segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

You can dance, you can bite

Já fazem uns bons 30 anos desde que John Landis botou os mortos-vivos para balançarem os esqueletos (literalmente) no icônico vídeo de Thriller. O grupo indie rock John Butler Trio resolveu dar continuidade à tradição e deu uma entortada no mortus operandi das criaturas, resultando num mix desengonçado-mas-bacanudo do clássico do Jacko com o filme Meu Namorado é um Zumbi.


Segundo o próprio John Butler:

“‘Only One is one of those ‘turn around’ songs. The idea of a Zombie love story came to me a while ago. I wanted the song and video almost to be juxtaposed but still somehow have an element of love… and humour. I think we made a seriously cool and funny video. I love it. Even if I do look dead!”

E ainda ficou parecendo os mariachis de Um Drink no Inferno, caso tivessem sido mordidos por um zumbi ao invés de um vampiro. Dadas as condições de trabalho no Titty Twister... wrong undead.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

We have a Hiddleston


Thor: O Mundo Sombrio adota parcialmente a estratégia bigger-stronger-faster das sequências cinematográficas. No caso, maximizando apenas alguns dos ganchos do Thor edição #1, sendo o mais proeminente o inusitado humor físico - com resultados pra lá de variáveis, é verdade, mas, ei, estamos vivendo num mundo onde se produzem continuações ao vivo & arrasa-quarteirão do Thor... o quão orgástico é isso pra quem um dia teve que se contentar com os desenhos inanimados da Grantray-Lawrence? Além do mais, se na estreia do asgardiano imperava uma vibração condescendente e refém do evento Os Vingadores, O Mundo Sombrio se revela mais independente, malandro e ambicioso. Ao menos bem mais do que, por exemplo, Homem de Ferro 3.

Uma das maiores qualidades do filme é justamente a valorização da química proposta na primeira aventura. Voltam todos os elementos grandiosos/hollywoodianos de Asgard e o microcosmo indie terrestre - algo montado até com certa ousadia pelo diretor Alan Taylor e pelo roteiro a 3 mãos (chutando que nenhum é ambidestro) de Christopher Yost, dos divertidos Hulk vs., Christopher Markus e Stephen McFeely, que souberam extrair novamente bons frutos da colisão improvável entre esses dois extremos. Nota-se que não apenas apostam, mas de fato acreditam no material que herdaram. Claro, nem tudo é perfeito e o filme tem lá sua dose brobdingnaguiana de clichês e forçadas de amizade, mas até aí, a cota está dentro dos limites do cinema mainstream - não só o dos EUA.

A abertura de O Mundo Sombrio é praticamente um revamp da intro do primeiro filme, retrocedendo em 1 geração a família de Odin e apagando os Gigantes do Gelo para colar os Elfos Negros por cima. Remanescente de uma época em que ainda não existia a luz, a raça ancestral é liderada por Malekith, que pretende usar uma força obscura chamada Éter para jogar o universo de volta à escuridão, mas é derrotado por Bor, governante de Asgard e pai de Odin. Nesse ponto fiquei pensando como seria interessante uma abordagem maior desse personagem, que, apesar de sábio e o deus-in-chief, transparecia ser pouco mais que um guerreiro rústico e selvagem, fazendo o contingente asgardiano atual parecer um catálogo de modelos da Gucci. Só que a batalha é mostrada já em seus momentos finais (o ator, Tony Curran, sequer é creditado) e a narração em off de Anthony Hopkins, o Odin em pessoa, logo dá lugar a uma sitcom na Terra. Bizarro assim. Mas um bizarro bom.

Por incrível que pareça, esse crossover de gêneros funciona, já que o roteiro é bastante espirituoso ao desenvolver o segmento pessoas/rotina/perrengues do dia-a-dia. E o elenco, agora radicado em Londres, retoma a sintonia: Natalie Portman reprisa sua Jane Foster amargando uma fossa pelo sumiço do seu Deus do Trovão favorito enquanto tenta fazer a fila andar a contragosto (pueril, mas ótimo momento o do encontro no restaurante, graças ao timing cômico de seu parceiro de cena, o inglês Chris O'Dowd); Stellan Skarsgård faz um dr. Erik Selvig completamente noiado após sua experiência em Os Vingadores (impagável, mas eu podia passar sem vê-lo balangando as castanhas em Stonehenge); Kat Dennings continua fazendo com sua Darcy o que faz com toda personagem que cai em suas mãos, ou seja, cara de whatever; já o novato Jonathan Howard, que interpreta o estagiário Ian, é um raro caso de coadjuvante cômico da coadjuvante cômica (Darcy), também não muito feliz em nos fazer felizes.


