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sexta-feira, 12 de maio de 2023

Até mais, Guardiões da Gunnláxia


Guardiões da Galáxia Vol. 3 passa a nítida impressão de um James Gunn tirando um peso enorme das costas. Compreensível. O filme representa o fechamento de um extenuante ciclo criativo e pessoal. Fora a pressão, o ritmo industrial e a saturação que assolaram o MCU nos últimos anos, cabe lembrar que o cineasta conheceu o céu e o inferno do showbiz em tempo recorde — com direito a um raríssimo "descancelamento" no processo. Mesmo com o cenário desfavorável e as malas já desfeitas na casa nova, o filme parece alheio a tudo isso: Guardiões da Galáxia Vol. 3 é espetacular. Para mim, o pipocão do ano até aqui. Mas com profundidade. E conferindo um sutil senso de conclusão à trilogia.

Senso de conclusão, não uma conclusão per se, claro. Afinal, é da Marvel que estamos falando.

Gunn finalmente realiza a catarse que vinha tramando desde 2014. Despede-se em grande estilo e ao mesmo tempo mostra que guardou o melhor para o final. E por que guardou. Vamos combinar, o sujeito é um prodígio neste segmento. Não é todo mundo que consegue amarrar tantas pontinhas soltas, alinhar a continuidade da série própria com a cronologia-matriz, desenvolver e pontuar a jornada pessoal de pelo menos oito personagens do núcleo principal e ainda entregar o fanservice de ação e efeitos alucinantes que se espera e mais. Vol. 3 conduz tudo numa sintonia tão fina que passei pano para as eventuais deficiências com um sorrisão estatelado no rosto.

Como já comentei antes, uma das qualidades mais bacanudas do cinema-gibi de Gunn é o bizarro, o ridículo e o colorido assumidos em toda a sua glória. E isso é praticamente o código-fonte de uma HQ de super-herói. Os tons exagerados e lúdicos montam o palco perfeito para a violência demencial e até mesmo o body horror do velho Gunn veterano da Troma.

Neste sentido, fazia tempo que não via o PG-13 levando tanta estocada de um diretor. Desde o Duas-Caras, para ser exato.


Na premissa, a comunidade de Lugar Nenhum é atacada por um superser e um dos Guardiões acaba ferido gravemente. Dali em diante, é aquela mesma pegada space road movie, com os heróis correndo contra o tempo para salvar a vida do amigo. Simples assim. E método-Stan-Lee-de-criar-roteiros assim. Se foi intencional ou não, vai saber. Mas há nesta síntese uma beleza poética para gibizeiro que devorava Marvel durante os anos 1970-1980 nenhum botar defeito. E isso não se encontra mais nem nos quadrinhos atuais, meu chapa.

É notável a facilidade do diretor em dialogar com todo tipo de público — tanto que, nos minutos iniciais, pensei seriamente em mudar de cadeira para fugir da tagarelice de um grupo de menininhas que estava na fileira de trás, mas, ao que parece, o filme foi universal o suficiente para calar engajar todas elas, que passaram a se expressar apenas nos momentos adequados. Idem para os tiozões do zap que estavam ao lado. Isso teve muito a ver, principalmente, com uma das marcas registradas de Gunn: as piadinhas.

Elas estão mais bem inseridas, embora algumas ainda se estiquem demais após a punchline. O que foi um problema para mim, mas não para a maioria na sala, que se mijou de rir. Então fechou. Ainda mais porque elas não atropelam as pausas dramáticas e emocionais, uma patinada recorrente em todo o catálogo da Marvel Studios. Aqui, as cenas sérias foram devidamente respeitadas, sendo, de longe, as mais bem elaboradas da filmografia do diretor. Algumas triscam perigosamente a linha do melodrama, mas ao menos dois momentos são de arrasar até os corações mais gélidos. Mesmo.

Ainda nesse toma lá/dá cá de altos e baixos: música demais. Sei, sei, a franquia dos Guardiões resgatou a trilha jukebox para o mainstream, piriri, pororô. Mas, de novo, é música quase o tempo inteiro. E obedecendo a regra, já estava meio que repensando a experiência e o cara me vem com as clássicas "We Care a Lot" e "No Sleep Til Brooklyn" — esta última rolando no talo durante uma das sequências de porradaria mais eletrizantes do MCU.

Acertou em cheio o meu Calcanhar de Aquiles Funk Metal.


Na já extensa galeria de vilões do MCU, é seguro afirmar que o Alto Evolucionário merece um lugarzinho lá no... alto. O ótimo Chukwudi Iwuji defende com paixão as motivações de seu personagem e constrói uma figura calculista e absolutamente cruel. Com talento ímpar, ele vai preenchendo várias camadas do perfil unidimensional do geneticista. Há uma cena de derrotismo intelectual que é simplesmente fantástica. Logo se vê que aquilo não é material Hollywood. Não mesmo.

