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domingo, 30 de abril de 2017

O Estranho das Filipinas


Na época do lançamento do filme do Dr. Estranho, ano passado, fiquei de mandar o foca rascunhar um breve-mas-charmoso texto para a ocasião. Como isso nunca aconteceu, o filme - que me surpreendeu positivamente, que registrem nos autos - acabou como acabaram tantos filmes-pipoca por aqui: passando batido. Felizmente agora, em meio à faxina/releitura sazonal da portentosa coleção de papiros da 9ª arte, o nobre Doutor-Mestre das Artes Místicas há de ganhar seu tributo nesta pocilga. Que belo timing, hm?

Heróis da TV #68 e #69 (fev-mar/1985), formatinhos da Abril. Meu primeiro contato com Stephen Strange fora das fileiras dos Defensores. Era o Stephen solo, de várzea. E assustador pra caralho. Pelo menos pra um moleque acostumado ao bom e velho maniqueísmo multicolorido super-heróico.

O universo particular do Dr. Estranho era um lugar de fato estranho, com traços pesados e uma atmosfera tão obscura que chegava a ser azul. O mago honrava mesmo as calças que vestia quando ainda estrelava Strange Tales, seminal antologia de horror e monstros da Marvel.

Aquelas eram as edições #20 e #22 originais do título Doctor Strange vol. 2, ou Doctor Strange - Master of Mystic Arts. O roteiro de Marv Wolfman não era dado a pirotecnias, mas deixava claro que aquele não era o quadrinho regular da Marvel. Algumas mortes eram de arrepiar -  e aí entra o verdadeiro protagonista destas modestas linhas (mas que sacanagem com o discípulo-mor do Vishanti, você vai dizer, mas calma lá que é justificado): o veterano artista filipino Rudy D. Nebres.

A arte detalhista com painéis que lembravam um óleo sobre tela gótico trazia tons fúnebres, cenários surreais e um clima febril e perturbador que remetia a um pesadelo - nesse ponto lembrando uma cruza blasfema da mão pesada de Gene Colan com o traço estiloso de Neal Adams. Mal comparando, era como o Stephen Bissette, do Monstro do Pântano de Alan Moore, saído de uma missa negra chapado com chazinho de Santo Daime.


Nas duas histórias publicadas, "Xander, o Impiedoso!" e "Tomada pela Loucura", a arte de Nebres se destaca numa aventura, que, de outro modo, ou com outro desenhista, não passaria de divertida. Mas o que se vê aqui, em cada quadr(inh)o é grande arte.

Sem o título de Mago Supremo e com seus poderes diminuídos pelo Ancião (não me pergunte porquê), o Dr. Estranho encontra pela frente o vilão Xander. Durante a batalha, um revés: sua aprendiz Clea acaba possuída pela magia negra de Xander e sai por aí cometendo as maiores atrocidades.


A despeito de Nebres ter concebido a Clea mais sensual de todas, tenho algo a confessar: a cena que mais me causou arrepios nas HQs da época é quando a moça vai parar na cadeia e para se livrar de uma detenta ameaçadora, ela concreta a infeliz ainda viva.



Não satisfeita, Evil Clea sai pela cidade tocando o terror em termos bíblicos e Lovecraftianos, como qualquer minion from hell que se preze.



Tive alguns... "problemas" com essas cenas também, pela carga imagética/religiosa envolvida. Fazer o quê, sou um católico cheio de culpa que não sabe o que faz e que, na época, ainda tinha os  devaneios apócrifos de Os Caçadores da Arca Perdida ecoando forte na cabeça.

Apesar de seu incrível talento, no Brasil a carreira do señor Nebres foi marcada por seus trabalhos como arte-finalista. Ele fazia a cobertura dos lápis de gente como John Buscema, Gil Kane e os citados Gene Colan e Neal Adams, notadamente nos gibis do Estranho, do Hulk e do Conan (em especial A Espada Selvagem). Sempre com uma proficiência e qualidade do nível de um Alfredo Alcala, se for pra mensurar a competência do homem. Mas também assinou muita arte original, conforme o compiladão do Comic Book DB - e que, por algum motivo, continua sepucralmente inédita por aqui em sua esmagadora maioria.

Ao que consta, após a produção em ritmo industrial que manteve nos anos 70 e 80 o artista se afastou dos quadrinhos para investir seus talentos em áreas mais comerciais. Reservado e sem reconhecimento pelo conjunto da obra, Nebres faz aparições esporádicas em convenções de pequeno porte nos EUA.

Pra mim ele sempre será o dono do traço mais bacana - e assustador - que o Dr. Estranho já teve.

domingo, 9 de novembro de 2014

Papua New Galactus


Stormbreaker: The Saga of Beta Ray Bill é um arco em 6 partes com roteiro do ótimo desenhista de Powers, Mike Avon Oeming, e traços de Andrea Di Vito. A história traz o conhecido enredo envolvendo um planeta numa desesperada corrida contra o tempo e, claro, Galactus, o rei dos kickboxers. No caso, trata-se do planeta natal do korbinita mais famoso da Marvel... e apenas lá... Bill Raio Beta. A saga foi publicada num já distante 2005 e, pelo que sei, não viu e nem verá a luz do dia em terra brazilis. É uma pena, mas neste caso até entendo ter ficado na malha fina da priorização.