Enquanto na Terra a vida segue, em Asgard, Thor (Chris Hemsworth, completamente à vontade) e seus camaradas concluem uma guerra de 2 anos que pacificou os Nove Reinos após as traquinagens de Loki - que pode até não ser um deus per se, mas com certeza dividiu o calendário de Tom Hiddleston em "antes de Loki" e "depois de Loki". Tudo corre bem, Asgard está em paz, Loki está em cana e Thor vê a sucessão de Odin cada vez mais próxima, mas aí o caldo entorna com o retorno de Malekith - que não desistiu de restabelecer seu antigo way of life, não hesitando em sacrificar seus semelhantes pela causa - e do reaparecimento do Éter, o elemento que fará a diferença numa guerra contra a toda-poderosa Asgard.

Há uma metáfora redondinha aí sobre a política externa dos EUA e seus reflexos pelo mundo, com direito à nave batendo em torre e tudo. É o tipo da coisa que o cinemão hollywoodiano vomita sem perceber e que faz o Žižek lavar a égua com Lux Luxo. Mas vou praticar o silêncio de rádio aí, pois a vida é muito curta. Apenas uma coisa: não há lugar melhor para captar o pensamento norte-americano, conservador ou liberal que seja, do que num blockbuster. Não pela mensagem que eles querem transmitir, mas pela mensagem que eles nem imaginam que estão transmitindo. Spy this, NSA.

Não deixa de ser instigante a estética Terra-Média-encontra-Guerra-nas-Estrelas da periferia asgardiana. Um saudável fuzuê pop-cultural com trolls, alienígenas e cavaleiros se digladiando com machados, espadas e armas de raios é a liberdade criativa primitive-future definitiva. Sword & sorcery &, porque não, sci-fi. He-Man e os Defensores do Universo agradecem. Thundercats e Thundarr, o bárbaro, mais ainda. Ver a Natalie Portman mais uma vez se aventurando nesse contexto foi um agradável déjà vu. Igualmente curioso é o centrão de Asgard, com arquitetura à Oscar Niemeyer in the 25th Century e naves "aladas" que lembram coisas d'O Incal, do mestre Moebius. Meio acachapante ver isso com tamanha amplificação sem esperar. Durante a invasão dos Elfos Negros eu queria mais era descer ali numa avenida qualquer e interagir com os cidadãos, conhecer a gastronomia local, bater umas fotos...

Esse esmero visual se repete no filme inteiro harmoniosamente; ao contrário do anterior, não há efeitos de 1ª convivendo com outros meia-boca. Pena que o coração nem sempre esteve no lugar certo. Um bom exemplo foi a deliciosa referência sabor Harryhausen à primeira ameaça que Thor enfrentou nos quadrinhos - um legítimo kronan da raça de guerreiros de pedra que o loirão combateu em sua estreia, muito bem-feito e impressionante. Aquilo foi de encher de amor e ternura o coração fanboy, mas a conclusão incrivelmente abrupta foi como levar um fora via SMS com emoticon triste no final. Por ali já dava pra ver que o cineasta Alan Taylor (claramente um não-nerd), ao contrário de Joss Whedon (obviamente um nerd), não ia se render tão fácil ao doce prazer culpado de gastar alguns milhões do orçamento em uma sequência de porradaria-pela-porradaria igual aos quadrinhos.

Aliás, Taylor deixa seu DNA profissional bem impresso ao longo da trama, particularmente a experiência acumulada em séries de ponta. As conspirações, subtramas, dramas familiares e anti-heroísmo têm um pé fincado em Game of Thrones, Roma e Família Soprano, sempre para o melhor. Em contrapartida, o delivery escancarado pra mocinha boba suspirar alto denuncia os vários episódios que dirigiu em Sex and the City. Pela primeira vez as namoradinhas de plantão vão gostar de ter ficado até o fim dos créditos. E pela primeira vez, eles não.


