li, onde seu vestido é reduzido a pedacinhos bem estratégicos.

Os episódios de Street Fighter 2 Victory são uma beleza de se assistir, altamente empolgantes. Pena que foi tudo muito breve. Para os incautos, recomendo uma generosa sessão de downloads no KaZaA. Todos os episódios estão lá, o que me faz agradecer à Hórus pela existência dos P2P.

Seguem uns shots, pra matar a saudade.


Ken e Ryu, treinando ainda moleques...


...e mais tarde, já adultos e batendo muito mais forte


Vega... traiçoeiro, impiedoso, ultra-violento...


...e retalhando Ken de fora a fora


O temível Bison e o misterioso artefato que lhe confere o Psycho Power


O combate final... o esperado momento do ajuste de contas...


Bison, esbanjando energia negra...


...e esfregando o chão com a cara do Ken!


Ryu, invocando o Hadouken...


...a energia primordial...


...e Bison, esperando seu primeiro desafio digno em muito tempo!

Foda, foda, foda! Já quero até assistir de novo. E como diria o slogan/grito de guerra do desenho...

"Nós vamos ao encontro do mais forte!"



dogg, que queria ganhar Lanterna Verde e Arqueiro Verde: Sem Destino de Natal, mais o DVD-Box de SF2V (um pacote natalino, na verdade!), ao som de Tornado of Souls, do CD ao vivo do Megadeth.

quinta-feira, 25 de novembro de 2004

Antes de dissecar o novo do Helmet, uma citação à um post que li no .:Weapon X:., do compadre .:Logan:. (fala, sumido!). Particularmente, não faço uso do copy/paste, mas essa merece. Ladies and gentlemen... mr. Eddie Vedder:

"Li um artigo de um músico que respeito, o Alice Cooper, em que ele fala que os músicos realmente precisam se manter à parte das discussões políticas. Segundo ele, isto é uma idiotice. Quando ele era criança e seus pais começavam a falar de política, ele corria para o quarto e colocava Rolling Stones no volume mais alto que podia. Eu concordo com o Alice. Não creio que algum de nós quisesse estar fazendo isso tudo... Mas o meu problema é que o volume do meu som não aumenta o suficiente para abafar o som das bombas que caem no Oriente Médio!"

Cara... depois dessa, Eddie é meu bróder.

O TAMANHO DO BARULHO


Page Hamilton, estourando tímpanos ao vivo

Quando apareceu em 1992, com o estouradaço Meantime, o Helmet foi chamado de muita coisa: "reinventores do rock", "o próximo Nirvana", "a banda mais pesada do mundo", "o futuro do death metal", etc. Claro, boa parte disso é viagem de publicitário doido pra faturar algum em cima do hype, mas alguma coisa é verdade, mesmo que relativa.

Com um inovador mix de metal, jazz, noise, experimentalismo e vocais que passeavam da leveza melódica ao urro tipicamente hardcore, o grupo nova-iorquino foi o primeiro de uma geração inteira de bandas de rock. Tudo o que se ouve por aí hoje passa pelo que o Helmet já fez antes. O grunge, o stoner e até o decadente nu-metal. As características mais evidentes eram os riffs estilo "pára-e-começa" (no qual o também new yorker Prong foi precursor), o andamento quebradão das músicas, fraseados jazzísticos e afinação baixa.

Mal comparando, era como se o Black Sabbath fase Ozzy Osbourne tivesse surgido na década de 90. A banda tinha um talento nato para esculpir músicas certeiras, movidas a riffs minimalistas e matadores. São dessa época pauladas como Sinatra, Ironhead, a maravilhosa Give It, o clássico noventista Unsung, a memorável Just Another Victim (parceria com os rappers do House of Pain), Wilma's Rainbow, Milquetoast, Birth Defect... a lista de sonzeiras marcantes não tem fim - mesmo que a crítica dita "especializada" não tenha a mesma opinião.

Após uma reclusão de 7 longos anos, a banda retorna com o aguardado Size Matters (Interscope/2004). Aliás, "banda" em termos, visto que o único remanescente original é o guitarrista e vocalista Page Hamilton. Egresso da cena experimental underground nova-iorquina (já tocou na Band of Susans e na orquestra de guitarras de Glenn Branca), Hamilton sempre exibiu virtuosismo por baixo das toneladas de distorção. Ele, declaradamente, é a mente e o coração do Helmet, contrariando os saudosistas da excelente formação original. Além de Hamilton, seguem o guitarrista Chris Taynor (do Bush, lembra dele?), o baterista John Tempesta (Testament, Rob Zombie e Exodus, um arroz-de-festa metálico) e o baixista Frank Bello (aquele mesmo do Anthrax).

