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quarta-feira, 2 de abril de 2025

Kilmer Eternamente


Val Edward Kilmer
(1959 - 2025)

Se foi o Val Kilmer. Não sou muito fã da expressão "descansou", mas no caso dele, que a justiça seja feita. Os últimos dez anos da sua jornada foram um daqueles exemplos lapidares de coragem e resiliência – muito maiores do que qualquer herói que ele tenha personificado.

Na 1ª vez que vi o Kilmer não teve nada de épico ou dramático. Pelo contrário. Foi rolando de rir com o impagável Top Secret! (1984), do trio ZAZ. Não perdia uma reprise. E nos dias seguintes, ficava comentando as melhores cenas com os colegas da escola.

Logo veio uma sequência matadora com Top Gun (1986), o 1º apavoro dramático com The Doors (1991) e o sensacional faroeste Tombstone (1993). Em 1995, já absorvido pelo estrelato, vieram Batman Eternamente e o clássico drama policial Fogo Contra Fogo. Em 1996, experimentou um caos maior que o de Jim Morrison nas gravações desastrosas de A Ilha do Dr. Moreau e emendando como pôde em A Sombra e a Escuridão, com o Michael Douglas. E por aí foi. Sua filmografia é tão extensa quanto variada.

Kilmer tinha fama. Não era um sujeito fácil. Também era obviamente talentoso. E, de fato, colaborava com os direitos dos nativos americanos e com causas ambientais. Fora que doou milhões para a caridade.

Vai fazer falta pra muita gente. E não apenas pelos filmes. Isso que é legado.

terça-feira, 12 de novembro de 2024

A marcha do Pinguim


Numa das cenas mais absurdistas de Gotham, o Pinguim é trancado em um carro e enfiado numa prensa de sucata. Entre vidros estourando, metal se retorcendo e um fiapo de esperança, o malandro se salva usando apenas a lábia e o celular. A cena é impagável. Da mesma forma, o Pinguim-lixeiro de Danny DeVito em Batman: O Retorno também já exibia sua notável habilidade de improvisação e adaptação contra todas as probabilidades. Houve até quem o desconstruísse minuciosamente como uma boa tese sociológica.

Pinguim eleva as apostas e é de longe o maior produto artístico e comercial do personagem. Quadrinhos inclusos, desculpe. A HBO se esforçou. A minissérie em 8 partes vai até mais longe – não consigo pensar em nenhuma outra melhor neste ano. A criadora e showrunner Lauren LeFranc, que roteirizou vários episódios de Chuck e Agentes da S.H.I.E.L.D., estava acostumada com o suprassumo do enlatado esquemático e seguro para as crianças, mas a julgar pelo território sombrio e impiedoso de Pinguim, parece que ela saiu direto de um The Wire ou de um Sopranos.

O elenco é um primor. Colin Farrell desaparece dentro de toneladas de enchimento, maquiagem, ambição, carisma e sociopatia de seu Oswald "Oz" Cobb (gosto de pensar que seu papel igualmente grotesco em The North Water foi um protótipo bem sucedido). Que ator. Ele e a incrível Cristin Milioti, como Sofia Gigante, ex-Falcone, conduzem as danças de vida e morte da história. E ainda tem a veterana Deirdre O'Connell como Francis Cobb, a mãe do Oz, Clancy Brown como Sal Maroni, Shohreh Aghdashloo como a sua esposa, Nadia, e uma ponta de luxo de Mark Strong como Carmine Falcone, papel que pertencia a John Turturro em Batman, mas que ele declinou do repeteco.

Entre os nomes menos conhecidos, o destaque inevitável é do promissor Rhenzy Feliz como Victor Aguilar, um quase-Jason Todd do Pinguim. E Carmen Ejogo, que dá show (no bom sentido) como a prostituta Eve Karlo. Mas é visível que todos estavam numa sintonia finíssima ali, de Farrell até o estagiário que serve o cafezinho.


Havia um teto máximo a respeitar, afinal, a franquia DC é logo ali. Os roteiristas precisavam lidar com liberdade parcial e a inevitável barrigada. Não era surpresa nem para o gafanhoto mais bobinho que a coisa teria que terminar mais ou menos como começou. Um pouco atualizada, talvez, mas com o status quo intacto. Por mais que o Pinguim fosse ameaçado, espancado, baleado, apunhalado, eletrocutado, etc, ele não poderia morrer numa minissérie. Os demais, no entanto... E esta foi a deixa para brincadeiras cada vez mais nervosas. E algumas boas escadas também.

Só no episódio 6, "Gold Summit", existem dois momentos espetaculares, com Ejogo e Milioti brilhando no tenso diálogo entre Eve e Sofia, e Farrell subindo pelas tabelas de todas as premiações possíveis com um discurso para os chefes das Tríades de Gotham. A situação, com Oz propondo uma aliança em ambiente hostil, me lembrou do mesmo cenário adverso de Al Pacino e seu antológico discurso em City Hall – ressalto, "me lembrou", não que é igual, pelo amor do Bart. Pacino ali vociferou para os deuses. Mesmo com um personagem tão picareta e corrupto quanto o Oz.

Curiosamente, Pinguim é bem mais violento na sugestão e na atmosfera do que na violência explícita per se. Ok, é violento, é HBO, mas a exaustão sensorial após cada episódio não nega: é um genuíno assalto psicológico. Gatilhos são disparados por pessoas quebradas, gananciosas, ambíguas ou simplesmente perversas. É isso é ótimo.

