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terça-feira, 27 de agosto de 2024

O culto ao Lagarto Mágico


Na zaga: Cook Craig, Ambrose Kenny-Smith, Michael Cavanagh e Lucas Harwood; No ataque: Stu Mackenzie e Joey Walker

Era mais fácil acertar na loteria do que antecipar o sucesso atual do King Gizzard & the Lizard Wizard. Esperaria isso de outras bandas cult ad eternum, tipo Gallon Drunk, The BellRays ou até o Squirrel Nut Zippers. Mas a evolução das espécies – e da indústria musical – tinha outros planos.

O sexteto australiano foi fundado por Stu Mackenzie, Joey Walker e pelo ex-integrante Eric Moore em 2010, quando estudavam indústria musical na Universidade RMIT, em Melbourne. Conheci em 2019, no pesadão Infest the Rats' Nest. Desde então, o grupo não saiu mais do play e das minhas listas de melhores do ano. E afirmo isso da forma menos deslumbrada possível, visto que os caras são ratos (ou lagartos) de estúdio: só em 2022 eles lançaram cinco álbuns. Contando com o excelente Flight b741, lançado este mês, eles já contam com 26 discos de estúdio. E olha lá se não desovaram mais algum enquanto termino de datilografar.

O mais impressionante é que cada registro trafega por um gênero diferente. Tem pra todo mundo: rock psicodélico, heavy metal, stoner, thrash metal, garage rock, space rock, música eletrônica, progressivo. E sem perder a identidade.

Mas nada é ao acaso. Além de multi-instrumentistas impecáveis, são operários 24/7, trabalhadores heavy duty. E é evidente que souberam, como poucos, ressignificar a desconstrução do disco ao seu favor.

O resultado são os shows concorridíssimos das últimas turnês – sold out na Europa e agora, nos Estados Unidos e Canadá. Ao que consta, o cachê atual da banda gira entre 150 e 300k (Bidens, of course) para datas na América do Norte. Abaixo da linha do Equador, deve ser o triplo do valor mais os rins e as córneas do público.

Mas até nisso o grupo resolveu subverter e está transmitindo cada apresentação do atual rolê em lives no seu canal do YouTube. A ação é qualquer coisa de espetacular. Seguem os shows de sábado e domingo últimos.




De Cleveland/Ohio a Newport/Kentucky são 402 km. Deve ter sido um corre daqueles. 24 horas de busão, toneladas de equipamentos, seis abençoados mais equipe. Operários mesmo.

Logo mais, tem outro.

Ps: as lives são removidas na sequência, mas sempre tem um samaritano que reposta. Lógico que não devem durar muito também.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Os Filhos Rivais a casa tornam


Tem dias em que só o que preciso é de um bom disco de rock. Não hard rock. Não heavy metal. Rock. E o discaço Darkfighter atesta algo que venho repetindo mantricamente há anos: o Rival Sons é a melhor banda de rock da atualidade.

E vai cantar assim na puta que o pariu, Jay Buchanan.


Ps: o melhor de tudo é que vai rolar um jogo de volta esse ano ainda, com Lightbringer.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Os cavalheiros do apocalipse

Em geral, os catálogos da plataforma musical NoiseTrade são recheados de muito folk, americana e cantores indie/songwriters com banquinho e violão e depressão. Às vezes, a coisa pesa e velhas guitarras roncam furiosas de alguma garagem forrada com pôsteres do MC5, Black Sabbath e Motörhead. E tem aquelas ocasiões em que não rola nem uma coisa, nem outra e é sensacional, como o grupo The Texas Gentlemen.


O divertido vídeo da música "Pain!" traz um humor negro que normalmente seria associado a sons mais fuleiros e barulhentos, mas é conduzido pela pegada acústica de um certo soft rock vintage. No fim, os rapazes de Dallas abraçam mesmo é o country rock de raiz. No perfil do Facebook (que moderno) eles fazem menções apaixonadas a Willie Nelson, Johnny Cash, Kris Kristofferson, The Band e outros.

Analisando por outro espectro, o improvável mix da imagética gore e cínica do vídeo com o pop rock agridoce e anacrônico da música também remete à clássica cena de Laurel Canyon, Los Angeles - que ganhou fama e (muita) grana no final da década de 1960 e durante toda a década de 1970.

