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terça-feira, 18 de agosto de 2020

Faxina no Templo

Lá fora, aquele mar revolto de opiniões, das mais simplórias às mais complexa(da)s. Eu é que não vou dar a minha.


Não mesmo, não senhor...

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Back to U.S.S.R.


Muito antes de chafurdar no mainstream global em produções como Guardiões da Noite e, err, Guardiões e virar a Hollywood dos Urais, o cinema russo - ou, melhor contextualizando, soviético - enfileirou clássicos absolutos da 7ª arte. O conjunto da obra era arrebatador: técnicas inovadoras, uma nova expressividade dramática e narrativa, metáforas universais que, em teoria, jamais passariam pelo crivo censor do Estado, e por aí vai. Um legado histórico reconhecido por reverências e tributos até mesmo pelos estrangeiros do oeste.

A impressão é de que os bolcheviques também disputavam com o Ocidente outra acirrada corrida, a cinematográfica.

Aí veio o gol de placa da TV Brasil, emissora aberta cujo conteúdo de orientação progressista-com-neurônios me é agradabilíssimo: em comemoração aos 100 anos da Revolução Russa, o canal irá exibir uma seleção de 11 filmes clássicos da Era de Ouro do cinema soviético a partir do próximo domingo, dia 15 de outubro, sempre às 23 hs.

É o Outubro SoviéticoУра!

E a chamadinha é espetacularmente эффектный!


Segue a programação (sinopses no site):

15/10, domingo: O Encouraçado Potemkin (1925), de Serguei Eisenstein - drama mudo
16/10, segunda-feira: O Conto do Czar Saltan (1967), de Aleksandr Ptushko - fantasia
17/10, terça-feira: Vassa (1983), de Gleb Panfilov - drama
18/10, quarta-feira: A Mãe (1989) (não confundir com Mãe! LoL), de Gleb Panfilov - drama
19/10, quinta-feira: Boris Godunov (1986), de Sergei Bondarchuk - drama
20/10, sexta-feira: Um Acidente de Caça (1978), de Emil Loteanu - drama
21/10, sábado: Arsenal (1929), de Aleksandr Dovzhenko - guerra
22/10, domingo: O Velho e o Novo (1929), de Serguei Eisenstein e Grigori Aleksandrov - drama mudo
23/10, segunda-feira: As Aventuras Extraordinárias de Mr. West no País dos Bolcheviques (1924), de Lev Kulechov - comédia muda
24/10, terça-feira: Cossacos do Kuban (1949), de Ivan Pyriev - comédia musical
25/10, quarta-feira: Lênin em Outubro (1937), de Mikhail Romm e Dmitri Vasilyev - drama

Cinema pra proletariado nenhum botar defeito. Imperdível.

Ps: mas é claro que vou completar a rodada com Solaris (1972) e Stalker (1979), do mestre Andrei Tarkovsky, que não sei por que perestroikas não entraram na lista. Questões de Estado, certamente.


☭ ☭ ☭ ☭ ☭ ☭ ☭


E com timing impecável, essa semana também chegou em minhas pútridas mãos um material de leitura à caráter.


O Cosmonauta de Krypton. Também conhecido como Superman - Entre a Foice e o Martelo, quando poderia ter sido conhecido como Superman - O Filho Vermelho, simplesmente.

Seja como for, é a hora mais do que apropriada para rever cenas como aquela que me fez pensar na gravidade de um Super-Homem sendo arremessado de um lado pro outro de um centro urbano. Situação de DEFCON 1/sebo nas canelas - ou o índice apocalíptico equivalente cunhado pelo Komitet Gosudarstvennoy Bezopasnosti.


O efeito de uma bala perdida? Não, de um ICBM perdido

Foram 774 vítimas fatais só nessa página. E algumas dezenas de milhões de libras em danos materiais.

Mas isso foi bem antes do filme, claro.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Rinha escocesa

Se tudo der certo, Supergods, o aguardado livro de Grant Morrison, sai no Brasil no primeiro semestre de 2012, via editora Pensamento/Cultrix. Enquanto esse narguilé não é aceso por aqui, é interessante acompanhar a turnê (auto) promocional, com direito a um bate-bola de luxo entre o All Star Morrison e Neil Gaiman e, quem diria, também a figurar num caderno dois dominical de um diário escocês, ao lado de outro grande astro da terra do Chivas Regal:


Eu até descontaria as onomatopeias e a apelaçãozinha de imprensa marrom, mas ambas caem como uma luva no Morrison e seu discurso de retidão moral. Tudo bem que Mark Millar e sua fórmula kick-ass de "degradação, violência e herois durões assassinos em massa" ressoam hoje de forma mais gratuita que criativa, mas, caramba... quanta animosidade.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Eu podia tá matando


Arrancaram Jack Bauer da aposentadoria. Após quatro episódios, já dá pra arriscar os primeiros chutes sobre a oitava temporada de 24: dinâmica mais cadenciada que a habitual, mas diametralmente impactante. E o início é surpreendente. Quando Jack apareceu pela primeira vez, pensei até que fosse um daqueles telefilmes família da Hallmark. Numa cena idílica, o ex-agente brinca com sua netinha enquanto assistem desenhos na TV. Ele parece finalmente levar a vida que sempre quis desde a primeira temporada. É a primeira vez que o vejo começar um desses "dias no escritório" totalmente absorto, descansado, em outro lugar. Curioso. Será um retrato da América atual, exausta de crises, ameaças e más notícias diversas lotando a grade da CNN? Seja como for, não demora até a vida real bater à porta de Jack respingando sangue e pronta para desconstruir o sonho americano, mais uma vez. Na trama, agora em NY, ele investiga uma conspiração para assassinar Omar Hassan, presidente de uma república fictícia simulando o Irã, e acaba cruzando com uma operação da máfia russa envolvendo canisters com urânio enriquecido. Familiar...

Não será fácil chegar ao nível da excelente temporada anterior, mas há várias pistas promissoras aqui. Os destaques até agora: a CTU reativada com tecnologia agressiva, uma desatualizada Chloe O'Brian (minha xodozinha nerd) e, especialmente, Renee Walker. Após um dia inteiro nadando em sangue ao lado de Jack Bauer, a ex-FBI agora é uma máquina de triturar suspeitos. A última cena do quarto episódio arrepiou Jack, eu, Leatherface, Jason e o Dr. Lecter. Essa promete.

Bem sacada a participação de Mykelti Williamson como o novo diretor da CTU, Brian Hastings. Ao que tudo indica, é mais um burocrata carreirista que ainda vai bater muito de frente com Jack. Particularmente, também gostei do retorno da Presidente Allison Taylor (a ótima Cherrie Jones) e da raposa velha Ethan Kanin. Mas fica sempre a torcida pela volta, mais uma vez, de Aaron Pierce e do saudoso Mike Novick.

De ruim: o plot-blackmail de Dana Walsh, analista sênior da CTU. Não dá pra crer que ela ajuda a salvar o mundo num minuto e abaixa a cabeça pra um zé-ninguém no minuto seguinte. Claro, tudo vai depender do background que ela tanto teme, mas, por enquanto, inverossímil. Outra coisa que desceu meio quadrada foi em relação à Kim (aaa... Delisha Cuthbert). Logo ela incentivando o pai a largar tudo pra sair por aí arriscando a vida?

Aliás, pra quem assiste Californication, vai ser meio esquisito ver o maluco Lew Ashby (Callum Keith Rennie) como um dos gângsteres barra-pesada. É só olhar pra cara dele que eu lembro das dúzias de mulheres peladas dançando ao som de Black Label Society...

E finalmente, um Prinze em Nova York. Mal me recuperei da notícia que revelou sua presença na série. 24 é a antítese de tudo aquilo que Prinze Jr. participou na sua vida profissional. Achei que nunca iria convencer como o "superior" de Jack, como noticiaram por aí. E achei também que não convenceria se tentasse parecer durão. Felizmente, não é nem uma coisa, nem outra. No papel do agente Cole Ortiz, ele está na mesma posição que Jack ocupava nas primeiras temporadas. Mas claro, longe daquela ousadia limítrofe: aqui ele é a correção em pessoa, só agindo by-the-book. Mas desde que conheceu Jack já distorceu um pouco seus princípios (por uma boa causa). A boa cena em que ele escolhe a alternativa à trair sua equipe reafirmou a integridade do personagem. Em contrapartida, o lado galã enraizado no ator continua lá, nos momentos com Dana, sua noiva.