Por mais que seja divertido acompanhar as aventuras de Oz e por mais empatia que algumas de suas convicções possam gerar, a minissérie reafirma seguidamente a sua natureza monstruosa. O arrepiante flashback dele com seus irmãos e a reveladora cena do dedo no cortador de charutos não deixam dúvidas.

E muito menos a soturna cena no final, à beira-mar. Lembrando que aquilo não foi o seu pièce de résistance...


SPOILER — ...afinal, sua mãe o fez jurar que a mataria caso ela ficasse irreversivelmente doente. Coisa que ele não faz e dá outra dimensão àquelas lágrimas. Mais do que Vic e Sofia, ela é, de longe, sua maior vítima.


Apesar da leve pisada no freio no último episódio, Pinguim manteve a alta octanagem até o fim. Excelente que o Batman não deu as caras. Uma das piores coisas dos quadrinhos é quando o mundo é tratado com se fosse um ovo de codorna, com todos se esbarrando e heróis oniscientes e onipresentes, prontos para estragar toda e qualquer negociata suspeita de esquina. Oito milhões de pessoas vivem em New York. São Paulo tem 11 milhões e meio. Faça as contas. Além do mais, o Batsinal fica ainda mais brilhante no céu quando o desafio sobe de nível. E subiu. Muito.

Plano de carreira reestruturado, o Pinguim hoje goza o status de anti-vilão. Por essa nem Burgess Meredith esperava.

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

A mágica de Oz


Normalmente comento séries só quando acaba a temporada. Por melhor que possa parecer no início, a coisa pode virar e terminar de uma maneira bem diferente. Mas vez ou outra é preciso abrir uma exceção: a estreia de Pinguim, da HBO, foi uma das premieres mais bacanas que já assisti. E não apenas no segmento das adaptações de HQs, mas no geral. Pura mágica narrativa da velha Hollywood.

O episódio "After Hours" se passa imediatamente após Batman (Matt Reeves, 2022). A trama se concentra no novo status quo de Gotham City após sua trágica inundação e a morte do chefão do crime Carmine Falcone, interpretado aqui por Mark Strong. O roteiro da showrunner Lauren LeFranc e a direção de Craig Zobel são cirúrgicos. Grim & gritty com gordura zero, o episódio segue a pegada dos grandes thrillers de crime e máfia. Tem uma estrutura meio Os Sopranos, é verdade, mas também bebe na jornada dos underdogs de Al Pacino em filmes do Brian De Palma como Scarface e O Pagamento Final.

Tudo nos seus devidos limites, evidente, mas sempre honrando as referências.

Colin Farrell, excepcional, mais uma vez desaparece em seu Oswald "Oz" Cobb. Se o episódio fosse apenas seu diálogo na antológica cena de abertura já sairia com o jogo ganho. A história também traz boas surpresas como o jovem dominicano Rhenzy Feliz no papel de Vic Aguilar e a participação especialíssima de Clancy Brown como Salvatore Maroni, antigo rival de Falcone.

Mas o grande trunfo neste início foi a Cristin Milioti assustadora no papel da psicopata Sofia Falcone. Uma força da natureza e uma ladra impiedosa de cenas.

Até aqui, uma horinha e pouco de um crime perfeito.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Entre morcegos e lobos


Que leitura. Batman: Gritos na Noite é considerada uma das histórias mais pesadas do Cruzado Encapuzado. E, adivinha, é pesada mesmo. Nem foi necessário recorrer ao Coringa, ao Duas-Caras, ao Espantalho ou qualquer residente do Arkham. Só precisou do elemento humano, no seu mais errático, imperfeito e trágico. Figurinhas tão triviais quanto o colega de trabalho, o vizinho que acena, o parente próximo. E isso é assustador.

O roteiro é do lendário Archie Goodwin, que co-argumentou a premissa com o artista Scott Hampton (Lúcifer, Deuses Americanos). A trama gira em torno de chacinas brutais de famílias de Gotham City, uma nova e poderosa droga que está agitando as ruas e casos de abuso infantil. Temas sombrios por natureza, nunca abordados de forma tão nevrálgica num quadrinho mainstream. Eu, pelo menos, nunca vi.

Lá fora, Gritos na Noite saiu em outubro de 1992. Foi publicada aqui pouco depois, pela Abril, em dezembro de 1993. E foi publicada novamente pela Panini no finzinho do ano passado, exatos 30 anos depois. Acompanhei essa cronologia in loco. Velho é pouco. Mas meu 1º contato não foi dos melhores: na época, achei a história arrastada, a arte muito escura e um tom geral de "quadrinho adulto" que não apeteciam aquele leitor espinhento viúvo de Heróis da TV. Pérolas aos porcos, é o que dizem.

Precisei desses 30 anos – mais seis meses até tirar do plástico (as páginas do bendito couché já começavam a colar) – para adquirir o cabedal necessário para apreciar a graphic com propriedade. Trata-se de uma obra sui generis, perturbadora, atual e necessária.


A arte aquarelada e suja de Hampton é o coração da HQ. O artista trabalha em diferentes tons escuros conferindo uma sensação opressiva, pesarosa e desesperadora à narrativa. É incrível como uma história que investiga a escuridão da alma humana tenha acertado tanto na escolha de seu artista.

A Gotham de Scott Hampton é apavorante. Parece situada n'alguma dimensão fantasmagórica, trevosa e obscura, como o Outro Mundo (Silent Hill) ou o Mundo Invertido (Stranger Things). Ou, melhor ainda, no Umbral.

Como ele mesmo chegou a brincar:
“No que me diz respeito, ninguém em Gotham City tem nada superior a uma lâmpada de 20 watts.”

Definição melhor, impossível.

