sábado, 21 de março de 2026

Nos vemos no Mundo Interior, Sam Kieth


Sam Kieth
(1963 - 2026)

Essa veio do nada. E doeu pra valer. Se foi o Sam Kieth, um dos meus artistas prediletos desta vida.

Apesar de conhecido, Kieth mantinha uma relação de distância com o mainstream. A independência sempre pulsou forte naquele nanquim. Nos últimos anos, se tornou ainda mais reservado e low profile. Sempre acompanhei o pouco dele que saía por aí, como os registros de seu discreto blog (!), que parou de ser atualizado em 2023. Compreensível, dadas as circunstâncias de sua saúde.

Minha adoração pelo Kieth não é só força de expressão. Tenho tudo o que saiu dele por estas bandas (o que é bem pouco, infelizmente). Dos momentos históricos, como o início de Sandman, aos gibis mais fuleiros, como o crossover do Lobo com o Batman. Sozinho, seu estilo único já valia a imersão. E não era para todos, o que é sempre interessante.

Claro, impossível lembrar do Kieth sem mencionar The Maxx, HQ & animação. É a sua obra-prima, ainda criminosamente inédita por aqui.

E sem esquecer da mini Wolverine/Hulk: A História de Po, um dos quadrinhos mais evocativos, profundos e tocantes que já li. Quem diria. Só mesmo o Kieth para conseguir isso numa história com os dois brucutus da Marvel.

Kieth fazia falta e vai fazer mais ainda. Mas só de estar por aqui no mesmo tempo de vida e me divertir, me surpreender e me emocionar com sua obra já foi um grande privilégio.

Thank you, Sam Kieth.

sexta-feira, 20 de março de 2026

A morte agora tem um novo nome...


Carlos Rey “Chuck” Norris
(1940 - 2026)

Chuck Norris era de uma linhagem de astros que pareciam invulneráveis à passagem do tempo. Mais ainda, que pareciam viver em seu próprio espaço, seu próprio tempo. Imunes a zeitgeists, quaisquer que fossem. Era o expoente máximo disso, junto com Charles Bronson, Lee Marvin, James Coburn e alguns outros. Muito disso pela vida discreta e familiar a qual se dedicou longe da badalação. E muito por ter plena consciência do tamanho que ocupava no cinema de gênero. Seu duelo icônico com Bruce Lee em O Voo do Dragão segue famoso e debatido como se tivesse acontecido ontem, não há mais de meio século.

Lembro quando o fenômeno Chuck Norris Facts viralizou – que dê o 1º roundhouse kick aquele que não embarcou na brincadeira – e havia uma certa tensão sobre o que o Homem estaria achando daquilo tudo. Felizmente, ele não só curtiu, como brincou também. E assim o planeta respirava aliviado por não ter sido destruído por uma voadora. E mais feliz pelo Chuck se mostrar, mais uma vez, um boa-praça.

Certamente, todas as bios e eulogias as quais o Texas Ranger tem direito estão abarrotando a web neste momento. Mais do que merecido. Da minha parte, fica a doce lembrança de crescer o vendo metralhando e partindo ossos de malfeitores em seus filmes. Que, do Big 4 do cinema de ação hollywoodiano, eram de longe os mais reprisados pela TV aberta nos anos 80.

Tenho um carinho especial por dois em particular.


Olho por Olho (An Eye for an Eye, 1981)


Fúria Silenciosa (Silent Rage, 1982)

Foram os primeiros filmes do Chuck Norris que assisti, ainda moleque. Não lembro em qual ordem.

Olho por Olho, mais tarde rebatizado Ajuste de Contas, passou 468 milhões de vezes na Sessão das Dez, do SBT. Sempre "Pela 1ª vez na televisão"®. Não conseguia largar até a luta de Norris contra o gigantesco Professor Toru Tanaka (primo do Oddjob, de 007). Ainda era o Norris raiz, sem el bigodón característico.

Fúria Silenciosa trazia o Chuck se aventurando no gênero slasher, em alta na época. Esse era hors-concours no Domingo Maior da Globo e me deixava absolutamente apavorado. Não era pra menos, o grande Brian Libby estava aterrorizante como o psicopata John Kirby. Tá aí o próprio Stephen King que não me deixa mentir. Só sossegava (mais ou menos) depois que o Chuck finalmente aplicava um corretivo no arremedo de Michael Myers. O problema é que depois ainda tinha aquele final...