Pelo visto, o maior trunfo do Prinze é esse mesmo: encarar o papel com seriedade, sem exageros e, principalmente, sem tentar ser o que não é. Os prognósticos são bons. Da última vez que ele esteve em Manhattan pelos meios pop...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

ULTIMATES ASSEMBLE!


Logo no início de Ultimate Comics Avengers #1, um estarrecido Nick Fury resume o sentimento dos leitores (em geral) após Ultimates 3 e Ultimatum - ambas escritas, ou melhor... excretadas por Jeph Loeb e seus desenhistas sem-mente de estimação. Mais que isso, a cena ilustra o espanto do próprio roteirista Mark Millar frente ao caos instaurado em sua cria mais notória. É a velha e boa ironia escocesa de volta ao batente Ultimate - e pra quem sabe ler, um %@#& é letra. Ainda olhando para um Triskelion em reconstrução, Millar-Fury emenda: "eu sumo por dez minutos e o lugar inteiro vai pro inferno". Pode crer que ele não estava se referindo só ao QG dos Supremos.

Após aquela fatídica primeira edição de Supremos 3 eu achei sinceramente que Joe Quesada estava de sacanagem. Que aquela escalaçãozinha Loeb/Madureira rebuscando toda a tralha noventista da era Image foi mais um plano sórdido do rotundo editor. Autosabotagem declarada para, talvez, enxugar a linha Ultimate, mantendo só o baratinho e rentável Homem-Aranha teen - com entregas sempre no prazo e um comercialmente saudável público unissex. Conspiração demais? Pode até ser, mas nada explica essa line-up sucedendo uma das duplas mais sensacionais dos quadrinhos da última década. E mais uma vez, Quesada e sua gangue fizeram muito bem aos cofres da Marvel e muito mal pro bolso do leitor.

É um baita administrador, vamos combinar. Pode não ser o cara que controla o abre e fecha da carteira, mas é quem a enche. Não fosse ele, a Marvel, se ainda existisse, seria propriedade da Wal-Mart ao invés da Disney. Vi-va.

Mas antes de tecer previsões apocalípticas sobre como a casa do Mickey irá descaracterizar o Universo Marvel ao longo dos anos que virão, vou tentando entender como Millar vai restaurar sua fabulosa sátira ao american way. Porque tá difícil. Mas essa primeira (e curtíssima) edição já traz algumas pistas.


O plot básico é aquele novelão cheio de cliffhangers pontiagudos que Millar fez tão bem nos dois primeiros volumes dos Supremos. Começa com Fury sendo cicceroneado pelo Gavião Arqueiro de volta ao Triskelion ("quase 75% operacional"), não para reassumir seu velho posto, mas para resolver uma antiga merda envolvendo o Capitão América, agora um renegado. Corta para um dia antes. Cap e Gavião estão em perseguição aérea a uma unidade de assalto da I.M.A. (Ideias Mecânicas Avançadas - até onde sei, em seu debut no universo Ultimate). O ato termina com Cap confrontando seu mais clássico inimigo, o Caveira Vermelha, e também com uma revelação-bomba daquelas de fazer o chão desaparecer. Existem novelas na Escócia?

Coube ao artista Carlos Pacheco a difícil missão de substituir Bryan Hitch e dar vazão às epifanias cinematográficas de Millar. Pacheco sempre foi competente, mas vive hoje seu melhor momento, de longe. Da grandiosa capa e do Triskelion de tirar o fôlego na primeira página à sequência de ação desenfreada da metade pro final, o cara foi arrasador. Existe alguma emulação da linguagem visual de Hitch aqui, mas usada como uma ferramenta para deslanchar sua própria dinâmica. Os melhores momentos, claro, são os que trazem recursos mais hollywoodianos (pular com uma moto de um edifício em direção a um helicóptero e uma queda livre sem paraquedas nunca soam cansativos), neste ponto lembrando um pouco a antológica "edição Matrix" do volume um (Ultimates #8).

O texto nem um pouco sutil de Millar traz de volta aquele coice anárquico dos personagens e seu eterno sarcasmo em relação à malaquice republicana dos EUA. Como não podia deixar de ser, o astro principal é o Cap, com as conhecidas frases de efeito reafirmando suas convicções de macho-man militarista ("que tipo de garota é detida por uma bomba?" - adivinhe a autoria e ganhe uma bandeirinha do exército confederado) e seu modus operandi discutível no combate ao terror - vide a cena em que ele joga soldados inimigos desacordados de um helicóptero a trocentos pés de altura com a serenidade de quem põe o lixo pra fora.

A interação com Pacheco destila fluidez e ainda resgata aquelas boas sequências de briga quadrinhística, como no momento em que o Cap leva uma surra homérica do Caveira. Destaque também para o diálogo de Carol Danvers, atual comandante da SHIELD, tentando em vão reconvocar Stark, que está chapado num puteiro bondage.

Uma primeira edição que é um colírio para os olhos e uma injeção de adrenalina para a alma. É Millar no seu mais tradicional: iniciando um arco no auge e cheio daquela energia insana e irrefreável para terminar Deus sabe como. Só não entendi porque mantiveram a infame máscara do Gavião. Apesar dele ter participação ativa nas cenas mais eletrizantes, não dá pra olhar pro personagem sem antes confundi-lo com algum integrante do Youngblood. Provavelmente Millar esteja preparando alguma catarse antes de desmascará-lo definitivamente - bem como a bagunça que fizeram durante a sua "saída de dez minutos" - e talvez assim, deixar de vez os anos noventa lá nos anos noventa.

segunda-feira, 7 de julho de 2008


Millar, comemorando o resultado da enquete

Grant Morrison parecia o alasão premiado, mas o no finzinho o pangaré Mark Millar foi uma bala! Confesso que nenhuma enquete que fiz anteriormente me deixou tão curioso quanto esta.

Roubaram muito na votação aí? Espero que não... :)


Cabe dizer que Millar está fazendo um trabalho... "bem-feitinho" em 1985 e está mandando muito bem em Quarteto Fantástico, pela cronologia normal. Já Morrison não está se saindo nada bem em Final Crisis, mas pra compensar, está dando a luz a um clássico com todas as letras, que é All-Star Superman. IMO.

Também achei legais os números paralelos. Interessante o parelho K. Vaughan/Ellis e surpreendente a pouca repercussão do Bendis, do Johns e do Whedon (Astonishing, pessoal!). Mas acho que aí o fator "bom operário" pesou.

E um abraço forte aos dois que votaram no Willingham. Qualquer hora a gente sai pra tomar um capuccino, por minha conta.

Agora: fome de cão e Smiths, "How Soon Is Now?".

quinta-feira, 3 de julho de 2008

ZOMBIE WARS


Não há nada tão divertido nos quadrinhos atuais quanto Marvel Zombies. Ponto! Certo... o fator "diversão descerebrada" bate forte ali, mas é o que faz esta experiência adquirir contornos quase vanguardistas. Sério. Ao colocar ícones da cultura pop cometendo as maiores atrocidades, a série promove uma subversão total de valores num espirituoso e imprevisível exercício de estilo. Além do caos anunciado na lapidar "Quis custodiet ipsos custodes?" (peguei pesado), também é o oposto imediato aos estereótipos maniqueístas, tão comuns nesta indústria. A redenção definitivamente não está atrás daqueles portões. E isto é maravilhoso! Porque o mundo é assim, filho. Acostume-se ou morra. hahah

Ajuda o fato de que a Marvel (leia-se "Joe Quesada") tenha ignorado os freios nessa descida ao inferno. Não há sutilezas de qualquer tipo e nem os heróis mais famosos são poupados. Pelo contrário, são estes que protagonizam os momentos mais horripilantes da maxi-saga e que mergulham de nariz no lado mais negro de uma cabecinha doentia - no caso, do necro-roteirista Robert Kirkman (Invincible, The Walking Dead), Ph.Z em rigor-mortis na 9ª Arte.

