domingo, 23 de outubro de 2005

THE LAST ACTION HERO


Eu fui institucionalizado. Deitei no colo da Mãe Sistema e adormeci profundamente. Só assim pra explicar a porrada que eu levei ao assistir Casshern (2004). Foi um despertar de um pesadelo em que imperavam filmes de ação hollywoodianos soporíferos (p. pleonasmo). Assisti Casshern sem qualquer equipamento de segurança e fui à lona. Até agora estou procurando o meu queixo. Eu estive diante de um filme maior, que se comunica em uma linguagem acima de qualquer idioma pop conhecido. Meras considerações comerciais, como gêneros e rótulos, não cabem aqui. Aliás, fico imaginando o trabalho que esse filme deu aos marketeiros da distribuidora. Se me restassem dois segundos de vida e tivesse de classificar Casshern nesse meio-tempo, eu mandaria um "aventuradeficçãocientífica" antes de cair fulminado e ciente de que me despedi desta vida de maneira desonrosa.

Não é à toa que Casshern até hoje só surfou em ondas alternativas. Não é nem um pouco comercial (e ao mesmo tempo o filme mais comercial que já vi - é inexplicável) e tem várias nuances caminhando em paralelo - algumas lentas e contemplativas como um Kurosawa, outras inebriantemente rápidas e eletrizantes como nem-tenho-referências-pra-isso - que, como num mosaico humanista que contrasta entre o idílico e o caótico, formam um panorama tão catártico e libertador quanto denso e opressor. Não adianta apenas vislumbrar passivamente o que Casshern tem a oferecer. O filme é um via de mão dupla e exige a interpretação ativa do espectador. Ele nos dá essa honra - que passa a ser inestimável quando percebemos que estamos diante de algo que não se encontra em qualquer esquina. Definitivamente ele não é pra qualquer um, mas deveria ser para todos.

A história se passa no futuro, num mundo dividido pela guerra entre as duas potências dominantes - a República da Ásia e a União Européia. No microcosmo que dá partida ao filme, a família Azuma passa por uma crise interna: o filho Tetsuya (Yusuke Iseya), recém-noivo da bela Luna (Kumiko Aso), quer ir combater na guerra, e o pai, o professor Azuma (Akira Terao), tenta dissuadí-lo da idéia, ao mesmo tempo em que busca patrocínio para seus experimentos revolucionários envolvendo a manipulação de neo-células (=células-tronco). Nos bastidores da guerra, há uma acirrada disputa política que envolve sucessão familiar e uma tentativa de tomada do poder por parte dos militares. O caos impera, até que um inesperado acontecimento dá uma guinada nas experiências até então fracassadas do professor: um misterioso raio rasga o céu e se solidifica (!) no centro de pesquisas, "completando" os experimentos científicos que podem alterar os rumos da guerra. Nascem então os chamados neo-sapiens, o ápice da evolução genética almejada pelo professor. Mas eles são vistos como uma ameaça aos planos do governo e passam a ser caçados impiedosamente. Os únicos sobreviventes se voltam contra o Sistema e declaram guerra à Humanidade.


Um jeito de se vender Casshern na banquinha de camelô é dizer que é uma produção metal hero japonesa com orçamento turbinado. Um Jaspion versão blockbuster. Ou um live-action de Cavaleiros do Zodíaco à beira da perfeição. Aí é só botar o trailer oficial pra rolar e acabar de vez com a hesitação de qualquer cliente desconfiado. Mas aí seria uma bela propaganda enganosa (o próprio diretor Kazuaki Kiriya afirmou ad nauseum que o trailer vende outro filme). Casshern se entrega em ponderações incrivelmente bem sedimentadas sobre conflito de gerações, geopolítica, remorso, violência, religião, ciência, ódio e sacrifício. São vários filmes correndo ao mesmo tempo, todos primorosamente escritos e dirigidos. E ação? Sim, ela comparece, em freqüência muito menor do que qualquer filme do Michael Bay, mas quando ela dá as caras é de dilatar as córneas.

Tudo (re)começa com o discurso do líder neo-sapien, quase didático ao justificar o seu ódio intrínseco pela raça humana. Aí, tem início uma cena vertiginosa de invasão de robôs gigantes aos principais centros urbanos, culminando na aparição do herói Casshern, que literalmente empilha os autômatos em montes de sucata. Trata-se de um trecho arrasador de animê feito com atores reais, humanizando a arte animada com todas as suas características mais caras (hiper-velocidade, combos mega-destruidores, saltos em direção à Lua onde o personagem vira só um pontinho no céu [fazendo aquele ruído de "fiiinnk"] e em seguida desce à mil por hora destroçando os inimigos, ameaças verbais no meio de uma superpancadaria demolidora, etc). É a melhor seqüência de ação dos últimos tempos. Sinceramente, não lembro de nenhuma mais frenética e arrepiante do que essa. É pra ser copiada à exaustão até não poder mais. Isso pra não falar na ameaça gigantesca que aparece na reta final...

Ah, sim. Casshern também é um deleite de experimentação fotográfica, com seu visual semi-neo-retrô (mais à Gattaca que à Capitão Sky e o Mundo de Amanhã) e inserções multimídia inesperadas, sempre fantásticas, capazes de fazer Sin City voltar ao pré-primário. A invasão dos robôs é uma pérola de plasticidade artística underground: o pano de fundo em vermelho e o design estilizado, parecem um mix da HQ Atomika - God Is Red com a porralouquice anti-imperialista das animações de Pink Floyd - The Wall. Já a palheta de cores é extrema, carregada, em concordância com a atmosfera de cada aspecto narrativo. As metrópoles, verdadeiros centros industriais, recebem o tom mais alaranjado possível - - reforçando a impressão de calor infernal, ao passo que o cinza, gélido e cruel, remete ao caos da Europa do pós-Guerra - - e o verde do jardim da casa dos Azuma e de quando Casshern está a sós com Luna - - parece ser a cor oficial de um sonho bom.


O filme tem laços estreitos com a cultura anime e mangá, e não é pra menos. É uma adaptação dos conceitos do desenho Shinzo Ningen Casshân (em inglês, Robot Hunter Casshan). Só que... e isto é uma coisa muito legal... segue adiante na continuidade do anime. Não é o mesmo protagonista que assume a super-armadura, e a memória do Casshern original - chamado Kyashan, e este sim retratado no filme como um símbolo lendário e um mártir defensor do povo - é preservada através de algumas referências quase solenes, como o seu antigo elmo (que, inclusive, inspira o "novo" Casshern em um momento-chave) e seu ex-cão-robô Flenders, que faz uma ponta cool na seqüência passada no vilarejo. Emocionante.

Aliás...


...eu chorei assistindo Casshern. Não teve como. Esse filme é uma porrada emocional que sabe onde é que dói pra valer. Várias situações angustiantes pululam daqui e ali, mas alguns momentos chegam a ser insuportáveis, tamanha a força dramática. O roteiro poderia nos bombardear com informações incompreensíveis e deixar por isso mesmo em nome da lendária paciência oriental (tradicionalmente incompreensível para nós, meros ocidentais comedores de lanches do McDonalds), mas, à exceção do intrigante raio solidificado-primo/irmão-do-Monolito-Negro-de-2001 (o qual tenho minhas próprias conclusões a serem desenvolvidas a contento), todas as pendengas sinistramente complexas se amarram de maneira nada menos que brilhante na reta final - que, por sua vez, nos reserva ainda um acontecimento (...um não, dois) que dilacera a alma de uma maneira a qual não acharíamos que fosse possível depois de tanta surra sensorial.

