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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Bem-vindo de volta, Jon


A coisa mais interessante do MCU atualmente é observar como a Disney tenta lidar com o Justiceiro, esse enorme caveirão branco no meio da sala. É um personagem que o público neófito adorou, mas nem sempre (quase nunca) por motivos nobres. No meio do tiroteio ideológico que custou até o símbolo-logo do vigilante nos gibis, a Marvel tenta equilibrar a balança enquanto faz a reintegração de posse de seu anti-herói. Sob esta ótica, o especial O Justiceiro: Uma Última Morte é mezzo thriller de ação mezzo TCC de ciências sociais.

É sempre engraçado ver a Disney pulando de um pé para o outro na tentativa de amaciar o Frank Castle. Dar ao personagem uma motivação suficientemente digna e justificável para metralhar, estripar, empalar, esquartejar e explodir uma galera – e ainda divertir o público como um todo, não apenas o time do bandido-bom-é-bandido-morto. Há um problema óbvio aí que é humanizar um personagem desumanizado. Mesmo bom de narrativa, o diretor Reinaldo Marcus Green não consegue evitar a pieguice que sabota o bom andamento da matança sem piedade.

Na trama, o Justiceiro (Jon Bernthal) encara o que sobrou da Mama Gnucci (Judith Light), que busca uma vendetta pela chacina de sua famiglia após a série da Netflix. Ao mesmo tempo, ele tenta salvar inocentes em pleno caos urbano provocado pelo vácuo de poder. Aposto uma garrafa de Blue Label que não era nisso que Garth Ennis, Steve Dillon e Jimmy Palmiotti pensavam enquanto concebiam o arco original das HQs.

O Justiceiro é uma figura à Monstro de Frankenstein (não confundir com o Franken-Castle). Odiado por muitos e temido por todos, independente da inclinação moral. Castle é um outcast, uma sombra. Além da redenção. Aproximá-lo do cidadão comum é arrancar o que ele tem de mais legal e colocar coisas não tão legais no lugar.

Essa pegada do "Castle Amigão da Vizinhança" gera outro problema, que é a subversão da própria mensagem. Enquanto age como GCM hardcore, ganhando até abraço e lembrancinha de uma criança após trucidar 8 filhotes do capiroto numa lanchonete, Frank acaba remetendo ao Justiceiro original Paul Kersey, da série Desejo de Matar. Especificamente, ao Kersey de Desejo de Matar 3, objeto-mor de idolatria reaça e uma comédia involuntária insuperável para assistir com os amigos.

Quem não lembra do Kersey largando o aço no icônico Risadinha e recebendo uma salva de palmas dos moradores do bairro? Absolute cinema.

Em Uma Última Morte, Castle quase chega lá. E tem até um Risadinha para chamar de seu, mas com tratamento VVIP em comparação e cenas de um maniqueísmo raso e constrangedor (pobre doguinho). Desse modo, a Disney se vale de uma espécie de "candura" para alcançar o gatilho reaça que existe em cada um e assim conquistar a empatia do público médio da plataforma – também conhecido como Geração Z. Nos anos 80, esse malabarismo todo seria obliterado por saraivadas de balas de festim, explosões de verdade, milhares de squibs sanguinolentos e indefectíveis frases de efeito.

Admito, talvez esteja Žižekeando demais com o filme, mas é inevitável. Há muito acontecendo aqui e nem arranhei a lataria.

Voltemos ao basicão.

O roteiro foi co-escrito por Green e pelo próprio Bernthal e, na real, é ruim. Se o ultimato da matriarca Gnucci era compartilhar a localização do edifício de Castle para todos os criminosos da cidade, bastava ele se mudar de endereço. E aquele comerciante pode até ser dedicado, mas abrir as portas no meio de um The Purge é atestado de burrice. E ainda levar a filhinha para o trabalho naquele cenário apocalíptico configura inclusive negligência parental. Justiceiro do Antigo Testamento nele!

A despeito disso e do excesso de sacarina que abre e fecha o média-metragem, Jon Bernthal tem um trunfo incontestável: ele mesmo. O recheio de Uma Última Morte é um rodízio espetacularmente coreografado de tiro, porrada e dinamite. Isso, o Jão entrega como poucos. Literalmente, salva o dia.

E, quem sabe, o futuro.

Nota final: dois Risadinhas e meio (de 5).

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Como as democracias morrem

Releitura providencial para brindar este momento tão especial.


Publicada há exatos 11 anos pela Mythos Editora, Juiz Dredd Megazine Especial: Democracia compila as subtramas antifascistas das histórias do Juiz Dredd de 1986 até 1991. T.B. Glover, Alan Grant, John Wagner e Garth Ennis destrincham passo a passo as maquinações de um estado totalitário para oprimir, alienar, desinformar e manter os cidadãos no seu devido lugar. Ou seja, no arreio.