Acompanhado da revelação Sean Phillips - um ás do traço-trash - a química fica tão irresistível quanto pútrida. E não escrevo isto à toa. Em que outro lugar você acharia graça numa cena em que uma mãe indefesa e seu filhinho são devorados impiedosamente por um supercanibal em decomposição?

É, eu sei... soa terrível, mas foi muito engraçado. Ah, foi. Por isto, nada de avaliações psicológicas aqui no BZ...


Não é surpresa que o conceito de Marvel Zombies tenha sido criado por Mark Millar, visto que o escocês fanfarrão vive sapecando referências pop em tudo que roteiriza. Então, nada mais natural que uma justa homenagem às simpáticas criaturinhas sem vida, aproveitando que os ventos do comércio sopravam a favor de epidemias e carnificinas pós-apocalípticas.

Também não duvido que o resultado tenha saído muito melhor que a encomenda: de um arco na revista Ultimate Fantastic Four, eles ganharam uma mini própria, um crossover, um especial, duas continuações e um universo inteirinho só pra eles. Sim, os Marvel Zombies pertencem à Terra-2149, já quase totalmente deglutida a esta altura (arrout!).

Pensando melhor, esta é uma honraria meio dúbia, já que a Marvel registra praticamente 1 universo por página impressa. Mas que se dane, é melhor do que ficar sem.

O que mais surpreende (até a mim, incansável paladino da podreira B) é que todo o material lançado até o momento sedimenta uma mitologia interessantíssima. Juro por George A. Romero. É uma odisséia completa, que atravessa gerações e cujo enredo tem comédia, suspense, drama e até romance, além de grandes revelações. Não seria exagero afirmar que estamos diante do Star Wars dos mortos-vivos. Ou seria? Maldita cafeína.

Alright, pussy lovers... retrospectiva-zombie na seqüência.



MARVEL ZOMBIES vs ARMY OF DARKNESS


A ótima primeira impressão do review anterior manteve-se nas quatro edições seguintes. Todo quadrinheiro veterano sabe que crossover entre editoras vale menos que um copo de cachaça, mas esta é uma das raras exceções à regra. As saídas inusitadas e os diálogos corrosivos do roteiro de John Layman (ex-editor da Wildstorm) seguram a diversão do início ao fim. O cara realmente manja dos elementos envolvidos. Conhece os três Evil Dead de cabo a rabo e, mais importante, sabe como despachar as referências pra cima dos psicopáticos Marvel Zombies.

Praticamente tudo o que poderia ser feito com Ash ali no meio da bagunça foi feito. Ash até morre lá pelas tantas (o que foi até irônico, já que ele também precisou morrer em sua revista solo para estar aqui)... e acredite, isto não é spoiler. Segundo o próprio Layman, na época: “Posso te dizer que Ash morre (...) Sem sacanagem. E não, ele não volta como um Deadite. Ou como um zumbi. Que tal isto como cliffhanger?”

E ele não estava brincando. A solução foi tão esperta quanto malandramente simples. Quem curte os filmes de Sam Raimi da boa safra vai decepar a mão com uma motosserra, de tanta alegria.


Ash, impressionado
com a situação
A narrativa é fluída e ágil, desenvolvendo a trama num arco fechado (o quanto pode ser) e inserindo novas infos ao contexto dos zumbis marvetes. Conhecemos um pouco mais sobre a origem da pandemia e temos a confirmação de quem foi o hospedeiro original, já que Ultimate Fantastic Four #22 foi pouco claro nisso.

Uma ótima sacada: a infecção de Pietro (alguém ainda o chama de Mercúrio?) foi o momento-chave do caos, neutralizando o tempo de resposta e imprimindo uma velocidade exorbitante ao processo de contaminação mundial. Imagina se ele fosse o Flash.

As escorregadas até que foram tímidas aqui. As mais evidentes ficaram por conta da aparição do supergrupo Nova Onda, bem ao seu estilo nada discreto, detonando um Quarteto Futuro zumbificado (hooray!). O que seria meio difícil, já que no arco inicial de Millar, a líder da equipe, Monica Rambeau (Capitã Marvel), já estava infectada e ainda usava seu velho uniforme de vingadora. O mesmo vale para a voluptuosa mutante Cristal, aqui servindo de sidekick para Ash.

São relativamente poucos furos, considerando a zona estrutural que sempre foi Marvel Zombies. Além do quê, os diálogos ferinos do "herói" com o famigerado Necronomicon compensam qualquer pisada no tomate - e o que Ash apronta com o arcano livro dos mortos no final da saga é de baixíssimo nível até pra ele. Aquilo foi muita, mas muita sacanagem.


O traço do brazuca Fabiano Neves foi uma grata surpresa, especialmente nas curvas generosas das heroínas. Todas turbinadas e supercachorras. Naqueles trajes sumários então, viraram praticamente musas do funk ("As Gostosas do Cosplay"... devem ter até flog). Na reta final, Neves divide a Faber-Castell com o espanhol Fernando Blanco (Thunderbolts) e Sean Phillips. Uma festa só.

A mini começa a ser publicada aqui neste mês, na revista Marvel MAX. Anota aí - Zumbis Marvel: Uma Noite Alucinante é imperdível.



MARVEL ZOMBIES: DEAD DAYS


Ah, Dead Days... este aqui é O Encouraçado Potemkin dos Marvel Zombies. Nem Atomika invocou conceitos tão marxistas quanto o sectarismo dente-a-dente aqui presente. É uma classe literalmente devorando a outra em busca do status-quo. Dead Days é one-shot e funciona com um semi-prequel: a intenção é documentar, direto das trincheiras, os últimos esforços dos heróis remanescentes, comandados por Nick Fury num porta-aviões aéreo com um plano pra lá de suicida. E também mostra como os principais personagens da Marvel se saem no "Dia D(ead)". É curioso como cada um assimila a inevitabilidade do evento, tão acostumados que estão a sempre encontrar uma saída pela esquerda.

Ao contrário do Cap,
o Cel não morre tão fácil
Alguns reagem de maneira surpreendente ao ver a casa caindo - o que pode até ser creditado, em parte, às particularidades daquela realidade alternativa - mas sem jamais corromper o perfil psicológico de suas versões do universo tradicional. O Coronel América é, rigorosamente, o Capitão com divisas a mais. Os X-Men, Tony Stark, Nick Fury e o Aranha também continuam os mesmos - este último rendeu a já antológica seqüência de abertura, com participações especialíssimas e mal-passadas de Mary Jane e Tia May.

Thor está mais impulsivo e guerreiro; Hank Pym se transformou naquele líder canalha e cruel que surpreendeu todo mundo em Marvel Zombies (o pobre T'Challa soube disso em 1ª mão); Já o Quarteto está praticamente intacto. Praticamente.

Depois de Pym, Reed Richards foi quem sofreu a maior mudança de caráter. É ele quem dá o golpe final nos esforços dos heróis e nas esperanças da humanidade (e, por conseqüência, do Cosmo). E sem estar infectado! O que aconteceu com Reed também pode ser encarado como uma forma de loucura pós-traumática, Hal Jordan's style, embora isto não esteja exatamente inserido nas entrelinhas. É só uma opinião minha... :)


Especial do dia: sushi de Jarvis

O roteiro reserva um momento-surpresa logo nas primeiras páginas: o verdadeiro responsável pela disseminação da epidemia naquele mundo (e com qual torpe objetivo). Nesse ponto, um detalhe me chamou atenção. O portador inicial da praga zumbi é de origem interdimensional, o que sugere a existência de outro universo alternativo com super-heróis zumbificados - e provavelmente já devastado, desmembrado, mastigado e digerido.

Robert Kirkman & Sean Phillips mais uma vez comandam a diversão com requintes de crueldade encharcada de humor negro - ainda que desta vez tenha sido mais pra um daqueles lanchinhos no meio da noite no modo stealth. Acaba muito rápido. Quando menos percebi, já estava lambendo os dedos e procurando por mais. Tal qual um Zombie.

