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quarta-feira, 11 de outubro de 2023

O último “Bwah ha ha ha ha”


Keith Ian Giffen
(1952 - 2023)

A esta altura já devia estar acostumado, mas a passagem do Keith Giffen deu uma ferroada daquelas no coração. Sei, ninguém nasce com garantia estendida, mas é muito tempo acompanhando o que esse senhor tem criado, escrito e desenhado. Tudo dele parecia valer a pena. E valia mesmo. Até a Ametista. Até os gibis do He-Man que ele roteirizou. Por Kirby, até aquele Thorion of the New Asgods, um dos poucos one-shots divertidos da infame série Amálgama.

Fora que uma figura anárquica como o Lobo só poderia ter saído da mente do Giffen.

Nem adianta desfiar uma tese quilométrica (como se capaz fosse) sobre as camadas da Liga da Justiça-Liguinha, dele com seu irmão artístico-espiritual J.M. DeMatteis e do Kevin Maguire. Ou da Legião dos Super-Heróis no período Five Years Later, um épico a ser (re)descoberto. O bojo de seu trabalho, não apenas na DC, trouxe conteúdo, tridimensionalidade e profundidade para ser apreciado, revisitado e reavaliado ainda por décadas.

Aliás, adoro Aniquilação. E isso não é só respeito à memória do Gifted Giffen.

Esse cara vai fazer falta.


Espirituoso até depois do final.

Thank you for everything, Giffen!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Supergirl (e a Legião dos Super-Heróis)


Legião dos Super-Heróis (Legion of Super-Heroes, 2023) é o 6º longa da atual fase de produções da Warner Bros. Animation, iniciada com Superman: O Homem do Amanhã (Superman: Man of Tomorrow, 2020) e seguida por Sociedade da Justiça: 2ª Guerra Mundial (Justice Society: World War II, 2021), Batman: O Longo Dia das Bruxas, Parte Um e Parte Dois (Batman: The Long Halloween, Part One/Part Two, 2021) e Lanterna Verde: Cuidado com Meu Poder (Green Lantern: Beware My Power, 2022). A fase, apelidada de Tomorrowverse, mantém certa continuidade e estabelece uma nova estética para as animações da DC: visual clean, linhas mais arrendondadas, contornos com maior espessura (por vezes, bem maior) e uma transposição mais evidente de perspectivas dos quadrinhos.

A história começa com Kara Zor-El ainda em Krypton e sendo enviada à Terra para se tornar a Supergirl. Além das dificuldades de adaptação, Kara sofre com o trauma da perda de sua mãe e de seu planeta natal. Para ajudá-la na transição, Superman a leva até o século 31, onde é recrutada pela Legião dos Super-Heróis. Logo ela se vê às voltas com o também candidato a legionário Brainiac 5, suspeitíssimo neto-clone do clássico vilão do século 21, e com uma conspiração envolvendo um obscuro grupo terrorista chamado Dark Circle. Tudo isso é apresentado numa tacada bem superficial, de quase sinopse.

No filme há pouco sobre a própria Legião e sua história. Se o título fosse Supergirl e a Legião dos Super-Heróis ou apenas Supergirl seria bem mais honesto. A trama é basicamente sobre ela, mesmo que boa parte — incluindo os conflitos psicológicos/emocionais da personagem — já tenha sido abordada no longa animado Superman/Batman: Apocalypse, de 2010. Então quem esperava uma adaptação de A Saga das Trevas Eternas ou A Legião dos 3 Mundos, pode tirar Cometa, o Supercavalinho, da chuva.

E nem arrisco mencionar a espetacular fase Legion of Super-Heroes: Five Years Later, de Keith Giffen, ainda inexplicavelmente inédita no Brasil.

Apesar do novo visual dessas animações ainda parecer incipiente aos olhos de um veterano de Batman: The Animated Series, um aspecto positivo é inegável e encontra seu ponto alto aqui: a expressividade.



Kara nunca esteve tão carismática e tridimensional numa animação da DC. Sem afetações desnecessárias, o formato agora permite mais flexibilidade nas feições, traduzindo com muito mais eficácia cada emoção apresentada. Fora que a kryptoniana está uma fofa.

Também fica nítido que deram um tapinha em algumas sequências com CGI disfarçado. Certos momentos quase remetem àquelas animações dos anos 2000 produzidas com Flash Player (lembra de Archer?), que, por si só, não é mal, mas frequentemente soa artificial, asséptico, estéril.

