Mostrando postagens com marcador industrial. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador industrial. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Zeros e uns nos trouxeram até aqui


Em 30 de abril de 1993, a World Wide Web entrava em domínio público. Três meses antes, o Jesus Jones já antecipava em Perverse o admirável cybermundo novo que surgia no horizonte. Trinta anos mais tarde, temos que convir que não é exatamente admirável, mas tanto a WWW quanto o disco foram divisores de águas. Perverse é o mais ousado e ambicioso registro do grupo britânico. Caso tivesse dado continuidade às trips revisionistas de 1991 e 1992, ele seria presença certa na leva seguinte.

Aliás, fico admirado em saber que a banda também curte.

Perverse está numa lista dos “10 álbuns matadores de carreira” não é à toa. O Jesus Jones vinha de sensação alternativa no Reino Unido com o debut Liquidizer, de 1989, ao sucesso mainstream com Doubt, de 1991, puxado pelo hit “Right Here, Right Now”. Até ali, seu techno-rock (ou rocktrônica) era associado às cenas rave e indie dance, mas também tinha ressonância com o público das rádios e da MTV.

Com Perverse, a história foi diferente. O tom do álbum era denso e sombrio, com muita influência de industrial e trance. A capa, estranhíssima, trazia um luchador sob um filtro psicodélico e uma saturação vermelha estoura-retina.

O figura Mike Edwards (vocalista, letrista, guitarrista, tecladista, faz-tudo) experimentou uma imersão tecnológica completa. Escreveu tudo em casa usando um sampler Roland W-30. Foi o 1º álbum gravado inteiramente por computador, com exceção dos vocais. As faixas foram registradas em jurássicos disquetes de 3½ polegadas (lembra disso?). A produção ficou a cargo de Warne Livesey, que trabalhou em discos do The The e vários do Midnight Oil, entre eles o clássico multiplatinado Diesel and Dust. Ele certamente encontrou ali o material mais esquisito de sua carreira.

A obsessão de Edwards por ciberespaço e pela revolução digital imprimiu em Perverse contornos de álbum conceitual.

De cara, em “Zeroes and Ones”, ele prevê, com notável precisão, os impactos positivos e negativos da internet na vida das pessoas. “The Devil You Know” tem camadas trance, climas orientais e recortes de guitarra onde se percebe nitidamente a influência da banda suíça The Young Gods. As animadas “Get a Good Thing”, “Magazine” e “Don't Believe It” atualizam a velha sonoridade, as soturnas “From Love to War” e “Yellow Brown” navegam em ondas synth DepecheModescas, “The Right Decision” traz um groove electro infeccioso, “Your Crusade” é uma paulada pop/rave'n'roll, o tribalismo industrial de “Tongue Tied” emenda na raivosa techno com Ø BPM de “Spiral” e no grand finale com o épico progressive house “Idiot Stare”. Um álbum espetacular.

E complicado de tocar ao vivo. Do setlist atual, apenas três faixas comparecem. Como o próprio Edwards comentou, foi uma abordagem fascista: “'essa é a canção, nada mais importa'. Havia músicas no álbum que os membros da banda não tocaram." E mesmo nas exceções, a execução ainda é cabulosa.

É o caso de “The Devil You Know”, a música de Perverse mais próxima de um hit.


Em várias aparições na TV e mesmo no DVD Live at The Marquee, de 2005, o riff – na verdade, uma saraivada de guitarras sampleadas à “Skinflowers”, do TYG – soa precário ao vivo. A menção honrosa vai para a esforçada apresentação no programa The Word, na ocasião em que promoviam o single.

Mesmo inevitavelmente ultrapassado pelo futuro, Perverse ainda soa refrescante e intenso. Uma experiência memorável de ousadia eletrônica de uma banda de rock em plena era grunge.

E, ao contrário de todo aquele futurismo e tecnologia de ponta, tive a K7 original. Comprada na Mesbla.

Bons tempos, ainda que low tech.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Obrigado, Sepultura!


Obrigado ao Max Cavalera, ao Iggor Cavalera, ao Jairo Guedz e a todos os que ajudaram a escrever a história da maior banda que este país já teve.

Confesso: dei uma tremida aqui. É muito tempo acompanhando essa jornada.

Ps: Gastão não poderia ter sido uma escolha melhor para o momento.

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Veni, vidi, Victor


O Prong estava na seca de álbuns de estúdio desde o já longínquo ano de 2017. Para quebrar o silêncio de rádio, soltaram um EPzinho matador em 2019, Age of Defiance. Nesse período, o fundador e frontman Tommy Victor aproveitou para lapidar a lineup com uma maratona de shows incendiários. É bom ver ouvir que todo esse preaquecimento valeu muito a pena. State of Emergency é uma sensacional playlist do Spotify. Ou, como diríamos no meu tempo: um discaço.

Isso terá a ressonância de um traço no Ibope, mas o Prong sempre foi uma das minhas bandas preferidas. O grupo veio daquela leva de metal alternativo/pós-hardcore que fervilhou no underground entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990. Os riffs quebrados, estilo para-e-começa, eram uma característica marcante que dividiam com o também nova-iorquino Helmet e o irlandês Therapy?.

Os breakdowns no meio das músicas, embora pesadíssimos, eram quase dançantes. Foi o embrião do nu metal e do groove metal, o DNA que rendeu milhões de doletas para nomes como Slipknot, Disturbed, Five Finger Death Punch e outros que pasteurizaram a fórmula à exaustão. Em contrapartida, Victor, um mestre da rifferama, sempre passou longe dessa dinherama. E não foi por falta de tentativa.

Após o sucesso de Cleansing (1997), o Prong mergulhou numa série de álbuns irregulares e penou com a estabacada nas vendas. Quase baixando as portas, restou ao músico ir tocar guitarra no Danzig e no Ministry. Virou empregado.

Por sorte e (muito) talento, há cerca de dez anos a maré virou. A boa receptividade do excelente álbum Carved into Stone (2012) deu um boost em sua motivação com a banda. Na sequência, vieram os ótimos Ruining Lives (2014), o disco de covers Songs from the Black Hole (2015) e X – No Absolutes (2016) e o também excelente² Zero Days (2017). State of Emergency mantém o alto nível, com algumas particularidades.

Faixa a faixa na faixa:

"The Descent" é o começo forte e atropelante com o qual toda banda heavy metal sonha enlouquecidamente. Direto e já trazendo um breakdownzinho pra fazer a galera pular mais que na Pipoca da Ivete.

A faixa-título, duh, "State of Emergency" é herdeira da música (e também faixa-título) "Beg to Differ", de 1989. É quase uma versão atualizada com equipamentos mais poderosos e modernos. E, claro, agora com uma outra perspectiva sonora.

"Breaking Point" lembra o velho HC nova-iorquino à Cro-Mags/Agnostic Front. Refrão para bater a cabeça até soltar do pescoço.

"Non-Existence" é uma cruza das influências mais caras de Victor: os ícones pós-punk The Stranglers e, principalmente, Killing Joke. Leva jeito de single para rádios rock.

"Light Turns Black" é um exercício de peso e técnica. Nesse ponto já deu para perceber que o baixista Jason Christopher é bem versado na seara pós-punk e que Griffin McCarthy é da nova geração de bateristas technical thrash/death metal de Mario Duplantier (Gojira) e Eloy Casagrande (Sepultura). E toma headbanging debaixo de zilhões de ghost notes.

"Who Told Me" resgata o clima pós-punk novamente, desta vez numa pegada thrash. Lembrei na hora das guitarras dissonantes do Voivod. Aliás, que bela tour seria...

"Obeisance" é o puro suco de Killing Joke.

"Disconnected" é o puro suco do Killing Joke 100% concentrado. Tommy Victor destrava seu modo doppelgänger de Jaz Coleman. Poderia ser uma música do Absolute Dissent, fácil. Nem o próprio Coleman notaria a diferença. E que refrão ganchudo!

"Compliant" parece um lado B do Prove You Wrong (1991). E, de fato, é do lado B de State of Emergency. Delícia de filler.

A velocidade e a letra bairrista de "Back (NYC)" lembram o rock 'n' roll new yorker do Andrew W.K., só que menos festivo e (bem) mais HC porradeiro. É Prong, pô.

"Working Man" é um inesperado cover do clássico laboral do Rush. Boa versão, mas o Firebird fez melhor.

E é isso. O disco saiu hoje e já ouvi umas três vezes. Sinal que achei bom mesmo.

Com a palavra, o homem, o Victor.


In Victor veritas!