O Malekith do ótimo Christopher Eccleston é mais sombrio e unidimensional que o dos quadrinhos, onde era um tipo manipulador e shapeshifter, Loki-like. Em compensação, era bem menos poderoso, então fica elas por elas. Kurse nos quadrinhos era mais legal, mas esteticamente impraticável num filme - podiam ao menos ter poupado aquela bobagem de guerreiros "kursed". Já Odin, está mais irascível e menos ponderado, o que é compreensível dadas as recentes guerras e turbulências familiares, enquanto a Frigga de Rene Russo finalmente tem algo a dizer e fazer, sendo vital para uma das reviravoltas da trama.

Os Três Guerreiros tiveram uma participação tímida (Hogun foi dispensado logo de cara), com exceção do novo Fran "Chuck-você-por-aqui?!" dal, estranhamente destacado e mostrando que o agente de Zachary Levi é dos bons. E foi um crime o desperdício da Sif da deusa Jaimie Alexander. Além de boa atriz que convence nas cenas de ação, as diferenças parsecquicas entre Sif e Jane renderiam um triângulo promissor com o rapagão do martelo, o que foi tratado de forma apenas superficial.

Um dos aspectos discutíveis foi a superdosagem de humor, principalmente na 2ª metade. Se no filme de Kenneth Branagh o clima jovial já trafegava no limite, aqui a coisa acelera na ladeira - a já citada presença de dois coadjuvantes cômicos, mais Skarsgård no Jackass mode, não é menos do que sintomático. Chega a prejudicar a sequência final, diluindo qualquer tensão e sensação de perigo relativa ao ataque dos Elfos Negros em Londres. Até a luta entre Thor e o Malekith deusificado pelo Éter - bacana e expensive, se revezando entre dois mundos - ganhou toques engraçadinhos. Era só o universo conhecido que estava em jogo ali.

Fora que já deu assistir vilões de filmes conquistando seus respectivos MacGuffins-fontes-inesgotáveis-de-poder, pra depois não saber o que fazer com eles e, pior, serem derrotados num mano a mano com o herói. Thanos, a maior antítese disso nos quadrinhos, que se cuide.

Algumas inconsistências também batem ponto no roteiro, sendo a maioria TOCs aparentemente incuráveis do cinemão pop. Então dá pra eleger uma preferida e abstrair o resto em nome da busca pela felicidade: fico com a cena em que Jane e Thor se abrigam na mesma caverna onde está o portal de convergência com a Terra, no exato momento em que o celular dela está tocando por lá. Uma beleza de atentado ao item #19 das regras do bom roteiro propostas por Emma Coats, da Pixar. Escolhi bem ou não?


Como sequência, Thor: O Mundo Sombrio cumpre seu papel sem fugir ao script, não fosse um trunfo que o projeta sensivelmente acima do padrão: Tom Hiddleston, sério candidato a maior rockstar da Marvel Studios pós-Robert Downey Jr., talvez até apressando esse fim de era. Com um senso soberbo de continuidade, o ator não parou de evoluir e enriquecer o personagem em relação às já memoráveis performances em Thor e Os Vingadores - até porquê é evidente que ele está se divertindo pra caralho ali - e ainda gera interesse de sobra para justificar novas situações e aventuras. Solo, inclusive.

Ao final, fiquei muito mais curioso pelo "what's next?" de Loki do que o de seu meio-irmão. Fez por merecer essa sua "trilogia trapaceira" (a única do gênero!) e, tomara, os vários capítulos que virão, como deixa antever a conclusão.

Em Loki eu confio. Epa...

Thor: O Mundo Sombrio ("Thor: The Dark World", Estados Unidos, 2013), 111 min.
Direção: Alan Taylor
Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Kat Dennings, Stellan Skarsgård, Tom Hiddleston, Anthony Hopkins, Christopher Eccleston, Jaimie Alexander, Zachary Levi, Ray Stevenson, Idris Elba, Rene Russo

Ps: então... Guardiões da Galáxia será esse camp todo mesmo? Schumachers me mordam.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Kneel before Thor


Nem sempre são as grandes produções que nos marcam. Às vezes, esse papel é assumido por filmes com ambições mais modestas, escapistas, não raro beirando o guilty pleasure. Foi mais ou menos meu caso com Uma Noite de Aventuras (Adventures in Babysitting, 1987), com a adorável Elisabeth Shue no auge de sua adorabilidade. A história era um Depois de Horas adolescente safra anos 80, levando o(s) título(s) ao pé da letra. Figurinha fácil na Sessão da Tarde até uns anos atrás. E eu, telespectador fácil do filme, sempre que podia. Por uma inesperada afinidade.