Em que pese sua grande atuação e mais o surrealismo de ver a Contraterra numa telona, o visual do personagem, um tanto cospobre, não ajudou. O jeito foi abstrair e curtir a piadinha com um ícone do cinema-porrada oitentista. Aquela foi boa.

Will Poulter, por sua vez, teve a ingrata missão de personificar um Adam Warlock que de jeito nenhum é o Adam Warlock. Pelo menos, não aquele que estou olhando agora na lombada de Guerra Infinita. Criado pelos Soberanos para se vingarem do balão que tomaram dos Guardiões no início de Vol. 2 (olha outra ponta amarrada aí), o personagem é meramente uma muleta com a mecânica de qualquer variante do Superman. Aliás, aquilo seria um trabalho para o Gladiador, se Kevin Feige não fosse tão FRANGOTE com qualquer coisa ligada aos X-Men nos cinemas. #prontofalei

Mas, aí, consigo ver esse Adam Warlock amadurecendo e virando Adam Warlock um dia.

Em relação aos Guardiões como um todo, rola mais uma vez aquela admiração pelo que a Marvel construiu ao longo dos anos. O ambiente de trabalho deve ser incrível. A química de todos em cena soa tão natural quanto poderia. O Peter Quill deprezaço de Chris Pratt, a Gamora resetada de Zoe Saldaña, a Nebulosa upgradeada de Karen Gillan, o Groot mais parecido com o Vin Diesel até agora, o Drax nonsense de Dave Bautista e até a despropositada Mantis de Pom Klementieff funcionam por serem disfuncionais. É a vitória dos outsiders. E viva as diferenças.

E na nota mental-marvete, os Saqueadores ganharam seu melhor visual nesta saideira, lembrando até a equisitice da velhusca Legião Alien. Cof, cof.


E entre tantas ramificações e amarrações, o filme é do Rocky Racum. Malandramente, Gunn protelou por anos até revelar a sua origem cinematográfica — diferente das HQs — e foi um golaço. É emocionante, é impactante, é visceral. James Gunn escolhe não aliviar para o espectador em nenhum momento. O resultado é corajoso e incomum vindo de um blockbuster. Especialmente difícil para quem gosta de animais, mas levanta uma discussão urgente e necessária.

São soberbas as performances vocais de Bradley Cooper e de Linda Cardellini (a Laura Barton) no papel da doce lontrinha Lylla. Que, por sinal, trocou de espécie. Já o morsa Teefs/Wal Russ ficou igualzinho. E certamente o maravilhoso quadrinho WE3: Instinto de Sobrevivência, de Grant Morrison e Frank Quitely, foi uma grande referência para o diretor.

Será que um dia ele volta? Foi Gunn demais enquanto durou...

terça-feira, 17 de setembro de 2019

"...And I will strike down upon thee with GREAT VENGEANCE and FURIOUS ANGER those who attempt to poison and destroy my brothers!"

Eita porra! Esse sim era o teaser do Rambo 3 que eu estava esperando!


Após todas as brutalidades da série, principalmente a carnificina a céu aberto de Rambo IV, é claro que o velho Sly não iria miguelar no grafismo agora, na reta final. Mas é sempre bem ter a garantia de uma pipoca bem aproveitada.

Rambo: Até o Fim - e perdemos o trocadilho do subtítulo - enxaguará os cinemas americanos com uma pororoca de sangue na sexta-feira, dia 20. E no Brasil um dia antes. Yowza!!

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

KILLING IN THE NAME OF


Rambo IV (Rambo, 2008) me trouxe uma certeza que há tempos eu buscava. Sempre achei que se aquele sujeito cabeludo fosse explorado de maneira menos ideológica e mais pessoal, revelaria uma psique em frangalhos. Qual seria a fronteira entre o certo e o errado do ponto de vista de - vamos entrar na brincadeira - um membro da elite das Forças Especiais, arrastado além de seus limites físicos e psicológicos? No mínimo, desfocada. O assunto já rendeu vários longas (Sob o Domínio do Mal, Caçado, Elite Squad) e uma trilogia inteira (Bourne's), e em todos eles os "heróis" estão quase submersos na loucura. Parece ser o que Sylvester Stallone tenta elucidar nesta nova investida de seu personagem mais globalizado. O que antes era um comercial de democracia american way, com o Campeão Bombado da Liberdade surrando a fuça de algum estereótipo comunista/ditatorial em tons coloridos e vibrantes, agora é um retrato sombrio e visceral. Fica claro que as novas motivações de John Rambo, personificação da América coerciva que é, vêm com um amargo, decepcionado e arrependido desencargo de consciência.

