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terça-feira, 27 de agosto de 2024

O culto ao Lagarto Mágico


Na zaga: Cook Craig, Ambrose Kenny-Smith, Michael Cavanagh e Lucas Harwood; No ataque: Stu Mackenzie e Joey Walker

Era mais fácil acertar na loteria do que antecipar o sucesso atual do King Gizzard & the Lizard Wizard. Esperaria isso de outras bandas cult ad eternum, tipo Gallon Drunk, The BellRays ou até o Squirrel Nut Zippers. Mas a evolução das espécies – e da indústria musical – tinha outros planos.

O sexteto australiano foi fundado por Stu Mackenzie, Joey Walker e pelo ex-integrante Eric Moore em 2010, quando estudavam indústria musical na Universidade RMIT, em Melbourne. Conheci em 2019, no pesadão Infest the Rats' Nest. Desde então, o grupo não saiu mais do play e das minhas listas de melhores do ano. E afirmo isso da forma menos deslumbrada possível, visto que os caras são ratos (ou lagartos) de estúdio: só em 2022 eles lançaram cinco álbuns. Contando com o excelente Flight b741, lançado este mês, eles já contam com 26 discos de estúdio. E olha lá se não desovaram mais algum enquanto termino de datilografar.

O mais impressionante é que cada registro trafega por um gênero diferente. Tem pra todo mundo: rock psicodélico, heavy metal, stoner, thrash metal, garage rock, space rock, música eletrônica, progressivo. E sem perder a identidade.

Mas nada é ao acaso. Além de multi-instrumentistas impecáveis, são operários 24/7, trabalhadores heavy duty. E é evidente que souberam, como poucos, ressignificar a desconstrução do disco ao seu favor.

O resultado são os shows concorridíssimos das últimas turnês – sold out na Europa e agora, nos Estados Unidos e Canadá. Ao que consta, o cachê atual da banda gira entre 150 e 300k (Bidens, of course) para datas na América do Norte. Abaixo da linha do Equador, deve ser o triplo do valor mais os rins e as córneas do público.

Mas até nisso o grupo resolveu subverter e está transmitindo cada apresentação do atual rolê em lives no seu canal do YouTube. A ação é qualquer coisa de espetacular. Seguem os shows de sábado e domingo últimos.




De Cleveland/Ohio a Newport/Kentucky são 402 km. Deve ter sido um corre daqueles. 24 horas de busão, toneladas de equipamentos, seis abençoados mais equipe. Operários mesmo.

Logo mais, tem outro.

Ps: as lives são removidas na sequência, mas sempre tem um samaritano que reposta. Lógico que não devem durar muito também.

terça-feira, 6 de junho de 2023

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Nós precisamos dessa heroína


Anna Mae “Tina Turner” Bullock
(1939 - 2023)

Se foi Tina Turner. Que mulher inacreditável. Que vida inacreditável. Deveria ser disciplina obrigatória para cada geração nos próximos dez mil anos. Garanto que cada menina e cada menino entraria na Cúpula do Trovão com sangue nos olhos para encarar o que a vida trouxesse.

De origem muito pobre, saída dos cafundós do Tennessee, Anna Mae transcendeu, sofreu o diabo e perdeu tudo, mas assumiu o controle e reescreveu sua própria história. Que está aí, para todos verem, lerem, ouvirem, aprenderem. Ela foi coração, foi coragem e foi um talento maior que o mundo. Uma guerreira do mundo real.

Na barriga da miséria, Tina Turner só não nasceu brasileira por um mero acaso.


Rainha do Rock and Roll é pouco.

segunda-feira, 10 de abril de 2023

“Respeitável público, com vocês...”


The Butthole Surfers Movie promete destrinchar a trajetória da cultuada banda texana, um dos pilares da música alternativa americana — da verdadeira música alternativa, transgressora, irreverente e barulhenta, anos-luz de engambelações tipo Post Malone, Machine Gun Kelly e Billie Eilish. E o Lollapalooza dos primórdios tem tudo a ver com isso.

As apresentações anárquicas e proibidonas dos Surfers sempre foram lendárias, mas invariavelmente relegadas ao circuito underground. Na primeira edição do Lollapalooza, porém, isso mudou. Foram mais de 20 datas cruzando os Estados Unidos entre julho e agosto de 1991. Lá, os Surfers desfilaram todo o seu repertório de bizarrices, putarias e da mais pura insanidade-na-marca-do-pênalti, como comprovam as "brincadeiras" com fogo e as cenas do vocalista Gibby Haynes empunhando um trabuco em pleno palco e praticando tiro ao alvo sobre as cabeças do público (!!).