O lirismo e o perfeccionismo musical de Eagles, Carole King, The Byrds, Buffalo Springfield, Crosby, Stills, Nash & Young e outros ilustres locais só eram superados pelo seu ritmo industrial de sexo, drogas e quebra-paus homéricos nos bastidores. Não por acaso, há um verdadeiro cult following àquela louca geração, que inclusive foi tema de livros, como Hotel California, de Barney Hoskins, e filmes, como Laurel Canyon - Rua das Tentações, que usa a mística barra-pesada do lugar como pano de fundo.

Nos primórdios, essa turma - mais Steely Dan, Cat Stevens, Elton John, Seals & Crofts, America e lá vai AOR - passava longe do meu dial. Do alto do meu subterrâneo punk-metal, achava isso tudo o suprassumo da cafonice. Puro preconceito. Mal sabia que os bem comportados é que eram os verdadeiros maus exemplos. E a música era demais - principalmente depois dos 35.

Hoje tenho os primeiros discos de Elton John como discoteca básica. The times they are a-changin', mesmo.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Caravana da viagem


Óskar Logi Ágústsson (guitarrista e vocalista), Guðjón Reynisson (baterista) e Alexander Örn Númason (baixista) são três moleques espinhudos e mal saídos da adolescência com os pés fincados nas raízes do rock setentista. À primeira vista, o grupo The Vintage Caravan parecia um novo Silverchair, mas à primeira ouvida... As influências básicas podem ser até próximas, mas eles bebem direto na fonte: Hendrix, Cream, Mountain, Grand Funk, Humble Pie e todo o contigente do peso lisérgico dos anos 60 e 70, mas com acabamento moderno e "radio friendly".

Acabaram de lançar seu 2º disco, o ótimo Voyage, via Nuclear Blast. Que está em altíssima rotação em todos os formatos de players dos quais eu sou responsável.


O fato de serem agora internacionalizados pelo tradicional reduto metálico não é menos que sintomático - o som do power trio islandês é uma paulada. A única semelhança com Sigur Rós e Björk é a procedência subzero. Apesar da temperatura ártica destoar do desert sound invocado dos garotos, pelo lado psicodélico, o idílico país (que parece uma versão psicodélica do Condado, do Tolkien) parece o local perfeito pra submergir nas good trips do The Vintage Caravan.

Pelo menos foi essa a vibe do bem-humorado vídeo da música "Expand Your Mind".


Qualquer dia também seguirei rumo à estação Islândia...

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Cães velhos merecem o céu


Steven Gene Wold, vulgo Seasick Steve, aprendeu a tocar guitarra aos oito anos de idade. Quem ensinou foi o bluesman K.C. Douglas, que fazia um bico na oficina de seu avô. Aos 13 fugiu de casa - e dos maus-tratos que sofria do padrasto - e caiu na estrada. Pegou muita carona, viajou como clandestino em trens, conheceu o Mississippi, o Tennessee e Deus sabe mais onde. Viveu muitos anos como sem-teto, comeu muita poeira. Virou um hobo: migrava pelo interior atrás de emprego, trabalhando sazonalmente em fazendas. Depois sumia no mundo de novo, evaporando por longos períodos.

Emergiu nos anos 60, em meio à efervescência blueseira e psicodélica de São Francisco. Tocou com vários artistas da cena independente. Foi músico de rua em Paris. Em 2001, morando na Noruega, lançou seu 1º disco, como Seasick Steve & The Level Devils. Em 2006 veio o primeiro álbum solo.

You Can't Teach an Old Dog New Tricks já é seu quarto álbum e, pra mim, um dos melhores de 2011. Na bateria está o figuraça Dan Magnusson (parece roadie do ZZ Top, como o próprio Steve) e nas quatro cordas um ilustre senhor de nome John Paul Jones. É um discaço de country 'n' blues com os dois pés fincados na garagem - vide a cigar box guitar zoadaça construída por Steve - e recheado de slides insanos e boogies deliciosos. Ora melancólico, como na abertura "Treasures", ora rasgado e frenético como em "Days Gone", mas sempre carregado com um groove blueseiro irresistível. Sob medida para as melhores espeluncas de beira de estrada.

