sexta-feira, 29 de abril de 2005

Operação Resgate
If you're looking for trouble... you came the right place!





Glenn Danzig é um cara que tem história pra contar. Embora seja pouco lembrado (ou conhecido) pela nova geração, o cantor influenciou muito os padrões do rock atual, inclusive aquele tipo que perambula incansavelmente pelo circuito pop. Ele criou o link definitivo entre música gótica, a atmosfera lúgubre e enegrecida do Black Sabbath e uma certa mis-en-scéne de horror, decodificada diretamente das pirações teatrais do Alice Cooper dos anos 70. Quem leva o crédito por traduzir essa carga gore-dark para o rock contemporâneo costumam ser grupos como Nine Inch Nails, Cradle Of Filth, Korn, White/Rob Zombie, Marilyn Manson, Dimmu Borgir, Slipknot e por aí vai, mas a coisa começou bem antes.

Egresso do grupo punk seminal Misfits e do cultuado Samhain, Danzig inaugurou a carreira de sua banda homônima em 1988 com um álbum supreendente. Limou todo o background psychobilly em favor de um crossover demoníaco envolvendo blues rock de bar vagabundo, o messianismo apocalíptico de Johnny Cash, doom metal, Black Sabbath e AC/DC, com vocais pendendo entre a introspecção rebelde de Elvis Presley e a ironia curtida à whisky de Jim Morrison. Adicione aí uma certa aura maldita e letras estilo filme B de terror, discorrendo sobre ocultismo, desordem, anarquia, orgias profanas, bruxaria, demonismo, súcubos e voilá... é uma festa no inferno ouvindo os discos do Danzig com o volume lá no céu (perdoai o trocadilho!).


Entre um petardo e outro, Glenn ainda lançou um álbum solo, Black Aria, de 1992, composto basicamente de... árias. Esse disco merece um destrinchamento todo especial, em uma outra hora.

A lista de fãs e eventuais "influenciados" inclui vários medalhões do som pesado, como Tony Iommi, o pessoal do Slayer, Pantera e, principalmente, James Hetfield e Lars Ulrich, do Metallica.

Apesar dessa química das profundezas ter dado muito certo nos 4 primeiros discos, um erro fudido de direcionamento balançou a carreira do Evil Elvis. Nos álbuns seguintes, o Danzig passou a ser uma banda bem meia-boca, com bons momentos dividindo espaço com inovações pra lá de equivocadas.

Então é isso aí. Na faixa, um resumão disco-a-disco...


DANZIG
(1988)


O primeirão do Danzig já vinha com uma capa bem "discreta" e com uma sonzeira blues rock digna daquele bar infernal do filme Um Drink no Inferno. Aqui, Danzig nos revela que é o próprio capeta (I Am Demon), fala de conflitos espirituais (Possession), mulheres demoníacas (She Rides), condenações (Soul In Fire, End Of Time) e tudo aquilo que Lúcifer costuma arquitetar em seu dia-a-dia. As faixas Mother e Twist Of Cain (com seu riff inesquecível) foram os maiores hit singles desse disco.

Talvez por ser justamente o debut, a execução é mais básica, fazendo o vocalista se destacar sobremaneira. Danzig evoluiu muito tecnicamente desde seu tempo liderando o Misfits. A formação era a clássica trinca dos primórdios da banda: Eerie Von no baixo, o ótimo John Christ na guitarra e o folclórico Chuck Biscuits na batera (ele é o fã número zero do Zé do Caixão!).

Um puta disco de rock'n'roll. Diria até que é um semi-clássico trilhando os mesmos caminhos mal-assombrados de Back In Black, Paranoid e The Number Of The Beast.


DANZIG II - LUCIFUGE
(1990)


E o enxofre-rock continua firme e forte! Mesmo carregando na pegada metálica, Danzig comete um discaço e, ao mesmo tempo, mergulha de cabeça no Delta do Mississipi. Aqui, o cara inicia o satanismo de histórias em quadrinhos que viria a ser sua marca 666 registrada. A produção está bem mais clara e o som está melhor trabalhado, com uns backing vocals até acima da média, naquele estilo chamado-e-resposta. Os refrões estão muito mais grudentos, vide Girl, Long Way Back From Hell, Her Black Wings, a maneiraça Devil's Plaything e Snakes Of Christ - que, além de ser ótima pra profanar a religião a plenos pulmões debaixo do chuveiro, também tem um riff totalmente assassino!

Já o blues comparece na ótima Killer-Wolf, e nas semi-acústicas I'm The One e na ótima 777, uma viagem movida a slide-guitar. Destaque também para a baladona presleyana Blood and Tears, linda, linda. The devil loves too!

O disco termina bem dark, com a soturna Pain In The World. O andamento lembra muito o clássico Dazed And Confused, do Led Zeppelin, o que é obviamente uma ótima referência.

Uma curiosidade... a capa alternativa de Lucifuge, com a foto de cada um da banda, é praticamente uma reedição da capa do clássico disco de estréia dos Doors. Dá uma conferida:




...qualquer semelhança é mera influência. E não é interessante ver que o Doors influenciou artistas tão díspares quanto Danzig e... sei lá, Echo & The Bunnymen?


DANZIG III - HOW THE GODS KILL
(1992)


Dizem que esse é o melhor do Danzig. Só não digo que é, pois essa primeira fase é realmente toda memorável. Em execução e produção está um passo à frente do disco anterior. É uma evolução natural, que no caso do Danzig resultou em uma pérola irretocável. Ao longo do álbum vão aparecendo algumas inovações, como barulhos e ruídos estranhos acompanhando as músicas, como se fosse o som de espíritos enfurecidos. Ecos distorcidos vindos de algum nicho infernal. Mas antes que eu comece a viajar demais, os tais sonzinhos foram feitos através de instrumentos convencionais, como breves estaladas no piano, cordas e o próprio aro da caixa da bateria.

Danzig começa a exercitar aqui o seu bom gosto artístico na arte gráfica dos discos. Ninguém menos que H.R. Giger assina a ilustração da capa. Ele já fez uma capa para os dinossauros do Emerson, Lake & Palmer, no disco Brain Salad Surgery (clique aqui para vê-la), mas dificilmente aceita trampos desse tipo. Danzig costuma dizer que ele só aceitou após ouvir uma cópia da fita master do disco. Giger ficou alucinado com o conceito do álbum. Um lance totalmente from hell...

