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quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Cor de arco-íris quando foge

Ranço de velhusco da vez. A especialidade da casa.



Esses excertos das recém-publicadas Doctor Strange #7–9, com roteiros de Jed MacKay, traços de Pasqual Ferry e capas do Alex Ross para emoldurar, funcionam como um ponto sem retorno para mim. Menos pelo texto, mais pela estética. Principalmente, das cores. Não que tudo vá para a conta da Heather Moore, a colorista em questão. Ela apenas segue a tendência atual.

A impressão é que mudaram a metodologia de criação dos comics (leia-se "gibis do mainstream americano"). Isso vale tanto para a Marvel quanto para a DC, Image, Dark Horse e por aí vai. Hoje, parece obrigação contratual estourar todo o espectro de cores digitais por quadrinho, que já nem é mais quadrinho, arrastando tudo para uma artificialidade sem precedentes no formato. O Pasqual Ferry mesmo já trabalha nestas condições há longa data, mas a comparação através dos anos é absurda.

Se é isso que as novas gerações consomem, então, comercialmente, as escolas setentistas e oitentistas já eram. E isso me faz valorizar ainda mais as compilações feitas nas Sagas e nas Epic Collection. O passado é o futuro, baby.


O Vishanti de ontem (Triunfo e Tormento, 1989) e de hoje: os tons sombrios e misteriosos dão lugar ao multiverso do arco-íris

Confesso que a minha ficha ainda não caiu para esse visual sobrecarregado de cores e flares. Por instinto, me conforto pensando que é só uma fase, uma onda passageira. Que um dia desses vou abrir um gibi novo e me deparar novamente com cores concisas, um claro e escuro decente e, quem sabe, até com as velhas retículas. Como no Dr. Estranho do Rudy Nebres.

Pode soar melancólico, mas ainda assim é um belo devaneio.

No próximo programa: a cartunização generalizada que deixou tudo com cara de desenho animado. Não peguei Arca Negra por conta disso – e de outras coisinhas também.

quarta-feira, 15 de março de 2023

Que droga de vida


Jim Starlin pode ter passado a carreira imerso em sagas cósmicas e reflexões transcendentais, mas sempre foi um dos criadores mais socialmente conscientes dos quadrinhos mainstream. Com frequência, usou aquele pano de fundo galáctico, macro, para ilustrar os dramas do cidadão comum, os dilemas das pessoas invisíveis. E vez ou outra também mandou ver na crítica social pura e simples.

Um bom (e surpreendente) exemplo é a 2º história de A Saga do Batman Vol. 6.

Em Você Devia Ter Visto Ele..., o Morcego se depara com a dura realidade de um casal de irmãos que, apesar da tenra idade, já são sobreviventes da decadência da sociedade, da criminalidade e da falência do sistema. Tudo isso na ordem e em partes dolorosamente iguais.

A sequência em que o Maior Detetive do Mundo desvela o contexto dos irmãos não é muito elaborada, tampouco complexa. E nem deveria mesmo. O impacto dramático da cena que deu o título à trama é o que importa.


Não envelheceu um dia sequer.

Com roteiro de Starlin e desenhos de Dave Cockrum, a tocante história saiu originalmente em Batman #423, de setembro de 1988. Até há pouco, seguia inédita no Brasil, mas, num espaço de apenas dois anos, foi publicada duas vezes pela Panini — o que me deixa com um repetecão bonito nos arquivos. Mais um.

Ou seriam dois?

Quase cuspi o café na HQ quando bati o olho nessa comovente punchline. Como bom gibizeiro velhusco, não poderia deixar de notar uma certa, hmmm, semelhança dessa cena com uma outra anterior do mesmo autor, porém, para a concorrência.


A história Confronto Inesperado saiu aqui em O Incrível Hulk #37, em julho de 1986, formatinho da Abril — e lá fora, na Marvel Fanfare #20, em maio de 1985. Daquela vez, Starlin fez tudo, com exceção da arte-final, a cargo de Al Milgrom.

