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sexta-feira, 29 de abril de 2022

Nós perdemos outro herói


Neal Adams
(1941 - 2022)

1985 foi o ano. Em Batman #10, o Morcego passava um dobrado com o assustador Ra's al Ghul enquanto se envolvia até o pescoço (e acima) com Talia, a filha do vilão. Tudo muito mais visceral do que qualquer coisa que já havia lido nos gibis.

Alguns meses depois, a régua subia até a estratosfera, com Superamigos #4 e o célebre arco do Lanterna Verde e Arqueiro Verde combatendo o tráfico de drogas. Aquele tapa do velho Ollie no Ricardito acertava em cheio na alma do leitor.

O primeiro Neal Adams a gente nunca esquece. E nem o segundo.

Adams foi a cara e o espírito da Era de Bronze. Influência primordial (e estoque para tracing) de gerações de artistas. Alguns dos melhores momentos do Batman se deram por suas mãos — e também um dos piores. Só pra atestar que ele era humano, afinal.

Como bom veterano, seu ritmo de produção era absurdo. Seja nas décadas dentro da indústria (iniciou a carreira na Archie Comics em 1959!) ou fora dela. Sempre será um gênio e uma inspiração para a vida. Mesmo para quem não vive de quadrinhos.

Em 2020, ao se despedir do amigo e o melhor parceiro de trabalho Dennis O'Neil, escreveu:

“Denny O’Neil mudou os quadrinhos para melhor. Talvez seja hora de reaprendermos algumas daquelas lições.”


E o mesmo pode ser dito sobre ele. Foi um privilégio e tanto estar aqui no tempo de vida dessa dupla...

terça-feira, 30 de junho de 2020

😷 😷 😷 😷 😷 😷 Retrospec Junho/2020 😷 😷 😷 😷 😷 😷

Uma nova era está começando... aguardem! #conrad #conradeditora #quadrinhos #HQ #calvineharoldo #ConradNovaEra #conradVoltou #sobnovadireção #mangá
Publicado por Conrad Editora em Segunda-feira, 1 de junho de 2020

1/6¹ – A Conrad Editora anuncia uma volta dos mortos às atividades sob nova direção. Daqui onde estou, ouço foguetórios de celebração pelo passado de títulos incríveis e panelaços de indignação pelos preços colonoscópicos e pelas séries inacabadas. Mas darei um voto de confiança, assim que superar esse anúncio em fonte Comic Sans.

1/6² – Anota na agenda, Charlie Cox: daqui a seis meses os direitos do Demolidor retornam para a Marvel Studios.

1/6³O venerável Doug Bradley faz uma leitura do clássico Frankenstein, de Mary Shelley, para relaxar nesses tempos de quarentena. Pinhead é um demônio extradimensional do prazer e da dor, mas acima de tudo é um bom coração...

1/64Evan Peters, o melhor Mercúrio, estará na série WandaVision.

2/6¹ – Vários artistas e gravadoras se unem à campanha #blackouttuesday / #theshowmustbepaused em apoio aos protestos pelo assassinato de George Floyd.

2/6² – Não apenas a atriz Ruby Rose saiu de Batwoman, mas também sua personagem, Kate Kane. A nova protagonista da série será Ryan Wilder, que, literalmente, não tá no gibi.


3/6¹Se vai Maria Alice Vergueiro, aos 85. A atriz, pedagoga e professora paulista iniciou sua carreira na década de 1960. Foi proeminente no universo teatral, onde dividia os palcos com gigantes como Jandira Martini, Cacá Rosset e Paulo Autran. E também fez vários filmes, além de algumas novelas. No entanto, seu grande momento no mainstream foi com o clássico vídeo "Tapa na Pantera", um dos primeiros grandes hits viralizados da internet brasileira. Ainda hilário, diga-se...


Por um bom tempo achei que aquilo era verdade. Fui trollado profissionalmente (#orgulhodefine). Obrigado por tudo, Maria Alice!

3/6² – A nova edição americana de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1839-1908), via Penguin Classics, esgota nos Estados Unidos em um dia. E a resenha do The New Yorker é uma delícia – até complementar à do Better Than Food, diria. Sigo ansiosamente no aguardo pelos reacts gringos à ambiguidade da Capitu...

4/6¹ – E nessa volta "sob nova direção", a Conrad Editora anuncia a volta do editor Cassius Medauar (ex-Pixel, ex-JBC e ex-putz-Conrad). Suas passagens por títulos clássicos de mangás rendeu a adoração de muitos otakus. Em compensação, suas decisões "inusitadas" nos títulos Vertigo editados na Pixel deixou alguns traumas pelo caminho – mas isso foi frio, Luwig.


4/6²Se vai Steve Priest, aos 72. Baixista e vocalista da formação mais popular do grupo The Sweet, ele foi um dos precursores do glam e do hard rock. Entre seus maiores hits estão "Fox on the Run", "Little Willy", "Love Is Like Oxygen" e, lógico, a icônica "The Ballroom Blitz".

5/6 – Víamos isso chegando, mas não acreditávamos: a DC corta relações com a Diamond Comics Distributors! Negacionismo nerd é isso aí.

6/6 – Do alto de seus produtivos 99 anos, o legendário Al Jaffee, autor das famosas "Dobradinhas da MAD", resolve se aposentar. Grande Jaffee!