Novamente: apenas a impressão de um velho apaixonado pelo estilo Fleischer Studios/Bruce Timm das animações tradicionais.


O roteiro de Josie Campbell, egressa da excelente série She-Ra e as Princesas do Poder, arrisca bem pouco. Dá para ver as reviravoltas a parsecs de distância e sentir as limitações impostas pelo "andar de cima" para mexer na cronologia da prima do Super. Então, para qualquer iniciado, não há grandes novidades. O que resta é o que Campbell sabe fazer melhor: a dinâmica entre um núcleo central bem diverso, que, além de Supergirl e Brainiac 5, também conta com Vésper, Saltador, Moça-Tríplice/Dama Dupla, Rapaz Invísivel, Etérea, Mon-El e o infame Arms Fall Off Boy, que já teve até versão live action no filme bom do Esquadrão Suicida.

O diretor Jeff Wamester fez um trabalho razoável na parte da ação, que, talvez por ser material Supergirl, seja bem mais contida que seu longa anterior, o confuso Sociedade da Justiça: 2ª Guerra Mundial. Nesse quesito, a bancada de legionários veteranos formada por Penumbra, Rei Químico e Lobo Cinzento foi um tanto desperdiçada — com ligeira exceção para o último, que protagoniza uma boa sequência de pancadaria ao melhor estilo eu-sou-o-Wolverine-original-xará, com direito até a uns respingos de sangue. Tudo muito breve, porém.

Legião dos Super-Heróis se assemelha mais a um piloto de série do que um filme autocontido. Termina mostrando que não é nem um, nem outro (a cena pós-créditos se certifica disso). E que a Warner mais uma vez está audaciosamente nos levando até onde nenhum planejamento jamais esteve.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Lobo Brutal


E aí finalmente arranquei do plástico o DC Comics Coleção de Graphic Novels vol. 25 - Lobo: Sem Limites - trilha adequada aqui - já esperando para corroborar o consenso universal de se tratar de uma obra indigna do Flagelo da Galáxia.

Mas, ei...



Diacho, essa HQ é muito legal!

Pelo menos bem melhor do que eu lembrava - e ninguém me ajudava a melhorar essa lembrança. Um exemplo é a arte pintada do Alex Horley, relegada ad nauseum a pastiche de Simon Bisley. Ok, o velho Biz é rei (e Martin Emond, outro rei; e Frank Frazetta é o One-Above-All), mas o senso de humor negro nas pinceladas é irresistível e doentio num nível satisfatório para um gibizão do Maioral.

Mesmo perfumarias baratas como a intro Tiny Toon contando a origem d'O Último Czarniano Vivo e o segmento Archie versão gangsta ficaram divertidas.


A história em si é tiro, porrada e puta. Nada mais a exigir de um Keith Giffen ainda escrevendo o Lobo naquele ponto (há muito) sem retorno. Longevidade cobra um preço salgado e nessa relação criador-criatura quase simbiótica só tenho a concordar com a impressão certeira do Malta na época.

Sem Limites foi provavelmente o último espasmo da fase de ouro do personagem. E, entre mortos e defenestrados, ainda crava uma boa média na escala hipotética Lobo-Omnibus-por-Garth-Ennis-&-Goran-Parlov.

A tradicional história-bônus tem o efeito de uma bem-alimentada mocinha de lingerie saindo do bolo. Três motivos. Primeiro, é o Lobo de várzea, estreando de colantezinho em The Omega Men #3 (1983), ainda inédita por aqui. Um acinte histórico sendo corrigido.



Segundo, esse título dos Ômega me pareceu bacaníssimo e até à frente dos US comics de então. Lembrando bastante os materiais da 2000 AD, é sci-fi politizado com clima anárquico e putanhesco - e se a cena de strip e sexo reptiliano com a Demônia não te convencer, nada mais o fará. Ler isso com impressão decente em papel filé foi diliça. Quero mais, mas só vai rolar em cbr maroto.

Por último, Giffen e o roteirista/co-criador Roger Slifer fizeram uma bela rendição ao cinema B: o Maioral estripando meio mundo para sequestrar Kalista e desfilando por aí com a rapariga na comissão de frente.

Isquindô!


E todo mundo sabe que ostentar uma pin-up gostosona (com todo respeito, Primus) na frente de um carango-monstro é estilo de vida no País das Maravilhas Trash.

Tá lá aquela cena memorável de Jogo Brutal (Fair Game, 1986) que não me deixa mentir...