Talvez esse seja o primeiro Grande Filme de Entretenimento do século 21. Ele parece sussurar isso em sua mente através de alguma informação subliminar residual, no decorrer de sua belíssima mensagem pacifista às custas de sua própria desconstrução. Sob olhares jovens e viciados em urgência, Casshern com certeza não terá apelo maior do que chato, lento e complicado. Graças a Deus que seja assim.


Que filme.

sexta-feira, 7 de outubro de 2005

T'CHALLA BOUMA YE!

Black Panther #1/#8
Spoilers...? Que spoilers?


Até pouco tempo atrás, quando algum personagem de HQ sofria algum processo de atualização, tudo era resumido à fórmula "mais músculos, mais insinuações eróticas, mais explosões". Com o sucesso das linhas Ultimate e MAX, essa gag dos quadrinhos acabou sendo beneficiada. Muito do que se faz hoje nestes termos é baseado em fórmulas vencedoras daquele universo - em maior grau, na partida emocionante de WAR proposta pelas histórias dos Supremos. E é quase inevitável imaginar a nova concepção do Pantera Negra figurando nessa versão Jackass dos Vingadores. O Pantera é o extremo de toda aquela tralha acumulativa típica da Marvel. Nascido em 1966 na crista do blaxploitation, ele (e Luke Cage, Falcão, Manto, Misty Knight) era mais um personagem com vida curta na cronologia da Casa das Idéias. A situação dele era piorada por um mapa geopolítico complexo, que incluía o auge do apartheid na África e uma Guerra Fria mal-explicada. T'Challa, herói e líder de Wakanda, uma nação africana ultra-avançada? Não podia ter vindo em uma hora menos propícia e ele penou os próximos 30 anos na geladeira da mansão dos Vingadores.

Pois bem, o mundo dá voltas e a rotação do Pantera chegou novamente ao ponto zero. Com a compra dos direitos de filmagem do herói pela Artisan e o interesse de Wesley Snipes em encarnar o personagem, nada melhor do que uma recauchutada básica no Pantera, com direito à Wakanda's Kingdom Overpowered, veios do raríssimo vibranium e tratamento de assuntos espinhudos - como intervencionismo e globalização. Tudo isso e uma aventura a se desenrolar e um antagonista que é literalmente um símbolo deste (re)começo do Pantera: Ulysses Klaw, o assassino profissional belga mais conhecido como Garra Sônica.

Calma, calma... pra você, que lembrou dele sendo fatiado em Guerras Secretas e que recebeu em sua mente um déja-vu de tosqueira quadrinhística, muita calma nessa hora. O vilão, outrora um brutamontes quase irracional, ganhou um upgrade generoso, tanto em atitude e motivações, quanto no visual (ele era assim e ficou assim), chegando mesmo a lembrar os inimigos mais bacanas do 007. Junto com ele na "Legião B do Mal", outros sidekicks igualmente lambões ganharam providenciais roupagens up-to-date: Batroc (era assim, ficou assim), Homem-Radioativo (era assim, ficou assim), Rino (que era assim e continuou desse jeitinho mesmo) e um personagem chamado Cannibal, um "saltador de corpos" à Proteus (antigo inimigo dos X-Men).


Who Is the Black Panther? é sintomático até no nome. Com desenhos do hour-concours John Romita Jr. e roteiro de Reginald Hudlin (diretor do filme À Serviço de Sarah, de olho da adaptação do Pantera para o cinema), o arco de seis partes é quase uma reedição da origem do herói, dando ênfase à soberania tecnológica e cultural de Wakanda. O perfil do Pantera também é traçado de forma incisiva - caráter forte, austero, disposto a fazer grandes sacrifícios, arrogante, sedutor e algo cruel. O interessante é que Hudlin lembrou que o Garra Sônica também era originalmente um inimigo do Pantera - nada menos que o assassino de seu pai, o rei T'Chaka - e inseriu um flashback de tirar o fôlego na edição #3.

Talvez pela visibilidade mediana do título, Hudlin se deu ao luxo de meter a agulhada com força no cenário político internacional. Nunca Wakanda foi abordada desta forma. Ao demonstrar o impacto que o país imaginário teria no mundo real, com sua tecnologia de cem anos à frente e dona da maior reserva terrestre de vibranium (um tipo de metal raríssimo que absorve ondas sonoras), Hudlin cria um paralelo imediato com a delicada situação do Oriente Médio. E, sem o menor tato ou cerimônia,encarna um Mark Millar particularmente debochado e cria diálogos canalhas e inspiradíssimos, principalmente dentro da Casa Branca ("os wakandianos têm um espírito guerreiro que faz os vietnamitas parecerem, bem, os franceses"). Não satisfeito, ele ainda faz o que muitos ainda acham difícil de engolir, mas que pra mim soou absolutamente natural.


Fora isso tem muito mais: críticas pesadas à Igreja Católica (logo o Rino dizendo "às vezes temos de chutar alguns traseiros em nome de Jesus" é de uma ironia sem tamanho), o exército de 'Deathloks' que os EUA enviam para invad... digo, ajudar Wakanda, a relação tensa com países vizinhos e inimigos, e uma senhora ponta solta que ele deixa balançando pouco antes do final.

Na edição seguinte, a #7, o Pantera submerge na bad trip da Feiticeira Escarlate e tem a sua versão do universo House of M - no qual a Nova Ordem Mundial é revertida para um mundo de supremacia mutante - mas o herói mesmo não mudou nada de seu perfil. Excelente edição (também escrita por Hudlin) que acaba rápido demais. E o Raio Negro... putz, imagina se ele desse um arroto. Já a edição #8 (com mais uma beeela capa de Frank Cho), tudo volta ao normal, mas o Pantera é apenas o coadjuvante de uma aventura dos X-Men contra um geneticista louco de Genosha, a ex-ilha mutante do Magneto.

No final das contas, o Pantera Negra em carreira solo acaba por se mostrar uma gratíssima surpresa, suplantando até mesmo alguns bastiões sagrados da Casa das Idéias. É o tipo de revista que você devora até os créditos finais e ainda fica um bom tempo matutando a história na cabeça. Mal posso esperar pela próxima edição. E que venha o filme!

Na trilha: o excepcional Schizo Deluxe, o novo do Annihilator. Pra ouvir no volume 11. Vixe!

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

ARE YOU TALKIN' TO ME?


E lá se vão praticamente 15 anos desde o lançamento de Hard Boiled, mini-série em clima no future criada por Frank Miller e ilustrada por Geof Darrow. Só a menção desses dois nomes na mesma frase é motivo para estremecer o monitor do fanboy que está lendo. Recém-saído do circuito mainstream dos quadrinhos americanos, Miller resolveu apostar em um segmento menos visado, mais underground, via Dark Horse. E assim ele iniciou uma nova fase (que já acabou, por sinal), mais autoral e com um leque mais amplo de possibilidades. Sem protagonistas diretos, nem compromissos com a redenção de terceiros, ele começou a destrinchar o Sistema em atmosferas que, de tão opressivas, chegavam a ser palpáveis, e quase funcionando como um personagem ativo dentro das histórias. Vide as ótimas Liberdade e, mais tarde, Sin City. Mesmo a bem-humorada Big Guy & Rusty representa bem essa fase. É aí que entra Hard Boiled.

Lendo hoje, nota-se que a série destilava uma inequívoca ironia em relação aos governos, à cultura de massificação, ao poder da mídia, enfim... ao establishment. E o melhor de tudo: sem se prestar à qualquer panfletagem anarquista barata. Muito pelo contrário. Hard Boiled pode ser facilmente confundido com um combo hardcore movido à sexo, perversão e ultraviolência - e tudo sendo elevado à milésima potência, mesmo para os padrões atuais.