O contraste entre as cenas escuras e as cenas claras também é espetacular. Literalmente uma supernova direto no olho logo após um longo blecaute.

É uma leitura que demanda tempo e atenção. Não foram poucas as vezes em que precisei acostumar a retina até capturar tudo o que estava acontecendo num quadro.


Assim como não foram poucas as vezes em que achei que havia algo e era apenas a transparência de algum balão na página de trás. Duh.

Sabiamente, Hampton evita qualquer traço de virtuosismo, o que cortaria a sua fina sintonia com a trama. Ainda assim, em vários momentos, acaba lembrando uma cruza dos mestres John J Muth e Richard Corben. O que não é nada mal para um autodidata confesso.

Mesmo esse evidente compromisso com o espírito da história rende cenas que são um convite a uma bela moldura.


Bons tempos em que isso era mais valorizado

Nunca vi um Bruce Wayne no papel do playboy-filantropo-bon vivant tão soturno, tão pouco à vontade, tão Batman. E Jim Gordon, ainda imundo das ruas em suas primeiras horas como Comissário, é o protagonista moral aqui. Complexo, obstinado, falho e, novamente, humano.

Gritos na Noite justifica o título. É um thriller psicológico barra pesadíssima que bem poderia ter sido a fonte de consultas para David Fincher em Se7en (1995). Especialmente fortes são as duas sequências das páginas 51–55, inesperadas para um comic book e difíceis de ler, nauseando o leitor com uma impotência que remete aos próprios personagens. É um quadrinho que te traga para dentro, gostando ou não.

A conclusão, inevitavelmente pós-traumática, sugere até certa natureza elseworld, à Piada Mortal. Algo para refletir.

Difícil saber onde estavam as mentes dos quadrinistas quando escreveram a história. Hampton costuma dizer que é uma HQ muito pessoal, seja lá o que isso quer dizer.

E o veterano Archie Goodwin, falecido em 1998, trabalhou nas revistas Creepy e Eerie na década de 1960, foi editor da Epic Illustrated e, depois, do selo Epic, na Marvel, por dez anos. Estava acostumado com temáticas hardcore e mundo cão, mas nada assim.

A única coisa que sei é que o Batman era seu personagem predileto da DC. E talvez isso tenha sido o suficiente.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Americano genioso

Indulgente, não diria. Celebratório, com certeza.


O trailer de Frank Miller: American Genius traz uma vibração que lembra bastante a condescendência de Stan Lee, da Disney+. E a presença do bom, velho e malandrão Stanley Lieber deixa a coisa ainda mais sintomática. Infelizmente, o documentário deve fazer vista grossa ao aspecto mais polêmico e fascinante de sua carreira: o Frank Miller pôs-11/9.

Ao que tudo indica, o tom é 100% chapa-branca e não traz menções às suas epifanias de extrema direita, às tentativas pernetas de redenção e muito menos ao injusto revisionismo negativo que sua obra tem experimentado nos últimos anos. São tópicos de ouro para qualquer documentarista que almeja fomentar o debate e a reflexão. Pelo jeito, não será desta vez. A direção é da estreante Silenn Thomas, produtora executiva de 300 e Sin City: A Dama Fatal e que, por acaso, também é a CEO da Frank Miller Ink, empresa do quadrinista. Pois é.

Curiosamente, a premiere oficial foi no Rome Film Festival, em 2021. Contudo, só agora descolou uma estreia pela rede Cinemark (dos EUA, claro), prevista para 10 de junho. Em seguida, o doc será disponibilizado on demand.

A lista de convivas foi generosa e trouxe de Neal Adams e Zack Snyder a Jim Lee e Robert Rodriguez. E também me pegou de supetão com a indefectível Jessica "Nancy Callahan" Alba ressurgindo e tecendo juras de amor aos gibis do Frank. Melhor que isso, só se aparecesse de cowgirl e recriasse a clássica cena no Kadie's.

O doc é sobre o Miller gênio, mas podia ser também sobre o Miller genioso. Renderia demais em tela. Não vai rolar. E claro que verei e me divertirei mesmo assim. Acima de tudo, é melhor um tributo em vida do que a opção. Ele merece.

segunda-feira, 19 de junho de 2023

The Flash


Não deixa de ser irônico como The Flash lida com o colapso de um multiverso ao mesmo tempo em que representa o fim do Snyderverso. Certo, o próximo filme do Aquamomoa vem aí, mas com uma fita de retardatário amarrada no tridente. Definitivamente, é The Flash quem apaga a luz. Amargando a ressaca, a Warner tira algumas lições desse grande e ambicioso projeto fracassado. O DCEU sob direção de James Gunn é a maior prova disso, além de ser um obelisco de esperança com jeitinho de ilustração do Alex Ross — a menos que Parademônios engravatados baguncem o meio de campo, mas aí já é papo para os próximos anos.

Antes de tudo, é preciso reconhecer: o filme de Andy Muschietti é um sobrevivente como poucas vezes se viu na história do cinema. Com pré-produção datando de 2020, os atrasos, já turbinados pela falta de planejamento após a saída de Zack Snyder, quase se converteram em geladeira com o derretimento da imagem pública do Garoto Enxaqueca Ezra Miller, que tentou gabaritar o código penal mais rápido que a velocidade da luz (hã, hã?). Ao menos uns dois crimes sérios da lista já teriam implodido sua carreira/vida e abortado o filme em definitivo, não fossem o zeitgeist confuso desses tempos millennialescos e o orçamento de 220 mi + publicidade aterrorizando os acionistas.

Orçamento bastante inchado numa conta que, ao que tudo indica, não vai fechar. Mas quer saber? The Flash até que merecia um afago das bilheterias.

