domingo, 12 de junho de 2016

Just a fool to believe I have anything she needs


Dia dos Namorados, sensibilidade à flor da pele derretida num tanque de lixo tóxico.

A cena inesquecível do hit romântico oitentista RoboCop (1987) é daquelas tão marcantes que deixam qualquer ator inexoravelmente... hã, fundido a elas. E o caso em questão foi mesmo um marco na carreira de Paul McCrane.

Ele ainda foi presença constante em vários filmes e séries - inclusive com um personagem, digamos, muito íntimo do saudoso Jack Bauer. Mas para toda uma geração, não teve jeito: McCrane era o melting-man que fez a molecada em peso comprar ao menos mais uns oito ingressos para rever a cena no cinema.

Agora, antes disso, quem diria, ele gozava de um grande sucesso - no Brasil inclusive - como crooner de banquinho-e-violão.

Tudo graças ao mela-cueca "Is It Ok If I Call You Mine?", uma das três canções que compôs para Fama (1980), de Alan Parker, onde também atuou.

Em terras tupiniquins, a música ficou muito popular após virar trilha de um bucólico comercial de jeans.


Quem tem menos de 35 anos não lembra disso porque estava sendo concebido ao som dessa música.

Em 2011, McCrane fez uma pequena rendição a esse passado pré-Vingador Tóxico na série Harry's Law (A Lei de Harry).

Confesso, foi de arrepiar em qualquer baile da saudade.


Ah, meus 25 anos.

Mas revendo esses dias Capitão América 2: O Soldado Invernal (2014) em busca de inconsistências e graves descaracterizações, em vão, tive um déjà vu que já havia sentido desde a 1ª vez que assisti ao filme no cinema.

A única mulher a figurar no conselho de segurança ultrassecreto do filme já havia aparecido em Os Vingadores (2012) e fez alguns sinos tocarem por aqui sempre que aparecia. Seja na forma de holograma, ao lado do Charles Widmore ou chutando rabos até se revelar como a Viúva-Natasha-Negra.




Eventualmente venci a inércia, puxei a ficha da meliante e minha vida mudou.

Jenny Agutter era uma das minhas paixonites de cinema dos anos oitenta... aliás, "paixonite" é estepe pra "crush", um termo que soa muito melhor, porém com perda total na tradução. Ser esmagado por algo é a última coisa que penso nessas horas, mas voltando ao assunto...

Jenny fez a doce e altruísta enfermeira Alex no filme Um Lobisomem Americano em Londres (1981). E que se apaixonou pelo próprio e com ele protagonizou aquele final...


Che bella.

Rapaz, como o tempo voa.

domingo, 5 de junho de 2016

Vida longa ao Rei


Não sei explicar a vontade instintiva de recapitular o conjunto da obra de algum grande nome que se vai. Apelando para o psicologês de boteco, talvez seja a necessidade de um senso de conclusão. Em alguns casos raríssimos, até mesmo uma à altura da figura em questão. O bem conhecido e inesquecível Quando Éramos Reis (When We Were Kings, 1996) cabe aí como uma luva. De boxe.

A despeito de toda a comoção em torno da partida do grande-como-a-vida Muhammad Ali, uma sessão com Quando Éramos Reis é dica sazonal, vitalícia, atemporal. Dirigido por Leon Gast, que co-produz com David Sonenberg e Taylor Hackford, o documentário é lembrado como um dos melhores já feitos sobre Ali e o esporte.

Eu diria que é um dos melhores filmes já feitos sobre qualquer coisa.

Conhecia por alto o grande e audacioso evento que foi a luta no Zaire (atual Congo) em 1974. No chamado "Rumble in the Jungle" um redivivo Ali tentaria recuperar o cinturão dos pesos-pesados do campeão invicto George Foreman, então jovem, talentoso e com concreto nas luvas. Quando assisti o doc, na HBO, no final dos anos 90, finalmente fiquei de frente com a fera.

A luta por si só era o rascunho de um roteiro improvável, tremendamente quixotesca para Ali, mas o evento como um todo foi uma afronta ao bom senso. Promovida por Don King (quem mais?) no Zaire do sanguinário ditador Mobutu Sese Seko, o combate teve início muito antes de alguém subir ao ringue: os incontáveis perrengues dos bastidores iam da infraestrutura inexistente e do adiamento da luta por várias semanas até ao contingente de criminosos e presos políticos que abarrotava os porões do estádio onde ocorreria o evento. E isso era a ponta do iceberg.

Sozinha, a história da "organização" é tão incrível que merecia um filme só pra ela (em parte, existe), mas a verdade é que era apenas a escada para um dos confrontos mais espetaculares da história.

Naqueles tempos, a estrela de Ali ofuscava qualquer coisa que estivesse no firmamento. As gerações mais recentes têm aqui uma boa amostra do charme, carisma e magnetismo irreprimíveis do homem. Das poesias absurdas e da metralhadora trash-talk ao mais absoluto terrorismo psicológico que infligia a Foreman, seduzindo até a população local (inspiração desde sempre!). Mas acima de tudo, a consciência da força que tinham suas observações sociais e políticas somada à postura e à vontade inabaláveis frente a um desafio certamente intransponível - e, pra muitos, suicida. Caprichosamente, quis o destino que o protagonista fosse Cassius Clay, o Muhammad Ali.