O Lolla atual pode ser a epítome do entretenimento gourmet inofensivo, mas houve um tempo em que a millennialzada leite com pera sairia de lá traumatizada...

O doc está cheio de depoimentos de gente como Jim Jarmusch, Richard Linklater, Steve Albini, Flea, Ice-T, Henry Rollins, Thurston Moore (Sonic Youth), Donita Sparks (L7), East Bay Ray (Dead Kennedys), Buzz Osborne (Melvins) e mais um punhado de notáveis. A previsão de estreia é para o final de abril.

A direção é de Tom Stern, que coleta material sobre o grupo desde 1986, quando ainda era um estudante de cinema. A co-produção dele com Noa Durban foi bancada através de um Kickstarter que arrecadou mais que o dobro da meta pretendida.

Pelo visto, muita gente também quer surfar naquele Butthole.

segunda-feira, 20 de março de 2023

Positive creep


Quando o Nirvana botou os pés no palco do Reading Festival, em 30 de agosto de 1992, o trio estava na crista do tsunami alternativo. Foram dias insanos para quem curtia um pingado noise e queria fugir da ressaca hard/glam dos anos 1980.

Vi uns trechinhos da apresentação, exibida na época pela (então descoladinha) TV Bandeirantes. Kurt Cobain entrando numa cadeira de rodas travestido com uma longa peruca loira e clima de ensaio empolgado diante de 60 mil doidões e doidonas.

Nesses anos todos, nunca ouvi a performance completa. Pelo menos até dia desses, ao conferir o monumental Live at Reading, pack de CD + DVD lançado em 2009. E me surpreendi muito.

Apresentação coesa, sem firulas, porrada atrás de porrada, tudo muito bem calibrado para funcionar naquele espaço gigantesco — 150 acres da Little John's Farm — com andamentos ligeiramente mais lentos, pesados e arenosos, mesmo nas baladas. Um showzaço. Mal dá pra acreditar que, quatro meses depois, a banda cometeria algumas das apresentações mais caóticas da história do showbiz em pleno Hollywood Rock, com praticamente o mesmo setlist.

Em algum multiverso grunge, o Nirvana entregou aqui o show que fez no Reading. E o Reading recebeu a nossa bomba. Que se fodam os ingleses.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

HIPPIES DON'T LIE


Peso, lisergia e lirismo diretos de Estocolmo, Suécia. O Siena Root poderia ser mais uma banda de garotos que amavam Zeppelin, Purple & Sabbath, não fossem as relações realmente estreitas com o dito "classic rock" - e o talento necessário para tal. O grupo foi criado no fim dos anos noventa pelo baixista Sam Riffer e pelo baterista Love H Forsberg ("Love", para os íntimos), que já tocavam juntos há quase dez anos. Logo arrendaram KG West (guitarra, órgão, cítara [!], backings e clone do Urso do Cabelo Duro) e Oskar Lundström (vocais). Com essa formação, gravaram o excelente debut, A New Day Dawning, de 2004. Pouco depois, Oskar saiu da banda e foi substuído pela cantora Sanya. Com a vocalista, eles lançaram seu segundo disco, Kaleidoscope, de 2006. No ano seguinte, ela deixou o grupo, dando lugar a Sartez, que cantou no novo álbum, Far From The Sun - e que, até onde sei, ainda continua na banda.

As constantes mudanças de frontmen seria algo desastroso em qualquer grupo, mas o que acontece com o Siena Root é a profusão de um fenômeno raro. Quantas vezes na história do rock'n'roll um cantor cedeu espaço a outro tão bom ou até melhor? E que compreende exatamente o que a banda precisa naquele momento? Os casos são poucos e notórios - de cabeça, vou aí de Bon Scott/Brian Johnson (AC/DC), Ozzy/Dio (Sabbath), Gillan/Coverdale (Purple), Di'Anno/Dickinson (Maiden) e Halford/Owens (Judas). No grupo sueco isto aconteceu três vezes em três discos (100% de "reaproveitamento"!), sempre com resultados excepcionais.

O trio de vocalistas é peculiar ao extremo. Cada um tem um estilo bem diferente dos demais. Oskar Lundström, o primeiro pródigo, tem influências de soul, inclusive com timbre e alcance próximos do lendário Glenn Hughes. Quem conhece, sabe o que isso significa (e deve estar me acusando de heresia agora). Já a gatinha Sanya ouviu muito o Robert Plant dos áureos tempos e deve cantarolar "Since I've Been Loving You" em casa sem fazer feio. É uma cantora incrível. E Sartez... é glam. Mas glam, glam mesmo, com um estilo espetacularmente andrógino. Tenha em mente Ian Hunter (Mott The Hoople), Marc Bolan (T. Rex) e Bowie fase Ziggy Stardust. Mais uma vez, a banda foge do lugar comum e mantém o alto nível.


