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segunda-feira, 27 de abril de 2026

Meu assassino favorito


Gerard Francis “Gerry” Conway
(1952 - 2026)

Editor, autor, roteirista, produtor de TV, formador de caráter. Tivemos a honra e o prazer de desfrutar da carreira de Gerry Conway em vida. Somos privilegiados.

Difícil lembrar de qualquer material relevante dos comics das décadas de 1970 e 1980 que não levou a assinatura dele. Seja na Marvel ou na DC, o homem elevou o nível do jogo. Homem-Aranha, Esquadrão Atari, Justiceiro, Vingadores, Batman, Cinder e Ashe, Conan, Quarteto, Monstro do Pântano clássico, Legião dos Super-Heróis... pode escolher. Nada foi como antes. Ainda bem.

Ver essa lenda partir é lembrar daquela época de forma cada vez mais distante, etérea. Não é fácil, não dá pra negar. Mas também é ter sido testemunha de uma jornada plena, bem vivida e recheada de conquistas – e nem me refiro apenas aos quadrinhos.

Verdadeiramente uma inspiração.

Thank you for everything, Gerry Conway.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Ao meu amigo Sal


Silvio “Sal” Buscema
(1936 - 2026)

Triste iniciar os serviços do ano com uma notícia assim, mas esse não teve como. Sal Buscema mudou a minha vida (ou ao menos o modo como a levo). E digo até em que mês e ano isso aconteceu: junho de 1984, quando pus a mãos em O Incrível Hulk #12, da Abril. Foi a primeira vez que lia algo por conta própria fora dos cadernos e livros da escola. Meu primeiro gibi. O impacto daquilo carregarei comigo até o dia em que fechar os olhos.

Lógico que a parceria antológica com o roteirista Bill Mantlo era parte indissociável da magia, mas foram os traços dinâmicos e efetivos de Sal que traduziram para aquele molequinho as décadas da fórmula Marvel desde que Jack Kirby deu início à coisa toda. O encantamento foi imediato. Aquelas cenas de ação, as porradarias explodindo painéis e todo aquele frenesi narrativo não conseguia ver em mais lugar nenhum. Nem mesmo hoje, nos comics regulares.

Sal Buscema também trabalhou para a DC, IDW e algumas outras, mas na maior parte da carreira ele foi praticamente sinônimo de Marvel Comics – a mesma carga identitária construída por seu irmão, o lendário "Big" John Buscema. E, da mesma forma, um operário incansável. E um operário que valia ouro em se tratando de Hulk, ROM, Defensores, Homem-Aranha (notadamente o título Spectacular), os Novos Mutantes e por aí foi. Inesquecíveis.

Mesmo notório pelas sequências cinéticas eletrizantes, Sal também era um mestre em transpor emotividade aos personagens, da mais básica à mais complexa. Tudo de forma fluída e cristalina. Mesmo para um gurizinho com pouquíssima noção de mundo.

E volto àquela memorável e, infelizmente, ainda atual Hulk #12.



Muitas vezes, nem mesmo um texto era necessário.


Espetacular, de fato.

Thank you for everything, “Big” Sal.

domingo, 25 de maio de 2025

Tenha uma boa jornada, Escritor


Peter Allen David
(1956 - 2025)

Não foi exatamente uma surpresa, mas receber a notícia foi como ser atropelado. A família, lógico, está arrasada. Certeza que gerações de admiradores mundo afora também. Estamos todos na mesma página. Se foi o Peter David.

O fato de ser um dos escritores mais produtivos e aclamados dos quadrinhos mainstream dos últimos 40 anos (se contar, pelo menos, de A Morte de Jean DeWolff pra cá) gerou um nível de adoração que já está repercutindo em incontáveis depoimentos e eulogias pela rede neste exato momento. Merecidíssimo. Em vida, o homem já era uma lenda.

A versatilidade de David era algo que beirava o incomparável. Seja na Marvel, na DC, em seus trabalhos icônicos no Incrível Hulk, Supergirl, X-Factor, Aquaman, Fantasma, Homem-Aranha, A Torre Negra, nas novelizações de filmes, os elogiados trabalhos no Universo Star Trek, Babylon 5 e vários outros – incluindo aí os gibizinhos infantis da A Pequena Sereia. Até onde li, sempre buscando exaltar a dramática, cômica, trágica, altruísta e falha condição humana em meio aos mais fantásticos e esdrúxulos cenários ficcionais.