Na última faixa, "Levee Camp Blues (Write Me A Few Of Your Lines)", Steve deixa de lado os instrumentos e desfia um tostão da sua vida louca vida. Fantástico.


Steve tem estado em alta na Inglaterra desde sua aparição no programa do Jools Holland. Tem sido redescoberto na América também, inclusive com dois terços do Them Crooked Vultures lhe pagando tributo e servindo de banda de apoio. Merecido é pouco.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

She-Wolfe of the Satan's Service


Faria muito mais sentido se Chelsea Wolfe fosse natural de algum lugarejo perdido do leste europeu ou de algum país pródigo na cena black metal. Mas foi mesmo a ensolarada Califórnia quem pariu uma das revelações mais sombrias da cena alternativa. Ovelha negra per se, a cantora, guitarrista e compositora passa longe do ideário californiano padrão, do rock alto astral e das pistas de skate aos calçadões de Venice e às onipresentes praias - exceto, claro, se estiver nublado.

O tom é de uma suavidade melancólica, liricamente pesada, estranha e de uma forma incomum, sedutora. Não é uma música de fácil assimilação, mas certamente muito recompensadora para iniciados em Nick Cave, My Bloody Valentine, PJ Harvey, Portishead, Patti Smith e esquizoidices quetais. Em suma, uma resposta das profundezas à new age popstar de Florence + The Machine. Get out!!

Esse negrume todo ganhou a atenção da crítica indie e também a afinidade de fãs ilustres, ilustríssimas. Merecido.


Ἀποκάλυψις ("Apokalypsis"), seu segundo álbum, é arrepiante. Lançado no final de 2011, virou figurinha fácil nas listinhas mais descoladas de melhores do ano. Na parte melódica, o disco tem lá seus momentos "PJ & The Banshees", mas a obsessão por morte e desespero impregnada nas letras, o instrumental fúnebre, as vocalizações fantasmagóricas, a atmosfera soturna... porra, é de fazer até os caras do Ghost se mijarem nas batinas.

Não há nada de poser na cantora californiana. Ela é the real deal. Tori Amos fez uma cover do Slayer, Chelsea Wolfe fez uma do Burzum!

O som foi batizado de doom folk pela crítica, mas é apenas uma tentativa pífia de categorizar a demon-girl. A única música que se aproxima do rótulo talvez seja "Pale on Pale", um pesadelo sepulcral de sete letárgicos minutos com uma indefectível influência de "Black Sabbath", a música. A intro "Primal/Carnal" parece saída de uma missa negra ministrada pelo próprio Pazuzu e "To The Forest, Towards The Sea" é trilha pra fugir da bruxa de Blair e de toda a população demoníaca de Amityville e Cuesta Verde. Vade retro.

Já nas músicas "Demons" e "Friedrichshain" ela reafirma sua vocação pra PJ Harvey do inferno.


Mas é nas demais faixas que a artista destrincha mais a fundo sua identidade musical (ainda em formação, segundo ela), que lembra vagamente uma versão dark da Nico, a icônica musa ex-integrante do Velvet Underground.

Não duvidaria se o cultuado disco Chelsea Girl também escondesse alguma profecia sobre uma Chelsea sinistra de um futuro próximo...

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Unholy shit!


Bem que tentei, mas não deu pra permanecer muito tempo indiferente. Odiado do fundo da alma pelos guerreiros true e insensado pela escória mortal sem honra - incluindo gente como James Hetfield e Phil Anselmo (que literalmente vestiu a camisa no recente SWU) -, o grupo sueco Ghost parece pronto pra reinar com fogo e enxofre no cenário do pop pagão. Justiça seja feita, seu debut Opus Eponymous, do ano passado, é Satã em forma de chiclete. Baalbaloo. Macaco véio que sou, fazia tempo que não ouvia uma armação tão bem articulada vinda da casa do capeta. Desde o Antichrist Superstar para ser exato - e com uma nesguinha daquele investimento.