Agora o disco. Size Matters tem um mundo nas costas pra carregar, e o cumpre em boa parte. Mesmo longe de ser o melhor do Helmet (título que pertence ao Betty, de 94), SM é imensamente superior aos paddawans do rock atual. Estão lá o peso irreprimível, a intensidade e o ritmo psicopático que nos acostumamos a esperar da banda. Sinal que Hamilton realmente era o testa-de-ferro. Colecionando pencas de críticas ruins por aí, o álbum só surpreende pela mudança da entonação vocal. Os vocais de Hamilton não trazem mais aquela calma aterradora atrás de uma parede de guitarras saturadas, o que é uma pena. Ele está bem mais melódico, tentando acertar o tal "refrão definitivo" - coisa que ele fazia sem nem ao menos tentar.

Daí saem momentos apenas razoáveis, como See You Dead, Drug Lord, Enemies e Surgery. São boas canções, mas muito aquém do padrão estabelecido pela banda. Por outro lado, a velha energia do Helmet transborda nas outras faixas: a excelente abertura, com Smart (uma pedrada!), Crashing Foreign Cars, Unwound (essa sim, um belo exercício de harmonia), a revoltada Everybody Loves You, a desalinhada Speak and Spell, a cadenciada Throwing Punches e o fechamento chutadão com Last Breath (minha preferida).

Um bom disco, mas que fica bonzão, se você levar em conta que é o primeiro deles após quase 10 anos. "Ô dogg, dá a nota logo aê pô." Ok: 8/10.

Site oficial

Curiosidades (BZ também tem seção "Contigo" agora!): Page Hamilton namora com Winona Ryder, tradicional maria-cabelo (apesar dele ser careca) e eterna pé-frio de ex-rockeiros consagrados; A banda Soulfly (do Max Cavalera) gravou um cover para In The Meantime, e o Deftones regravou Sinatra; Al Jourgensen, líder do Ministry, já fez um remix para o hino Unsung; O Helmet já fez uma versão para o tema do clássico desenho Gigantor, que saiu no álbum Saturday Morning, só com bandas coverizando temas de desenhos animados.

Bandas contemporâneas relacionadas em sonoridade: Prong, Therapy?, Ministry e Sepultura fase Chaos AD.

Discografia: Strap it On (1990), Meantime (1992), Betty (1994), Born Annoying (1995, coletânea de lados B), Aftertaste (1996), Size Matters (2004).



COM MUITO ORGULHO, COM MUITO AMOR


Pô, nem sei como comunicar isso sem ficar parecendo uma auto-promoção descarada. Mas vou me auto-promover descaradamente assim mesmo: texto escrito por este que vos escreve, no portal dos Melhores do Mundo. Lá eu explico porque o Clark nunca fez um ménage-à-trois com Lois e Lana. É só clicar nessa simpática caveirinha logo abaixo.


Ps.: Essa caveira não tem absolutamente nada a ver com o texto, mas como eu sempre quis publicá-la aqui... Pretexto bem chinfrim, eu sei. :P

segunda-feira, 22 de novembro de 2004

TÃO LONGE E SEMPRE


Existem três maneiras de você viajar para o exterior. A primeira é 5 estrelas, expensive, idílica, como no filme Encontros e Desencontros. A segunda é bem do-it-yourself e mochileira, mas dá pra ir a pé e você ainda exercita o seu espírito aventureiro, como em Antes do Amanhecer. A terceira, mais desumana e muito mais freqüente, qualquer cristão nascido em Governador Valadares já conhece de cor, à duras penas.

Coisas Belas e Sujas (Dirty Pretty Things/2002) fecha com maestria o tema "um estranho numa terra estranha", e ainda estabelece uma ligação quase íntima com esses dois filmes: a solidão, onipresente e sempre angustiante. E ela está lá, em maior ou menor grau. Mas pra quem joga todas as suas fichas para se submeter à humilhações, condições de vida sub-humanas e um regime de trabalho semi-escravagista, essa é a menor das preocupações. Pode parecer cruel (e é), mas essas pessoas aprendem a conviver com a dor. Eu não estaria expondo isso se fosse um fenômeno raro. Tratam-se de milhões de pessoas nessa situação (para mim, apenas uma já bastaria). Tratados sem dignidade, por fazer um serviço que ninguém daquele país quer fazer. Por algum motivo obscuro, uma viagem à Disneyworld ocupa mais espaço nos charts do que esse lado negro do trânsito internacional. Bem vindos ao século 21, onde tudo é lindo e maravilhoso.