O disco é uma coleção de "clássicos do terror", por mais cinematográfico que possa parecer. Mas é isso mesmo. Falta algum diretor esperto chamar o Danzig pra compor a trilha sonora de algum filme do gênero.

Godless, a faixa de abertura, começa com uma avalanche heavy e desemboca em versos praticamente declamados seguidos de uma batida lenta e carregada de suspense. Destaque para o piano mal-assombrado que persegue a quebradinha. Excelente. A música seguinte, Anything, abre bem suave, dá uma discreta inversão na melodia e tem uma leve mudança de tempo antes de cair na porrada. Awesome! Os 4 cavaleiros do Danzig fazem isso parecer fácil, mas não é não. A seguir, Bodies tem um ritmo à Booker-T (que fazia aquele tipo de blues quase-correndo) e uma guitarra de trincar os dentes. Lembra muito o The Doors nos seus momentos mais chapados e bluesy. Outros momentos arrepiantes marcam presença na grandiosa faixa-título, na largada thrasher de Left Hand Black, na introdução satan-soul em Heart Of The Devil, nas guitarradas heavy de Do You Wear The Mark e no riff tortinho de When The Dying Calls.

How The Gods Kill também traz duas das músicas mais representativas do Danzig. A bela Sistinas parece uma daquelas pop songs românticas dos anos 50, ainda mais rebuscada pelos vocais do Evil Elvis. Já a perfeita (isso aí... perfeita) Dirty Black Summer abre com um barulho de chuva, sai rasgando num riff que é maquiavélico de tão bom, e até hoje é hour-concours nos shows da banda.


THRALL - DEMONSWEATLIVE
(1993)


Inicialmente eram dois EPs separados. Thrall continha duas músicas inéditas, uma cover e uma versão remasterizada de Mother, e Demonsweatlive... era um ao vivo. Após um relativo sucesso no circuito metálico norte-americano, os dois passaram a integrar o mesmo pacote.

Das músicas inéditas, nota-se que a banda ainda estava no climão sombrio do álbum anterior. The Violent Fire tem aquela tradicional melodia darkótica, enquanto It's Coming Down soa mais despretensiosa, bem mais rocker. A cover citada é do clássico blueseiro Trouble - de Leiber & Stoller e imortalizado por Elvis Presley, claro. É aquele negócio... The Pelvis tirava onda de malvado e fodão já nos anos 50: "If you're looking for trouble... you came the right place... If you're looking for trouble... just look right in my face". Isso cantado pelo Danzig soa mais do que "apropriado".

Já a parte ao vivo é uma injeção de adrenalina. Com a banda em grande forma, público sold-out e Danzig cheio da moral, desfilam os clássicos (já?) Snakes Of Christ, Am I Demon, Sistinas e a emocionante Mother. Pena que são apenas essas, afinal é só um EPzinho. Com certeza, foi um showzaço.

Novamente, Danzig prova que tem bom gosto e convoca o genial Simon Bisley (Lobo, Judge Dredd, Sláine) para a fazer arte de capa. O resultado é bem ao seu estilo: selvagem, demoníaco e com aquele jeitão de barbarismo sangüinário.

Clique na imagem abaixo para ampliar a arte original:




E já que comentei do Simon Bisley, aproveito para recomendar a leitura da porradíssima insane epic tale "A Verdadeira História De Sansão e Dalila", escrita à ferro e fogo pelo Hulk. Desde o clássico Lobo Está Morto que eu não vejo tamanha perversão doentia arrombando os portões celestiais. Mas o quê o Bisley tem a ver com isso? Confesso que quando li a história, não pude deixar de imaginar uma HQ dela com o Bisley nos desenhos...

Thrall Demonsweatlive é um dos EPs mais divertidos que já ouvi (ao lado de Garage Days Revisited, do Metallica, e Broken, do Nine Inch Nails).


4P
(1994)


Esse disco costuma ser chamado por aí de 4, mas é 4P mesmo - Four P era o nome de um antigo culto satânico (alguns dizem que ainda está na ativa). Danzig não queria apenas reciclar a mesma fórmula dos álbuns anteriores ad nauseum. Então resolveu dar a primeira guinada sonora relevante na carreira da banda. 4P tem texturas mais ásperas, distorcidas e uma estrutura musical propositalmente instável, às vezes bastante turbulento, e às vezes calmo e ambient. Há uma profusão de elementos outrora "alienígenas" no som do Danzig, como vocais distorcidos, camadas de guitarras saturadas, samples, e um piano mais freqüente e sinistro escurecendo a paisagem. O próprio timbre dos vocais se reveza em vários tons inéditos até então.

Mal comparando (bem, não tão "mal" assim), o Danzig de 4P está para o velho Danzig como o U2 de Achtung Baby esteve para o velho U2 - a reinterpretação sonora do príncipe dark foi muito similar à experimentada pelo grupo de Bono Vox naquele disco.

Mas apesar do novo approach e de algumas reestruturações sérias, as bases do velho Danzig ainda estava intacta. É só descontar o susto inicial e rever a bagunça habitual com o hard rasgadão de Brand New God e Bringer Of Death (com uns tiros de metralhadora, no maior clima de guerra), a climática Little Whip (que abre com aquelas guitarras surf music à Ventures) e a rifferama experimental de Until You Call On The Dark.

Alguns destaques saltam inevitavelmente aos ouvidos e... Cantspeak é a melhor música do Danzig que não parece com Danzig. Nem os vocais! Por muito pouco se nota que é o cara cantando. A batida hipnótica e várias camadas de guitarra em fade out remetem a música para algo próximo das primeiras fases do Gang Of Four e do Sonic Youth (!). Going Down To Die é a power ballad da vez, e a que mais lembra a fase inicial da banda. Simplesmente maravilhosa. A maravilhosa I Don't Mind The Pain e a linha soturna de Dominion são os momentos mais introspectivos do disco. Aliás, compare a melodia desta última com a de Until It Sleeps, do Metallica... coincidência? Sadistikal é o momento mais singular. Toda feita à base de samples, Danzig vocifera os versos com seu vozeirão seco sobre uma batida industrial cadenciada. Esquisita e assustadora ao mesmo tempo. Me lembrou muito o trampo paranóico de uma banda iugoslava chamada Laibach. Já Son Of The Morning Star (homenagem ao personagem da Vertigo?), é uma viagem dark old school à Planet Caravan, do Sabbath, com as guitarras levantando no refrão.

