segunda-feira, 13 de julho de 2026

Thanks for playing, Sam


Nigel John Dermot “Sam” Neill
(1947 - 2026)

Que talento absurdo o do Sam Neill. E com um tino particular para balancear papéis complexos com a mais pura diversão mainstream.

Lembro a 1ª vez que o assisti, na telinha de uma Sessão de Gala qualquer. O filme era Terror a Bordo (Dead Calm, 1989), um nervoso thriller em alto-mar onde ele passava inúmeros perrengues para salvar sua esposa Nicole Kidman (e ele próprio) das garras do psicopata Billy Zane. Memorável. Assim que descolei um videocassete, fiz muitas sessões do filme, como se deve: com áudio original e legendado.

Dali pra frente, parecia que ele tinha ganho o mundo. E tome A Caçada ao Outubro Vermelho, Jurassic Park, O Enigma do Horizonte, meu favorito À Beira da Loucura e uma carreira hollywoodiana praticamente impecável. Artigo raro.

De sua filmografia pregressa, há várias joias preciosas a serem revistas/descobertas, mas é o ano de 1981 que leva o prêmio de cruzada dramática-teológica. Em doze meses, Sam foi do inferno – na divertida bagaceira A Profecia III - O Conflito Final e no perturbador Possessão, do genial cineasta polonês Andrzej Żuławski – ao céu cristão – em From a Far Country, cinebio do Papa João Paulo II. Versatilidade poderia ser um de seus nomes do meio.

Sir Sam (posso?) também era uma figuraça em suas entrevistas e aparições públicas, sempre destilando bom humor com um elegante sarcasmo. Além de um ser humano superconsciente.

Vai fazer falta.

Que dia.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Profeta Jonah

Belas e nostálgicas reflexões da Gail Simone em post do Feice.


Recentemente, estava pensando no CBR.com, o Comic Book Resources. Pelo que ele é agora, que é bom, mas um pouco disperso, eu quase tinha me esquecido de como era antes. Por muito tempo, foi O centro da comunidade de quadrinhos. Criadores renomados estavam lá o tempo todo. Tinha notícias exclusivas.

Acima de tudo, tinha Jonah Weiland supervisionando. E ele se esforçou ao máximo para torná-lo algo especial. MUITA gente encontrou sua primeira comunidade de quadrinhos lá, inclusive eu.

Não sei se existe algo remotamente parecido hoje em dia. O Twitter é tóxico e cheio de bots, e outras plataformas não têm o mesmo alcance ou foco.

Uma coisa que me chamou a atenção ao olhar o gráfico de vendas mais recente. E realmente me impressionou.

Jonah deu colunas para muitos profissionais consagrados. Mas três de suas colunas mais populares eram de pessoas que ainda não tinham feito muito sucesso como criadores de quadrinhos.

Sou eu, Matt Fraction e Robert Kirkman. Acho que o Robert tinha feito algumas coisas, mas nada comparado ao sucesso que ele alcançaria depois, e eu e o Matt éramos bem mais novatos.

Quer dizer, sem querer me gabar. Mas veja o que aconteceu no mês passado. Invincible, Battle Beast e Transformers do Kirkman. Batman do Fraction. Meus Uncanny X-Men e She-Spawn. Quer dizer, entre nós, temos uma boa parte dos trinta quadrinhos mais vendidos e alguns outros além.

Como o Jonah sabia?

E será que o CBR nos ajudou a bombar, ou o Jonah simplesmente tinha uma intuição incrível?

É meio inacreditável que, tantos anos depois, quando nossas colunas já foram esquecidas, a única coisa que nós três temos em comum é que o Jonah achou que merecíamos uma plataforma e realmente nos pagou quando ainda não éramos nomes conhecidos.

Se eu estiver errado em alguma parte da história sobre o Matt e o Robert, peço desculpas, foi sem querer. Eu admiro muito os dois.

Mas, nossa. Jonah previu isso ou não?

EDITADO PARA ADICIONAR: Eu havia me esquecido que a grande KELLY THOMPSON também começou como colunista no CBR. Isso significa que podemos adicionar JEFF e ABSOLUTE WONDER WOMAN, dois dos quadrinhos mais lucrativos dos últimos ANOS, à minha tese de que JONAH WEILAND ERA UM VIDENTE!




Louvável quando alguém estabelecido relembra publicamente de seus benfeitores/mecenas em início de carreira. É bonito demais.

Do lado de cá, como público, a empatia com o texto foi imediata. Lembro vividamente de viajar pelas colunas Comics You Should Own, do Greg Burgas, e Comic Book Urban Legends Revealed, de Brian Cronin – ambas descontinuadas há muito tempo e disponíveis apenas pelo Internet Archive, assim como todas as coisas legais do Comic Book Resources raiz.

Mas não só o CBR. Sites que tinha como parada obrigatória do meu itinerário pop cultural seguiram o mesmo caminho: Newsarama, SuperHero Hype!, Silver Bullet Comics, Comics Alliance, JoBlo, Screen Rant... todos descaracterizados e reformulados num padrão Web 2.0 Facebúquico impessoal e indistiguível. Recheados de textos genéricos, circulares e embromativos como só a IA mais sádica poderia gerar. Todos se renderam, sedentos por cliques em seus links patrocinados.

* Todos, com exceção do Ain't It Cool News, fiel ao mesmíssimo layout de 1996. Mas aí o gordacho Harry Knowles, dono da bagaça e ex-figura descolada, fez merda e viu a carreira descendo pela descarga.