11/6¹ – Se vai Dennis O'Neil, aos 81. Entre a passagem pela Charlton e as idas e vindas pela Marvel e DC, sua carreira se confunde com a própria História dos comics pós-Era de Prata. Como roteirista e editor, revolucionou o conceito de quadrinho mainstream mais vezes do que qualquer um sonharia. Seus trabalhos nos títulos do Questão e do Batman se tornaram referências, sem contar o meu favorito: Lanterna Verde/Arqueiro Verde ao lado de Neal Adams – uma das maiores duplas dos quadrinhos em todos os tempos. O fim de uma era.

11/6²Morrison Hotel, clássico álbum do grupo The Doors, ganhará uma HQ. O roteiro é da Leah Moore, filha do Ômi, e conta com a colaboração de dois Doors: o guitarrista Robby Krieger e do baterista John Densmore. Boa sorte pra ela. As Portas remanescentes nunca foram um público fácil em se tratando de adaptações em quadrinhos – vide as críticas do tecladista Ray Manzarek à arte sensacional do gaúcho Henrique Kipper num projeto similar durante os anos 1990.

11/6³ – O New Order e o Pet Shop Boys remarcaram sua Unity Tour para 2021, com datas a partir de setembro (!). Olha que dá tempo de convidar o Depeche...


12/6¹ – A Marvel apresenta o design 2020 do Latinha. A caranga nova estreia em Iron Man #1 (set/2020) com roteiro de Christopher Cantwell e arte de... CAFU?! Caramba, sabia que o cara tava numa maré braba, mas fazer bico na Marvel já é demais.

12/6²Alejandro Jodorowsky: 4K Restoration Collection é o box que vai invadir seus sonhos como vikings sedentos por sangue, pilhagem e virgens. 400 e-daís (no câmbio de hoje) + shipping.

13/6 – A pedido da Associação de Oficiais Militares do Estado de São Paulo em Defesa da Polícia Militar (sério), a Justiça pede esclarecimentos à Folha e aos artistas João Montanaro, Alberto Benett e Laerte por uma série de charges abordando a violência policial no Brasil. Em suma, precisa desenhar. De novo.

14/6 – E... Bob Esponja é oficialmente um personagem LGBTQ+. Ah, esse tava fácil.

15/6 – Pode ser que os direitos cinematográficos de Hellraiser revertam para Clive Baker ano que vem. Será uma desfibrilada salvadora na surrada franquia. Mas a trama é mais complexa – e promissora – do que parece.

16/6¹ – Várias mulheres acusam o roteirista e desenhista Cameron Stewart (Batgirl) de má conduta sexual – sendo que uma delas ainda era adolescente na época. É, fiote...

16/6²Flea adorou "By the Way", do Red Hot Chili Peppers, na versão do Júnior Bass Groovador. Não é pra menos: ficou muito melhor que a original. #prontofalei

16/6² – A WarnerMedia anuncia o mega-evento virtual DC FanDome, que trará novidades da DC para TV e cinema. Também terá concursos entre cosplayers e artistas do mundo inteiroexceto para o Brasil, Cuba, Irã, Coreia do Norte, Sudão, Síria e Crimeia. Depois a Warner tentou contextualizar o veto, mas o gostinho de 7 x 1 é inconfundível.

17/6 – Minha Santa Aquerupita... Warren Ellis é acusado por múltiplas mulheres de coerção sexual através de táticas predatórias bluebeard. Por décadas. Até tu, Ellis?

18/6¹ – E Cameron Stewart é retirado de um projeto da DC após a chuva de alegações sobre sua má conduta sexual.

18/6² – Diz James Gunn que John Cena vai tocar o terror no novo Esquadrão Suicida. Eu pago um dólar por isso!


19/6¹Warren Ellis responde às acusações de má conduta sexual com uma conversa mole que faria a Jakita lhe quebrar uns ossinhos com petelecos estratégicos.


19/6² – Se vai Sir Ian Holm Cuthbert, aos 88. O veterano e premiadíssimo ator britânico iniciou sua carreira no teatro em 1953 (!). Em meados da década de 1960, fez parte das primeiras produções na TV (BBC, claro), daí para o cinema e o resto é História. Entre vários papéis emblemáticos, ficou mais conhecido pelas novas gerações por seu Bilbo Baggins da trilogia O Senhor dos Anéis. E para mim, sempre será o "simpático" Ash...

19/6³A DC remove uma história de 2 páginas escrita por Warren Ellis para um spinoff da saga Death Metal – a pedido do próprio, segundo a editora. Pelo visto, esse agora só vai dar as caras na próxima pandemia.


22/6¹ – Se vai Joel Schumacher, aos 80. O cineasta iniciou sua carreira no cinema como designer de figurino em 1970 e debutou na direção apenas quatro anos depois. A maioria dos portais de notícias certamente se renderá aos clickbaits garantidos com sua malfadada incursão na franquia do Batman, mas, justiça seja feita, ao longo da carreira Schumacher construiu uma filmografia bastante decente. E por vezes, até mesmo atemporal.

22/6² – E falando em Batman, ninguém menos que Michael Keaton está negociando seu retorno ao capuz do Morcego no vindouro The Flash, de Andy Muschietti. Batman velhusco e rabugento de DK à vista?


22/6³ – Grandiosaço esse teaser da série Foundation, hm? E ainda tem o Jared Harris. Asimov ficaria orgulhoso...

23/6 – Em tempos tão sombrios para o mercado editorial (mesmo para as gigantes do varejo), o serviço Bookshop é a estrela que está guiando as pequenas livrarias de volta ao público perdido.

24/6¹David Lynch está felizão com seu conjunto da obra, com exceção de Duna. Mas não disse o porquê.