O filme é divertido. Mas só se você for bem versado na arte de baixar a expectativa (num nível equivalente ao de parar os próprios batimentos cardíacos com a força do pensamento). E, principalmente, se abstrair da profusão acima da média de furos óbvios de roteiro, de furos não tão óbvios de roteiro, de furos dentro da lógica interna, do enxame de piadinhas constrangedoras, da incoerência no uso dos superpoderes, dos excessos do Miller, da corrida do Miller, da presença do Miller e, claro, do CGI tão ruim quanto o da série da Mulher-Hulk. E isso é uma ofensa à mãe de todos os funcionários do departamento de F/X da Warner.

Venham pra cima se tiverem coragem, bundões!

Fiuu. Essa coisa de filme de hominho escala rápido.

The Flash adapta a premissa da saga Flashpoint, escrita por Geoff Johns com arte de Andy Kubert e publicada em 2011. Fazer isso em terra arrasada pós-Snyder e pós-Henry Cavill logo no 1º filme solo do Cruzado Escarlate denota culhões. Ou pura falta de noção mesmo.

Na trama, o Flash Barry Allen volta no tempo para impedir o assassinato de sua mãe. No retorno da viagem, ele encontra uma realidade muito diferente. A pior mudança é uma Terra sem o Superman e na iminência da invasão do General Zod, conforme visto em O Homem de Aço. Para ajudá-lo contra o exército de kryptonianos, o Grão-Vizir da Velocidade conta com a ajuda da sua versão aborrescente daquela realidade, do Batman do Tim Burton e da Supergirl Kara Zor-El.


Supergirl recarregando as pilhas no Castelo Wolfenstein, digo, na Mansão Wayne

Difícil acreditar, mas essa concepção de Liguinha improvisada se desenrola de maneira mais orgânica e funcional que a Liga do Joss Whedon e a Liga do Snyder Cut. Quem diria, não era preciso muito. Só coração.

Vale mencionar que a mesma premissa foi executada de forma muito superior na então ótima série do Flash na CW, com direito a Flash Reverso e tudo mais. Fora que Ezra Miller não lustra nem as botas amarelas do Grant Gustin. E aguentar uma versão ainda mais histriônica dele por dois terços do filme foi dose pra Gorila Grodd. Mesmo assim, ele encontra o tom do papel duplo lá pela metade, me lembrando por que achava esse moleque talentoso em primeiro lugar. Foi antes de abarrotarem sua conta bancária com os dólares-DC. Confira Depois da Escola (2008), Jornal dos Predadores (2010) e Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011) e me diga se estou mentindo. Podia ter sido tão melhor...

O Batman redivivo de Michael Keaton, em contrapartida, opera à margem de toda essa bagunça de cronologias, realidades e abordagens. É um dos maiores e melhores fanservices já cometidos por um filme de super-herói. Entrega o que todos querem ver e aumenta as apostas sem desviar um átomo daquilo que ele propôs lá em 1989. É o melhor Batman de todos os tempos? Nunca foi. Está rolando uma distorção revivalista por aí aliada a uma generalizada falta de memória (e reprises) que acho interessante. Mas foi como rever um velho amigo que salvou o dia em sua época e que acaba de salvar mais uma vez. É a grande razão para assistir The Flash. E deixa uma vontade irresistível de ter mais daquilo. Para um fanservice, não há elogio maior.

Só para não passar batido: Sasha Calle está ótima como a sofrida & sexy Supergirl, apesar do zero desenvolvimento. Merecia um lugarzinho ao sol no Gunnverso. E é triste ver Antje Traue e o grande Michael Shannon — respectivamente Faora e Zod — voltando só para bater cartão. Sem falar nos cameos protocolares da Maravilha Gal Gadot, a esta altura alçada a um abajur no DCEU, e do Batman Ben Affleck, usando uma máscara medonha que deve encher a bandidagem gothamita de terror.

O clímax chafurda no anticlímax. Infelizmente, o que era para ser uma grande celebração ao Universo DC no Cinema, se apoiou numa concepção artística feiosa — a tal Cronosfera parece arte de IA debochada — e em bonecos de massinha digital sem a menor vontade de convencer como humanos. Mais uma boa ideia indo pelo ralo. No final, do filme e da cena pós-créditos, fica claro que Muschietti resolveu incendiar a casa antes de apagar a luz. Sentido passa longe. Outra coisa para abstrair, creio.

Mas o que me espanta mesmo é a inépcia do Flash para lapidar seus loops temporais. Tom Cruise em No Limite do Amanhã e Bill Murray em Feitiço do Tempo resolveriam a parada em umas 14 ou 15 campanhas. Passeio no parque...

quarta-feira, 15 de março de 2023

Que droga de vida


Jim Starlin pode ter passado a carreira imerso em sagas cósmicas e reflexões transcendentais, mas sempre foi um dos criadores mais socialmente conscientes dos quadrinhos mainstream. Com frequência, usou aquele pano de fundo galáctico, macro, para ilustrar os dramas do cidadão comum, os dilemas das pessoas invisíveis. E vez ou outra também mandou ver na crítica social pura e simples.

Um bom (e surpreendente) exemplo é a 2º história de A Saga do Batman Vol. 6.

Em Você Devia Ter Visto Ele..., o Morcego se depara com a dura realidade de um casal de irmãos que, apesar da tenra idade, já são sobreviventes da decadência da sociedade, da criminalidade e da falência do sistema. Tudo isso na ordem e em partes dolorosamente iguais.

