quarta-feira, 30 de março de 2005

AS TOCAS DO CARCAJU

Os points onde Wolverine anda bombando


MARVEL KNIGHTS WOLVERINE - ENEMY OF THE STATE


"(...) se fosse feito no cinema custaria 300 milhões de dólares". Palavras de Mark Millar. E se fosse filme mesmo, valeria o ingresso: Wolverine pinta o diabo no acachapante arco Enemy Of The State! Finalmente, após anos de desperdício e hiper-exposição mal conduzida, conseguiram revitalizar a baleada imagem do baixinho canadense. Logan voltou a ser aquele assassino frio, violento e impiedoso, como nos velhos tempos - e bota velho nisso... desde as antológicas Arma X e Fusão pra ser exato (muito bem lembrado pelo Luwig-X).

Há tempos sendo empurrado com uma hesitação frustrante, o personagem precisava urgentemente de uma reciclagem conceitual. Ou melhor, de um resgate conceitual, pois não havia nada de errado com ele, e sim com seus escritores (seguindo a máxima do Alan Moore). Era um trabalhinho sob medida pra um Garth Ennis ou uma Ann Nocenti da vida. Mas os deuses foram generosos e nos enviaram Mark Millar e o grande John Romita Jr...


Enemy Of The State estreou na edição #20 da revista Wolverine e foi até a #25. A história segue velhos padrões do tema ação/espionagem, só que é tudo tão bem sacado e reaproveitado que chega a ser emocionante (snif). Começa com Wolvie indo ajudar um velho amigo, mas acaba sendo capturado em uma operação conjunta do Tentáculo com a Hydra. Meses depois, abandonado em estado moribundo, ele é localizado e acolhido pela SHIELD. O que eles não sabem é que Logan sofreu uma lavagem cerebral séria e vai "fazer o que sabe melhor" em larga escala. Wolvie mata muita gente, vai atrás de outros super-heróis e se torna o terrorista mais temido dos EUA.

O mais legal é que o mutante exibe aqui aquela mesma "competência" (para muitos, "onipotência") que leva os leitores à loucura, mas a diferença é que todas as suas façanhas são niveladas por uma estratégia crível e funcional. Wolvie não ganha todas as lutas aqui, só as que importam. E mesmo essa margem de derrota já havia sido previamente calculada por ele. O resultado é ótimo, sempre com um clima tenso antes de cada pancadaria. Mal comparando, ele lembra um Jason Bourne com garras e esqueleto de adamantium.


Mas a cereja acaba sendo os super-encontrões. Wolvie não enfrenta o Universo Marvel inteiro, como foi exagerado por aí, mas seus pegas com Elektra, Quarteto Fantástico, Demolidor e os X-Men são altamente empolgantes. Certas cenas parecem saídas de um filme de suspense - o clima que precede a luta contra Elektra e a invasão do Edifício Baxter - ou de um filme de Tarantino ainda com os sabres de Kill Bill branindo na cabeça - o ataque dos ninjas no cemitério e na eletrizante seqüência no apê de Matt Murdock.

Outra coisa... não seria tão bom se os vilões fossem caricatos ou apenas medianos. Mark Millar deu uma nova cara à Hydra, que deixou de ser aquele amontoado de stunts vestidos de verde, e virou um tecno-culto satânico e assustador. Elsbeth von Strucker é uma vilã adoravelmente cruel e seus cortes no Barão Strucker são sarcásticos e geniais. Mas o vilão Gorgon é foda ao extremo. Mutante e um mestre nas artes marciais (lutador de primeiríssimo nível... leia e fique pasmo com a moral do cara), ele tem o poder de petrificar as pessoas apenas com o olhar.

Mark Millar e John Romita Jr trabalhando juntos em Wolverine... Imperdível. Mal posso esperar pela próxima edição.


X-MEN: AGE OF APOCALYPSE - 10th ANNIVERSARY


Como o nome já entrega, a continuação de A Era do Apocalypse é tão somente uma mini comemorativa dos dez anos da série. Mas será só isso? Sim e não. Obviamente que o vilão cavernoso do título não dá as caras (apesar de aparecer nos spots de divulgação), e aquele clima, hã, apocalíptico da série original não tem mais razão de ser. A questão básica é saber se essa nova incursão elseworld consegue se sustentar qualitativamente, tendo em vista a sua natureza caça-níqueis (oh yeah... não se engane, isso aqui é um caça-níqueis que deveria vir até com um selo de extorsão grampeado). Pode não ser uma HQ que vá fazer história, mas que tem a sua utilidade prática, isso tem.

A verdade é que a série original deixou uma porção mais um punhado de pontas soltas lá pra trás. Aquele final abrupto, ao melhor estilo "uma realidade chegando ao fim", foi muito omisso quanto ao destino da maioria dos personagens e de várias situações em andamento. E a continuação responde a todas as perguntas? Bem... estamos na quarta das seis edições programadas e até agora só uns 30% das questões pendentes foram esclarecidas. Então o lance é relaxar e curtir, afinal... isso é uma festa de aniversário.

A história (re)começa 1 ano depois da queda do tirânico Apocalypse. O planeta ainda está em reconstrução e células de mutantes renegados ainda aterrorizam o mundo livre. Para assegurar o bem da civilização, Magneto reforma os X-Men como um grupo de ação anti-terrorista, totalmente apoiado pelo governo dos Estados Unidos. A line-up principal é Vampira, Mercúrio, Solaris, Tempestade, Samurai de Prata, Gambit, Noturno, Rahne, X-23 e Wolverine, ex-recluso, maneta e cínico como sempre. O que se segue é uma caça às bruxas que acaba mexendo em velhas feridas e desavenças, com algumas surpresas no decorrer do processo. Algumas muito previsíveis e outras até inesperadas, eu diria.


Mesmo sem grandes vilões, como o psicopata Holocausto e o prelado Rasputin, a história vai se mantendo com combates ágeis, mas sem aquele ar de "perigo" que marcou a série original. Wolverine participa de forma cool e mantém a energia de sempre, mas a personagem mais bacana é a X-23, disparada. Não sei como ela se sai na cronologia normal (me parece que ela é nativa da animação X-Men: Evolution), mas aqui a garota funciona primorosamente bem. Faz aparições esporádicas, mas importantes, e protagonizou as melhores seqüências da história até agora. Achei a personagem muito promissora e, por conta disso, vou correr atrás da sua HQ solo que foi lançada recentemente.

O roteiro de Akira Yoshida faz o que pode numa série que não arrisca muito e só se compromete a aparar pontas soltas. Os diálogos são espertos, apesar de muito parecidos com os do X-Men Ultimate do Mark Millar. E um destaque meio esquisito vai para o Chris Bachalo. Ele ainda tem a mania de criar explosões visuais um tanto confusas, e de ficar a meio passo de 'cartoonizar' a fisionomia dos personagens. Aqui ele vai ainda mais fundo e quase abraça de vez o estilão mangá. Apesar disso não me agradar (pois soa menos natural pra ele do que pra um Adam Warren, p.ex.), pessoalmente ainda curto o seu trabalho. Devo ter me acostumado. Mas o capacete do Magneto continua horrível. Muito.