24/6² – Caíram na rede umas fotos do set de Matrix 4. Neil Patrick Harris estrelão como sempre e Keanu Reeves com um visual meio... Neo-Jesus?

24/6³Shawna Gore, editora da Oni Press, revela um período de inferno na época em que trabalhava na Dark Horse e era assediada pelo roteirista e editor Scott Allie – comportamento que chegou às vias de fato num relato difícil de ler. A Dark Horse se pronunciou sobre o desabafo de Shawna e terminou de afundar a já péssima reputação do sujeito.


25/6 – Se vai Joe Sinnott, aos 93. O "arte-finalista de Jack Kirby" foi essencial na gênese da indústria dos quadrinhos mainstream. Foram nada menos que 60 anos de Marvel – fora que já estava "por ali" desde 1951, na Timely/Atlas, a pré-história da editora. E desenhou até o fim, mesmo aposentado desde março do ano passado. Veterano é pouco.


26/6Se vai Milton Glaser, aos 91. O nova-iorquino é uma verdadeira referência no mundo do design gráfico. Ao longo da carreira não só revolucionou a estética gráfica publicitária como reestruturou o conceito visual de jornais e revistas do mundo inteiro. Sabia como ninguém fazer a ponte entre a simplicidade e a genialidade. Claro que todos irão se lembrar de um de seus maiores legados, o icônico I NY – mas pra mim, ele sempre será o criador do insuperável "logotipo balístico" da DC...


O melhor logo de todos! De todos!



29/6 – Se vai o gênio da comédia americana Carl Reiner, aos 98. O ator, diretor, roteirista e escritor iniciou na carreira dramática enquanto servia na 2ª Guerra, em uma unidade de entretenimento. E nunca mais parou – seu último trabalho foi em Toy Story 4, do ano passado. Mesmo entre tantos momentos antológicos na TV, nos teatros e no cinema, pra mim é difícil não destacar as parcerias com Steve Martin (O Panaca, Cliente Morto Não Paga) e o improvável e impagável Curso de Verão, um dos filmes que mais assisti na vida.

ZECK, DeMATTEIS' Classic CAPTAIN AMERICA to Get EPIC COLLECTION. DETAILS:
Publicado por 13th Dimension em Terça-feira, 30 de junho de 2020

30/6¹ – A aclamada fase de J.M. DeMatteis, Mike Zeck e John Beatty no Cap vai ganhar uma Epic Collection para chamar de sua. Ou minha, porque esperar pela Panini a esta altura é pedir pra levar. Sai lá fora no outono – entre 22 de setembro e 22 de dezembro.

Day of the Dead
Day of the Dead premiered June 30, 1985
Publicado por Hallowin em Terça-feira, 30 de junho de 2020

30/6² – Hoje Dia dos Mortos completa 35 primaveras! É o mais tosco, cru e gore da franquia de George A. Romero, mas atualmente é o que mais gosto de revisitar/estudar, por motivos perfeitamente elaborados por outra pessoa. Thank you, mister!

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Obrigado, Sergius


Dennis J. O'Neil
(1939 - 2020)

Impossível resumir a importância de Dennis O'Neil – ou "Sergius O'Shaughnessy" – nos comics dos últimos 45 anos. Muito mais fácil resumir sua importância em nossas vidas. Ele já era publicado por aqui pelo menos desde o final dos anos 1960 e, num microcosmo de uma microsituação, desde os primeiros gibis que li na vida.

Foi ele quem criou a 1ª fagulha de consciência social em minha alienada cabecinha fã de "crunchs!" e "pows!" com sua inesquecível fase do Lanterna Verde & Arqueiro Verde ao lado do genial Neal Adams, lançada aqui na saudosa Superamigos. "Inesquecível", aliás, é um pleonasmo: pra mim, ainda é releitura sazonal e estupidamente atual.

E teve a revolucionária e influente incursão no Batman. E a fantástica carreira como editor – graças a ele, o jovem Frank Miller ganhou total controle sobre o Demolidor, livrando o herói da obscuridade certa. E o Questão, que, elevado a um novo patamar, tornou essencial a série Os Caçadores, da Abril.


São apenas alguns highlights. O melhor run de O'Neil foi, sem dúvida, sua brilhante vida dedicada aos quadrinhos. Uma impecável lição de amor à arte.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

SURPREENDENTES MESMO


Indo direto ao assunto: estou viciado em tudo o que é desenhado pelo John Cassaday. Sim, eu já conhecia, já o reverenciei aqui, mas acho que só agora a parada bateu pra valer. Provavelmente aquele espetacular quase-final de Planetary teve algo a ver com isso. Talvez tenha ativado algum gatilho subconsciente de apreciação artística, sei lá. Só sei com certeza que neste momento sou capaz de ler e reler até os guardanapos que ele rabisca e joga fora. O cara devia mudar o sobrenome pra Crackssaday. Não usei o termo "viciado" à toa. Não mesmo.

Semana passada, decidi quebrar meu auto-exílio de edições nacionais dos mutantes. Mais de dez anos sem comprar nenhuma das revistas mensais dos X-Men. A causa era nobre: o buffy Joss Whedon e mr. Cassaday estavam devolvendo emoção e dignidade aos combalidos heróis em Astonishing X-Men, um primoroso seriado em quadrinhos, cuja primeira temporada me foi apresentada "em primeira mão" pelo surpreendente Fivo (valeu, tricolor!). Após uma segunda temporada ainda mais embasbacante, me senti na obrigação de ter estas jóias em meu poder!