Yippee Ki Yay!

domingo, 6 de novembro de 2005

JÁ FOMOS OS DEFENSORES

Defenders #1/#4 (de 5)


Antes mesmo de sair o segundo capítulo da Liga da Justiça "tosca", em JLA Classified #4, Keith Giffen já havia espalhado aos quatro ventos que esse seria o último arco que ele escreveria para o grupo. Cascata? Aposto que é, mas também acho que naquele momento ele mesmo acreditava nisso. Afinal, já devia saber que alguns meses mais tarde iria assumir a batuta dos Defensores, supergrupo da Marvel que sempre exibiu um inegável apelo cômico (ainda que involuntário), até mais forte do que a equipe B da Liga. Uma equipe no qual ninguém concorda com ninguém, nenhum dos integrantes tem a mínima empatia e cujos inimigos remetem aos padrões vilanescos mais esdrúxulos da chamada 'Era de Ouro'. De JLA para Defensores? Nada se perde...

Mas não me entenda mal. Sempre curti muito os Defensores. Apesar de sua formação ter sido modificada meia-dúzia de vezes (sai Valkíria, entra Daemon Maelstrom, sai Felina, entra Gavião Noturno, etcs), os titulares mesmo eram Namor, Hulk e Surfista Prateado, liderados pelo Dr. Estranho. É que nem o Black Sabbath... com o Dio foi bom, mas com o Ozzy é que era o bicho. Além do mais, os Defensores eram a equipe mais overpower que se tinha notícia. Chegava ser covardia. Só a inclusão do Gigante Esmeralda e do ex-arauto de Galactus já os colocava na posição de supergrupo mais poderoso da Marvel. Da Marvel não... dos quadrinhos. Entretanto, a relação interna do grupo era pra lá de conturbada, principalmente entre Namor e o Surfista. Não raro, os dois se engalfinhavam em pancadarias homéricas, sendo que o Dr. Estranho tentava intermediar a coisa toda a duras penas e o Hulk não estava nem aí. De inimigos, a fina flor de tudo o que a Marvel tinha de mais atual... nos anos 60: Homem-Planta, Nebulon, Xemnu, Calizuma e... adivinha-quem-veio-pra-jantar, Dormammu, o antagonista mais recorrente das histórias em quadrinhos, Sua Majestade O Rei das Entressafras. Talvez por isto mesmo foi o eleito por Giffen e DeMatteis para ser o primeiro inimigo dos Defensores "toscos" (ainda mais).

Nas mãos hábeis de Kevin Maguire, Dormammu ganhou um visual meio s&m, tipo Hellraiser. Mas só mudou aí. Os roteiristas, espertos, praticamente não mexeram em nada. É incrível como os mesmos diálogos, lidos hoje, soam tão ridículos. Às vezes, Defenders periga virar uma história de uma piada só, sempre se baseando em toda aquela grandiloqüência e pompa descabidas - e algum espertinho(a) tirando sarro da clicherama e das situações incrivelmente piegas (lembrei logo do filho do Dr. Evil, de Austin Powers). A premissa, por si só, é quase um emblema do maniqueísmo pop: o demônio Dormammu se une a sua irmã, a impiedosa Umar, dando fim à uma desavença familiar (e milenar) que era a única coisa que o impedia de ser o detentor do Poder Absoluto. E qual é a maior ambição de Dormy agora que é um deus vivo? Dominar a Terra!® Só que sua "querida" irmãzinha tem outros planos...

Aliás, o resgate da personagem Umar foi um achado. Ela parece um mix de Cléo Pires e Angelina Jolie com o senso de humor fúnebre da Mortícia Adams. E além de ser uma gostosa de mão cheia...


...é uma tremenda ninfomaníaca, capaz de estremecer os alicerces da Torre de Mordo... digo, Dormammu. Atraída fisicamente pelo Hulk (!), Umar, fã de verdura, faz as mais de 100 toneladas de "sustança" do Golias Verde ficarem carentes de vitamina C(atuaba). Com ela, a expressão "enquanto eu tiver língua e dedo..." fica bastante depreciada.