A propósito... ainda sobrou um grande vilão sim. O Sr. Sinistro está vivo e atuante, mas ainda não deu as caras. Mas pelo finalzinho da última edição, ele deve voltar com tudo e mais um pouco nos últimos capítulos.


E agora, antes de mais nada...


...talvez uma próxima coelhinha?



THE NEW AVENGERS


A revista The News Avengers chega a sua quarta edição ainda com um clima todo cuidadoso no ar. O grande Brian Michael Bendis não quer arriscar uma pisada no tomate e aos poucos vai concretizando um velho sonho dos sofridos marvetes: um supergrupo tão coeso e emblemático quanto a Liga da Justiça. Tudo bem, eu também gostava dos velhos Vingadores de Jim Shooter e dos recentes de Geoff Johns, mas o problema aí era a tralha narrativa que foi se acumulando com o passar dos anos (e com a troca de escritores). Sucessivas conspirações governamentais, burocracias administrativas e complicações de marketing (!!) deixaram o principal grupo da Marvel com cara de repartição pública. Nada a ver com a postura de "defensores da liberdade" que se espera de uma super-equipe. Lembro de quando eles enfrentaram os perigosos Exemplares sob a vaia do público (o mesmo público que eles foram proteger). Deprimente.

O ato inicial, que tomou as três primeiras edições, começou seis meses após os eventos estarrecedores de Disassembled. Max Dillon, o Electro, foi contratado para sabotar uma instalação de segurança máxima para super-vilões. Talvez meio "poderoso demais", Electro cumpre seu objetivo sem maiores problemas, e assim tem início uma violenta rebelião super-vilânica. Rapidamente um grupo de heróis en passant se forma para conter o motim: Mulher-Aranha, Matt Murdock, Luke Cage, Homem-Aranha, Capitão América, Homem de Ferro e o misterioso Sentinela, que se encontrava preso voluntariamente.


Mesmo com esses peso-pesados as coisas não saem às mil maravilhas: quarenta e dois presidiários super-poderosos conseguem escapar, o que é garantia de trabalho pesado por um bom tempo (e assim Bendis já tem o seu pretexto). Com isso tudo, o Capitão América acaba sentindo novamente o gosto de liderar uma equipe em situações-limite. Durante uma conversa com o Homem de Ferro ele propõe a criação de um novo time, dessa vez sem as amarras e a politicagem que assolava a antiga formação dos Vingadores. Um grupo independente, freelancer e auto-financiado (sem salários!), com o único objetivo de resolver problemões fora da alçada convencional. The Avengers Privatizated.

Logo em seguida, o Capitão sai atrás dos heróis que seguraram as ondas no presídio. Todos concordam, menos o Demolidor, que, apesar de balançado, ficou de pensar. Outro sondado foi o caladão Robert Reynolds, o Sentinela. Mas seu background ainda é extremamente nebuloso. Nada se sabe do que aconteceu com ele após a ótima mini Sentry - O Sentinela, apenas que ele é suspeito de matar a esposa e que é considerado por Reed Richards como o ser mais poderoso da Terra. Pela facilidade absurda com que ele destroçou o Carnificina no espaço... foi até engraçado quando o Aranha o confundiu com o Thor.


A próxima aquisição da nova equipe virá nas próximas edições. Investigando os acontecimentos da super-prisão, os novos Vingadores vão até a Terra Selvagem atrás de um suspeito. Lá eles se encontram ninguém menos que - adivinha - Wolverine, aparentemente com um mal-humor de tiranossauro. O problema é que o tal suspeito (e foda-se o SPOILER) é o Sauron, aquele homem-pterodáctilo que controla mentes e que já deu muito trabalho para os X-Men. E pela recepção nada afável do mutante canadense - ainda mais com a gracinha da Jessica Drew! - eu diria que ele está totalmente fora de controle. Uma constante...

The New Avengers segue com passos calculados, ótimos diálogos (os do Aranha já começaram a pegar no tranco), situações de rotina inusitada para os personagens, e um inequívoco ar de liberdade criativa - durante a violenta rebelião no presídio, o Aranha é espancado e tem o braço quebrado, e o nigga Luke Cage quase mata um dos vilões.

Apesar dos traços de David Finch pertencerem a "escola Jim Lee de inexpressão", eles são inegavelmente grandiloqüentes nas horas certas e privilegiam ângulos de tirar o fôlego. Seu estilo é bem "cinematográfico" por assim dizer, e aqui isso é muito bem-vindo.

Sem contar que ele sabe desenhar mulheres muito, muito bem... pô, ele é o mesmo cara que desenhou a HQ da Aphrodite IX, for God sake! :)


dogg, tomando café e ouvindo a lindona The Pass, do Rush - por sinal, uma banda canadense... Canadá rulz! :P

sexta-feira, 25 de março de 2005

Feliz Páscoa pra todo mundo! Hoje é dia de caçar coelhos com uma metralhadora! Mas antes, alguns comentários... coisa básica. Discos e algumas correções.

Let's get it on...


AFGHAN WHIGS - GENTLEMEN
(Elektra/1993)


Uma verdade sobre o Afghan Whigs é que o grupo sempre foi bom demais pra fazer sucesso. Apesar de ter pertencido ao cast da mesma Sub Pop que canalisou o grunge de Seattle, ela fez parte de um seleto time de bandas que foram sufocadas por hits que dominaram o cenário do rock americano nos anos 90. Coisinhas como Alive, Man In The Box, Hunger Strike e, principalmente, Smells Like Teen Spirit. Mas, ao contrário da conotação pop que o termo "rock alternativo" tem hoje, o Afghan Whigs nunca deixou os corações e mentes daqueles que buscaram algo mais do que aquilo que rolava nas paradas de sucesso. Essa busca podia ser até árdua, mas, no final, era verdadeiramente compensadora.

Liderada pelo compositor e vocalista Greg Dulli, a banda evoluiu de um barulhento pós-punk de garagem para uma sonoridade mais sofisticada, melódica, plasticamente mais bem trabalhada e fluída, e, num lampejo de genialidade underground, repleta de influências de soul e rhythm'n'blues (chegaram a regravar uma música do Barry White). Isso tudo sem deixar de lado a inevitável herança oitentista no wave e letras que são um verdadeiro soco no estômago existencial, no pior sentido dor-de-cotovelo possível. Desilusões amorosas fudidas, finais de relacionamento nada agradáveis e pura auto-comiseração são destilados nas letras ácidas e no senso de humor predatório de Dulli, que ainda é dono de uma entrega quase suicida nos vocais. O Afghan Whigs é uma das bandas mais passionais do rock e Gentleman foi o momento em que eles mais se enxergaram nessa condição. Um disco perfeito até na capa... belíssima.