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Ela esteve na banda


Publicado em dezembro de 2010, I'm in the Band: Backstage Notes from the Chick in White Zombie é uma janela para o que rolou de mais legal na cena alternativa do rock e do metal dos anos 1990. Escrito por Sean Yseult, baixista e co-fundadora do White Zombie, o título ganhou um tapa de seu generoso acervo de imagens e materiais inéditos. O resultado é um mix de álbum de fotos com livro de memórias, repleto de informações de bastidores e de suas impressões daquela cena do barulho.

Para aficcionados da banda e da geração: é obra atemporal, para consultas. E uma delícia.

Em relação à carreira de Yseult (pronuncia-se "Issó"), I'm in the Band começa do ano zero, com ela ainda gurizinha frequentando as aulas de balé. E segue pela sua paixão pela cultura underground até a formação do White Zombie em 1985 – então um grupo de noise/rock de garagem, incensado por gente como Kurt Cobain e o pessoal do Sonic Youth (!) – e envereda na descoberta do metal e no sucesso comercial.

Nesse ponto, salta aos olhos o contraste entre seus dias de porão, se apresentando em clubes como o CBGB, e as gigs-monstro, com apresentações consagradas no Monsters of Rock em Donington e num Hollywood Rock abarrotado no Brasil...

...onde, aliás, passaram dias de rockstar no "Rio de Janiero" e matando "capraihnas" em Copacabana, apesar do medo de terem as mãos decepadas por motoqueiros punguistas from hell com muita pressa. Achei graça. Mas não duvido.


A fuça dos jovens meliantes; flyers operação-de-guerra; o início da virada; a tensão pré-palco




Na alta roda: com Elvira, Danzig, Marilyn Manson, Cramps e Pantera



Confraternizando com Deuses do Rock and Roll



Zé do Caixão, o “Coffin Joe”, encarnando no cadáver da baixista e recebendo a devida homenagem do White Zombie

Além dos registros históricos, Yseult, hoje quase exclusivamente artista plástica, também aproveitou para oferecer sua perspectiva única de um meio majoritariamente masculino. Inclusive o subtítulo do livro, "The Chick in White Zombie" ("a mina do White Zombie"), é o apelido dado a ela por Beavis & Butthead sempre que eles assistiam algum videoclipe do grupo. Não foi fácil. Não é fácil.

A nota destoante vai para a parte física: o brochurão de quase 200 páginas em formato paisagem (wide) é um lutador peso pesado. É preciso preparar bem o terreno antes de começar a aventura e evitar algum acidente irreversível. Também é recomendável lavar as mãos antes do manuseio. As páginas são em couché de alta gramatura e praticamente todas têm fundo preto. Então, se não quiser deixar as digitais impressas ali para a posteridade...

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Pavões do Barulho


Uma das maiores surpresas do jornalismo musical do ano. O jornalista e diretor André Barcinski lançou Pavões Misteriosos originalmente em 2014 pela editora Três Estrelas, do Grupo Folha. É uma das investigações mais completas já impressas sobre o cenário da música brasileira embaixo e fora dos holofotes. Agora, com uma reedição turbinada com 400 páginas extras, vira quase uma Bíblia da bizarrice pop-canarinha.

E Barulho: Uma Viagem pelo Underground do Rock Americano saiu em 1992, pela editora Paulicéia. Foi um livro-evento para todo mundo que curtia rock não-farofa do final da década de 1980 até o início da década de 1990. O material foi resultado de uma viagem de dois meses e ½ fotografando e entrevistando alguns dos pilares da seara alternativa da época —figuras como Steve Albini, Jello Biafra, Ministry, Nirvana, Mudhoney, Ramones, Red Hot Chili Peppers e por aí foi. Algumas destas reportagens inclusive foram editadas na revista Bizz como "amostra grátis" numa série de matérias sensacionais intitulada, logicamente, Barulho. Brodagem pura, só pra ficar nos anos 90.

O que é mais curioso sobre essas futuras reedições (autopublicadas, por sinal) é a discrepância absurda de timing. Pavões foi escrita na mesma pegada analítica e documental de publicações seminais como Mojo, Uncut e a Rolling Stone gringa. Material atemporal para ler, reler e manter sempre ao alcance da mão para consultas. Já Barulho...

Kurt Cobain botou um fim em boa parte daquela história poucos anos depois, quase todos os Ramones se foram, o palco desabou, a indústria morreu, enfim. O único fator que justifica a publicação de Barulho hoje é a força da nostalgia.

Barcinski nunca demonstrou grande interesse em um relançamento do livro —meio um álbum de fotos com textos curtos e diagramação marota pra dar aquele realce— e até se mostrava a favor de seu compartilhamento digital. Certamente, os pedidos de reimpressão da turba carente na casa dos quarenta e alguma pesquisa de mercado (de revivais) devem ter mudado os planos. Um Catarse teria sido um belo termômetro de alcance público.

Também não deixa de ser sintomático que os dois livros tratem da música produzida há, pelo menos, trinta anos. E claro que vou correr atrás dos dois. Pode me chamar de Matusa nostálgico, mas não de ter mau gosto musical.

terça-feira, 27 de julho de 2021

Kudos, Mr. Jordison


Nathan Jonas "Joey" Jordison
(1975 - 2021)

Nunca dei muita bola para o Slipknot, mas, parafraseando o saudoso Gordura, "entre todas as milhares de coisas pra ti odiar no Slipknot, definitivamente a bateria não é uma dessas". E realmente o fenomenal Joey Jordison fazia a diferença. E muita.

Mesmo assim, só abracei a causa de vez após o show do Metallica em Donington, em 2004, sem Lars e com ninguém menos que Jordison e Dave Lombardo assumindo as baquetas. Pela 1ª vez em muito tempo, a banda soava pesada e ameaçadora novamente.

Jordison tinha mielite transversa (razão pela qual saiu do Slipknot), mas havia apresentado melhoras com o tratamento. Tanto que logo na sequência chegou a montar novas bandas (Scar the Martyr, Sinsaenum, Vimic) e a tocar com Ministry, Rob Zombie e 3 Inches of Blood, fora os vários trampos de produção. Foram 46 anos a mil.

Consta que se foi durante o sono. Uma benção.

Muito jovem ainda. E extremamente talentoso.

sábado, 20 de abril de 2019

O salmo da Wax Trax!

Pra quem foi tomado de assalto por aqueles loucos de Chicago no fim da década de 1980, o trailer de Industrial Accident: The Story of Wax Trax! Records é puro deleite de bad trip boa. E "com simpatia".


Só mesmo um doc longa-metragem para descrever a importância da Wax Trax! para a cena alternativa americana. A loja/gravadora fundada por Jim Nash e Dannie Flesher foi seminal durante a efeverscência do pós-punk, da new wave, da eletrônica e do industrial do início dos anos 80. Seus padrões artísticos, estéticos e comportamentais transgressores e anti-establishment se estenderam muito além da seara musical - e continuam até hoje, ironicamente inseridos até no universo pop, ainda que a esmagadora maioria do público (e dos artistas) sequer se dê conta disso.

Em terra brazilis, onde as informações chegavam com alguns anos de atraso e à conta-gotas, o selo teve até certa exposição. Principalmente através da revista Bizz e das matérias do jornalista André Barcinski, incluídas também em seu livro Barulho: Uma Viagem pelo Underground do Rock Americano.

Meu 1º contato com a Wax Trax! foi justamente pela icônica revista. O marco zero foi a capa do Sepultura circa Arise levando um corta-luz das verdadeiras estrelas da edição: o Ministry. "Massacre eletrônico"? Já me ganhou só pelo conceito - lembrando que, naquela época, Internet só existia em filmes, livros e gibis; e como importar discos era para ricos, o jeito era viver de conceitos.

Depois vieram os artigos da célebre turnê Ministry/Helmet/Sepultura e do lançamento dos clássicos The Mind Is a Terrible Thing to Taste e Psalm 69 em terra, oh, brazilis. Finalmente. E assim meu salário de office-boy foi pro sal numa tacada só.

Houveram outras convergências pelo caminho, mas o trecho da estrada com tijolos de ouro foi esse. Embora sejam mais do que raros, tenho certeza que existem por aí outros brasileirinhos sobreviventes que ainda curtem Ministry, Lard, Revolting Cocks, Pailhead, Chris Connelly, KMFDM, My Life with the Thrill Kill Kult, Laibach, The Young Gods e outras pérolas WaxTraxianas que trilharam um caminho semelhante. Isso se as vicissitudes do dia a dia - também conhecidas como família, filhos, plano de saúde, aluguel, IPVA, etc. - não expurgaram essas lembranças e sensações à fórceps, deixando no lugar só um toquinho útil pagador de contas.