Do lado dos heróis, sem grandes problemas também. Eles mesmos se autodestroem sem o auxílio de terceiros. Namor é uma figura: narcisista crônico, elitista e arrogante ao extremo. Banner/Hulk, depois de tanta desgraça que lhe acometeu na cronologia normal, já está mais pra lá do que pra cá: revoltado, cínico e com uma inequívoca atitude tô-fazendo-hora-extra-no-mundo. Já o Doc Strange vem com sacas daquela ironia cortante que vem sendo amolada desde Vikings, a mini do Thor escrita pelo Garth Ennis. E por incrível que pareça, o Surfista Prateado é o único que ainda não moveu nem uma palha, mesmo faltando apenas 1 edição para o arco terminar. Contudo, não deixa de ser insólita a sua situação: imerso em ponderações sobre o Sentido da Existência (uma constante), o angustiado Surfista se identifica com uma tribo terráquea e acredita que encontrará ali as respostas que tanto persegue. Cabe dizer que o Surfista do Maguire está igualzinho ao C3PO.

Vou te dizer. Esperava mais dos Defensores de Giffen/DeMatteis/Maguire. É melhor do que a última da JLA tosca (mesmo porque, esta já estava bem aquém das anteriores), mas com certeza eles podem fazer mais que isso. Seja como for, os diálogos ainda estão bem malandros, há ganchos realmente espirituosos (o que Umar e Dormammu fazem com o todo-poderoso Eternidade pode parecer blasfêmia pra alguns, mas que foi engraçado, foi), a tiração em cima dos clichês é nonsense total ("Onde está Dormammu? Se eu o conheço bem, deve estar contando ao Estranho cada detalhe do nosso plano. Ele sempre faz isso. Não consegue manter aquela boca flamejante fechada!"), e o Doutor Estranho está impagável nas alfinetadas que troca com o Namor e quando tenta convencer cada Defensor a retornar à equipe.

Mas o ponto alto da revista, na minha humilde opinião, é a dominatrix do inferno Umar, deliciosamente cruel. A menina rouba a cena! Além de ser uma pinup de cair o queixo e um paradoxo interessante a eterna silly-girl Mary Marvel. :)



QUEM NÃO TE VIU, QUEM TE VÊ


Estamos pagando o preço por termos deixado Hollywood monopolizar o mercado cinematográfico por todos esses anos. O mundo ao redor desta fábrica de sonhos está se tornando tão bom em produzir sonhos quanto, senão melhor. O que chega por aqui em termos de "novidade estrangeira" é à base de conta-gotas, naquele festival de cinema independente que vai acontecer em um estado que provavelmente não é o seu. Fora isso, é apelar para a última fronteira - avançando via web e treinando a paciência tibetana com aquele download interminável (porque o BitTorrent é lerdíssimo ou porque o e-Mule e congêneres ainda não encontrou fontes suficientes para baixar o arquivo). Isto pra não falar na legenda (a qualidade ou a falta da mesma), já que o idioma das produções não será o inglês. O resultado é Free Zone, Immortel, Guardiões da Noite, Oldboy, 2046, Casshern, Three... Extremes, Haute Tension, Sympathy for Mr. Vengeance e pérolas quetais, sendo exibidas num cinema bem longe de você.

Mas, às vezes, e só às vezes, um barquinho fura o embargo comercial/cultural e se materializa, como que por encanto, bem ali na locadora da esquina. Foi assim com Casshern, e um pouco antes, com Vidocq (França, 2001). Na época em que este filme foi lançado, houve um corre-corre underground que chegava a ser irritante, de tão restrito. Mandei se foder e fui seguir minha vida (=puta merda, todo mundo viu, menos eu!). Confesso que nem lembrava mais quando me deparei com esta jóia rara, hoje no semi-anonimato.

Dirigido pelo escalafobético Jean-Christophe Comar, o filme causou furor na época por ser a primeira produção filmada com as câmeras de alta definição da Sony, as tais CineAlta 24-P. E faz alguma diferença? Ô! Através deste recurso, o diretor optou por uma filtragem mais chapada no contraste de cores e redefiniu o conceito de fotografia e perspectiva digital. Ainda hoje, quatro anos depois, a concepção visual empregada no filme é impressionante. Às vezes chega a lembrar a psicodelia gótica do clip The Perfect Drug, do Nine Inch Nails, como na antológica seqüência do jardim.


Eugene François Vidocq (Gérard Depardieu) é um detetive na Paris caótica de 1830, à beira de uma revolução após uma abdicada básica de Carlos X. Ríspido, perspicaz e inteligente, Vidocq é considerado o melhor no que faz. Em meio aos distúrbios, uma série de raptos e assassinatos é atribuída à uma criatura aparentemente sobrenatural chamada O Alquimista, e é justamente o novo desafio de Vidocq. Durante um cerco, os dois se enfrentam no mano-a-mano e Vidocq fica dependurado sobre uma fornalha, Obi-Wan style. Quando o Alquimista revela sua verdadeira identidade (calma, não é spoiler!), o detetive, incrédulo, se atira nas chamas. Começa então uma investigação por parte de Etienne (Guillaume Canet), um jornalista que estava escrevendo a biografia de Vidocq.