Ps.: Reza a lenda que os integrantes da banda se conheceram nos idos de 86, durante uma estada em comum num presídio em Cincinnati, sua terra natal. Belo background...


FIREBIRD - DELUXE
(Music For Nations/2001)


Bill Steer é um sujeito rodado. Egresso de formações extremas como o Napalm Death e o podrão Carcass, ele ensaiou um retorno à cena de forma inusitada, à frente de pérolas stoner rock como Badlands e The Cry Of Love. Dessa forma, o excelente Firebird acabou sendo uma espécie de cream of the cream de tudo o que Steer andou aprendendo (e tocando) nos últimos anos. Em um retorno às raízes on the road do rock, a banda pode ser simplesmente classificada de stoner, mas aí seria uma injustiça cruel. Stoner é Nebula, Orange Goblin, Fu Manchu e outras (boas) bandas que não conseguem dar nem um passo pra fora da sombra do Black Sabbath. O Firebird estabelece uma relação mais próxima dos power trios dos anos 60 e 70, com riffs ganchudos e freqüentes, e aquelas passagens intensas entremeadas com momentos mais suaves e bluesy. As referências imediatas são grupos clássicos como Cream, Mountain, Blue Cheer, Rush fase John Rutsey e até o Jimi Hendrix Experience. Firebird é uma excursão lisérgica na pré-história do hard rock. A viagem é, no mínimo, fascinante.

A formação da banda nesse disco é toda ex-metálica - além de Steer nos vocais e na guitarra, completam o time Ludwig Witt (bateria e percussão, ex-Spiritual Beggars) e Leo Smee (baixo e órgão, ex-Cathedral). Aliás, a técnica old school de Bill Steer (cujo belo vocal me lembra o de Eric Clapton nos áureos tempos do Cream) tem sido muito elogiada. E realmente ele arrebenta nas seis cordas - vide pedradas como Dirt Trap, Forsaken, Sinner Takes All e Sad Man's Quarter. Destaque também para a belíssima Miles From Nowhere, com uma atmosfera idílica parecida com a do clássico Thank You, do Led Zeppelin, e para a última faixa, o boogie-woogie Slow Blues, que de "slow" não tem nada e traz a harmônica mais alucinada que ouço desde os primeiros discos do Blues Traveler.

A faixa para download não consta no disco. Trata-se de um cover pesadão para Working Man, do Rush, que só saiu em um single lançado no mercado japonês.


CIRCUS OF POWER - MAGIC & MADNESS
(Columbia/1993)


A boa impressão já começa pela bela arte da capa, feita pela fera Tate Mosesian. E o Circus Of Power não desaponta, mandando ver um rockão estradeiro de respeito. Algo assim, entre o drunk'n'roll do AC/DC fase Bon Scott e blues rock cheio de slide guitar. Infelizmente, suas bases hard rock acabaram colocando a banda no gueto heavy do final dos anos 80, justamente quando o estilo dava seus últimos suspiros no mainstream. Sem o tino comercial de bandas como G'NR, Bon Jovi e Skid Row, o COP acabou morrendo na praia noventista, embora fosse milhões de vezes mais interessante que todos aqueles ícones poser. Magic & Madness é o seu terceiro álbum, e considerado por muitos como o seu melhor. Não faço a mínima idéia se é mesmo, pois nunca ouvi nenhum dos outros. :P

Às vezes, o COP lembra um The Cult sem frescuragem. Tanto é que o próprio Ian Astbury, vocal do Cult, faz uma participação na ótima Shine. Outro convidado especialíssimo é o grande guitarrista Jerry Cantrell, do Alice In Chains, que manda acordes e vocais na grudenta Heaven & Hell. Confira também as pesadonas Evil Woman, Poison Girl, a animada Dreams Tonight e, a melhor de todas, Mama Tequila, cujo refrão virou o meu grito de guerra nº1.

Ótimo álbum!


SLAYER - UNDISPUTED ATTITUDE
(American/1996)


Puta que o pariu! Me sinto com vontade de porrar o próprio capeta quando ouço esse álbum. Cansado de ver conterrâneos do thrash jogando seu passado pela privada e de testemunhar a ascensão de bobagens poppy punk, os reis da Zona Sul do Céu, Vsa. Megafodescência Slayer resolveu revisitar podreirinhas memoráveis do punk/hardcore. Ah, se todos os álbuns de covers fossem assim! É festa punk feita por profissionais da agressão desenfreada. Pra bater a cabeça até perder as orelhas. Os caras conseguiram amplificar ainda mais a porradaria dos clássicos do Verbal Abuse, D.R.I., GBH, Minor Threat e até do TSOL, quando esse era punk.

Para os fãs mais ortodoxos do "metálico" Slayer, só uma ou duas infos de grátis. Em seus primeiros shows, tanto o Slayer quanto o Metallica tocavam para uma platéia dividida entre headbangers e punks. Claro que rolavam tretas, mas o fato é que a sonoridade das duas continham naturalmente elementos hardcore. E o Slayer, ao lado do badmotherfucker Ice-T, já havia demonstrado sua veia crusty, através de um medley arrasador do Exploited que saiu na memorável trilha sonora do filme Uma Jogada do Destino. Definitivamente o Slayer tem raízes hardcore. E afinal, o que é o thrash metal senão uma evolução do hardcore, que por sua vez é uma evolução do punk...? Achou ruim? Então pode cair dentro que eu tô ouvindo Undisputed Attitude e não vou perder pra ninguém na porrada nesse momento. :)

Além do quê, só aqui você pode ouvir uma instituição como o Slayer tocando furiosamente o classicaço I Wanna Be Your Dog, dos Stooges - providencialmente rebatizada I Wanna Be You God. Mas a velha torção no pescoço comparece sim, e a última faixa, Gemini, é autoral. Peso gótico e deprê, Slayer style.

A propósito... sabia que o Ramones e o Black Sabbath fizeram uma tour conjunta nos anos setenta? É sério, li isso numa entrevista antiga com o falecido Joey Ramone. Diz ele que eram dez confusões por música executada.


LIV KRISTINE - DEUS EX MACHINA
(Massacre/1998)


Eu sou suspeito pra falar.

Antes de sair do Theatre Of Tragedy para formar o Leaves' Eyes, a cantora norueguesa Liv Kristine Spenæs concebeu um magistral e etéreo debut solo. Longe das guitarras distorcidas e dos backings death metal que caracterizam o som do Theatre, Deus Ex Machina talvez seja a primeira vez em que Liv se mostra por inteira, entregue e despida (quem dera!) artisticamente, sem as amarras do estilo gothic metal que a limitava. Pra quem nunca nem ouviu falar de Liv Kristine, basta dizer que ela é influência confessa de Tarja Turunem, do Nightwish. Dentro do gothic metal - e aí vai um espectro que começa no ultra-obscuro The Sins Of Thy Beloved e termina no mega-estourado Evanescense - Liv Kristine, ao lado de Aneke van Giersbergen (do The Gathering), é a maior precursora do estilo.