O roteiro, de Sly e Art Monterastelli, é bastante econômico, mas sobretudo instintivo. Foi preciso apenas um "Fuck The World" para traduzir em termos o que sentia um cara que: foi hostilizado por aqueles que defendeu na guerra; foi abandonado por suas fileiras em território inimigo; e que - mais uma vez salvando o traseiro da América da ameaça comunista - ajudou talibãs e futuros terroristas a reinarem soberanos no Afeganistão, sem imaginar a merda que isto iria render um dia. Então, nada mais pragmático num mundo em que os caras maus não andam por aí com uma marca vermelha na testa - desde que você tenha A Bomba, claro.

A própria imagem do protagonista remete ao atual estado de espírito desta Velha América. Longe daquela forma e agilidade de iron-man, Rambo agora é um farrapo triste e austero. E novamente refugiado entre nativos de uma região isolada, o que é curioso, dada sua proximidade com uma zona de guerra - detalhe que parece sempre estar presente em suas escolhas de moradia (tenho certeza que isto renderia outra elucubração psico-geopolítica de boteco, mas deixa então pro boteco). O início do filme dá uma boa idéia do clima de pesadelo que domina a área. Ao invés do Tio Sam, desta vez é um grupo de ajuda humanitária quem pede auxílio ao velho soldado. Após vários avisos, Rambo concorda em transportar a equipe com seu barco para "além da linha vermelha" - mas não pela ilusão de estar mudando o mundo com isso, e sim convencido pelo discurso/semblante deslavadamente Madre Teresa da missionária Sarah Miller (Julie Benz, de Dexter).

Durante a viagem, eles são abordados por piratas que querem raptar Sarah. O ex-boina verde se vê obrigado a trabalhar e dá uma aula de como não se faz prisioneiros. Ao ter seus métodos questionados por um dos médicos da missão, ele agarra seu pescoço e metralha: "They would've raped her 50 times and cut your fuckin' heads off! Who are you? Who are any of you?" Esse é o clima.


Apesar de chocado com o episódio, o grupo decide continuar, cheio de boas intenções e nenhuma arma na bagagem. Não demora até um pelotão carniceiro de militares birmaneses entrar de sola na vila que está sendo amparada. É neste momento que somos apresentados ao Rambo pós-Pulp Fiction, pós-O Resgate do Soldado Ryan, pós-Falcão Negro em Perigo, pós-Hostel, pós-Viagem Maldita. Desde o seqüestro do Cel. Trautman, foram quase duas décadas de chafurdações NC-17. E vieram com juros. Bancários.

Quando respondeu as críticas que afirmavam que Rambo IV é um dos filmes mais violentos já feitos, Stallone declarou: "Not one of the most. The most. I worked very hard for this". Sendo assim, ele pode se orgulhar da cria - a seqüência da vila é incomodamente longa, de um grafismo brutal e sádico. Pessoas são desmembradas com rajadas de balas, explodidas, incendiadas, mulheres são violentadas, crianças são mutiladas. É chacina filmada de trás das trincheiras. Tão realística, crua e desesperadora quanto foi no aterrador Savior - A Última Guerra (Savior, 1998). Um soco na boca do estômago.

Muito se discute sobre o que é justificado ou não em cenas de violência extrema no cinema. Neste caso específico, tenho certeza de duas coisas: 1) Sly escolheu a dedo o cenário de crise que iria abordar (ano passado, a isolada Birmânia/Myanmar se revelou a nova filial do capeta na Terra), talvez até contribuindo para a denúncia em outros meios; 2) Era a lenha necessária para a fogueira de Rambo. Em nenhum dos filmes da série os antagonistas se mostraram tão revoltantes. Neste sentido, há uma grande sacada do Sly-diretor ao transformá-los em agentes impessoais, produtos de um sistema maior que jamais caberia em 91 minutos de celulóide (lembrando muito o caos sócio-político de O Sobrevivente, de Werner Herzog). Um bom exemplo é a inclusão dos insurgentes Karen na reta final (mais rebeldes? Oh-oh...).

O militar anônimo que lidera o pelotão birmanês, o Vilão per se, não é nenhum General Kurtz e quase se confunde com seus subordinados - diferente dos oficiais do alto escalão dos filmes anteriores, verdadeiros aristocratas de fardas impecavelmente engomadas fazendo a revista semestral nas latrinas de seu exército. Consumindo cigarros tediosamente enquanto aldeões são massacrados, aos poucos ele revela um perfil simplório. Institucionalizado, unidimensional e, curiosamente, gay e pedófilo.