Se for o caso, uma sessão de Industrial Accident poderá reativar alguns neurônios há muito adormecidos e causar um grande estrago no seio familiar...

sábado, 22 de setembro de 2018

Saudações e desejos de maravilhosas bad trips aos bem-aventurados que testemunharão O Melhor Show da Terra deste ano no Brasil


O lendário, lendário, LENDÁRIO Killing Joke irá tocar pela 1ª vez no Brasil domingo, no Carioca Club (SP).

A formação permanece a clássica: a marcação tribal do baterista Paul Ferguson, a zaga subsônica do baixista Youth, o ataque abrasivo-percussivo do guitarrista Geordie Walker e a pessoa sui generis de Jaz Coleman, o puto mais imprevisível e carismático do pós-punk, gótico, industrial, noise, thrash, metal alternativo e tudo o mais que ele e seus companions influenciaram desde 1980.

Lógico que não vão tocar tudo (deveriam!). Mas grande parte dos cavalos de batalha estarão lá, conforme atestam os últimos setlists. É ir ao show e emendar com uma sessão de Altered States. Será perfeito.

Um excelente apocalipse (após-punkalipse?) para todos.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

quinta-feira, 26 de março de 2015

Bienvenidos de vuelta... puta madres


Por essa ninguém esperava. Quando comentei sobre o então vindouro show do Ministry em São Paulo fiz questão de frisar que "essa será provavelmente a primeira e última apresentação do grupo por aqui". Baseado, lógico, no re-anunciado fim da banda e do fato de Al Jourgensen ser um notório pé na cova há pelo menos 20 anos. Pois o Tio Al resolveu surpreender e vai aportar suas máquinas do inferno mais uma vez no Brasil, dessa vez no Rock in Rio! - também esculachado por mim no referido post...

É oficial e já consta na line-up. Será uma apresentação conjunta com Burton C. Bell, frontman do Fear Factory e colaborador em alguns álbuns da entidade industrial-mor. No mesmo dia do Metallica, só que no palco Sunset, aquele menorzinho que o Rob Zombie se apresentou na edição anterior.

Ok, os tempos são outros e uma apresentação no palco principal poderia causar traumas irreversíveis em quem estará lá para ver o Mötley Crüe (!) ou nas mentes jovens e sensíveis que irão mais pelo aspecto McDonalds do evento.

Se eu fosse, seria pelo Ministry e pelo fantástico grupo francês Gojira. E pela possibilidade de ver um set mais clássico do Tio Al, com tudo que os fãs têm direito...


Afinal é um festival, lugar onde deveria ser proibido por lei tocar música nova.

terça-feira, 3 de março de 2015

A terra vai tremer...


Nessa sexta-feira, dia 6, São Paulo será palco de um teste nuclear: o Ministry vai tocar pela 1ª vez no Brasil. Al Jourgensen e sua quadrilha de cyborgs tarados irão desfilar a trilha sonora do fim do mundo no Audio, que por sinal está se saindo com uma semana no mínimo inspirada (The Sonics na quinta!). Pra deixar a coisa ainda mais instigante, essa será provavelmente a primeira e última apresentação do Ministry por aqui.

Não é de hoje que Jourgensen fala em pendurar os samples do Sgt. Hartman. Há alguns dias ele até anunciou um novo projeto. Com a morte do guitarrista Mike Scaccia e o estado geral do cara transparecendo a conta dos anos de excessos químicos, a coisa parece que vai mesmo por esse caminho. Mais uma vez. Então, a menos que você esteja empolgado com o Rock in Rio, não há dúvida de que esse será o evento musical do ano no país.

Imperdível...

...a não ser que se perca, como eu. Pois é. Fã de carteirinha desde que a banda foi apresentada pelo jornalista André Barcinski numa Bizz de tempos idos, vou deixar essa passar. Sem disposição pra morrer num valor triplicado (com sorte) de um ingresso já caro n'alguma excursão local salvadora e, até agora, inexistente. A recente aquisição de vários encadernados do Juiz Dredd no site da Mythos ajudou a remover qualquer esperança.


Eu não vou ao show, mas a minha filha foi e achou muito bom. Em termos de ação in loco, o Ministry é unanimidade até entre os críticos mais turrões. Em anos/décadas! de leitura de resenhas pro, alguns lugares-comuns parecem obrigatórios - som mais alto do que o humanamente suportável, clima de pesadelo apocalíptico e a capacidade de rearranjar e transformar até as músicas menos pungentes em Leviatãs sedentos por sangue. O show é um massacre físico e psicológico brutal, disputadíssimo lá fora e aclamado universalmente.

Pra quem vai, sugiro ir aquecendo os motores com os discos da trilogia anti-Bush (Houses of the Molé, Rio Grande Blood e The Last Sucker) e do último, From Beer to Eternity. As músicas desses álbuns compreendem uns 95% do atual setlist, segundo o, hã, Setlist. Os clássicos devem ficar mesmo no combinadão "N.W.O." - "Just One Fix" - "Thieves" - "So What".

Mas bem que eles podiam surpreender e montar um set mais old school. Sacumé, pra compensar a demora... Onde já se viu uma banda que tinha dois bateristas - fora a eletrônica - nunca ter pisado na terra das baterias, tambores, percussões e afins?

Duas dicas vêm do antológico registro ao vivo In Case You Didn't Feel Like Showing Up"Burning Inside", numa versão ainda mais delirante e febril do que em estúdio, ganhando uns gritos de filme de horror que são de gelar a alma; e "Stigmata", um tornado sônico de 10 minutos com synths, guitarras massivas e uma batida que ao vivo deve até quebrar costelas.





Outra excelente pedida seria a inclusão da música "Scarecrow", uma aterradora bad trip Sabbáthica do álbum Psalm 69. Na versão ao vivo do EP Just Another Fix, a simples adição de uma harmônica a transporta sem escalas para a blueseira heavy de "When the Levee Breaks", do Led Zeppelin. Sensacional.



Por fim... quem sabe... a incendiária "Jesus Built My Hotrod". Esse country-metal-eletrônico maníaco psicopata é o verdadeiro Graal do Ministry, sendo negligenciado nos shows desde sempre, com Al repetindo a mesma ladainha: "Gibby Haynes é o único que consegue cantá-la".

Mas parece que ele fez um esforcinho em 2004, na tour do Houses of the Molé...


Enfim, um excelente show para todos que vão.

E me contem tudo logo depois, se o estrago sensorial permitir!

domingo, 23 de dezembro de 2012

Aos 47, num sábado à noite



Mike Scaccia
(1965 - 2012)

Essa veio do nada mesmo, aos últimos acordes de 2012. E em cima de um palco.

Um dos meus guitarristas preferidos de thrash metal (e country, hardcore, noise, industrial...). Top 5, fácil. Vai fazer falta.

domingo, 11 de dezembro de 2011

March of the Immigrant


Parece que o bromance entre David Fincher, Trent Reznor e Atticus Ross vai longe. Junto com o lançamento digital da trilha do filme The Girl with the Dragon Tattoo foi liberado um vídeo com uma inesperada cover de "Immigrant Song", do Led Zeppelin. Os vocais são de Karen O, do Yeah Yeah Yeahs. É provavelmente a melhor versão que já ouvi do clássico zeppeliniano.

A montagem foi feita pelo próprio Fincher e é justamente a intro do filme. Dark, bizarro e assustador. Como convém.

Ps: o que não livra a produção do status de presepada hollywoodiana. Mas se alguém pode tornar esse remake relevante, é o Fincher.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

O FIM ESTÁ PRÓXIMO


...e o Ministry começa a desligar seus motores secundários, após 26 anos de funcionamento nonstop. Vazou ontem na rede The Last Sucker, último álbum de estúdio da banda (finalizando assim a trilogia/atentado à administração W. Bush iniciada em 2004 com House Of The Molé e seguida por Rio Grande Blood, de 2006).

O canto do cisne foi anunciado em maio do ano passado pelo alter-ego do grupo e anti-republicano de carteirinha, Al Jourgensen. Entre os motivos para o término das atividades, ele destacou a manutenção de seu novo selo, 13th Planet Records, a produção de bandas e, principalmente, evitar que o Ministry se torne uma caricatura ("and doing crappy Aerosmith and Rolling Stones albums 30 years later").