Apesar da atmosfera suave, Deus Ex Machina não se enquadra no formato pop. Transitando por paisagens new age, pelo gótico romântico e por climas soturnos pontuados com efeitos eletro-percussivos, Liv está à vontade e supera fácil tudo o que ela já fez anteriormente, incluindo aí o seu trabalho memorável no Theatre Of Tragedy. Daí saem a intrincada melodia da faixa-título (que é mais difícil de cantar do que parece), a bela Waves Of Green, a bad trip nórdica de Huldra, a soft-gregoriana Portrait: Ei Tulle Med Øyne Blå, a linda, mas muito linda mesmo, In The Heart Of Juliet, e a sensacional 3am, que conta com o vozeirão dark de Nick Holmes, do Paradise Lost.

Deus Ex Machina é um disco pra se ouvir com a luz apagada e com algumas velas acesas. E se estiver acompanhado... que seja uma ótima companhia pra não estragar o momento.

Mas como eu disse...


...sou suspeito pra falar.



FÊNIX NEGRA 2 X GALACTUS 0
Brilho Eterno de um Blog Sem Lembranças



18 de março de 2004... um ano e poucos dias atrás. Foi quando eu escrevi um texto admirando pela enésima vez o Galactus e sua fome eterna de planetas incautos. Para ilustrar o texto, catei aleatoriamente algumas imagens na web, que retratavam o gigante cósmico se estranhando com Jean Grey, numa história que eu tinha quase certeza que já havia lido.

Depois, nos coments, soube pelo jpvolley (fala aê jp!) que essas imagens, do grande Alan Davis, eram de uma história que saiu numa edição do Excalibur e que ali não era a Jean Grey, e sim Rachel Summers, totalmente overpower. Corretíssimo. Até porquê, nunca fui especialista nos mutunas mesmo.



Alan Davis e a justa cósmica... clique nas imagens


Mas a dúvida persistia... eu já tinha lido uma história com a Jean encarando o velho Galan. Num belo dia, durante um raio-x de rotina em um sebo, (re)descubro essa história como um bônus na revista Marvel Especial 8 - A Saga da Fênix Negra. Era O Que Aconteceria Se Fênix Não Tivesse Morrido?, um daqueles elseworlds narrados pelo Vigia.


Jean Grey já bateu o celestial também! Clique nas imagens

Comparando as imagens dos dois confrontos... dá pra ver que Alan Davis "curtia bastante" a série What If... Galactus está praticamente com a mesma postura quando dispara uma rajada de energia em Jean/Rachel, e nas duas histórias ele termina batendo em retirada após ver a magnitude de sua adversária. Ficou igualzinho. Não é à toa que eu me confundi... :)


dogg, querendo saber se hoje pode beber cerveja

sexta-feira, 18 de março de 2005

NOSFERATU


De todos os personagens do universo de Star Wars, o que sempre me despertou mais interesse foi o Imperador Palpatine. Tudo bem, Luke Skywalker era legal, Han Solo era mais legal ainda e Darth Vader, dentro da cultura pop, é a representação suprema do Mal. Já o Imperador, também do time dos vilões, transcendia o conceito mais simplista de "Mal". Ele era a própria matéria negra da escuridão, sempre envolto em mistério, se ocultando nas sombras, manipulando todos como marionetes. Eram raras as ocasiões em que ele fazia uso de seus terríveis poderes.

Lembro da primeira vez em que ele deu as caras na série, num holograma. Me prendeu no ato. Nunca poderia imaginar que havia alguém ainda mais poderoso do que o sinistro Vader. Mas depois, pensando melhor... Tomar uma galáxia inteira e governá-la com mão-de-ferro, esmagar o poderio militar de inúmeras raças alienígenas e redesenhar o status quo vigente para atingir seus próprios objetivos, eram tarefas que exigiam muito mais do que mera força bruta. O Imperador é um superestrategista, observador, paciente e oportunista, além de um profundo conhecedor dos meandros da Força como um todo - não apenas de seu Lado Negro. Só assim pra ele ter singrado a saga inteira praticamente incólume. Nem o quase onisciente Conselho Jedi conseguiu rastrear a sua presença negra, mesmo este se encontrando tão perto. Considerando seu longo reinado de terror, pode-se dizer que Palpatine foi um déspota muito bem-sucedido, no fim das contas.

Há muito que se discute sobre as "inspirações" de George Lucas na construção de seus personagens. Até Tolkien, com seu O Senhor dos Anéis, entrou na dança. Isso sem falar em figuras de ordem religiosa, cultural ou mitológica, como Cronos (Vader), os samurais (...) e mesmo Buda (Yoda), entre outras incontáveis referências. Definitivamente, o Imperador não partilha desse mesmo background (bem, talvez Sauron e seu poder de influência espiritual... talvez), provavelmente pela sua natureza quase metafísica - sua figura se confunde com o próprio Lado Negro da Força, como se os dois fossem uma única entidade dentro de um organismo decrépito.

Sua relação com o Lado Negro é simbiótica e a necessidade em criar um lorde de sith é claramente vampiresca. O Imperador pressionando o virtuoso Luke para se entregar ao Lado Negro é a imagem de um senhor das trevas derramando seu próprio sangue para oferecer imortalidade em troca de servidão. Nunca se tratou apenas de "ódio". Ele se utiliza do pecado original, do fruto proibido, da matéria que impulsiona a ambição humana. No fundo, ele é a representação de tudo o que gostamos de pensar que não somos, mas que experimentamos em sonhos sobre poder, grandeza e auto-afirmação. Como se o próprio Palpatine sussurrasse no lado mais obscuro da nossa consciência.

Logo abaixo, essa rápida cena do último e excelente trailer, revela um embate que, na minha opinião, será o ponto alto de toda a saga de Star Wars.








É nesse momento que mestre Yoda confronta o seu extremo oposto. O Imperador é a sua perfeita contraparte negativa, a personificação de tudo o que o velho mestre Jedi expurgou em si próprio e em todos os cavaleiros que treinou. E, pelas breves cenas do trailer, deu pra perceber que ele passará por maus bocados. Não sei se chegará a ser a desconstrução do mito (a figura de Yoda é uma analogia a conceitos como busca pela sabedoria, contemplação filosófica e desapego a bens materiais), mas será bastante curiosa essa inversão de papéis, visto que o futuro da Força (e da galáxia) será negro por uns bons trinta anos - além de render a mais do que esperada pancadaria entre os dois mestres absolutos.

Outra rápida cena que me chamou a atenção foi quando o mestre Mace Windu - e mais três mestres Jedi - chega para deter o então chanceler Palpatine. Finalmente sem a necessidade de se conter, ele saca um sabre de luz e avança furiosamente contra os Jedi, emitindo um guincho demoníaco. Não sei se a versão final manterá esse detalhe, mas no trailer ficou de arrepiar.