Acho que é evidente que Stallone está se tornando um diretor bem interessante. Pelo menos, muito melhor que a maioria dos que já o dirigiram. As cenas de guerra são frenéticas e orquestradas com esmero, sem os vícios action hero típicos, incluindo o nuke de bolso improvisado (uma mina Claymore plantada no pé de uma bomba Tallboy da 2ª Guerra). As nuances dramáticas são breves e sugestivas, balanceando o que Stallone quer fazer com o que ele consegue fazer. Sua abordagem não poderia ser mais sóbria e consciente. Um homem beirando a 3ª idade (06/06/1947) cujo percurso traumático há tempos arrancou sua sanidade dos trilhos - no clímax de um pesadelo, Rambo é morto pelo Cel. Trautman, em alusão à cena deletada do filme original, constante no livro no qual foi baseado.

E pela primeira vez, Sly dá um passo em direção às suas origens, sinalizando positivamente o destino do personagem. Provavelmente o que seria a próxima parada de John antes de ser detido pelo Xerife Will, há 26 anos atrás. Promissor...

Trilha de operações: RATM, Neil Young, AC/DC, Black Sabbath. Nada de "Let The Bodies Hit The Floor".

domingo, 11 de fevereiro de 2007

STALLONE ROCKY


Em certo momento de Rocky Balboa (2006), um dos personagens, um comentarista esportivo, se empolga: "Nunca imaginei que um dia eu iria cobrir uma luta do Rocky!" Do lado de cá, eu dizia o mesmo em relação à ir ao cinema para assistir um filme da série (o ep. IV rolou num longínqüo 1985 e preferi não ver o desacreditado ep. V em 1990). Provavelmente, era este mesmo o recado que Sylvester Stallone - e seus diálogos são diretos como um gancho de direita, rá-rá - quis mandar: se você ainda não viu um Rocky movie devidamente acomodado em uma sala escura, com todos os acessórios refri-pipoquísticos, e com a geral indo ao delírio a cada punch desferido, esta é sua última chance. Sim, a série Rocky foi importantíssima a este ponto, sendo a catalisadora de papos de boteco por, no mínimo, umas três gerações.

Vejo cinéfilos xiitas - a-a-a-pleonasmo-tchimm - se contorcerem de desdém quando lembrados que Rocky, Um Lutador ganhou Oscar e o escambau. Que tirou Sly do gueto, alavancou uma franquia zilionária e foi um dos maiores símbolos do cinema pop. Que Bill Conti nunca foi tratado como um John Williams ou um Jerry Goldsmith, mas compôs um dos temas mais conhecidos da História. Que o boxe profissional ganhou uma legião de adeptos cujo primeiro contato com o esporte foram os catiripapos absurdos dos filmes. E que tudo isso tenha sido criado, medido e pesado pela balança ergométrica de Stallone.

Aquela estátua de bronze estava certa. Rocky Balboa é um ícone. Não tem erro. Além de personificar a figura do working class hero à perfeição, a saga do personagem é uma fábula perneta de superação às mazelas da vida e de amor ao esporte. E uma das maiores produtoras de clichês dramáticos e de ação dos anos mil novecentos e oitenta. Sim, a minha geração se rendeu diante do discurso populista e repleto de emoções baratas - sempre as mais eficientes - constantes em Rocky, a série. Porque Mick (saudoso Burgess Meredith) era uma figura paterna que emocionava pra valer, porque Clubber Lang era o sujeito mais execrável da face da Terra por desrespeitar Adrian daquele jeito ("ei mulher... quer conhecer um homem de verdade? Vamos pro meu apartamento"), porque o robô soviético Ivan Drago era assustador, porque eu também fiquei chocado com a morte de Apollo, o Doutrinador, porque Paulie foi um irresponsável por perder toda a fortuna do clã Balboa, porque Tommy Gunn foi um maldito ingrato por trair Rocky depois de tudo que ele fez, porque...

Bem, lá estava eu entrando na sala para assistir um Rocky. Era a minha última chance.


Na história, Mason 'The Line' Dixon (Antonio Tarver) é o atual campeão mundial dos peso-pesados. Frio, técnico e sem empatia com o público, Dixon atropela os adversários como um rolo compressor. Acusado de escolher apenas desafiantes de baixo nível e conferir uma pecha de impopularidade ao boxe, ele sente na pele que não basta ter o cinturão para ser um campeão. Esta é a metade da história a ser completada. A outra nos mostra Rocky, agora viúvo e dono de um simpático restaurante onde, além da saborosa comida italiana, ele serve histórias dos áureos tempos de ringue. Amargando a ausência de Adrian (num belo retrato do processo de luto), e atravessando uma crise de meia-idade pugilista, o Garanhão Italiano acaba surpreendido pela polêmica em torno de uma simulação computadorizada (ótimo CGI!) de um combate entre ele, no auge, e o campeão Dixon. E como todo grande lutador sempre tem uma última luta dentro de si...