Por exemplo: um dos garotos é apaixonado pela personagem de Shue, a tal babá (leia-se garota mais velha-quase mulher), que se mostra compreensiva, lisonjeada, doce e totalmente demais ao lidar com esses sentimentos (por causa dessas coisas que ele se apaixonou em primeiro lugar) antes de tentar dissuadí-lo com pretextos do calibre de você-tem-a-vida-inteira-pela-frente e o destruidor a-nossa-amizade-é-muito-mais-importante e se voltar para o seu verdadeiro target romântico, que é independente, descolado e está na mesma faixa etária que ela... ai... alguém mais precisa uma bebida?

Se isso bateu forte, o que dirá da irmãzinha caçula do rapazote de coração partido: um autêntica fanboyzinha do Thor, colecionadora de gibis e pôsteres do herói, e que usa roupas com as cores dele - com direito à elmo com asinhas e um Mjolnir de plástico!

Logicamente, ela e seu ídolo são zoados o tempo todo pelo irmão mais velho, mas isso até ela e o próprio "Deus do Trovão" salvarem a pátria numa cena emocionante...


Confesso que só um tempão depois percebi que era o Vincent D'Onofrio ali. Ator improvável, atriz improvável e até herói improvável (Thor, referenciado numa comédia juvenil em plena década do neon?). Mas de alguma forma a química aconteceu e até a essência do que é ser um herói está lá, fazendo o que os heróis fazem: a diferença.

Uma das homenagens mais bacanas que o cinema já prestou aos quadrinhos.

God of Thunder vs. Black Metal King!

Achaste que o Thor do estúdio The Asylum e o Thor do velho seriado do Hulk eram os piores deuses do trovão já personificados? Digo-te não!, valoroso amigo! Há muito, muito tempo atrás, num mundo muito, muito distante (o 1º) havia uma famosa revista especializada em heavy metal...


Publicada na Kerrang! em 1984, a presepada fotonovela "Thor versus Cronos: When Titans Clash!" trazia protagonistas que eram seus próprios personagens, por assim dizer: o bodybuilder, ator e cantor Jon Mikl Thor, da banda de heavy/hard Thor, e Conrad "Cronos" Lant, baixista e vocalista do Venom.

Considerando que Thor (o Jon Mikl) construiu toda a sua "carreira" em cima do mito nórdico e que Cronos é o tataravô do black metal, ambos sempre com indumentárias de guerra e tudo, pode-se dizer que o Bem e o Mal estavam bem representados. E que qualquer senso de ridículo foi completamente desintegrado em nível atômico. Se existe uma prova de que os dois entraram pra esse negócio pra valer é essa.

Além das bravatas falaciosas, sangue falso e canastrice suprema até para fazer poses, destaque para a amada do herói, a "Pantera" mais famosa do metal até o surgimento de Phil Anselmo & cia...


Detalhe para os créditos, com desculpas prévias à Stan Lee. Chorei.

Via Bazillion Points.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Poderoso Thormento


Esculhambar O Poderoso Thor é muito pior que chutar cachorro morto. O longa para TV foi mais uma incursão do estúdio The Asylum, desta feita, para capitalizar em cima do hype do Thor da Marvel Studios. Então era mais que óbvio que sua natureza seria de subproduto genérico rasgado. Mas O Poderoso Thor consegue ser avant-garde em sua incompetência. A produção está muito abaixo do status de ruim, pois até pra isso existe o pré-requisito básico de querer ser um filme. E essa ambição em nenhum momento se desenha nessa pilha fumegante de estrume. Qualquer esforço em racionalizá-lo enquanto forma de arte - mesmo a mais pedestre possível - supera facilmente todos os esforços dispendidos desde sua concepção até a sua exibição - no que, creio, ter sido uma noite trágica para o canal Syfy.

Em comparação ao Thor-filme, às diversas versões de Thor dos quadrinhos, ao da mitologia clássica, à reimaginação alternativa bitolada que seja, é o equivalente filmográfico à restauração do Cristo de Borja, sem o apelo da piada involuntária. É um antifilme mais carne de pescoço que muito filme experimental por aí.

Enfim.