O entrevero é concluído de forma mais intigante ainda. Tá lá o "The beginning" no finalzinho que não me deixa mentir.



BLACK PANTHER #27-30


Este arco da revista solo do Pantera Negra é uma espécie de prólogo para a seqüência de Marvel Zombies. No final da mini, vimos nossos putrefactos heróis rangarem ninguém menos que o devorador de mundos Galactus e, detendo o Poder Cósmico, partindo para os confins da galáxia em busca de mais paramédic... eh, suprimentos. Pela primeira vez é revelado o que aconteceu com os infames Marvel Zombies Galacti. Até que enfim! Antes mesmo de uma continuação, a Marvel explorou ao máximo as possibilidades da "franquia"... mortos-muito-vivos com uma insaciável fome de US$, e até R$! Felizmente, para uma entressafra, o saldo foi positivo e aqui não foi diferente, reservadas as características de uma típica participação especial, claro.

O Pantera, sua esposa Tempestade, o Coisa e o Tocha Humana formam o Quarteto Fantástico provisório e estão às voltas com um artefato místico (um "Sapo Dourado do Rei Salomão"!). Ao tentar repelir um insetão da Zona Negativa que invadiu o Edifício Baxter, eles acidentalmente vão parar no universo dos Zombies. Mais especificamente, num planeta Skrull que está na iminência de ser abocanhado pelas esfomeadas criaturas.

De um lado, estão o Quarteto e os militares Skrull, petrificados com o que vêem. Do outro, os Marvel Zombies, agora super-hiper-poderosos e contando com... Luke Cage!


Por incrível que pareça, é do ex-herói de aluguel os maiores rompantes de raciocínio lógico aqui, o que rapidamente lhe confere o status de líder temporário da matilha. Ao ver os integrantes do novo Quarteto ainda vivos (literalmente), sem pestanejar, Cage usa a coerência e deduz que eles vieram de outra realidade e que têm acesso a algum dispositivo de transporte interdimensional. Exatamente do que os Zombies precisam, já fartos de contra-filé alienígena.

Essa linha de diálogos do Cage smart-ass é impagável. E uma clara auto-crítica do roteiro de Reginald Hudlin, visto que a "saga" envolvendo o tal Sapão Dourado tem a regularidade de um Bill & Ted - e furos confessos idem.

Mas é a matança que importa! E os Zombies promovem uma skrullficina generalizada, com montanhas de restos mortais verdes decorando a metrópole alien, Super-Skrulls infectados, juntamente com o besourão da Zona Negativa, já sem uma das placas toráxicas e com as tripas dependuradas... bluoouurg, é de embrulhar o estômago. E as cenas com os zumbis se refestelando na população civil Skrull são tão doentias (pero hilárias) que até fiquei com pena dos coitados.

Mas uma coisa eu tenho de admitir... não sei se foi a arte eficiente de Francis Portela, mas a carne Skrull parecia mesmo saborosa. Uma iguaria! E segundo Stark@Zombie, fica ainda mais gostosa grelhadinha no raio cósmico.


O cross do Pantera com os Zombies está sendo publicado aqui na revista Marvel Action. Um breve petisco antes do banquete principal...



MARVEL ZOMBIES 2


Complicado comentar Marvel Zombies 2 sem revelar algum spoiler classe 100 (e até alguns de classe "desconhecida"!). Tão arriscado quanto atravessar um cemitério em meio a um levante zumbi. Isto porque nesta mini começa um novo estágio da saga e a partir daqui as coisas mudam bastante - até mesmo a insana fome dos Zombies. Robert Kirkman retorna ao front renovando os objetivos de cada casta ("casta" mesmo... já que ninguém aqui toma partido individualista, me convencendo mais ainda que Marvel Zombies é panfleto marxista deslavado, ainda que involuntário - se é que isto é possível) e a maneira como estas interagem/batem de frente.

Em outros termos, Marvel Zombies 2 traz mais roteiro numa só página do que em tudo o que foi lançado até agora. Literalmente, cada naco de carne arrancado aqui tem um fundo de causa.

A história começa 40 anos após os Marvel Zombies deixarem o planeta. Durante sua jornada até onde o Universo faz a curva, eles acrescentaram novos integrantes à horda desmorta: Thanos, o titã, a mutante Fênix, o Gladiador da Guarda Imperial de Shi'ar, e o Senhor do Fogo, ex-arauto de Galactus, agora sem mandíbula. Aparentemente, eles consumiram toda a fauna extra-terrestre. Enlouquecidos pela Fome, os Zombies resolvem retornar à Terra para reconstruir o portal interdimensional que Magneto destruiu e assim continuar a farra em outro universo.

Na longa estrada de volta pra casa, uma paradinha pro lanche... Big X-Planet triplo com fritas - cá pra nós, nunca fui com os córneos deste aí e sempre achei que merecia um fim apropriado com esse!


Na Terra, os sobreviventes do holocausto canibal ainda tentam modestamente reestabelecer o modelo de civilização em Nova Wakanda, cidade construída ao redor do Asteróide M, agora em terra firme. Numa estrutura semi-tribal, humanos e mutantes estão entrando na 2ª geração pós-apocalipse. O velho Pantera Negra é o governante. Ao lado dos ex-Alcólitos originais (sua esposa Lisa Hendricks, Forge e Reynolds) e da Vespa (ou da cabeça dela), ele tem de lidar com a oposição radical do filho de Fabian Cortez, Malcolm. Suas idéias de supremacia genética arrebanham cada vez mais seguidores e culminam numa desastrosa tentativa de assassinato. Desastrosa mesmo, com um clímax de arrepiar.

Enquanto isso, os Marvel Zombies, violentamente famintos, estão a caminho. E o Aranha é o primeiro a perceber uma nuance da Fome até então despercebida pelo bando.

Desta vez, Kirkman não teve tanta moleza. Marvel Zombies e Dead Days eram deliciosamente desregrados. Ele tinha um mundo um Universo inteiro à disposição pra ser chacinado à revelia, com carta branca para atropelar sem dó o apelo PG-13 das preciosas marcas em jogo. Garth Ennis, que trucida super-heróis no café da manhã, deve ter se mordido de inveja. Achei a mini consideravelmente melhor que a primeira, mas imagino que o tom adotado aqui, bem menos gratuito, irá desagradar muitos - como desagradou em fóruns estrangeiros.

A narrativa está mais complexa, com subtramas que, num primeiro momento, se desenvolvem à parte da praga zumbi - mas se utilizando sabiamente do espectro de sua existência. Guerra Fria por definição. Também há várias cenas envolvendo "objetos de estudo Zombie", cheias de laboratórios e análises (fãs de Day of the Dead vão delirar), principalmente após a descoberta da cabeça balbuciante do Gavião Arqueiro em meio às ruínas, 40 anos depois (!).

Sean Phillips, com seu traço inconfundível (o bom inconfundível), chega a surpreender nas paisagens urbanas tomadas pela vegetação, lembrando os belos cenários do recente Eu Sou A Lenda. Nota-se também um carinho especial do artista em relação à carismática Vespa, conferindo-lhe uma postura sempre cool e um corpinho cibernético de inusitado sex-appeal...

Que foi...? Vai dizer que não acha essa cabeça feminina incrivelmente sexy? E essas curvas metalizadas instigantes e sensuais?


Adorável.

Bom, não sou necrófilo (assim creio), mas não é a primeira vez que acho uma morta-viva atraente. E também não estou sozinho na questão das andróides e fembots como profissionais da cama. Tudo bem que, no caso, são as duas coisas juntas, o que aumenta a bizarrice, mas garanto que isso também pode render momentos autênticos de puro e inocente romantismo.

Fora que é sempre bom ter uma dessas ao seu lado durante um apocalipse zumbi!


Anunciada para outubro, Marvel Zombies 3 será uma mini em quatro partes, fechando assim uma trilogia, até aqui, bastante rentável para a Casa das Idéias. Lado ruim: sai a dupla Kirkman/Phillips. O roteiro agora é por conta de Fred Van Lente (Incredible Hercules) e os desenhos serão de Kev Walker (Annihilation: Nova). Será o primeiro encontro dos anárquicos Marvel Zombies com os super-heróis do Universo 616, o "oficial".