A história é uma espécie de Um Dia de Fúria high-tech e nos mostra a via-crúcis particular de Nixon, um pacato cobrador de impostos e pai de família, que está enfrentando uma senhora crise de identidade. Como pano de fundo, conspirações governamentais, sabotagem industrial e uma revolução artificial digna de Metrópolis e Eu, Robô em versões bloody disgusting. O clima geral lembra a Los Angeles de Blade Runner, só que muito mais caótica, claro. Aliás, a narrativa empregada em Hard Boiled exibe um fôlego cinematográfico que só vendo. Não existem aqueles recordatórios em off que Miller tanto gosta e vários ângulos são concebidos como se fossem gigantescos planos-seqüência de um filme.

Experiência é uma coisa valiosa. Está na cara que Miller já sabia o peso que a arte estilosa de Geof Darrow teria em Hard Boiled. Tanto é que a dinâmica principal se apóia na maior parte do tempo em perspectivas, noções de movimentação e ganchos de ação, em detrimento de textos verborrágicos. Neste caso, uma imagem realmente vale por mil palavras. Pode parecer redundância para conhecedores, mas Darrow dá um show aqui. Cada quadrinho dele é precioso, único, traz mais informações e detalhes que o catálogo inteiro da Image. São verdadeiros mosaicos com trocentas situações acontecendo ao mesmo tempo. E as splash-pages? Só Darrow tem moral para fazer uma seqüência matadora de treze splash-pages, uma atrás da outra (no diálogo entre dois robôs num ferro-velho). É um mestre.


Mesmo sem ser um clássico, Hard Boiled é tudo o que uma grande HQ deveria ser: sarcástica, espirituosa, ágil, repleta de adrenalina, inovadora e muito, mas muito divertida. Em meados de 2001, começaram a pipocar alguns boatos sobre uma possível adaptação cinematográfica. Eles davam conta de que Nicolas Cage ficaria com o papel principal e que David Fincher seria o diretor. Not bad. Nunca mais rolou nada a respeito, mas não custa sonhar...



JIMI HENDRIX - HENDRIX'S APT IN NEW YORK


Este já foi um dos registros piratas mais obscuros e disputados do deus da guitarra. Gravado em algum ponto de 1968, Hendrix viaja sozinho em seu apartamento com o gravador ligado. A fita ganhou forma de acetato, caiu no mundo e virou lenda. Mais do que um simples ensaio, o que se ouve aqui é a amostra da verdadeira essência de um gênio, desta vez despida de toda aquela catarse niilista. Em quase meia hora, Hendrix destila suas influências e desenvolve um diálogo intimista com as seis cordas.

Vale destacar o clima ambient que permeia toda a gravação. Detalhes como o ruído das páginas da partitura sendo viradas, os acordes que ele repete e que vão progressivamente evoluindo a cada nova tentativa e os curiosos improvisos vocais (que Ed Motta chama de embromation), atestando de uma vez por todas que Jimi Hendrix era sim um excelente intérprete. Durante a última música, a belíssima Gypsy Eyes, o telefone começa a tocar insistente ao fundo, mas Hendrix está tão imerso que nem liga e segue em frente, inabalável. Seja lá quem tenha sido, desiste após algumas chamadas e deixa a História seguir seu curso.

Confira aqui o set list e mais infos sobre este clássico não-oficial. E uma curiosidade: nos EUA esse disco foi lançado em 1995 pelo selo Bella Godiva Music, com o título Jimi by Himself - The Home Recordings, e veio junto com a edição especial de Voodoo Child: The Illustrated Legend of Jimi Hendrix, uma belíssima obra escrita por Martin I. Green e ilustrada por ninguém menos que Bill Sienkiewicz. Foda, né?



RÁPIDO & RASTEIRO


  • EVERGREY A Night To Remember * Live 2004  - Esse é obrigatório pra quem irá comparecer em algum dos oito shows da tour que a banda fará no Brasil, a partir de sexta-feira. Essa performance foi gravada no ano passado, no Stora (teatro tradicionalíssimo da Suécia), para um público de 800 privilegiados. Com uma alquimia que mistura heavy, thrash, gótico e gospel, a banda mostra o quão é perfeita e classuda ao vivo também. Destaques? Difícil, mas é bom ver que o vocalista e guitarrista Tom Englund mantém o mesmo alcance e feeling fenomenais on stage. O único vacilo foi terem deixado de fora as maravilhosas The Great Deceiver (do álbum Recreation Day) e In The Wake Of The Weary (do Inner Circle). De resto... melhor que isso, só o DVD.



  • MOTÖRHEAD Everything Louder Than Everyone Else - Show de 1998 gravado em Hamburg (Alemanha). Desnecessário dizer a pedrada demolidora que é isto aqui. Sir Lemmy Kilmister e o repertório do Motörhead são como vinho... ficam ainda melhores com o passar dos anos. E falando em repertório, este duplo ao vivo tem faixas desde o primeiro disco, de 1977, até o Snake Bite Love, de 1998. Eu já fui ao show da banda, então já posso morrer feliz e tranqüilo. É festa no volume máximo regada à álcool, rock'n'roll e groupies peitudas.



  • MOTÖRHEAD BBC Live & In-Session - Gravações extraídas de várias apresentações para a BBC, entre 1978 e 1986. Começa com a participação no clássico John Peel Show, em 1978, segue com uma performance no David Kid Jensen Show, em 1981, e fecha no Friday Rock Show Session, de 1986. Entre uma coisa e outra, tem o Motör tocando no Kerrang! Wooargh!, em maio de 1979. Classic rock'n'roll. Lemmy is God, man. E eu bebo a isto!



  • BRUCE DICKINSON Scream For Me Brazil - Bruce está em alta aqui no BZ... Mas o quê dizer de um cara que, além da carreira impecável no Iron Maiden, só fez discos solo (muito) acima da média? Além de tudo, Bruce ainda é dono de um timing demoníaco ao vivo. O repertório é perfeito: privilegia o sensacional Chemical Wedding (seu melhor álbum solo), pega as melhores do Accident Of Birth, mais duas de Balls To Picasso (incluindo o hit Tears Of The Dragon). Escoltado pela abençoada dupla Adrian Smith/Roy Z nas guitarras e pela cozinha matadora de Eddie Casillas (baixo) e Dave Ingraham (bateria), Bruce mostra que nasceu pra comandar multidões. E não poderia deixar de destacar a energia contagiante do público paulista - participação ativaça da galera. A crowd brazuca sempre foi a mais insana do mundo, sem dúvida alguma. Discaço de rock ao vivo. Até a capa - uma das mais horrorosas que eu já vi - acabou ganhando novos contornos com o tempo. Com certeza foi uma homenagem antecipada à sra. Madman... :D


  • ANTHRAX Music Of Mass Destruction - Já comentei sobre esta belezinha aqui antes, mas voltou a ser um hit pra mim após o show arrasador que eles fizeram por estas paragens. John Bush é um grande frontman (e gente-boa pra cacete!), as bases de Ian Scott continuam psicóticas, os solos de Rob Caggiano são de trincar os dentes, as linhas do baixo de Frank Bello ainda são referências no estilo e a bateria de Charlie Benante é o equivalente sonoro de uma avalanche. E o set list...? Got the Time, Caught in a Mosh, Antisocial, I Am the Law, Indians, Only, Bring the Noise, Fueled, Metal Thrashing Mad... nossa. O Anthrax é tão legal que até Alex Ross é fã. E como diria o bom e velho Dredd... "I Am the Law!"