4P foi o tipo de experimentação corajosa que deu certo e que apontou novos e intrigantes caminhos para o som da banda. Único, inovador, carregado de fúria negra. Talvez boa parte disso tenha sido ao acaso... mas um feliz acaso.

Em tempo... após a última faixa existe uma daquelas famosas faixas escondidas... trata-se de umas passagens com órgão de igreja e algumas vozes ao fundo. O detalhe é que, não satisfeitos em inserí-la na faixa #66, ainda deram um jeito do display marcar exatos 66:64:41.


DANZIG 5 - BLACKACIDEVIL
(1996)


A famosa "escorregada no tomate". Como diria o Mestre Yoda, perigoso é o Lado Negro do Experimentalismo... Aqui a coisa não fugiu à essa regra e resvalou todo o brilhantismo do álbum anterior para uma espécie de Lei de Murphy musical. Se você acha St. Anger, do Metallica, a maior decepção sem sentido dos últimos tempos, ouça Blackacidevil. Melhor ainda, não ouça...! Apenas confie em mim. Talvez seja o registro musical mais equivocado da História recente.

Dizem que foi uma fase cheia de problemas internos no grupo. O batera Chuck Biscuits andou chapando além da conta e tomou um pé na bunda, o que inspirou o patrão Danzig a reformular o grupo inteiro. A banda acabou entrando no estúdio com um punhado de pára-quedistas de última hora: Joey Castillo (bateria), Joe Bishara (teclados e programações... opa, programações?!) e Josh Lazey (baixo). Apesar disso, baixou um espírito one-man-band em Danzig e ele também resolveu tocar baixo, guitarra e teclados.

Danzig é um frontman. Ponto. Essa coisa de one-man-band é para artesãos como Trent Reznor (NIN), Al Jourgensen (Ministry) e Richard Patrick (Filter) - e olhe lá ainda por cima. Há sempre uma chance ínfima de uma banda se dar bem em um contexto que não lhe é natural - o que não acontece acontece aqui em nenhum momento. A impressão que dá é que o grupo se esforça ao máximo pra soar inaudível. Existem formações que conseguem dar sentido ao Caos e reunir os pedaços em quadros instigantes, como se fossem um mosaico niilista em homenagem à Destruição (como bem fazem o Atari Teenage Riot e o Cubanate), mas as batidas tecno socadas, os samples barulhentos, o feedback no talo, os guinchos electro-noisy e as guitarras e vocais hiper-ultra-distorcidos que povoam o disco inteiro acabam com qualquer linha musical compreensível/aceitável.

Trocando em miúdos, as músicas são horrorosas, mesmo para o paladar radical de um fã de Riistetyt, Rattus ou Napalm Death fase Lee Dorrian. Dificilmente um ser humano sem poderes mutantes consegue ouvir Blackacidevil até o fim, de uma tacada só. Duvido.


B lack

A ci

D evil


Com muita boa vontade dá pra encarar Sacrifice, Hand Of Doom (do Sabbath) e Ashes.

Talvez vire cult daqui há uns 25, 30 anos... da mesma forma que o doidaço Metal Machine Music, do Lou Reed.

Mas pensando bem... acho que não.


6:66 SATANS CHILD
(1999)


Três anos depois e o Danzig acorda da ressaca industrial do disco anterior. O senhor das profundezas deve ter chamado a atenção do guerreiro doom, e por isso a banda voltou mais direta, enxuta e sem as tralhas high-tech de outrora. Mas ressaca é ressaca e 6:66 Satans Child, apesar de poderoso, passa longe da energia criativa da saudosa fase inicial. A sonoridade agora é bem mais minimalista, com quase nada de riffs e solos, e basicamente movida à levadas de guitarra-base e bateria. Simples assim.

Algumas bases são realmente possantes como demonstram a faixa de abertura, Five Finger Crawl, e a faixa Unspeakable. Já a ótima Cult Without A Name talvez seja a mais próxima do climão gótico das antigas. East Indian Devil (Kali's Song) trafega perigosamente pela atmosfera experimental, mas fica só na sugestão (ainda bem). Firemass também dá um susto com uma batida meio "ritmada demais", mas as guitarras bem colocadas logo modificam o contexto da música (que acabou me lembrando o Killing Joke do disco Pandemonium). A faixa-título é bem diferente e tem uma estranha quebrada de guitarra, estilo Tool. Mas o refrão cavernoso é Danzig puro.

Chega a última música, Thirteen - que já foi até regravada/imortalizada pelo venerável Johnny Cash - e temos um melancólico retorno às raízes. Nesse momento, senti que o Danzig já tinha atravessado a faixa amarela e que os bons tempos ficaram mesmo para trás. Que o digam Henry Rollins, Metallica, Living Colour e Red Hot Chili Peppers. Sinal dos tempos...

E a capa tem um jeitão de HQ não é à toa: é novamente Simon Bisley quem assina a arte. Muito bacana, por sinal.


LIVE ON THE BLACK HAND SIDE
(2001)


Os fãs do Danzig nunca tiveram muito problema com a escassez de discos ao vivo, mesmo que o único registro oficial desse tipo tenha sido o EP Demonsweatlive, de 93. Isso porque a quantidade de material pirata que circula da banda por aí é de assustar. Pra cada show deles pipocam uns quatro ou cinco CDs e DVDs ao vivo no mercado negro - alguns com uma qualidade excelente. Mas fora os parcos registros live em home-vídeos, faltava o famoso disco ao vivo do Danzig. Live On The Black Hand Side é o próprio e em dose... digo, CD duplo.

Assim como Ozzy Osbourne, Glenn Danzig é um bom escalador de instrumentistas. Seus shows sempre exibiram técnica e energia de sobra, não importando a fase em que a banda se encontrava, e isso é bem demonstrado aqui. As primeiras oito músicas do CD 1 foram extraídas da tour Halloween, de 1992 (a mesma de Demonsweatlive) e têm a mesma clássica line-up: Danzig-Christ-Von-Biscuits. As últimas 6 faixas são da tour de 4P, com Joey Castillo no lugar de Biscuits. Memorável.

Já o CD 2...