Algumas subtramas são rabiscadas no decorrer do filme, sendo a de Rocky Jr. (Milo Ventimiglia, o Peter Petrelli, de Heroes) a mais relevante no contexto dramático. O cunhado e velho companheiro Paulie (Burt Young, um grande-graaaande ator, confiram em Transamérica) também está de volta, com o mesmo mal-humor e ranhetice.

Quem cresceu à base de reprises e eventuais locadas dos filmes da série, se prepare. Sly arquitetou um verdadeiro Balboa tour e vários elementos, citações e locações da série são (re)visitados ao longo da história. Até as tartarugas estão lá (e devem ser as mesmas atrizes). A maioria das referências foram calcadas no primeiro filme, mostrando que Stallone tem a exata noção do patrimônio que criou. Desde a lojinha de animais até o velho ginásio de Mick, passando pelos bares vagabundos e a paisagem industrial daquela Philadelphia decadente - a reverência à cidade que tanto significou para sua carreira rende alguns dos momentos mais poderosos do roteiro (é isso aí... o cara que um dia foi o Cobra escreveu palavras poderosas). Sly insere até um inequívoco bom humor para suavizar a melancolia deste semi-flashback (sai Eye Of The Tiger, entra Somebody Told Me, do The Killers). Sem contar a excelente sacada que teve ao resgatar um dos personagens do filme original. Chega a dar uma fisgada no cérebro.

E os elogios não páram por aí. Na contramão dos filmes anteriores, Sly acerta em cheio em não demonizar Dixon. Ao acompanhar sua busca pessoal dentro do esporte, ele humaniza o personagem e cria uma expectativa por superação e redenção equiparável à do próprio Rocky. É quando chega a aguardada luta entre gerações e você sabe que está lá no cinema assistindo um Rocky sem ter idéia do desfecho... que é de arrepiar.


Com sua longa experiência e o dom de rir de seus erros, Stallone faz de Rocky Balboa uma metáfora de sua própria trajetória, além de se despedir dignamente de seu melhor personagem. Rocky Balboa é filme-celebração. E também uma justa homenagem a todos os atores que abraçaram a série e, principalmente, aos fãs que jamais abandonaram o velho Olho de Tigre desde que ele se reergueu primeiro naquela batalha épica contra Apollo Creed.

Mick ficaria orgulhoso.



ROCKY - BALBOA

A trilha oficial é uma compilação daqueles hinos que todo mundo já conhece. Vai ser empolgante assim lá em Ibiza. Fora os standards clássicos do Bill Conti, tem o Survivor em dose dupla, o James Brown pasteurizado de Living In America, as bagaceiras oitentistas e divertidas pra chuchu de Robert Tepper e John Cafferty (habituée daquelas trilhas da Souza Cruz) & us mano do Three Six Mafia dando um rolê num Opalão tunado.

Só não deu pra entender a ausência de Take You Back, aquele do-woop cool do primeiro filme que rolou até no trailer.


Na trilha: Adriiiaaaaaannnn!! :P

quinta-feira, 11 de novembro de 2004

Operação Resgate:

Juiz injustiçado! (Sacaram?? "Juiz"... "injustiçado"... ha ha ha... ai)




Antes de caçadores gangsta de vampiros, sexy-symbols portadores do gene X e aranhas radioativas, a classe super-heroística teve um bom representante nas telonas. Se bem que isso é relativo, visto que Judge Dredd não tem nenhum superpoder de fato. Em compensação, ele tem treinamento e disposição para todo tipo de combate, e uma submetralhadora ultra-sofisticada que obedece comandos de voz.

No século 22, o mundo foi parar naquele lugar mesmo que você sempre imaginou. Após uma festa junina repleta de buscapés nucleares, nossa querida Mãe Terra se tornou um ambiente inóspito, onde a civilização (na verdade, apenas um resquício dela) ficou encerrada em concentrações urbanas denominadas Mega Cities. Lá, predomina um sistema totalitário de ordem, o qual as supostas antigas falhas de urbanização são contornadas pelo velho recurso do toma-lá-da-cá. Nada muito sofisticado, mas com um apelo radical: os pacificadores agora são, ao mesmo tempo, acusadores, jurados e juízes. E alguns casos, eram os executores também.

Em Mega City One, Joe Dredd e seu irmão, Rico Dredd, foram clonados da antiga linhagem do Juiz Fargo, em 2066. Incorporados à severa conduta da Academia de Juízes, logo eles se tornaram os melhores cadetes de sua história. Após uma graduação com honras em 2079 (molequinhos ainda!), Joe seguiu carreira, se tornando finalmente o afamado Juiz Dredd, enquanto Rico foi "pro outro lado da rua". O embate entre os dois, é claro, se tornaria inevitável. O mais estranho é que a linha temporal de Dredd hoje se passa em 2126, o que deixaria o Juiz com 60 aninhos. Praticamente um desembargador.