Na trama, o Coisa e o Dr. Estranho se unem para enfrentar o mago Xandu e seu inesperado... e esverdeado... assistente. Mas antes de encarar o pérfido feiticeiro e seus demônios interdimensionais, Ben esbarra no mal que habita cada esquina desse mundo cão. E ainda faz questão de lembrar que reclamar demais é um péssimo hábito.

Comentário social rapidinho antes de jogar o leitor numa das aventuras mais engraçadas e eletrizantes que já li nesta vida.

A dinâmica e a composição das duas cenas é a mesma. É quase como se ele tivesse mostrado essa página para o Cockrum três anos depois e falado: "tá vendo isso? Faz igual, só que diferente". E nem ficou tão diferente. Piorzinho, com certeza...

Até no autoplágio, lance de gênio. Coisa de Starlin.




Numa das minhas cenas prediletas da melodramédia de Mel Brooks, a mocinha, uma sem-teto, conversa com seu parceiro, um ex-bilionário e também sem-teto, que está em coma num hospital:

“Eu sei que você quer desistir, mas você está errado. Mesmo sem dinheiro, a vida é boa.”

No que ele balança a cabeça negativamente...

É só um momento dentro de um arco de redenção da adorável (mesmo cafona) fábula do veterano cineasta, mas que só traz verdades. Sem grana, a vida ainda é boa. Porém, dura.

E, algumas vezes, uma droga.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Dominando o mundo


Que semana excruciante². Mas ao menos me impulsionou para relembrar e revisitar algumas obras. No caso do já saudoso Carlos Pacheco, lembrei de The Order, minissérie de 2002 que ele capeou ao lado do conterrâneo Jesús Merino. Na época, a capa da 3ª edição me impactou, já que remetia ao clássico confronto Vingadores x Defensores em versão atualizada.

Infelizmente, Pacheco não faz a arte interna, que varia entre Matt Haley, Chris Batista, Luke Ross, Dan Jurgens, Bob Layton e Ivan Reis com artes-finais de Dan Panosian e Joe Pimentel. Um time competente e bom de deadline.

Na trama, os Defensores decidem que o mundo está um caos e que precisam impor uma Nova Ordem Mundial. Meio como um Defensores-encontra-Stormwatch-e-Authority. Logicamente, há algo mais por trás das aparências e o roteiro do Kurt Busiek consegue tecer um pano de fundo instigante.

Nas 6 edições, fica escandaloso o nível do grupo. Os Defensores clássicos são muito poderosos. Dr. Estranho, Surfista Prateado, Namor e Hulk juntos é uma insanidade editorial e, agora distante do anacronismo narrativo da década de 1970, o céu é o limite. Isso fica latente quando eles atropelam exércitos mundo afora e também os integrantes de suas formações posteriores sem o menor esforço. E claro que ainda rola aquele tira-teima maroto com os Vingadores.

Naquela época, havia um acúmulo de tralha cronológica nas HQs dos Defensores. Lá fora, a equipe estava em baixa, a série própria não foi pra frente (fechou em 12 edições, apenas) e nada desse material foi lançado por aqui. Busiek ainda tenta desembolar alguns fios, como a vida pessoal de Samantha Parrington, a obscura alter-ego-compartilhada da Valquíria, e sua relação com a Patsy "Felina" Walker e o Falcão Noturno II. Mas fatalmente pipocam conceitos e personagens há muito abandonados, como a entidade Gaea, o bizarro mago Papa Hagg e o vilão Yandroth. De fato, há um excesso de background pouco (ou mal) contado, dando a sensação de pegar o bonde andando. Ou melhor, descendo a ladeira a mil.

Talvez por isso, The Order segue inédita no Brasil. Mas se mantém dinâmica e divertida, especialmente nesses tempos de autoritarismo alucinado. Gibi de porradaria honesta e com substância. Bem que merecia um TPzinho daqueles de 30 mangos...