Um detalhe: Vidocq realmente existiu e é considerado um dos pais da perícia criminal. Sendo assim, é natural que o mote do filme seja desmascarar cada fenômeno místico com um verniz de ceticismo que faria inveja ao Padre Quevedo. Algumas vezes, essa premissa consegue resultados brilhantes, como no engenhoso esquema do "relâmpago assassino" (dá até vontade de matar alguém daquele jeito). Mas é na reta final, quando já estamos mais experts do que os caras do C.S.I., que levamos um tostão daqueles que doem pra valer e tudo que aprendemos cai por terra. O que nos confirma o que esse filme é, de fato: um pop movie de aventura com lingüagem e dinâmica de revista em quadrinhos, muito divertido, inovador no conceito de produção e design, sem deixar para trás as tendências atuais dos filmes de ação (edição rápida e grandes lutas). Tudo isso, com direito à um final-surpresa desconcertante, a participação da belíssima Inés Sastre e um céu que parece saído de um óleo sobre tela vivo e pulsante.

Eu poderia chegar aqui e escrever que Vidocq é a adaptação que Do Inferno poderia ter sido (se eu não tivesse gostado de Do Inferno), mas a verdade é que o personagem merecia algumas linhas escritas pelo Alan Moore. É a cara dele.

A propósito, esse filme foi a estréia do diretor Jean-Christophe Comar. Logo depois, ele passou a assinar como Pitof (acredite se quiser, é ele) e, três anos mais tarde, foi pra Hollywood fazer História. Não no bom sentido, claro...



R Á P I D O  & R A S T E I R O
As Páginas do Rock'n'Roll



Uma homenagem ao guitarrista e produtor James Patrick Page, o Jimmy Page, nunca é demais (embora ele provavelmente não deva curtir homenagens em forma de mp3). Muitos ignoram o que o guitar-hero produziu entre o fim do Led Zeppelin, em 1980, e o retorno à parceria com Robert Plant, no discaço No Quarter, de 1994. Uma pena, pois teve coisa (muito) boa aí.



  • DEATH WISH 2 - MUSIC by JIMMY PAGE - A franquia Desejo de Matar é tenebrosa, mas contou com uma trilha sonora despirocante. No primeiro filme, de 1974, foi o mestre Herbie Hanckok quem compôs a trilha e nos brindou com algumas das peças mais sombrias de sua carreira. Em Desejo de Matar 2, de 1982, foi a vez de Page mostrar um belo serviço, contando com os vocais matadores de Paul Rodgers (Free, Bad Company). O disco remete bem ao peso Swingin' London do Led Zep, inclusive com aquela cara de "trilha de rua". Destaque para Jam Sandwich, City Sirens e a arrepiante instrumental The Chase.


  • THE FIRM - Em 1985, Page comete outro discaço ao lado de Rodgers, agora sob a alcunha The Firm. O que se ouve aqui é hard rock tradicional, direto da escola setentista, com bastante influência de blues rock. A Fender-Telecaster de Page soa mais classuda do que nunca em Closer, Someone To Love, Radiactive, na linda Together e em Midnight Moonlight, que traz incursões acústicas bem à Led Zeppelin III. O The Firm hoje é referenciado como um projeto fracassado de Page. Mas também... o que é que fazia sucesso na época? Bon Jovi, Warrant, Poison, Motley Crüe? Se eu fosse o Page, me sentiria lisonjeado. ;)


  • JIMMY PAGE - Outrider - Este álbum solo de 1988 contou com uma big band no estúdio: os vocalistas Chris Farlow (faixas 6, 8 & 9), John Miles (faixas 1 & 2), o baterista Barrymore Barlow (faixas 5 & 7), quase um baixista diferente por música e duas presenças pra lá de ilustres - Robert Plant cantando na paulada The Only One e Jason Bonham, filho do John, espancando a bateria em todas as outras faixas. O disco é todo excelente, mas é impossível não se emocionar com Prison Blues, um bluesão arrastado, manhoso e pesadão, típico do Led Zep dos primeiros discos.




  • "When all are one and one is all...