Apesar da tensão e do empolgante delivery de UFC cósmico, padrão em qualquer narrativa envolvendo Galactus na hora do almoço, o nível da trama vai caindo vertiginosamente nas curvas finais. E, pior, culminando numa conclusão sem sal e nitidamente feita sob encomenda. Contudo, o saldo final ainda é positivo, no que considero como sendo o highlight um recurso há muito esquecido pelo Depósito das Ideias: a mítica e a representação visual de Galactus variando de acordo com cada povo desse universão afora.

Galactus é conhecido pela cultura korbinita como Ashta, o deus da destruição. Esteticamente, é a personificação dos medos primais e subconscientes daquela raça: um pesadelo lovecraftiano espacial.



Nada como um pouco de abstração. Nunca enxerguei Galactus como um dos seres conceituais da Marvel. Apesar de ser membro honorário do clubinho da Conflagração Astral, o devorador de mundos tem uma agenda menos gerencial e mais empreendedora. Mas certamente é uma entidade que existe em incontáveis níveis de complexidade acima da leitura informacional que nossa percepção consegue dar conta. Demais para o sensorial humano, assim como é demais para o de qualquer outra raça de mortais inferiores. O que fica até barato, visto que esse mero vislumbre poderia desencadear uma total reversão protônica ® no meio dos bagos do observador. Até Ann Nocenti, na época viciada em chá de Santo Daime com guaraná Dolly, sugeriu essa sacada quando escreveu uma luta entre Mefisto e o Surfista Prateado numa aventura do Demolidor (!).

Seguindo mais adiante nessa linha, não só a visão, mas basicamente qualquer ato de um ser dessa magnitude deveria ficar muito além da compreensão humana. Da mesma maneira rotineira e impessoal com que lidamos com gravidade, atrito e aceleração, ele lida com antimatéria, buracos de minhoca, retrocausalidade, Entrelaçamento Quântico, Flecha do Tempo, Efeito Túnel, Teoria-M e dá-lhe quarks e bósons. Tudo isso e muito mais seria altamente aplicável no confronto entre Galactus e o Esfinge naquela história clássica de Marv Wolfman. Mas esse pênalti ele chutou lá pra arquibancada.

Seja como for, a ideia em si é acima de tudo providencial. Só assim pra explicar como uma entidade cósmica anterior ao Big Bang não só é antropomórfica, como também tem a aparência de um opressor caucasiano de meia-idade.

Créditos históricos para John Byrne, que propôs esse artifício em 1984, durante sua antológica passagem pelo título do Quarteto Fantástico.


Pena que não combinaram com o pessoal da editora Abril, que apagou justamente os dois recordatórios que explicavam a porra toda.


Complicar pra quê, não é mesmo?

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Deathstroke 2.0


Detalhe da capa de Deathstroke #3, por Simon Bisley. Há tempos que o Slade Wilson precisava mesmo de uma repaginada visual, mas não curti nada essa nova versão. Pouco prática, over e genérica, parece um personagem de Soul Calibur, aderindo à tediosa tendência armaduresca dos "personagens New 52" da DC (até o Super parece estar numa armadura... pergunto, pra quê?). Se fosse pra ficar assim, preferia que continuasse no look pirata com botas boca-de-sino.

Em contrapartida, a coisa vingou bem no traço do Biz. Com sua recente evolução de estilo, as capas ganharam em fluidez, como se fossem extraídas do meio da ação a mil por hora (confira a #1 e a #2). Quase me convencem a conferir essa nova fase - em seu estágio inicial, já que depois a coisa muda...

O Exterminador é desde sempre um dos meus personagens favoritos dos quadrinhos de super-heróis. Já em priscas e inocentes eras, seu maior diferencial era o caráter ambíguo e uma complexidade poucas vezes vista, além, é claro, da fama de ser um dos maiores moedores de carne das HQs. Moral esta construída lenta e criteriosamente, sem a superexposição atual que o vitimou - e também a outros bons personagens, como Wolverine e Fanático.

E já segurou rojões. Rojões do tipo que poucos heróis, supers ou não, teriam aguentado sem enlouquecer ou se bandear para o outro lado da Força. Como, por exemplo, enterrar dois filhos - sendo um deles ceifado pelas próprias mãos, num ato de compaixão e sacrifício extremos.


Esse aspecto "doa a quem doer" sempre foi uma constante na trajetória do velho Slade. Outro bom exemplo está na revista Super Powers n° 9 (maio de 1988), no segmento "Os dois lados do ódio!". O roteirista e co-criador Marv Wolfman mostra que não faz concessões com ele mesmo em histórias menores. Na trama, Mutano está à caça do Exterminador, a quem considera responsável pela morte de sua "namorada" Dana Markov, a ex-titã Terra.

Wolfman, além de pontuar a caçada com uma catártica virada de mesa, também resolveu explicitar em alto e bom som uma suspeita que ficou no ar durante a saga O Contrato de Judas.



E ela só tinha dezesseis...

Isso hoje? Nem pensar.