A sequência em que o Maior Detetive do Mundo desvela o contexto dos irmãos não é muito elaborada, tampouco complexa. E nem deveria mesmo. O impacto dramático da cena que deu o título à trama é o que importa.


Não envelheceu um dia sequer.

Com roteiro de Starlin e desenhos de Dave Cockrum, a tocante história saiu originalmente em Batman #423, de setembro de 1988. Até há pouco, seguia inédita no Brasil, mas, num espaço de apenas dois anos, foi publicada duas vezes pela Panini — o que me deixa com um repetecão bonito nos arquivos. Mais um.

Ou seriam dois?

Quase cuspi o café na HQ quando bati o olho nessa comovente punchline. Como bom gibizeiro velhusco, não poderia deixar de notar uma certa, hmmm, semelhança dessa cena com uma outra anterior do mesmo autor, porém, para a concorrência.


A história Confronto Inesperado saiu aqui em O Incrível Hulk #37, em julho de 1986, formatinho da Abril — e lá fora, na Marvel Fanfare #20, em maio de 1985. Daquela vez, Starlin fez tudo, com exceção da arte-final, a cargo de Al Milgrom.

Na trama, o Coisa e o Dr. Estranho se unem para enfrentar o mago Xandu e seu inesperado... e esverdeado... assistente. Mas antes de encarar o pérfido feiticeiro e seus demônios interdimensionais, Ben esbarra no mal que habita cada esquina desse mundo cão. E ainda faz questão de lembrar que reclamar demais é um péssimo hábito.

Comentário social rapidinho antes de jogar o leitor numa das aventuras mais engraçadas e eletrizantes que já li nesta vida.

A dinâmica e a composição das duas cenas é a mesma. É quase como se ele tivesse mostrado essa página para o Cockrum três anos depois e falado: "tá vendo isso? Faz igual, só que diferente". E nem ficou tão diferente. Piorzinho, com certeza...

Até no autoplágio, lance de gênio. Coisa de Starlin.




Numa das minhas cenas prediletas da melodramédia de Mel Brooks, a mocinha, uma sem-teto, conversa com seu parceiro, um ex-bilionário e também sem-teto, que está em coma num hospital:

“Eu sei que você quer desistir, mas você está errado. Mesmo sem dinheiro, a vida é boa.”

No que ele balança a cabeça negativamente...

É só um momento dentro de um arco de redenção da adorável (mesmo cafona) fábula do veterano cineasta, mas que só traz verdades. Sem grana, a vida ainda é boa. Porém, dura.

E, algumas vezes, uma droga.

sábado, 4 de março de 2023

"I've seen the future and it will be Batman..."


Não assisti ao Batman de Tim Burton no cinema. Na época, só estudava. A grana pingava (até hoje). Consegui ir ver apenas Batman: O Retorno, três anos depois. Mesmo caso de RoboCop 2, O Exterminador do Futuro 2 e As Tartarugas Ninja II - O Segredo do Ooze. Mas o hype gigantesco do filme original foi incomparável. Aliás, hype não: zeitgeist.

Começava ali um novo modo de enxergar o gênero dos super-heróis e de levar isso até o público neófito. Aquele, que responde pela maioria esmagadora da espécie humana. Foi um longo processo que começou com Dennis O'Neil, Frank Miller e Alan Moore, lá nas HQs mesmo — tudo isso foi destrinchado com mais propriedade no blog do Sadovski.

O fato é que sempre achei milhões de vezes mais interessante observar o impacto disso no público não iniciado do que em fanboys como o rapaz na miniatura do vídeo. E como objeto de estudo, Batman dificilmente será equiparado. Ninguém nunca havia visto nada sequer parecido antes. A excitação geral era evidente em cada olhar, até mesmo em estrelas e veteranos de cinema, acostumados com o deslumbre massivo da indústria. Foi um legítimo fenômeno pop cultural.

Sábias palavras do Prince. 1989 ainda não acabou...

domingo, 12 de fevereiro de 2023

The Trailer

Certeza de um mero Ezra-trailer? Não tão rápido...


É seguro afirmar que o restolho do Snyderverse está aí. A raspa da raspa da raspa do tacho. E não há razão nenhuma que justifique uma continuidade daquilo. Removido o elefante Do-you-bleed da sala, e aí sim veio a surpresa, o trailer me fez esquecer em tempo recorde as merdas que o Ezra Miller tem aprontado nos últimos anos.

A prévia é sensacional. E empolgante. E, Grande Júpiter, visionária ao mostrar numa curta janela o quão grandioso, diverso e fascinante o Universo Cinematográfico da DC poderia ter sido se desenvolvido com bom senso.

Até mesmo as inserções de cenas de produções tão díspares quanto as de O Homem de Aço e do Batman de Christopher Nolan soam promissoras em tela — seguindo, claro, a fórmula Vingadores: Ultimato de autorrevisionismo. O mesmo para estreia da Supergirl Sasha Calle, tão criticada antes mesmo de estrear em tela.

Mas, acima de tudo, o grande trunfo é Michael Keaton envergando o manto do Batman uma vez mais. A frase clássica nunca soou tão bacana...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

S de Sacanagemquefizeramcomigo


O Snyderverso não vale um copo de cachaça, mas é inegável que haviam elementos certeiros no meio da tralha. Henry Cavill, cansei de falar pra ninguém, é o Superman perfeito que nunca foi — e que, agora sabemos, nunca será. A bolada nas costas que a Warner deu no rapaz (que dropou série de cult following garantido) foi um dos maiores exemplos de como as coisas funcionam nos meios corporativos de Hollywood.