Ps: e acabamos de saber que Kevin Conroy, a Voz do Batman, se foi ontem, aos 66. Que tristeza.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Meu Amigo, o Esmagonauta


O Hulk volta a esmagar tudo em "Smashtronaut! - Part One" —"Esmagonauta" é tradução filé by BZ® (Panini, joga aí uns três lobos-guarás na mão e estamos conversados). Com a numeração automaticamente zerada, a HQ marca o retorno do Verdão após a bombástica fase O Imortal Hulk, do roteirista Al Ewing com o artista paraense Bené "Joe Bennett" Nascimento. O run deu uma bem-vinda revitalizada no mythos do Gigante Esmeralda com seu mix de thriller metafísico-psicológico e um body horror gore/splatter que arrancaria sorrisos doidos de David Cronenberg e do saudoso Stuart Gordon. Uma perspectiva inusitada, mas profundamente arraigada na essência do personagem.

O sucesso de público e crítica, porém, não conseguiu evitar alguns perrengues pelo caminho. Mais notadamente a ascensão-e-queda do veterano e talentosíssimo Bené, que não sossegou até implodir sua carreira (provavelmente em definitivo) pelo mainstream dos comics.

Primeiro, chamou atenção ao vibrar com a agressão ao jornalista Glenn Greenwald, depois emendou com artes e posts curtidos em extremismo até finalmente ser dispensado pela Marvel e desconsiderado inclusive para projetos futuros. E o que já não era tão bom parece que piorou. Parafraseando o filósofo João Francisco Benedan, é mais um legítimo representante do movimento white pardo, essa anomalia aberrativa que só existe e se reproduz no Brasil.

Todo esse furdunço reaça-gama acabou gerando mais repercussão do que a própria conclusão da saga —um pecado capital, já que foi uma das fases mais bacanas e aclamadas do Golias Verde em anos. Pessoalmente, curto tanto que nem me adiantei pelas "importadoras": sigo adquirindo meus exemplares religiosamente na editora brasileira credenciada. Dessa forma, antes do derradeiro TP #10, resolvi conferir a nova série desde já, pra ver se entendo alguma coisa.

Afinal, pegar o bonde da cronologia andando é como andar de bicicleta pro marvete com vista cansada e dor nas costas.


O arco em seis partes é escrito pelo texano Donny Cates (Surfista Prateado: Escuridão, Thor: O Rei Devorador), atual bam-bam-bam do massaveísmo super-heroístico. O cara é criador do Motoqueiro Fantasma Cósmico, pelo amor de One-Above-All. A quantidade abusiva de punchlines e splash pages duplas megacolossais dão a impressão de ouvir as onomatopeias gritando a cada porrada desferida. É edição-porrada.

Até rola aquele momento onde um pequeno contigente Todos-os-Heróis-Marvel é reunido pelo Dr. Estranho para... ganha um Surpresa com card de tigre quem acertar... caçar o Hulk. De novo. Mas o grosso da edição é um vale-tudo —tudo mesmo— entre Hulk e Tony Stark com algumas unidades Hulkbuster. É curioso ver o desenhista Ryan Ottley pendendo aqui entre um Ed McGuinness surtadão e a visceralidade não-retranqueira de seus tempos de Invencível. A maneira que o Verdão encontra para se libertar de uma armadilha de adamantium é de emocionar até o Thunderbolt Ross. Coisa linda.

Mas a grande questão é saber se Cates tem bala na agulha para segurar o tchan pós-Imortal. Parece que tem. Sei lá. Não finalizei Imortal ainda e a ideia aqui era saber se daria pra entender alguma coisa. Claro que deu. Ou melhor, não muito. Quase nada, pra ser sincero. Mas, de início, deu pra notar que a rererediviva Betty Ross, em seu melhor estilo mocinha-normalista-pós-família-nuclear, não é aquilo que parece. E que algo estupidamente cabuloso aconteceu em El Paso. Com vítimas. Muitas delas.

O que levou Banner a ficar furioso com o Hulk.

De novo².