Por aqui não foi diferente. O boom de sites nerd/geek/musicais surgido na Internéti-BR durante os anos 2000 foi renovador e empolgante. Universo HQ, Rabisco, Sobrecarga, Prótons, Nona Arte, Fanboy, Gordurama e até o Omelete dos primeiros anos. Muitos colunistas com fome de bola rendendo artigos antológicos ou, no mínimo, divertidos. Zines online. Bons tempos.

Hoje, pra quem curte um conteúdo bacana sobre mainstream, o cenário é de terra arrasada e monetizada. Ou é gibituber (nada contra, mas¹) ou Xzeiro ex-Twitteiro (nada contra, mas²) ou TikToker (tudo contra) ou Zappeiro (tudo contra ad infinitum). Haja peneira e senso crítico. E não parece que vai melhorar.

Acho que isso nem o Profeta Jonah previu.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Memorando urgente


Oh yeah, babe. Kudos para a melhor surpresa televisiva de 2026 até aqui.

Agora, com sua licença, preciso rever a cena-monólogo da Rosemary no ep. #9 mais umas 385 vezes.

domingo, 31 de maio de 2026

Enquanto isso, na Banca do SAM...

Como amassar o tropo do salvador branco em uma página.


Superaventuras Marvel #141 (março/1994)

Não só não envelheceu, como renovou os votos. Só mesmo a Ann Nocenti. ❤️

Em inglês, sem as "aparadas" da Abril, é ainda melhor.


Daredevil #283 (agosto/1990)

É a coisa mais anti-Chuck Dixon que você verá hoje.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Bem-vindo de volta, Jon


A coisa mais interessante do MCU atualmente é observar como a Disney tenta lidar com o Justiceiro, esse enorme caveirão branco no meio da sala. É um personagem que o público neófito adorou, mas nem sempre (quase nunca) por motivos nobres. No meio do tiroteio ideológico que custou até o símbolo-logo do vigilante nos gibis, a Marvel tenta equilibrar a balança enquanto faz a reintegração de posse de seu anti-herói. Sob esta ótica, o especial O Justiceiro: Uma Última Morte é mezzo thriller de ação mezzo TCC de ciências sociais.

É sempre engraçado ver a Disney pulando de um pé para o outro na tentativa de amaciar o Frank Castle. Dar ao personagem uma motivação suficientemente digna e justificável para metralhar, estripar, empalar, esquartejar e explodir uma galera – e ainda divertir o público como um todo, não apenas o time do bandido-bom-é-bandido-morto. Há um problema óbvio aí que é humanizar um personagem desumanizado. Mesmo bom de narrativa, o diretor Reinaldo Marcus Green não consegue evitar a pieguice que sabota o bom andamento da matança sem piedade.

Na trama, o Justiceiro (Jon Bernthal) encara o que sobrou da Mama Gnucci (Judith Light), que busca uma vendetta pela chacina de sua famiglia após a série da Netflix. Ao mesmo tempo, ele tenta salvar inocentes em pleno caos urbano provocado pelo vácuo de poder. Aposto uma garrafa de Blue Label que não era nisso que Garth Ennis, Steve Dillon e Jimmy Palmiotti pensavam enquanto concebiam o arco original das HQs.

O Justiceiro é uma figura à Monstro de Frankenstein (não confundir com o Franken-Castle). Odiado por muitos e temido por todos, independente da inclinação moral. Castle é um outcast, uma sombra. Além da redenção. Aproximá-lo do cidadão comum é arrancar o que ele tem de mais legal e colocar coisas não tão legais no lugar.

Essa pegada do "Castle Amigão da Vizinhança" gera outro problema, que é a subversão da própria mensagem. Enquanto age como GCM hardcore, ganhando até abraço e lembrancinha de uma criança após trucidar 8 filhotes do capiroto numa lanchonete, Frank acaba remetendo ao Justiceiro original Paul Kersey, da série Desejo de Matar. Especificamente, ao Kersey de Desejo de Matar 3, objeto-mor de idolatria reaça e uma comédia involuntária insuperável para assistir com os amigos.

Quem não lembra do Kersey largando o aço no icônico Risadinha e recebendo uma salva de palmas dos moradores do bairro? Absolute cinema.

Em Uma Última Morte, Castle quase chega lá. E tem até um Risadinha para chamar de seu, mas com tratamento VVIP em comparação e cenas de um maniqueísmo raso e constrangedor (pobre doguinho). Desse modo, a Disney se vale de uma espécie de "candura" para alcançar o gatilho reaça que existe em cada um e assim conquistar a empatia do público médio da plataforma – também conhecido como Geração Z. Nos anos 80, esse malabarismo todo seria obliterado por saraivadas de balas de festim, explosões de verdade, milhares de squibs sanguinolentos e indefectíveis frases de efeito.

Admito, talvez esteja Žižekeando demais com o filme, mas é inevitável. Há muito acontecendo aqui e nem arranhei a lataria.

Voltemos ao basicão.

O roteiro foi co-escrito por Green e pelo próprio Bernthal e, na real, é ruim. Se o ultimato da matriarca Gnucci era compartilhar a localização do edifício de Castle para todos os criminosos da cidade, bastava ele se mudar de endereço. E aquele comerciante pode até ser dedicado, mas abrir as portas no meio de um The Purge é atestado de burrice. E ainda levar a filhinha para o trabalho naquele cenário apocalíptico configura inclusive negligência parental. Justiceiro do Antigo Testamento nele!

A despeito disso e do excesso de sacarina que abre e fecha o média-metragem, Jon Bernthal tem um trunfo incontestável: ele mesmo. O recheio de Uma Última Morte é um rodízio espetacularmente coreografado de tiro, porrada e dinamite. Isso, o Jão entrega como poucos. Literalmente, salva o dia.

E, quem sabe, o futuro.

Nota final: dois Risadinhas e meio (de 5).

sexta-feira, 8 de maio de 2026