A banda, que também é chegada num teatrinho, está lotando shows na atual turnê norte-americana, tem merchan espalhado em tudo que é canto e já tem quase 1 milhão e meio de execuções no LastFM desde 2010. Mesmo com a popularidade ascendente, a banda sabe que o segredo é a alma do negócio (ou, no caso, o negócio da alma). O jogo é escondido cuidadosamente e nem mesmo suas identidades são entregues: quem responde pelos vocais é o ilustríssimo "Papa Emeritus" e os demais músicos (dois guitarristas, um baixista, um baterista e um tecladista) são creditados como "Nameless Ghouls". Boa sacada para driblar o imposto de renda.

A poesia é aquela podreira. Saca a letra de "Death Knell":

Say, can you see the cross?
Inverted solemnly
Symbol for the goat
Of a thousand young

Six six six
Evoke the king of hell
Strike the death knell
Death knell

Say, can you hear the chimes?
Tolls now for the end
Bells call out their doom
As victor reaches womb

Sex sex sex
Recieve the beast of evil
Of evil…

Can you say his name?
Carrier of the light
Legions of this seed
A child a spouce will feed

S-A-T-A-N
Under spell
of death knell
Death knell

Uma belezura esse satanismo de gibi. Lembra até o Sarcófago de tempos idos (embora este seja insuperável!). E tudo isso sem levantar a voz ou partir para a cacofonia instrumental, ao contrário do que a estética tipicamente black metal sugere. Até o padre Marcelo poderia cantar essa música.

Outra coisa que chama a atenção é a capa do álbum...


..."levemente inspirada" no pôster do filme A Mansão Marsten, do nosso sempre estimado Tobe Hooper.


A marketagem não podia ser mais diabólica. Ainda assim, alguns detetives de horas vagas (24-7) já identificaram o líder do bando como sendo Mary Goore, do Repugnant (?), via reconhecimento facial chutométrico.


O som do Ghost investe no chamado occult rock do final dos anos 60/início dos 70 - um negócio tão segmentado e outsider que não tem nem verbete no Wikipedia. A tônica soturna e macabra, sem necessariamente ser heavy, vem de bandas seminais como Pentagram, Coven, Salem Mass e até certos números do Blue Öyster Cult e do Pink Floyd dos primórdios. Algo da NWOBHM também perambula por ali, tipo Witchfinder General e Holocaust.

Mas talvez a influência que mais salte aos ouvidos seja mesmo o Mercyful Fate dos primeiros dias, o que é negado com som & fúria pelos detratores. Mas é só checar o clássico Melissa e o catadão Return of the Vampire. Melhor ainda, ouça o Black Rose, a banda pré-Mercy do King Diamond. Não tem erro. Especialmente na inflexão vocal. Alguém está perdendo royalties.

Posto isso tudo, não é surpresa afirmar que Opus Eponymous é um caldeirão de referências rockeiras. Algumas obscuras, outras nem tanto. O fato é que não é apenas déjà vu: você já ouviu mesmo boa parte dos riffs, bases, linhas de teclado e das indefectíveis melodias presentes no álbum.

Minhas favoritas são o refrão de "Satan Prayer" com melodia Yes/Deep Purple em suas respectivas fases pop com levada de bateria disco (!), a instrumental "Genesis" trazendo o tema do Terminator semi-impresso nos acordes e, claro, o hit "Ritual", cujos riffs introdutórios (opa!) se passariam fácil como de alguma banda indie-fofa do festival Planeta Terra.


Queria era ver a cara do Dave Mustaine ao ouvir essa base de guitarra.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

T(HRASH)-800


Quarenta minutos do mais puro Arnold metal! Assim é Total Brutal, estréia do demolidor Austrian Death Machine. O nome é auto-explicativo, mas vamos lá... segundo o site oficial, a intenção é "fazer uma homenagem aos grandes filmes de Arnold Schwarzenegger". Trata-se de uma piração solo de Tim Lambesis, frontman do californiano As I Lay Dying, que acabou saindo melhor que a encomenda.

Diferente do metalcore da sua banda principal, o som aqui é total thrash metal old school, com aquela indefectível pegada oitentista, cheio de riffs, refrões grudentos e BPM's insanos. Coisa fina mesmo, pra fã de Exodus nenhum botar defeito. E sendo uma one man band, impressiona a fúria e a versatilidade de Lambesis, que manda bem tanto na guitarra quanto no baixo e na batera.

Na verdade, ele toca como se fosse o próprio Arnold trucidando algum inimigo em plenos anos oitenta!