Banner, aliás, está bem babacão, num nível quase Hank Pym de zé-ruelismo. Parece mais sagaz do que o normal e lá pelas tantas cita até A Profecia (que referência mais 70's). Contudo, no geral, está a parsecs de distância daquela época do "Hulk-é-um-bom-camarada-mesmo-com-a-cabeça-trocada". Tenho que admitir que o "conceito Esmagonauta" não é novo (você já leu isso na fase Peter David ou em qualquer das trocentas sessões com o Dr. Samson), mas a perspectiva é. A tônica é de pancadaria enche-linguiça servindo de intro. Gloriosa pancadaria, que se registre nos autos.

É basicamente uma edição disso culminando numa splash tão celestialmente massaveiorama que só o Stark mesmo seria capaz. Ele só precisava de tempo e grana. Por sorte, ele tem as duas coisas. Sabe como é.

Na conclusão, Hulk dá um mergulho numa Muralha da Fonte versão 616 e, do lado de cá, me toca alguns sinos. Seja na fase Encruzilhada, na fase Planeta Hulk ou na fase Imortal, a chave para o sucesso parece que é tirar Banner/Hulk da sua zona de conforto —o que, no caso, se traduz como tanques e helicópteros partindo pra cima, tal qual na imagem do topo.

E certamente, Cates vai começar a contar essa história de verdade a partir da próxima edição. A menos que haja um esquadrão Caça-Hulk esperando por ele do outro lado. Ou o Homem Quintrônico.

Nah, Cates não seria tão massaveio...

Ps: ...veremos isso no próximo dia 15.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Um


Dizem que a jornada é mais importante que o destino. Só esqueceram de avisar aos cineastas Joe e Anthony Russo. Vingadores: Ultimato entrega tudo que o público médio não-estúpido espera de um blockbuster de qualidade (e mais), além de concluir espetacularmente as três primeiras fases do universo cinematográfico da Marvel Studios. É o auge de um trabalho ousado e faraônico que levou onze anos num projeto inédito até aqui em dimensão, capital humano e conquistas técnicas.

Para um velho leitor de gibis, a recompensa maior é ver na telona vários daqueles conceitos malucos e infilmáveis até há alguns anos funcionando como se tivessem nascidos pra isso. Neste sentido, é o filme mais eficiente já realizado no gênero, com um Taa II de vantagem sobre os demais. Acima de tudo, por entender que não se trata apenas de som e fúria, mas também de coração, altruísmo e sacrifício, a quintessência dos quadrinhos de super-herói desde sempre. Ultimato não cede um milímetro desses fundamentos, em maior parte, veja só, de raiz marvete.

Heróis que são pessoas antes de tudo e com cada um fazendo a diferença no resultado final; uma admirável preocupação pelo estado psicológico geral; tempo e espaço para cada personagem respirar e se redescobrir; narrativa que sabe onde enxugar e o que priorizar; trama imprevisível no ponto de partida, na condução e na conclusão sem reviravoltas mágicas; e tridimensionalidade: cada integrante do núcleo principal, seja herói, vilão ou zona cinza/azul/verde, tem suas motivações pessoais e age de acordo.

É notável como os roteiristas de Christopher Markus e Stephen McFeely, que também assinam Vingadores: Guerra Infinita, conseguem administrar tantos personagens e variáveis. E ainda manter o foco numa premissa complexa para os padrões mainstream e, por isso mesmo, potencialmente desastrosa. De forma sucinta, o roteiro exerce sua lógica interna apoiado em extrapolações simples, cobrindo assim os pontos cegos enquanto leva o espectador para a brincadeira.

No fim, Ultimato não só se apresenta como uma sequência digna para Guerra Infinita, como expande seu conflito e aumenta as apostas.