O universo de SW é tão instigante e cheio de possibilidades que ficou difícil mantê-lo apenas em sua mídia cinematográfica. A conseqüência disso foi o chamado Universo Expandido: uma avalanche de HQs, livros e games dando continuidade a mitologia original ou mesmo a enriquecendo com detalhes que não constavam nos filmes. Esse é o caso do projeto multimídia Shadows Of The Empire, levado à cabo pela própria LucasFilm em 1996. Nele, uma HQ, um livro, um RPG, e um videogame reuniam respostas para velhas questões referentes a série. Como Luke passou de aprendiz relutante a mestre Jedi num espaço tão curto de tempo? O que Vader fez após revelar que era o pai de Luke e deixá-lo escapar? Está tudo respondido em Shadows Of The Empire. Já na HQ Império do Mal (Dark Empire, no original), uma antiga suspeita teve "confirmação": o Imperador não morreu quando foi atirado por Vader naquele abismo. Pouco antes da derradeira, ele transportou sua mente para um clone de si próprio, bem mais jovem. Eu sabia! :P

Mas nem tudo que é novo em SW é bom. Uma coisa que tem me incomodado bastante nos últimos tempos foi a inserção de novos elementos nas versões mais recentes da trilogia clássica. Sou ortodoxo nesse ponto. Me tornei fã de Star Wars por mérito único e absoluto da velha trilogia em seu estado original, sem essa recente pasteurização digital. Eu gosto dela como ela era, até com as limitações dos efeitos (aquele speeder de Luke, em SW - Uma Nova Esperança, com aquele "borrão" embaixo - pra apagar as rodas - é tão tosco quanto maravilhoso). Animais de CG em Tatooine? Um Jabba The Hutt todo malemolente, apto até pra dançar forró? Odeio tudo isso. É poluição visual pra mim.

Mas o pior mesmo foi a alteração na famosa cena entre Greedo e Han Solo no bar. Muito se comentou, mas só dia desses que eu fui ver a desgraceira que fizeram. Greedo atira à queima-roupa, erra e só depois o 'anjinho' Han Solo dá cabo no infeliz. De chorar.

Curiosamente, a alteração no holograma do Imperador ficou, de fato, bem mais adequada com a fisionomia decadente do personagem - embora também dispensável. Mas que eu posso fazer? Eu gosto é da tosqueira mesmo.

Antes e depois:




Trailer de SW3:

Resolução "Dobra Espacial da Millennium Falcon" - 320x240 (15,9 Mb)
Resolução "Luke, I'm Your Father" - 480x360 (31,1 Mb)



EXORCISMO À MODA ANTIGA


Quando eu comentei sobre os quadrinhos de The Goon, me pediram nos coments e no e-mail para traduzir e publicar. No momento, estou meio sem tempo (como já deu pra reparar após essa atualização quase semanal), e ainda tenho outros projetos de scan e tradução que já estavam na frente. Mas um dia, quem sabe, chego no The Goon - se alguma editora não lançar antes.

Por enquanto, e com todo esse clima de Constantine no ar, eu traduzi de sopetão essa historinha curta e meiga, que conta como Goon se saiu em seu primeiro exorcismo.

Clique nas imagens.


Nice guys finished last!


REINTEGRADOS À SOCIEDADE


A Toca do Lobo já tinha feito a terra tremer com os posts bélicos do Hulk, mas agora voltou a operar a todo vapor após a aguardada reaparição do Lobo Schmidt, que estava por aí fazendo coisas. E não é só! Excepcionalmente, Luwig-X e o Cag@mba renasceram das cinzas também! Sempre freqüentei esse blog - um dos melhores sobre quadrinhos que já vi - e fiquei realmente puto quando "acabou". Ainda bem que vivemos em um mundo mais Marvel do que DC. :)

E como já me disseram certa vez...


Welcome back motherfuckers!


dogg, descobrindo o trampo solo surpreendentemente bom do Roland Orzabal, no período em que ele estava de mal com as Tias Fofinhas

domingo, 13 de março de 2005

MAGOS, TRAPAÇAS & MIL CIGARROS FUMEGANTES


Em um mundo perfeito, um filme sobre John Constantine teria o Mickey Rourke fase 1981/1990 no papel principal. Aliás, não só o Mickey, mas também um diretor refinado e criador de atmosferas tensas, como Alan Parker, comandando a desconstrução de uma saga gótica pontuada por uma inevitável, mas inesperada, redenção. E um ator austero e obsessivo, imerso em um oceano de introspecção e obscuridade, tal qual Robert De Niro quando resolve ser a Encarnação do Mal. Enfim, tirando uma coisinha aqui e adaptando outra acolá, acho mesmo que o filme Coração Satânico daria uma bela adaptação cinematográfica do mago inglês.

Isso sim seria sonhar com o impossível...


...ao contrário da possibilidade de Gordon Matthew Sumner, o Sting, interpretar o personagem. Além de ser a base que ajudou Alan Moore a captar o espírito de Constantine (e de uma forma ainda mais intensa do que a idealização Rutger Hauer/Lestat de Anne Rice), Sting está por aí, vivinho da silva, com aquela mesma expressão enigmática e, acima de tudo, ainda um bom ator, como sempre foi - vide o seu Barão Frankenstein no belo A Prometida, e, claro, sua pequena e ótima participação em Jogos, Trapaças & Dois Canos Fumegantes.

...sem contar que ele foi o líder do Police, uma boa banda... mas vamos parar de viajar e trabalhar com o que temos. :)

Sabe, talvez seja melhor você não ler o resto se ainda não assistiu ao filme. Não que eu vá revelar algum spoiler sem avisar antes, não mesmo... mas é que fiquei muito feliz ao redescobrir a maravilha que é degustar lentamente uma projeção sem fazer idéia do que está por vir. Entrei na sessão sem saber praticamente nada do roteiro. Deveria ser sempre assim, independente se a experiência for boa ou não. Recomendo.


Pra situar: John Constantine é o personagem mais tridimensional e idiossincrático dos quadrinhos. Nem de longe ele lembra o maniqueísmo e a correção política habitual das HQs. Grande parte de seus êxitos se deve mais a sua malandragem do que aos seus dons sobrenaturais. Mas isso não o impede de expor fraquezas de espírito tão extremas quanto a sua esperteza. Ao mesmo tempo em que mostra o dedão para um Lúcifer babando de ódio, ele foge apavorado de um "simples" serial killer sem rosto. Com o passar dos anos, sempre em contato com os três lados da natureza (o que deixaria qualquer um pirado) e colecionando inimigos no Céu, na Terra e no Inferno, Constantine se tornou uma versão decadente e dissimulada de um molde original que já não era lá essas coisas. Definitivamente, é o sujeito dos quadrinhos a quem eu escolheria pra jogar conversa fora e encher a cara num pub londrino.