...muito mal gravado (cheio de microfonias e com várias quedas no som da guitarra), o CD 2 traz faixas mais recentes, inclusive 7th House do infame "Bad". A energia habitual e a força de composições como Her Black Wings, It's Coming Down, Do You Wear The Mark, Twist Of Cain e Mother acabam salvando o segundo disco de um belo naufrágio. Mas que eles deram um mole federal com essa produção tosca, isso deram. Já ouvi piratões muito melhores!


777 - I LUCIFERI
(2002)


Para registro: o início de 777 - I Luciferi é magistral. Unendlich é uma breve introdução com reverbers de guitarra fazendo um dueto com uma espécie de canto gregoriano fantasmagórico. Na seqüência, a pesadona Black Mass dá a tônica do que vem a seguir. Em um contexto geral, I Luciferi retoma a linha de Satans Child, mas de forma mais básica e rocker. Algumas passagens new metal se fazem presentes aqui e ali (como os "apitos" de guitarra), mas não sei ao certo quem é o ovo e que é a galinha nessa história. De qualquer modo, não é algo que chega a desvirtuar o que se espera do Danzig - o problema é que, após essa seqüência de altos e baixos, o quê exatamente se espera do Danzig...?

Como você já deve ter percebido, comentar sobre os discos do Danzig é quase como escrever um tratado metafísico pra mim. Não consigo simplesmente classificá-los com um 'bom' ou um 'ruim', mesmo no caso do "Bad". É foda. Na próxima vez vou escrever sobre o Ramones... dá menos trabalho e os meus neurônios não precisam ser obrigados a trabalhar sob efeito maciço de cafeína. :)

Mas voltando à lida...

Após o início demolidor, o disco segue com a ritmada Wicked Pussycat. A levada é largadona e a letra é meio s&m. God Of Light (que não é uma homenagem ao pessoal de Furnas...) tem aqueles irritantes apitos de guitarra que eu mencionei. Desde que o Machine Head começou com essa praga, há alguns anos atrás, passei a viver num mundo pior. Na seqüência, Liberskull chega rasgando com uma slide guitar canibal e um ritmo cadenciado. Sonzeira. A gótica Dead Inside é um daqueles momentos mais ternos e viajantes. Pena que o refrão fica bem aquém do climão escuro do início. Aí chega Kiss The Skull... essa guitarra foi sampleada de Beautiful People, do Marilyn Manson, ou estou ouvindo coisas?! Na boa Danzig... tu roubou legal. Mas a música é ótima. Parece o hino marcial do 66º destacamento de infantaria do exército do inferno.

Na seqüência final, a faixa-título cria uma atmosfera bem tétrica. Já Naked Witch (adorei esse título) quase nos remete ao blues rock do início. Se não fosse a mixagem abafada dos vocais... tsc! Na música The Coldest Sun... mais uma pós-pré-referência. Explico... o andamento slow heavy com o gancho poderoso de guitarra e a vocalização estrondosamente grave é Type-O Negative puro. Tirando o refrão, a voz de Danzig está idêntica à do vampiro Peter Steele, do Type-O.

Considerações finais... 777 - I Luciferi é sim um bom álbum, e muito funcional no que propõe, mas tem uma particularidade que costuma irritar muitos: é exageradamente referencial. Tanto é que citei aqui, de relance, umas três ou quatro bandas que lembrei enquanto o disco rolava. O detalhe é que todas essas bandas, sem exceção, foram largamente influenciadas pelo Danzig. Então, o que Danzig faz aqui é quase uma autofagia por tabela. Em I Luciferi ele imita aqueles que passaram a vida toda o imitando. Estranho ciclo, não?


CIRCLE OF SNAKES
(2004)


Como o Danzig já vinha com um direcionamento new metal, nada mais natural que Tommy Victor assumisse a guitarra. Victor é o líder do Prong, e foi um dos caras que mais influenciaram o tão discutido "novo metal". Mas calma lá... o Prong é uma grande banda (apesar de há tempos não produzir nada do calibre de Beg To Differ, Prove Your Wrong e Cleansing - todos clássicos), e esse lance de "influência" é a coisa mais fácil de sair do controle e se desvirtuar - vide o legado do Faith No More e seu Angel Dust.

Circle Of Snakes é um retrato do Danzig atual, e ele é bem diferente daquela banda que esculpiu hits memoráveis como Twist Of Cain, Am I Demon, Mother e Snakes Of Christ. Mas que Circle Of Snakes é uma porrada desembestada, isso é. E se você não tem problema com nego que se distancia do próprio passado então... é colocar o CD no volume 11 e esperar a casa ruir.

Tommy Victor é um mestre na guitarra, isso é fato. Ele não é o típico guitarrista hendrixiano, cheio de longos solos operísticos. Ele vive de detalhes. É um miniaturista por natureza e, sempre que pode, insere aqueles detalhezinhos que fazem toda a diferença no resultado final. E quando resolve partir pra grosseria, não tem nada igual.

O álbum começa com mais uma introdução demoníaca, dessa vez mais "instrumental" do que na intro de Luciferi. Seguem as pauladas de Skincarver e da faixa-título, e Victor mostra como se faz uma "guitarra com apito" decente. O cara é foda. Na seqüência, 1000 Devils Run. É uma porrada sensacional, mas verdade seja escrita... ela parece saída das sessões de gravação de Cleansing, do Prong. Tem até aquele ritmo pára-e-começa característico! Outro destaque é Hellmask, uma zoeira guitarrística de te fazer perder o rumo de casa. Meu amigo, que guitarra base é essa... parece um furacão! When We Were Dead tem uma pegada mais cool e viajante. Parece uma daquelas baladas pesadas do Pantera. Já Night, Besodon tem um clima tão desobediente, maléfico e infernal que dá vontade de sair por aí anunciando o fim do mundo com uma metralhadora na mão. Eu queria que o mundo acabasse com essa música rolando. A ótima Black Angel, White Angel lembra o Danzig das antigas, sempre querendo acertar um anjinho com uma bazuca.

Ao final fica a impressão que você ouviu um bom novo disco do Danzig. É um disco de guitarra, porradão, straight, pra macho. Sem o charme diabólico e bluesy dos primeiros álbuns, é verdade, mas com tudo o que se pode fazer com uma boa banda de rock moderno.

E destaque para a capa, que mostra uma espécie de Górgona bio-mecânica à H.R. Giger. Mas a ilustração não é dele não, e sim do artista Dorian Cleavenger. Pelo jeito, até os Gigers de hoje são outros.