Contra todas as chances, não podia ser outro. Nem diferente.


"A jovem geração atual, eles não sabem nada. Alguma coisa aconteceu ano passado, eles não sabem nada sobre. Então essas são grandes histórias, grandes eventos históricos, e eu não estou falando sobre coisas de 1850. Eles não conhecem Malcolm X, não conhecem JFK, Muhammad Ali, Jackie Robinson e assim por diante. Isto é assustador. Eles estão perdendo muito, se eles não conhecem o legado de Muhammad Ali. Porque não importa em qual era você vive, você vê muito poucos heróis verdadeiros."
Spike Lee

terça-feira, 31 de maio de 2016

Por um punhado de gibis


"Caralho... tá cara essa porra, hein?"

Le kiosquier, ao conferir pela 2ª vez o preço de capa do gibi novo do Tex.

Ainda estou me adaptando à programação e aos valores do cultuado ranger de Sergio Bonelli. Embora ainda não seja parte de seu público alvo, após aquela monumental Edição Gigante em Cores vol. 9 ilustrada por um mestre chamado Roberto "Magnus" Raviola, passei a pescar reedições de destaque aqui e ali.


Mas o espanto do ilustre vendeur de journaux é compreensível. Para neófitos e, no meu caso, recém-chegados, os R$ 19,90 da Tex Edição Histórica #96 soam como um assalto à diligência mais desguarnecida de El Paso. Com periodicidade trimestral, o formatinhozinho 13,5 x 17,5 de 186 páginas (fora contracapa) em preto e branco é impresso num pisa brite fosco, o que, se dá mais profundidade aos sombreamentos da arte-final, também configura um superfaturamento do infame papel limpa-bunda.

Mas, pesquisando, vi que até houve redução no preço em relação às edições passadas, o que é louvável. Meio ponto pra Mythos.

E não se pode ignorar fator da literatura pulp, do quadrinho cult. Ler Tex em papel jornal é old school. Tudo pelo romantismo. Ainda mais em se tratando do conteúdo: uma reeeeedição da saga "El Muerto", considerada por quem entende como uma das melhores histórias do southern-hero.


Só podiam ter escolhido uma capa menos reveladora, hm?



Tex Graphic Novel #1: O Herói e a Lenda custa R$ 29,90, mas poderia ser até 39,90 (não dá ideia...). Esse é um daqueles raros encontros de dois deuses da 9ª arte: Paolo Eleuteri Serpieri fazendo um tributo ao legado de Sergio Bonelli do jeito que sabe melhor - na prancheta.

Lançada originalmente em Tex D´Autore #1 (fev/2015), a graphic de 48 páginas e capa cartonada é fina demais para ser um encadernado em capa dura, mas bem que merecia. Conspira a favor a proporção 20,5 x 27,5. Ou seja, superando até as medidas do formatão magazine tradicional.

Chegará o dia em que toda HQ de valor será impressa nessas dimensões... mas considerando a diferença de tamanho abissal dessas duas aquisições, isso deve demorar um pouco...

A arte, as cores, o texto e a adaptação (livre) do autor, como não poderia deixar de ser, são grandiosos, espetaculares, Serpiéricos!


Quase não senti falta da Druuna. Imperdível.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Entre o portador da luz e o dragão


"A Blade of Grass" é uma catarse performática que, com bem pouco exagero, remete instintivamente ao grande William Friedkin. Não o grande Friedkin de O Exorcista ᵖˢ, mas o grande Friedkin do escalafobético Possuídos (Bug, 2006). Pelo bem da regularidade sequencial, a química entre a parisiense Eva Green e o londrino Rory Kinnear não é tão transgressora e agressora quanto a dos yankees Ashley Judd e Michael Shannon, porém... porém... soa igualmente profunda enquanto experiência. O que talvez seja até mais complexo do que enfiar o pé na jaca de uma vez.

Esperto, o diretor Toa Fraser apenas ligou a câmera e colocou as duas usinas de força dramática num set mínimo. O resultado, claro, é um espetáculo soberbo para aplaudir de pé. Mais um.

Imperdoável nunca ter mencionado Penny Dreadful por aqui. Criada pelo produtor e roteirista californiano John Logan, essa Liga Extraordinária dos sonhos está em sua 3ª temporada pelo Showtime e mantendo uma proficiência assustadora. Habitué em grandes produções, Logan tem na série sua investida mais autoral - por ironia, reminiscente das obras do mago de Northampton - e escreve todos os episódios, prática incomum nesse meio de showrunners e screenwriters.

Isso ajuda a conferir uma unidade invejável ao conjunto, além de nivelar tudo por cima. Não há episódios ruins em Penny Dreadful. Menos ainda atuações ruins.


Mas voltando ao capítulo #4 dessa graphic novel em movimento: é o atestado definitivo que mesmo apresentando visões controversas da cultura pop secular a série extrai delas uma poesia irresistível. Dessa vez, a relação íntima entre Lúcifer e o grande protagonista de Bram Stoker foi uma revelação deveras acachapante. E, à primeira digerida, bastante discutível. Por questões de hierarquia mesmo.

