terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Let's try to sleep now...


Mark William Lanegan
(1964 - 2022)

Na conta oficial do Twitter, apenas o breve e impessoal aviso de um amigo, apressadamente pedindo respeito à privacidade da família. É inevitável pensar, não tão lá no fundo, "epa, calma aí, amigo... como é que é o negócio?" E pegando no braço, inclusive. Como é que soltam uma dessa, do nada, numa terça-feira qualquer?

Para quem viveu plenamente o rock entre o final da década de 1980 e o início da década de 1990, o músico, compositor, escritor e espetacular cantor já havia garantido sua cadeira no panteão da música. Seja com o Screaming Trees, nas colaborações com o Queens of the Stone Age, com a Isobel Campbell ou seja na carreira solo com sua discografia estranha, imprevisível e interessantíssima. É uma lenda do rock desde o dia um.

Essa foi pra sumir com o chão abaixo dos pés. Se foi o Mark Lanegan. Numa rara terça-feira qualquer.

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Vamos colaborar, pessoal!


E não esqueça de compartilhar onde puder.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Réquiem para uma ave de rapina


Tom Veitch
(1941 - 2022)

Se foi Tom Veitch, aos 80 anos. Segundo comunicado de seu irmão, o grande Rick Veitch, a causa foi Covid. Tempos (ainda) difíceis.

A trajetória do escritor, poeta, roteirista e quadrinista foi um tanto peculiar. Iniciou a carreira no movimento Underground Comix de San Francisco, no iniciozinho da década de 1970. A tônica era aquele tsunami irrefreável de humor negro, sexo, drogas e violência que tanto escandalizava o Comics Code Authority. No entanto, foi em suas novelas e livros de poesia que Veitch desenvolveu um estilo pessoal, repleto de abstrações, existencialismo e espiritualidade, aspectos presentes também em sua incursão no mainstream dos comics a partir dos anos 1980 —o que não surpreende, já que, durante um período, Veitch foi monge beneditino.

Sua produção na 9ª arte foi modesta, porém marcante. E quase sempre fora da curva.

Gosto de tudo o que ele fez: a belíssima mini A Guerra de Luz e Trevas, o anárquico (e não menos esquisito) The Nazz, sua trinca de arcos do Homem-Animal (Réquiem para uma Ave de Rapina - O Senhor dos Lobos - O Significado da Carne), além, é claro, o seu material de Star Wars, precisamente o início da linha Tales of the Jedi, com a introdução da era da Velha República, e a memorável trilogia Império Negro - Império Negro 2 - Fim do Império.

Foi ele, aliás, quem propôs a George Lucas as ideias da clonagem do Imperador e de Luke indo para o Lado Sombrio. E as defendia muito bem.

Veitch tocava uma livraria na pequenina Bennington, Vermont. Completamente afastado do fenômeno midiático que os quadrinhos se tornaram na última década, ele poderia facilmente ter embarcado em qualquer um desses hypes da semana. Mas é difícil até mesmo encontrar imagens recentes dele.


Semi recluso e low profile, ao melhor estilo Bill Watterson/Steve Ditko. Mas o legado segue intocável e influente. E, certamente, por muito tempo ainda.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Godspeed, ilustrador!


Ian Kennedy
(1932 - 2022)

No dia 5 último, se foi o legendário ilustrador Ian Kennedy. O artista britânico ganhou fama com seus trabalhos para a 2000 AD, em especial nas strips do herói Dan Dare, na revista Eagle. Sua carreira teve início no final da década de 1940, como trainee no departamento de arte da DC —não a Detective, mas a companhia escocesa DC Thomson & Co., baseada em Dundee, sua terrinha natal. Lá, se especializou em quadrinhos de aventura e guerra, onde deu vazão ao seu fascínio por aviação.

Nos anos 1970, já na 2000 AD, mergulhou no universo de ficção científica da editora. Trabalhou em diversos títulos, sempre concilando com frilas na DC Thomson. Seu estilo preciso e elegante mantinha um padrão notável tanto no lápis e nanquim quanto nas artes pintadas, formato onde, talvez, se tornou mais conhecido mundo afora.

Era prolífico: foi capista em mais de 1600 edições só do título Commando. E seguiu produzindo mesmo após a anunciada aposentadoria.

Em mais de 70 anos de carreira, foi um workaholic inveterado e uma referência na 9ª arte do século XX, mas, acima de tudo, um sujeito feliz. Nada mal pra quem estreou na profissão pintando os quadros pretos das palavras cruzadas do semanário Sunday Post.

Para surpresa de absolutamente ninguém, quase nada de Ian Kennedy foi lançado no Brasil. Segundo o Guia dos Quadrinhos, consta apenas 1 história com sua arte. Foi em julho de 1979 na revista O Capitão Z apresenta: Ano 2000 #6, antologia de materiais da 2000 AD publicada pela EBAL (!).

Fora isso, ele marcou presença em pelo menos mais uma publicação que —ao exemplo do recém falecido cineasta Ivan Reitman— também teve seu impacto por aqui nos anos 1980...


S.P.A.C.E.: Sistemas e Planos de Ataques a Comandos Estelares saiu em 1983 pela editora Rio Gráfica (futura editora Globo) e é, fácil, um dos melhores álbuns de figurinhas já lançados. O álbum montava o cenário de uma guerra entre o exército mutante do sistema planetário da Estrela Negra, comandado por Gruthar, "o Senhor do Seis Negro", e as forças aliadas dos planetas do Sol Vermelho (Krypton não incluso). Ao longo da publicação, conhecemos a origem e a evolução das espécies envolvidas, os níveis de tecnologia, os armamentos, as espaçonaves, os recursos naturais, a fauna interplanetária e até espacial.