Apesar do trampo nivelado dos três à frente do Siena Root, Sanya é de longe a mais cultuada entre os admiradores do grupo. Muito marmanjo ainda choraminga pela saída da moça e é fácil entender porque.

No vídeo a seguir, ela faz uma releitura sensacional de "Coming Home", faixa de abertura do primeiro disco, cuja linha vocal (de Oskar) é dificílima.


Impossível não lembrar de Plant no filme The Song Remains The Same, mais precisamente nas cenas ao vivo no Madison Square Garden.

Como de praxe, os três álbuns do Siena Root continuam inéditos por aqui. Espero que não por muito tempo. Discoteca básica para qualquer stonerhead ou simplesmente fãs de Música.

domingo, 11 de setembro de 2005

CAN I PLAY WITH MADNESS


Uma hora ia dar merda de qualquer jeito. A questão era só saber com quem - e eu não fiquei tão longe de acertar. Quando soube que o Iron Maiden iria figurar na line-up do Ozzfest, já fiquei com o pé atrás. Assim como tudo o que envolve o Madman Ozzy Osbourne, o evento também é administrado pela sra. sua esposa, a puta Sharon Osbourne (não estou a difamando gratuitamente não... ela mesma se qualificou assim em carta à imprensa - acho que as profissionais da área devem ter ficado ofendidas). E Bruce Dickinson, vocal do Maiden, sempre foi um notório falastrão. Resultado: o que era pra ser um encontro memorável de duas entidades maiores do rock, se tornou um episódio vexaminoso (leia aqui sobre o barraco). Mais um.


Bruce esculhambando a dinastia Ozz e a puta (foi ela que disse...) Sharon vomitando "Bruce Dickinson is a prick", logo após o show do Maiden - baixe pra assistir aos discursos

Curiosamente, na página do Ozzfest dedicada ao Maiden, todas as fotos que traziam Bruce desapareceram. Ridículo e infantil é pouco.

É verdade que Dickinson errou quando falou o que quis, em primeiro lugar. Mas, porra... não era isto mesmo que eu ou você, que aprendeu a admirar o trabalho do Madman desde o Sabbath, sempre quisemos dizer a ele? É um daqueles casos em que alguém está certo mesmo quando está errado. É triste vermos o cara que já foi o símbolo máximo (ainda que involuntário) da revolta contra os padrões estabelecidos, desse jeito, subjugado, amordaçado, sem qualquer resquício de alma ou vontade própria e, principalmente, assimilado pelo sistema que tanto ironizou.

Juntos, Ozzy e Sharon parecem aqueles casais constrangedores, daqueles que, não satisfeitos em pagar micos publicamente, também fazem questão de embaraçar todos os que estão perto deles. Alguém achou que registrar essas cenas e exibir na televisão seria uma boa idéia, e pronto... lá estava The Osbournes engordando as ações dos Madmen e atirando latrina abaixo a ferpa de credibilidade que Ozzy ainda tinha. Como o destino às vezes brinca sadicamente, Sharon era a pessoa errada na hora certa. Se não fosse ela, o Madman teria morrido em algum ponto entre 84 e 87. Talvez não tivesse sido uma má idéia, afinal ele já está morto em vida há anos.


É raro ver alguém com coragem para entrar na casa do(a) inimigo(a) e cuspir na cara dele(a), em frente aos seus súditos.

Thanks Dickinson!



ANGELS AT THE HOLY GHOST


O Angra nunca foi lá uma unanimidade dentro do gueto heavy, que também não é um exemplo de concordância por si só, e isto se deve justamente ao estilo que abraçou: o heavy melódico progressivo - com toques de música brasileira (pendendo entre o arrasta-pé cangaceiro e nuances líricas mais barrocas), o que deixa a coisa ainda mais segmentada. Renegado por rockers mais old school e headbangers que adoram ouvir Napalm Death pela manhã, o estilo traz na sacola todos aqueles elementos posers em questão: grandiloqüência operística, virtuosismo pirotécnico, preciosismo cênico, performances com precisão matemática e a indefectível fumacinha de gelo-seco. Mas não é que na prática funciona? Foi o que eu percebi ao ver a apresentação do Angra em Vitória. E olha que eu não sou exatamente um fã da banda.

Verdade seja dita. Fora os elementos extra-musicais, eles merecem todos os créditos. A banda faz o que faz acreditando no que faz. Você olha e, inspirado, acaba acreditando também (naquela hora, pelo menos). O grupo se esforça ao máximo pra valorizar o custo-benefício do ingresso. Pra quem não é profundo conhecedor do trabalho deles, como eu, a apresentação acaba adquirindo contornos de Espetáculo Musical bem-cuidado. Sem contar a satisfação de apreciar o trabalho de nego que sabe o que fazer com um instrumento em punho. Os integrantes do Angra estão entre os melhores instrumentistas desse planeta - e me refiro à Música no geral. Tudo bem que aí já é uma área de interesse geralmente relegada ao profissional da área, mas não deveria ser assim.