Coisas Belas e Sujas é uma odisséia. Seguimos a trajetória de Okwe (Chiwetel Ejiofor, de Amistad), um nigeriano refugiado em Londres, trabalhando par-time em dois empregos: taxista de dia e recepcionista de um hotel à noite. Ilegalmente, é claro. Sempre à sombra da Imigração (isso é um terror lá fora), ele divide um quarto com a imigrante turca Senay (Audrey Tautou, de... Audrey, vou te ajudar e não vou citar o filme). Mesmo investigada pela Imigração, ela se arrisca a trabalhar, pois precisa de dinheiro para sobreviver. E assim vão os nossos heróis, iguais aos milhões que citei... oprimidos, trabalhando duro, morando mal, comendo mal e dormindo muito mal.

Cotidiano barra-pesada instaurado, tudo ainda pode ser piorado. Numa checada de rotina nos quartos, Okwe encontra um coração humano dentro de um vaso sanitário. Discreto e bem-intencionado, ele recolhe o achado e leva ao conhecimento de seu chefe, Sneaky (Sergi López), que o "convence" a esquecer o fato - diretamente relacionado ao tráfico de órgãos. E aí está outro detalhe. De procedência latina, provavelmente espanhola, Sneaky personifica um dos maiores percalços de quem vai tentar a vida lá fora: os imigrantes legalizados. Sabendo das condições arriscadas de quem não tem o passaporte (ou o Green Card), ele - e outros - exploram ad nauseum os trabalhadores ilegais. Felizmente, a humanidade ainda não perdeu toda a sua... "humanidade". Pra cada Sneaky, existem o patologista Guo Yi (Benedict Wong), o porteiro Ivan (Zlatko Buric) e a prostituta Juliette (Sophie Okonedo). Anjos do caos, curiosamente de nacionalidades diferentes. Pura empatia?


Apesar da pouca atenção dada ao assunto, o diretor Stephen Frears (Ligações Perigosas, Código de Ataque, Alta Fidelidade... o cara é genial), tratou o tema com um profundo conhecimento de causa. Mesmo suspeito, ele não poupou a realidade crua das vielas e guetos do subúrbio de Londres de sua câmera atenta e semi-documental. Que me desculpem os iniciantes, mas um trabalho de veterano a gente vê de longe. A edição e o formato levemente descritivo é um show involuntário. Quem sabe, sabe.

Chiwetel, como o obstinado Okwe, está perfeito. Okwe é um personagem tão bem-resolvido que a gente sente falta dele quando o filme acaba. Um legítimo trabalho de ator não-hollywoodiano. Ator mesmo, daqueles que travam verdadeiros diálogos só com um olhar. Agora - admitindo o meu background filmeiro americano - sua atuação honrada me lembrou muito (em dimensão) o grande Laurence Fishburne de Os Donos da Rua. Audrey Tautou (a mesma de... grrrr, tô tentando, tô tentaaaando...) continua o seu programa de desvinculação, numa personagem sonhadora, corajosa e vítima de um sistema especialista em vitimar. Audrey é uma ótima atriz, com um potencial avassalador, mas quando ela vem com aquele sorrisinho e aquele olhar... Amélie Poulain puro. :)

Coisas Belas e Sujas é rápido (uma hora e meia), mas te persegue por bastante tempo depois que acaba. Principalmente se você já conhece do riscado e revê coisas que parecem absurdas, mas que são reais. E os personagens são tão carismáticos quanto um amigo de longa data.

Vá em paz Okwe, e vê se não perde o endereço que te deram.


Dedicado a ela... e a você, aonde quer que esteja.

terça-feira, 16 de novembro de 2004

OOH... FOI ELA...!*

Pô, se tu ainda não sabe do que se trata, merece levar um spoiler sem aviso.


Pois é... mordeu a língua quem falou que foi o Hank Pym. Só porque o velho Jaqueta é um dos personagens mais babacas dos quadrinhos. Mas não, não foi ele quem matou Odete Roithmann... A autora da derrocada dos Vingadores é a adorável Wanda, a.k.a. Feiticeira Escarlate.

Doce, meiga e carinhosa (ui), Wanda sempre teve aquela aura benevolente e incorruptível, ao contrário do caráter narcisista e arrogante de seu irmão, Pietro "Mercúrio" Maximoff. De todos os envolvidos, ela era a menos provável. Até mesmo Janet Pym, a Vespa, tem mais jeito de traidora. No quesito "surpresa", tenho de admitir: Avengers Disassembled bombou. Ponto (mais um) para Brian Michael Bendis. Ponto não, cesta de três (mais uma).