Geralmente, grupos com fim de atividade programado agendam a longo prazo certos packages estratégicos. O esquema continua o mesmo. Senão, vejamos: Rantology (2005) é a coletânea (ainda que subverta o formato) e Rio Grande Dub (2007) é o disco de remixes. Agora só falta o Live. O fato é que de Ministry mesmo só tem mais esse resto de ano. Concluindo a atual "MastubaTour", eles fecham o boteco ao vivo com a "SeeYouLaTour". Em 18 de setembro, eles lançam The Last Sucker. Depois disso já era.

O fim da banda deixa o mundo mais babaca, mal-humorado e politicamente correto. Com a saída do baixista e ex-parceiraço Paul Barker em 2003 (o único colaborador fixo), o Ministry termina sua existência da mesma forma como começou - pelas mãos de Al Jourgensen, como uma one-man-band. Triste ainda é constatar que a trilha dessa despedida é simplesmente um dos álbuns mais destruidores do ano. Jourgensen preparou um track-list violento, direto e, de certa forma, menos dispersivo e mais "musical" que os últimos discos. Ao todo são onze lajotadas na testa.


A faixa de abertura Let's Go, é thrash dos bons e chega derretendo os auto-falantes com um riff serra-elétrica e um solo psicótico de Mike Scaccia (ex-Rigor Mortis). Watch Yourself é um speed metalzão mixado com EBM old school. Lembra algo do The Land Of Rape And Honey, de 1988, produzido com tecnologia atual. A ritmada Life Is Good, é o Service Pack 2 do Sepultura fase Chaos AD. The Dick Song é escandalosamente pesada. Poderia facilmente constar no repertório do sujão 1,000 Homo DJ's, uma das filiais do Al. A faixa-título resgata a essência pós-punk na qual o grupo foi tão influente. No Glory e Death & Destruction são literalmente morte e destruição sem glória, com samplers de W. Bush ordenando a implosão do planeta. Roadhouse Blues é um inesperado cover do clássico do The Doors. Thrash industrial com harmônica. Caraaaaalho. Acrescentaram 850 toneladas de peso na música e juro que o blue ainda continua lá, intacto. Die In A Crash é um electro-punk embebido em new wave, coisa realmente alienígena no som da banda, mas executada em altíssima voltagem.

End Of Days partes I e II têm participação de Burton C. Bell, frontman do Fear Factory, e fecham o álbum em tom inequívoco de "tá chegando a hora". Especialmente a parte II, com riff melódico inspirado, coralzinho de crianças ao fundo e a sonzeira se esvaindo até a última pancada do drum machine. Isso aqui vai deixar saudade.

Rest in peace, Ministry.


...mas tenho lá as minhas reservas. Al Jourgensen é malandro pra caramba.


A propósito, pra efeito de comparação: Cold Life, o primeiro single do Ministry, de 81, e Let's Go, do disco novo.

It's evolution, baby.

sexta-feira, 29 de abril de 2005

Operação Resgate
If you're looking for trouble... you came the right place!





Glenn Danzig é um cara que tem história pra contar. Embora seja pouco lembrado (ou conhecido) pela nova geração, o cantor influenciou muito os padrões do rock atual, inclusive aquele tipo que perambula incansavelmente pelo circuito pop. Ele criou o link definitivo entre música gótica, a atmosfera lúgubre e enegrecida do Black Sabbath e uma certa mis-en-scéne de horror, decodificada diretamente das pirações teatrais do Alice Cooper dos anos 70. Quem leva o crédito por traduzir essa carga gore-dark para o rock contemporâneo costumam ser grupos como Nine Inch Nails, Cradle Of Filth, Korn, White/Rob Zombie, Marilyn Manson, Dimmu Borgir, Slipknot e por aí vai, mas a coisa começou bem antes.

Egresso do grupo punk seminal Misfits e do cultuado Samhain, Danzig inaugurou a carreira de sua banda homônima em 1988 com um álbum supreendente. Limou todo o background psychobilly em favor de um crossover demoníaco envolvendo blues rock de bar vagabundo, o messianismo apocalíptico de Johnny Cash, doom metal, Black Sabbath e AC/DC, com vocais pendendo entre a introspecção rebelde de Elvis Presley e a ironia curtida à whisky de Jim Morrison. Adicione aí uma certa aura maldita e letras estilo filme B de terror, discorrendo sobre ocultismo, desordem, anarquia, orgias profanas, bruxaria, demonismo, súcubos e voilá... é uma festa no inferno ouvindo os discos do Danzig com o volume lá no céu (perdoai o trocadilho!).


Entre um petardo e outro, Glenn ainda lançou um álbum solo, Black Aria, de 1992, composto basicamente de... árias. Esse disco merece um destrinchamento todo especial, em uma outra hora.

A lista de fãs e eventuais "influenciados" inclui vários medalhões do som pesado, como Tony Iommi, o pessoal do Slayer, Pantera e, principalmente, James Hetfield e Lars Ulrich, do Metallica.

Apesar dessa química das profundezas ter dado muito certo nos 4 primeiros discos, um erro fudido de direcionamento balançou a carreira do Evil Elvis. Nos álbuns seguintes, o Danzig passou a ser uma banda bem meia-boca, com bons momentos dividindo espaço com inovações pra lá de equivocadas.

Então é isso aí. Na faixa, um resumão disco-a-disco...


DANZIG
(1988)


O primeirão do Danzig já vinha com uma capa bem "discreta" e com uma sonzeira blues rock digna daquele bar infernal do filme Um Drink no Inferno. Aqui, Danzig nos revela que é o próprio capeta (I Am Demon), fala de conflitos espirituais (Possession), mulheres demoníacas (She Rides), condenações (Soul In Fire, End Of Time) e tudo aquilo que Lúcifer costuma arquitetar em seu dia-a-dia. As faixas Mother e Twist Of Cain (com seu riff inesquecível) foram os maiores hit singles desse disco.

Talvez por ser justamente o debut, a execução é mais básica, fazendo o vocalista se destacar sobremaneira. Danzig evoluiu muito tecnicamente desde seu tempo liderando o Misfits. A formação era a clássica trinca dos primórdios da banda: Eerie Von no baixo, o ótimo John Christ na guitarra e o folclórico Chuck Biscuits na batera (ele é o fã número zero do Zé do Caixão!).

Um puta disco de rock'n'roll. Diria até que é um semi-clássico trilhando os mesmos caminhos mal-assombrados de Back In Black, Paranoid e The Number Of The Beast.


DANZIG II - LUCIFUGE
(1990)


E o enxofre-rock continua firme e forte! Mesmo carregando na pegada metálica, Danzig comete um discaço e, ao mesmo tempo, mergulha de cabeça no Delta do Mississipi. Aqui, o cara inicia o satanismo de histórias em quadrinhos que viria a ser sua marca 666 registrada. A produção está bem mais clara e o som está melhor trabalhado, com uns backing vocals até acima da média, naquele estilo chamado-e-resposta. Os refrões estão muito mais grudentos, vide Girl, Long Way Back From Hell, Her Black Wings, a maneiraça Devil's Plaything e Snakes Of Christ - que, além de ser ótima pra profanar a religião a plenos pulmões debaixo do chuveiro, também tem um riff totalmente assassino!

Já o blues comparece na ótima Killer-Wolf, e nas semi-acústicas I'm The One e na ótima 777, uma viagem movida a slide-guitar. Destaque também para a baladona presleyana Blood and Tears, linda, linda. The devil loves too!

O disco termina bem dark, com a soturna Pain In The World. O andamento lembra muito o clássico Dazed And Confused, do Led Zeppelin, o que é obviamente uma ótima referência.

Uma curiosidade... a capa alternativa de Lucifuge, com a foto de cada um da banda, é praticamente uma reedição da capa do clássico disco de estréia dos Doors. Dá uma conferida:




...qualquer semelhança é mera influência. E não é interessante ver que o Doors influenciou artistas tão díspares quanto Danzig e... sei lá, Echo & The Bunnymen?


DANZIG III - HOW THE GODS KILL
(1992)


Dizem que esse é o melhor do Danzig. Só não digo que é, pois essa primeira fase é realmente toda memorável. Em execução e produção está um passo à frente do disco anterior. É uma evolução natural, que no caso do Danzig resultou em uma pérola irretocável. Ao longo do álbum vão aparecendo algumas inovações, como barulhos e ruídos estranhos acompanhando as músicas, como se fosse o som de espíritos enfurecidos. Ecos distorcidos vindos de algum nicho infernal. Mas antes que eu comece a viajar demais, os tais sonzinhos foram feitos através de instrumentos convencionais, como breves estaladas no piano, cordas e o próprio aro da caixa da bateria.