Fica claro que o orçamento foi todo captado no semáforo com a venda de paçoquinhas superfaturadas. Qualquer sombra de técnica e planejamento inexiste, soando como se tivesse sido criado na hora em que as câmeras foram ligadas, num único take é-tudo-ou-nada na "melhor" tradição de Ed Wood. Mesmo assim, um bacana chamado Christopher Ray (de Mega Shark vs Crocosaurus!) assina a direção, deixando Uwe Boll feliz da vida ao parecer Stanley Kubrick perto dele. Pessoalmente, acho que qualquer pobre coitado, na condição de apaixonado por cinema, conseguiria salvar um abacaxi desse, mesmo sem um tostão no bolso e nenhuma linha decente no roteiro. O fator diversão está aí pra isso mesmo.

Em O Poderoso Thor ele também aparece, à prestação e por puro acidente, espremido entre a preguiça mastodôntica da trama escrita (sic) por Erik Estenberg e a canastrice de todos os envolvidos.


Esqueça qualquer fidelidade ao panteão de divindades nórdicas, porque o roteirista aparentemente nunca ouviu falar em ninguém ali. No início, vemos Odin e seus filhos Baldir e Thor, fugindo de Loki... isso mesmo, fugindo (!)... enquanto tentam salvar uma Asgard em CGI de 8-bits do ataque iminente do deus da trapaça. Loki planeja destruir a Árvore da Vida (Iggdrasil, que, logicamente, nunca é citada aqui) e assim apagar o universo e recriá-lo à sua imagem e semelhança.

Para isso ele precisa do Martelo da Invencibilidade (!!) - na verdade um enorme paralelepípedo num palito - que pertence à Odin (!!!). Durante a luta, Loki mata Baldir e Odin (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!) e a responsabilidade de guardar o Martelo fica com o jovem e inexperiente Thor.

O parentesco entre Loki, Odin e Thor nunca é mencionado (quiçá conhecido pelos realizadores) e seu visual parece um filhote do Edward Mãos de Tesoura com o que restou da fantasia do Esqueleto de Frank Langella.


Por sinal, é difícil precisar se sua fisionomia disforme e decrépita é resultado da maquiagem ruim ou se sequer houve maquiagem mesmo, já que se trata do ator Richard Grieco no papel. Sim, o Richard Grieco.

Antes de prosseguir, um pouquinho de cultura inútil para quem tem menos de 35...

Na reta final dos anos 1980, Richard Grieco era uma das figuras mais promissoras de Hollywood, encabeçando a turminha pós-brat pack que formaria a próxima safra de novos astros. No caso dele, graças ao sucesso de um dos personagens mais populares da série 21 Jump Street (aqui, Anjos da Lei) - onde, dizem, rivalizava feio com Johnny Depp - e inclusive ganhando até uma série spin-off. Grieco era um dos maiores salários da TV na época.

Na crista da onda, ele pediu as contas da telinha e aterrissou de 1ª classe em Hollywood. Espião por Engano (If Looks Could Kill, 1991), seu 1º filme "solo", porém, não teve uma grande receptividade da crítica e nem do público. Mas serviu para marcar território.


Grieco era jovem, galã e famoso, o franco next-big-thing daquela geração. Só que o rapaz tomou uma série de decisões pra lá de equivocadas: sucessivas plásticas que detonaram seu rosto, um mergulho de cabeça (de nariz, pra ser mais exato) num relacionamento cocainômano com a ex-deusa Yasmine Bleeth (de S.O.S. Malibu), escolhas medíocres de filmes e a carreira de ator sendo gradativamente colocada de lado para dar lugar aos seus trabalhos como pintor abstrato, músico e poeta.

Não deu outra: Grieco evaporou. Acabou virando uma lenda urbana para assustar atores e atrizes iniciantes em Hollywood. Um manual prático de tudo o que não deveria ser feito naquele negócio.

Mas voltando (tsc)...


Com esse background todo, ele acaba deixando um pouco mais fácil comprar o ódio e a frustração de Loki, que em nenhum momento é contextualizado apropriadamente. Aliás, ninguém é contextualizado ali. Nunca.

Minha primeira pista de que eles estavam pouco se estrepando para o que filmavam foi Odin. Um brutamontes musculoso e cheio de tatuagens, o Allfather mais parecia um motoqueiro hell angel. Ou um wrestler. E eis que o sujeito, chamado Kevin Nash, é mesmo um wrestler!

Por mais estranho que pareça, essa foi uma boa ideia derivada daquele fator diversão anteriormente citado. Ok, é preciso um certo paladar B para apreciar tal iguaria. Tenha em mente o Papai Noel hardcore da versão Santa's Slay ou o de Lobo Paramilitary X-Mas Special...