  • RAINBOW On Stage - Esta aqui é a maior trilha sonora para performances air guitar já registrada na História (aê Chico!). O Rainbow talvez fosse mais um na imensa seara setentista, não fossem o baixista Jimmy Bain, o tecladista Tony Carey, o baterista Cozy Powell e .::Que se Faça a Luz::. o vocalista Ronnie James Dio e o guitarrista Ritchie Blackmore. Maravilha. O disco abre com a doce Dorothy (de O Mágico de Oz) dizendo "We must be over the rainbow", e aí começa a seqüência de clássicos atemporais do naipe de Kill The King, Startruck, Mistreated (do Deep Purple), Sixteen Century Greensleeves e lá vai lenhada. Nossa, e a hora em que o Dio grita "You're all the man", à plenos pulmões, no finalzinho de Man On The Silver Mountain? Meu Jesus. Existe alguma banda assim hoje em dia? Não mesmo...



  • THE JASON BONHAM BAND In the Name of My Father - Homenagem de Jason Bonham e banda ao seu pai, John "Bonzo" Bonham, baterista do Led Zeppelin (se você esteve em Marte nos últimos 30 anos) e o melhor baterista da História do Rock (se você esteve em Plutão). O subtítulo já resume tudo: "The Zepset". Basicamente são 10 clássicos zeppelinianos sendo levados ao vivo. Poderia ser uma bomba pretensiosa, mas não é não. A banda é ótima e dá o sangue nas músicas em belas execuções. O vocal Charles West tem aquele punch do Robert Plant do início (devidas as proporções!), o guitarrista Tony Catania manda muitíssimo bem e o baixista John Smithson é tão cool quanto o John Paul Jones original - e, à exemplo deste, também toca teclado! Grande show. Eu sempre ouço isto aqui, desde que foi lançado. Ah... o Jason é baterista, igual ao pai. E honra tranqüilo o legado da família. Elogio maior que esse, impossível.



  • Na trilha: Speed, do Atari Teenage Riot. E um empate estranho.

    domingo, 11 de setembro de 2005

    CAN I PLAY WITH MADNESS


    Uma hora ia dar merda de qualquer jeito. A questão era só saber com quem - e eu não fiquei tão longe de acertar. Quando soube que o Iron Maiden iria figurar na line-up do Ozzfest, já fiquei com o pé atrás. Assim como tudo o que envolve o Madman Ozzy Osbourne, o evento também é administrado pela sra. sua esposa, a puta Sharon Osbourne (não estou a difamando gratuitamente não... ela mesma se qualificou assim em carta à imprensa - acho que as profissionais da área devem ter ficado ofendidas). E Bruce Dickinson, vocal do Maiden, sempre foi um notório falastrão. Resultado: o que era pra ser um encontro memorável de duas entidades maiores do rock, se tornou um episódio vexaminoso (leia aqui sobre o barraco). Mais um.


    Bruce esculhambando a dinastia Ozz e a puta (foi ela que disse...) Sharon vomitando "Bruce Dickinson is a prick", logo após o show do Maiden - baixe pra assistir aos discursos

    Curiosamente, na página do Ozzfest dedicada ao Maiden, todas as fotos que traziam Bruce desapareceram. Ridículo e infantil é pouco.

    É verdade que Dickinson errou quando falou o que quis, em primeiro lugar. Mas, porra... não era isto mesmo que eu ou você, que aprendeu a admirar o trabalho do Madman desde o Sabbath, sempre quisemos dizer a ele? É um daqueles casos em que alguém está certo mesmo quando está errado. É triste vermos o cara que já foi o símbolo máximo (ainda que involuntário) da revolta contra os padrões estabelecidos, desse jeito, subjugado, amordaçado, sem qualquer resquício de alma ou vontade própria e, principalmente, assimilado pelo sistema que tanto ironizou.

    Juntos, Ozzy e Sharon parecem aqueles casais constrangedores, daqueles que, não satisfeitos em pagar micos publicamente, também fazem questão de embaraçar todos os que estão perto deles. Alguém achou que registrar essas cenas e exibir na televisão seria uma boa idéia, e pronto... lá estava The Osbournes engordando as ações dos Madmen e atirando latrina abaixo a ferpa de credibilidade que Ozzy ainda tinha. Como o destino às vezes brinca sadicamente, Sharon era a pessoa errada na hora certa. Se não fosse ela, o Madman teria morrido em algum ponto entre 84 e 87. Talvez não tivesse sido uma má idéia, afinal ele já está morto em vida há anos.


    É raro ver alguém com coragem para entrar na casa do(a) inimigo(a) e cuspir na cara dele(a), em frente aos seus súditos.

    Thanks Dickinson!



    ANGELS AT THE HOLY GHOST


    O Angra nunca foi lá uma unanimidade dentro do gueto heavy, que também não é um exemplo de concordância por si só, e isto se deve justamente ao estilo que abraçou: o heavy melódico progressivo - com toques de música brasileira (pendendo entre o arrasta-pé cangaceiro e nuances líricas mais barrocas), o que deixa a coisa ainda mais segmentada. Renegado por rockers mais old school e headbangers que adoram ouvir Napalm Death pela manhã, o estilo traz na sacola todos aqueles elementos posers em questão: grandiloqüência operística, virtuosismo pirotécnico, preciosismo cênico, performances com precisão matemática e a indefectível fumacinha de gelo-seco. Mas não é que na prática funciona? Foi o que eu percebi ao ver a apresentação do Angra em Vitória. E olha que eu não sou exatamente um fã da banda.

    Verdade seja dita. Fora os elementos extra-musicais, eles merecem todos os créditos. A banda faz o que faz acreditando no que faz. Você olha e, inspirado, acaba acreditando também (naquela hora, pelo menos). O grupo se esforça ao máximo pra valorizar o custo-benefício do ingresso. Pra quem não é profundo conhecedor do trabalho deles, como eu, a apresentação acaba adquirindo contornos de Espetáculo Musical bem-cuidado. Sem contar a satisfação de apreciar o trabalho de nego que sabe o que fazer com um instrumento em punho. Os integrantes do Angra estão entre os melhores instrumentistas desse planeta - e me refiro à Música no geral. Tudo bem que aí já é uma área de interesse geralmente relegada ao profissional da área, mas não deveria ser assim.


    Assistir às atuações de Kiko Loureiro (guitarra), Rafael Bittencourt (guitarra), Felipe Andreoli (baixo), Aquiles Priester (bateria) e Edu Falaschi (vocal) te faz encher o peito de orgulho canarinho. Eu sei, é tudo naquele velho esqueminha do rock nacional turbinado com recursos de classe média alta, mas pelo menos eles souberam fazer um bom uso da mesada... O palco, coberto com uma lona estampada com a capa do álbum Rebirth, foi uma jogada esperta, escondendo a preparação e a colocação dos instrumentos - procedimentos burocráticos meio empacantes em shows de rock - embora também tenha anulado aquele impacto natural de quando vemos os integrantes saindo dos bastidores enfumaçados em direção às suas "armas de guerra".

    O show começou com duas peças orquestrais grandiosas, Gate XIII e Deus Le Volt! (do último disco, Temple Of Shadows, que eu só não identifiquei na hora devido ao meu já avançado estado etílico). Na seqüência, a paulada Spread Your Fire me trouxe duas conclusões: 1 - O batera Aquiles Priester é realmente monstruoso; 2 - O som estava abafado, o que foi uma bolada nas costas da banda, que se apóia em riffs, solos elaboradíssimos e intervenções-chave da tecladeira (com os agudos lá embaixo... já viu). Isso foi realmente uma ironia do destino, visto que o Ginásio Álvares Cabral tem uma das melhores acústicas do país. E não é bairrismo não.