Como ironia final, os três segundos de Cavill na cena pós-créditos de Adão Negro me pareceu "apenas" o melhor Super desde o Christopher Reeve. Dava pra ver que a atitude estava lá. Inclusive atitude-JLU, se me permite o exagero.

Ao menos, é ponto pacífico que o James Gunn conhece do riscado. Aliás, é um dos únicos caras na indústria hoje aptos a encabeçar a reestruturação do DCEU — que já perdeu seguidas oportunidades de protagonismo durante a apagadíssima Fase 4 do Marvel Studios.

Em sua coluna no UOL, o Roberto Sadovski destrinchou com propriedade esse cenário de terra arrasada. Ou de crise infinita...

domingo, 4 de dezembro de 2022

Bate-Man & Paulão, a dupla dinâmica!


Atualizar um título é um dos momentos mais melancólicos e nonsense da rotina de colecionar quadrinhos. Melancólico porque é um processo de desapego. É nessa hora que toda aquela magia nostálgica costuma ir pro saco. Nonsense porque, se você já tem o bendito gibi, então por que pegar uma versão nova? Entre prós e contras, existe a praticidade, os extras, a diferença das dimensões, da diagramação, do papel, da impressão e quadrinhofilias afins. A vida não é fácil.

Felizmente, também existem casos como os de Batman: Gótico. Ou Gothic, dependendo do editor.

A HQ saiu originalmente em Legends of the Dark Knight #6 a #10, entre abril e agosto de 1990. O roteiro de Grant Morrison segue uma linha detetivesca com elementos faustianos/sobrenaturais. Como de praxe no título, a trama se passa nos primeiros anos (meses?) do Cruzado Embuçado envergando o capuz. E inclui algumas patacoadas já anacrônicas para a época, como a ridiculamente-elaborada-armadilha-infalível-da-qual-o-Morcego-escapará-no-último-instante. Era o bom e velho Morrison pagando tributo ao seriado sessentista enquanto se deliciava com sua salada de cogumelos, ácido e ecstasy — o café da manhã dos campeões.

A arte trazia Klaus Janson onde não havia nenhum lápis para ele transformar em algo do Klaus Janson que não fosse o dele mesmo. Que é bem irregular, diga-se. Não duvido que tenha tascado o nanquim de primeira. Mas o emprego da retícula Zip-A-Tone ficou show de bola.

No Brasil, a história foi publicada em 5 partes na cultuada Um Conto de Batman em julho de 1991 e encadernada em dezembro do mesmo ano. A Abril estava ligeira (isso, mais a hiperinflação acabaram com minhas preten$ões de acompanhar gibizinhos naquela década). É uma delícia revisitar a obra nos dropzinhos do formato americano original. Ainda é o melhor jeito de ler quadrinhos, mas que, misteriosamente, nunca pegou por aqui.

E o melhor de tudo foi algo que só relembrei agora, atualizando para a versão em capa dura. Foi dali que saíram alguns momentos icônicos da edição nacional de quadrinhos...


Justiça seja feita, o ato de traduzir, que normalmente já é um trabalho traiçoeiro, às vezes adquire contornos demoníacos. Ainda mais quando pipoca um trocadilho intraduzível, como foi o caso deste "Bat" (de "bastão") - "Man". É sensacional, embora completamente alienígena para a nossa realidade.

Nada que a tradução nacional não desse conta com o jeitinho brasileiro na ponta da agulha.


Literalmente, o cara-que-bate. Genial é pouco.

Podia até torcer o nariz para a malandragem da "tradução localizada", não fosse o próprio nome do herói por aqui uma subversão adaptativa clássica — que ninguém liga e até agradece.

No expediente, os créditos da tradução e adaptação são do Estúdio Art & Comics, dos sócios Helcio de Carvalho, Dorival Vitor Lopes e, claro, Jotapê Martins. Este, com toda a certeza, o pai da criança.

Muito embora, ache que, diante de tal abacaxi e com os prazos batendo na canela (Um Conto era quinzenal), é bem possível que o engenhoso Jotapê tenha se inspirado em uma fonte muito louca.


A 1ª aparição de um "Bate Man", em MAD #60, da Vecchi (jun/1979)

E na edição da Panini?

A solução foi surpreendentemente sucinta.


Os créditos são dos manos Diogo Prado (tradução) e Pedro Catarino (adaptação). Faltava ao Jotapê essa contemporaneidade.

Mas sem problema. Na Gothic da Abril, os nomes originais eram meras telas em branco aguardando o talento de um artista. E esse artista era ninguém menos que João Paulo Lian Branco Martins.



Também conhecido como Jotapê Paulão.

Nessa atualizada melancólica e nonsense decidi pelo impagável e pelo sensato: vou manter as duas edições.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Dominando o mundo


Que semana excruciante². Mas ao menos me impulsionou para relembrar e revisitar algumas obras. No caso do já saudoso Carlos Pacheco, lembrei de The Order, minissérie de 2002 que ele capeou ao lado do conterrâneo Jesús Merino. Na época, a capa da 3ª edição me impactou, já que remetia ao clássico confronto Vingadores x Defensores em versão atualizada.

Infelizmente, Pacheco não faz a arte interna, que varia entre Matt Haley, Chris Batista, Luke Ross, Dan Jurgens, Bob Layton e Ivan Reis com artes-finais de Dan Panosian e Joe Pimentel. Um time competente e bom de deadline.

Na trama, os Defensores decidem que o mundo está um caos e que precisam impor uma Nova Ordem Mundial. Meio como um Defensores-encontra-Stormwatch-e-Authority. Logicamente, há algo mais por trás das aparências e o roteiro do Kurt Busiek consegue tecer um pano de fundo instigante.