Comprei a edição atual e fui caçar as atrasadas no sebo. Logo de cara, ensacolei a primeira fase completa (X-Men Extra #46-57), entre outras coisas - com a sagrada putaria periódica inclusa. Beleza, doze edições tinindo com Astonishing e umas bobagens ignoráveis (Excalibur, Exilados) a R$ 2,50 cada. Trintão saindo do bolso de um novo e feliz proprietário da etapa inicial de Whedon-Cassaday's Astonishing X-Men. Já estava planejando o investimento na segunda fase.

Mas eis que na semana seguinte (esta!), a Panini Comics divulga o checklist de agosto...


O horror... o horror... agora entendi o porque do "supreendentes". Eu fiquei surpreendido. É a Pixel fazendo escola.

Sabe, não é tanto pelos trinta dinheiros que escorregaram automaticamente pela sarjeta. É uma questão de espaço físico, hoje quase inexistente aqui. Cá estou eu novamente com mais um calhamaço de revistas empilhadas sem destino/propósito.

...

Tsc. A quem estou querendo enganar? É pelos trinta dinheiros mesmo.


Damn!

Aproveitando o assunto sobre encadernados mutunas...


Os Maiores Clássicos dos X-Men - Vol. 5 traz a fase da equipe X com o grande Neal Adams e roteiros dos também imensos Roy Thomas e Dennis O'Neil. O estilo inconfundível de Adams ainda soa visualmente sofisticado (um show de ângulos à parte) e todos estes anos só realçaram a extensão de sua influência. Sem dúvida, ele inspirou muita gente boa. O jovem Bill Sienkiewicz - aquele, de Cavaleiro da Lua - que o diga.

Mas o que me instigou a comprar mesmo foi a capa clássica (justamente homenageada por John Byrne em X-Men #135). Não sei bem o porque, mas se quiser chamar a minha atenção é só estampar o Monolito Vivo esmagando alguma coisa. Adoro um bom kaiju e golems quase tanto quanto quadrinhos e supervilões, então acho que é por aí. Ainda mais com a arte elegante de Adams turbinando a coisa toda com imagens monstruosamente fodas, de cair o queixo.

O lado ruim é que a referida história começa já em sua metade final (X-Men #56, maio de 1969), já que a edição anterior contava com outro artista. E também o fato de que o vilão só aparece em seu estado über-large em parcas 4 páginas. Não chega a diminuir a 'imperdibilidade' da edição - principalmente pra quem desenha a sério -, mas também não desbanca a melhor história do Monolito Vivo já escrita.

Aquela sim, um kaijuzão pra Gojira nenhum botar defeito.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2004

Meu amigo... chapei. Esse Natal rulez. Aproveite minha presença enquanto estou vivo, pois o reveillon promete ser ainda mais sinistro.

Agora, voltando à programação normal...


"SHOW ME THE MONEY!"


Lembra desse lance? Isso saiu na Marvel MAX #1, na versão dirty uncut do Luke Cage. Essa verdadeira saga urbana de Brian Azzarello e Richard Corben, foi uma das melhores coisas que li esse ano. Belíssimo trabalho de resgate/atualização de um dos personagens mais legais e mais mal-aproveitados da Marvel. Tirando um ou dois furos (como o Cage se machucando feio na briga com o Marko), o arco foi simplesmente perfeito.

Aliás, eu sempre me perguntei de onde veio aquela má-vontade titânica do herói de aluguel com relação ao Homem-Aranha. Tudo bem, o cara é naturalmente seco e mal-humorado pacas, além de ter aquela típica pose gangsta do Bronx, Compton e outras quebradas. Mas descontando esses detalhes, ficou um cheiro de rancor antigo no ar.

E não é que, nos primórdios, os dois caíram dentro mesmo? A treta rolou na dinossáurica Amazing Spider-Man #123, publicada em agosto de 1973 (wow!). O cabeça de teia sempre começou com o pé esquerdo na maioria de seus encontros com outros heróis. Tanto é que ele já brigou com o Hulk, com o Wolverine, com o Capitão Britânia, e até mesmo com o Namor, berrando "Imperius Rex" a plenos pulmões. Com tanto peso-pesado, o Luke Cage era figurinha fácil no rol dos desafetos.

Motivo da peleja: cinco mil doletas, num freela pro famigerado J.J. Jameson (na época, mais anti-aracnídeo do que nunca). Bem no início de carreira, Cage era bem mercenário. Ele levava ao pé da letra a sua fama de "herói de aluguel" e terceirizava qualquer serviçinho sem pestanejar. Mesmo que fosse algo contra os mocinhos - ou as mocinhas. Só pra situar, a 1ª vez que Cage se encontrou com seu futuro sócio, o Punho de Ferro, foi para assassinar a sua namorada (tudo bem que ele foi coagido, mas...).

Depois falam por aí que o personagem era uma referência direta ao blaxploitation, que ele era uma representação da nova cultura negra, etecétera. Coitado do mundo se existissem "super-heróis" negros então. Cage era o próprio Alonzo Harris* da nona arte.

Mas descontando a polemização social, foi porradaria das boas. Também, a line-up era de cair o queixo: Gerry Conway no roteiro e a dobradinha Gil Kane e John Romita Sr. nos desenhos (sinistro...). Como o spoiler perdeu a validade lá pelos anos 80, vão aí alguns momentos de amizade terna e solidária.






Opa, opa, peraê... essa foi foda. "Você é o palhaço que vende seus poderes"...? Nossa, humilhou.