    ...To be a rock and not to roll"



    Esses discos aí ao lado ficam até quarta ou quinta, capice?

    domingo, 3 de abril de 2005

    JLA + SEINFELD =


    JLA Classified é um título recente da Liga da Justiça. Nas três primeiras edições não vi muita diferença do approach que é habitualmente dado à equipe, mesmo com um roteiro leve e descompromissado de Grant Morrison e com o traço maneirão do Ed McGuinness. É aquele negócio: muita ação, corre-corre interdimensional, pancadaria envolvendo monstros gigantes e uma trama muito bem amarrada. Prato cheio quem gosta de uma boa aventura pop super-heroística.

    Eu, por outro lado, gostaria que o Gorilla Grodd fosse morto em alguma dessas sagas homicidas da DC. Cansei desse negócio de macaco inteligente.

    Mas eis que chega a edição #4 e JLA Classified vai pra galera. Keith Giffen, J.M. DeMatteis e Kevin Maguire estão de volta, malandros como sempre e apostando nos detalhes mais sacanas que fizeram o sucesso de Já Fomos a Liga da Justiça. Virou fórmula, mas mesmo assim continua genial. Todos aqueles personagens do 32º escalão da DC - as "baixas aceitáveis" da editora - em situações e diálogos constrangedores e cheios de duplo sentido. Mas, acima de tudo, retorna aquela fina flor da canastrice heróica: o empresário salafrário Maxwell Lord, seu personal sar"caustic" L-Ron, a dupla nonsense Besouro Azul & Gladiador Dourado, o Homem-Elástico-e-tapado, a brasileira boazuda e desbocada Fogo e a silly girl serelepe Mary Marvel.


    Quem já leu a série antiga e as minis especiais já sabe o que esperar e o que não esperar desse balaio de gatos. Se a ação vinha diminuindo gradativamente em favor das gags bem-humoradas, aqui praticamente não há quebra-quebra. JLA Classified é quase um sitcom de super-herói. Isso é realmente ruim num certo ponto, mas por outro é uma festa para aqueles que gostam de diálogos afiados e pingando de cinismo (eu! eu!). E já pintaram seqüências antológicas, como a Fogo apresentando Mary ao cafezinho expresso e deixando a menina ligadona, Besouro zoando o casamento arranjado do Gladiador, a insistência do Homem-Elástico em espalhar que sua esposa Sue Dibny está grávida, sendo que ela não está... opa, peraí. Sue Dibny?! Pára tudo...

    Lembra das "sagas homicidas" que eu comentei logo acima? Então... uma delas responde pelo nome de Identity Crisis e foi a maior pedra no sapato de Giffen e deMatteis na continuidade dessa Liga outsider. Eles acharam que assassinando personagens secundários e manchando o passado de alguns heróis renderia um roteiro "chocante". Talento passou longe por ali, e Sue Dibny foi a mais prejudicada nessa história. Praticamente desconhecida na cronologia principal, ela (e outros tantos) foi brilhantemente reformulada por Giffen/deMatteis, ganhando mais personalidade e carisma que muito herói famoso por aí. Aí veio Identity Crisis e fez a merda que fez. Sue Dibny encarou uma via crucis que começou num estupro imbecil e terminou numa morte idiota. Restou à dupla de roteiristas tomar a melhor atitude possível: ignorar esse fato. E eu aplaudo em pé.

    Quanto à Identity Crisis, fico com a mesma opinião de Michael Deeley, do Silver Bullet:

    "God damn Brad Meltzer and his mediocre pen!"

    Em tempo... ao que parece a DC pegou a Liga de Giffen e deMatteis pra Cristo. Dizem que a próxima vítima será o Besouro Azul. E o local do crime será Countdown, a reformulação nº do Universo DC. Quanto mais eu rezo...

    Mas voltando...

    ...um dos maiores achados de Já Fomos a Liga da Justiça foi a troca de Marvels na equipe. Sai o Capitão, entra a inocente Mary, com o mesmo ar de escoteira dos anos 40. Muitos podem reclamar da postura altamente "pollyana" dela (improvável nos dias safados de hoje), mas é justamente esse contraste que é bacana. É como se atirassem um coelhinho num mar de tubarões famintos. Isso rendeu muito antes e continua rendendo. Principalmente agora que ela divide a cena com outro resgatado... mr. Guy Gardner himself.