São duas ótimas opções para uma sessão especial, junto com McQuade, Perigo Mortal (onde ele sai na porrada com um demonho!) e os dois primeiros Braddock. Serão minhas próximas paradas, depois que revisitar um ou dois Chucks raiz.


Thank you for everything, Chuck Norris.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Operação Judoka

Ainda bolado com o trailer do Lanterna Verde descaracterizado? Não se desespere! (ou talvez só um pouco)


Desde a sua criação, o Judoka não teve missões fáceis. O personagem foi idealizado e quadrinizado em 1969 pelo trio Pedro Anísio, Monteiro Filho e Eduardo Baron a pedido da EBAL para cobrir a saída do popular Judomaster, da DC. Apesar do desafio, nosso homem de verde se saiu bem o suficiente para ganhar uma adaptação para o cinema em 1973. Pioneiro é pouco. Mas as adversidades não deram trégua.

Dirigida pelo escritor, compositor e thelemita Marcelo Ramos Motta, a produção foi bastante caótica e acabou naufragando nas bilheterias – consta que só durou uma semana em cartaz. Com o passar dos anos, adivinha, o longa foi dado como lost media.

Supervilões da vida real à parte, o filme parece uma diversão só, especialmente na perspectiva de hoje. Uma joia trash BRxploitation. Pedro Aguinaga, "o homem mais bonito do mundo", hipercanastrão como o Judoka e a presença da saudosa Elizângela (então um brotinho de 19 anos) devem ter rendido uma química impagável. As figuras cartunescas do elenco de apoio, as cenas de "luta" e dubladores conhecidos da época refazendo várias vozes são a cereja.

Em 2022, o canal #LivedeQuadrinhos publicou o trailer (brilhantemente) restaurado pela Cinemateca do MAM, no Rio, a partir de uma cópia bem detonada. Parecia que a trajetória do nosso herói marcial havia encontrado seu fim, mas como toda boa história tem uma grande reviravolta, essa não foi diferente. Em janeiro último, a jornalista Heloisa Tolipan divulgou em seu site que os negativos originais do filme e do trailer foram encontrados num depósito climatizado da Cinemateca Brasileira. E, ao que parece, estão atualmente em processo de digitalização.

É torcer para isso (re)ver a luz do dia num futuro próximo. Algo que não é muito usual em se tratando da nossa querida Cinemateca Brasileira.

Mas subo o Convento da Penha de joelhos quando acontecer. Preciso assistir a porradaria d'O Judoka versus Banzo, o Lutador Negro!

sexta-feira, 13 de março de 2026

Groovy!


Set Terror & Ficção era a nossa Fangoria. Não perdia uma. Releitura sob medida para esta sexta-feira 13.

E toda força e bons pensamentos para o Bruce Campbell!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Dos fjords gélidos de Vila Velha, ES...


Verão, praia, carnaval... momento perfeito para revisitar dois petardos sobre o black metal norueguês.

Dirigido por Aaron Aites e Audrey Ewell, o documentário Até que a Luz nos Leve (Until the Light Takes Us, 2008) aborda a trajetória da banda Mayhem e da cena do metal extremo norueguês entre o fim dos anos 1980 e o início dos 1990. Já Mayhem: Senhores do Caos (Lords of Chaos, 2018), dirigido pelo sueco Jonas Åkerlund, é a cinebio dessa mesma história. Cabulosa história, convenhamos. Parabéns aos envolvidos.

Numa sinopse rasteira, tudo começa com um uns moleques de Oslo que, cheios daquela vidinha perfeita e idílica, resolvem montar uma banda "contra tudo isto que está aí". Liderado pelo figura Øystein "Euronymous" Aarseth, o Mayhem dá início a uma cena metálica underground regada a festinhas, bebidas, putaria e uma ideologia anticristã perneta. Logo encontram no sueco Per "Dead" Ohlin o frontman ideal para seu metal caótico, ultrarrápido e propositalmente mal-produzido com letras sobre nojeiras e perversidades de corar até o Pazuzu.