    Essas placas do teto separam o som como se fossem canais de freqüência, fazendo com que cada instrumental se torne muito mais perceptível, diminuindo a propagação desordenada, a mistura das ondas e a distorção típica de amplificações extremamente altas (=shows de rock). Com uma configuração standard na mesa de som, fica parecendo um CD rolando ao vivo. Pena que não fizeram um bom uso dela. Mas isso não parece ter desanimado os presentes, que cantaram todas as músicas em uníssono. Parecia até uma procissão. E eu estava lá mais pra ouvir ao vivo o riff assassino de Carry On. E Nothing To Say também. E os mais de dez minutos de Carolina IV. Tá, e a baladinha chorosa Make Believe. Opa, esta eles não tocaram.

    Aliás, sobre aqueles elementos extra-musicais os quais eu me referi... a obediência do público foi canina. Não é toda banda que deixa os fãs desse jeito não. A introduçãozinha falada de Rebirth ("recalling, retreating... returning, retreaving..."), p. ex., chegou dar arrepios, com todos juntos balbuciando as palavras. Não sei quanto a você, mas eu me sinto bem melhor vivendo em um mundo no qual os moleques estão curtindo Angra ao invés de nulidades pop-domingueiras. É só uma fase. Depois eles vão descobrir que bons mesmo são Black Sabbath, Motörhead e AC/DC. :)

    Em tempo: perdi o show de abertura, que ficou a cargo da banda paulistana Thalion. E realmente não me importei muito, visto que a deliciosa vocalista Alexandra Liambos deixou o grupo em agosto. Por outro lado, ouvi dizer que eles levaram o semi-hit Nemo, do Nightwish, que leva vocalizações femininas. Acho que perdi alguma coisa interessante aí...



    AOS VIVOS


    Holy Live é um Ep ao vivo gravado em Paris e lançado em 1997. Era o auge da banda em sua fase com o vocalista André Matos. Deu aquela quizumba toda - mal-explicada pacas, mas que obviamente tem a ver com grana - e o cantor saiu fora (levando consigo o baixista e o baterista) pra montar o Shaman. Mas voltando ao assunto, Holy Live mostra por que o grupo estava se dando tão bem na União Européia e no Japão. O público lá venerava os caras.

    Rebirth World Tour - Live In São Paulo, lançado em 2002, funcionou mais como uma iniciação para o Angra reformado - e em primeira instância, para o vocal Edu Falaschi. A sonoridade desta vez veio bem mais crua e visceral, ao contrário do polimento asséptico de Holy Live. E é também a principal diferença entre o lirismo angelical de Matos e a rispidez macha de Falaschi. O primeiro pode até superar em carisma, mas é o segundo que não mancha a imagem hetero do ouvinte.


    Na trilha: álbum Tyranny Of Souls... do Dickinson. E hoje é 11/9, aniversário do atentado ao WTC... maldita raça humana.

    sexta-feira, 2 de setembro de 2005

    ENQUANTO ISSO, NO COMIC ART COMMUNITY

    (sai clicando em cima)


    Arte conceitual de Kojima Ayami para Castlevania - Curse of Darkness

    Seven Soldiers Zatanna #4 Seven Soldiers Bulleteer #1
    Ainda sonho com um filme da Zatanna com a Jennifer Connelly no papel... e um chamariz interessante à direita... ou melhor, dois...

    Swamp Thing #21 O Deus do Trovão rende ótimas cenas!
    Meu ídolo Eric Powell (The Goon) desenhando o Monstro do Pântano? Eu quero ver isto! Ao lado, uma bela arte de Ariel Olivetti... será o novo Esad Ribic?



    THE FUTURE IS THE PAST BABY
    O miolo de alguns dos álbuns que estão aí ao lado


    THE CULT - LIVE MARQUEE LONDON MCMXCI
    (Beggar's Banquet/1999)


    Esse disco ao vivo é uma raridade na discografia do The Cult, o que é uma pena, pois é muito superior ao recente Live Cult. Gravado originalmente como um bootleg, Live Marquee London MCMXCI recebeu mais tarde uma encorpada técnica em estúdio. Nada muito radical (algumas entonações e regulagens de volume), o que lhe confere um clima de piratão bem produzido. E melhor, sem os famigerados overdubs. Está tudo lá como foi no show, inclusive com alguns ligeiros errinhos, o que deixa a coisa ainda mais autêntica (e rock 'n' roller).

    O show, de 27/11/1991, traz todas as músicas que importam do Cult, em versões vigorosas e cheias de entrega. Tem músicas da fase inicial pós-punk/gótica, como Spiritwalker, Horse Nation, Nirvana, Love, Brother Wolf Sister Moon, Rain, porradas hard-stoneanas-ac/dczísticas como Lil' Devil, Wild Flower, Full Tilt, Love Removal Machine, e hits certeiros como Revolution, She Sells Sanctuary e Fire Woman. Showzão.

    Ainda que freqüentemente associado à cena hard dos anos 80, o Cult se destacava fácil na multidão, seja pelas porradas do batera Michael Lee, pelas guitarradas do ótimo Billy Duffy ou pelos vocais quase olímpicos de Ian Astbury - que foi recrutado pela nova encarnação do The Doors.


    THE KILLERS - HOT FUSS [LIMITED EDITION]
    (Island/2005)


    Bem, já fazia mesmo algum tempo que as bandas mais recentes andavam metendo o dedo na torta de amora dos anos 80. The Killers não se fez de rogado e enfiou logo o mãozão inteiro. O resultado é um assalto àquele som redondo, dançante, encorpado, cheio daqueles tecladinhos chicletudos que foram explorados à exaustão desde o fim do Joy Division. Hot Fuss é a trilha sonora daqueles inferninhos dance'n'roll de antigamente. Quer saber? Irresistível. Não é cabeção como o Interpol, vacilante como o Blur, nem deprê como o Coldplay. Muito pelo contrário. A banda consegue reeditar aquele mesmo climão de alegria, escapismo e satisfação, como há muito tempo não se (ou)via.

    A seqüência de abertura é uma covardia pumperô. Logo de cara, Jenny Was a Friend of Mine já entrega ao que a banda veio, com aquele tecladinho synth-superbonder e os slaps do baixão em cima. Mr. Brightside é uma dance porrada que Andrew W.K. daria o braço direito pra ter composto. Smile Like You Mean It já é mais espaçosa, com o maldito teclado colando nos neurônios novamente e uma guitarra percussiva à The Edge. Já o megahit Somebody Told Me quebra todos os recordes de chicletitude estabelecidos pelo Gorillaz. Ainda bem que eu não ouço FM. Engraçado que dessa faixa em diante a banda emenda em uma sonzeira mais rebuscada, às vezes beirando o pós-punk à Gang Of Four, como All These Things I've Done, Andy You're a Star e Midnight Show. Mas também restam umas colas bem resistentes, como On Top (que lembra muito Trio) e a maresia à Madness de Glamourous Indie Rock 'nRoll.

    Essa versão "limitada" (em tempos de web... há!) traz duas faixas-bônus: The Ballad of Michael Valentine, que lembra muito a Plastic Ono Elephant's Memory Band de John Lennon, e a atiradinha Under The Gun.

    E honrando o espólio oitentista, The Killers também fez um cover para Why Don't You Find Out for Yourself, do Morrissey, que saiu em um single lançado na Inglaterra.