    Essa cheiradinha no dedo foi foda. Mas teve troco. Depois que se recuperou, a doce Mary deu uns tabefes no "malfeitor". E acho que ela fará ainda pior nos próximos capítulos, como aparenta nesse preview da capa da edição #8.


    Embora pareça uma versão playmate do Black Adam... gostei do visual. Será que ela tomou uma overdose de cafezinho expresso? :D


    Ah, e cabe aí uma homenagem ao Kevin Maguire. Ele ainda é o rei das expressões faciais. Poucos conseguem transmitir tanto com traços tão simples. E a arte-final do ótimo Joe Rubenstein só aumenta ainda mais a sensação de realismo, dimensão e profundidade física dos personagens. Ver o trabalho dos dois é um colírio para os meus olhos, cansados de tantas expressões sisudas e "machonas".


    dogg... esperando pra ver a merda que vai dar hoje lá no Maraca.

    quinta-feira, 14 de outubro de 2004

    DOR DE DENTE HORRÍVEL


    É isso aí, amigo. Resident Evil 2: Apocalipse é o primeiro filme que assisti que me deu dor de cabeça (ps.: alterei o local da dor em prol da analogia). Imagina você, no sono dos justos, lá pelas 5:30 da matina, e um filho de Deus dá uma martelada numa bigorna a um palmo do seu ouvido. RE2:A tem ao menos uns 30 "sustos" seguindo essa cartilha. E rapaz... que filme barulhento. Superou até a ópera das arapongas que foi Van Helsing. Assistir isso em DVD com o DTS ativado é suicídio auricular. De qualquer forma, essa via crucis movida a decibéis teve uma certa satisfação: ao meu lado, estavam uns três ou quatro guris se borrando de 5 em 5 minutos. E eu me acabava de tanto rir. Acho que ali aconteceu a primeira explosão de esfíncter anal provocada pela 7ª arte. Momento histórico.

    Dirigido pelo estreante Alexander Witt, o filme é a última palavra em montagem music television. Aquelas coisas: edição a 300.000 km/s, efeitos de distorção a rodo, cortes mil, enfim. MTV puro. Na maior parte das cenas de ação mal dá pra ver quem está na tela. Isso é filme pro Barry Allen. Não vou dizer que a escola videoclípica só teve formandos incompetentes, afinal, David Fincher, Guy Ritchie e Zack Snyder estão aí pra honrar a camisa. Mas quando dá errado, o resultado é Witt, o Extremo.


    Quem rabiscou o roteiro foi Paul W. "Ainda-vou-bombar" Anderson, que trocou duas de vinte por uma de quarenta. Inicialmente era ele quem ia dirigir RE2:A, mas preferiu assumir o comando de AvP, só pra sentir o gostinho de ser podado por um grande estúdio. Não digo que o filme seria melhor com ele, pois o roteiro também exagerou na massa. A história começa exatamente aonde o primeiro filme parou, com Alice (Milla Jovovich, ainda tirando de letra as cenas de nudez... êlaiá!) despertando no hospital e percorrendo uma Raccoon City totalmente devastada - tudo obra da gananciosa Umbrella Corporation e seus zumbis infectados com o T-Virus.

    Ok, quem conhece o game Resident Evil, sabe que esse é o enredo básico do jogo, ao contrário da história anterior. E as peças que faltavam estão lá: os soldados da S.T.A.R.S. abandonados por seus superiores - entre eles o fodão Carlos Olivera (Oded Fehr, fodão), a agente Jill Valentine (Sienna Guillory, gostosa até a última célula-tronco), e o taxista comédia L.J. (Mike Epps, mais um coadjuvante cômico talentoso - acho que devem existir linhas de montagem de coadjuvantes cômicos em Hollywood).

    Muito bem. A cidade em quarentena, um muro rodeando todo o perímetro, a mídia no cabresto, e alguns milhares de seres vivos e mortos-vivos descartáveis. Local propício para a Umbrella testar sua mais nova arma: Nêmesis (uma mistura de Monstro de Frankenstein e Rambo, usando a roupa do Pinhead, de Hellraiser). Sua missão é fazer uma queima de arquivo geral e isso inclui os nossos heróis, que estão tentando resgatar a filha do dr. Ashford (Jared Harris, chato pra cacete e igualzinho aquele paralítico de Todo Mundo em Pânico 2), que, em troca, irá retirá-los da cidade.