Esse era o seu maior superpoder: o de sempre colocar a pessoa em primeiro lugar. Uma delícia de ler e uma inspiração para a vida.

Thank you for everything, Peter David!

Vai demorar para o sensorial voltar ao lugar.

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

A volta da Legião Alien


Quase não lembrava que o Predador e os Aliens são propriedade da Marvel desde 2020. Em que pesem dois crossovers de 2023 (Predator versus Wolverine e Predator versus Black Panther), a sensação de espera por material inédito com os Aliens foi de uns 57 anos. E finalmente veio, com pompa e muita circunstância: a mini em 4 partes Aliens versus Avengers tem roteiro de Jonathan Hickman com desenhos de Esad Ribić e a 1º edição chegou às lojas no finalzinho de julho, às vésperas da estreia de Alien: Romulus. Timing impecável. Esses editores Hyperdyne modelo 341-B com inibidores de comportamento são os melhores.

A trama se passa algumas décadas no futuro da "linha do tempo deslizante da Marvel"® e este primeiro capítulo é quase uma intro estendida. Após uma infestação sistematicamente plantada de Aliens, várias civilizações caíram, entre elas o Império Intergaláctico de Wakanda e a Terra. Mesmo os esforços dos meta-humanos foi insuficiente, dada a virulência da reprodução dos Xenomorfos. O planeta foi literalmente tomado por milhões de Aliens. Entre escombros de um mundo pós-apocalíptico, ainda persiste uma pequena resistência formada por Hulk, Capitã Marvel, Valeria Richards, o Homem-Aranha Miles Morales e por um sugestivo "Velho da Weyland".

Neste início, a pegada é de gibi cinematográfico, aos moldes do que Mark Millar fazia em seus tempos de Supremos. Muita ação, algumas dicas importantes espalhadas pelo caminho e um ou dois diálogos preparando os próximos rounds.

É bastante curiosa a efetivação da companhia Weyland no Universo Marvel. Parece que ela sempre esteve lá (e seu logo invertido para o "AVA" da capa reforça a impressão). O mesmo para a dupla de cientistas Shi'ar – e ainda considerando a real natureza de um deles – conduzindo experiências com Facehuggers impregnando Krees e Skrulls. É tão harmonioso e casual que chega a ser, putz, realista.

Esse "entrelaçamento quântico" de dois universos complexos chega a lembrar o mesmo mecanismo do clássico crossover dos X-Men com os Novos Titãs. Além de ser algo particularmente arriscado na perspectiva editorial.

Nos encontros dos Aliens com os super-heróis DC, como Batman, Superman e Lanterna Verde, foi dispensada a segurança do selo Elseworlds e a ação corajosamente se passa no presente da cronologia. Warren Ellis foi mais longe e usou os Aliens para fechar as contas do StormWatch.

Já Hickman, foi, digamos, mais conservador. Afinal de contas, a mini não é exatamente um What If...?. Não pegaria bem com os executivos da Disney um Xenomorfinho estourando o peito da Tia May e isso se tornando automaticamente canônico (viva!). Neste sentido, Aliens versus Avengers se aproxima do futuro sombrio da boa Saga dos Super Seven, da DC, com os super-heróis envelhecidos e derrotados num mundo tomado por uma invasão alien... ígena.

Quanto à adaptação, o próprio Hickman chegou a comentar: "foi complicado encontrar uma maneira de fazer essas duas coisas funcionarem juntas, mas acho que Esad e eu chegamos a algo que funciona para os fãs de ambas as franquias."

Ainda é cedo para um juízo de valor, mas, apesar da média alta, o roteirista parece ter sido pego na curva algumas vezes.

SPOILER

Por exemplo, se Valeria estava impregnada, por que os Aliens a atacavam?

FIM DO SPOILER

Evidente que é só a ponta do iceberg. E vindo da visão macro do Hickman, fiquei na pilha pelo escopo geral desse worst case scenario. O objetivo dessa edição #1 foi cumprido, portanto.

Aliens versus Avengers #2 chega às lojas (e às melhores importadoras do pedaço) em 6 de novembro. Looonge...

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

O cliente ficou louco!