Há certas peculiaridades quanto à cronologia: a história começa antes de Secret Invasion. No Zombieverso, onde será a maior parte da trama, os eventos ocorrerão cinco anos após os monstros deixarem o planeta, pouco antes do Pantera Negra e os Alcólitos arriscarem seu primeiro reconhecimento terrestre. Os heróis 616 envolvidos serão do 2º escalão, possivelmente integrantes de alguma das dezenas de equipes da Iniciativa. O Homem-Coisa e os elementos místicos que o cercam terão um papel importante no enredo.

Recentemente, foi divulgada a arte-final da capa de estréia, ilustrada por Greg Land.


Homem-Máquina e Jocasta? Essa não. Clique pra aumentar

Em entrevista ao CBR, Van Lente se mostrou bastante empolgado com o resultado, mas a tônica das perguntas foi um tanto condescendente. O que não aconteceu na conversa com o Newsarama, bastante franca e com uma entrevistadora cheia do veneno (Vaneta Rogers). O papo é bem divertido e spoilerento, com o roteirista soltando algumas revelações promissoras e outras meio decepcionantes. É a vida. Ou a morte, sei lá.

Em janeiro último, um boato interessante foi abordado pelo Shock Till You Drop: uma animação direct-to-DVD dos Marvel Zombies chegou a ser discutida na Casa das Idéias. Como pouco se comentou sobre isso desde então, é provável que o projeto tenha sido engavetado. De fato, seria uma incursão com novos parâmetros mercadológicos a serem estudados, especialmente num terreno ainda mal-explorado pela Marvel.

Mas é sempre bom lembrar não foram previsões de retorno modesto que fizeram Mike Mignola desistir de pequenos e ótimos projetos - ao contrário das (des)animações dos Supremos, que seguiram a cartilha do PG-13 e mesmo assim tiveram um desempenho medíocre. Seria um bom momento para repensar a estratégia.

Pra finalizar, uma oportuna reprise de um hit que ilustra bem o quanto isso poderia render.


Marvel Zombies Assembled!


Na trilha: o primeirão do Danzig. Rock and roll de boa safra!

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

ULTIMATE CHICKEN LITTLE


Os Supremos 2 (Ultimate Avengers 2: Rise of the Panther, 2006) é uma boa oportunidade para testemunhar as misteriosas forças da Lei de Murphy em ação. Assim que terminei de assistir, deu vontade de arquivar o DVD numa pasta de evidências e aguardar pelas edições dos Supremos na versão de Jeph Loeb e Joe Madureira. Impressionante como tudo anda conspirando contra, de uns tempos pra cá. É o verdadeiro Pesadelo Supremo. Vou ficar fazendo gênero não: esta segunda adaptação animada dos Vingadores Ultimate é fraquinha com gosto de gás. Pior que cerveja miada. Mas justiça seja feita, não foi propaganda enganosa. Os previews e teasers divulgados continham algumas cenas pseudo-violentinhas, mas no geral não transmitiam a ação vertiginosa e produção bem-sacada que se espera de um calhamaço assumidamente pop como esse. Isto aqui tinha de ser um desenho blockbuster dirigido Michael Bay, oras. Podiam até reaproveitar a malaquice imperialista de Bad Boys 2, Armageddon, etc.

O primeiro longa já era bastante convencional na estrutura, mas adotou as matrizes da HQ com uma fidelidade animadora. Por simpatia a isto, descontei a burocracia da narrativa e fiquei até esperançoso quando soube que a continuação estava sendo produzida logo na seqüência. "Talvez dêem um passo adiante, desenvolvendo as boas qualidades desta 1ª adaptação, aproximando o conceito da geopolítica hardcore dos quadrinhos e assimilando um pouco do senso de humor doentio do texto original. Nada muito radical, claro... não queremos traumatizar os molequinhos que acabaram de comprar a lancheira do Capitão Ultimate", pensei demoradamente eu, como se pertencesse ao staff de Os Supremos 2.

No fim, acabei me sentindo como o Rambo, quando foi abandonado pelo helicóptero de resgate em pleno território inimigo. Nada mais apropriado, aliás. Por vários momentos, Os Supremos 2 lembra a série animada do Campeão da Liberdade. Holy cow.


Adaptado por três, dirigido por dois e supervisionado por um, o desenho tem até uma boa seqüência de ação isolada com o Cap enfrentando alguns soldados da Hydra (cuja participação pára por aí mesmo). A maior parte da história se passa em Wakanda, reino africano ultra-avançado, rico em vibranium e governado por T'Challa, mais conhecido como Pantera Negra. Wakanda está sofrendo sistemáticos ataques dos alienígenas Chitauri remanescentes do primeiro desenho, o que leva o Pantera a solicitar ajuda a SHIELD e, por extensão, dos Supremos. O interessante é que nos quadrinhos não existe uma versão ultimate do Pantera Negra e devido ao forte tom político do personagem, em tese, até seria uma boa idéia sua introdução neste universo. Mas conseguiram a proesa de estragar tudo.

Não só descaracterizaram completamente o herói ("pedir ajuda a SHIELD"... bah!) como também o reino de Wakanda, supostamente dona de uma tecnologia de anos à frente do resto do mundo. Visualmente, Wakanda parece uma civilização asteca cheia de máquinas terceirizadas extraindo o raríssimo vibranium. Uma reserva indígena cujos recursos naturais estão sendo saqueados por alguma gigante corporativa. Lembra tudo isso e não faz a mínima questão de parecer o contrário. Justamente o oposto do que o personagem e sua simbologia atual significam.

Só pra ficar na parte dos quadrinhos, o Pantera aqui tem poderes místicos ancestrais e pode se transformar em um "panteromem" - uma transposição direta do Coal Tiger (o príncipe T'Chaka II, filho de T'Challa no universo A-Next). Como se o herói original não fosse suficientemente atrativo. Ou, mais provável, como se não houvesse talento suficiente à mão para mexer com um personagem tão complexo.


O resto do super-time mantém o ar de tosqueira enlatada feitas às pressas. Os heróis são robóticos, desinteressantes, chatos e sem química alguma. Por Zeus, até aqueles guris enjoados do Capitão Planeta tinham química. A campeã disparada é a Viúva Negra. Se no primeiro desenho a atriz Olivia d'Abo nos presenteou com o sotaque mais canastrão da História Contemporânea, aqui ela eleva seu russíngrish a novos patamares. Impressionante. Já o Thor fanfarrão de outrora (quase um Hércules animado) perdeu toda aquela falastronice e senso de humor. Não satisfeitos em terem o transformado num bucha de primeira linha, ainda colocaram o cara pra jogar runas em Stonehenge como se fosse um pai-de-santo jogando búzios no Pelourinho.

Pra não dizer que ninguém se salva, os belos atributos da Jan Vespa Pym a deixaram com o pé mais na América Latina que na Ásia. E Tony Homem de Ferro Stark é de longe o mais carismático e faz a festa com brinquedinhos de última geração e armaduras de várias fases (o Máquina de Guerra em ação é muito bacana). Parece ser o único desenho com alma por lá.

O roteiro é de lascar. Bruce Hulk Banner é desperdiçado até a última célula gama e Herr Kleiser é outra vez o vilão. Avemaria. Naves aliens com design de insetos, um campo de energia cobrindo o planeta (Manual da Invasão Alien, capítulo 5), Kleiser se transformando num monstrengo gigante na seqüência final (capítulo 3), enormes pods atacando os grandes centros (prefácio)... Qualquer episódio de Defensores da Terra dá de 10 nesta clicherama empilhada. Nem a morte de um dos mocinhos causa impacto após 73 minutos de letargia criativa.

No geral, bocejei tanto que quase desloquei a mandíbula. A vida é assim mesmo. Uns escrevem um texto sensacional sobre uma animação maravilhosa, outros se sujeitam a roubadas como Os Supremos 2.

Mas fora o alívio dos créditos finais (em todos os sentidos), existe alguma razão para conferir este disco? Ooh, temo que sim, caro padawan...