Danzig começa a exercitar aqui o seu bom gosto artístico na arte gráfica dos discos. Ninguém menos que H.R. Giger assina a ilustração da capa. Ele já fez uma capa para os dinossauros do Emerson, Lake & Palmer, no disco Brain Salad Surgery (clique aqui para vê-la), mas dificilmente aceita trampos desse tipo. Danzig costuma dizer que ele só aceitou após ouvir uma cópia da fita master do disco. Giger ficou alucinado com o conceito do álbum. Um lance totalmente from hell...

O disco é uma coleção de "clássicos do terror", por mais cinematográfico que possa parecer. Mas é isso mesmo. Falta algum diretor esperto chamar o Danzig pra compor a trilha sonora de algum filme do gênero.

Godless, a faixa de abertura, começa com uma avalanche heavy e desemboca em versos praticamente declamados seguidos de uma batida lenta e carregada de suspense. Destaque para o piano mal-assombrado que persegue a quebradinha. Excelente. A música seguinte, Anything, abre bem suave, dá uma discreta inversão na melodia e tem uma leve mudança de tempo antes de cair na porrada. Awesome! Os 4 cavaleiros do Danzig fazem isso parecer fácil, mas não é não. A seguir, Bodies tem um ritmo à Booker-T (que fazia aquele tipo de blues quase-correndo) e uma guitarra de trincar os dentes. Lembra muito o The Doors nos seus momentos mais chapados e bluesy. Outros momentos arrepiantes marcam presença na grandiosa faixa-título, na largada thrasher de Left Hand Black, na introdução satan-soul em Heart Of The Devil, nas guitarradas heavy de Do You Wear The Mark e no riff tortinho de When The Dying Calls.

How The Gods Kill também traz duas das músicas mais representativas do Danzig. A bela Sistinas parece uma daquelas pop songs românticas dos anos 50, ainda mais rebuscada pelos vocais do Evil Elvis. Já a perfeita (isso aí... perfeita) Dirty Black Summer abre com um barulho de chuva, sai rasgando num riff que é maquiavélico de tão bom, e até hoje é hour-concours nos shows da banda.


THRALL - DEMONSWEATLIVE
(1993)


Inicialmente eram dois EPs separados. Thrall continha duas músicas inéditas, uma cover e uma versão remasterizada de Mother, e Demonsweatlive... era um ao vivo. Após um relativo sucesso no circuito metálico norte-americano, os dois passaram a integrar o mesmo pacote.

Das músicas inéditas, nota-se que a banda ainda estava no climão sombrio do álbum anterior. The Violent Fire tem aquela tradicional melodia darkótica, enquanto It's Coming Down soa mais despretensiosa, bem mais rocker. A cover citada é do clássico blueseiro Trouble - de Leiber & Stoller e imortalizado por Elvis Presley, claro. É aquele negócio... The Pelvis tirava onda de malvado e fodão já nos anos 50: "If you're looking for trouble... you came the right place... If you're looking for trouble... just look right in my face". Isso cantado pelo Danzig soa mais do que "apropriado".

Já a parte ao vivo é uma injeção de adrenalina. Com a banda em grande forma, público sold-out e Danzig cheio da moral, desfilam os clássicos (já?) Snakes Of Christ, Am I Demon, Sistinas e a emocionante Mother. Pena que são apenas essas, afinal é só um EPzinho. Com certeza, foi um showzaço.

Novamente, Danzig prova que tem bom gosto e convoca o genial Simon Bisley (Lobo, Judge Dredd, Sláine) para a fazer arte de capa. O resultado é bem ao seu estilo: selvagem, demoníaco e com aquele jeitão de barbarismo sangüinário.

Clique na imagem abaixo para ampliar a arte original:




E já que comentei do Simon Bisley, aproveito para recomendar a leitura da porradíssima insane epic tale "A Verdadeira História De Sansão e Dalila", escrita à ferro e fogo pelo Hulk. Desde o clássico Lobo Está Morto que eu não vejo tamanha perversão doentia arrombando os portões celestiais. Mas o quê o Bisley tem a ver com isso? Confesso que quando li a história, não pude deixar de imaginar uma HQ dela com o Bisley nos desenhos...

Thrall Demonsweatlive é um dos EPs mais divertidos que já ouvi (ao lado de Garage Days Revisited, do Metallica, e Broken, do Nine Inch Nails).


4P
(1994)


Esse disco costuma ser chamado por aí de 4, mas é 4P mesmo - Four P era o nome de um antigo culto satânico (alguns dizem que ainda está na ativa). Danzig não queria apenas reciclar a mesma fórmula dos álbuns anteriores ad nauseum. Então resolveu dar a primeira guinada sonora relevante na carreira da banda. 4P tem texturas mais ásperas, distorcidas e uma estrutura musical propositalmente instável, às vezes bastante turbulento, e às vezes calmo e ambient. Há uma profusão de elementos outrora "alienígenas" no som do Danzig, como vocais distorcidos, camadas de guitarras saturadas, samples, e um piano mais freqüente e sinistro escurecendo a paisagem. O próprio timbre dos vocais se reveza em vários tons inéditos até então.

Mal comparando (bem, não tão "mal" assim), o Danzig de 4P está para o velho Danzig como o U2 de Achtung Baby esteve para o velho U2 - a reinterpretação sonora do príncipe dark foi muito similar à experimentada pelo grupo de Bono Vox naquele disco.

Mas apesar do novo approach e de algumas reestruturações sérias, as bases do velho Danzig ainda estava intacta. É só descontar o susto inicial e rever a bagunça habitual com o hard rasgadão de Brand New God e Bringer Of Death (com uns tiros de metralhadora, no maior clima de guerra), a climática Little Whip (que abre com aquelas guitarras surf music à Ventures) e a rifferama experimental de Until You Call On The Dark.

Alguns destaques saltam inevitavelmente aos ouvidos e... Cantspeak é a melhor música do Danzig que não parece com Danzig. Nem os vocais! Por muito pouco se nota que é o cara cantando. A batida hipnótica e várias camadas de guitarra em fade out remetem a música para algo próximo das primeiras fases do Gang Of Four e do Sonic Youth (!). Going Down To Die é a power ballad da vez, e a que mais lembra a fase inicial da banda. Simplesmente maravilhosa. A maravilhosa I Don't Mind The Pain e a linha soturna de Dominion são os momentos mais introspectivos do disco. Aliás, compare a melodia desta última com a de Until It Sleeps, do Metallica... coincidência? Sadistikal é o momento mais singular. Toda feita à base de samples, Danzig vocifera os versos com seu vozeirão seco sobre uma batida industrial cadenciada. Esquisita e assustadora ao mesmo tempo. Me lembrou muito o trampo paranóico de uma banda iugoslava chamada Laibach. Já Son Of The Morning Star (homenagem ao personagem da Vertigo?), é uma viagem dark old school à Planet Caravan, do Sabbath, com as guitarras levantando no refrão.

4P foi o tipo de experimentação corajosa que deu certo e que apontou novos e intrigantes caminhos para o som da banda. Único, inovador, carregado de fúria negra. Talvez boa parte disso tenha sido ao acaso... mas um feliz acaso.

Em tempo... após a última faixa existe uma daquelas famosas faixas escondidas... trata-se de umas passagens com órgão de igreja e algumas vozes ao fundo. O detalhe é que, não satisfeitos em inserí-la na faixa #66, ainda deram um jeito do display marcar exatos 66:64:41.


DANZIG 5 - BLACKACIDEVIL
(1996)


A famosa "escorregada no tomate". Como diria o Mestre Yoda, perigoso é o Lado Negro do Experimentalismo... Aqui a coisa não fugiu à essa regra e resvalou todo o brilhantismo do álbum anterior para uma espécie de Lei de Murphy musical. Se você acha St. Anger, do Metallica, a maior decepção sem sentido dos últimos tempos, ouça Blackacidevil. Melhor ainda, não ouça...! Apenas confie em mim. Talvez seja o registro musical mais equivocado da História recente.

Dizem que foi uma fase cheia de problemas internos no grupo. O batera Chuck Biscuits andou chapando além da conta e tomou um pé na bunda, o que inspirou o patrão Danzig a reformular o grupo inteiro. A banda acabou entrando no estúdio com um punhado de pára-quedistas de última hora: Joey Castillo (bateria), Joe Bishara (teclados e programações... opa, programações?!) e Josh Lazey (baixo). Apesar disso, baixou um espírito one-man-band em Danzig e ele também resolveu tocar baixo, guitarra e teclados.