Fiz sexo com o meu cartão hoje. A maioria saiu por quase metade do preço na promocha da Panini acumulando com o cupom HQBARATA – até o momento, ainda tá valendo.

Deu pra enxugar um pouco daquela lista de candidatos à zona de rebaixamento (= reimpressão só na próxima era geológica). Mais uma nóia para o gibizeiro pós-moderno...

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Superleituras Marvel

“Tudo bem. Ninguém deve ler tudo. Não é assim que a obra deve ser vivenciada. Então, obviamente, foi o que eu fiz. Li todas as mais de 540 mil páginas da história publicadas até hoje...”
Não faltam ambições para Douglas Wolk em seu livro Todas as Aventuras Marvel (Conrad, 2023). E talvez a maior delas seja reconectar o velho leitor à essência da Casa das Ideias. Só por isso já valeu o mergulho em suas 415 páginas. Pra mim, foi restaurador. Finda a leitura, era palpável o senso de uma perspectiva renovada e ampliada. A vontade era de catar o 1º calhamaço de gibis pela frente e devorá-lo imediatamente. Não era um sentimento de urgência, mas de volta a um pertencimento. Como nos tempos em que folheava, deslumbrado, meus primeiros quadrinhos do Hulk, do Homem-Aranha e dos Vingadores.

Ok, para um leitor de longa data, a premissa do livro não é estranha. Ler tudo, tudo mesmo, é um devaneio recorrente. O escritor e quadrinista de Portland, por sua vez, foi à luta e leu cada um dos cerca de 27 mil gibis publicados pela Marvel desde 1961 até o fechamento do livro, em 2021. Moleza.

Segundo Wolk, a empreitada durou cinco anos e foi administrada com o mindset mais Tracy Lawless possível: com exemplares de sua coleção particular, de gibis emprestados de bibliotecas e amigos, por tablet, brochurões Essential em p&b, scans do Jack Sparrow (evidente!), pelo acervo digital da própria Marvel, em relançamentos deluxe, sebos, convenções e de onde mais brotassem revistas. Tática de guerra.

Sobre a metodologia, o autor não fornece grandes detalhes. Esta, IMHO, era uma história que merecia ser contada, inclusive com fotos, diários e rascunhos. Tenho lá uma imagem mental da cena, mas o mesmo afirma reiteradamente que o processo foi muito espontâneo e informal. Inclusive me parece bem estoico a respeito.
“Mais uma vez, a incompletude faz parte da diversão dessa história interminável, imperfeita e criada de forma colaborativa.”
A cronologia Marvel é, provavelmente, o maior cadáver esquisito já elaborado na História.

A criação do universo compartilhado foi o divisor de águas da editora – cujo ponto zero é fantasticamente triangulado no livro como sendo em Kathy #14, Patsy and Hedy #79 e Patsy Walker #98, todas de dezembro de 1961. São HQs sobre romances adolescentes e jovens modelos e que, pela 1ª vez, interagiam entre si. Nascia ali o crossover.

Com o passar das décadas, esse universo foi ganhando contornos meio vilanescos, afastando neófitos que julgavam imprescindível a leitura de tudo o que havia sido lançado até então. “Por onde eu começo a ler tal HQ...?” ainda é uma das perguntas mais frequentes no meio.

Wolk, com poucas exceções, abriu mão da leitura por ordem de publicação. Lia o que queria (e o que podia) no momento, partindo da teoria de que cada HQ é formatada como uma potencial porta de entrada para novos leitores. Na Marvel, inexistem hermetismos ou longos períodos no escuro. Tudo é feito para facilitar o entendimento em uma saga de 60 anos de cronologia ininterrupta. Só assim para garantir a renovação e o fluxo de leitores. Por mais confusa e caótica que uma história em andamento possa ser, ela nunca será intransponível e nossa habilidade de juntar as peças de um quebra-cabeça, seja em alguns meses ou em alguns anos, é tão natural quanto respirar.

O que tira algumas toneladas de obrigação conceitual das minhas costas. Me lembrou que posso pegar qualquer HQ da pilha e me divertir, sem maiores elucubrações. Pela capa que seja, como nos velhos tempos. E aí vai mais um ponto para o escritor.