"Alguns momentos" mesmo, pois a revista inteira é assim, que nem final entre Palmeiras e Corinthians, com o Edilson doido pra fazer embaixadinha. Na conclusão, o Aranha dá uma seqüência matadora de ganchos à Roy Jones Jr., e tem uma daquelas "revelações" que o acometem de vez em quando. Percebe que está furioso além da conta porque vê em Cage o seu passado de defensor do próprio bolso. Aí ele prende o cara com a teia e começa aqueles papos tipo "no começo eu estava nisso por grana também... houveram conseqüências...", e tal. Há a inevitável reconciliação, cada um segue o seu caminho e o J.J.J. paga o pato. Mas ficou o precedente, bem lembrado pela MAX. Será que nas futuras edições de The New Avengers (onde os dois estarão lutando lado-a-lado) pode rolar um tira-teima? Esse é um recurso pouco usado por roteiristas de super-equipes, mas que na época dos Defensores dava muito certo. Ver o Namor encarando o Surfista Prateado era demais. Os dois se odiavam!

Agora, uma pequena chafurdação nerd. Cage levanta cerca de 1 tonelada de peso, e o Aranha cerca de 10. Mas em nenhum momento a história atravessa esse detalhe, visto que Cage sempre acerta o Aranha quando este se encontra em posições de desequilíbrio. Além do mais, mesmo tendo 10 vezes a força de Cage, o Aranha não é invulnerável - exceto pela resistência natural de quem tem esse nível de poder. Diferente dos dias de hoje, onde vemos os maiores absurdos envolvendo a força física dos personagens. Até hoje eu encontro vacilos monstruosos em A Morte do Super-Homem. Pelo visto lá, só o Clark é que era vulnerável ao Doomsday...

*Alonzo Harris é o tira corrupto interpretado por Denzel Washington no filmaço Dia de Treinamento.


"THE STRANGE FACE OF LOVE"
(Tito & Tarantula)


Essa canção, que entrou na trilha de From Dusk Till Dawn, seria perfeita também no set list de Sin City. Ali, o amor é descrito como uma força estranhamente agradável (ou agradavelmente estranha). E Sin City está cercado de amor. Amor ao Cinema, às HQs e também o amor paternal de um artista pela sua obra. Pois, por mais capitalista que Frank Miller seja (e dizem que ele é), nada me tira da cabeça que ele deve se encontrar num estado de nirvana contínuo, nesse exato momento. Pelo menos, até o filme estrear e fazer carreira nos cinemas, mundo afora.

Miller conseguiu algo muito difícil, que foi estabelecer uma conexão direta com a produção (ele é co-diretor, ao lado de Quentin Tarantino - também "colaborador" de FDTD). Sem contar o fato que o diretor Robert Rodriguez mantém com ele uma relação ainda mais estreita do que Guillermo Del Toro e Mike Mignola em Hellboy, por exemplo. "Fidelidade" aqui será o menor dos problemas.


O universo bizarro/urbanóide de Sin City influenciou uma carreirada de gente, sendo que o mais notório está lá (Q.T.). Mas após os dois previews acachapantemente 'megafodônicos' (homenagem ao Alcofa, que não vai mais embora, aêê!), pode-se notar também algumas fontes pré-Tarantinescas e pré-Millerescas (nó). O choque entre o monocromático e aplicações em cores (O Selvagem da Motocicleta, de 83, do Coppola), ultraviolência seca e estilizada (típica do mestre Sam Peckinpah), ruídos distorcidos de guitarra, atmosfera dark/surrealista/abstrata e perspectivas sufocantes em plongée (ângulo de cima para baixo, David Lynch rasgado), sem contar o amor, novamente, só que mais ordinário e conturbado do que a intenção original (Coração Selvagem... do Lynch também - vou fazer o quê, o cara é genial mesmo). E pode até ser uma certa forçação, mas a cena das viaturas quase voando me lembrou na hora o cultuado Repo Man, aquela piração punk de 84, dirigida pelo insano Alex Cox.

E já a famosa fidelidade ao original... Lassie perde. Não quero menosprezar o grande Robert Rodriguez, mas está claro que Miller é co-diretor só nos créditos mesmo.


Mickey Rourke/Marv


Bruce Willis/Hartigan


Clive Owen/Dwight

Mickey Rourke está numa situação parecida com a de John Travolta, anos atrás. Após uma eternidade mergulhado no ostracismo total, caiu no seu colo um grande personagem, feito sob medida. Já foi o tempo em que Rourke era o number one lá em L.A., através de hits como Orquídea Selvagem, Coração Satânico e 9½ Semanas de Amor. Esse pode ser o seu melhor momento na telona, em muito tempo. Quanto ao Bruce Willis (que já foi um sub-Mickey Rourke...), eu sempre o considerei o cara certo apenas para os papéis certos. E isso corresponde a... o quê...? ...uns 90% do que ele já fez na telona, com exceção de um ou outro Hudson Hawk da vida. E o Clive Owen é um bom ator, apesar do maneirismo sociopata. Isso já o atrapalhou em papéis que não pediam essa postura, mas aqui cairá como uma luva.

Apesar daquele primeiro teaser esgulapante de foda, ainda não sei a que veio a presença de Josh Hartnett aqui. Se você, um sujeito antenado que visita o BZ regularmente, sabe, por favor, me ilumine com o seu conhecimento. Já o hobbit Elijah Wood eu só fui perceber da segunda vez que vi o trailer. Ele está com o rosto imerso nas sombras, só dá pra ver os óculos. Benicio Del Toro, um cara legal pra cacete, aparece lá, mas bem menos do que deveria, no papel de Jackie Boy. As maravilhosas Carla Gugino e Brittany Murphy também marcam presença, como Lucille e Shellie, respectivamente. E ainda têm Devon Aoki como Miho, Rosario Dawson como Gail... putz.