Era um conceito tão bacana quanto ambicioso. E um universo sci fi prontinho para acomodar inúmeras boas histórias.



Magistralmente ilustrado por Kennedy, o texto era de Kelvin Gosnell, um dos primeiros editores da 2000 AD, com visível inspiração em pilares como Duna, Star Trek e as obras de Isaac Asimov. Infelizmente, timing não era o forte da Rio Gráfica, que acabou lançando o álbum na mesma época do álbum de figurinhas de O Retorno de Jedi. O resto é lenda...

...ou seria, não fosse o bom samaritano do blog Mensagens do Hiperespaço, que digitalizou um raríssimo exemplar completo e disponibilizou para download.

Ainda hoje, o brilhante conjunto da obra de Ian Kennedy espera justiça por aqui na forma de publicações à altura. Como foi com S.P.A.C.E.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

As Portas da Quadrinização

Em tempos de lockdown e restrições batendo forte no circuito de entretenimento, a Z2 Comics resgatou um filão bacana para ajudar na liquidez dos artistas: os quadrinhos sobre música. Nos últimos dois caóticos anos, a loja-editora de Josh Frankel e Sridhar Reddy publicou várias graphic novels relacionadas ao universo musical. O checklist —ou line-up?— foi do "Bird" Charlie Parker a Gorillaz, passando por Dio e Anthrax até o esporrento Gwar, entre outros. Coisa fina.

Dos ilustres homenageados, não posso deixar de destacar a graphic comemorativa dos 50 anos do clássico Morrison Hotel, do venerável The Doors.

The Doors present the brand new Morrison Hotel 50th anniversary graphic novel! Order the deluxe edition now, which includes an exclusive 12” vinyl LP picture disc of the iconic album.

Publicado por The Doors em Quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

A HQ recém lançada é escrita pela Leah Moore, a filha do ômi, em colaboração com os remanescentes da banda e ilustrada por um contingente que inclui Jill Thompson, Michael Avon Oeming, Tony Parker, Marguerite Sauvage, Colleen Doran, Guillermo Sanna e mais uma fila que vai daqui até Juazeiro do Norte. O release é quase um medley flower power:
“A antologia Morrison Hotel, escrita por Leah Moore em colaboração com os membros sobreviventes da legendária banda de rock e desenhada por artistas de todo o mundo dos quadrinhos, narrará a influência da banda em algumas das tradições que levaram ao seu status como os arquitetos de contracultura, influenciando artistas, poetas e renegados pelas gerações que virão, tendo como pano de fundo o fim do espírito livre da década de 1960 para a tumultuada década de 1970. Uma década em que mulheres, afro-americanos, nativos americanos, gays, lésbicas e outras pessoas marginalizadas continuaram sua luta por igualdade e muitos americanos se juntaram ao protesto contra a guerra em curso no Vietnã.”
Um material bem interessante, porém de apelo segmentado e que dificilmente aportará por estas bandas. Pelo menos em papel...

A conexão Doors/HQ e o mana-a-manos da Leah com os músicos me lembrou uma proposta similar ensaiada em 1993 pela defunta Malibu Comics (que hoje jaz no fundo das gavetas da Marvel). A graphic contava com as incríveis ilustrações do gaúcho Henrique Antonio Kipper, que acabaram não agradando muito o tecladista Ray Manzarek.


Notinha na revista Bizz #94 (maio/1993)

Com todo o respeito ao saudoso mago Manzarek, as artes preliminares eram fantásticas. Mas, segundo consta, o projeto acabou cancelado por "problemas no roteiro".

De todo modo, no mesmo ano, Kipper desenhou para outra "HQ de rock" —e igualmente da realeza. São dele os traços do segmento "Os Espelhos", publicado na antologia Graphic Rock #1: John Lennon, da editora Nova Sampa.


É curtinha e em p&b (colorida faria mais estrago), mas deu aquela vingada.

Enquanto isso, continuo aguardando monasticamente que alguma santa editora publique Voodoo Child: The Illustrated Legend of Jimi Hendrix, com texto de Martin I. Green e uma arte embasbacante do Bill Sienkiewicz. Faz tempo que estou tocando essa air guitar, viu...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Ele era o melhor no que fazia...


Isaac Bardavid
(1931 - 2022)

Com o veterano ator, dublador e poeta Isaac Bardavid vão-se as expectativas de novas aparições na mídia, sempre simpaticíssimo, e de novos trabalhos com seu vozeirão rascante inconfundível. Carioca de Niterói, se formou em Direito em 1976, mas já havia se apaixonado pela dramaturgia dez anos antes. Participou de grandes hits noveleiros como as primeiras versões de Irmãos Coragem, Selva de Pedra e Escrava Isaura, onde fez o assustador capataz Seu Chico, entre muitas outras. E nunca parou.

Prolífico em frente e fora das câmeras, Bardavid pertencia, digamos, à Era de Bronze da dublagem nacional. Sua voz tomou de assalto o imaginário brasileiro em personagens como o histriônico Esqueleto, o computador K.I.T.T. de A Super Máquina e, claro, o irascível Wolverine no desenho da Fox e na versão live action com Hugh Jackman.

E lógico que foi só a ponta do iceberg. O grande papel dele mesmo foi de "esposo, pai, vô, bisavô e amigo".


Isso que é um legado.

Muito obrigado por tudo, Seu Isaac!