O livro guarda uma tensão inicial sobre como Wolk irá destrinchar sua experiência em texto. O modo como ele mapeia o sequenciamento criativo da Marvel é muito eficiente e com alguns sacrifícios dolorosos já esperados. Faz parte. Não dá pra contar tudo. Já fiquei muito satisfeito com os capítulos sobre Quarteto Fantástico, Homem-Aranha, Shang-Chi (meu segmento favorito), X-Men, Thor & Loki, Pantera Negra (meu 2º favorito), Walt Simonson, Jonathan Hickman e outros. Foi um trabalho hercúleo.

O escritor também destaca o fato da Marvel reverberar as mudanças culturais de cada zeigeist com seus aspectos cada vez mais diversos e pluralistas – da forma mais esforçada possível para um produto desenvolvido majoritariamente por homens brancos e americanos. Quase todo o escopo da “Montanha da Marvel" (como ele mesmo se refere ao projeto) é sedimentado sobre observações sociais e políticas*.

* pois é, a Marvel sempre foi política. E seu gibizinho nunca te enganou a esse respeito. Não seja aquele cara.

Há um trecho notável em “Norman Osborn e seu Reinado Sombrio” onde ele parte kamikaze rumo à reflexão:
“A melhor obra de ficção que já vi a respeito da vida durante o governo Donald Trump — a que capta com mais precisão o lento avanço do desespero e da tensão daquele período na cultura americana — é Reinado Sombrio...”
Palavras dele com a precognição da Marvel respingando nas teclas. Reinado Sombrio rolou de 2008 a 2009, oito anos antes daquela administração, mas os esquemas de conspiração e desinformação em massa denunciam as similaridades entre o Duende Verde e o Duende Laranja.

Na reta final, chega a ser inusitado como Douglas Wolk consegue encontrar emoção genuína na série da Garota-Esquilo (!). E continua, em “Passando o bastão”, num relato mais intimista de suas experiências de leitura ao lado do filhinho de 10 anos. É comovente e simplesmente espetacular. Na saideira, os agradecimentos e, de voleio, um apêndice-intensivão onde ele sumariza toda a Saga da Marvel até aqui. De novo, a escala é mesmerizante.

Tirando a capa (há outras melhores), só elogios para a edição da Conrad. Especialmente o trampo minucioso de André Gordirro. Além de traduzir e adaptar, ele garimpou nomes de personagens, histórias, sagas e títulos espalhados em várias editoras brasileiras e cruzou com as referências metralhadas em mais de 400 notas de rodapé. Neste quesito, o e-book sai ganhando com seus práticos links indo e voltando de cada notinha – aliás, confesso que Wolkeei e li parte da obra na versão física e parte na versão digital.

Todas as Aventuras Marvel é tão divertido, informativo e analítico quanto se propõe. Não tem a pretensão de reivindicar a verdade absoluta em suas teorias, mas ajuda demais a vislumbrar a complexidade deste imenso quadro que é a cronologia Marvel. É uma volta à jornada fantástica e incipiente que nos encantava e uma oportunidade singular para reavaliar esta mesma jornada como um todo.

Que venha o volume 2, 3, 4... Vamos lá, Doug. Ainda sobraram muitas aventuras pra contar.

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Podcast Voice of Latveria
Entrevista no TCJ

quarta-feira, 5 de julho de 2023

A Saga Definitiva

A Saga do Homem-Aranha. Por que comprá-la, por que não comprá-la, por que comprá-la...



...comprei-a-a.

É Roger Stern e não posso passar as Sternadas em formato original. Essa fase foi formadora de caráter.

A pegadinha Paninesca da vez é que acompanho caninamente a Edição Definitiva, já no volume 11. O que se traduz como "caraio, as Definitivas estão agora na Amazing Spider-Man #166 e as Sagas começam a partir da #206, será que vai rolar repeteco?"

E nem boto na conta as Spectacular, as Annual e as Team-Up, igualmente compiladas nos dois títulos.

Já rodei por inúmeras caixas de comentários, vi turbas na mesma situação e a Panini fazendo ouvido de mercador. Porcos capitalistas. Sei que se vender mal, eles cancelam até um Big Numbers finalizado. O que não parece ser o caso das Definitivas, que, apesar do preço, exibe um fôlego notável. Mas será que chega lá?

Vou pagar pra ver. De novo.

