No trailer de hoje, aprendemos que o diretor Travis Knight recebeu uma bomba em forma de roteiro escrito a 12 mãos e teve que se esforçar para fazer disso um filme. Alguns adultos chamam isso de "ganhar limões e fazer uma limonada". Outros chamam de "se virar nos 30". Se nada der certo, não se acanhe: bote a culpa nas intervenções do estúdio.
Sendo sincericida: nada no trailer do He-Man me irritou muito. As caracterizações e atualizações de figurino ficaram bacanas, Teela é um pitéu, Mentor é pura moral de rua e Mandíbula ficou fodão. As exceções são o cospobre da Maligna e, lógico, o CGI mediano pra ruim do Esqueleto, muito ruim no Pacato/Gato Guerreiro e péssimo nos rasantes por Etérnia e pelo Castelo de Grayskull. Parecem cutscenes de Playstation 1. Orçamento de 200 milhões de doletas não dá pra mais nada hoje em dia, né?
Apesar dos pesares, tenho uma tendência muito grande a me divertir com esse filme. Cada frame parece assumir com orgulho colorido o gênero espada, feitiçaria & tecnologia Kirbyesco e isso ganha pontos comigo. Mas, cê sabe, sou suspeito. Sou cracudo de Eternium desde menino.
Muito se passou pela minha cachola enquanto assistia aos 5 primeiros episódios de Masters of the Universe: Revelation, de Kevin Smith. Mas acho que decepção define. O cineasta serve como criador, escritor, produtor executivo e, enfim, é o showrunner da série da Netflix. Além de notório entusiasta da década de 1980, não é segredo que ficou maravilhado com o revisionismo sagaz da ótima Cobra Kai. Em parte, isso já explica algumas das decisões equivocadas do novo desenho. O que me leva a uma das escadas mais pé-no-saco que já usei num texto.
Papeando com um amigo num grupo de e-mails que participo, comentei sobre minha frustração. "Tão falando super bem", foi a réplica. E resolvi dar um rolêzin por aí pra entender como isso era possível. Praquê.
Me deparei com aquele carnaval internético de sempre: ad hominem, radicalismo e zero noção de ridículo (e existe algo mais ridículo que um adulto nerd xingando alguém de adulto nerd?). Entre os principais "argumentos" a favor de Revelation estão coisas como "nerds quarentões criticando um desenho feito pra vender brinquedo", "o nome é 'Mestres do Universo' e não 'He-Man'" ou o bom, velho & presidenciável "é tudo mimimi".
O próprio Smith, cuja autozoação sempre foi o seu cartão de visitas, parece ter mudado de postura. Sai o Silent Bob, entra o Angry Bob.
Primeiro, o(s) óbvio(s). TUDO na cultura pop é feito para vender brinquedo (e acessório, material escolar, alimento, merchandising de todo tipo, etc). Isso, por si só, não é demérito para o desenho, o filme, o quadrinho ou o que seja. O gibi do ROM, por exemplo, foi produzido pela Marvel por encomenda pra vender 1 action figure (fracassado, ainda) e rendeu uma saga espetacular. E nem vou mencionar o Esquadrão Atari.
No caso de He-Man e os Mestres/Defensores do Universo, a coisa foi muito além. Já nos Minicomics, haviam nomes como Alfredo Alcala, Tim Seeley, Gary Cohn, Steven Grant, Mark Texeira e Bruce Timm. E no desenho da Filmation, batiam ponto Paul Dini (Batman/Superman: The Animated Series), Michael Reaves (Os Gárgulas, Batman: The Animated Series), J. Michael Straczynski (bem...) e Dorothy C. Fontana (Star Trek, o seriado original), entre outros. De um veículo puramente comercial, passa-se a agregar qualidade.
Pra arrematar a questão, basta revisitar episódios como "A Origem de Tila", "O Problema com o Poder", "A Semente do Mal", "Príncipe Adam Nunca Mais", "O Tio Favorito de Gorpo", "Problemas em Arcádia", "O Julgamento de Tila", "O Feiticeiro e o Guerreiro" e "A Busca pela Espada", só pra ficar na 1ª temporada.
Esse desenho tinha coração, pelo amor de Lou Scheimer.