Danzig é um frontman. Ponto. Essa coisa de one-man-band é para artesãos como Trent Reznor (NIN), Al Jourgensen (Ministry) e Richard Patrick (Filter) - e olhe lá ainda por cima. Há sempre uma chance ínfima de uma banda se dar bem em um contexto que não lhe é natural - o que não acontece acontece aqui em nenhum momento. A impressão que dá é que o grupo se esforça ao máximo pra soar inaudível. Existem formações que conseguem dar sentido ao Caos e reunir os pedaços em quadros instigantes, como se fossem um mosaico niilista em homenagem à Destruição (como bem fazem o Atari Teenage Riot e o Cubanate), mas as batidas tecno socadas, os samples barulhentos, o feedback no talo, os guinchos electro-noisy e as guitarras e vocais hiper-ultra-distorcidos que povoam o disco inteiro acabam com qualquer linha musical compreensível/aceitável.

Trocando em miúdos, as músicas são horrorosas, mesmo para o paladar radical de um fã de Riistetyt, Rattus ou Napalm Death fase Lee Dorrian. Dificilmente um ser humano sem poderes mutantes consegue ouvir Blackacidevil até o fim, de uma tacada só. Duvido.


B lack

A ci

D evil


Com muita boa vontade dá pra encarar Sacrifice, Hand Of Doom (do Sabbath) e Ashes.

Talvez vire cult daqui há uns 25, 30 anos... da mesma forma que o doidaço Metal Machine Music, do Lou Reed.

Mas pensando bem... acho que não.


6:66 SATANS CHILD
(1999)


Três anos depois e o Danzig acorda da ressaca industrial do disco anterior. O senhor das profundezas deve ter chamado a atenção do guerreiro doom, e por isso a banda voltou mais direta, enxuta e sem as tralhas high-tech de outrora. Mas ressaca é ressaca e 6:66 Satans Child, apesar de poderoso, passa longe da energia criativa da saudosa fase inicial. A sonoridade agora é bem mais minimalista, com quase nada de riffs e solos, e basicamente movida à levadas de guitarra-base e bateria. Simples assim.

Algumas bases são realmente possantes como demonstram a faixa de abertura, Five Finger Crawl, e a faixa Unspeakable. Já a ótima Cult Without A Name talvez seja a mais próxima do climão gótico das antigas. East Indian Devil (Kali's Song) trafega perigosamente pela atmosfera experimental, mas fica só na sugestão (ainda bem). Firemass também dá um susto com uma batida meio "ritmada demais", mas as guitarras bem colocadas logo modificam o contexto da música (que acabou me lembrando o Killing Joke do disco Pandemonium). A faixa-título é bem diferente e tem uma estranha quebrada de guitarra, estilo Tool. Mas o refrão cavernoso é Danzig puro.

Chega a última música, Thirteen - que já foi até regravada/imortalizada pelo venerável Johnny Cash - e temos um melancólico retorno às raízes. Nesse momento, senti que o Danzig já tinha atravessado a faixa amarela e que os bons tempos ficaram mesmo para trás. Que o digam Henry Rollins, Metallica, Living Colour e Red Hot Chili Peppers. Sinal dos tempos...

E a capa tem um jeitão de HQ não é à toa: é novamente Simon Bisley quem assina a arte. Muito bacana, por sinal.


LIVE ON THE BLACK HAND SIDE
(2001)


Os fãs do Danzig nunca tiveram muito problema com a escassez de discos ao vivo, mesmo que o único registro oficial desse tipo tenha sido o EP Demonsweatlive, de 93. Isso porque a quantidade de material pirata que circula da banda por aí é de assustar. Pra cada show deles pipocam uns quatro ou cinco CDs e DVDs ao vivo no mercado negro - alguns com uma qualidade excelente. Mas fora os parcos registros live em home-vídeos, faltava o famoso disco ao vivo do Danzig. Live On The Black Hand Side é o próprio e em dose... digo, CD duplo.

Assim como Ozzy Osbourne, Glenn Danzig é um bom escalador de instrumentistas. Seus shows sempre exibiram técnica e energia de sobra, não importando a fase em que a banda se encontrava, e isso é bem demonstrado aqui. As primeiras oito músicas do CD 1 foram extraídas da tour Halloween, de 1992 (a mesma de Demonsweatlive) e têm a mesma clássica line-up: Danzig-Christ-Von-Biscuits. As últimas 6 faixas são da tour de 4P, com Joey Castillo no lugar de Biscuits. Memorável.

Já o CD 2...

...muito mal gravado (cheio de microfonias e com várias quedas no som da guitarra), o CD 2 traz faixas mais recentes, inclusive 7th House do infame "Bad". A energia habitual e a força de composições como Her Black Wings, It's Coming Down, Do You Wear The Mark, Twist Of Cain e Mother acabam salvando o segundo disco de um belo naufrágio. Mas que eles deram um mole federal com essa produção tosca, isso deram. Já ouvi piratões muito melhores!


777 - I LUCIFERI
(2002)


Para registro: o início de 777 - I Luciferi é magistral. Unendlich é uma breve introdução com reverbers de guitarra fazendo um dueto com uma espécie de canto gregoriano fantasmagórico. Na seqüência, a pesadona Black Mass dá a tônica do que vem a seguir. Em um contexto geral, I Luciferi retoma a linha de Satans Child, mas de forma mais básica e rocker. Algumas passagens new metal se fazem presentes aqui e ali (como os "apitos" de guitarra), mas não sei ao certo quem é o ovo e que é a galinha nessa história. De qualquer modo, não é algo que chega a desvirtuar o que se espera do Danzig - o problema é que, após essa seqüência de altos e baixos, o quê exatamente se espera do Danzig...?

Como você já deve ter percebido, comentar sobre os discos do Danzig é quase como escrever um tratado metafísico pra mim. Não consigo simplesmente classificá-los com um 'bom' ou um 'ruim', mesmo no caso do "Bad". É foda. Na próxima vez vou escrever sobre o Ramones... dá menos trabalho e os meus neurônios não precisam ser obrigados a trabalhar sob efeito maciço de cafeína. :)

Mas voltando à lida...

Após o início demolidor, o disco segue com a ritmada Wicked Pussycat. A levada é largadona e a letra é meio s&m. God Of Light (que não é uma homenagem ao pessoal de Furnas...) tem aqueles irritantes apitos de guitarra que eu mencionei. Desde que o Machine Head começou com essa praga, há alguns anos atrás, passei a viver num mundo pior. Na seqüência, Liberskull chega rasgando com uma slide guitar canibal e um ritmo cadenciado. Sonzeira. A gótica Dead Inside é um daqueles momentos mais ternos e viajantes. Pena que o refrão fica bem aquém do climão escuro do início. Aí chega Kiss The Skull... essa guitarra foi sampleada de Beautiful People, do Marilyn Manson, ou estou ouvindo coisas?! Na boa Danzig... tu roubou legal. Mas a música é ótima. Parece o hino marcial do 66º destacamento de infantaria do exército do inferno.

Na seqüência final, a faixa-título cria uma atmosfera bem tétrica. Já Naked Witch (adorei esse título) quase nos remete ao blues rock do início. Se não fosse a mixagem abafada dos vocais... tsc! Na música The Coldest Sun... mais uma pós-pré-referência. Explico... o andamento slow heavy com o gancho poderoso de guitarra e a vocalização estrondosamente grave é Type-O Negative puro. Tirando o refrão, a voz de Danzig está idêntica à do vampiro Peter Steele, do Type-O.

Considerações finais... 777 - I Luciferi é sim um bom álbum, e muito funcional no que propõe, mas tem uma particularidade que costuma irritar muitos: é exageradamente referencial. Tanto é que citei aqui, de relance, umas três ou quatro bandas que lembrei enquanto o disco rolava. O detalhe é que todas essas bandas, sem exceção, foram largamente influenciadas pelo Danzig. Então, o que Danzig faz aqui é quase uma autofagia por tabela. Em I Luciferi ele imita aqueles que passaram a vida toda o imitando. Estranho ciclo, não?


CIRCLE OF SNAKES
(2004)


Como o Danzig já vinha com um direcionamento new metal, nada mais natural que Tommy Victor assumisse a guitarra. Victor é o líder do Prong, e foi um dos caras que mais influenciaram o tão discutido "novo metal". Mas calma lá... o Prong é uma grande banda (apesar de há tempos não produzir nada do calibre de Beg To Differ, Prove Your Wrong e Cleansing - todos clássicos), e esse lance de "influência" é a coisa mais fácil de sair do controle e se desvirtuar - vide o legado do Faith No More e seu Angel Dust.