    Mais sugestões de covers para os Killers:

    After the Fire - Der Kommissar
    The Romantics - Talking in Your Sleep
    The Thompson Twins - Lies


    SAXON - THE EAGLE HAS LANDED PART II (LIVE)
    (CMC International/1996)


    Egresso da cena NWOBHM, o Saxon nunca teve aquela mesma carga lírica tradicionalista de contemporâneos como o Iron Maiden, Judas Priest ou Tygers Of Pan Tang. Apesar da inegável veia heavy, o grupo era dono de uma pegada muito mais chutada, mais rocker. E sempre foi assim, o que impede que a banda seja contextualizada em "fases". O Saxon faz rock'n'roll estradeiro da mesma forma que AC/DC e Motörhead: all time.

    Neste showzaço, desfilam todos os pontos altos dos então vinte e poucos anos da banda. Tem Dogs of War, Forever Free, Requiem, Princess of the Night, Light in the Sky, Refugee, Wheels of Steel, a levanta-estádio Crusader... na moral: este disco é um arraso do início ao fim. E não poderia deixar de destacar os vocais e a simpatia do frontman Biff Byford. Ele bota o público pra comer na sua mão e deixa transparecer o quanto a banda - que já esteve no Brasil um punhado de vezes - deve ser arrasadora ao vivo.


    THE MIST - THE HANGMAN TREE
    (Cogumelo Records/1992)


    Esse disco pertence à melhor safra do rock pesado brazuca e é um dos mais representativos daquela época. O ano era 1992 e o frisson causado pelo Rock In Rio 2 fazia coro com uma cena prolífica que incluía bandas como Sepultura, Korzus, Overdose, Sarcófago, Dorsal Atlântica, Witchhammer, Atommica, Holocausto, entre tantas outras - a maioria do cast quase heróico da Cogumelo Records. E, mais importante, sempre com uma alta qualidade, tanto de produça quanto de performance musical.

    Formado pelo ex-Chakal Vladimir Korg (vocal), Jairo Guedz (guitarra), Marcello Diaz (baixo/teclados) e Christiano Salles (bateria), o grupo mineiro The Mist estreou em 1989, com o cultuado Phantasmagoria. Nesse disco, a mistura de thrash, doom e gothic com vocais cavernosos (parecia um Lemmy Kilmister morto-vivo), já era bem eficiente, mas chegou quase à perfeição no segundo álbum, The Hangman Tree. Pauladas assustadoras como Scarecrow, Falling Into My Inner Abyss, Broken Toys, Leave Me Alone e Peter Pan Against the World, dividem espaço com momentos mais soturnos e introspectivos, como trechos da faixa de abertura, God of Black and White Images, e a faixa-título (fragmentada em duas partes). E tudo sendo mandado no clima de pesadelo mais tenebroso que se possa imaginar.


    VIPER - EVOLUTION
    (Eldorado/1992)


    Até 1994, achei que essa banda fosse a the next big thing do brazilian metal for export. Um acidente de percurso (mudança para pop rock com letras em português) tirou o Viper dos trilhos. O grupo perdeu o mercado externo e não conseguiu emplacar aqui dentro. Pena. Livre das amarras do heavy tradicional que praticava no começo (quando contava com o André Matos na formação), o Viper optou pelo básico e acertou em cheio. Evolution é um dos álbuns de rock mais divertidos já lançados por um grupo brasileiro.

    Power, speed, heavy, melodic, hard, enfim... quase todo o combo metálico comparece nesse disco energético e festeiro. Evolution é disco de festa por excelência. É rock de arena ganchudo e descarado. Tenta ouvir o arregaço Rebel Maniac sem berrar o refrão. Ou a faixa-título, com uma esperta jogada de tempo no andamento. Já a balada hard Dead Light te faz aumentar o som quase que inconscientemente. E as guitarras de The Shelter? Nossa senhora. E Still the Same? Não consigo imaginar um lugar melhor pra ouvir essa música do que numa Harley Davidson à mil por hora na estrada. É uma paulada atrás da outra. Quase no finalzinho você ainda pode torcer o nariz pra baladinha The Spreading Soul, mas duvido que consiga ficar incólume por muito tempo...

    Uma única reserva eu faço à versão speed metal para o clássico We Will Rock You, do Queen. Hino lento e pesado, esse tour-de-force da brodagem etílica ficou banal em alta velocidade. Mas é perdoável.


    dogg - gripado e enchendo o talo de café!

    segunda-feira, 29 de agosto de 2005

    SUE STORM E A ERA DE AQUÁRIO


    Interessante. Parece que a linha ultimate irá revisitar uma das maiores corneadas das HQs. A capa da edição #25 de Ultimate Fantastic Four já traz a libidinosa Susan Storm se roçando em Namor, o Garanhão Submarino. Aliás, cabe aí uma observação. Apesar do traço sempre maravilhoso do artista Greg Land (da ótima Sojourn), o soberano de Atlântida ficou parecendo um gênio. Aqueles, de garrafa encantada. Deve realizar mais que três desejos para a Sue, com certeza. Sempre reclamosa da atenção de Reed Richards, Sue é um daqueles casos interessantes de personalidade humana bem caracterizada para os quadrinhos.

    Inicialmente uma comportada housewife dos anos 60, Sue começou a pirar com a postura comedida e sempre cerebral de Reed. Ela não tinha os poderes do Homem-Aranha, mas começou a subir pelas paredes. Quando Namor a raptou para tê-la como sua rainha, a recusa do início se transformou rapidamente em "taí, acho que eu posso curtir muito tudo isso". Reed se desesperou e precisou da ajuda do cunhado e do amigo da família pra reaver a concha perdida. Obviamente que a inocência e a politicagem correta da época impedia certas considerações mais óbvias, mas hoje fica explícita a motivação de Sue. Namor é um canhão de testosterona. Com músculos esculpidos em mármore e sempre com o torso à mostra, ele era a personificação do básico instinto aos olhos de Sue. E isso era o oposto imediato à racionalização broxante de Reed.

    Veio o cinismo dos anos 80, depois a cara-de-pau dos 90, e agora a putaria ideológica do novo milênio. Vale lembrar que Sue é bem mais jovem na versão ultimate, o que nos remete novamente à analogias com a realidade. É o fim do elemento "dona-de-casa" e o início de uma era de terror para os Reed Richard's enrustidos, sempre imersos em projetos pretensiosos e compromissos "mais importantes". Coincidentemente, também é o início da Era de Aquário. Cuidado com o tubarão.


    Uma das HQs mais emblemáticas sobre a questão é justamente Marvel Knights - Fantastic Four: 1234*, da abençoada dupla Grant Morrison/Jae Lee. Morrison é tão genial, mas tão genial, que tocou neste assunto e o esgotou sem que ao menos ele fosse o tema principal. E ainda elevou ao máximo outras questões já esperadas, como a autopiedade crônica de Ben Grimm e a concorrência até o limite entre Reed e o Dr. Destino. Também iniciou um certo bafafá relacionado ao mau-humor de Johnny, que alguns relacionaram à um suposto tesão reprimido que ele sente pela irmã. Sinceramente eu não vi isto aqui não, mas vindo de Morrison... vai saber. :)

    E Jae Lee. Vai desenhar assim lá no caixa-prego. Puta que o pariu. Jae Lee é daqueles que quando eu leio algo desenhado por ele, dá vontade de mandar à merda todo mundo que se diz desenhista (principalmente seu quase-xará, tão bajulado).

    * Não sei quem escaneou a revista (em pdf). Nos créditos tinha um "e eu" anônimo, logo abaixo do nome do Fernando Lopes. E o Luwig já a disponibilizou certa vez. De qualquer forma, muito obrigado ao "soldado desconhecido". :)


    Putz... até o Bruce Timm sacaneou



    HAJA BAIGON


    Pois é. Esse é o Galactus Ultimate. Ou melhor... o Gah Lak Tus. Daí pode sair algo genial ou algo bem podre. Depende do background que fizeram pra ele.