Em relação a Revelation, nada contra o protagonismo dado à Teela, sua parceira Andra (personagem dos quadrinhos estreante no MOTU animado) e Maligna. Pelo contrário. Era mais do que merecido. Teela foi uma das primeiras personagens femininas daquela geração a demonstrar força, tridimensionalidade e independência – embora aquela descabelante mistura de Barbarella, Dejah Thoris e Red Sonja tenha ficado para trás, compreensivelmente (idem para a Maligna). O problema é o gatilho.
A premissa de Smith era unir todas as pontas soltas deixadas pela série original. Mas, de cara, as consequências da "revelação" do título saem atropelando toda a coerência daquele universo e, especialmente, o perfil dos personagens. É inconcebível Teela, a orgulhosa Capitã da Guarda Real, recém alçada ao posto de Mentora, abandonando tudo e e todos (inclusive o Mentor, seu pai) pelo motivo que fosse. E abandonando pra vida, já que logo na sequência rola um gap de pelo menos uns 20 anos. O termo perfeito pra isso é overreact.
A apelação ao melodrama nostálgico chega a inventar coisas que contradizem o original, por mais paradoxal que seja. Um exemplo é o background de Gorpo, contado chorosamente pelo próprio, decepcionando seus pais com sua mágica atrapalhada. Só que era o contrário: apesar de ser um mágico medíocre em Etérnia, Gorpo era poderoso em Trolla, sua dimensão natal. Porém, abriu mão de seus poderes e de um grande futuro lá para ficar ao lado de seus amigos (olha a lição de moral perdida!). Isso invalidaria sua subtrama triste de redenção em Revelation, então foi "esquecido."
Uma boa ideia foi promover o capanga Tríclope (dublado pelo Henry Rollins!), agora líder de um tecnoculto radicado na Montanha da Serpente. O embate Magia Vs. Tecnologia sempre foi um dos aspectos mais divertidos, Kirbyanos e bizarros da franquia, infelizmente nem sempre bem aproveitada no novo desenho. Em certo momento, Mentor destrói uma armada inteira de drones inimigos com um único tiro, na maior facilidade.
A ação é apenas genérica, sendo bondoso. Com exceção de um breve entrevero entre Teela e um He-Man ilusório, é tudo bem superficial e esquecível. Talvez ajudasse incorporar a icônica trilha sonora original (ou trechos dela) para dar um 'mojo' às sequências. Provavelmente seria um perrengue burocrático licenciar esse material dos herdeiros da Filmation, embora a Netflix tenha cacife de $obra pra isso. Mas nada de trilha clássica – e muito menos da trilha psicodélica...
Aliás, confesso que, quando o projeto foi anunciado lá na Power-Con 2019, alardeando fidelidade conceitual à série de 1983, viajei alto. Pensei logo na possibilidade mais extrema: uma continuação com as células originais e aquela manjada rotoscopia reutilizada pela Filmation trilhões de vezes. Seria lindo.
Com barrigadas narrativas, excesso de referências inúteis (pra quê finalmente apresentar He-Ro, Grayskull e até um Conan-wannabe se não trazem peso ou relevância narrativa?), nesses cinco episódios fica evidente que os "arcos" servem apenas para preparar o terreno para reviravoltas pontuais e pretensiosas até o talo. Ah, mas foram apenas 5 episódios. E por outro ângulo, já foram 5 episódios.
Se não melhorar, será 7 x 1 no segundo tempo também.
Ps: tive os bonequinhos do Stratos e do Príncipe Adam com o colete de veludo por causa do desenho. Mas isso não prova nada! Nada!!
2/12² -Gibi do Neymar, rolando no chão das melhores bancas da cidade. O primeiro youtuber que ostentar esta obra no fundão do vídeo é a mulher do padre!
3/12¹ - Sai o trailer de Viúva Negra. Várias cenas de ação grandiosas sambando sobre as leis da Física; gostei do Guardião Vermelho fatso e do lindo trio Johansson-Pugh-Weisz. Spoiler: Natasha não morre no final. Pronto, falei.
4/12¹ - Segundo o próprio Zack Snyder em sua conta no Vero, é vero: o Snyder's Cut de Liga da Justiça ecziste!