A sensação de déjà vu é nauseante. Isso aqui é um verdadeiro manual do autocrata moderno. Leitura obrigatória pero perturbadora.

E, definitivamente, o Juiz Dredd não é um herói.

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Quinta série forever


The Boys é apelativo, exagerado e de mau gosto. Foi a impressão que tive na época do lançamento e confirmada no TPB-BR O Nome do Jogo. Mas com a continuidade e todo o contexto necessário, fica nítida a estratégia sagaz de Garth Ennis, que encontrou no desenhista Darick Robertson a ferramenta perfeita para atirar mais um tijolo na vidraça do establishment. O irlandês doido também não economizou nas referências e nas autorreferências.

Muitas autorreferências.

Tanto o visual quanto a malandragem do protagonista Billy "Carniceiro" remetem ao bom e velho Tommy Monaghan, o Hitman. A própria line-up d'Os Rapazes lembra os clientes assíduos do Noonan's. Baron "Leite Materno" Wallis, o Francês, a Fêmea e o aspira Hugh Mijão parecem cuspidos da Section Eight. Só que o objetivo do bando é bem mais quixotesco: derrubar a rede de superequipes que assumiu o papel de polícia do mundo. Todas elas encabeçadas pela poderosa Liga da Just... Equipe dos Sete com o aval de parte do governo americano.

A hipocrisia, a corrupção e as taras super-heroísticas são uma evolução dos absurdos impublicáveis, pero publicados, de A Pro. – quem lembrar do Veloz fazendo justiça ao fundo levante a mão (peluda) primeiro. Nessa pegada, as fontes de informação que os Boys utilizam em suas investigações não poderiam ser de uma ironia maior: as revistas em quadrinhos baseadas naqueles super-heróis. Meio como o MIB pesquisando nos tabloides vagabundos da imprensa marrom.

A série é uma carta de amor de Ennis ao seu ódio pelos super-heróis, que vez ou outra ele precisa escrever porque "só está atrás de emprego...". Esse niilismo por vezes chega a lembrar o Marshal Law, o "Matador de Super-Heróis" de Pat Mills e Kevin O'Neill, só que menos anárquico e mais putanhesco. Ennis quer dinamitar por dentro.

Após um breve interlúdio baixa-pilha/faxina-coleção (só 1 ano), fui conferir o encadernado seguinte. Mandando Ver compila os números #7-14 originais, já pela Dynamite – as seis primeiras edições saíram pela WildStorm, que dropou a série... acho que a DC não se comoveu com toda aquela iconoclastia X-rated.


Sem a menor autocensura ou sutileza, ele demonstra um apreço pelo termo "viado" tão grande quanto Tarantino tem pelo termo "nigga" – tudo devidamente contextualizado, claro. Mas essa leva de edições é bem mais ambiciosa. Não apenas justifica toda a 5ª série presente até aqui, mas a desenvolve como uma escada para seu, digamos, manifesto. É aqui que Ennis começa a inserir vários daqueles elementos tão caros em seus projetos mais sérios: jogos políticos, conspirações, espionagem e russos.

Raposa véia de escrita, ele deixa umas migalhas de pão pelo caminho, com o WTC intacto e a Ponte do Brooklyn destruída (ora, ora, num mundo real, os super-heróis fazem mesmo a diferença, não?). Outros pontos passíveis de retcons são o ex-Boy Mallory, mencionado pela Diretora da CIA Susan Rayner quando afirmou, molhadinha, que o Carniceiro causou a morte das netas dele. E o Faroleiro, substituído às pressas pela novata Anne "Estelar" January.

Ah, Anne... Não vou negar que fiquei impactado pela chupeta divisora de águas na vida da heroína.

Se por um lado serviu para mostrar, sem vaselina, do que o Conglomerado e seu poster boy Patriota são capazes, por outro, abrir essa porteira é pra lá de perigoso. O fetiche por sexo e por sexismo, tanto masculino quanto feminino, está implícito nos quadrinhos desde sempre. Destacar isso numa HQ regular é algo que achava problemático já na época de Crise de Identidade e a polêmica cena do Doutor Luz violentando a pobre Sue Dibny (Watchmen não vale: é transgressor por natureza), sob o risco mais do que certo do seu inocente gibizinho descambar para um Super-Big Brother XXX – favor confundir com Coelhinhas da Mansão XXX. Ennis, óbvio, sacou isso há muito tempo e mandou ver em seu autoralzinho.