Recentemente, foi divulgado que o replicante Rutger Hauer interpretará o Cardeal Roark (no ano que vem ele deve bombar, pois estará também em Batman Begins). Os onipresentes Michael Madsen, no papel de Bob, e Michael Clarke Duncan, no papel de Manute, também estão no elenco, mas não devem passar de pontas.

De resto, dois detalhes que me chamaram a atenção...


Nick Stahl no papel de Junior e do Bastardo Amarelo. Só agora a ficha caiu. O mesmo Nick Stahl que fez o John Connor, no ótimo O Exterminador do Futuro 3 - A Rebelião das Máquinas.

Interessante. Geralmente chamam o John Leguizamo para esses papéis... :D


E a esfuziante Jessica Alba e sua Nancy Callahan, repetindo aquela inacreditável rebolada stripper, em versão semi-colorida, com direito a piscadela no final. Coisa de profissional mesmo. Promete superar o show da vampiraça Satanico Pandemonium, de From Dusk Till Dawn (ops, de novo!).

Gostaria de dizer que vou assistir esse filme só por causa dela, mas, pelo andar da carruagem... acho que vou lá é pra ver um filme perfeito mesmo.

Trailer, agora em resolução decente


"VOCÊ É A DOENÇA, EU SOU A CURA"


Precisou uma tragédia familiar para transformar o pacato arquiteto Paul Kersey em uma máquina de fazer justiça. A violência chegou arrombando o seu mundinho perfeito e foi embora levando tudo, mas deixou algo em troca: a natureza selvagem do ser humano. É, somos assim. Às vezes, precisamos de entrar em contato com o "lado negro" para assumirmos a nossa verdadeira face. E quem atirou a primeira bala de calibre 45 foi o Kersey, o emblemático personagem de Charles Bronson no filme Desejo de Matar. Dali, veio um exército de soldados urbanos que perderam suas famílias, em busca de justiça cega. Isso no universo pop, claro. Principalmente em filmes e HQs.

Vou confessar uma coisa. Não faço a mínima idéia se o Batman, quando foi criado, em 1939, tinha a mesma origem que conhecemos hoje. Não sei se naquela época, ele já era motivado pela perda brutal de seus pais, tendo em vista a sua abordagem mais leve. Seja como for, ele é a referência nº1 para personagens desta estirpe. Mas mesmo após DK, o morcego sempre teve um limite intransponível, um código de honra consciente que serve até mesmo para a auto-preservação da sua sanidade frente a toda loucura criminosa que permeia Gotham City. Ele não mata. O que não acontece com Frank Castle, o Justiceiro, curiosamente criado em 1974, o mesmo ano em que Desejo de Matar estreou nas telonas. Ex-combatente no Vietnã, Castle já era napalm pronto para explodir. Muito da violência desenfreada que o vemos cometer hoje vem acompanhando o personagem muito antes dele perder a sua família. E é essa a fina linha que separa o Bruce do Frank.


Entre 95 e 96, foram lançados dois crossovers entre Batman e o Justiceiro. Apesar de bem simplistas, chegam a tocar nessas questões éticas entre os vigilantes. Mas o grosso mesmo são os tiroteios, explosões, galpões em chamas e pancadaria cheia de golpes baixos. E os vilões são bacanas: Coringa e Retalho. O primeiro crossover foi produzido pelo cast da DC: Dennis O'Neil no roteiro e a dupla Barry Kitson/James Pascoe nos desenhos. Na época, Bruce estava fora de ação e quem assumia o manto do morcego era o alucinado Jean Paul "Azrael" Valley. Já no segundo, com o Bruce de volta, foi produzido pela Marvel, com Chuck Dixon no roteiro e John Romita Jr./Klaus Janson nos traços.

Batman/Justiceiro - Lago de Fogo - Link com o cbr, atualizado em 30/08/2017
Scans by: doggma
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Justiceiro/Batman - Cavaleiros Mortíferos - Link com o cbr, atualizado em 30/08/2017
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dogg, ouvindo o álbum Scarlet's Walk, da Tori Amos, sem parar. Essa mulher é perfeita.

segunda-feira, 29 de novembro de 2004

ALÉM DO CIDADÃO LEE












Alvejado por uma de suas próprias flechas (disparada por dois junkies sem qualquer habilidade e em plena crise de abstinência), Oliver Queen, o Arqueiro Verde, se depara com um desafio muito pior do que os supervilões que estava acostumado a enfrentar: o tráfico de drogas. Dessa vez, o Mal não vinha dos confins do Universo ou de outra dimensão. O Mal agora era interior e contava com tantas nuances que tornava a sua resolução praticamente impossível. Para auxiliá-lo nessa verdadeira bad trip, o herói e amigo pessoal Hal Jordan, o Lanterna Verde, em sua concepção da Era de Prata - não por acaso, sua melhor fase.

E assim começava o arco O Pranto dos Pássaros Feridos/A Morte Cresce Dentro de Mim, publicada no Brasil na edição #4 da saudosa Superamigos e uma das melhores e mais atemporais histórias já concebidas nos quadrinhos. Um clássico da abençoada dupla Dennis O'Neil/Neal Adams. Quando eu classifico essa fase de "atemporal" não é à toa. Longe do maniqueísmo e escapismo tradicionais, o roteiro corajoso de O'Neil colocava os heróis enfrentando não vilões, mas pessoas reais, com todos os erros e acertos comuns a qualquer um.