A primeira surpresa na produção de Constantine (2005) foi a escalação de Keanu Reeves para viver o personagem. Com o eterno ar californian boy (apesar de ser libanês), Reeves não tem nem 1% da aura enegrecida e espirituosa de Constantine, e só está aqui devido ao seu status de segura-bilheteria pós-trilogia blockbuster. A segunda paulada na nuca dos fãs foi a mudança da naturalidade do mago e de sua localização geográfica. Saem a sua Liverpool natal e as vielas mal-assombradas de Londres, entra Los Angeles, Califórnia. E a parte mais radical da adaptação pára por aí. De resto, são apenas texturas e nuances reinterpretadas e pouco relevantes, mesmo para aqueles admiradores mais xiitas, que têm todas as edições de Hellblazer ainda no plástico.

Só lembrando que um filme não é uma HQ e, portanto, não tem as obrigações de tal - mas sim a ética de oferecer um tratamento digno da fonte.

Depois dessa sentença quase-babaca mas necessária, eu diria que Constantine tem uma premissa que é mais ou menos um greatest hits de muito do que o mago já encarou em sua cronologia quadrinhística. Bem rapidinho e sem detalhes: o filme retrata uma guerra velada entre o Céu e o Inferno, e a tentativa demoníaca de transpor as barreiras divinas para conquistar a Terra e reescrever o Apocalipse. No processo, eles esbarram em vários "intermediários", como o próprio Constantine, seu jovem aprendiz Chas (Chia LaBeouf), Papa Meia-Noite (o ótimo Djimon Hounsou, de Amistad), e em vítimas-chave, como Angela Dodson e sua irmã gêmea, Isabel (ambas interpretadas pela bela Rachel Weisz).


Se essa linha básica já soa rebuscada pra você, cultuador de Anjos Rebeldes e Advogado do Diabo, posso dar a boa notícia de que, ao longo do filme, vão pipocando informações e características bem peculiares, pra não dizer insólitas (fruto direto da autenticidade dos quadrinhos), inclusive na reta final, meio paralela ao standard hollywoodiano. Confesso que não esperava tal desenvoltura do diretor Francis Lawrence, mais um vídeo-clipeiro estreando com uma adaptação de HQ (isso já tá ficando surreal), e do roteiro de Kevin Brodbin e Frank Cappello. Mesmo com uma boa concepção para o visual do Inferno - uma metrópole em chamas - o uso do CG no design dos demônios ficou um tanto batido. Os alados ficaram idênticos ao demônio que Eddie Murphy enfrentou em O Rapto do Menino Dourado, e os rastejantes são bem parecidos com os hunters de Resident Evil. Mas eles têm sua função pré-determinada na narrativa, não influenciando picas a quantidade de pixels que os envolvem. No final, são mesmo as caracterizações humanas (e sobre-humanas) que acabam se sobressaindo.

Num lampejo de fé e boa vontade, cometeram um arcanjo Gabriel bem interessante (interpretado na medida pela inglesa Tilda Swinton). Andrógino e perigoso justamente pela sua subserviência cega ao plano divino, Gabriel trava com Constantine alguns dos melhores diálogos do filme - aquele primeiro na biblioteca foi uma maravilha que só. Outro personagem interessante é Balthazar (Gavin Rossdale), um mensageiro do Inferno com um visual clean executivo. Apesar de instigante ao influenciar negativamente sem interferir no livre-arbítrio e de manter uma concorrência meio salafrária (e não-explicada) com Constantine, ele acabou sendo pouco explorado na trama, o que é uma pena. Já Rachel Weisz está em seu auge como atriz, se destacando mesmo em um pop movie como Constantine. Segura, sempre no tom certo, desviando fácil de clichês interpretativos, e, acima de tudo, "linda como um Monet", Rachel está em franca campanha para abocanhar aquele pepino dourado que Hollywood oferece todo ano.

E Keanu. Keanu Reeves é mais um conceito ambulante do que um ator. Ele é sim um ator limitadíssimo, mas ele sabe disso. Espertamente, o cara não arrisca nenhum preciosismo, tons mais altos ou inflexões histéricas. Sua interpretação varia do discreto ao introspectivo, característica sabiamente utilizada em seus "diálogos" com grandalhões da atuação como Al Pacino, Gene Hackman e Frank Langella. Em outras palavras, Keanu não atrapalha. Mas só isso não é o suficiente para um papel como o de John Constantine, já que o mago cultiva uma personalidade bem peculiar: é arrogante, calculista, canalha e um anti-herói por profissão (e opção). Uma má companhia que desvia qualquer um do bom caminho. Tipo Marcelo Nova quando começou a andar com Raulzito.

Mas, por fim, a abordagem preocupada, tristonha e contida de Keanu acaba encontrando um elemento no roteiro como respaldo (um dos lances greatest hits que eu comentei). Além do mais, ótimas seqüências como a do exorcismo hardcore em uma menina endemoniada, logo no começo, e o profissionalismo de Constantine ao enfrentar um monstro escroto (que é a própria letra de Bichos Escrotos em live-action!) e uma revoada de demônios durante um blecaute, são diversão garantida. Dessa vez passa.

A seguir, um comentário com SPOILER. Tenha medo, tenha muito medo...

Marque o texto logo abaixo da imagem.



A medalha de prata da categoria "poderia ser melhor", infelizmente, vai para Lúcifer e seu filho. Quem é leitor assíduo das publicações do selo Vertigo, e conferiu pérolas do calibre de A Opção Estrela-da-Manhã e Cartas na Mesa, vai se decepcionar com o senhor das trevas nesse filme. Interpretado pelo excelente Peter Stormare, "Lu" acaba desperdiçado pelo roteiro, só aparecendo bem no final e se revelando nada mais do que um palhaço do inferno, quase um Coringa das profundezas. Nas graphic novels, ele é perspicaz, insidioso, estrategista, manipulador, calculista e extremamente charmoso... um tour-de-force de atitudes e emoções tão perversamente elaboradas pra levar vantagem em tudo, que só encontra paralelo na quase vilania de Constantine - não por acaso, sua única contraparte à altura. Já o "filho" de Lúcifer é uma decepcionante propaganda enganosa... poderiam ter concebido uma ameaça ainda mais hedionda do que o Tinhoso, mas, fora a possessão no rapaz chicano e a azia cavernosa que ele dá na personagem de Rachel Weisz, em nenhum momento ele mostra sua cara feia. Pena.

É visível que o filme se preocupa em estabelecer uma conexão mais íntima com o material das HQs. Basta observar que a história não é entregue de bandeja ao público mais preguiçoso e que o próprio Constantine não é banalizado como um bastião na "luta entre o Bem e o Mal". E ainda por cima, conseguiu decodificar o contexto dos quadrinhos para uma linguagem bem mais acessível, sem maiores traumas e sem perder aquela verve tétrica da narrativa. Constantine acaba virando a mesa sobre os pessimistas de plantão (ó eu lá) e se firmando como um lugar-comum agradável para gregos e troianos - ou para fanboys fundamentalistas e o publiquinho fã do final de O Sexto Sentido.