4/12² - A pré-produção de Tigra & Dazzler, a série animada de Tigresa e Cristal via Marvel/Hulu, é temporariamente suspensa. Nada menos que o time de roteiristas e a showrunnerErica Rivinoja foram demitidos - "diferenças criativas" é o motivo divulgado. E deve ter sido uma puta diferença criativa.
5/12¹ -Peninsula é o título escolhido para a continuação de Train to Busan (2016), o espetacular zombie movie sul-coreano - ou 좀비 영화 - que injetou um novo fôlego no exaurido gênero. A estreia está prevista para 12 de agosto de 2020. Na trama, um grupo de sobreviventes tenta fugir de uma Coreia sitiada pelos mortos. Difícil não lembrar daquela sequência de Guerra Mundial Z (o livro) com uma Coreia do Norte completamente deserta na superfície, mas com 23 milhões de zumbis se acotovelando em abrigos subterrâneos. Seria um sonho realizado ver isso na telona...
8/12¹ - Durante seus mais de 40 anos de carreira, Frank Miller já provocou a esquerda muitas e muitas vezes em suas obras. O que ele não pode fazer, sob hipótese alguma, é provocar a direita. Mas o mestre responde com carinho.
8/124 - Sai o trailer de Mulher-Maravilha 1984 e senti como se Cher e Olivia Newton-John fossem surgir a qualquer momento. Mas o sorrisaço da Gadot é pura maravilha.
9/12¹ - Sai o trailer reverente e nostálgico de Ghostbusters: Mais Além. Não será cedo - ou tarde - demais para uma nova tentativa?
10/12¹ -Se vai a cantora Marie Fredrikkson, aos 61. A eterna voz da banda sueca Roxette iniciou sua carreira em 1978, no grupo punk Strul. São emblemáticos o seu timbre melódico e alcance vocal (muito similares aos das irmãs Ann e Nancy Wilson, do Heart) e o visual punk fashion com cabelos loiros, curtinhos e espetados. Desde 2002 Marie lutava contra um câncer, mas nunca parou de trabalhar.
— FOLLOW Trump War Room (Text TRUMP to 88022) (@TrumpWarRoom) December 10, 2019
10/12³ - Bizarrice normal nesse mundo de direita surreal: do Twitter oficial da campanha de reeleição do Presidente Trump, ele se compara a Thanos e avisa que também é "inevitável". Perderam a parte que explicava que, além de vilão, ele era louco e genocida. Ou será que não...? 🤔
After my initial feeling of being violated, seeing that pompous dang fool using my creation to stroke his infantile ego,...
Publicado por Jim Starlin em Terça-feira, 10 de dezembro de 2019
10/124 -Jim Starlin, lógico, ficou indignado com a audácia do Titã Laranja.
Rumor has it I’ll be on Newsroom with Brook Baldwin Friday, some time between 2:00 and 4:00pm EST. Wonder what we’ll talk about.
Publicado por Jim Starlin em Quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
11/12² -Donald Trump, "JM Bozo" e até Greta Thunberg. Nada de subtextos ou alegorias em Dark Knight Returns: The Golden Child, de Frank Miller & Rafael Grampá: é um ataque frontal!
11/12³ - Após idas e saídas, a Marvel TV irá fechar. Com várias produções em andamento (tanto live-action quanto animações), o leque de parcerias deve aumentar, ao exemplo da Marvel-Hulu.
12/12³ -Se vai Danny Aiello, aos 86. O veterano ator começou sua carreira no início da década de 1970 e participou de tantos momentos antológicos do cinema que fica até difícil listar - seu 2º papel foi em O Poderoso Chefão 2, só pra ter uma ideia. Acho que nunca passei um ano sem assistir algum Aiello. E meu personagem favorito dele provavelmente é o Sal, de Faça a Coisa Certa (Spike Lee, 1989). Inesquecível.
15/12¹ - O Red Hot Chili Peppers anuncia a saída do guitarrista Josh Klinghoffer e, o mais surpreendente, o retorno de John Frusciante à banda. De novo. Quantos dias vai durar dessa vez?
Poisé, figura... não deu!
Infelizmente, nosso Catarse de pré-venda de KRAKEN, de Segura e Bernet, não atingiu a meta...