Não perca tempo e vá direto aos extras, na parte "Quem são os Supremos?" Lá, o escritor Mark Millar e o artista Bryan Hitch dão uma geral no processo criativo dos volumes 1 e 2 dos Supremos. Quem considera os Vingadores Ultimate o melhor quadrinho desta década, eu diria que é, bem... não consigo me decidir entre "obrigatório" e "imperdível"... E quem apenas curte quadrinhos em geral, a importância disto aqui é praticamente a mesma - os comentários do editor-chefe da Marvel, Joe Quesada (maior jeitão de fanboy metido e que não empresta revista), as frases sempre políticas do editor Ralph Macchio (realmente não é o Daniel-san) e do producer Avi Arad tornam o semi-documentário um Roda Viva de quadrinhólogos numa troca de idéias e impressões que não se vê todo dia. Não neste nível tão avançado. É só fera.

Claro que é um deleite ouvir Millar e Hitch destrinchando cada personagem, cada inspiração, motivação e conhecimento de causa, com uma montagem entrecortando os melhores momentos da revista. No entanto, o momento principal e o que fez valer-valer-valer a assistida, não poderia ser outro. Nas palavras de Millar:


"Há uma cena no Volume 1 na qual o Capitão América, que tem um grande "A" de América na testa, está batendo num vilão no final, antes da explosão final,
e o vilão pergunta a ele: 'Quer se render, Capitão?' (...)"


...e aí o roteirista segue tentando analisar toda a polêmica com uma cara-de-pau invejável (e piorando tudo, pois seu cinismo é mais palpável que muro chapiscado), Macchio botando panos quentes e Quesada grunhindo uma interessante variação de "shit happens". Mas o comentário mais impagável fica por conta de Hitch...

É... o Capitão Ultimate jamais será o mesmo.


Na trilha: Dawnrazor, Fields Of The Nephilim.

segunda-feira, 24 de julho de 2006

A GUERRA DE MARK


Isto está começando a se tornar uma espécie de afirmação do óbvio e, ainda assim, de forma repetida. Tentarei fazer um pouco diferente desta vez: Se houvesse Mark Millar's facts, um deles seria: "Chuck Norris é o Cara!!! Mas o Cara é Mark Millar". Tá bom, eu sei, horrível, mas pelo menos foi diferente e mantém a idéia que queria passar. Mark Millar é o roteirista de quadrinhos mais competente em franca produção atualmente.

Sempre gostei muito de tudo o que ele escreveu, mas é inegável que fica muito mais à vontade em contextos que lhe permitam criar roteiros de repercussão global do que em ambientes menores, mais íntimos, campo que Bendis domina com facilidade e Ed Brubaker é discípulo destacado. Isto é facilmente percebido na diferença de qualidade de seus trabalhos em Superman: Red Son, The Authority e os dois arcos de Wolverine em comparação, por exemplo, com seu trabalho em Marvel Knights Spider-Man e Chosen. Em janeiro abusei dos elogios ao segundo volume de Ultimates e, neste meio ano que passou, foram divulgadas as linhas gerais de seu novo trabalho, algo grande e fenomenal que o próprio já vinha alardeando há algum tempo, uma saga que atingiria o Universo Marvel de ponta a ponta, com a participação mais maciça de personagens já vista: Civil War. Já vimos confete jogado por coisa parecida por aí e, falo por mim, já tinha me condicionado a associar que este tipo de alarde significava algum novo vilão overpowered ou um personagem já conhecido, mas numa virada igualmente overpowered e que ameaçava a todos. Algumas foram boas, outras nem tanto, mas certamente privilegiavam contextos grandiloqüentes, onde personagens populares, mas cuja importância é mais sentida nas coisas pequenas do dia a dia – Homem-Aranha e Demolidor, por exemplo – eram relegados a papéis coadjuvantes. Estas sagas eram claramente pontos fora de curva e invariavelmente apresentavam finais forçadíssimos, ou seja, eventos que, de tão grandiosos, saltavam absurdamente daquele contexto mais "pé no chão" da Marvel (até onde o termo permite, claro, já que falamos de quadrinhos de heróis). A maioria, apesar de ruidosa, apresentava nenhuma ou poucas conseqüências a médio prazo, sendo relegadas ao esquecimento na sua relevância para a cronologia atual. Massacre, por exemplo, de conseqüências atuais só tem uma: Bishop. Um personagem que perdeu o sentido de existir após a saga e hoje vaga perdido como uma assombração no mundo mutante.

Quem costuma vir aqui certamente está familiarizado com o que vem a ser Civil War, mas não custa apresentar o caso àqueles que não são tão afeitos aos quadrinhos. Parto para a sinopse oficial: Um reality show que mostra super-heróis de quinta categoria resulta em centenas de mortos quando um dos vilões explode a si mesmo. A opinião pública torna-se hostil aos vigilantes e o governo americano aprova uma lei de registro de todos os seres que detenham habilidades super-humanas. Com isto, a comunidade de heróis encontra-se dividida e uma guerra entre eles tem início, já que os que se recusarem a submissão ao registro e ao controle da SHIELD serão considerados foras-da-lei e, ato contínuo, caçados.


Premissa até simples, não? Então destaca-se dois dos maiores ícones do supergrupo mais categórico da editora e os colocam como líderes de seus "exércitos": Homem de Ferro de um lado e Capitão América do outro. E já aqui Millar mostra que é escritor acima da média. Se fosse feita uma enquete onde o plot da saga fosse apresentado para qualquer "comicófilo" (que termo horroroso) e perguntassem qual time estaria contra o registro e qual estaria a favor, creio que seriam unânimes em apontar a encarnação da retidão moral, do american way of life e da obediência cega ao governo como o cara que lideraria a equipe pró-registro. No entanto, mesmo que sua identidade seja pública, é o Capitão América quem ergue o primeiro punho contra a lei, ao passo que o novíssimo Tony Stark fascista pós-Extremis coloca o sistema em seu favor de forma covarde, indo na contramão do que parecia ser sua opinião até bem pouco tempo antes dos eventos em Stamford, onde ocorreu a explosão.

A saga é positivamente pretensiosa, apesar de se mostrar fantástica nos detalhes minimalistas. Além das ocorrências em diversas publicações normais mensais, contará ainda com as edições de Civil War, mais outras tantas criadas apenas para a saga (check-list aqui). É complicado acompanhar tudo, não tenho este tempo todo à disposição, mas pelo que já foi possível ver, Millar não estava brincando quando dizia que seria a saga mais abrangente já feita na Marvel. Vemos a participação de diversos personagens que eu já não via há mais de década (alguém lembra de Solo? "Enquanto eu viver, o terror morre!"). Sentimos como o cenário os afeta de uma forma bem mais clara. Por mais que as participações destes personagens obscuros sejam até breves, são bem mais relevantes para o contexto geral do que as participações já mencionadas do Demolidor em sagas passadas, só para citar um dos grandes personagens da editora.


O leitor mais atento percebe também que os motivos não nascem do nada. Os eventos que levaram a ela a tornam quase obrigatória, uma conseqüência natural do que vinha acontecendo em todas as revistas da Marvel. Algo planejado há anos, portanto, bem diferente daquele produto confuso e mal acabado que foi Infinite Crisis na editora rival. Para percebermos o nível do planejamento neste trabalho, precisamos de uma revisão de eventos ocorridos nos últimos dois anos. Tivemos nesta época Avengers Disassembled, que começou a arrumar a cama para o que tomou lugar hoje. Ali alguns heróis relevantes foram mortos por uma integrante com poderes descontrolados do grupo de moral mais ilibada da Casa de Idéias. A conseqüência natural foi uma equipe onde os integrantes tinham muito pouco a ver uns com os outros, mas que serviram a um, aliás... dois propósitos bem funcionais: por um lado colocou a revista dos Vingadores mês após mês no Top Ten de revistas mais vendidas dos EUA, por outro propiciou um meio para House of M. Esta última foi bem meia boca, mas seu principal legado para a cronologia foi a redução da população de centenas de milhares de mutantes em todo o globo a apenas 198 (Decimation), o que facilitou o trabalho do governo em controlá-los com Sentinelas tripulados em uma área de contenção. Era já o primeiro ato de controle de super-poderes.