Danzig é um aficcionado por filmes e quadrinhos de terror tão fanático quanto o Rob Zombie. Atualmente ele anda dividindo seu tempo com vários projetos, entre eles a continuação de seu álbum solo, Black Aria, dessa vez contando a história de Lilith (que teria sido a primeira esposa de Adão). Outro projeto a ser acompanhado cuidadosamente é a sua estréia como diretor. O filme Gerouge mostrará um ataque de mortos-vivos em New Orleans, possivelmente em 1854. Promissor. A história é baseada em uma HQ publicada pela sua própria editora, a Verotik Comics. Nunca li nada de lá, mas à primeira vista, o clima geral parece ser de "total liberação"... ou seja, muito sangue, violência, misticismo, sexo explícito e belezinhas afins.

Um detalhe interessante é que o carro-chefe da editora é a HQ Satanika - xará da SataNika, do blog Que Te Importa?! ... Será que a "heroína" da revista é uma homenagem? :P


Anexo 30/4


Enquanto passava o olho no texto, notei uma certa profusão do dígito 6 na tela. Juro que não é nenhuma mensagem subliminar da minha parte, mas que realmente parece obra do cão, parece.

Hum... "cão"... "dogg"... putz. :)


"If you wanna find hell with me... I can show you what it's!"

domingo, 24 de abril de 2005

MAIS UM! MAIS UM!


Acho que estamos testemunhando o nascer de uma nova era na história da Publicidade. É incrível... parece que foi ontem que Steven Spielberg malocou os dinos ultra-realistas de Jurassic Park até o dia de sua estréia nos cinemas. Até George Lucas e seu último Star Wars entraram na dança. Pelos atuais padrões, segredo já não é mais a alma do negócio e sim a super-exposição em seu aspecto mais instigante. É justamente isso o que nos gritam os marketeiros responsáveis pela divulgação de Sin City, Quarteto Fantástico e, principalmente, Batman Begins. No caso desse último, não que eu esteja reclamando. Tudo o que foi liberado - incluindo aí fotos oficiais, de externas de produção, teaser-trailer, pôsteres, trailers, spots para TV e Superbowl - é de um extremo bom gosto e só me deixaram ainda mais atraído pelo filme. Ou seja... sou uma vítima da mais nova tendência publicitária de Hollywood. Virei um mero número positivo naquele grande quadro de estatísticas, gostando ou não.

Mas eu sou suspeito, pois sou fã do personagem. Quando Batman for embora, quero ver como vai ficar esse carnaval de spoilers em forma de propaganda.

Logo abaixo, um seqüência com os pôsteres divulgados até agora. Um mais lindo que o outro. Clique nas imagens para ampliar.



A propósito, o lançamento da trilha sonora de Batman Begins, composta por James Newton Howard (A Vila) e pelo honorável Hans Zimmer, será num dia curioso: meu aniversário. :P


O KRYPTONIANO DA MÁFIA


Vinnie e Clark... separados na maternidade

The World Finest! Falei do Bruce, tinha de falar do Clark. Antes de mais nada... não é que o Brandon Routh é mesmo a cara do Vinnie Terranova? Pra quem não lembra, Vinnie foi o protagonista da ótima série O Homem da Máfia (Wiseguy, 1987-1990), e era interpretado pelo ator Ken Whal. Aliás, essa lembrança nem foi minha, foi do Castrezana - pra fazer um link desse nível, só ele mesmo. Mafiosos do mundo, tremei... vocês têm um kryptoniano infiltrado.

Mas voltando ao assunto... logo após os shots de Routh caracterizado como o repórter Clark Kent, a semana ganhou outro super-susto com a primeira imagem do ator usando o uniforme do Superman. Estava lá, bem entre o Ratzinger e o Lula liberando asilo político para aquele ladrãozinho equatoriano. Acho que ninguém esperava por essa imagem tão cedo. Pelo que li/ouvi por aí, as opiniões são hilariamente divergentes. Hilário, porque se trata de um uniforme simplista ao extremo, com linhas e cores bem minimalistas, e mesmo assim, virou pauta para discussões acirradas. A verdade é que o uniforme do Super está com um design mais rebuscado que aquele utilizado nos filmes anteriores. Chega a lembrar o traje de suas primeiras aventuras na Action Comics e daquele seriado em p&b dos anos 40. Se o "S" no peito fosse menos estilizado então... seria back-to-the-basics total.

Na minha opinião, não ficou necessariamente bom ou ruim (isso não mesmo), apenas diferente e um tanto intrigante. Mas que é uma boa contradição lá isso é, visto que o diretor Bryan Singer disse que o conceito da produção será uma continuidade dos 2 primeiros filmes. Então, não seria melhor se o visual do uniforme fosse mais "moderno" ou ao menos similar aquele que imortalizou Christopher Reeve?

De qualquer forma, já pipocam pela web versões photoshopísticas do uniforme oficial. Algumas realmente muito boas e até... hã, melhores, eu diria. Como essa aí logo abaixo.

Clique na imagem para vê-la ampliada e na íntegra.


Superman antes e Superman depois... do Photoshop

...mal aê Singer. Libera um trailer bacanão aí pra eu poder nivelar a parada. :)


dogg, tomando café forte e sem açúcar, ao som de Garotos, do Leoni... bela letra com um violão chupado de More Than Words, do Extreme

terça-feira, 19 de abril de 2005

DOMINGO NO PARQUE



"Toda a vez que o fardo da guerra começa a pesar demais, eu opto por atividades mais relaxantes. Por isso, estou iniciando uma espécie de safári... no Central Park" - Frank Castle.

Deve ser legal escrever o Justiceiro. É um pensamento quase imediato quando se lê as histórias dele roteirizadas pelo Chuck Dixon. Mesmo sem descambar pro arrastão gráfico do Garth Ennis, Dixon dava conta do recado numa boa, num estilão meio "Justiceiro censura 12 anos, com acompanhamento dos pais". Lá pelos idos de 1992 ele comandou uma série do anti-herói chamada War Zone, publicada por aqui na saudosa - e olhando hoje, esquizofrênica - Superaventuras Marvel.