Quebrando um pouco a tensão, é bacana o paralelo entre Hugh e Estelar na cena do parque que abre a última parte do arco "Adeus à Inocência". Um dos raros momentos amenos e sentimentais da HQ. E não ler os diálogos do Mijão com a voz do Simon Pegg na cabeça é simplesmente impossível.

Reiterando, o traço do Darick Robertson (de Transmetropolitan) é sob medida: sujão e, por vezes, grotesco, como num bom gibi underground. Mas também sabe lidar com sequências grandiosas, como na bizarra redenção do Tecnoman ao interceptar o asteroideceta que ameaçava a Terra.

No geral, Robertson só exagera no gore das porradas, fazendo as cabeças literalmente explodindo de sangue. Fica sempre parecendo que a pessoa morreu.

Outro vacilo foi na cena da pizza de rosto no início do arco "O Glorioso Plano de Cinco Anos" – a mesma ficou na página ímpar (!), estragando a surpresa. Mas aí não sei foi culpa da composição do desenhista ou da encadernação da Devir.


Aliás, esse arco, que fecha o 2º TPB, é o melhor da série até aqui. Sempre que Ennis coloca ruskies na parada, o inferno é o limite. Personagens como Vasili Vorishikin, o Salsicha do Amor (será que o David Harbour toparia fazer outro ex-super-herói soviético decadente?), e a vilã Nina Namenko são memoráveis. E ainda a deixa para o misterioso e promissor insider do Conglomerado, um engomadinho que lembra o irritante Henry Gyrich, a pedra que o governo sempre colocava nos sapatos dos Vingadores.

No final das contas, The Boys é mesmo apelativo, exagerado e de mau gosto². Em suma, uma diversão só.

Vai ser difícil voltar à ordem do dia com os comics tradicionais.


Haja mindset.

domingo, 14 de agosto de 2022

“Só estou atrás de emprego, tesão...”


Finalmente começando o Projeto The Boys. Só 12 volumes antes de assistir à série da Prime. Moleza.

Matei a 1ª história enquanto fechava o parágrafo acima. Até aqui, fodão (figurativa e literalmente). Ansioso para ver o que é o tal "Heróigasmo" que tanto falam. Alguma relação com um dos meus heróis favoritos da Chiclete com Banana?

quarta-feira, 13 de julho de 2022

Dillon zone


Geralmente orbitando as HQs com a superficialidade de um típico Caderno 2, o site The Guardian publicou um bom artigo sobre a carreira do saudoso desenhista Steve Dillon, falecido em 2016. Na matéria, Garth Ennis, sua cara-metade artística e amigo de copo, relembra os principais trabalhos da dupla. Embora curta, uma ótima leitura, replicada merecidamente por Dave Gibbons e Jimmy Palmiotti.

Lendo a reflexão do chapa Luwig sobre uma sequência de Starman e nossos entes queridos que se foram, foi impossível não fazer a conexão com um trecho bastante pessoal da entrevista com Ennis.
“A morte de Steve foi uma absoluta decepção. Ele estava fazendo alguns dos melhores trabalhos de sua carreira naquele momento. Houveram duas bebedeiras massivas depois que ele morreu, uma em Nova York, uma em Luton, e em ambas eu tive a mesma sensação: esta é uma grande celebração da vida de um cara fantástico e ele adoraria ver todo mundo desse jeito, mas amanhã temos que prosseguir com um enorme vazio em nossas vidas.”
E arremata com um cruzado certeiro:
“Eu daria qualquer coisa para tomar mais uma cerveja com ele.”
Inesperado e comovente. E universal demais pra não se enxergar ali.

É pra colocar a próxima rodada em perspectiva, hm?

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Departamento de promoções

O saldo final da Black Friday foi aquele já conhecido "bom-mas-podia-ser-melhor". O assombro das primeiras vezes já passou, de lá pra cá a Amazon dominou e é o que tem pra hoje. Ainda assim, consegui aproveitar e dar baixa em várias coisas de várias listas. No setor dos quadrinhos, resolvi o que tinha pra resolver com a Salvat, botei em dia algum material da Mythos, ri das promoções nonsense da Eaglemoss e recebi há pouco o pacote da Panini - não só o último da leva, como meu último pacote de gibis do ano.

Assim espero.



Justiceiro: Valley Forge é o 4º Deluxe do Caveirão. Um calhamaço de mais de 500 páginas que finaliza o espetacular run de Garth Ennis no título (depois assumido por Gregg Hurwitz) e trazendo complementos generosos: os one-shots The Cell (2005), The Tyger (2006) e The End (2004), além da mini solo completa do inesquecível vilão Barracuda - quem acompanha o blog, sabe que eu sou fã do rapaz. Um dos quadrinhos mais extremos, densos e complexos já feitos. Obrigatório é pouco.