Publicado por Figura em Segunda-feira, 16 de dezembro de 2019
15/12² - Iniciado pela editora Figura, o Catarse de Kraken, de Antonio Segura e Jordi Bernet, não atingiu a meta. Sacanagem.
17/12¹ -Errão no DD Amarelão. E eu queria pegar esse. Porra, Panini!
17/12² - Já na premiere, Star Wars: A Ascensão Skywalker está polarizando geral. Pra mim, que não morri de amores por O Despertar da Força, a nova trilogia passou e muito do point of no return com Os Últimos Jedi. É enterrar o assunto com calcário, argila, sal grosso, água benta e nunca mais tocar no assunto. Partir pra outra. De preferência, seguindo a pegada low profile de Jon Favreau em The Mandalorian.
17/12³ - Liberado o trailer de Superman: Red Son, adaptação da graphic Elseworld de Mark Millar & Dave Johnson. Então... além de imigrante ilegal, comunista. Será que vão implicar?
17/124 -John Constantine, Hellblazer entra na reta final pela Panini e a editora divulga as próximas republicações. Bom saber que reeditarão a curta fase da Denise Mina, que ninguém lembra e mesmo assim está a preço de ouro nos Mercenários Livres.
18/12² -A Netflix anuncia a série animada He-Man and the Masters of the Universe. O desenho será em CGI/3D e o plot é uma "reimaginação da franquia clássica" - o oposto da série animada em 2D Masters of the Universe: Revelation, capitaneada por Kevin Smith para a mesma Netflix e que dará sequência aos eventos da mesma franquia clássica. Etérnia virou Ibiza!
19/12² - Se vai o grande artista plástico recifense Francisco Brennand, aos 92. Contemporâneo, colaborador e amigo de Ariano Suassuna, Brennand se especializou como ceramista. Suas obras são maestras, um genuíno patrimônio nacional (ou assim deveriam), e o universo paralelo que erigiu em sua Oficina Brennand são uma verdadeira experiência. Uma perda inestimável para a arte e a cultura brasileiras.
19/126 -Paula Tollervence o processo movido contra Leoni e o Partido dos Trabalhadores pelo uso não autorizado da música "Pintura Íntima" na campanha presidencial de Fernando Haddad. A bela reclamante irá receber R$ 50 mil do artista e mais R$ 100 mil do PT. "Deixa as contas, que no fim das contas, o que interessa pra nós éé-éé é..."
20/12¹ -Zilda Cardoso se vai, aos 83. A carreira da atriz e comediante paulista começou em 1961. No cinema teve poucas, mas marcantes participações em filmes do Mazzaropi e do Golias, além do clássico Se Meu Dólar Falasse (1970). Na TV a humorista foi prolífica, especialmente através da folclórica Catifunda, a mendiga malandra que vivia fumando charuto - uma personagem maior que ela mesma.
20/12² -Terry Gilliam teve a menor suspensão de descrença da História ao assistir Pantera Negra. Entre outras coisas, falou que odiou o filme e a importância que a mídia deu a ele, além de dizer que "os realizadores certamente nunca foram à África". Pra mim, pareceu que o genial cineasta nem sabia que se tratava da adaptação de uma HQ. E talvez esperasse algo como Diamante de Sangue, Hotel Ruanda ou outro dos milhares de filmes que retratam a realidade mundo-cão da África.
20/12³ - Se vai Gerry Alanguilan, aos 51. O excelente desenhista e arte-finalista filipino - puro pleonasmo - trabalhou em inúmeros títulos da Marvel nas últimas décadas (de New X-Men e The Amazing Spider-Man a Avengers e Star Wars) e manteve uma parceria regular com o conterrâneo Leinil Francis Yu em obras como Superior e Super Crooks, de Mark Millar, além de Superman: O Legado das Estrelas, de Mark Waid. Em 2009, Alanguilan viralizou com o vídeo"Hey, Baby!" (quase 7 milhões de views), também conhecido "The Creepy Smile Guy"...
...que ainda é hilário, por sinal. E ele ainda ensinou como fazer. Grande cara!
22/12 - Se vai Ubirajara Penacho dos Reis, o Bira, aos 85. Por 25 anos, o carismático baixista foi integrante da banda dos programas de entrevista do Jô Soares, onde ficou famoso pela exímia musicalidade e pela estrondosa gargalhada - mas começou a carreira já na década de 1950, como cantor em boates e hotéis de Salvador. Grande veterano e uma figuraça.