Mais do que um vocalista, Dead era um performer die hard (aceitamos Pix pelo trocadilho). O problema é que também sofria de uma depressão severa e após 3 anos na banda, Dead estoura os miolos. Tinha apenas 22. Quem encontra o corpo é Euronymous, com quem dividia uma casa alugada. E atenção para o detalhe pitoresco: antes de chamar a polícia, o jovem empreendedor se desloca até uma loja de conveniência, compra uma câmera descartável e registra a cena – que vai parar na capa do disco The Dawn of the Black Hearts. É business que chama.

Com a crescente moral underground, a banda expande as atividades e abre uma loja heavy metal (a icônica Helvete), além de um selo próprio. Como principal atividade, digamos, extracurricular, estão as reuniões no porão do estabelecimento sob o nome Inner Circle (qualquer semelhança é mera ironia do destino), um clubinho de jovens machos inseguros que ansiava pela volta dos valores nórdicos antigos e a adoração ao Todo-Poderoso Odin.

Na maior parte do tempo, o grosso do Inner Circle – também chamado Black Circle – era uma galera que só queria encher a lata ouvindo Accept e, quem sabe, traçar umas piriguetes Maria-Cabelo que apareciam. Mas a premissa blasfema acabou atraindo alguns malucos de verdade.

Eis que surge Kristian "Varg" Vikernes, da one-man-band Burzum, um promissor músico black metal e um completo fanático nazistoide paranoico. Varg era obcecado pelo Mayhem e pela imagem de líder demoníaco vendida por Euronymous. Logo a relação vira uma corrida pelo feito profano mais radical para conquistar o respeito dos demais. Daí em diante, foi só ladeira abaixo, incluindo a já frágil amizade entre os dois.

Saldo da brincadeira: quatro igrejas históricas incendiadas, pelo menos dois homicídios – sendo um deles, do próprio Euronymous, assassinado por Varg com 23 facadas – e uma Noruega em pânico. Varg foi preso, julgado e sentenciado a 21 anos de cana.

A suave pena máxima norueguesa foi reduzida para 15 anos numa daquelas celas cinco estrelas que eles têm lá. Desde 2009 o maluco está solto por aí, fazendo filho igual uma preá e falando merda pela Internet. Mas isso é outra história.*

Já na introdução, o longa Lords of Chaos, baseado no livro homônimo de Michael J. Moynihan e Didrik Søderlind, adianta que foi "baseado em verdades, mentiras e no que realmente aconteceu". De forma sagaz, o diretor Åkerlund tira do meio da sala o elefante branco que são os boyzinhos noruegueses sofrendo um tipo de Síndrome da Matrix Utópica. Isso logo de cara, com uma geral franca e sem culpas do modo de vida leite-com-pêra daquele país narrada em off pelo próprio Euronymous (um excelente Rory Culkin). Outra boa sacada da direção é a tênue linha amizade/ódio desenvolvida entre Euronymous e o Varg do ótimo Emory Cohen. E Jack Kilmer, filho do saudoso Val, está perturbador como o errático Dead.

Curiosamente, o filme é quase sempre associado ao gênero terror, mas tem muito mais ressonância com o drama, mesmo nas cenas mais sangrentas. Talvez seja pela preocupação honesta com a tridimensionalidade dos personagens e pelas doses sutis de humor negro. A sequência da câmera descartável, por exemplo, é tão surreal quanto grotesca.

Muito se comenta sobre as liberdades criativas do filme em relação à história factual. Mas assistindo o doc Until the Light Takes Us, com depoimentos de quase todos os sobreviventes, é notável como as versões se alinham muito bem. Vide a indisfarçável natureza estúpida e atrapalhada do Varg fictício e do Varg real. Comédia pronta. Claro, cenas como a "verdadeira" reação de Euronymous após ver o corpo de Dead e a cena do corte de cabelo são meros devaneios ilustrativos, mas que complementam o perfil mostrado até ali sem comprometer os fatos.

Foi um belo recap carnavalesco (quer mais Carnaval que corpse paint?). Dobradinha altamente recomendável e, hum, matadora, por assim dizer. Filmaços.

* A "outra história" é que Varg, como um bom nazi filho da puta, já declarou seu ódio pelo Brasil e sua diversidade. E por conta disso, tomou um Vampetaço no meio da tarraqueta. Tanto o doc quanto o filme perderam essa deixa para um belo epílogo...