Tinha adorado a capa de Mulher-Gato #1, mas ainda estava na dúvida. Há tempos não leio nada realmente empolgante da gatinha - desde Um Crime Perfeito, pra ser exato. E não conheço nada do trabalho prévio da desenhista e roteirista Joëlle Jones, mas uma googlada de reconhecimento me deu um belo cartão de visitas - além do fato da moça contabilizar três indicações ao Eisner. Em que pese também a parceria com a experiente Laura Allred, resolvi conferir o que essa Selina tem.



Já estava acompanhando a nova fase do Lanterna Verde por Grant Morrison, atualmente na edição #12 lá fora. Suas ideias e conceitos são, como sempre, lisergia pura - mas dessa vez, dando um barato do bom, sem bad trips. Porém, o que me fez sair do DC (++) e colaborar com a DC (Comics) foi o traço lindamente escalafobético do brit Liam Sharp, um dos melhores parceiros que o escocês voador já teve na vida. O homem está desenhando uma barbaridade. Pra daqui a 15 anos erguer essas edições e mandar a plenos pulmões (provavelmente pro espelho): "eu comprei isso na época!"



One-Punch Man é uma das coisas mais divertidas que já li na vida, mas aí vai uma pequena mea culpa: estacionei lá pelo vol. 12 ou 13 já há um bom tempo. O roteiro miniminimalista de ONE e os traços vertiginosos de Yusuke Murata mantiveram o nível tão alto e ainda tão refrescante que cultivei uma retranquinha antes de alguma (inevitável) queda de qualidade. Mas segui pegando e vou me atualizar assim que abrir uma brecha. O que, no caso do Saitama, é trabalho pra 10-15 minutos, no máximo. One-Punch read.



Surreal receber em mãos uma nova edição da Biblioteca Don Rosa pela Panini, no mesmo formato dos volumes da Abril e do ponto onde a coleção parou. Ainda tenho lá, "O Solvente Universal" cancelado na lista de desejos da Amazon. Virou o meu "Wilson". E hoje nós dois vamos tomar todas pra comemorar. Louco é a mãe.



E seguem mais dois volumes de A Espada Selvagem de Conan - A Coleção, as aquisições que mais me dão alegria atualmente. Parece até vingança pelas ESC da Abril nunca adquiridas em tenra idade ou um acerto de contas após décadas de quadrinhos com storytelling de videoclipe e personagens sem culhões (excetuando, claro, os sacudos da Bonelli). E até é, mas também dá uma olhada nas contribuições constantes nas capas. É Roy Thomas, John Buscema, Alfredo Alcala, Dick Giordano, Tony DeZuñiga e toda a sorte de demônios picto-filipinos com o fogo do inferno ebulindo a tinta de seus nanquins. Até o Necronomicon morre de inveja dessa coleção. Puta que o pariu.


Por enquanto é só, pessoal. E antes que eu me esqueça...

Senhor, agradeço por esse material que irei devorar assim que tirar do plástico. Em nome do Stan, do Kirby, do Steve Ditko, amém.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

No centenário de Jack Kirby quem faz a festa é você... com os importados


Num mundo perfeito, 2017 seria comemorado pelo público e editoras nacionais de quadrinhos como se fosse o aniversário de alguma grande cidade ou de algum santo padroeiro. Como sabemos, esse foi o ano do centenário de Jacob Kurtzberg (1917-1994), também conhecido como Curt Davis, Jack Curtiss, Lance Kirby (esse é ótimo), Jack Kirby. Ou simplesmente o apelido mítico que ganhou de Stan Lee: "The King".

Do fim dos anos 1950 até o fim dos anos 1970, Kirby dominava. Atualizou a estética e a dinâmica das HQs com uma fúria reformista nunca vista antes - e raríssimas vezes depois. Fez a ponte entre complexidade e simplicidade, desenvolvendo um estilo próprio que o permitia produzir páginas e páginas em ritmo industrial sem oscilar na qualidade. Nunca ninguém produziu tanto em tão pouco tempo quanto Kirby. Era praticamente um Jimmy Page dos gibis. Seu legado para as artes e para a indústria é incomparável, exercendo reflexos vívidos até hoje.

Lá fora, a artilharia Kirbyana foi incessante - não apenas neste ano comemorativo, mas nas últimas décadas. Lançamentos a todo vapor, nada sai de catálogo e a variedade de opções é impressionante. Mesmo.