O filme tem três atos divididos por um exercício de estilo brutal. O 1º terço amarra as pontas deixadas pelo longa anterior em tempo recorde e investe com mão pesada no drama. Num clima funesto, os sobreviventes tentam juntar os estilhaços de um mundo com 50% a menos de seres vivos e todos os estragos decorrentes disso. A 2ª etapa sobe o tom partindo de um princípio bem difundido na ficção pop - mas com uma dinâmica deliciosamente... quadrinhos - e faz uma verdadeira celebração para quem acompanhou os filmes da Marvel todos esses anos. Já o arco final é a experiência Splash Page de George Pérez definitiva. É todo o pay-off e o fanservice que existem no final do arco-íris. Sangue de Kirby tem poder.

Quase todo o elenco principal está integrado ao seu personagem-avatar num nível Christopher Reeve-é-o-Superman de conversação, além de apresentar suas melhores performances até aqui: Jeremy Renner zera o até então subaproveitado Gavião Arqueiro num bem-vindo acerto de contas com o roteiro, Karen Gillan extrai ainda mais camadas da hermética Nebulosa, Paul Rudd precisa fazer muito em muito pouco tempo e o Homem-Formiga dá conta, Scarlett Johansson se atira, literalmente, na evolução de "Nat" Romanoff, o Capitão América de Chris Evans é a melhor personificação do herói clássico que poderíamos ter hoje e Robert Downey Jr. fecha o ciclo com a redenção do personagem de sua vida.

Chris Hemsworth, por sua vez, tirou a sorte grande. Thor foi um dos poucos que mantiveram uma saga própria nos dois filmes. Em Ultimato, confesso, o susto inicial foi grande, porém coerente. Plus: agora sim o loiro está parecendo um Viking.

E a Situação-Hulk. Personagem que a Marvel Studios penou para achar o tom na telona, algo que só aconteceu em Thor: Ragnarok, quando já era tarde demais para qualquer pretensão cinematográfica do Golias Esmeralda & mitologia. A expectativa por uma virada foi lá pro caixa-prego após a ignorada sistemática em Guerra e agora, em Ultimato.

Pensando bem, isso já vinha sendo estabelecido desde Vingadores: Era de Ultron (2015), com a infame derrota do Verdão para o Hulkbuster (Hulkbusters e esquadrões Caça-Hulk existem para serem esmagados pelo Hulk, oras!). Seus poderes nos gibis nunca foram adotados pelo UCM: nada de saltos quilométricos, palmada sônica, fator de cura e o mais importante e muda-vidas, o "quanto mais furioso, mais forte o Hulk fica". O que sobrou é um Hulk limitado e em estado de calma - em Ultimato, em estado de calma baiana. Mark Ruffalo é um sujeito boa-praça, mas nem de longe é um Dr. Bruce Banner. A trama ainda dá alguma continuidade à sua cronologia nas HQs, despejando o personagem direto na fase do Hulk inteligente, o que resulta apenas e tão somente num Ruffalo Verde. Um Hulkffalo.

Paradoxalmente, é dali que sai uma das referências mais bacanas aos quadrinhos - a clássica imagem do Hulk em Guerras Secretas. E outras, que não sei bem se foram referências de fato ou apenas dissonâncias em minha cachola de gibizeiro: o Verdão doando o braço em Planeta Hulk, a aventura espaço-tempo-apoteótica de Vingadores Eternamente, o "1" do Dr. Estranho para Tony Stark paralelo ao timing de Adam Warlock para o Surfista Prateado em Desafio Infinito, Steve Rogers e Gail no final de Supremos 2 e por aí vai. Essas vieram fluídas e precipitadas como lembranças de velhos amigos. E eu agradeço ao filme por isso.

Surpreendente mesmo foi o resgate de dois grandes personagens por dois atores maiores que a vida: Tilda Swinton reprisando a Anciã e Robert Redford novamente como Alexander Pierce. Redford já havia encerrado a carreira em meados de 2018, mas voltou atrás no final do mesmo ano. Esqueça a mera condição de filme-pipoca. Isso já é cinema grande, meu chapa.