Mas sabe quem a enlouquecida Wanda e suas motivações me lembraram?




Grace Stewart, personagem interpretada por uma Nicole Kidman igualzinha a Grace Kelly e protagonista do ótimo Os Outros (The Others, 2001), do diretor Alejandro Amenábar (o mesmo do ótimo Abre los Ojos, de 1997, no qual foi baseado o filme Vanilla Sky, protagonizado por Tom Cruise, ex-marido de... Nicole Kidman - putz!).

E como spoiler pouco é bobagem...

Em Os Outros, a Sra. Stewart é uma mãe ultra-zelosa no que diz respeito à segurança de seus dois pimpolhos, que sofrem de uma fotofobia aguda ou algo parecido. Mas a similaridade com Wanda só vem mesmo no finalzinho do filme e no finalzinho de Disassembled, quando a cortina de mistério finalmente é levantada. O confronto com a realidade e a dura condição de saber que vivenciam uma intensa ilusão as aproximam quase como se fossem a mesma peça adaptada em diferentes mídias. Porém, ao contrário de Grace (que aceitou a sina negra que lhe foi imposta), não sabemos o que será de Wanda.

Só o que eu queria saber é o seguinte... Bendis foi genial ou apenas escolheu um grande subterfúgio pré-existente? Seja como for, ele já merece o crédito por ter ousado trilhar por esse caminho, pouco usual na infinidade de roteiros meia-boca que assolam as HQs.


MUITO ANTES DE DISASSEMBLED...


Uma coisa que eu sempre achei estranha é o espanto causado pela nova line-up dos Vingadores, em especial no que diz respeito ao Homem-Aranha. O aracnídeo sempre namorou a possibilidade de um curso profissionalizante dentro da equipe. Fora que aquilo ali seria uma espécie de Super Big Brother pra ele, com holofotes em cima, status de celebridade, mulheres maravilhosas (pô... Warbird, Flama, Mantis, Mulher-Hulk...), e por último e o mais importante: grana, xará.

Por alguma razão que apenas Stan Lee sabe explicar, Peter Parker tem um saldo bancário muito parecido com o meu. Um cara que poderia tirar vantagem de suas habilidades físicas, ou mesmo de um intelecto capaz de inventar aquelas teias revolucionárias, dificilmente penaria pra pagar as contas no fim do mês. Mas não é isso o que acontece, e com essas novas características pintando na vida dele, com certeza sua baleada cronologia ganhará um novo fôlego. Afinal, acho que ninguém em sã consciência está a fim de vê-lo enfrentando o Duende Verde "pela última vez" de novo, ou muito menos ter de agüentar outro roteirista caindo de pára-quedas e escrevendo histórias sobre clones com crise de identidade (Deus nos livre e guarde).


Muita gente anda falando que New Avengers será uma tentativa de levantar as vendas em cima de um produto similar à Liga da Justiça, da Detective Comics. Concordo, mas não pelos mesmos motivos. Claro que a quantidade de personalidades (Logan, Parker, Rogers, Stark) está bem over, mas com toda a razão de ser. Assim como a Liga é o grupo-emblema da DC, os Vingadores também o são para a Marvel. Nada mais justo. Fora que o Aranha sempre se saiu muito bem em crossovers. Sua teimosia e irreverência em relação aos seus companheiros de luta rendem momentos impagáveis - e o que é melhor, com todo tipo de roteirista.

E outra, ele é disparado o herói que mais auxiliou os Vingadores em sua longa carreira. Bem distante de um Hulk, por exemplo, que só participou do grupo em sua fundação, saiu, e depois tentou esmagá-los - mais de uma vez. :P

Num desses mixes de "aranha vingativa", acabou saindo uma história bem divertida, apesar de bobinha. Em Avengers #236 (out/1983), o Aranha estava tão desesperado pra tirar o pé do atoleiro, que simplesmente invade a mansão dos Vingadores. O nome da história é sintomático: "Eu Quero Ser um Vingador!", escrita pelo sumido Roger Stern e publicada pela Abril na revista Homem-Aranha #66 (ué?). A história é boba mesmo (os "vilões" são os homens-lava, e no final sabemos que tudo foi um mal-entendido), mas tem os tais momentos impagáveis que eu me referi.

Saca só as seis primeiras páginas e a "entrada triunfal" do aracnídeo. Ah, é pra clicar em cima, tá... :)



dogg, querendo mesmo ver o Parker ganhando bem, ao som de MC... 5. Banda clássica de rock-garagem, autora da imortal "Kick Out the Jams"...! Ufa!