Apesar disso, não é bem um cenário de reconhecimento que se vê por estas bandas atualmente, a começar por uma boa parcela dos fanboys. Já li cada bobagem sobre a arte de Kirby e ignorância sobre o contexto da época que hoje desconfio que aquelas famosas ponderações de Umberto Eco eram sobre alguns leitores de HQs. Como bem resumiu o Daniel Lopes, do Pipoca & Nanquim: "tolos".

E não ficou muito melhor com o tributo magrinho que a Panini reservou para o ano do centenário com os dois volumes de Lendas do Universo DC: Super Powers, num equívoco seletivo de dar gosto. É material inédito por aqui, certo, mas nada representativo do que foi o Rei no auge. Isso era pra ser lançado bem depois de Quarto Mundo, Kamandi, OMAC e Etrigan, o Demônio, só pra ficar na jurisdição DC. Ou, no mínimo, pra anteceder metade dessas sagas ainda em 2017.

Vão-se os centenários, ficam os importados. Se descaso é mato nessa terra, sejamos os capinadores.



Machine Man - The Complete Collection foi irresistível. Curto demais a versão 1.0 do X-51/Aaron Stack/Homem-Máquina - e de menos o upgrade Inspector Gadget engraçadinho que ele recebeu nos anos recentes. Então foi uma rara oportunidade de fechar tudo que achei legal de um personagem numa tacada só. Ou melhor... em duas.

O calhamaço é graúdo: além das participações no título do Hulk e da Marvel Comics Presents, as 440 páginas também trazem todas as 19 edições da série original do Machine - ou "Mister Machine", como era chamado em sua estreia oficial na quadrinhização do Rei para o clássico 2001: Uma Odisseia no Espaço, não compilada aqui por conta dos direitos que mofam ad eternum nos cofres da MGM.

E tudo bem que não se trata de um material 100% Kirby. Afinal, ele divide metade da série solo com outro criador peso-pesado - ninguém menos que o genial e genioso Steve Ditko. Excelsior!

Nada mal como uma (Almost) Complete Collection.



The Demon by Jack Kirby é uma que entrou no meu target desde o início da pré-venda. Isso foi lá pelo ano passado, mas pareceu uma eternidade.

Uma baixa terrível, literalmente, de última hora: a substituição da capa original da The Demon #1 (set/1972), clássica e espetaculosa, por uma arte em detalhe que mais parece um flash do Etrigan com enquadramento ruim. Que o autor dessa ideia cumpra uma pena exemplar nos círculos inferiores.

E já que toquei no assunto, a Amazon anda meio salafrária ultimamente. Alguém mais encomendou aquele Cavaleiro das Trevas anunciado com capa prateada e recebeu a versão anterior, com as silhuetas do Batman e do Super?

O TPzão coleta as dezesseis edições originais de The Demon, cuja publicação atropelou os planos ambiciosos do Rei para seu xodó, a megassaga Quarto Mundo - cancelada após o sucesso nas vendas do diabão amarelo. O que, imagino, deve ter deixado Seu Kirby muito enjuriado pela sua demoníaca criação.

Deve ser a maldição do gênio da raça. Fazer o quê, se até pra chupinhar beber em fontes alheias, o Rei dava um show de preciosismo nas referências?

Seja como for, o capeta rimão aportou direto no quadrante 666 da coleção.


Há que se fazer a menção honrosa aos divertidíssimos The Demon vol. 1: Hell's Hitman e The Demon vol. 2: The Longest Day, com a dobradinha Garth Ennis/John McCrea imersa em insanidade e anarquia, e para The Demon: From the Darkness, de Matt Wagner e Art Nichols - provavelmente a melhor história do Etrigan já escrita.

Em outras palavras, o Demônio do Rei Kirby está em excelentes más companhias.


E o Máquina também.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Vou pregando a caminho do Texas até o fim do mundo com orgulho americano e histórias antigas rumo ao sul para a guerra ao sol e para a salvação às portas do inferno no Álamo


Já parabenizei a editora Panini por publicar o final de Preacher pela 1ª vez no Brasil, mas parabenizo de novo por ser a 1ª editora a completar a série na íntegra por aqui. Chegou hoje o pacotão com os dois encadernados retroderradeiros - Rumo ao Sul e Guerra ao Sol - e umas coisinhas mais.

Esse foi osso pra acompanhar. Foram anos a fio, entre incertezas inquietantes e silêncios sepulcrais no hot site da Vertigo. Mas valeu a pena. Dilacerarei-o com a fome de cem mil zumbis.

Excelsior!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

I'm as mad as hell and I'm not going to take this anymore!

É oficial: Preacher vai virar série pela AMC com Seth Rogen e Evan Goldberg como roteiristas e produtores executivos.