Judge Dredd e seu instigante universo foram criados por John Wagner e Carlos Ezquerra (e vamos ser justos, Pat Mills também), em março de 1977, para a inglesa 2000AD. Sua primeira aparição foi na história Prog 2 (em preto e branco), e ali já era evidente algumas características onipresentes no background do carrancudo Juiz. Coisas como a falência do estado democrático, o conflito iminente entre camadas sociais, a revolta de grupos urbanos vítimas de descaso do sistema, sectarismo anarquista e nazi-fascista, e o resultado disso tudo: ultra-violência. Hoje é muito fácil você abrir uma Marvel MAX, qualquer edição do selo Vertigo ou Ultimate, e se deparar com cenas de sanguinolência desenfreada. Mas naquela época... Judge Dredd já trazia esses "agrada-multidão", mas com o diferencial do conhecimento de causa.

Nada era gratuito e o próprio Dredd era reconhecidamente uma versão futurista do velho "Dirty" Harry Callahan. Dredd era o produto final de um sistema totalitário, ditatorial e fascista (e aí não existe redundância). Na verdade, a única diferença entre Dredd e Harry era o seu mote. Ao invés do clássico "Go Ahead Punk... Make My Day!", Dredd era um "pouco" mais direto: "I Am The Law!". E toma um tirambaço na cara, sem julgamento. Ou melhor... com julgamento, mas naquele meio tempo, entre puxar a arma do coldre e apertar o gatilho. Ah, se a falecida Pauline Kael* lesse quadrinhos...

* Respeitada crítica americana de Cinema e voraz detratora de Clint Eastwood.


Se o mundo fosse perfeito, O Juiz (Judge Dredd/1995) seria dirigido pelo Spielberg de Minority Report ou de A.I.. Ou seja... um Spielberg incorporado pelo exu-caveira Stanley Kubrick. O conceito de Dredd é cinematográfico até não poder mais. Suas primeiras histórias (aquelas, ainda em preto e branco), se parecem mais com story-boards de filme de ficção do que com quadrinhos. Mas, por incrível que pareça, o filme foi surpreendentemente bem resolvido. E é aí que está a contradição.

O Juiz foi um fracasso retumbante de público, e foi mais espancado pela crítica que boneco de Judas em dia de Páscoa. Orçado em 60 e poucos milhões de doletas, o filme não recuperou nem 5% disso. O diretor Danny Cannon levou uma paulada tão forte no currículo que só voltou a ser destaque com... putz... Eu Ainda Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, que não vale nem os caracteres que eu digitei aqui. O Juiz Sylvester Stallone foi indicado ao famigerado Framboesa de Ouro, como "melhor" ator. Enfim, em termos de popularidade, O Juiz só não foi pior do que Michael Cimino e seu Portal do Paraíso, que conseguiu falir a tradicional MGM.


Isso posto, afirmo categoricamente: O Juiz é sim um bom filme baseado em HQ. Apesar de trazer uma herança pesada do cinema de ação oitentista, o filme conseguiu transpor o ambiente futurista dos quadrinhos até com um certo louvor. Muito mais do que os filmes do Batman dirigidos pelo Tim Burton, eu diria. Tudo bem que o material já era bem propício para uma adaptação, o Dredd praticamente pedia isso.

A atmosfera dark future/cyberpunk à Blade Runner, e o pano de fundo que envolve conspirações governamentais, taxas exorbitantes de criminalidade e experiências genéticas ilegais, eram temas ainda pouco explorados na época. Fora que Dredd era um sucesso absoluto no reino dos Windsor, mas na terra do Tio Sam... Estadunidense tem o peito estufado pra fora, com uma estrela no meio. Eles preferem o ensolarado Capitão América.

Outro fator complicante: a presença de Stallone. Fora de seu habitat natural (Rocky, Rambo, ou derivados de Cobra), ele nunca teve uma boa recepção, ainda mais em se tratando em uma adaptação cinematográfica de quadrinhos - que, na época, estava anos-luz do conceito dos filmes do gênero pós-Bryan Singer. Mas a verdade era uma só: assim como Wesley Snipes/Blade, Hugh Jackman/Wolverine e Thomas Jane/Frank Castle, Sly era o Judge Dredd. A canastrice e a voz gripada finalmente encontraram um lugar-comum. E a carranca era igualzinha. Pelo menos enquanto ele estava com o capacete...