Circle Of Snakes é um retrato do Danzig atual, e ele é bem diferente daquela banda que esculpiu hits memoráveis como Twist Of Cain, Am I Demon, Mother e Snakes Of Christ. Mas que Circle Of Snakes é uma porrada desembestada, isso é. E se você não tem problema com nego que se distancia do próprio passado então... é colocar o CD no volume 11 e esperar a casa ruir.

Tommy Victor é um mestre na guitarra, isso é fato. Ele não é o típico guitarrista hendrixiano, cheio de longos solos operísticos. Ele vive de detalhes. É um miniaturista por natureza e, sempre que pode, insere aqueles detalhezinhos que fazem toda a diferença no resultado final. E quando resolve partir pra grosseria, não tem nada igual.

O álbum começa com mais uma introdução demoníaca, dessa vez mais "instrumental" do que na intro de Luciferi. Seguem as pauladas de Skincarver e da faixa-título, e Victor mostra como se faz uma "guitarra com apito" decente. O cara é foda. Na seqüência, 1000 Devils Run. É uma porrada sensacional, mas verdade seja escrita... ela parece saída das sessões de gravação de Cleansing, do Prong. Tem até aquele ritmo pára-e-começa característico! Outro destaque é Hellmask, uma zoeira guitarrística de te fazer perder o rumo de casa. Meu amigo, que guitarra base é essa... parece um furacão! When We Were Dead tem uma pegada mais cool e viajante. Parece uma daquelas baladas pesadas do Pantera. Já Night, Besodon tem um clima tão desobediente, maléfico e infernal que dá vontade de sair por aí anunciando o fim do mundo com uma metralhadora na mão. Eu queria que o mundo acabasse com essa música rolando. A ótima Black Angel, White Angel lembra o Danzig das antigas, sempre querendo acertar um anjinho com uma bazuca.

Ao final fica a impressão que você ouviu um bom novo disco do Danzig. É um disco de guitarra, porradão, straight, pra macho. Sem o charme diabólico e bluesy dos primeiros álbuns, é verdade, mas com tudo o que se pode fazer com uma boa banda de rock moderno.

E destaque para a capa, que mostra uma espécie de Górgona bio-mecânica à H.R. Giger. Mas a ilustração não é dele não, e sim do artista Dorian Cleavenger. Pelo jeito, até os Gigers de hoje são outros.



Danzig é um aficcionado por filmes e quadrinhos de terror tão fanático quanto o Rob Zombie. Atualmente ele anda dividindo seu tempo com vários projetos, entre eles a continuação de seu álbum solo, Black Aria, dessa vez contando a história de Lilith (que teria sido a primeira esposa de Adão). Outro projeto a ser acompanhado cuidadosamente é a sua estréia como diretor. O filme Gerouge mostrará um ataque de mortos-vivos em New Orleans, possivelmente em 1854. Promissor. A história é baseada em uma HQ publicada pela sua própria editora, a Verotik Comics. Nunca li nada de lá, mas à primeira vista, o clima geral parece ser de "total liberação"... ou seja, muito sangue, violência, misticismo, sexo explícito e belezinhas afins.

Um detalhe interessante é que o carro-chefe da editora é a HQ Satanika - xará da SataNika, do blog Que Te Importa?! ... Será que a "heroína" da revista é uma homenagem? :P


Anexo 30/4


Enquanto passava o olho no texto, notei uma certa profusão do dígito 6 na tela. Juro que não é nenhuma mensagem subliminar da minha parte, mas que realmente parece obra do cão, parece.

Hum... "cão"... "dogg"... putz. :)


"If you wanna find hell with me... I can show you what it's!"

segunda-feira, 7 de março de 2005

I AM WHAT I AM

...and that's all what i am!


É o Popeye, se fosse criado por Garth Ennis ao invés de Elzie C. Segar. Ambientação nos anos 30 e atmosfera dos primórdios áureos dos quadrinhos (tipo Os Sobrinhos do Capitão, Tintin e o marinheiro citado), mas carregada de escatologia, palavrões, ultraviolência e vileza, típicas de um Vertigo/MAX da vida. Assim é The Goon, cria do desenhista e roteirista Eric Powell. Começei a ler sem maiores expectativas, mas fui fisgado quase que de imediato... É divertidíssimo!

Goon é um aventureiro tough-guy e aparentemente superforte, mas sem maiores explicações (igualzinho ao Popeye em começo de carreira... o espinafre/soro-do-supersoldado foi criado na última hora quando o sailor man começou a fazer sucesso). Junto com Franky, seu manager e parceirão, Goon encara tudo quanto é tipo de missão (acredite... tudo mesmo) e tem uma coleção de inimigos tão variada quanto bizarra: psicopatas, mafiosos, vampiros, lobisomens, robôs, mutantes, monstros sub-aquáticos, ratazanas gigantes, feiticeiros, aberrações genéticas, demônios e principalmente... mortos-vivos em larga escala.




Talvez seja esse oceano de possibilidades que torna as aventuras tão divertidas. Ao mesmo tempo, a mistura - sempre espirituosa - de maniqueísmo (p&b) com mundo-cão (cinzento) é um dos pontos mais peculiares de sua narrativa. Ainda estou lendo a fase indie na Avatar Press, mas pelo que li na coluna de Érico Assis, do Omelete, ele já está em sua 10ª edição pela Dark Horse.

Outra coisa bacana são os 'folhetins educativos' presentes ao longo das HQs. Coisas do tipo "como arrancar o escalpo de um lobisomem" ou "adote um morto-vivo", que eu gentilmente destaquei aí embaixo... clique na imagem.


Eric Powell faz de The Goon um projeto autoral tão bacana quanto Mike Mignola com seu Hellboy ou, no mínimo, Erik Larsen e seu Savage Dragon. E pela trajetória lenta, mas sempre ascendente (o que é essencial), The Goon provavelmente será um hit dentro de alguns anos, com direito a adaptação para os cinemas e tudo. Deus me ouça!


E já que mencionei mortos-vivos... >:)

THE RETURN OF THE TRIOXYN


Você já assistiu isso antes... projeto ultra-secreto envolvendo armas químicas dá errado, e voilá... hordas putrefactas de mortos-vivos esfomeados à caça de cérebros frescos. Essa é a premissa de A Volta dos Mortos-Vivos 4: Necropolis e, caracas, A Volta dos Mortos-Vivos 5: Rave To The Grave. O primeiro filme da série, de 1985, foi uma pérola da nojeira bem-humorada. Já o segundo foi uma paródia acéfala (sem trocadilhos) do primeiro, sendo que este já era uma paródia dos filmes de George A. Romero. No terceiro filme, houve uma reinvenção até interessante, levada a cabo pelo insano Brian Yuzna (de Re-Animator).

Produzidos simultaneamente, o quarto e o quinto episódios ainda não têm data de estréia definida e, pela sinopse divulgada, é uma chupação violenta em cima de Resident Evil: O Hóspede Maldito (!!):

"Julian, Zeke, e seus amigos, são típicos estudantes do colegial curtindo um marasmo teenager-mauricinho, até que um terrível acidente de moto coloca Zeke no hospital, do qual ele desaparece misteriosamente e sem deixar vestígios. Seus amigos investigam seu paradeiro e tudo leva a crer que a famigerada corporação Umbrell... digo, Hybratech está envolvida. A Hybratech conduz perigosos experimentos com o composto Trioxyn-5, um poderoso agente químico capaz de despertar os mortos!"

...e blá-blá-blá...


Claro que isso é só uma desculpa pra que os desmortos sejam vomitados de suas covas apodrecidas e sairem em busca de miolos pulsantes (eu sei que miolos não pulsam, mas essa descrição ficou maneira!). O problema é que depois de pauleiras viscerais como Extermínio e Madrugada dos Mortos, ficou bem difícil pra série conseguir surpreender novamente o público fangore.

E dando uma de Grunge, do Gen¹³... se fosse eu no lugar do diretor Ellory Elkahem (Elka-quem?!), botava pra quebrar nas cenas de sexo (dezenas de playmates nuinhas em pêlo) e na violência escatológica (cérebros, tripas... tripas, cérebros...).

É, ué... às vezes a intensidade fala mais alto, e já que o roteiro é batidão mesmo...