Até uns 4 anos atrás essa seria possivelmente uma das melhores notícias envolvendo quadrinhos e televisão já imaginadas. Longe de mim desmerecer a network que deu a luz a Breaking Bad (até porque, nunca assisti), mas sou testemunha ocular dos crimes que a mesma cometeu com a trama original de The Walking Dead. Me pergunta se assisti algum episódio da última temporada? Não consegui. Não, definitivamente a AMC não é mais um porto seguro.

Goldberg é o escritor de Rogen de longa data. São sócios na gangue do diretor Judd Apatow e funcionam muito bem por lá. Adorei as bobajadas nonsense de Superbad, Segurando as Pontas e É o Fim. Também é evidente que os caras são über-nerds e provavelmente conhecem a saga de Jesse Custer de cabo a rabo, mas tenho quase 101% de certeza que a dupla não tem cacife pra segurar o rojão. E, principalmente, defender a criação/criatura de Garth Ennis contra as concessões impiedosas da AMC. E nem vou citar a incursão anterior dos rapazes pelo revoltoso mundo das adaptações.

Lembra daquele velho sonho molhado com Preacher virando série pela HBO? Infelizmente não foi dessa vez, moçada.

Mas que semaninha, hein?

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Aleluia, irmãos!


Em algum lugar da criação, os apóstolos OldHeavy, Mulinha, Grimm Jack, Eudes e JP esboçam um sorriso discreto.

sábado, 10 de julho de 2010

A PRO: curta animado, e como!


Dizer o quê? Garth Ennis + Amanda Conner + A PRO x animação com fidelidade quadro-a-quadro =



O curta é obra do mafioso Jimmy Palmiotti, da Kickstart Productions, e produzido pela Titmouse Inc. (a mesma do fodão Metalocalypse). Segue o link oficial do vídeo no YouTube, não embedável. Esse merece o thumbs up. Fizeram até a cena clássica do super-blowjob.

Troço sensacional. E Hollywood devia parar de mexer com essas coisas.

Agora... onde eu estava mesmo? Ah, sim.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Dia de gibi novo

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Agitar uma seção nova: review de gibi novo! Eu sei, eu sei, não precisa me indicar ao Eisner de ideia do ano. O que não falta por aí é blog e fórum comendo HQ com farinha tão logo elas saem da gráfica. E não sou lá um privilegiado quando se trata de timing. Nas publicações da Panini, por exemplo, o canela verde aqui pena de 10 a 15 dias de delay em relação à São Paulo, mesmo nos títulos mensais mais carne de vaca. Mesmo assim, demanda há. Volta e meia eu fico na mão com a falta de análises críticas para algumas revistas. Uma opinião terceira nunca é demais pra ajudar na decisão de desembolsar uns suados merréis.

Toda referência é valiosa, até quando não se concorda com nada do que o sujeito escreve - a velha regra do "se ele não gostou, então vou achar legal... é cofre". Faço isso frequentemente (menos o uso do termo "é cofre"). Quase sempre fico satisfeito.

Outra coisa que acho importante (e não recebi um centavo pra isso, tsc) é tirar um pouco da pecha negativa que colocam sobre as revistas mix. Algum fanboy desvairado gritou lá do fundo "revistas mix são uma merda!", e todas as outras codornas fanboys saíram ecoando a sentença tresloucadamente por aí. O boca-a-boca em tempos de internet tem proporções godzíllicas e tsunâmicas. Só que o mercado nacional não é forte ao ponto de individualizar tantos títulos ou evitar o mix dos mesmos. E recorrendo ao chavão, "é um mal necessário".

Num mercado saudável, ainda teríamos as revistas próprias do Hulk e do Demolidor figurando tranquilas ao lado do Homem-Aranha e Wolverine. Não veríamos arcos consagrados lá fora desembocando por aqui em escalações levanta-vendas (Legião dos 3 Mundos em Superman/Batman?), nem cancelamentos sumários até de mixes teoricamente pop, como foi o caso da Marvel Action.

Com o atual êxodo de leitores para a terra prometida dos encadernados e one-shots (e para a terra encantada dos scans), fica mais fácil compreender algumas ações "obscuras e malévolas" das editoras - que são comércio, afinal. Muitos dos que abandonaram as linhas mensais reclamam da qualidade, mas não é bem assim. Tem muita coisa bacana sendo lançada, ainda que ao lado de algumas toscas. Essa má publicidade faz outros potenciais leitores virarem as costas e perderem excelentes momentos dos quadrinhos regulares. E pode acreditar, eles ainda existem.