    E não é um só não. Parece que será uma infestação de Gah... Lak... Tus's.


    Nas palavras de Warren Ellis:

    "Galactus is not a big guy in a purple helmet, Galactus is a big and scary and alien and not at all what you'd imagine. Galactus is a thing that scourss inhabited planets for life. A 100-foot-tall guy in a Death Star isn't totally convincing in that gig. And you don't defeat him by beating him up or waving a little gadget at him."

    De repente Ultimate Extinction virou obrigatório. Que coisa não?


    dogg ama e apóia essa nova frente de abertura feminina. E já treinando para o show do Nine Inch Nails, em novembro. With Teeth é o discaço que me serviu de trilha para essas linhas.

    Acho que este é o post mais esquisito que já escrevi.

    domingo, 14 de agosto de 2005

    O COIOTE E O PAPA-LÉGUAS

    Rodriguez: - Chega de tiro? Miller: Quase... dá mais uns dez no saco que já tá de bom tamanho.

    Estamos presenciando o surgimento de uma subtendência nessa última leva de adaptações de quadrinhos para o cinema (já totalmente inseridas na ordem do dia). Algo que só ocorria com mais freqüência em adaptações de livros. O target agora é a fidelidade ao material original. Claro que muito disso se deve à farofadas com gosto de pólvora, do calibre de Elektra e Mulher-Gato. Finalmente aprenderam que nem todo mundo tem a classe e o talento de Bryan Singer para reinventar estruturas estabelecidas e quase sagradas para os fãs. E que nem todo material pede por revisões pseudo-melhoradas - coisa que, por sinal, raramente acontece.

    Em um comparativo mais do que providencial, está vindo aí a adaptação de V de Vingança, que anda se revelando uma crônica da alteração anunciada. Seria muito bom se viessem com idéias melhores (mesmo!), mas como, neste caso, o padrão original é Alan Moore, acho meio difícil, pra não dizer impossível...

    Sin City - A Cidade do Pecado (Frank Miller's Sin City, 2005) acaba sendo o extremo dessa pendenga. É o fim do ágio entre o fã, o estúdio e o texto original. Nunca fizeram e provavelmente nunca farão algo tão fiel, mesmo porquê, o material já saiu da mente do ronin Frank Miller com claras aspirações (e inspirações) cinematográficas, e perfeitamente entendidas pelo diretor Robert Rodriguez. Eu diria até mais: só agora essa urbanidade caótica criada por Miller encontrou seu verdadeiro lar. Tudo soa natural por aqui, sem aquela sensação de "aventura humana em um universo animado", comum em transposições literais como essa (com alguns passos à frente do Dick Tracy de 1990). Ok, a dinâmica física é um exercício descarado de estilização, sem dúvida, mas distante de qualquer preciosismo. Através desse recurso, o filme priviliegia uma ação mais solta, cartunesca, abrangente, depretensiosa, violenta... e divertida - palavrinha execrada solenemente pela sensível inteligentsia patrulhinha.

    Ah, a violência...


    Todas as ações violentas em Sin City encontram uma motivação direta? Não mesmo, e nem deveriam. Cada uma delas tem um background que a justifica. É diferente. Isolar o fator "violência" como um elemento depreciativo do todo é de uma má-vontade mastodôntica. É preguiça mental e ideológica. Já li alguns absurdos por aí baseados nesse equívoco cegueta e emburrecedor. Pessoas que deveriam fazer um melhor uso da plataforma que têm na mídia andam culpando uma geração inteira por uma suposta degradação moral e cultural - que sempre existiu, devidas as proporções de época. Então, fica difícil ter de ouvir que O Clube da Luta é contextualmente vazio (e é exatamente o contrário!) ou variações ad nauseum do discurso de Tiros em Columbine, como se isso resumisse tudo num passe de mágica.

    Não é de hoje que a violência é destrinchada com intensidade over no cinema. Tenho como comparativo extremo o despirocante Henry - Retrato de um Assassino (Henry: Portrait of a Serial Killer, 1986). Só a cena do videotape é mais arrepiante e violenta que Sin City inteiro - e ainda plenamente justificada dentro de seu conceito. Na época, o filme foi repudiado pela crítica, mas hoje tascam-lhe uma tarja cult reparatória. Que hipocrisia.

    Ironicamente, perto dessas considerações, Sin City não passa nem raspando. É o mesmo que acusar Chuck Jones de fazer apologia à violência através dos cartoons do Coiote e do Papa-Léguas.

    Marv, o marvado

    Fragmentado em três linhas narrativas (extraídas das HQs The Hard Goodbye, The Big Fat Kill e That Yellow Bastard), o filme abre com uma cena tão cool (saída de The Customer is Always Right), que chegou a me dar arrependimento de tê-la assistido antes. Em seguida, emenda na via crucis de John Hartigan (Bruce Willis), o último policial honesto da cidade. Muito doente e a uma hora de sua aposentadoria, Hartigan ainda consegue salvar a vida de uma garotinha das garras do psicótico Roark Jr (Nick Stahl... esse cara promete...). O problema é que o Jr é filho do corrupto e malévolo Senador Roark (o malévolo Powers Boothe), irmão do influente Cardeal Roark (Rutger Hauer, reaparecido do limbo).

    Corta para a avassaladora jornada do bad boy Marv (o bad boy Mickey Roark... digo, Rourke). Após uma noite inesquecível com a bela Goldie (Jamie King), Marv encontra a motivação da sua vida ao acordar com ela morta ao seu lado. Literalmente coloca a cidade de pernas pro ar para resolver o crime. Na seqüência, Sin City tem o seu momento mais thriller noir, com a história de Dwight (Clive Owen, style até a medula óssea), praticamente um... hã, pulp fiction em movimento. O climão sugestivo e espirituoso do início vai descarrilhando até se largar de vez numa metelança de vísceras, desmembramentos e fuzilamentos em larga escala.

    Quentin Tarantino aparece nos créditos de Sin City como diretor convidado (cobrando a mesma quantia que Rodriguez cobrou pra fazer a trilha de Kill Bill vol.2: US$ 1), e nem precisa dizer que é dele a cena entre Dwight e o presunto Jackie Boy (Benicio Del Toro, mais seboso que um percevejo). Os diálogos e a situação improvável, apesar de serem de Miller, parecem saídos de algum extra obscuro de Cães de Aluguel.

    Mickey Rourke, que já foi um big big star, tem a chance de tirar o pé da lama com esse filme, da mesma forma que John Travolta em Pulp Fiction. Só não digo que ele vai aproveitar, pois sempre foi um sujeito difícil e orgulhoso (Alan Parker que o diga). Por hora, é curtir o durão Marv, que consegue ser ainda mais psicótico e ameaçador que nos quadrinhos - e ainda com uma ligeira verve "pop monster" à Mickey Knox (de Assassinos por Natureza). E palmas Elijah Wood, aqui um verdadeiro Frodo From Hell. Sempre achei que ele tinha cara de doente disfarçado. As tretas dele com Marv, apesar de curtinhas, são de arrepiar. Detalhe: Rourke e Wood nem chegaram a se encontrar nos sets.


    Outra bela surpresa foi Devon Aoki no papel da letal assassina Miho. Que olhar assustador o dessa menina. Perderia por pouco da Beatrix Kiddo, mas chutaria fácil o traseiro da Elektra Garner.

    Ôôôôaaaa...seguuuuuuura peãooo...