Agora, o que eu não faria mesmo é colocar no filme um arremedo descarado do super-zumbi Nemesis. É, aquele mesmo de Resident Evil...


Mais triste ainda é ver o ótimo Peter Coyote (Lua de Fel) figurando no elenco desse filme pra lá de suspeito...

Bom... seja o que Ed Wood quiser.

A propósito, no site oficial tem um mapa da "genealogia living dead". Bastante elucidativo.


O mestre Romero está lá, devidamente centralizado. Eles tinham de ensinar essas coisas nas escolas!

:P


The next: the new fuckin' top 5!!

EVERGREY - THE INNER CIRCLE
(Hellion/2004)


Esse é bem recorrente aqui no top five, mas nunca comentei a respeito. E o negócio é o seguinte... todo o fã de rock pesado tem de ouvir esse disco. É quase uma obrigação didática. Há muito que as bandas da área tentam alcançar o tal álbum perfeito, tarefa que se tornou uma verdadeira caça ao Graal artístico. Não raro, o que se consegue são resultados assépticos, mecânicos e frios - embora "visualmente" magistrais. A harmonia idealizada entre técnica sobre-humana e energia emocional na música ainda está engatinhando, mas já encontra no Evergrey o seu grande representante. E The Inner Circle consegue atingir um nível ainda maior que seu excelente álbum anterior, Recreation Day (2003).

Thrash, progressivo, pop, soft rock, AOR, heavy tradicional, gothic metal e até gospel (!) comparecem de forma extremamente coesa, tornando a textura sonora do Evergrey um elemento único, superior. Esse disco (conceitual, aliás) só não é indescritível porque dá pra comentar ao menos uma coisa ao seu respeito: fenomenal. É impensável destacar apenas uma faixa, e o diamante In The Wake Of The Weary está aí para download como homenagem à sensacional vocalização soul de Carina Englund. Compre, roube, se vire.


THERAPY? - TROUBLEGUM
(A&M Records/1994)


Outro habitué dos 5+. Mas não tem como. O irlandeses do Therapy? cometeram um disco definitivo, atemporal. Calma... não é nada daqueles clássicos irretocáveis, hiper-complicados e altamente respeitáveis (e chatos!). Troublegum é um dos melhores discos de party rock dos anos 90 - incluindo-se aí uma lista de full-lenghts que vai dos clássicos Time's Up, do Living Colour, e The Real Thing, do Fenemê, ao Blood Sugar Sex Magik, do RHCP.

Troublegum é uma maravilha de sonzeira guitar rock. O trio formado por Andrew Cairns (guitarra e vocais), Michael McKeegan (baixo) e Fyfe Ewing (bateria), tira água de pedra com a antiqüíssima equação baixo-guitarra-bateria, com soluções criativas e efetivas (até hoje), repleta de ganchos perfeitos. E a banda não mede esforços. Rola de tudo: hardcore, thrash, power pop, surf rock, industrial rock, e um clima inequívoco de pop rock oitentão.

O Therapy? já fez discos memoráveis (High Anxiety, Infernal Love e a porrada federal Nurse), mas Troublegum é o que equilibra o melhor de uma banda dona de uma química incendiária. Pauladas como Knives, Screamager, Nowhere, Isolation, Trigger Inside - enfim, o disco inteiro - dão choque na alma e fazem bem ao corpo. Rock good vibration é isso aí.

E detalhe... tem a participação mais do que bem vinda de Page Hamilton, líder do Helmet. São dele os acordes de guitarra em Unbeliever. Cai dentro, meu chapa. Isso é trilha sonora de festa americana organizada por gente grande. Pra ouvir no talo.


CRACK UP - DEAD END RUN
(Moonstorm Records/2000)


Death'n'roll. Esse é um tipo de crossover que sempre viveu mais no conceito do que na prática, de fato. Formações extremas e experimentalistas como o Napalm Death fase Lee Dorrian, o Brujeria, o Agathocles e o genial (e sumido) Pungent Stench já bicaram o estilo, mas nunca o tomaram como estrutura-base - mesmo por quê, a viagem dos caras era outra. Restou à banda alemã Crack Up honrar a camisa e se tornar o maior (senão o único) representante do gênero. E não é que a coisa funciona às mil maravilhas?

Com a explosão típica do death jogando a favor de uma pegada rocker, a banda acaba mostrando o quão inédita e, ao mesmo tempo, simples é essa proposta. "Como é que não pensaram nisso antes?"... é a primeira coisa que vem a mente após ouvir pérolas do naipe de Maximum Speed, Dead Good Motherfucker, Better Dancer, Stallknecht, Evenflow (não é a do Pearl Jam!), Rock The Coffin', a sintomática It's Shit e a faixa-título.

Por vezes, a sonzeira parece pop demais (melodias à Beatles rolando ao fundo [!!], refrães pegajosos, riffs), mas acaba sendo incrível constatar que um estilo totalmente anti-comercial poderia rolar no volume 10 sem estranhar. E de uma forma bem mais íntegra do que um In Flames da vida (um Metallica do death).

O único porém desse disco do Crack Up é que eu tenho certeza que ele soaria ainda melhor se eu estivesse pilotando uma Harley Davidson na hora. Ou melhor ainda... esse V8 cavernoso da capa...


ASTRAL DOORS - OF THE SON AND THE FATHER
(Hellion/2003)


Jesus, Maria e José... Tenho até medo de escrever sobre esse que é um dos melhores discos lançados em 2003. Então, nada melhor (pra minha batata) do que expor meu background rockeiro... Existe - quase que sempre - um "interesse científico" da minha parte a respeito de vários estilos de Música. Mas o que eu mais ouço de forma constante e recorrente é o rock'n'roll old school, não tenho como negar. Thin Lizzy, Foghat, Bad Company, Free, Sabbath, Led Zep, Aero, - estamos chegando - Purple, Dio e... - chegamos - Rainbow. A instituição Ronnie James Dio, ao lado do mestre Ritchie Blackmore, integrou o Rainbow, uma das maiores bandas da História do Rock e referência atemporal - inclusive para dinossauros consagrados como Iron Maiden, Judas Priest e, puta que o pariu, acho que todo mundo da cena heavy atual.

E o quê isso tem a ver com o Astral Doors? A banda sueca é responsável pela atualização dessa vertente tradicional do rock, da melhor maneira que ela poderia soar se fosse concebida hoje pelas formações clássicas do Rainbow, do Deep Purple, do Uriah Heep ou mesmo do Jethro Tull. É heavy rock visceral, orgânico e autêntico, honrando o legado de bandas tão precursoras quanto Cream e o Blue Cheer. Pra quem é straight rocker, o Astral Doors seja talvez o grupo que mais atraia interesse em toda a cena, pois carrega consigo a responsa de um estilo que é um dos mais difíceis de compor e executar - já que o virtuosismo narcisista não tem nenhum apelo aqui.

Desde a abertura, com Cloudbreaker, seguindo com clássicos imediatos como a faixa-título (cuja levada, ao vivo, deve se comparar a Highway To Hell...), a maravilhosa Slay The Dragon, In Prison For Life, The Trojan Horse, Burn Down The Wheel, Rainbow Your Mind e a incrivelmente ganchuda Man On The Rock, esse disco é absurdamente essencial nesses dias tão artificiais e descartáveis. É o feeling e o calor da paixão trazidos novamente para dentro do rock'n'roll. Já não era sem tempo.

"I'm a Man On The Rock... Like Jesus Christ...!!"


...TRAIL OF DEAD - SOURCE TAGS & CODES
(Interscope Records/2002)


Duas verdades... uma - o nome da banda é "And You Will Know Us by the Trail of Dead"... e duas - você precisa conhecê-la. E foda-se o que você miseravelmente caracteriza como estilo, gênero ou abordagem. Foda-se. Foda-se. Foda-se. Não cometa o erro que eu cometi. Essa banda está acima do bem ou do mal, acima de contextualizações. Ela apenas é. ...Trail of Dead, por algum acaso, se utiliza da permissividade outsider rock para dar continuidade a sua cartarse niilista seek and destroy cíclica, a dicotomia auto-impingida, a auto-destruição, ao nirvana. Sources Codes & Tags é mais do que um álbum. É uma experiência, uma bad trip da lisergia movida a feedbacks de acordes saturados. É como tocar o próprio cérebro em um mundo mágico do impossível.

É fatalismo feito onda sonora.

É uma forma de vida.

É perigoso.

...Trail Of Dead transcende tudo isso e esse álbum ainda não é o suficiente.

Sem mais.

Embarque.


dogg... insane in the fuckin' brain