Tudo bem que dói a retina ver o excelente Superman de Geoff Johns impresso ao lado das péssimas histórias da Supergirl (que tipo de gente consome isso nos EUA?), mas as últimas fases do Azulão são tão boas que se sobressaem de qualquer jeito. É assim também com o visceral O Velho Logan, de Mark Millar e Steve McNiven. O estiloso Demolidor de Ed Brubacker. O impagável Hércules de Greg Pak e Fred Van Lente. O frenético Motoqueiro Fantasma de Jason Aaron. E por aí vai.

Mas posso estar equivocado sobre tudo o que escrevi aqui (e ali) e as HQs mensais no Brasil já estão mesmo condenadas, bem como a impressão em papel de um modo geral. Futurólogos e early adopters queimam seus sutiãs todos os dias em praça pública e o Kindle já está aí, falta só melhorar.

Enfim, questões para serem discutidas numa roda de amigos com uma cerva gelando no bucho - de preferência, num mix de assuntos.


Marvel MAX #76


Formato americano, 100 páginas, papel Pisa-brite, R$ 7,50

Um dos poucos títulos que ainda compro todo mês desde a 1ª edição. Até hoje não teve um único número com 0% de aproveitamento, mesmo nas fases modorrentas do Wisdom e do Daimon Hellstrom. Chegamos então ao número 76 sem quedas aparentes de ritmo e quase sem sentir a longevidade do título. Elogio maior, impossível. Marvel MAX é festa punk.

Apesar da longa ausência de Tim Bradstreet nas capas da revista, das quatro publicadas nesta edição, a escolhida é realmente a melhor. Greg Land zumbificando o cartaz de Extermínio ao melhor estilo Arthur Suydam. Danny Boyle e Alex Garland aprovariam.

Aliás, essa edição em particular lembra certos jornais cariocas, como O Povo e Notícias Populares. Se torcer, jorra sangue. Às cotações:

Keith Richards - ♠ ♠ ♠ ♠ ♠
Lemmy - ♠ ♠ ♠ ♠
Angus Young - ♠ ♠ ♠
Slash - ♠ ♠
Chimbinha -


Marvel Zombies 3 #2

Ninguém esperava muito da terceira parte da saga dos Zumbis Marvel (nem eu!). Sem a sensacional dupla Robert Kirkman/Sean Phillips, surpreende que ela tenha chegado à sua 2ª edição (creditada erroneamente como "Marvel Zombies 3 - 1") mantendo um nível bem interessante. Sem poder contar com personagens de peso, o roteirista Fred Van Lente teve mais liberdade para injetar gore no universo 616, o Universo Marvel normal - afinal, ninguém iria sentir falta dos buchas aqui desmembrados e devorados sem dó.

Na premissa, alguns Zumbis Marvel conseguem chegar à Terra 616 para "espalhar o evangelho". Logo em seguida, uma missão é organizada pela A.R.M.A.D.U.R.A. (Agência para Rastreio e Monitoração Ampla e Duradoura de Urgências em Realidades Alternativas - os caras da Panini estão ficando bons nisso!). O objetivo é ir ao universo zumbi e buscar amostras essenciais para a cura da praga. Para diminuir os riscos, a agência recruta dois seres artificiais para o serviço: Aaron Stack, o Homem-Máquina, e seu antigo interesse robótico, Jocasta. Chegando lá, eles se deparam com uma grande organização de supervilões zumbis liderada por um Wilson Fisk desmorto.

Além do humor doentio de praxe, o roteiro de Van Lente rende algumas boas sacadas, como a cultura de clones e a xenofobia crônica de Aaron em relação aos "carniformes". Ele beira a ultraviolência, especialmente quando se vê livre para matar à vontade ("isto não é o universo zumbi... é o paraíso dos robôs"). E respeitando a cronologia, Van Lente manteve o background dos zumbis referenciando um momento do crossover Zumbis Marvel: Uma Noite Alucinante, quando o Rei foi fuzilado pelo Justiceiro.

O traço solto e sem firulas de Kev Walker lembra bastante o de Sean Phillips. Propositalmente, com certeza. E a tosqueira splatter está toda lá, cheirando a produção B da Troma Films - vide a cena escrotíssima envolvendo as entranhas do Abutre (imagina o John Malkovich ali). Nesse quesito, Walker já era especialista de longa data, visto que entre seus trabalhos antigos estão duas capas do podrão Autopsy (Severed Survival e Mental Funeral).

Até agora, um bom trabalho da dupla, que dribla a falta de hype com talento e desencanação. E uma carnificina das boas.

♠ ♠ ♠



Foolkiller: White Angels #1

Foolkiller foi criado em 1974 e ao longo dos anos ganhou várias versões e alter-egos. A repaginada mais relevante, no entanto, foi a última, pelo roteirista Gregg Hurwitz. A princípio, ele virou só mais um copycat do Justiceiro da versão MAX. Rendeu um razoável arco de estréia e segue agora de maneira estupidamente instigante. Nem imagino o que Hurwitz andou lendo ou assistindo nesse meio-tempo, mas a sua evolução na construção de climas e cenários é escandalosa.