Não sei bem em que essa série de arcos diferia do habitual, já que o velho Frank continuava passando que nem um rolo compressor em cima da bandidagem new yorker. Talvez tivesse uma abordagem mais rotineira, do tipo "hoje iremos mostrar o Frank indo ao cinema e matando 4 pungistas no caminho". Mais estiloso do que de costume, tinha lá a sua quantidade generosa de sangue e violência, e o personagem exibia muito bem aquela persona ambígüa, entremeando uma aura de anjo vingador com momentos de pura vileza distorcida. É difícil não admirar o sujeito quando ele salva um bebê das mãos de um junkie mal-intencionado, mas chega a ser nauseante quando ele mata o mesmo à sangue frio, impiedosamente.


Da edição #7 até a #11 de Punisher War Zone (publicadas na SAM #172, 173 e 174), Chuck Dixon começa com o divertido safári no parque, mas logo vira o jogo pra cima do Frank, quando ele passa a ser a presa. Sabe esse pessoalzinho aí em cima? São caçadores de recompensa atrás de cinco milhões de doletas, o câmbio da cabeça de Castle nesse arco. Nessas edições fica claro que o Justiceiro é o tipo do personagem que não tem problema nenhum em arranjar antagonistas de tudo quanto é tipo. Há pouquíssima repetição. Esse cast de inimigos aí, por exemplo, é bastante interessante.

E destaque para a arte como sempre magnífica de John Romita Jr., aqui ainda mais "quadradão e sujão". Eu adoro. Na reta final, Mike Harris assume o nanquim, mas não tem problema não. O traço dele até parece um pouco com o do Romitinha. :P

Clique na capa para downloadear a HQ.

Aliás, você sabe o esquema do Rapid Share, né? Escolha o Download FREE (óbvio!), espere a contagem regressiva na página seguinte e clique no arquivo pra baixar... qualquer dúvida, desista. :)


LINK EXPIRADO

Essa foi a primeira vez que eu fiz uso ostensivo do Photoshop, que é de fato um softzinho bom pra diabo. Favor me informar se ficou do seu agrado (ó mestre) ou não, pois pretendo escanear as próximas nesse mesmo estilo, rrrái?

Estranho... o post já acabou. Não ficou uma sensação de que faltou alguma coisa? :D


dogg...?

quinta-feira, 14 de abril de 2005

SONHOS AMERICANOS E FANTASMAS SOVIÉTICOS

THE ULTIMATES v2
#1-#4



Capitão América. Esse é o cara. Talvez seja o primeiro herói dos quadrinhos criado como parte de uma jogada de marketing político, mas que no frigir das boas intenções, era sim a representação de um conceito humanitário e maior. Hoje, claro, toda essa comoção we-are-the-world está em frangalhos e seriamente desgastada. Mesmo em território estadunidense, o personagem penou uma enorme queda de popularidade. Valores como o bem-comum, moral, honra e retidão de caráter, andaram muito mal representados nos meios pop contemporâneos. Nas HQs então, tudo isso passou para um longínquo segundo plano, com o estouro de heróis cada vez menos heróicos. Era um claro sinal dos tempos e por isso mesmo teve um efeito destruidor na trajetória do Paladino da Liberdade (mas chega desse papo que você já sabe... essa excelente matéria destrincha toda a macarronada heróico-sócio-geopolítica envolvida com eficiência ímpar... meio velha, mas pra mim, uma referência até hoje).

O problema básico e imediato era exatamente a natureza simbólica desse herói que tem uma bandeira por uniforme. Hitler morreu faz tempo e as guerras de hoje andam cada vez menos justas e maniqueístas. Sua pátria-mãe, principalmente, há muito deixou de ser aquela inspiração de liberdade, igualdade e solidariedade entre os povos do mundo – o que era exatamente a força-motriz que o impulsionou desde seu primeiro momento. Mark Millar (já posso chamá-lo de 'mestre'?) acabou atualizando o personagem com um recurso que, embora arriscado, era tão efetivo quanto inevitável... deixou o Capitão ser a América. Mas a América caótica dos dias de hoje: selvagem, individualista, intolerante e protecionista. Tanto para o personagem quanto para o seu país, nada foi mais natural. Depois de escrever sua História com muito sangue, violência e política do medo ao longo dos séculos, algum dia aquele caldo de boas e idílicas intenções iria entornar. E isso é mais do que evidente nas atitudes totalmente reacionárias do novo Capitão. Ele é a personificação quase perfeita daquela parte dos EUA que tem sotaque texano carregado, que exibe orgulhosamente seus filhos pequenos empunhando um berro, que tem um quase patológico complexo de superioridade, e que, se pudesse, chamaria até Deus de "filho".

Explicando melhor, a minha admiração pelo personagem é muito mais pela analogia à política estadunidense atual, brilhantemente construída por Millar. O Capitão não virou uma versão super do W. Bush (que é um babaca sem culhões), mas ao menos um super-general Norman Schwarzkopf (da Operação Tempestade no Deserto e, esse sim, um babaca com culhões), que cabe aí até com uma certa folga. Além de tudo, isso acabou soando pra mim como uma crítica das mais inteligentes, daquelas que não sofrem com a censura, pois mantêm perfeitamente a roupagem aparentemente banal do entretenimento mainstream.


E cá estamos nós de volta ao universo ultimate dos Vingadores, ao universo dos Supremos. Depois daquela épica guerra dos mundos do final do volume um, a vida continuou e as prioridades da equipe foram se adequando conforme a situação. Naturalmente o grupo acaba se tornando o hit number one nos Estados Unidos, sob os olhares temerosos do "resto" do planeta. Respostas aos Supremos aparecem em várias partes do mundo, principalmente na União Européia (Millar é foda...), dando início a uma insólita corrida super-heroística entre as nações do 1º escalão. Por enquanto, tudo em ritmo de cooperação mútua e na mais amigável reciprocidade.

O dr. Banner/Hulk – devidamente monitorado e acobertado pela SHIELD - continua sob detenção especial, devido à bagunça que aprontou em Manhattan. Janet Pym, a Vespa, ficou mesmo com o milico Steve Rogers, que virou uma espécie de superstar do governo americano. Hank Pym, o Gigante, continua rondando pelos corredores do Triskelion, mas extremamente desacreditado. Pietro, o Mercúrio, e sua irmã Wanda, a Feiticeira Escarlate, comparecem na equipe mais como convidados. Aliás... a relação caliente dos dois é pra lá de suspeita (Millar é foda²). E Tony Stark... está in love. Contratou três milhões de pessoas só pra formar um coraçãozinho e a frase "will you married me?"... O amor é lindo, mas o amor super-heroístico-bilionário é mais lindo ainda.