Mas numa segunda revisão, logo me veio à mente a graphic Eu Sou Legião, de Fabien Nury, e sua proposta de uma entidade ancestral puxando as cordas no palco mundano desde tempos imemoriais. O famoso Empalador não foi o início e sim apenas mais um veículo.

Promissor e ainda resolve magicamente as coisas na cadeia alimentar inferno-Terra. Graças a Deus.

Ps: ei, mas espera aí... o Friedkin de O Exorcista também, espetacularmente!

quarta-feira, 20 de abril de 2016

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Éramos onze


O clímax do arco da prisão, depois o olhar 43 de Carl e agora a chegada triunfal de Negan. The Walking Dead finalizou sua sexta temporada em sincronia com o 3º grande momento da saga nos quadrinhos. Não é apenas uma das cenas mais aguardadas pelos leitores, como também a mais extrema no quesito gráfico. Foi uma grosseria splatter mesmo. Difícil dizer se a network vai bancar uma versão literal e explícita daquilo que chocou tanta gente nos quadrinhos, ainda mais considerando que nem luminares da casca-grossice como Game of Thrones foram tão fundo na ferida. O certo é que a cena com o nosso querido grupo de anti-heróis ajoelhados diante de um trágico destino já é antológica.

Essa 6ª temporada periga ter sido a mais balanceada da série até aqui. Bons ganchos nas subtramas de Alexandria e o mega-êxodo zumbi, a polêmica bem plantada sobre Glenn no fim da meia-temporada, um desenvolvimento mais intenso de personagens importantes, como foi o caso de Carol, e os primeiros contatos com a colônia Hilltop, com os Salvadores e até mesmo com o Reinado. Tudo de forma cadenciada, sem reimaginações furadas e o mais próximo possível da linha narrativa original. Créditos para o showrunner e roteirista Scott M. Gimple e para o diretor, roteirista, técnico de fx, zelador, faxineiro e office-boy Greg Nicotero, que, salvo a barrigada nos últimos dois episódios antes do season finale, não deixaram a peteca cair.

A verdade é que esse pessoal tem aqui uma oportunidade única para redimir a série de alguns equívocos do passado - sendo o mais gritante o Governador soft das temporadas anteriores. Não é preciso ser um gênio para perceber que os gibis de Robert Kirkman são quase um story-board de luxo (com mil perdões à arte fantástica de Charlie Adlard), apenas aguardando tridimensionalidade física. Claro que aparar algumas arestas aqui e ali faz parte, mas tudo de essencial que deveria ser planejado, medido e pesado já o foi, anos atrás, lá no estúdio do gordinho.

Ainda mais a essa altura do campeonato, com os US$ da AMC minando incessantemente na conta bancária. Impossível pensar em Rick Grimes & cia. apenas como personagens de gibi mensal.

Acaba sendo bem interessante comparar esses eventuais ajustes, agora mais relacionados à transposição de formatos do que de conteúdo. Aquele catártico #100 dos quadrinhos - na minha época a centésima edição era comemorada de outro jeito - é um bom exemplo de alteração técnica. O impactante final da HQ pontuava o fim de uma fase e o início de outra. Já na telinha, foi priorizado o cliffhanger. Estratégia alternativa e narrativamente oposta ao imediatismo de um Casamento Vermelho, mas comercialmente a jogada certa.

Com um episódio com mais atmosfera que Júpiter, vazando tensão por todos os frames e algumas das melhores performances do elenco principal, o final foi de baixar a pressão até o subsolo. O aguardado Negan de Jeffrey Dean Morgan soou menos fanfarrão e mais polido que aquele o qual estamos acostumados, mas ainda assim monopolizou o widescreen inteiro.

Apostas para outubro?

Spoilers?

"Eenie, meanie, miney...












...moe."

Rick, Carl e Michonne são "praticamente invencíveis"Maggie está nos planos desta indústria vital; Sasha, Aaron, Eugene e Rosita, me desculpem, são irrelevantes.

Abraham e Daryl são os que parecem irresistíveis para Lucille. Ambos uma chance de ouro para os deuses da ficção corrigirem incongruências entre os universos.

Mas fico com o Glenn basicão mesmo. É simplesmente... perfeito.

Mesmo o ator Steven Yeun já teve tempo de sobra pra se acostumar. Afinal, já se passaram mais de 3 anos desde a sua missiva enfurecida (e hilária) publicada na seção de cartas da edição #102.


Ps: me resta por hora minha série chata favorita, Fear the Walking Dead. E aquele ep. da volta? Chatíssimo...

terça-feira, 29 de março de 2016

Programa de desintoxicação

Absolutamente necessário mediante "tudo isso que vi por aí".

Que seja uma jornada intimista então, pela busca da verdade e dos ideais perenes.



Pelo racionalismo.



Pelos extremos da tenacidade humana.



Pelas diferenças que se completam.



E, principalmente, por um pouco mais de esperança...



...solidariedade...


...e respeito pela vida.

Sem moderação.