No início da trama acompanhamos um ex-detento recém-saído da prisão e as dificuldades que enfrenta para se reintegrar à sociedade. A narrativa é tão eficiente em cativar o leitor, que fica difícil não torcer pelo personagem quando ele finalmente começa a dar a volta por cima. O clímax é fora-de-série. Hurwitz ainda introduz um grupo neo-KKK chamado Anjos Brancos, fornecendo o gancho necessário para o Matador de Idiotas intervir com som e fúria.

Os desenhos agora estão por conta do ótimo Paul Azaceta (B.P.R.D.: 1946), que se revela muito mais adequado àquele universo do que Lan Medina, o artista anterior. Com um estilo rotoscópico que lembra o de Michael Gaydos (Alias), ele também conta com um bom repertório de recursos sequenciais. Dá um show já nas duas primeiras páginas, com cinco quadros retangulares cada, ilustrando cenas do mortificante cotidiano da penitenciária.

Um excelente (re)começo. Tomara que a dupla mantenha o nível - e saiba tirar um bom proveito da participação especial do Justiceiro, mais pra frente.

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Terror Inc. #4

A história de um vândalo em pleno ano de 455 que, entre mortes, estupros e pilhagens, mata uma besta-fera demoníaca e acaba amaldiçoado a apodrecer em vida eterna. Uma espécie de Highlander sem problemas com decapitações, mas com o prazo de validade pra lá de vencido. Com o tempo, ele aprende alguns macetes sobre sua nova condição, como o estranho poder de incorporar órgãos e membros "extraídos" de outros seres. E até mesmo possuir novos corpos para assim descartar o anterior, deteriorado. Dois milênios depois, ele continua no ramo do assassinato - agora por contrato e sob a alcunha de Sr. Terror.

A primeira edição de Terror Ltda. foi bem curiosa e intrigante. Apesar de parecer um carnaval de vísceras e fluídos, o roteiro lovecraftiano de David Lapham consegue tecer um bizarro conto de origem para o personagem (certamente inspirado no abominável Dr. Phibes). Em particular, na fase passada em 1164, nas gloriosas batalhas contra os Cavaleiros das Sombras. Décadence avec élégance pra chuchu.

Mas verdade seja escrita... ainda que divertidas, as demais edições são grafismo puro e desmedido. Tem mais sangue e toucinho exposto aqui do que numa versão director's cut estendida de A História de Ricky! E mesmo a reviravolta preparada por Lapham (ganhador de um Eisner) soa bastante previsível.

Nada que a desqualifique, porém. O personagem é carismático e tem nuances interessantes, bem como a sua agente, a cool e gostosa Sra. Primo. Os bons traços de Patrick Zircher (Thor: A Era do Trovão) fecham a conta e garantem a perversão.

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Punisher MAX #54

Tem algo esquisito no ar quando um vilão como o Barracuda ganha a simpatia irrestrita do leitor. O cara não é como o Dr. Destino, o Darth Vader ou qualquer desses arquétipos icônicos. É vilão nível humano mesmo. Genocida canibal estuprador matador de criancinhas - sempre com um largo sorriso no rosto e uma piada pronta. Desconcertante. Mas não se engane, é só a diversão de Garth Ennis entre uma e outra incursão mais séria do Justiceiro.

Por isso que, mesmo sob um contexto tão barra-pesada, os dois arcos com participação do Barracuda, mais a sua minissérie solo, têm sabor inequívoco de entretenimento fácil. A walk on the wild side. E absolutamente imperdíveis.

Esta conclusão do arco A Longa e Fria Escuridão não nega sua vocação. São dois homens de ferro determinados a fazer o que for preciso para quebrar um ao outro, física, estratégica e psicologicamente. Quando o barraco explode de vez na reta final, são necessárias as duas últimas edições inteiras para estirpar na porrada a tensão absurda que foi construída. Uma pequena obra-prima demencial do reverendo. Amém.

Claro que sem o traço estilizado do croata Goran Parlov, o Barracuda não seria metade do que é - a primeira edição desse arco, desenhada pelo veterano Howard Chaykin (American Flagg) soou como uma introdução de luxo, mas na verdade teve pouco a ver com o personagem. A arte de Parlov está mais refinada do que nunca e se supera nas páginas 81-84 com os quadros em flashback destrinchando a vida caótica do vilão.

Vendo as cenas criadas pela dupla, sempre imagino como se fossem de algum longa animado hardcore. Sonhar não custa nada, afinal.

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