Inteligentemente, os heróis também "sofriam" com os efeitos da realidade e, não raro, demonstravam falhas de caráter e cometiam erros de julgamento. Isso sem falar da temática barra-pesada, muito à frente de seu tempo e sem o glamour familiar das HQs. Já a arte clássica de Adams, além de ser um colírio visual, exibia uma técnica estilosa, bem-acabada e muito acima da média, mesmo para os dias de hoje. Aliás, principalmente para os dias de hoje, infectados por poses sexistas e músculos inexistentes na anatomia humana.

Tudo isso em uma história publicada originalmente em 1971 (!).


Às vezes eu fico com um pouco de receio de ser tachado de saudosista, mas relendo histórias antigas e com esse nível de qualidade, é impossível ficar impassível (putz). A perfeição mora nos detalhes, e até o formato de quadrinhização foi utilizado por Adams como uma ferramenta. Esse trecho, por exemplo, fala por si só. Para ilustrar a dor do Arqueiro ao levar um soco no braço machucado, ele driblou a falta de espaço com uma classe impecável. Conseguiu passar o sentimento surpresa-reação-dor-impotência em apenas um quadrinho fragmentado em sentido descendente. Perfeito.

Isso pode parecer simples (e até é - as melhores idéias não são as mais simples?), mas se fosse nos dias de hoje, qualquer Liefeld ou Bagley da vida transformaria esse mero quadrinho numa página dupla central e ainda assim não conseguiria transmitir a mensagem.


Outra sacada de mestre e característica principal da fase O'Neil/Adams. Mesmo habituados a enfrentar ameaças de porte incomensurável, ao lado da Liga da Justiça ou em suas aventuras solo, tanto o Lanterna como o Arqueiro encontravam as maiores dificuldades ao lidar com o "real". Seus dons acabavam sendo anulados pelo fato de que não há somente o bom e o mau. Na prática não é tão simples, e o uso dos poderes e habilidades ficavam extremamente restritos, pois não havia um "alvo" pré-definido.

Esse momento é bastante ilustrativo. Após a ajuda voluntária de um viciado "que não agüentava mais o seu vício", eles acabam sendo traídos pelo mesmo, que não suportou sequer olhar para o seu traficante sem querer se drogar novamente. Com apenas um golpe, ele pôs abaixo o Lanterna Verde, um dos maiores pesos-pesados das HQs. Irônico e trágico ao mesmo tempo. E genial também.




Até então, Ricardito era só mais um ajudante de Papai Noe... ops, de super-herói. Ele era um sub-Dick/Bucky travado, situação que piorava pelo fato de que o próprio Arqueiro (seu "patrão") sempre foi relegado à condição de coadjuvante. Mas nas idéias e mãos hábeis de O'Neil/Adams, Ricardito adquiriu mais dimensão que muito super-herói de destaque por aí. De bom moço aspirante a herói teen, ele se tornou um... drogadito (putz²) - talvez o primeiro personagem de HQ a passar por uma barra dessa. E bem debaixo da barbicha do Arqueiro, o que lhe rendeu um dos acessos de fúria mais singulares dos quadrinhos. Essa cena é clássica, sem dúvida uma das mais marcantes da história da nona arte.

Drogadi... digo, Ricardito, recebeu de O'Neil um senhor precedente para grandes histórias no futuro. Pense em Tony Stark, o Homem de Ferro, e seu onipresente fantasma do alcoolismo. Com Ricardito seria parecido, mas muito mais intenso, devido à ilegalidade do objeto de seu vício. Infelizmente, num belo equívoco editorial, o personagem ficou abandonado após essa fase, limitado a fazer pontas (sem trocadilhos!) nas entressafras das aventuras principais dos Novos Titãs.

Em novembro de 2000, a DC resgatou essa fase memorável de O'Neil/Adams à frente da revista Green Lantern/Green Arrow, através da série DC Archive Editions. The Green Lantern/Green Arrow Collection, trazia toda essa fase num encadernado de capa dura e 368 páginas. Seria um belo presente de Natal, não fosse o preço sanguinolento: US$ 75,00 (!).

Mais recentemente (setembro último), a editora Opera Graphica resolveu entrar na brincadeira e lançou Lanterna Verde e Arqueiro Verde: Sem Destino, um álbum que contém duas histórias dessa fase: ...E Uma Criança Irá Destruí-lo e Um Mundo Feito de Plástico, ambas inéditas por aqui (essa Abril Jovem...). Agora, as más notícias: o álbum traz apenas 64 páginas à 'módicos' R$ 19,90.

Tudo bem que as histórias primavam pelo "realismo", mas isso não precisava chegar até o preço...

Link:
Excelente matéria sobre a fase O'Neil/Adams, escrita por Rafael Lima, no Sobrecarga



ANIME-SE!


Não sou tão entusiasta assim de animês, com exceção dos tour-de-force habituais do gênero (tipo Akira, Ghost In The Shell, Cowboy Be-Bop, Metropolis, etc.). Mas o estilo sempre me agradou - e muito - pela dinâmica e fluidez. Além do quê, o anime é uma clara representação da cultura japonesa moderna, repleta de inovação e tecnologia, e que, ao mesmo tempo, reverencia sua cultura milenar. É, talvez, o choque "velho/novo" mais harmonioso de toda a cultura pop contemporânea, com a grande vantagem de trazer um raro conhecimento de causa - coisa que o filme A Viagem de Chihiro realizou com maestria ímpar. Pra falar a verdade, até que eu saco um pouco de animês, sim...