Concomitantemente, ocorreu o especial em cinco edições Secret War, onde Nick Fury criou uma equipe para um serviço sujo na Latvéria que nos apontou os principais pré-requisitos de Civil War, começando pela destituição de Nick Fury do comando da SHIELD. Este especial apresentou também o investimento sistêmico e secreto que a SHIELD faria em uma divisão própria de meta-humanos, bem como a nova e insegura diretora: Maria Hill. Não bastando o fardo de substituir uma lenda, a nova diretora teve que lidar com o descontentamento declarado que o Presidente dos EUA manifestava a respeito da quantidade e atuação de super seres no planeta, bem como os efeitos deles na balança de poderes no mundo, reforçando como gostaria que eles sumissem.

No ano que se seguiu, fomos apresentados ao Illuminati. Um grupo formado por Tony Stark, Charles Xavier, Raio Negro, Stephen Strange, Namor e Reed Richards. Este grupo foi introduzido num retcon que o mostra como um comitê de representações de grupos de super-seres da Terra que, após a guerra Kree-Skrull, com objetivos comuns, trocariam informações e estariam mais presentes na "política" dos super-seres, para evitar desastres potenciais. O grupo, por influência da SHIELD e através do Homem de Ferro, decidiu recentemente que o Hulk tornou-se uma ameaça não mais aceitável, o que os levou a banirem-no para o espaço (Planet Hulk). Mais uma ação de "controle".


De tudo o que foi listado até agora, nada foi escrito por Millar. Na verdade, tudo, menos Planet Hulk, foi levado por Bendis, que, para mim, perde de Millar por um nariz o título de "O Cara". O próprio Millar dizia ano passado que planejava Civil War com Bendis, e o trabalho foi muito bem feito. Vendo tudo o que passou, as únicas pontas ainda soltas nas motivações do estouro de Civil War são, para mim, a postura apaixonada e incoerente de Reed pelo registro e o papel que Hulk terá quando retornar. Claro, porque ele retornará (o que, se realmente ocorrer, será uma recorrência do que vem acontecendo em Ultimates – tanto o v1 quanto o v2).

E o Homem de Ferro nunca foi tão presente. Bancou os New Avengers e participou de uma série de situações que colocaram Peter Parker numa condição de dever de honra para com ele, foi transformado num bichinho de estimação que seria a carta na manga que Stark pôde usar em Civil War #2, quando Peter mostrou sua identidade em público. Além disto, recentemente pagou o Homem de Titânio para atacá-lo em Washington e vem tendo encontros fechados com o presidente desde antes da aprovação do Ato de Registro.


Millar é corajoso também. A identidade secreta de Peter era uma das vacas sagradas dos quadrinhos, daquelas que todos brincaram, mas nunca conseguiram desvelar. Ele não só fez isto como reviveu um ícone. Há tempos o Capitão América é um dos personagens mais chatos dos quadrinhos. Na primeira oportunidade, Millar o renovou, tirou aquela pecha de herói, colocou um perfil de personagem que age na base d'os fins justificam os meios e o Capitão Ultimate é um dos personagens mais interessantes daquela revista. Já tinha feito trabalho semelhante nos dois arcos que escreveu para Wolverine recentemente e está reproduzindo seu toque de Midas com o Capitão América da cronologia normal, onde aquele cara que personificava a obediência cega à bandeira agora se permite ter os olhos injetados de ódio, ir contra o governo americano e até às últimas conseqüências pelo que acha certo. Voltou a ser um personagem interessante. Foi o destaque da primeira edição, só perdeu o destaque na segunda para a revelação de Peter e, na terceira, voltou ao foco, mesmo que seja por estar apanhando como cachorro vadio.

Algumas certezas já são possíveis de se ter como conseqüências de Civil War. Homem de Ferro e Capitão América não poderão mais coexistir na relação de poder de outrora, onde Stark financiava a liderança de Rogers. É claro também que os objetivos do Presidente para a comunidade de heróis são bem mais cinzentos do que podem sugerir, bem como a legitimidade do “acaso” na explosão de Stamford, que desencadeou o Ato. Há a certeza também de que até o fim da saga muita coisa virá, pois o racha na Família Fantástica ainda não foi explorado o suficiente, nem a participação dos mutantes no evento, o conflito interno e as conseqüências do posicionamento do Homem Aranha, o retorno de Thor, Magneto pós-Coletivo e, principalmente, a guerra batendo às portas da Atlântida de Namor ou aos Inumanos e Raio Negro.



A imagem de cima é de Wolverine #42 e a de baixo de
Civil War #1 - sensação de trabalho em equipe.

Paralelamente, Millar vem contando também com gente muito inspirada nas revistas que participam da saga, além de um claro trabalho de equipe, conforme a imagem acima demonstra. O normalmente irregular Paul Jenkins vem fazendo trabalho belíssimo em Civil War Front Line, onde o conflito é contado e vivido pela ótica de outros personagens, como repórteres e vítimas, dando uma inversão de visão interessantíssima que já vimos em Marvels e no recente Guerra dos Mundos, só para citar outra mídia, mas nunca de forma concomitante. Marc Guggenheim (de CSI: Miami) vem desempenhando um bom papel também nas páginas de Wolverine em companhia de um surpreendentemente maduro Humberto Ramos, que conseguiu evoluir seu trabalho de algo irreconhecível para o que já pode ser chamado de estilo. Straczynski e Roberto Aguirre-Sacasa também cumprem bem seu papel em Amazing Spider-Man e Sensational Spider-Man, respectivamente.

Civil War é uma das, senão a melhor coisa que aconteceu recentemente nas revistas tradicionais. Falo isto com segurança, é obrigatório. O final da terceira edição é de cair o queixo. Para não perder tempo gastando palavras sem necessidade, faço minhas as palavras do Demolidor:


Artigos relacionados --

Avengers Disassembled:
Artigo 2 - 28/01/2005
Artigo 1 - 16/11/2004

New Avengers:
Artigo 3 - 15/01/2006
Artigo 2 - 30/03/2005
Artigo 1 - 9/12/2004

Wolverine:
Artigo 1 (Enemy of the State) - 30/03/2005
Artigo 2 (Agent of SHIELD) - 05/05/2005

Ultimates v1:
Artigo 1 - 07/07/2004

Ultimates v2:
Artigo 1 - 14/04/2005
Artigo 2 - 16/01/2006

Ultimates Cartoon:
Artigo 1 - 02/03/2006

Superman - Red Son:
Artigo 1 - 10/07/2004

quinta-feira, 2 de março de 2006

THE LIGHTMATES


Dessa vez eles se mexem. Tudo bem que não é aquela movimentação hiper-realista com que eu vivo sonhando desde Akira, mas está longe de lembrar aqueles desenhos desanimados dos anos sessenta. Logo nos primeiros instantes de Ultimate Avengers: The Movie (2006), não fica difícil imaginar que esta não é uma adaptação lá muito fiel. Sem chance de comparecer toda aquela malaquice anti-republicana, anti-democrata, anti-globalização, anti-Mac Donalds, anti-Marvel, anti-DC, anti-Bono Vox e anti-atitude-de-ser-anti-alguma-coisa, que fez a fama dos Supremos de Mark Millar e Bryan Hitch (já sinto saudades). Nada de Capitão América apontando o dedo pra cara de algum infeliz e sentenciando "son... you're goin' down", Hank Pym cobrindo Janet de bolacha, muito menos do Hulk vociferando que tá morrendo de tesão e que vai catar Betty Ross a todo custo. Ficou só a estrutura antenada da concepção Ultimate. O inusitado era saber como os Supremos se sairiam jogando pelas regras do standard que tanto debocharam nos quadrinhos.

A direção ficou a cargo de Steven E. Gordon e Curt Geda, que é profissional do ramo. Ele tem no currículo bons episódios de X-Men: Evolution (sim, eles existem!) e do interessante Projeto Zeta, além do excelente Batman do Futuro: O Retorno do Coringa.