Total Brutal foi lançado no ano passado, seguido do EP "natalino" A Very Brutal Christmas. Todas as faixas são destruidoras e as vinhetas protagonizadas pelo personagem "Ahhhnold" (Chad Ackerman, vocalista do Destroy The Runner) são hilárias. Já ouvi imitadores do Schwarza melhores, mas a tosqueira com o sotaque acaba conspirando a favor - em particular na intro "Hello California", onde o Governator avisa que vai abrir uma academia de musculação em cada cidade do estado.

As letras e os títulos das músicas são repletas das tags clássicas do Schwarza. Porradas como "I am a Cybernetic Organism, Living Tissue Over (Metal) Endoskeleton", "Come with me If you Want to Live", "You Have Just Been Erased", "Screw You (Benny)", "Who is Your Daddy and What Does He Do", "If it Bleeds, We Can Kill it" e a sensacional "Get to the Choppa" são um verdadeiro tributo à máquina de matar austríaca.

Confesso que fiquei meio preocupado quando reconheci todas elas com absurda facilidade. Lembrei que na minha adolescência tive pouco de Bergman, Truffaut, Buñuel, Antonioni... mas quer saber?

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

HIPPIES DON'T LIE


Peso, lisergia e lirismo diretos de Estocolmo, Suécia. O Siena Root poderia ser mais uma banda de garotos que amavam Zeppelin, Purple & Sabbath, não fossem as relações realmente estreitas com o dito "classic rock" - e o talento necessário para tal. O grupo foi criado no fim dos anos noventa pelo baixista Sam Riffer e pelo baterista Love H Forsberg ("Love", para os íntimos), que já tocavam juntos há quase dez anos. Logo arrendaram KG West (guitarra, órgão, cítara [!], backings e clone do Urso do Cabelo Duro) e Oskar Lundström (vocais). Com essa formação, gravaram o excelente debut, A New Day Dawning, de 2004. Pouco depois, Oskar saiu da banda e foi substuído pela cantora Sanya. Com a vocalista, eles lançaram seu segundo disco, Kaleidoscope, de 2006. No ano seguinte, ela deixou o grupo, dando lugar a Sartez, que cantou no novo álbum, Far From The Sun - e que, até onde sei, ainda continua na banda.

As constantes mudanças de frontmen seria algo desastroso em qualquer grupo, mas o que acontece com o Siena Root é a profusão de um fenômeno raro. Quantas vezes na história do rock'n'roll um cantor cedeu espaço a outro tão bom ou até melhor? E que compreende exatamente o que a banda precisa naquele momento? Os casos são poucos e notórios - de cabeça, vou aí de Bon Scott/Brian Johnson (AC/DC), Ozzy/Dio (Sabbath), Gillan/Coverdale (Purple), Di'Anno/Dickinson (Maiden) e Halford/Owens (Judas). No grupo sueco isto aconteceu três vezes em três discos (100% de "reaproveitamento"!), sempre com resultados excepcionais.

O trio de vocalistas é peculiar ao extremo. Cada um tem um estilo bem diferente dos demais. Oskar Lundström, o primeiro pródigo, tem influências de soul, inclusive com timbre e alcance próximos do lendário Glenn Hughes. Quem conhece, sabe o que isso significa (e deve estar me acusando de heresia agora). Já a gatinha Sanya ouviu muito o Robert Plant dos áureos tempos e deve cantarolar "Since I've Been Loving You" em casa sem fazer feio. É uma cantora incrível. E Sartez... é glam. Mas glam, glam mesmo, com um estilo espetacularmente andrógino. Tenha em mente Ian Hunter (Mott The Hoople), Marc Bolan (T. Rex) e Bowie fase Ziggy Stardust. Mais uma vez, a banda foge do lugar comum e mantém o alto nível.


Apesar do trampo nivelado dos três à frente do Siena Root, Sanya é de longe a mais cultuada entre os admiradores do grupo. Muito marmanjo ainda choraminga pela saída da moça e é fácil entender porque.

No vídeo a seguir, ela faz uma releitura sensacional de "Coming Home", faixa de abertura do primeiro disco, cuja linha vocal (de Oskar) é dificílima.