Fato: Dredd jamais, jamais tira o capacete. Conceitualmente, ele garante que Dredd seja a extremidade personificada do sistema que defende. Pra quem não está habituado, e acha que "não é nada demais" que ele retire a indumentária de vez em quando, imagine, em igual proporção, o Wolverine sem as garras, o Aranha sem as teias, o Capitão América sem o escudo, ou o Clark sem voar. Dredd sem o capacete é justamente a representação do que ele tanto combate, que é o individualismo, a ruptura do sistema, o comunismo. Para ele, é ideologicamente ofensivo retirar o capacete em público.

É certo que dificilmente Stallone protagonizaria um filme sem mostrar a sua cara feia. Seu estrelismo exacerbado também entrou em colisão com o diretor Danny Cannon, que jurou nunca mais trabalhar com astros - promessa que cumpre até hoje. Apesar disso, o filme conseguiu representar bem a complexa hierarquia autoritária de Mega City. Os efeitos especiais ficaram de bons a surpreendentes, naquela época pré-Matrix (o primeiro vislumbre de Mega City é sensacional).

O roteiro, do fraquinho Steven E. Souza (diretor do tosco Street Fighter - A Última Batalha), é básico ao extremo, mas consegue ilustrar razoavelmente bem a origem de Dredd, Rico (Armand Assante, exagerado, mas divertido), e a relação com o Projeto Janus. O figura Rob Schneider também está lá, no papel do malandro Fergie, um típico coadjuvante cômico. Jurgen Prochnow é o Juiz Griffin, o vilão malaco da vez. O ilustre e onipresente (no sentido literal da palavra!) Max von Sydow comparece, como o Juiz Fargo. Já um pequeno vacilo foi a sempre linda Diane Lane, como a Juíza Hershey, quando a personagem deveria se chamar Juíza DeMarco, igual à HQ.

A maquiagem deu um show à parte, principalmente no personagem Mean Machine (Christopher Adamson, idêntico). Inimigo tradicional de Dredd, Mean Machine é um ciborgue canibal que vive na Zona Proibida, a área devastada fora das Mega Cities. Sua caracterização (e cauterização!) ficou perfeita, e impressionante! Já o robô ABC, relíquia das Guerras Robóticas, no início do século 22, e atual guarda-costas de Rico, ficou bem legal, mesmo sem CGI - talvez legal até pela falta dele.

A seguir, uns sketches do cenário e do autômato de guerra ABC, que comparecem fielmente no filme, retirados do livro The Art of Judge Dredd. Clique nas imagens para ampliá-las.






O Juiz está longe de ser um filme perfeito, mas ficou muito melhor do que a maioria das produções do gênero. E é divertido até hoje. Me atrevo até a dizer que estava à frente do seu tempo (e estava). Merecia uma carreira melhor, com certeza.



A propósito, eu não sabia que Judge Dredd já teve revista editada no Brasil. Só o que eu via por aí eram crossovers com o Batman, Lobo, ou os ETs-para-serviços-gerais Aliens e Predador. Pois a editora Pandora Books resolveu mostrar uns tiroteios do Juiz barra-pesada, em versão tão curta quanto cara. Em dezembro de 2000, era publicada a revista Juiz Dredd #2, com menos de 30 páginas e custando R$ 5,00 (!!). Dredd certamente mataria os editores da Pandora.

O Universo HQ já fez um review dessa edição. Confira a resenha aqui.

A revista tá aí, zipada num banco do Yahoo. Ou seja, apesar de ser mais "fácil", após alguns downloads, o arquivo é bloqueado e só volta depois de 1 hora. Pra facilitar o rodízio, eu uploadeei duas vezes. É só clicar com o botão direito do mouse e escolher "Salvar destino como...". Se um não rolar, tente o outro. Se nenhum dos dois rolar, vai comer um cachorro-quente na praça e tente depois.


Links expirados há muitos e muitos anos, mas um dia, quem sabe, escaneio de novo


Links:
A resenha-símbolo das críticas negativas ao filme...
B.O. completo de Dredd, pela lendária 2000AD...
Excelente retrospecto de Dredd, com uma pá de links, referências, analogias e o escambau... imprescindível!



dogg, ouvindo direto I Am The Law, homenagem do Anthrax ao personagem (claaaaro), e I'm Afraid of Americans, do David Bowie com o Nine Inch Nails...

quarta-feira, 9 de junho de 2004

"...SEGUNDO LUGAR FEDE!"

(Bob "Bull" Hurley)


"Muito bem. É concebível que você possa me derrotar, vingador. Mas levaria muito tempo" - Palavras de Bruce? Não, palavras de Kurt Busiek, que amarelou em um dos confrontos mais aguardados de JLA vs Avengers. É, amarelou mesmo, pois o cara nem teve culhões para levar a luta até o final. Qualquer resultado ali seria respeitado, mesmo que o Bruce perdesse a contenda - desde que fosse bem tramado, claro.