Nesses tempos em que os estúdios são tentados (por Lúcifer?) a descaracterizar totalmente os personagens de HQs em suas adaptações para o cinema, acredite... isso é uma virtude e tanto.

E aos detratores... com a palavra, o próprio John Constantine.



dogg terminou de escrever esse texto ao som de Sympathy For The Devil - a aventura demoníaca de Mick Jagger à base de samba (palavras do próprio). Eu hein... mangalô-pédepato-trêsvezes... :P

segunda-feira, 7 de março de 2005

I AM WHAT I AM

...and that's all what i am!


É o Popeye, se fosse criado por Garth Ennis ao invés de Elzie C. Segar. Ambientação nos anos 30 e atmosfera dos primórdios áureos dos quadrinhos (tipo Os Sobrinhos do Capitão, Tintin e o marinheiro citado), mas carregada de escatologia, palavrões, ultra-violência e vileza, típicas de um Vertigo/MAX da vida. Assim é The Goon, cria do desenhista e roteirista Eric Powell. Começei a ler sem maiores expectativas, mas fui fisgado quase que de imediato... É divertidíssimo!

Goon é um aventureiro tough-guy e aparentemente superforte, mas sem maiores explicações (igualzinho ao Popeye em começo de carreira... o espinafre/soro-do-supersoldado foi criado na última hora quando o sailor man começou a fazer sucesso). Junto com Franky, seu manager e parceirão, Goon encara tudo quanto é tipo de missão (acredite... tudo mesmo) e tem uma coleção de inimigos tão variada quanto bizarra: psicopatas, mafiosos, vampiros, lobisomens, robôs, mutantes, monstros sub-aquáticos, ratazanas gigantes, feiticeiros, aberrações genéticas, demônios e principalmente... mortos-vivos em larga escala.




Talvez seja esse oceano de possibilidades que torna as aventuras tão divertidas. Ao mesmo tempo, a mistura - sempre espirituosa - de maniqueísmo (p&b) com mundo-cão (cinzento) é um dos pontos mais peculiares de sua narrativa. Ainda estou lendo a fase indie na Avatar Press, mas pelo que li na coluna de Érico Assis, do Omelete, ele já está em sua 10ª edição pela Dark Horse.

Outra coisa bacana são os 'folhetins educativos' presentes ao longo das HQs. Coisas do tipo "como arrancar o escalpo de um lobisomem" ou "adote um morto-vivo", que eu gentilmente destaquei aí embaixo... clique na imagem.


Eric Powell faz de The Goon um projeto autoral tão bacana quanto Mike Mignola com seu Hellboy ou, no mínimo, Erik Larsen e seu Savage Dragon. E pela trajetória lenta, mas sempre ascendente (o que é essencial), The Goon provavelmente será um hit dentro de alguns anos, com direito a adaptação para os cinemas e tudo. Deus me ouça!


E já que mencionei mortos-vivos... >:)

THE RETURN OF THE TRIOXYN


Você já assistiu isso antes... projeto ultra-secreto envolvendo armas químicas dá errado, e voilá... hordas putrefactas de mortos-vivos esfomeados à caça de cérebros frescos. Essa é a premissa de A Volta dos Mortos-Vivos 4: Necropolis e, caracas, A Volta dos Mortos-Vivos 5: Rave To The Grave. O primeiro filme da série, de 1985, foi uma pérola da nojeira bem-humorada. Já o segundo foi uma paródia acéfala (sem trocadilhos) do primeiro, sendo que este já era uma paródia dos filmes de George A. Romero. No terceiro filme, houve uma reinvenção até interessante, levada a cabo pelo insano Brian Yuzna (de Re-Animator).

Produzidos simultaneamente, o quarto e o quinto episódios ainda não têm data de estréia definida e, pela sinopse divulgada, é uma chupação violenta em cima de Resident Evil: O Hóspede Maldito (!!):

"Julian, Zeke, e seus amigos, são típicos estudantes do colegial curtindo um marasmo teenager-mauricinho, até que um terrível acidente de moto coloca Zeke no hospital, do qual ele desaparece misteriosamente e sem deixar vestígios. Seus amigos investigam seu paradeiro e tudo leva a crer que a famigerada corporação Umbrell... digo, Hybratech está envolvida. A Hybratech conduz perigosos experimentos com o composto Trioxyn-5, um poderoso agente químico capaz de despertar os mortos!"

...e blá-blá-blá...


Claro que isso é só uma desculpa pra que os desmortos sejam vomitados de suas covas apodrecidas e sairem em busca de miolos pulsantes (eu sei que miolos não pulsam, mas essa descrição ficou maneira!). O problema é que depois de pauleiras viscerais como Extermínio e Madrugada dos Mortos, ficou bem difícil pra série conseguir surpreender novamente o público fangore.

E dando uma de Grunge, do Gen¹³... se fosse eu no lugar do diretor Ellory Elkahem (Elka-quem?!), botava pra quebrar nas cenas de sexo (dezenas de playmates nuinhas em pêlo) e na violência escatológica (cérebros, tripas... tripas, cérebros...).

É, ué... às vezes a intensidade fala mais alto, e já que o roteiro é batidão mesmo...

Agora, o que eu não faria mesmo é colocar no filme um arremedo descarado do super-zumbi Nemesis. É, aquele mesmo de Resident Evil...


Mais triste ainda é ver o ótimo Peter Coyote (Lua de Fel) figurando no elenco desse filme pra lá de suspeito...

Bom... seja o que Ed Wood quiser.

A propósito, no site oficial tem um mapa da "genealogia living dead". Bastante elucidativo.


O mestre Romero está lá, devidamente centralizado. Eles tinham de ensinar essas coisas nas escolas!

:P


The next: the new fuckin' top 5!!

EVERGREY - THE INNER CIRCLE
(Hellion/2004)


Esse é bem recorrente aqui no top five, mas nunca comentei a respeito. E o negócio é o seguinte... todo o fã de rock pesado tem de ouvir esse disco. É quase uma obrigação didática. Há muito que as bandas da área tentam alcançar o tal álbum perfeito, tarefa que se tornou uma verdadeira caça ao Graal artístico. Não raro, o que se consegue são resultados assépticos, mecânicos e frios - embora "visualmente" magistrais. A harmonia idealizada entre técnica sobre-humana e energia emocional na música ainda está engatinhando, mas já encontra no Evergrey o seu grande representante. E The Inner Circle consegue atingir um nível ainda maior que seu excelente álbum anterior, Recreation Day (2003).

Thrash, progressivo, pop, soft rock, AOR, heavy tradicional, gothic metal e até gospel (!) comparecem de forma extremamente coesa, tornando a textura sonora do Evergrey um elemento único, superior. Esse disco (conceitual, aliás) só não é indescritível porque dá pra comentar ao menos uma coisa ao seu respeito: fenomenal. É impensável destacar apenas uma faixa, e o diamante In The Wake Of The Weary está aí para download como homenagem à sensacional vocalização soul de Carina Englund. Compre, roube, se vire.