    As mulheres, aliás, são a força motriz de Sin City - e que Deus abençoe Rodriguez/Miller por trazerem a maravilhosa Carla Gugino quase como veio ao mundo. E sem palavras para descrever a family-destroyer Jessica Alba. A Jessica acalba comigo (a ponto de eu fazer trocadilhos geniais como esse).

    Sua cowgirl Nancy Callahan já é a pinup da minha vida e merece urgente um spinoff (x-rated, de preferência).

    E agora eu quero aquele pôster de qualquer jeito.

    Minha namorada stripper

    Alguns pequenos desníveis climáticos pipocam em Sin City, e a maioria deles é devido ao recurso da quebra temporal, que, embora não seja prejudicial, é um tanto desnecessário. Isso fica claro quando a carnificina quase épica da saga de Marv dá lugar ao cuidadoso conto de Dwight. Meio abrupto. Como se, após devorar aquela churrascada sanguinolenta, ter que limpar o canto da boca pra degustar um requintado soufflé au fromage. Ficaria mais funcional e impactante se ignorassem o formato em loop do roteiro e ficassem no Hartigan-Dwight-Marv. Do jeito que está, fica parecendo um primo pobre de pauleiras narrativas como Amnésia, 21 Gramas ou mesmo Pulp Fiction. Nada demais, entretanto.

    Segundo Robert Rodriguez, o filme Sin City não é uma adaptação, e sim uma tradução. Perfeito. Afinal, tenho de admitir... esse filme é mesmo a melhor transposição já feita de uma HQ.

    Mas não da melhor HQ.



    MILLER: MONOCROMÁTICO


    Marv, sem saber que é filho do padre

    "NYC, 2:45 da manhã. Os becos de Manhattan já não parecem tão familares para mim. Mendigos, loucos delirantes, bêbados, prostitutas baratas, traficantes, garotinhas estranhas, sujeitos mal-encarados, ilustradores de quadrinhos e roteiristas desempregados. A escória da sociedade. Meu antigo lar. Muito diferente da minha belíssima cobertura na esquina da quinta com a sexta. Lá eu tenho uma vista privilegiada para a baía. Quartos enormes, sala de cinema, bar, academia, hidro. Uma piscina imensa onde dificilmente eu entro, pois não sei nadar. Cristo, até a Oprah esteve lá certa vez. Mas nem sempre foi assim. Tive me especializar em minha área e sair do gueto em que me encontrava no começo de carreira. Aprendi a enxergar além. E para trás também, ao mesmo tempo. Aproveitei a onda cyberpunk/no future do filme Blade Runner e misturei ao contexto de velhos e cansados heróis. Hype virou o meu segundo nome.

    O primeiro deles foi um herói cego da Cozinha do Inferno. Coloquei a vidinha do cara de pernas pro ar e inseri uma sexy-symbol que misturava tragédia grega, artes marciais e fetiche sadomasô. Ótimos resultados. Virei o hit do momento. Eu era o garoto que estava ensinando aos veteranos. O próximo herói a tomar uma geral foi o Homem-Morcego. Transformei em realidade os piores temores daquele sujeito paranóico, coisa que sempre foi sugerida, mas evitada. Senti como se estivesse dando vida aos delíros mais insanos de Dom Quixote. Todo mundo gostou e eu garanti meu lugar na História. Foi show.

    Com o tempo, fui percebendo que as pessoas gostam mesmo é de uma boa desgraceira. Paranóia, decadência, obsessão, sexo e violência. É isso o que vende. Os super-heróis...? Esses podiam ficar até em segundo, terceiro plano. E enxergando além, vi que nem precisava mais deles, só da desgraceira. Foi aí que tive a idéia de criar um universo urbanóide, caótico, independente de centralizações e com vida própria. Aproveitei e meti junto um clima noir rebuscado e enquadramentos angulosos, reforçando a impressão cinematográfica. Eu sou o cara. Foi mais um sucesso, mas desta vez estranhamente com uma pecha underground. Não gosto disso. Eu preciso é de dinheiro, oras!

    Enquanto recorro a um certo orelhudo pra levantar uma graninha aí, começo a agitar um filme sobre aquele universo urbanóide comercialmente promissor. E também quero participar da brincadeira. Não quero dar uma de Mike Mignola e ficar só dando tchauzinhos pelo set. Mas não posso cometer erros. Tenho de contar com os melhores do ramo. De porcaria já me bastou Robocop 2. Descolei um mariachi à um preço módico, com cojones o suficiente para encarar a empreitada (embora ele tenha essa estranha mania de fazer filme infantil entre uma carnificina e outra), e um sociopata tarado por cinema oriental. Desta vez eu era o veterano que estava aprendendo com os garotos.

    Deu certo. Tirando uma ou outra florzinha que escreve no Rotten Tomatoes, todos aplaudiram em pé. Preto & branco é o que há! Comecei na sétima arte com o pé esquerdo, mas desta vez eu bombei. Me sinto como se fosse a própria Sofia Coppola. Franquia? Com certeza.

    Aguarde por toneladas de novas edições. Afinal, preciso de sketches e story-boards prontos. É o esquema perfeito! Nada melhor que unir o útil ao agradável.

    Nos vemos em Sin City 2!

    (...)

    E Moore... ao invés de ficar aí sentado e resmungando porque estão estragando suas obras-primas, faça como eu... move your ass!"




    ...E OUÇA O DISCO

    A trilha do caos

    Uma coisa que logo me saltou aos ouvidos em Sin City: el mariachi Rodriguez está se tornando um grande compositor de trilhas! Ele e os feras Graeme Revell e John Debney fizeram um excelente trampo. É um primor de atmosfera incidental. Algo jazzy, soturno, dark, sujo e sarcástico, por vezes deliciosamente exagerado, como o próprio filme.

    A faixa-título começa estilosa e resvala quase num cabaret pós-punk. A guitarra em reverber cheio de efeito no finalzinho ficou demais. Haja Pro Tools. Pena que só tem dois minutinhos. A faixa Marv é o momento mais pesado, como não poderia deixar de ser. Começa cadenciada e vai dando a lugar a um teclado fantasmagórico e um batida sujona. Parece trilha de filme do David Lynch. Old Town Girls traz o sax mais vagabundo e ordinário já gravado desde o fim do Morphine. Já a percussão epiléptica e o sax cheiradaço de Jackie Boy's Head lembra muito as pirações do veterano Link Wray. Sin City End Titles começa como se fosse o replay da faixa-título, e emenda numa sonzeira blues rock-mariachi de boteco vagabundo. Parece que a qualquer momento alguém vai aparecer gritando "pussy, pussy... pussy lovers!!" :P

    E como este blog não presta...

    "Sin City - Original Motion Picture Soundtrack"


    Pra arrematar, a banda alternativóide Fluke comparece com uma faixa autoral, chamada Absurd (um industrialzão standart). Curiosamente, a trilha cool do último trailer ficou de fora. A música é do grupo The Servant, e se chama Cells - pra baixá-la, clique aqui. Ela é muito, muito legal, o riffzinho é matador. Deveria ter ficado no lugar do Fluke.



    MEGA-TURNÊ DE REUNIÃO



    Tudo bem... na verdade só o Alcofa e o Luwig voltaram. Os miseráveis deletaram seus respectivos sítios cheios de imagens e textos bacanas, mas é perdoável. Afinal, os caras estão de volta...! E merecem uma skol gelada!

    Eu e o Victor estamos aí de lambuja, com novíssimos e foderosos banners. Cortesia do Lobo Schmidt, o melhor banneiro de Czarnia. Valeu!


    Na trilha: Cells, do The Servant... pela centésima vez só hoje.