Impossível não lembrar de Plant no filme The Song Remains The Same, mais precisamente nas cenas ao vivo no Madison Square Garden.

Como de praxe, os três álbuns do Siena Root continuam inéditos por aqui. Espero que não por muito tempo. Discoteca básica para qualquer stonerhead ou simplesmente fãs de Música.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

ROCK AND SOUL


Motown vs. SubPop. MC5 + Aretha Franklin. The Stooges com Tina Turner no lugar do Iggy Pop. Para um crossover deste nível são imprescindíveis: talento, intima com o lado mais selvagem do rock'n'roll e a disposição de tornar tudo isto possível (e palatável). Calhou do californiano The BellRays ter estas três características em abundância.

Conheci a banda só ano passado, pelo excepcional álbum Have A Little Faith, de 2006 (pra que servem as listas, senão pra deixar alguém indispensável de fora?). É uma porrada na cara e um orgasmo para o espírito. Bob Vennum (baixo) e Craig Waters (batera) gerenciam uma cozinha pesada, carregada de grooves matadores, e a guitarra de Tony Fate parece uma cruza dos riffs de Wayne Kramer e Johnny Ramone.

Mas a estrela é mesmo a poderosa vocalista Lisa Kekaula. Quando ela começa a cantar, a mística deste mix entra em ação e faz todo sentido do mundo. Que voz. Que voz. Que voz.

Quem compareceu aos shows da banda no ano passado (no Inferno Club, em Sampa, e ao lado do Mudhoney no festival brasiliense Porão do Rock), com certeza saiu extasiado. Ainda mais com o presentão que ganharam no bis...



Angus ficaria orgulhoso.

The BellRays está de disco novo, Hard Sweet And Sticky. Já é o 9º álbum de sua discografia, fora os splits e EP's. Ainda estou degustando, mas a primeira impressão é de que a sonzeira agora flui mais acessível. Contudo, o punch rocker continua intacto - e o vozeirão também!


"Blues is the teacher. Punk is the preacher."

quarta-feira, 18 de julho de 2007

O FIM ESTÁ PRÓXIMO


...e o Ministry começa a desligar seus motores secundários, após 26 anos de funcionamento nonstop. Vazou ontem na rede The Last Sucker, último álbum de estúdio da banda (finalizando assim a trilogia/atentado à administração W. Bush iniciada em 2004 com House Of The Molé e seguida por Rio Grande Blood, de 2006).

O canto do cisne foi anunciado em maio do ano passado pelo alter-ego do grupo e anti-republicano de carteirinha, Al Jourgensen. Entre os motivos para o término das atividades, ele destacou a manutenção de seu novo selo, 13th Planet Records, a produção de bandas e, principalmente, evitar que o Ministry se torne uma caricatura ("and doing crappy Aerosmith and Rolling Stones albums 30 years later").

Geralmente, grupos com fim de atividade programado agendam a longo prazo certos packages estratégicos. O esquema continua o mesmo. Senão, vejamos: Rantology (2005) é a coletânea (ainda que subverta o formato) e Rio Grande Dub (2007) é o disco de remixes. Agora só falta o Live. O fato é que de Ministry mesmo só tem mais esse resto de ano. Concluindo a atual "MastubaTour", eles fecham o boteco ao vivo com a "SeeYouLaTour". Em 18 de setembro, eles lançam The Last Sucker. Depois disso já era.

O fim da banda deixa o mundo mais babaca, mal-humorado e politicamente correto. Com a saída do baixista e ex-parceiraço Paul Barker em 2003 (o único colaborador fixo), o Ministry termina sua existência da mesma forma como começou - pelas mãos de Al Jourgensen, como uma one-man-band. Triste ainda é constatar que a trilha dessa despedida é simplesmente um dos álbuns mais destruidores do ano. Jourgensen preparou um track-list violento, direto e, de certa forma, menos dispersivo e mais "musical" que os últimos discos. Ao todo são onze lajotadas na testa.