A adaptação tem início em 1945, mostrando a última e fatídica missão do Capitão América na 2ª Guerra. Durante a batalha, Cap descobre que os nazistas tiveram uma mãozinha da perversa raça alienígena Chitauri em seu suporte tecnológico. Daí em diante, a história clássica retoma o curso: ao impedir a trajetória de um míssil intercontinental nazista, Cap cai nas águas geladas do Atlântico Norte e vira picolé de bandeira americana até os dias atuais, quando é resgatado pela SHIELD em perfeito estado criogênico. Reincorporado ao esforço de guerra norte-americano, Steve Rogers (o Cap) passa a fazer parte de uma nova linha de defesa pós-humana, que conta com outros integrantes também com "talentos" fora do comum: Hank Pym (a.k.a. Gigante, um cara que cresce), sua esposa Janet (a Vespa, que encolhe, cria asas, solta buscapés e não paga peitinho na versão animada), Natalia Romanoff (a Viúva Negra, aqui chamada de Natalia mesmo, em vez de Natasha), a supervisora de pesquisas Betty Ross e o Dr. Bruce Banner (esse dispensa apresentações).


Entre os relutantes com postura de participação esporádica, estão o bilionário Tony Stark (o Homem de Ferro) e o filho de Odin e ativista de plantão Thor. Clint Barton (Gavião Arqueiro), Pietro e Wanda Maximoff (respectivamente Mercúrio e Feiticeira Escarlate) nem chegaram a ser citados.

Ainda em fase de testes e sob a batuta de Nick Fury, diretor da SHIELD, o supertime encara a missão de escorraçar a ameaça alienígena de uma vez por todas, enquanto tenta lidar com a instabilidade emocional de Banner e de seu alter-ego indócil.

Apesar de ser ligeiramente acima da média, Ultimate Avengers deixa claro que uma animação com boa qualidade técnica não passa de um preciosismo dispensável para a indústria americana. É tudo tão padronizado, tão pré-moldado, que eu acho até que deve existir algum plug-in pra Photoshop que reproduz aqueles cenários fielmente. A fisionomia dos personagens segue o tal standard e remetem a qualquer sessão animê matinal de sábado. O que é um grande desperdício, se pensarmos que tudo foi baseado no conceito original criado por Bryan Hitch, um dos melhores desenhistas de quadrinhos da atualidade. Sem contar que isso revela uma absurda falta de timing e criatividade para criar muito com poucos recursos.

Digamos que cada frame adicional incrementaria sobremaneira uma animação, mas custaria os olhos da cara para os produtores. Sem problemas. Gente inspirada e inovadora como Genndy Tartakovsky (Samurai Jack, Star Wars - Clone Wars), Bruce Timm (Batman, Justice League Unlimited) e os artesãos shaolin da cultura anime, estão acostumados a tirar água de pedra, trabalhando e até utilizando longos quadros estáticos ao seu favor (retratando, p.ex., um momento de suspense). Até mesmo a relação estreita com a sétima arte já rendeu momentos memoráveis, como a despirocante série The Maxx, criada pelo insano Sam Kieth como se fosse uma transposição literal, mantendo o mesmo traço estiloso que fez a sua fama nas HQs.

No caso, sobraram apenas algumas cenas inspiradas no original, como essas aqui - pra quem acompanhou as histórias, fica quase irresistível a releitura das revistas.

Claro que pensar em Hitch como o ilustrador da adaptação é querer demais (se já é difícil ele manter a regularidade nas HQs...). Mas nos créditos finais, com uma seqüência de seus desenhos para a revista, transparece que esta talvez tenha sido uma possibilidade cogitada. No entanto, voltamos à questão do orçamento à toque de caixa, do lançamento em esquema direct-to-dvd (inequívoco sinal de estratégia mercadológica) e do "risco-Ultimate", que pesa o custo-benefício de se levar ao alcance das crianças um produto mais sofisticado que o bê-a-bá Stan Leeano (sem ofensas, mestre!).


Ultimate Avengers não reedita o tsunami anárquico das HQs e se o fizesse seria a animação mais revolucionária dos últimos dez ou quinze anos. Calma, fãs de A Viagem de Chihiro, Cowboy Bebop, Metropolis e Steamboy, já explico. Imagine essas HQs como um veículo pop, já que são produzidas por uma major editorial como a Marvel Comics ("não exatamente um bastião anti-capitalista"). O conteúdo polêmico que Mark Millar criou para os Supremos, apesar de se ater mais à geopolítica internacional, também critica furiosamente o próprio sistema do qual a editora faz parte. Isso pra não falar da veia "Nelson Rodrigues" existente na HQ - por si só, impublicável. Toda essa pólvora temática disseminada em um veículo ainda mais pop e sendo vendida aos lotes em gigantescas megastores, seria como a mordida final que o sistema daria no próprio rabo. Uma justiça poética que arrancaria um sorriso maquiavélico de Millar.

Teorias de conspiração à parte, Ultimate Avengers até que se sai bem como aventura descompromissada PG-13.

Apesar de exageradamente curto (72 min.), o desenho sintetiza de forma eficiente as tretas nazi-alien-Hulkísticas que a equipe enfrentou em seu 1º volume nos quadrinhos. Alguns designs foram até melhorados, como os porta-aviões aéreos, os aliens e as naves chitauri (que deixaram de ser arremedos de ID-4). Após uma lerdeza inicial, a ação fica mais solta, dinâmica, e finalmente se vê a influência de todos aqueles nomes nipônicos enfeitando os créditos finais. Um bom exemplo é a segunda vez que o Cap atira seu escudo em um alvo múltiplo (gesto tão tradicional quanto o Clark voando com o braço esticado na frente ou o Parker lançando teias). Bem melhor que da primeira vez. Outras nuances foram perfeitamente traduzidas, como a tragédia pessoal/temporal do Cap (que, estranhamente, não contou com a simbólica olhadinha na bandeira do original. Eu, que nem sou americano, achei um vacilo - mas acho que é só meu lado Michael Bay falando).

Hank Pym não faz Janet de sparring, mas a tensão doméstica existe e nota-se claramente que o cara não vale um copo de cachaça. A Viúva Negra, por outro lado, ficou tão gostosa quanto artificial, tendo como maior atrativo o sotaque russo canastrão. Já Nick Fury continua linha-dura e controlador - e é compreensível que ele não tenha herdado o famoso visual L. Jackson, mas bem que poderiam ter chamado o ator pra fazer a dublagem. Seria perfeito e ele já disse até que é fã dos quadrinhos. Tony Stark, do alto de sua playboyzice no jet set internacional, ficou bastante carismático. Pena que ele aparece muito pouco sendo Stark. E por falar em aparecer pouco, Thor consegue dar o recado apesar da participação reduzida e protagoniza a cena mais engraçada do filme ao recusar a oferta de Fury. Aquilo lá ficou muito melhor que na HQ...


O momento mais esperado, claro, é o inevitável confronto contra o Hulk. Não decepciona. O Golias Verde (aqui, Golias Eucalipto) arrasa naves chitauri, nocauteia o Gigante duas vezes, esfrega o chão com a cara do Cap, destroça o Homem de Ferro e até faz o Thor sentir o gostinho de levar com o Mjolnir na cara. Exagero bacana!

Talvez o maior defeito de Ultimate Avengers seja a falta de um target mais preciso. O principal vilão da HQ, o impiedoso Ming... digo, Herr Kleiser (um alien travestido de milico nazi), só aparece no comecinho e dali por diante figuram apenas aliens operários e anônimos. Fica uma certa ausência de clímax. Isso sem contar nas cenas em que a Viúva dá em cima do Cap. Muito forçado, e pra quem está acompanhando as últimas edições americanas da HQ soa mais absurdo ainda.

Dá pra afirmar que essa é a melhor adaptação animada de personagens da Marvel. É um passo à frente no que tem sido feito até então. E a conclusão indica que algo interessante pode rolar mais pra frente. Mas a sensação que fica é que poderia ter sido muito melhor - principalmente após o alto nível estabelecido pelas animações da Divina Concorrente.


Na trilha: CD I, do classudo Nightingale. Sabe, revendo os últimos posts... acho que vou mudar o nome do blog pra Zombie Ultimate.