24/12² -Se vai Dave Riley, aos 59. Natural de Detroit, Riley trabalhou como assistente de engenheiro de som para George Clinton em suas instituições funk Parliament–Funkadelic, mas se notabilizou como baixista da banda noise/pós-punk Big Black, de Steve Albini. Para os vanguardistas e post-rockers, a true to the bone.
24/12³ - Nos extras do home video de Superman: Red Son virá mais uma peça da excelente série de curtas DC Showcase. Com direção de Bruce Timm, o protagonista da vez é o misterioso Vingador Fantasma - com raras exceções, personagem só menos desperdiçado que seu primo brasileiro, o Capitão Misterio, que não passou dos corner boxes da Bloch.
26/12¹ -Sue Lyon se vai, aos 73. É quase impossível encontrar uma imagem recente de Suellyn, o padrão que sigo nesses obituários, mas nesse caso até que se justifica. Então com 14 anos, ela foi a Lolita da adaptação de Stanley Kubrick para o livro homônimo de Vladimir Nabokov. Sua imagem deitada ao sol (e bagunçando o imaginário de todo mundo) ficou eternizada na História.
27/12 -Ryan Reynolds confirma o óbvio: Deadpool 3 sairá pela Marvel Studios. Contanto que seja divertido como o 1º e menos besteirol que 2º, tá valendo. Mas como ficará o Cable situation?
29/12 -Vaughan Oliver se vai, aos 62. O designer gráfico britânico ficou famoso por seus trabalhos para o cultuado selo 4AD. Entre eles, estão obras que ajudaram a definir a estética alternativa das décadas de 1980/1990, como as capas icônicas de discos do Pixies, Lush, Cocteau Twins, The Breeders, Throwing Muses e Bush, entre muitos outros.
30/12¹ - Se vai Syd Mead, aos 86. Designer industrial e artista conceitual neofuturista, Mead foi um dos nomes mais consagrados e influentes da História do automobilismo e do cinema. Seus trabalhos na 7ª Arte são incomparáveis - Star Trek: The Motion Picture, Blade Runner, Tron, 2010, Short Circuit, Alien, Aliens, Blade Runner 2049 e por aí afora. Esse sim, um verdadeiro visionário.
Normal que todo mundo tenha um pouco de bagagem bizarra da infância escondida nos recôntidos mais obscuros da mente. E que muitos desses baús sinistros e empoeirados tenham sido finalmente destrancados e desmistificados conforme o avanço da internet. Eu mesmo tenho vários fantasmas pop que me acompanham desde a pré-adolescência. Uns viraram sonho de consumo, outros foram esclarecidos ou exorcizados. E claro, ainda há um naipe variado e numeroso de mistérios a serem desvendados em seu devido tempo. Um deles finalmente chegou ao fim, após décadas de perguntas sem resposta.
Primeiro, historinha de fundo pra criar clima.
Meados dos anos 80, lá estava eu, um pequeno zumbizinho, assistindo "He-Man e os Defensores do Universo", o último desenho antes da escola. Nada demais, até que num desses dias o desenho (um fenômeno na época) trouxe algumas surpresas. Era um raro episódio duplo, com uma atípica trama de horror. O vilão da vez não era o Esqueleto e nem seus lacaios, mas uma bruxa vampiresca de nome Shokoti. Que, por sinal, quase me fazia mijar nas calças. Hoje a acho até bem gostosa, no estilo undead byatch de Lady Death/Vampirella. Eu ia ali tranquilo, mas isso não vem ao caso agora.
O lance é que na 2ª parte do episódio a trilha sonora estava diferente, incorporando elementos de música eletrônica, ambient e muito experimentalismo. Como eu era um analfabeto musical, não sabia precisar o que estava fora do lugar, apenas que a história, já bem macabra para aquele guri impressionável, ficou seiscentas e sessenta e seis vezes mais aterrorizante!