A faixa de abertura Let's Go, é thrash dos bons e chega derretendo os auto-falantes com um riff serra-elétrica e um solo psicótico de Mike Scaccia (ex-Rigor Mortis). Watch Yourself é um speed metalzão mixado com EBM old school. Lembra algo do The Land Of Rape And Honey, de 1988, produzido com tecnologia atual. A ritmada Life Is Good, é o Service Pack 2 do Sepultura fase Chaos AD. The Dick Song é escandalosamente pesada. Poderia facilmente constar no repertório do sujão 1,000 Homo DJ's, uma das filiais do Al. A faixa-título resgata a essência pós-punk na qual o grupo foi tão influente. No Glory e Death & Destruction são literalmente morte e destruição sem glória, com samplers de W. Bush ordenando a implosão do planeta. Roadhouse Blues é um inesperado cover do clássico do The Doors. Thrash industrial com harmônica. Caraaaaalho. Acrescentaram 850 toneladas de peso na música e juro que o blue ainda continua lá, intacto. Die In A Crash é um electro-punk embebido em new wave, coisa realmente alienígena no som da banda, mas executada em altíssima voltagem.

End Of Days partes I e II têm participação de Burton C. Bell, frontman do Fear Factory, e fecham o álbum em tom inequívoco de "tá chegando a hora". Especialmente a parte II, com riff melódico inspirado, coralzinho de crianças ao fundo e a sonzeira se esvaindo até a última pancada do drum machine. Isso aqui vai deixar saudade.

Rest in peace, Ministry.


...mas tenho lá as minhas reservas. Al Jourgensen é malandro pra caramba.


A propósito, pra efeito de comparação: Cold Life, o primeiro single do Ministry, de 81, e Let's Go, do disco novo.

It's evolution, baby.

terça-feira, 31 de outubro de 2006

SEND MORE ROCK'N'ROLL


"Sua música pode ser descrita como zombiecore - uma tétrica fusão de thrash metal e punk hardcore moderno, contaminado e desfigurado por uma obsessiva fascinação por filmes B de mortos-vivos."

Os ingleses do Send More Paramedics talvez sejam os caras mais dedicados à "cultura zombie" dentro do circuito rocker atual. Eles levam a coisa à sério mesmo. Nos shows, os integrantes sobem ao palco devidamente caracterizados como mortos-vivos putrefactos - menos o baterista, que usa uma daquelas máscaras mexicanas de luta-livre (o que é tão trash quanto). As letras, verdadeiros relatórios de guerra narrando com detalhes um apocalipse canibal-zumbístico. E as músicas são abarrotadas de samplers com diálogos de filmes clássicos do gênero, como A Noite dos Mortos-Vivos, Dia dos Mortos, Zombie, etc. Fora o próprio nome da banda, tagline clássica de A Volta dos Mortos-Vivos. É a trilha sonora perfeita para um clip com trechos de filmes do George A. Romero.

B'Hellmouth [vocais], Medico [guitar], xUndeadx [baixo] e El Diablo [batera], formaram a banda em 2001 e, desde então, já atacaram os seres vivos com dois discos e dois EPs split. Seu mais novo álbum chama-se The Awakening, e mostra que eles retornaram sedentos por sangue quente e carne fresca. E cheios do profissionalismo! O crossover destruidor dos caras saiu do gueto e suas composições agora estão muito mais focadas, técnicas e furiosas. Chega a lembrar um mix thrashcore de Samhain/Misfits com a sonoridade do último do Slayer, mas com identidade própria. Jeff Walker e Ken Owen, dois integrantes do podraço e inesquecível Carcass, participam em duas faixas. Devem ter se sentido em casa.

Citar algum destaque é meio complicado, já que o CD 1 inteiro é um fôlego só. Mas na próxima festa punk que eu armar, tem de rolar The Crowd Is Crushing Me, Blood Fever, Virulence, Anthropophagi, Vital Signs e I Am Every Dead Thing. Sensacionais. Já no CD 2 a coisa atinge um nível de sofisticação inesperado. Trata-se de uma trilha instrumental com quinze faixas incidentais assustadoras, à John Carpenter, com toda aquela atmosfera tétrica horripilante de filme de terror.


Pra ouvir enquanto recarrega uma 12 com cano serrado e, munido de martelo, pregos e umas ripas de madeira, sela um barracão cercado por centenas de mortos-vivos pútridos com os estômagos necrosados roncando por tripas frescas. Hell yeah!


"Braaaaiinnss... braaaaiinsss..."