Foda-se, Peter Parker.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

The Amazing John Romita


John Victor Romita Sr.
(1930 - 2023)

Se foi o John Romita. Para qualquer leitor de longa data dos comics dá uma sensação de irrealidade, por mais que ele estivesse low profile nas últimas décadas. Afinal, ele está lá, ao lado de gigantes como John Buscema, Joe Kubert e Steve Ditko. E, da mesma forma, garantiu sua imortalidade há muito tempo.

Romitão era da velha guarda da Marvel - anterior até. Foi ghost artist no embrião Timely e, após, na Atlas. Essa intrínseca relação com a Casa das Ideias, aliás, foi a única patinada da carreira: no breve período em que esteve na DC, de 1958 a 1965, só trabalhou em quadrinhos de romance, então muito populares. Não fosse isso, teria causado algumas revoluções na editora se cravasse o lápis e o nanquim em certas Trindades ou Sociedades...

Em contrapartida, correríamos o risco de nunca ver o seu Homem-Aranha, um dos mais importantes, influentes e bonitos quadrinhos de super-heróis já produzidos. Para mim, é o artista definitivo do Amigão da Vizinhança, seja nas revistas ou nas tiras.

Lembro quando preparei um post sobre os embates do Teioso contra o Hulk e dei uma recapitulada naquelas The Amazing Spider-Man com o seu traço. Acabei devorando mais de um ano de HQs na sequência. O foco tinha ido pro vinagre. Fiquei completamente hipnotizado. Mais uma vez. E não seria a última.


Romitão era demais.

Thank you for everything, John Romita!

sexta-feira, 2 de junho de 2023

O Tigre e o Barqueiro


Com o barulho em torno das capas do Frank Miller, lembrei de uma das minhas preferidas dele: a de Peter Parker: The Spectacular Spider-Man #52, de março de 1981. A edição foi publicada por aqui em agosto de 1985 na Homem-Aranha #26, formatinho da Abril. A capa trazia a imagem chocante (para a época) de um grupo largando o aço no vigilante Tigre Branco. Apesar do exagero Milleriano na quantidade de algozes, a imagem não estava longe da verdade.

Rapei a edição logo que chegou às bancas. Lembro como se tivesse sido há 40 minutos, mas foi há quase 40 anos. Era o "mês dos minipôsteres" que a Abril encartou de brinde nos títulos Marvel e DC. Além do Teioso, consegui os do Verdão, do Bandeiroso e dos Superamigos, sabe-se lá com quanto troco superfaturado da padaria. Naqueles tempos, dava.

A HQ traz o Aranha-Linha Direta — ou Aranha-Documento Especial, para os velhuscos — em plena fase Roger Stern e enfrentando a criminalidade na sombria e violenta New York pré-Giuliani. "Ilusões do Outro Mundo", com arte dos saudosos Jim Mooney e Marie Severin, abre o mix com o Amigão da Vizinhança desmantelando a quadrilha de um Mysterio tão camp que parecia ter vindo de Gotham City. Tá lá o capanga ouvindo Kid Abelha que não me deixa mentir. Maior pinta de que trampou para um certo Palhaço do Crime em frilas anteriores. E com a mesma competência.

Em meio à confusão, a sofrida Debra Whitman se vira para escapar de Mysterio e correr para os braços do Peter. Saudades da Debby.


"...o Tigre Branco" vem na sequência, com o lápis de Denys Cowan e arte-final de Mooney. Começa com um recap da origem do personagem e sua ligação com os Filhos do Tigre. Muito oportuno para quem não leu aquela Deadly Hands of Kung Fu #19 sensacional, até hoje inédita por estas bandas. A combinação de ação policial, artes marciais, misticismo e poderes era irresistível. Fui fisgado na hora. E havia mais um elemento que talvez ainda fosse muito jovem para assimilar conscientemente: o Tigre Branco Hector Ayala era o 1º herói latino desde... sei lá, Zorro?

Todos os aspectos envolvidos, da dura vida no gueto à proximidade com a família, gerou uma ressonância enorme e inconfundível. Era identificação.


A história conclui na sequência-spoiler-de-capa, com o Tigre sendo metralhado pelo ex-coronel e terrorista miliciano Gideon Mace. E emenda na splash não menos brutal que abre a trama de "Assassinos de Heróis", onde o traço de Rick Leonardi atinge na artéria. Imagética de violência urbana crua, acachapante e repleta de subtexto. Material para SAM, fácil.