Eu costumo chamar de "talentoso" aquele que consegue mudar a opinião de terceiros - inclusive dos radicais. Definitivamente, esse não é o caso de Busiek, que parece um Salieri da 9ª Arte (sabe tudo, mas não tem talento pra praticar).


Agora, errar é humano, mas insistir... É triste que muitos ainda levem a sério aquele "desabafo" do Bruce lá em cima. Nesse ponto o Busiek não tem culpa, afinal, ele só lançou a isca. Só mordeu esse engodo quem não usou a capacidade humana de questionar. Considerando que todo trabalho é passível de leves equívocos até erros grosseiros, a média de JLA vs Avengers até que não foi tão ruim, mas deu o azar de escorregar justamente em momentos cruciais de personagens caríssimos à maioria.


Como é que dá pra levar à sério uma lógica em que o Arthur dá trabalho pro Stark, que estava devidamente trajado para batalha? Só nesse golpe, o atlante teria quebrado todos os ossos da mão, do braço, do ante-braço e, se bobeasse, a fissura óssea chegaria até o crânio, provocando-lhe um belo traumatismo. E olha que eu gosto do Arthur, principalmente na fase Alan Davis.

Outra coisa:


Ou melhor, esquece... Sem comentários.



Tudo isso, não para provar que o Bruce é invencível, mas pra mostrar que tudo... ahn... muda o tempo todo... no mundo. Parker, Murdock, Clark, Logan e mais um monte de "melhores na sua área" já apanharam legal de gente que atua na mesma "área". Não levar isso em consideração, denota uma falta de raciocínio que é tão imperdoável nos roteiristas quanto no público - afinal, a grosso modo, somos nós quem ditamos o teor dos próximos 15 anos de HQ. Millar, Morrison, Bendis, Straczynski, e outras sensações, só estão lá por que nós, os césares que financiam isso tudo, levantamos o dedo opositor.


Agora, aonde chegamos? Particularmente, eu considero como os mais exímios lutadores dos quadrinhos: Slade Wilson, Daniel Rand, Shang Chi, Steve Rogers, Snake Eyes, Bruce Wayne e Stick (eu ia mandar um Mestre Splinter também, mas deixa baixo). Como visto, nada de Frank Castle ou Bane. Mas isso não os impediu de escorraçarem o Steve e o Bruce, respectivamente.


Imagine que o Capitão é o War Bush e clique em cima

O primeiro, foi em Justiceiro Massacra o Universo Marvel, em um bem sacado embate sobre quem é o melhor soldado. Frank provou que era o melhor metendo um tirambaço na cabeça do Defensor do Modo de Vida Americano. Antes que alguém diga "ah, mas aquilo lá foi um elseworld...", eu já respondo dizendo que realidades alternativas não distorcem o potencial dos personagens, e sim, sua ambientação e/ou motivações. Mesmo porque, essa história foi roteirizada pelo Garth Ennis, que, espero, tem uma credibilidade muito acima da média frente aos leitores.




Quanto ao Bane, todos sabem que ele foi o cara que botou o Bruce pra amargar numa cadeira de rodas. A Queda do Morcego foi um arco longo e arrastado, mas deu pra sacar duas coisas: 1º - Naquele dia o Bruce não devia ter levantado da bat-cama; 2º - Qualquer um pode ser derrotado em circunstâncias desfavoráveis.

Daí, chego à seguinte e lógica conclusão...


...John Herod é que estava certo. E quem é esse? É o personagem do Gene Hackman no filme Rápida e Mortal. Sempre que ele ia duelar com algum pistoleiro incauto, ele dizia: "think you're quick enough?" Na verdade, ele não dizia aquilo ali apenas pra assustar o adversário, mas pra lembrar a si próprio de sua condição arriscada. Até quando vou conseguir ser o melhor? Será que consigo passar por mais esse? Será que esse cara treinou o dobro do que eu treinei? É esse tipo de coisa que deveríamos perceber nos personagens. É isso que os autores deveriam nos mostrar, e não conclusões evazivas visando evitar que a sua falta de talento seja descoberta.

Faça o seguinte... releia DK. A luta mais difícil do Bruce ali não foi contra o deus greco-kryptoniano, e sim contra aquele líder dos mutantes. Ali, o Bruce lutou duas vezes: contra o adversário e contra si mesmo. Tal qual o John Herod.

Em tempo: considero Rápida e Mortal disparado o pior filme de Sam Raimi, mas mesmo projetos ruins de grandes autores conseguem passar algo válido no resultado final.

Ah sim. Bob "Bull" Hurley é aquele gorilão que foi o antagonista do Stallone no filme Falcão, O Campeão dos Campeões.


Não vão na onda dele não, hein.

doggmorpheus, tentando libertar a mente de terceiros, e chapando vinho Canção (booom...) ao som de Astral Doors, grande dica do Czarniano Schmidt.