Assistir às atuações de Kiko Loureiro (guitarra), Rafael Bittencourt (guitarra), Felipe Andreoli (baixo), Aquiles Priester (bateria) e Edu Falaschi (vocal) te faz encher o peito de orgulho canarinho. Eu sei, é tudo naquele velho esqueminha do rock nacional turbinado com recursos de classe média alta, mas pelo menos eles souberam fazer um bom uso da mesada... O palco, coberto com uma lona estampada com a capa do álbum Rebirth, foi uma jogada esperta, escondendo a preparação e a colocação dos instrumentos - procedimentos burocráticos meio empacantes em shows de rock - embora também tenha anulado aquele impacto natural de quando vemos os integrantes saindo dos bastidores enfumaçados em direção às suas "armas de guerra".

O show começou com duas peças orquestrais grandiosas, Gate XIII e Deus Le Volt! (do último disco, Temple Of Shadows, que eu só não identifiquei na hora devido ao meu já avançado estado etílico). Na seqüência, a paulada Spread Your Fire me trouxe duas conclusões: 1 - O batera Aquiles Priester é realmente monstruoso; 2 - O som estava abafado, o que foi uma bolada nas costas da banda, que se apóia em riffs, solos elaboradíssimos e intervenções-chave da tecladeira (com os agudos lá embaixo... já viu). Isso foi realmente uma ironia do destino, visto que o Ginásio Álvares Cabral tem uma das melhores acústicas do país. E não é bairrismo não.


Essas placas do teto separam o som como se fossem canais de freqüência, fazendo com que cada instrumental se torne muito mais perceptível, diminuindo a propagação desordenada, a mistura das ondas e a distorção típica de amplificações extremamente altas (=shows de rock). Com uma configuração standard na mesa de som, fica parecendo um CD rolando ao vivo. Pena que não fizeram um bom uso dela. Mas isso não parece ter desanimado os presentes, que cantaram todas as músicas em uníssono. Parecia até uma procissão. E eu estava lá mais pra ouvir ao vivo o riff assassino de Carry On. E Nothing To Say também. E os mais de dez minutos de Carolina IV. Tá, e a baladinha chorosa Make Believe. Opa, esta eles não tocaram.

Aliás, sobre aqueles elementos extra-musicais os quais eu me referi... a obediência do público foi canina. Não é toda banda que deixa os fãs desse jeito não. A introduçãozinha falada de Rebirth ("recalling, retreating... returning, retreaving..."), p. ex., chegou dar arrepios, com todos juntos balbuciando as palavras. Não sei quanto a você, mas eu me sinto bem melhor vivendo em um mundo no qual os moleques estão curtindo Angra ao invés de nulidades pop-domingueiras. É só uma fase. Depois eles vão descobrir que bons mesmo são Black Sabbath, Motörhead e AC/DC. :)

Em tempo: perdi o show de abertura, que ficou a cargo da banda paulistana Thalion. E realmente não me importei muito, visto que a deliciosa vocalista Alexandra Liambos deixou o grupo em agosto. Por outro lado, ouvi dizer que eles levaram o semi-hit Nemo, do Nightwish, que leva vocalizações femininas. Acho que perdi alguma coisa interessante aí...



AOS VIVOS


Holy Live é um Ep ao vivo gravado em Paris e lançado em 1997. Era o auge da banda em sua fase com o vocalista André Matos. Deu aquela quizumba toda - mal-explicada pacas, mas que obviamente tem a ver com grana - e o cantor saiu fora (levando consigo o baixista e o baterista) pra montar o Shaman. Mas voltando ao assunto, Holy Live mostra por que o grupo estava se dando tão bem na União Européia e no Japão. O público lá venerava os caras.

Rebirth World Tour - Live In São Paulo, lançado em 2002, funcionou mais como uma iniciação para o Angra reformado - e em primeira instância, para o vocal Edu Falaschi. A sonoridade desta vez veio bem mais crua e visceral, ao contrário do polimento asséptico de Holy Live. E é também a principal diferença entre o lirismo angelical de Matos e a rispidez macha de Falaschi. O primeiro pode até superar em carisma, mas é o segundo que não mancha a imagem hetero do ouvinte.


Na trilha: álbum Tyranny Of Souls... do Dickinson. E hoje é 11/9, aniversário do atentado ao WTC... maldita raça humana.