terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Bem-vindo à selva


Deu na Wired: com Avatar, James Cameron pode mudar para sempre a maneira como você assiste filmes. No mínimo, o épico 3-D deu um passo gigantesco nesse sentido. E mais importante, imprimiu no expectador um novo padrão de como ele quer consumir cinema daqui pra frente. Porque não dá pra sair indiferente de uma sessão de Avatar, como se fosse apenas um vislumbre do que virá num futuro provável. Com o filme, Cameron agendou a revolução pra ontem.

A excelente matéria da Wired não fica apenas na superfície do resultado final. Documenta a gestação de Avatar desde os primórdios da carreira do diretor. O ano era 1977. Cameron (ex-caminhoneiro e ex-estudante de filosofia) e um amigo acabavam de sair de uma sessão de Star Wars. O eterno hit de George Lucas tinha sido um entretenimento memorável para o amigo, mas para James Cameron foi muito mais que isso. O universo criado por Lucas bateu fundo na sua alma. Naquele momento ele decidiu que também queria criar o seu.

Vinte e três anos, um andróide e um transatlântico mais tarde, Cameron se reunia com engenheiros da divisão de câmeras HD da Sony, em Tóquio. O objetivo era criar uma nova tecnologia, transcendendo mais uma vez o (não tão) simples ato de se fazer cinema. As especificações da encomenda são fascinantes, mas o principal era que o cineasta finalmente agregava as condições necessárias para empreender seu Big Bang particular. E conseguiu.

Tudo o que se refere ao esmero plástico e técnico de Avatar é impecável. O 3-D digital imposto por Cameron ao estúdio e às redes de cinema norte-americanas são imediatamente justificáveis, ainda que tenha sido idealizado para exibição no IMAX (oboy!). Pandora, a lua onde se passa o filme, é peculiar e funcional, uma exuberante explosão de vida, saturada de cores, nuances e grandiosidade - nada mal pra quem só havia trabalhado com o feioso LV-426, um planetóide rochoso e estéril que nem era cria dele. Sua população nativa, os Na'Vi, têm expressões faciais e linguagem corporal convincentes na maior parte do tempo e a fauna e a flora local são variações quase oníricas do que temos aqui, nesse planetinha solitário mas cheio de imaginação. É a Floresta Amazônica curtida em Santo Daime. Um espetáculo visual e sensorial que só Hollywood mesmo.

O roteiro de Cameron há muito já não traz mais o punch do novo. E isso já é de velho. Porém, nunca deixou de ser eficiente e isso se aplica aos escritos de Avatar. É uma aventura pop redonda "com mensagem" e várias daquelas convenções que marcaram época no mainstream, mas que jamais envelhecem nas mãos de um craque. Houve até um bafafá questionando a originalidade do filme, relacionando desde gibis obscuros (que eu li, é bacanão e surpreende mais pela presença de Jimi Hendrix!) e animações meia-boca até o capista do Yes (semelhança, de fato, impressionante), além de um top 10 temático inteiro. Da minha parte, todas as espinafradas se esvaem no momento em que se pergunta: e ele fez um bom uso desses elementos?

Além do quê, tenho lá minhas próprias teorias pós-filme. Avatar é O Novo Mundo, do cultuado Terrence Malick. Similaridades permeiam desde a narração em off do protagonista, às duas visões da trágica história de Pocahontas até às circunstâncias profissionais dos dois cineastas: Cameron retorna após um sumiço de doze anos; Malick praticamente inventou os sumiços de mais de dez anos.

Quando o assunto é estilo, o diretor cita a si próprio na brilhante produção de Aliens, O Resgate - nestes termos, a primeira cena de Sigourney Weaver em Avatar é tão sutil quanto um show do Motörhead. Estão lá os mariners vindos direto do Texas, ajustando seus arsenais para a batalha iminente (por sinal, o ameaçador Cel. Miles se equipara ao Cel. Koobus, de Distrito 9). As unidades robóticas, os jatos, helicópteros e bombardeiros parecem da mesma indústria de armas e, mais uma vez, uma corporação sem rosto manipula as cordas do outro lado da galáxia.

No mais, é puxar pela memória. Cameron resgata aqui a latina durona Vasquez (Michelle Rodriguez), o heróico Hicks (Sam Worthington) e o corporativo Burke (Giovanni Ribisi), fora Sigourney Weaver no melhor papel de Sigourney Weaver. Ele poderia fazer mais meia dúzia de filmes assim, que ainda pediríamos continuações.

Avatar, embora estrondoso, não deve fazer James Cameron quebrar a banca de novo, nem sair abocanhando geral na cerimônia da academia. Mas o filme trouxe a "normalidade" de volta à vida do cineasta, que já conversa abertamente sobre seus próximos projetos - um bom sinal de que a espera será menor até a próxima escala. E, brincando, ainda rendeu o blockbuster do ano.

Rapaz, como esse cara fez falta!