Josh Brolin pode não ter percebido ainda (ou é modesto demais para admitir), mas acabou por personificar um dos maiores vilões do cinema. Thanos é fascinante, perspicaz, tem a sua cota de honra distorcida e acredita piamente que está do lado certo da História. Ameaçador e absurdamente poderoso, Thanos protagoniza, fácil, as melhores e mais engenhosas lutas super-heroísticas já feitas até aqui. Mesmo a Capitã Marvel de Brie Larson - um tanto deslocada pelos cameos pontuais - teve seus melhores minutos numa telona, incluindo aí seu filme solo. O ponto alto, claro, é sua frenética e nervosíssima luta com o Titã Louco.

Há pelo menos uns três ganchos antológicos durante a luta de Thanos contra a "Trindade" - também conhecida como Vingadores Primordiais. E fazia tempo que não via uma sala de cinema virando uma arquibancada em final de campeonato. Especialmente no momento "Capitão, o Digno". Memorável.

Quando Jim Starlin criou Thanos no início da década de 1970, a gênese do Titã não indicava uma carreira muito promissora. O autor mesmo comentou: "Você pensaria que Thanos foi inspirado em Darkseid, mas não era o caso quando eu o apresentei. Nos meus primeiros desenhos de Thanos, se ele parecia com alguém, era com Metron. (...) Roy (Thomas) deu uma olhada no cara com a cadeira ao estilo Metron e disse: 'Aumente esses músculos! Se for para roubar um dos Novos Deuses, então roube Darkseid, o único realmente bom!'"

45 anos depois, Thanos está mais vivo do que nunca, coletando Jóias do Infinito em blockbusters bilionários e se tornando uma referência pop no mundo inteiro. E o que é mais incrível: adaptado sem comprometer sua personalidade. Pra mim, que li e reli as sagas de Thanos infinitas vezes, isso é muito além de um presente.

Toda a sequência final reservada ao personagem é sob medida. O momento da transição do Thanos ambientalista para o Thanos niilista é de arrepiar. Era o passo que faltava para o... Dark Side. E ainda corrobora os pensamentos de Jim Starlin sobre uma futura abordagem da Senhora Morte, a convidada que faltava. Promissor como parece.

Já se vão onze anos desde que saí daquela sessão de Homem de Ferro com um enorme sorriso no rosto e a cabeça fervilhando em pensamentos. Alguns viraram texto; outros, atrelados a uma certa melancolia por tempos idos, foram para o mesmo cantinho da memória que já serviu de palco para grandiosas batalhas emprestadas das páginas dos gibis. Eu sabia que ali era o máximo que o cinema real se aproximaria dos quadrinhos e estava mais do que satisfeito com aquilo. Filme após filme, desafio após desafio, a Marvel Studios foi superando aqueles limites - em maior ou menor grau e com resultados variáveis, mas sempre com bom senso, respeito às duas artes e, principalmente, coração.

Vingadores: Ultimato é sangue, suor e lágrimas. O ápice de uma autêntica odisséia cósmica (epa!) e o registro de que um dia duas formas de arte chegaram tão perto que quase convergiram.

Mesmo sendo o mais épico, ambicioso e visualmente deslumbrante, claro, não é um filme perfeito. Capitão América: O Soldado Invernal (2014) segue no topo da minha lista. E ainda tenho um carinho todo especial por Os Vingadores (2012) pelo impacto sobre este leitor ad eternum de Heróis da TV. Junto com Guerra Infinita, Ultimato habita n'algum lugar no éter entre esses dois.

Algo a se avaliar com o tempo. E com sessões infinitas.

domingo, 30 de abril de 2017

O Estranho das Filipinas


Na época do lançamento do filme do Dr. Estranho, ano passado, fiquei de mandar o foca rascunhar um breve-mas-charmoso texto para a ocasião. Como isso nunca aconteceu, o filme - que me surpreendeu positivamente, que registrem nos autos - acabou como acabaram tantos filmes-pipoca por aqui: passando batido. Felizmente agora, em meio à faxina/releitura sazonal da portentosa coleção de papiros da 9ª arte, o nobre Doutor-Mestre das Artes Místicas há de ganhar seu tributo nesta pocilga. Que belo timing, hm?