E volta também o personagem que está para os Supremos como o Imperador está para Star Wars. Nick Fury L. Jackson continua mexendo seus pauzinhos político-administrativos e ainda mantém aquela cara de quem está escondendo o jogo e tem muitas outras intenções obscuras... caralho, é foda dizer isso, pois é só a porra de um desenho... como é que eu vou saber se o cara está pensando coisas obscuras?! Parece coisa de maluco, mas pode acreditar... a arte embasbacante de Bryan Hitch às vezes chega a arrepiar de tantas nuances emocionais. Ainda mais no caso desse personagem, que tem seus fortes traços faciais inspirados no negão mais foda de L.A. E por falar nisso, o Professor Xavier/Patrick Stewart ficou nada menos que perfeito.

Para enfeitar a coisa toda com uma embalagem mais in, The Ultimates v2 não poupa esforços. "Estão lá" o Jay Leno, o Larry King, o David Letterman e até a Oprah. O Capitão desce pela Times Square abaixo, cercado pelos spots gigantescos da Coca-Cola e da Sony. Isso sem esquecer a exploração intensa da mídia no "caso Bruce Banner" (na história Trial Of The Incredible Hulk – uma belíssima homenagem ao seriado dos anos 70... só faltou aquele pianinho triste no final).

The Ultimates v2 é pop!


Mas The Ultimates v2 é incógnita também!

O mistério envolvendo o passado escabroso de Thor é aparentemente desvendado, e em uma dose nada homeopática. Ao mesmo tempo, o Deus do Trovão se envolve ainda mais com grupos ativistas anti-globalização, anti-invasão ao Iraque, pró meio-ambiente, etc, inclusive interferindo em conflitos de rua mundo afora. Como se não bastasse, ele ainda se vê em uma bizarra teia de conspirações, que pode ou não envolver seu meio-irmão Loki. E pra finalizar, ele virou um alvo primário dos Supremos! Apesar de tudo parecer uma via de mão única, ainda acho que pode haver uma reviravolta braba aí. Estou achando isso muito tendencioso... Millar não ia deixar tão entregue assim. Ou será que ia? Em todo caso, segue uma pista que destoa de tudo o que foi comentado sobre a "origem secreta" do soberano de Asgard: essa característica (calma, não é spoiler... já foi publicado no Brasil).

Ultimates v2 ainda não trouxe grandes seqüências de ação, mas o fino sempre esteve nos diálogos, nos climas amargamente tensos e no desenvolvimento quase novelesco das situações. É, "novelesco", mas no bom sentido... Às vezes lembra até as reviravoltas improváveis do antigo novelão Dallas (imemorável se você tem menos de 25), cheio de performances em tribunais, maquinações políticas sórdidas e segredos familiares vindo à tona com o ventilador ligado na potência máxima. Hmmm... "Dallas"... Texas... caipiras no poder... Mark Millar é foda³.

E a frase do ano até agora é de ninguém menos que o Rogers ultimate, claaaaro...

"Sorry chum. Youre NUTS and youre going down!"



ATOMIKA - GOD IS RED
#1



Se você pensou em Superman - Red Son, quase acertou. A diferença é que se trata de outra realidade... ou, no melhor jargão decenauta, outro elseworld. Mas logicamente, a referência é imediata: um super-homem idealizado pula de uma utopia mezzo nietzschiana pra assumir a sua posição incontestável de líder da Humanidade. Ele não veio de outro planeta ou dimensão espaço-temporal só para favorecer um bloco político em particular. Não há nada de "exterior" aqui, muito pelo contrário. Atomika, o tal super-homem, foi criado no coração do Estado Socialista, num meio-termo entre misticismo, unificação espiritual, forças elementais ativas e engenharia genética de ponta. E tudo isso em 1934. Esquisito, mas suficiente para mudar o destino do planeta. A União Soviética não entrou em colapso, baniu todo e qualquer tipo de religião, se transformou em um complexo industrial global, e fez a América e o mundo marchar sob a bandeira vermelha do martelo e da foice.

Diferente do visto em Superman - Red Son, a abordagem em relação à atmosfera comunista é melhor direcionada, apesar de estranhamente estereotipada. Lembra da visão do comunismo vendida para o Ocidente durante os anos de Guerra Fria? Os soviéticos pareciam andróides sem alma, assépticos, frios e mecanicamente produtivos. Claro que hoje é um absurdo, mas a verdade é que na época "ninguém" sabia o que se passava por trás daqueles muros. Era preferível ser chamado de satanista do que comunista. Havia uma contra-propaganda agressiva que nunca fez sentido real pra mim. O universo criado por Sal Abbinanti e o roteiro de Andrew Dabb acerta em cheio quando aponta que a verdadeira Revolução está em cada um de nós e que vai se tornando mais forte conforme a massificação dos mesmos anseios. O resultado desse milk-shake marxista (ô contradição) é justamente a "entidade" Atomika, que recebeu a ajudinha da tecnologia e de antigas divindades pagãs da Rússia czarista.

Essa primeira edição tenta canalizar todo esse fuzuê conceitual para a linguagem dos quadrinhos, mas sem suavizar a experiência para um paladar mais pop. É isso aí... Atomika - God Is Red é uma bad trip pesadona e claustrofóbica. Exemplos... não existem balões, apenas recordatórios acompanhando as impressões do personagem. O enquadramento não segue nenhum padrão convencional e é cheio de páginas duplas entrecortadas por quadros menores. Apesar de se dedicar a contar a sua origem, ela jamais é mostrada de forma literal, apenas através de paradoxos, simbolismos e muita sugestão (a América, p.ex., só é chamada de "Liberdade"). O próprio release divulgado já dá uma boa amostra do que esperar: "Atomika é filho da Mãe Rússia. Seu pai é o aço existente na Terra. O mesmo aço que o Homem usou para forjar sua tecnologia". E isso é mostrado exatamente dessa forma na HQ, literalmente. O clima é tão denso e repleto de grandiloqüência wagneriana que chega a dar medo. O texto parece excertado de algum diário do Solzhenitsyn num dia particularmente deprê em sua cela. Assustador. Eu não leio essa HQ à noite nem a pau.