Nas 6 edições, fica escandaloso o nível do grupo. Os Defensores clássicos são muito poderosos. Dr. Estranho, Surfista Prateado, Namor e Hulk juntos é uma insanidade editorial e, agora distante do anacronismo narrativo da década de 1970, o céu é o limite. Isso fica latente quando eles atropelam exércitos mundo afora e também os integrantes de suas formações posteriores sem o menor esforço. E claro que ainda rola aquele tira-teima maroto com os Vingadores.

Naquela época, havia um acúmulo de tralha cronológica nas HQs dos Defensores. Lá fora, a equipe estava em baixa, a série própria não foi pra frente (fechou em 12 edições, apenas) e nada desse material foi lançado por aqui. Busiek ainda tenta desembolar alguns fios, como a vida pessoal de Samantha Parrington, a obscura alter-ego-compartilhada da Valquíria, e sua relação com a Patsy "Felina" Walker e o Falcão Noturno II. Mas fatalmente pipocam conceitos e personagens há muito abandonados, como a entidade Gaea, o bizarro mago Papa Hagg e o vilão Yandroth. De fato, há um excesso de background pouco (ou mal) contado, dando a sensação de pegar o bonde andando. Ou melhor, descendo a ladeira a mil.

Talvez por isso, The Order segue inédita no Brasil. Mas se mantém dinâmica e divertida, especialmente nesses tempos de autoritarismo alucinado. Gibi de porradaria honesta e com substância. Bem que merecia um TPzinho daqueles de 30 mangos...

Ps: e acabamos de saber que Kevin Conroy, a Voz do Batman, se foi ontem, aos 66. Que tristeza.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

“A estrela guia dos quadrinhos escoceses”


Alan Grant
(1949 - 2022)

Ele era de uma safra lendária. Junto de nomes como Neil Gaiman, Alan Moore, Grant Morrison, Garth Ennis e Dave Gibbons, Alan Grant foi da chamada British Invasion of American Comics da década de 1980. Também era dono de uma proficiência notável: num período relativamente curto, ele trabalhou para a 2000 AD em Strontium Dog e em inúmeras histórias e crossovers do Juiz Dredd. Já na DC, roteirizou Batman, L.E.G.I.Ã.O. e tudo o que importa do Lobo — ao passo que, na Marvel, só bateu ponto em Justiceiro: Sangue na Escócia (publicada aqui em Graphic Marvel #13) e numa dobradinha no selo Epic com O Último Americano e Raça das Trevas, adaptação do livro/filme de Clive Barker.

Vendo sua bibliografia lançada no Brasil, me impressionei no quanto o escocês é presente em minha coleção e nunca me dei conta. Talento com discrição tem dessas coisas. E Grant tinha muito dos dois.


Estamos ficando sem heróis aqui. E vamos seguindo.

🌟 Scottish Book Trust

domingo, 19 de junho de 2022

Promessa cumprida

Meus botZ espiões dormiram no ponto. Só há pouco soube da existência do espetacular fan film animado Batman: Broken Promise, uma das melhores coisas com o Cruzado Encapuzado que vi este ano.


A direção e a escrita do artista/comediante Stephen Trumble são magistrais e contornam com sagacidade as limitações do formato. Chega a lembrar a atmosfera opressiva que Ed Brubaker e Greg Rucka imprimiam na antológica série Gotham DPGC. O traço remete ao sujão estilizado do John McCrea em Hitman com o batdesign inspirado no uniforme pesado e desconfortável em que o Lee Bermejo sempre metia o sofrido Bruce.

Mas o show mesmo é o trabalho de voz e os efeitos de som, impecáveis — infelizmente, com o áudio muito baixo nas cenas de ação. Quase funciona à parte, como se fosse uma radionovela um podcast.

Torço para Trumble abrir um KS para uma leva de novos episódios. Assim, poderei publicar o grito de guerra do Fry e dormir tranquilo...

quinta-feira, 16 de junho de 2022

A última estação


Tim Sale
(1956 - 2022)

Do tweet preocupante do Jim Lee até à notícia de poucas horas atrás foi um pulo. Se foi o grande Tim Sale.

Difícil transcrever a sensação da partida de um artista cuja obra se passou a vida inteira admirando, acompanhando, se inspirando. Um nome que era decisivo na hora de escolher um título. E que títulos: só nas colaborações com Jeph Loeb, Sale cunhou hits estrondosos como a quadrilogia das cores da Marvel, o universo quiróptero (e felino) de O Longo Dia das Bruxas e, principalmente, o clássico Superman: As Quatro Estações.

Sem esquecer da parceria dos sonhos com o saudoso Darwyn Cooke no brilhante arco "Kryptonita", bem como de seus trabalhos extramainstream, como a ótima Billi 99, ao lado de Sarah E. Byam.

Apenas breves exemplos de gibis que volta e meia releio, sempre redescobrindo detalhezinhos aqui e acolá. Como da primeira vez.

Esse ano está implacável. Em todos os sentidos.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Nós perdemos outro herói


Neal Adams
(1941 - 2022)

1985 foi o ano. Em Batman #10, o Morcego passava um dobrado com o assustador Ra's al Ghul enquanto se envolvia até o pescoço (e acima) com Talia, a filha do vilão. Tudo muito mais visceral do que qualquer coisa que já havia lido nos gibis.

Alguns meses depois, a régua subia até a estratosfera, com Superamigos #4 e o célebre arco do Lanterna Verde e Arqueiro Verde combatendo o tráfico de drogas. Aquele tapa do velho Ollie no Ricardito acertava em cheio na alma do leitor.