Mas, novamente, foi apenas acidental, pois essa deixa para o escracho nunca é aproveitada como deveria.


Com Odin e Baldir despachados pro Valhalla, o que se segue é Loki perseguindo Thor para obter o tal Martelo da Invencibilidade (Mjolnir quem?). E assim vai até o final, assassinando sem a menor piedade tudo o que o conceito de narrativa nos proporcionou desde os tempos do teatro grego.

No papel do deus do trovão está Cody Deal, a resposta norte-americana, com juros exorbitantes, ao cigano Igor. Dizer que ele é péssimo seria corroborar de algum modo que ele é, de fato, um ator, então prefiro me abster. Mas infelizmente não é só isso. De "poderoso" esse Thor não tem nada. É covarde, burro, chato, pedante, infantil, cara de mamão, uma bruta sacanagem que fizeram com o viking.

Teria apanhado muito mais de Loki, não fosse o auxílio de Jarnsaxa, guerreira e ex-serva de Odin, que salvou seu rabo de ser fritado quatrocentas e oitenta e oito vezes no resto da bagaça. Fora as vezes que o impediu de fritá-lo ele mesmo em algum de seus acessos de idiotice.



Pra ser sincero, Jarnsaxa foi a única razão de eu ter conseguido chegar ao fim de O Poderoso Thor. Mesmo durando cerca de 1 hora e meia (com os créditos), é uma das coisas mais inassistíveis que já tive o desprazer de testemunhar. Chegou a me dar saudades daquele tratamento de canal.

Como uma feliz providência do destino, Jarnsaxa foi interpretada pela Patricia Velásquez (a Anck-Su-Namun, a amada do feiticeiro Imhotep, da franquia A Múmia), ainda espetacular aos 40 e poucos anos e parecendo uma Sandra Bullock latina. E você que reclamava do Heimdall afro.


Apesar de Patricia quixotescamente tentar atuar ali, foram as coxas esculpidas e o umbiguinho libertino de Jarnsaxa que me guiaram através daquela provação.

Já na Terra, onde todas as ruas são transitadas pelas mesmas 5 pessoas, Jarnsaxa ensina algumas coisinhas bacanas a Thor.


Óbvio que sem grandes resultados práticos, mas que, visualmente, até têm seu apelo. É mais uma daquelas boas ideias mal-aproveitadas.

Muito mal-aproveitadas, aliás.


Quando Thor eventualmente é derrotado por Loki, que se apodera do Martelo e o manda direto para o Hel, os realizadores também tiveram outra grande sacada - só que desta vez, admito, apenas para sommeliers da cultura trash: em meio ao inferno escandinavo, Thor extrai matéria de um veio de lava e começa a moldar um novo martelo...

...forjando na porrada!


Além de séria candidata à cena WTF da Década, também serviu pra me acordar, pois àquela altura Jarnsaxa já tinha mandado tudo às picas e ido cavalgar com suas priminhas Valquírias (óóó, spoiler...?), apesar de, na mitologia nórdica, ela ser uma jötunn.

Mais uma vez, foi um mero lampejo de docaralhismo isolado. Eu encararia na boa um filme de horinha e meia só com essas maluquices.

No final das contas, Thor foge do Hel voando e, com seu novo martelo, destrói o Martelo da Invencibilidade - que na verdade era o Martelo da Imbecilidade - e, no processo, manda Loki também pra cucuia (não pergunte como). De quebra, salva a Árvore da Vida, a Terra, Asgard, etc., sem muitas explicações. Graças ao meu bom Odin.

Viva! Cheguei ao final!

Excelsior!!
O Poderoso Thor não é filme, é uma arma. Usado com responsabilidade, é ideal pra espantar visitas indesejadas ou partir pros finalmentes com o ser amado sem a preocupação de estar perdendo algo que preste. Do contrário, os danos psicológicos serão catastróficos e irreversíveis. Agora me dá licença que tá na hora do meu remedinho.

Ah... obrigado, sra. Hatchet. Posso tomar mais um? Por favor...

O Poderoso Thor ("Almighty Thor", Estados Unidos, 2011), 92 min.
Direção: Christopher Ray
Elenco: Richard Grieco, Patricia Velásquez, Kevin Nash, Jess Allen, Cody Deal