Heróis da TV #68 e #69 (fev-mar/1985), formatinhos da Abril. Meu primeiro contato com Stephen Strange fora das fileiras dos Defensores. Era o Stephen solo, de várzea. E assustador pra caralho. Pelo menos pra um moleque acostumado ao bom e velho maniqueísmo multicolorido super-heróico.

O universo particular do Dr. Estranho era um lugar de fato estranho, com traços pesados e uma atmosfera tão obscura que chegava a ser azul. O mago honrava mesmo as calças que vestia quando ainda estrelava Strange Tales, seminal antologia de horror e monstros da Marvel.

Aquelas eram as edições #20 e #22 originais do título Doctor Strange vol. 2, ou Doctor Strange - Master of Mystic Arts. O roteiro de Marv Wolfman não era dado a pirotecnias, mas deixava claro que aquele não era o quadrinho regular da Marvel. Algumas mortes eram de arrepiar -  e aí entra o verdadeiro protagonista destas modestas linhas (mas que sacanagem com o discípulo-mor do Vishanti, você vai dizer, mas calma lá que é justificado): o veterano artista filipino Rudy D. Nebres.

A arte detalhista com painéis que lembravam um óleo sobre tela gótico trazia tons fúnebres, cenários surreais e um clima febril e perturbador que remetia a um pesadelo - nesse ponto lembrando uma cruza blasfema da mão pesada de Gene Colan com o traço estiloso de Neal Adams. Mal comparando, era como o Stephen Bissette, do Monstro do Pântano de Alan Moore, saído de uma missa negra chapado com chazinho de Santo Daime.


Nas duas histórias publicadas, "Xander, o Impiedoso!" e "Tomada pela Loucura", a arte de Nebres se destaca numa aventura, que, de outro modo, ou com outro desenhista, não passaria de divertida. Mas o que se vê aqui, em cada quadr(inh)o é grande arte.

Sem o título de Mago Supremo e com seus poderes diminuídos pelo Ancião (não me pergunte porquê), o Dr. Estranho encontra pela frente o vilão Xander. Durante a batalha, um revés: sua aprendiz Clea acaba possuída pela magia negra de Xander e sai por aí cometendo as maiores atrocidades.


A despeito de Nebres ter concebido a Clea mais sensual de todas, tenho algo a confessar: a cena que mais me causou arrepios nas HQs da época é quando a moça vai parar na cadeia e para se livrar de uma detenta ameaçadora, ela concreta a infeliz ainda viva.



Não satisfeita, Evil Clea sai pela cidade tocando o terror em termos bíblicos e Lovecraftianos, como qualquer minion from hell que se preze.



Tive alguns... "problemas" com essas cenas também, pela carga imagética/religiosa envolvida. Fazer o quê, sou um católico cheio de culpa que não sabe o que faz e que, na época, ainda tinha os  devaneios apócrifos de Os Caçadores da Arca Perdida ecoando forte na cabeça.

Apesar de seu incrível talento, no Brasil a carreira do señor Nebres foi marcada por seus trabalhos como arte-finalista. Ele fazia a cobertura dos lápis de gente como John Buscema, Gil Kane e os citados Gene Colan e Neal Adams, notadamente nos gibis do Estranho, do Hulk e do Conan (em especial A Espada Selvagem). Sempre com uma proficiência e qualidade do nível de um Alfredo Alcala, se for pra mensurar a competência do homem. Mas também assinou muita arte original, conforme o compiladão do Comic Book DB - e que, por algum motivo, continua sepucralmente inédita por aqui em sua esmagadora maioria.

Ao que consta, após a produção em ritmo industrial que manteve nos anos 70 e 80 o artista se afastou dos quadrinhos para investir seus talentos em áreas mais comerciais. Reservado e sem reconhecimento pelo conjunto da obra, Nebres faz aparições esporádicas em convenções de pequeno porte nos EUA.

Pra mim ele sempre será o dono do traço mais bacana - e assustador - que o Dr. Estranho já teve.