A arte, do próprio Abbinanti, segue à risca o conceito barroco e impressionista do roteiro. Aliás, impressionista nem tanto, mas surrealista sim... ao extremo (ex.1, ex.2, ex.3, ex.4). Totalmente perceptivo ao texto, ele usa e abusa do sombreamento e carrega na sujeira lisérgica e desconexa. Parece uma cruza de Edvard Munch com Millôr Fernandes em pleno Dia do Folclore. Imagina isso com aquelas pichações que se vê em qualquer terminal de ônibus ou metrô... surreal.

Não deixa de ser louvável o fato da Mercury Comics investir em um projeto tão anti-comercial. Isso prova que ainda existe vida no ramo dos quadrinhos de arte. E ao que parece, a coisa está sendo levada em grande estilo mesmo. As capas das 6 primeiras edições foram feitas só por gente badalada: Alex Ross, Glenn Fabry, Michael Turner, David Mack e Tim Bradstreet.

Clique nas capas para ampliar.



No final das contas - e de apenas uma edição (!!) - fiquei transtornado o bastante para me interessar pelo próximo capítulo. É uma viagem insana, estranha e para poucos. Portanto, eu não recomendo essa HQ a ninguém - a não ser para mim mesmo. Embarque por conta e risco.

A propósito, finalmente descobri o que significa a abreviatura de KGB... é Komitet Gosudarstvennoy Bezopasnosti. Tem alguma boa alma siberiana aí pra traduzir isso pra mim?


Na trilha: Utopian Blaster, porradaria doom do Tony Iommi com o Cathedral (não a banda gospel!)...

domingo, 3 de abril de 2005

JLA + SEINFELD =


JLA Classified é um título recente da Liga da Justiça. Nas três primeiras edições não vi muita diferença do approach que é habitualmente dado à equipe, mesmo com um roteiro leve e descompromissado de Grant Morrison e com o traço maneirão do Ed McGuinness. É aquele negócio: muita ação, corre-corre interdimensional, pancadaria envolvendo monstros gigantes e uma trama muito bem amarrada. Prato cheio quem gosta de uma boa aventura pop super-heroística.

Eu, por outro lado, gostaria que o Gorilla Grodd fosse morto em alguma dessas sagas homicidas da DC. Cansei desse negócio de macaco inteligente.

Mas eis que chega a edição #4 e JLA Classified vai pra galera. Keith Giffen, J.M. DeMatteis e Kevin Maguire estão de volta, malandros como sempre e apostando nos detalhes mais sacanas que fizeram o sucesso de Já Fomos a Liga da Justiça. Virou fórmula, mas mesmo assim continua genial. Todos aqueles personagens do 32º escalão da DC - as "baixas aceitáveis" da editora - em situações e diálogos constrangedores e cheios de duplo sentido. Mas, acima de tudo, retorna aquela fina flor da canastrice heróica: o empresário salafrário Maxwell Lord, seu personal sar"caustic" L-Ron, a dupla nonsense Besouro Azul & Gladiador Dourado, o Homem-Elástico-e-tapado, a brasileira boazuda e desbocada Fogo e a silly girl serelepe Mary Marvel.


Quem já leu a série antiga e as minis especiais já sabe o que esperar e o que não esperar desse balaio de gatos. Se a ação vinha diminuindo gradativamente em favor das gags bem-humoradas, aqui praticamente não há quebra-quebra. JLA Classified é quase um sitcom de super-herói. Isso é realmente ruim num certo ponto, mas por outro é uma festa para aqueles que gostam de diálogos afiados e pingando de cinismo (eu! eu!). E já pintaram seqüências antológicas, como a Fogo apresentando Mary ao cafezinho expresso e deixando a menina ligadona, Besouro zoando o casamento arranjado do Gladiador, a insistência do Homem-Elástico em espalhar que sua esposa Sue Dibny está grávida, sendo que ela não está... opa, peraí. Sue Dibny?! Pára tudo...

Lembra das "sagas homicidas" que eu comentei logo acima? Então... uma delas responde pelo nome de Identity Crisis e foi a maior pedra no sapato de Giffen e deMatteis na continuidade dessa Liga outsider. Eles acharam que assassinando personagens secundários e manchando o passado de alguns heróis renderia um roteiro "chocante". Talento passou longe por ali, e Sue Dibny foi a mais prejudicada nessa história. Praticamente desconhecida na cronologia principal, ela (e outros tantos) foi brilhantemente reformulada por Giffen/deMatteis, ganhando mais personalidade e carisma que muito herói famoso por aí. Aí veio Identity Crisis e fez a merda que fez. Sue Dibny encarou uma via crucis que começou num estupro imbecil e terminou numa morte idiota. Restou à dupla de roteiristas tomar a melhor atitude possível: ignorar esse fato. E eu aplaudo em pé.

Quanto à Identity Crisis, fico com a mesma opinião de Michael Deeley, do Silver Bullet:

"God damn Brad Meltzer and his mediocre pen!"

Em tempo... ao que parece a DC pegou a Liga de Giffen e deMatteis pra Cristo. Dizem que a próxima vítima será o Besouro Azul. E o local do crime será Countdown, a reformulação nº do Universo DC. Quanto mais eu rezo...

Mas voltando...

...um dos maiores achados de Já Fomos a Liga da Justiça foi a troca de Marvels na equipe. Sai o Capitão, entra a inocente Mary, com o mesmo ar de escoteira dos anos 40. Muitos podem reclamar da postura altamente "pollyana" dela (improvável nos dias safados de hoje), mas é justamente esse contraste que é bacana. É como se atirassem um coelhinho num mar de tubarões famintos. Isso rendeu muito antes e continua rendendo. Principalmente agora que ela divide a cena com outro resgatado... mr. Guy Gardner himself.






Essa cheiradinha no dedo foi foda. Mas teve troco. Depois que se recuperou, a doce Mary deu uns tabefes no "malfeitor". E acho que ela fará ainda pior nos próximos capítulos, como aparenta nesse preview da capa da edição #8.


Embora pareça uma versão playmate do Black Adam... gostei do visual. Será que ela tomou uma overdose de cafezinho expresso? :D


Ah, e cabe aí uma homenagem ao Kevin Maguire. Ele ainda é o rei das expressões faciais. Poucos conseguem transmitir tanto com traços tão simples. E a arte-final do ótimo Joe Rubenstein só aumenta ainda mais a sensação de realismo, dimensão e profundidade física dos personagens. Ver o trabalho dos dois é um colírio para os meus olhos, cansados de tantas expressões sisudas e "machonas".


dogg... esperando pra ver a merda que vai dar hoje lá no Maraca.