E Quentin Tarantino também, ao inserir aquela antológica seqüência animada em Kill Bill. O mérito pela grande idéia é todo dele, já o mérito pela eficiência técnica vai pra Production IG, a empresa responsável pela inspirada animação. Para quem (como eu) ficou querendo mais daquele anime session surrealista, o Linkin Park (banda que eu rotulo de playstation rock) resolveu embarcar na onda e contratou a Production IG pra dar um "trato" no clip da música Breaking The Habbit, do álbum Meteora.

Claro que ali foi mais timing e oportunismo barato do que genialidade propriamente dita. Mas que ficou bom pra cacete, ficou (tem até um construto igualzinho ao do filme Contato, com a Jodie Foster).








A propósito, eu não assisto à MTV... mas imagino que você já deve ter assistido esse clip no mínimo umas 4.000 vezes. Eu baixei dia desses e só vejo de vez em quando. :P


QUE METEORO DE PÉGASUS QUE NADA...!


Porradaria de primeira mesmo rolava em Street Fighter 2 Victory, exibido no Brasil em 1995, pelo SBT. Num estranho (e feliz) acaso, a série estreou por aqui apenas seis meses após sua estréia no Japão. E depois de uma tenebrosa série animada americana (Street Fighter versão G.I.Joe?!), SF2V funcionou como uma espécie de catarse sensorial, devolvendo aos personagens toda aquela emoção e fúria em frente aos fliperamas, com direito a "geral" lotada. Eu já até comentei sobre isso por aqui uma vez, mas depois de reassistir à essa pérola... preciso dar vazão ao entusiasmo, e é aí que entra você, caro leitor. :)

SF2V conseguiu a proeza de criar um background, se não verossímil, ao menos aceitável, para os personagens. Na verdade, sempre houve um senso comum do que eles poderiam ser, e isso já era perceptível mesmo na velha plataforma 2D. Eu, por exemplo, nunca imaginei a Chun Li como uma vilã, ou o carniceiro Vega como um mocinho. A índole dos personagens já era subentendida, e pra saber a origem de cada um, bastava zerar o jogo (o que eu nunca consegui fazer com o desengonçado Dhalsim).

Em 29 episódios, a série era centrada em Ryu Hoshi e no playboy Ken Masters, amigos de infância e exímios lutadores. Eles se reencontram após vários anos e Ken banca uma turnê mundo afora, em busca dos maiores lutadores do planeta. E é isso...! A premissa era básica ao extremo (como de se esperar!), mas executada tão bem, de forma tão empolgante e competente, que era impossível não se emocionar. Sem o crivo da M.P.A.A. e das zilhões de siglas de órgãos de censura norte-americanos, a Capcom (dona dos direitos do game) largou a equipe japonesa à vontade. E a pancadaria comeu solta.

Pra alegria dos fãs, SF2V era violento com força! Espirros de sangue, lacerações e ossos fraturados eram lugar-comum na série. Dificilmente seqüências gráficas como a luta entre Ken e Vega passariam pelo crivo da censura norte-americana. Os combates era muito bem tramados e "coreografados", sempre ao som de muito rock pesado e tecno. A trilha sonora de abertura, aliás, é um primor à parte, lembrando um mix do tema de Exterminador do Futuro com a pegada épica de Jerry Goldsmith (tá, exagerei um pouquinho).

Outro detalhe interessante - e relacionado à cultura japonesa - é a maneira como o sexo comparece em SF2V. A sexualidade ali é mostrada de uma forma mais natural, libertadora e até inocente (da maneira como eles o enxergam), não libidinosa e contraventora (como nós o enxergamos e na maioria dos casos, queremos). Mas calma, não existem hentais nos desenhos não. Eu me refiro apenas ao subcontexto que veio camuflado, como na cena de topless da sexy Cammy e em seu uniforme pra lá de sumário, e, principalmente, no embate/dominação entre Bison e Chun Li, onde seu vestido é reduzido a pedacinhos bem estratégicos.

Os episódios de Street Fighter 2 Victory são uma beleza de se assistir, altamente empolgantes. Pena que foi tudo muito breve. Para os incautos, recomendo uma generosa sessão de downloads no KaZaA. Todos os episódios estão lá, o que me faz agradecer à Hórus pela existência dos P2P.

Seguem uns shots, pra matar a saudade.


Ken e Ryu, treinando ainda moleques...


...e mais tarde, já adultos e batendo muito mais forte


Vega... traiçoeiro, impiedoso, ultra-violento...


...e retalhando Ken de fora a fora


O temível Bison e o misterioso artefato que lhe confere o Psycho Power


O combate final... o esperado momento do ajuste de contas...


Bison, esbanjando energia negra...


...e esfregando o chão com a cara do Ken!


Ryu, invocando o Hadouken...


...a energia primordial...


...e Bison, esperando seu primeiro desafio digno em muito tempo!

Foda, foda, foda! Já quero até assistir de novo. E como diria o slogan/grito de guerra do desenho...

"Nós vamos ao encontro do mais forte!"



dogg, que queria ganhar Lanterna Verde e Arqueiro Verde: Sem Destino de Natal, mais o DVD-Box de SF2V (um pacote natalino, na verdade!), ao som de Tornado of Souls, do CD ao vivo do Megadeth.