    RE2:A, como toda experiência ruim, tem o seu lado bom. A princesa atordoada Milla Jovovich, por exemplo, é apenas razoável como atriz, mas tem uma atitude de entrega muito interessante em relação à sua personagem. Já a destrói-família Sienna Guillory foi um achado, e deveria ter aparecido logo no primeiro filme. Além de ser a própria Jill Valentine, ela também conseguiu ser boa atriz, mesmo com uma nesguinha de participação - a microssaia contribuiu, claaaro. Desejo toda a sorte para Oded Fehr (de A Múmia) em filmes de ação com heróis mais inteligentes que o de costume, e o mesmo para Mike Epps (parente do Omar?) em algum Saturday Night Live da vida.

    Ativando programa de boas seqüências de ação isoladas: a ótima cena do fechamento da barreira, condenando milhares de civis inocentes; o ataque dos tenebrosos lickers na igreja (antes de Alice atravessar o vitral com uma moto); Nêmesis metralhando uma loja cheia de soldados da S.T.A.R.S. e logo depois, perseguindo Alice com uma bazuca; a presença intangível da "entidade" Umbrella. Nunca vemos os gerentes, apenas os supervisores (aparecem dois no filme), o que dá uma maravilhosa sensação de estarmos enfrentando um inimigo sem rosto. Provavelmente de forma inadvertida, foi criado um conceito aprimorado da sinistra Firma, da franquia Alien.


    E Alien é justamente o link para o primeiro ponto ruim: tal qual Ellen Ripley em Alien 4, Alice agora tem poderes. Ela está melhor, mais rápida, mais forte, essas coisas. Palha até não poder mais. Os cães-zumbi também estão lá, e são responsáveis pelos momentos mais ruidosos do filme. Antes deles alcançarem as vítimas, elas já morreram de dor nos tímpanos. Já Nêmesis é miseravelmente desperdiçado depois daquelas duas cenas. E o roteiro tem tantos rombos que até os guris borrados notaram (num deles, nossos heróis vão para um cemitério pra fugir do ataque dos zumbis).

    Aliás, esse não pode ser considerado um filme de mortos-vivos. Esse é um filme que "por acaso" tem mortos-vivos. A importância dada aos monstros é tão pouca, que, dado momento, eles simplesmente somem da história. E se for pra vê-los sendo surrados a golpes de caratê, é melhor que nem apareçam mesmo. RE2:A também me confirmou uma horrenda suspeita. Existe um filão de filmes sanguinolentos que estão vindo sem uma única gota sangue. Parece até defeito de fábrica.

    Eu poderia até enaltecer as citações ao game (como os soldados jogando granadas e metralhando os zumbis, Alice entrando na loja de armas, o reflexo dos monstros num capacete policial, etc.), mas isso não é mérito do filme, e sim do jogo. E para os amantes do game, a conclusão não poderia ter sido mais decepcionante. Totalmente aberta pra mais uma seqüência, ela arremessa todo o conceito original pra vala. O que quer que venha a ser Resident Evil 3, dificilmente terá algo a ver com o argumento que popularizou o jogo.

    Cara... eu não paguei ingresso, mas quero o meu dinheiro de volta.


    HOMEM-ARANHA #136


    Interessante edição "genérica", onde o bom aracnídeo toma uma carroçada sinistra do Venom. Não sabia que o Mancha Negra cover era tão superior assim.

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    Ou: arquivo cbr re-upado em 05/09/2017 - scan com a mesma resolução arcaica de 2004



    SUPER POWERS #01


    Recordar é viver. A revista Super Powers foi uma tentativa da Abril de repetir na DC o mesmo sucesso da saudosa 1ª fase de Grandes Heróis Marvel. Como o universo decenauta sempre foi inconstante, a esforçada SP acabou se limitando a lançar fins de sagas. Isso já era característica desde sua estréia. Em Saga das Trevas Eternas, a Legião dos Super-Heróis enfrentou seu primeiro desafio realmente grande: Darkseid, senhor de Apokolips. Na época, o Dark era aterrador pra valer, não esse freguês de hoje em dia.

    Uma bela aventura cósmica com argumentos de Paul Levitz e Keith Giffen, que também desenha. Essa história influenciou muita gente boa (como Jim Starlin) e gente mais ou menos (como Kurt Busiek). Lembrando que a Legião tem esse nome não é à toa: são 25 integrantes (a edição traz a ficha de 23 deles).

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    Ou: arquivo cbr re-upado em 05/09/2017 - scan com a mesma resolução arcaica de 2004

    dogg, quebrando tudo ao som de Indians, do novo ao vivo do Anthrax! HUUUUH!!