Nos episódios seguintes a trilha retornou ao seu motif heróico habitual. Mas não em todos. Alguns poucos ainda voltavam àquela trilha de fundo misteriosa e estranhamente evocativa. Curiosamente, era sempre nas histórias onde He-Man enfrentava adversários diferentes de seu arqui-inimigo Esqueleto. Não raro, estreantes em sua galeria de vilões, como Mestre do Jogo, Semente do Mal e o Conde Marzo, além da citada Shokoti (ou "Chucrute", segundo o Aríete). Todos esses fatores juntos conferiam uma sensação de perigo num nível até então inédito, como se o campeão de Etérnia finalmente enfrentasse uma ameaça de fato mortal.
Conspirando contra essa coincidência - à primeira vista (e ouvida) planejada - a nova trilha era nitidamente invasiva, às vezes se sobrepondo à trilha original e tomando seu lugar em fade in. Em vários momentos, as duas trilhas eram executadas simultaneamente, criando uma cacofonia melódica difícil de descrever - era mais ou menos como uma versão sonora do efeito Pokémon. Também era perceptível o sumiço do áudio da ação em certas cenas, deixando apenas a dublagem em português e a trilha freak cobrindo os espaços vazios.
Era muita loucura. E uma verdadeira tortura para um moleque sem Google ou Wikipédia e com professores estressados que não assistiam He-Man.
Décadas passaram (e rápido!). Com a internet, eu ocasionalmente garimpava por infos sobre isso, sem direção e sem sucesso. Achava mesmo que nunca chegaria a descobrir nada a respeito. As buscas, que eram mensais, viraram semestrais, depois anuais, depois... Até que um dia, no lugar mais improvável - numa reprise de Laranja Mecânica - se fez a Luz! Inacreditavelmente, uma das "músicas do He-Man" tocava no filme. Munido com novos parâmetros de busca, voltei à lida e pronto: os primeiros resultados positivos deram as caras. Finalmente.
São três músicas no total. Duas são do grupo Azul y Negro, precursores do tecnopop espanhol (!!). São as instrumentais "Fantasia de Piratas" e "Fu-Man-Chu", ambas do álbum La Noche, lançado em 1982.
Seguem:
Fiz uma pequena busca reversa pra identificar as fontes originais dessa informação. Aparentemente, elas foram destrinchadas primeiro numa comunidade do Orkut especializada em rock progressivo. Os créditos arqueológicos são dos usuários Geraldo Júnior e Rivaldo Lima.
A terceira música, bem mais dark, é uma piração electro/industrial/ambient do compositor norte-americano Walter Carlos. É aí que a coisa fica bizarra meeesmo.
Segue:
"Timesteps" foi composta para a trilha sonora do filme de Kubrick. No álbum oficial da trilha, lançado em 1972, a faixa foi compilada numa versão "excerpt", com pouco mais de quatro minutos. Em sua versão completa, "Timesteps" tem quase 14 minutos, com trechos diferentes que também rolavam no desenho. Sendo assim, essa foi a versão inserida na animação. O detalhe é que essa versão integral só foi lançada no álbum solo de Walter Carlos, lançado também em 72.
Bônus-track sensacionalista: naquele mesmo ano, Walter Carlos mudou de sexo e virou Wendy Carlos!
O consenso (e o bom senso) é que essa trilha - que alterava de maneira sensacional a percepção do desenho - foi inserida apenas na versão brasileira mesmo, pela própria Herbert Richers. Corrobora para isso o fato de que os mesmos episódios na versão original norte-americana (disponíveis no YT) têm a velha e clássica trilha sonora inalterada. Há uma teoria corrente, não confirmada, de que o estúdio brazuca recebeu cópias do desenho com falhas no áudio, então eles tiveram que improvisar durante os processos de dublagem e engenharia de som.
Mas são só especulações que ainda aguardam (muitas) elucidações. Enquanto isso não acontece, vamos imaginando quem era o funcionário maluquinho da Herbert Richers na época que era chegado num tecnopop espanhol e no disco solo experimentalzão do Walter... ou melhor, da Wendy Carlos - e que ainda teve uma malandragem Boss level para incluir esses sons na trilha de um inocente desenho infantil.
Em tempo: entre os fãs, se convencionou chamar os desenhos que tinham essa trilha de episódios psicodélicos do He-Man. O que é até subestimar um pouco o quadro geral. Mesmo sem a trilha "psicodélica", o desenho já era bem doidão e lisérgico por si só...