O primeiro Neal Adams a gente nunca esquece. E nem o segundo.

Adams foi a cara e o espírito da Era de Bronze. Influência primordial (e estoque para tracing) de gerações de artistas. Alguns dos melhores momentos do Batman se deram por suas mãos — e também um dos piores. Só pra atestar que ele era humano, afinal.

Como bom veterano, seu ritmo de produção era absurdo. Seja nas décadas dentro da indústria (iniciou a carreira na Archie Comics em 1959!) ou fora dela. Sempre será um gênio e uma inspiração para a vida. Mesmo para quem não vive de quadrinhos.

Em 2020, ao se despedir do amigo e o melhor parceiro de trabalho Dennis O'Neil, escreveu:

“Denny O’Neil mudou os quadrinhos para melhor. Talvez seja hora de reaprendermos algumas daquelas lições.”


E o mesmo pode ser dito sobre ele. Foi um privilégio e tanto estar aqui no tempo de vida dessa dupla...

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Centro de Repouso Residencial Solar Qualité Arkham


Com a Edição Absoluta de Batman: Asilo Arkham, a Panini deu uma boa perspectiva do cenário atual do mercado de HQs. Por mais que a "nova tabela" dos gibizinhos venha causando estrago nos últimos anos, ainda é acachapante a naturalidade com que se lança algo com preço acima dos outrora virginais duzentos mangos. E sem direito a chazinho de "BLACKPANINI" *. É muito louco: omnibus e demais cases luxuosos estreando —e triunfando— no Brasil em meio a uma das piores crises econômicas de sua História.

Fico imaginando se um dia vamos rir disso, como rimos hoje, sei lá, das cores psicodélicas dos gibis da Bloch ou dos nomes abrasileirados que os personagens americanos ganhavam aqui. Provavelmente não.

Embora todo o segmento tenha encarecido de forma sem precedentes, é verdade que a variedade do material também deu um salto em direção aos padrões da matriz gringa. Ainda falta muito chão até chegar lá, mas já é interessante poder optar por um tomo bíblico compreendendo fases inteiras ou pelos práticos TPs coletando um arco por vez. Claro, a caça de preços tem papel de destaque nessa conta. E deveria ter mais, afinal vivemos na Era de Conan.

Na nova versão de Asilo Arkham, lançada lá fora em 2019, fica claro o quanto se paga pelo luxo. Nada muito diferente do direcionamento comercial da editora. A história em si é média-metragem de 96 páginas, plus guardas, plus expediente/créditos. Nos extras, bios, textões de Dave McKean, Karen Berger e Grant Morrison (será que traduziram?), estudos de personagens, tratamento inicial do roteiro, artes preliminares e galeria, totalizando mais de 120 páginas de mimos Deluxe.

Tudo dimensionado em big formatão 20.5 x 31 cm com capa alternativa e caixa-luva com as lindíssimas artes de McKean (oh, o pleonasmo). De fato, a edição passaria fácil por um artbook do ilustrador britânico.

O que a suntuosa e luxuriante edição da Panini não traz —e nem trouxe em suas desastrosas edições anteriores— é um dos maiores trunfos da versão da Abril: a fabulosa letrista Lilian Toshimi Mitsunaga.


Quando trabalhou na edição nacional de Asilo Arkham, em 1990, Mitsunaga tinha dez anos no ofício. Até ali já havia feito colaborações marcantes em quadrinhos da Martins Fontes, VHD Diffusion e da própria Abril, mas o espetacular letreiramento de Asilo Arkham foi seu grande momento na época —e, sem dúvida, um dos pontos altos de sua brilhante carreira.

Letreirar as fontes do mestre Gaspar Saladino não é para qualquer um(a). Com a perícia da velha escola, Mitsunaga emulou minuciosamente a tipografia de cada diálogo (balonado ou não), recordatório e inscrição criado por Saladino. Lembrando que, em Asilo Arkham, cada personagem tinha um estilo de letreiramento próprio, como uma forma de refletir o estado psicológico de cada um.

E tudo feito à mão, num irretocável exercício de estilo artesanal.



Lilian Mitsunaga, com sua voz de ASMR e fã do grande letrista John Costanza, dava ali mais um exemplo de evidente amor pelo trabalho sem saber que também daria um banho em todas as preguiçosas versões posteriores de Asilo, mesmo com a infinidade de programas e packs de fontes digitais à disposição hoje.

É verdade que a nova mega-edição traz o melhor trabalho de letreiramento da Panini para Asilo até aqui. Méritos do letrista Fábio Figueiredo, que deu todo o esforço, seriedade e profissionalismo que a incursão exigia. Realmente digno de nota, ainda que, claro, não se compare, até por motivos outros —por exemplo, a (blasfema) "remasterização" das letras originais de Saladino na versão gringa, seguida à risca pela edição nacional.

É a eterna briga da Forma vs. Conteúdo.

Por essas e outras, não me desfaço da minha velha edição por nada. O trabalho de Lilian Mitsunaga em Asilo Arkham segue incomparável. O nível é simplesmente outro. E não é pra menos. Até o Instagram dela é uma delícia letreirística.


* Atualização 24/11:


Sim, teve chazinho de "BLACKPANINI", sim. Fraquinho e requentado, é verdade, mas vamos ser justos.

sábado, 16 de outubro de 2021

Bat(man) Out of Hell

Sem dúvida, um trailer que fala por si só. Valeu a DC Fandome de hoje.


Há doze anos não fico tão empolgado com o Morcego nas telonas.

sexta-feira, 18 de junho de 2021