THERAPY? - TROUBLEGUM
(A&M Records/1994)


Outro habitué dos 5+. Mas não tem como. O irlandeses do Therapy? cometeram um disco definitivo, atemporal. Calma... não é nada daqueles clássicos irretocáveis, hiper-complicados e altamente respeitáveis (e chatos!). Troublegum é um dos melhores discos de party rock dos anos 90 - incluindo-se aí uma lista de full-lenghts que vai dos clássicos Time's Up, do Living Colour, e The Real Thing, do Fenemê, ao Blood Sugar Sex Magik, do RHCP.

Troublegum é uma maravilha de sonzeira guitar rock. O trio formado por Andrew Cairns (guitarra e vocais), Michael McKeegan (baixo) e Fyfe Ewing (bateria), tira água de pedra com a antiqüíssima equação baixo-guitarra-bateria, com soluções criativas e efetivas (até hoje), repleta de ganchos perfeitos. E a banda não mede esforços. Rola de tudo: hardcore, thrash, power pop, surf rock, industrial rock, e um clima inequívoco de pop rock oitentão.

O Therapy? já fez discos memoráveis (High Anxiety, Infernal Love e a porrada federal Nurse), mas Troublegum é o que equilibra o melhor de uma banda dona de uma química incendiária. Pauladas como Knives, Screamager, Nowhere, Isolation, Trigger Inside - enfim, o disco inteiro - dão choque na alma e fazem bem ao corpo. Rock good vibration é isso aí.

E detalhe... tem a participação mais do que bem vinda de Page Hamilton, líder do Helmet. São dele os acordes de guitarra em Unbeliever. Cai dentro, meu chapa. Isso é trilha sonora de festa americana organizada por gente grande. Pra ouvir no talo.


CRACK UP - DEAD END RUN
(Moonstorm Records/2000)


Death'n'roll. Esse é um tipo de crossover que sempre viveu mais no conceito do que na prática, de fato. Formações extremas e experimentalistas como o Napalm Death fase Lee Dorrian, o Brujeria, o Agathocles e o genial (e sumido) Pungent Stench já bicaram o estilo, mas nunca o tomaram como estrutura-base - mesmo por quê, a viagem dos caras era outra. Restou à banda alemã Crack Up honrar a camisa e se tornar o maior (senão o único) representante do gênero. E não é que a coisa funciona às mil maravilhas?

Com a explosão típica do death jogando a favor de uma pegada rocker, a banda acaba mostrando o quão inédita e, ao mesmo tempo, simples é essa proposta. "Como é que não pensaram nisso antes?"... é a primeira coisa que vem a mente após ouvir pérolas do naipe de Maximum Speed, Dead Good Motherfucker, Better Dancer, Stallknecht, Evenflow (não é a do Pearl Jam!), Rock The Coffin', a sintomática It's Shit e a faixa-título.

Por vezes, a sonzeira parece pop demais (melodias à Beatles rolando ao fundo [!!], refrões pegajosos, riffs), mas acaba sendo incrível constatar que um estilo totalmente anti-comercial poderia rolar no volume 10 sem estranhar. E de uma forma bem mais íntegra do que um In Flames da vida (um Metallica do death).

O único porém desse disco do Crack Up é que eu tenho certeza que ele soaria ainda melhor se eu estivesse pilotando uma Harley Davidson na hora. Ou melhor ainda... esse V8 cavernoso da capa...


ASTRAL DOORS - OF THE SON AND THE FATHER
(Hellion/2003)


Jesus, Maria e José... Tenho até medo de escrever sobre esse que é um dos melhores discos lançados em 2003. Então, nada melhor (pra minha batata) do que expor meu background rockeiro... Existe - quase que sempre - um "interesse científico" da minha parte a respeito de vários estilos de Música. Mas o que eu mais ouço de forma constante e recorrente é o rock'n'roll old school, não tenho como negar. Thin Lizzy, Foghat, Bad Company, Free, Sabbath, Led Zep, Aero, - estamos chegando - Purple, Dio e... - chegamos - Rainbow. A instituição Ronnie James Dio, ao lado do mestre Ritchie Blackmore, integrou o Rainbow, uma das maiores bandas da História do Rock e referência atemporal - inclusive para dinossauros consagrados como Iron Maiden, Judas Priest e, puta que o pariu, acho que todo mundo da cena heavy atual.

E o quê isso tem a ver com o Astral Doors? A banda sueca é responsável pela atualização dessa vertente tradicional do rock, da melhor maneira que ela poderia soar se fosse concebida hoje pelas formações clássicas do Rainbow, do Deep Purple, do Uriah Heep ou mesmo do Jethro Tull. É heavy rock visceral, orgânico e autêntico, honrando o legado de bandas tão precursoras quanto Cream e o Blue Cheer. Pra quem é straight rocker, o Astral Doors seja talvez o grupo que mais atraia interesse em toda a cena, pois carrega consigo a responsa de um estilo que é um dos mais difíceis de compor e executar - já que o virtuosismo narcisista não tem nenhum apelo aqui.

Desde a abertura, com Cloudbreaker, seguindo com clássicos imediatos como a faixa-título (cuja levada, ao vivo, deve se comparar a Highway To Hell...), a maravilhosa Slay The Dragon, In Prison For Life, The Trojan Horse, Burn Down The Wheel, Rainbow Your Mind e a incrivelmente ganchuda Man On The Rock, esse disco é absurdamente essencial nesses dias tão artificiais e descartáveis. É o feeling e o calor da paixão trazidos novamente para dentro do rock'n'roll. Já não era sem tempo.

"I'm a Man On The Rock... Like Jesus Christ...!!"


...TRAIL OF DEAD - SOURCE TAGS & CODES
(Interscope Records/2002)


Duas verdades... uma - o nome da banda é "And You Will Know Us By The Trail Of Dead"... e duas - você precisa conhecê-la. E foda-se o que você miseravelmente caracteriza como estilo, gênero ou abordagem. Foda-se. Foda-se. Foda-se. Não cometa o erro que eu cometi. Essa banda está acima do bem ou do mal, acima de contextualizações. Ela apenas é. ...Trail Of Dead, por algum acaso, se utiliza da permissividade outsider rock para dar continuidade a sua cartarse niilista seek and destroy cíclica, a dicotomia auto-impingida, a auto-destruição, ao nirvana. Sources Codes & Tags é mais do que um álbum. É uma experiência, uma bad trip da lisergia movida a feedbacks de acordes saturados. É como tocar o próprio cérebro em um mundo mágico do impossível.

É fatalismo feito onda sonora.

É uma forma de vida.

É perigoso.

...Trail Of Dead transcende tudo isso e esse álbum ainda não é o suficiente.

Sem mais.

Embarque.


dogg... insane in the fuckin' brain