Ah, o minipôster... o regozijo nerd da minha geração; A 1ª bad trip quadrinhística a gente não esquece

A conclusão do arco é o fim da jornada de Hector Ayala como o Tigre Branco, por hora. Há inclusive uma inesperada metáfora à dependência química, assunto também abordado em Superamigos #4, do mesmo mês, de forma mais direta. A Era de Bronze foi um lugar sombrio para transitar.

Nesse 1º contato com o herói, a edição era um expresso para o inferno. Além do flashback dos quebras com o Valete de Copas e com o Aranha e da identidade sendo revelada publicamente pelo Mestre da Luz, Hector tem a família chacinada, quase morre em sua busca cega por vingança e, no fim, dá adeus ao manto do Tigre. Ou, no caso, aos amuletos que lhe conferiam seus poderes.

Isso tudo mostrava o quão trágica a vida do Tigre Branco era — e ainda seria.


Na sequência, o Ka-Zar de Bruce Jones e Brent Anderson — de longe, a melhor coisa que já fizeram com o Senhor da Terra Selvagem. O run é espetacular, ganhou Omnibus lá fora há pouco tempo e demorou para ser relançado, Panini. Lembro de acompanhar na época e já sonhava com essa maravilha devidamente coletada. E olha que o mais próximo de um TPB que existia por aqui era o Encalhe do MAD.

O expresso para o inferno continua, literalmente, em "Viagem Fantástica", parte de um arco publicado orinalmente em Ka-Zar the Savage #9-12. Na história, Kevin "Ka-Zar" Plunder, Shanna "The She-Devil" O'Hara, Zabu, o andróide atlante Dherk e o guerreiro alado shalaniano Buth descem até as profundezas do inferno. O mesmo inferno onde, segundo as viagens de Jones, o escritor e poeta italiano Dante Alighieri derrotou cultistas que sacrificaram Beatriz e que depois o inspirou a criar A Divina Comédia.

Na realidade, era um inferno/parque animatrônico, construído por atlantes em plena Pangea. Ecos de Westworld...


Cagaço com o Caronte

Dizem que confessar faz bem para a alma, então vá lá: a sequência de Ka-Zar e sua trupe pegando uma corrida com Caronte, o Barqueiro do Inferno, me arrepiou mais do que todas as Kriptas e Calafrios que havia lido até então. Primeiro, porque tinha pavor de andróides (obrigado, Proteus e fembots). Segundo, porque a ideia de uma decapitação ainda era algo novo e profundamente perturbador para mim. E por último, porque Anderson desenhou o Barqueiro à imagem e semelhança de qualquer figura bíblica clássica, o que dava um toque meio blasfemo à cena.

E nem menciono o Caronte sem cabeça e com as "vísceras" eletrônicas expostas partindo pra cima do Ka-Zar... brrr.


Cérbero e minha caneca do Cramps à direita no canto superior - valeu, Sandro!

Brent Anderson desenhava que era uma grandeza. Alguns painéis chegam a lembrar as tintas grandiosas do mestre Alfredo Alcala. Triste isso ainda não ter saído por aqui em formato americano. E a escrita de Bruce Jones nunca esteve tão afiada e maliciosa. Humor negro, frases de duplo sentido e referências à sacanagem (Ka-Zar e Shanna não eram fãs da monogamia) brotam das páginas. Isso tudo e ainda conseguia entregar uma aventura fantástica inventiva e divertidíssima.

Às vezes dá saudades de um bom gibizinho mix, mesmo com suas combinações improváveis e esdrúxulas, mas, acima de tudo, eficientes. Como foi — e ainda é — esta Homem-Aranha #26.

domingo, 8 de maio de 2022

A Origem da Mãe-Aranha I


Em quase todos os 2ºs domingos de maio dou uma folheadinha em uma edição surrada de O Homem-Aranha #151 (jan/1996). Era um gibi que acertava bem mais alvos do que a chamadinha "A Origem da Mulher-Aranha!" tentava mirar. A história "Apareceu uma Aranha..." é mais uma que levou ao universo dos super-heróis a fórmula sagrada da Marvel: os problemas da vida real. No caso, os problemas de Julia Carpenter, a Mulher-Aranha II.

Divorciada que luta pela Justiça e na Justiça contra o ex-marido pela guarda de sua filhinha Rachel, a heroína precisava se desdobrar em seus primeiros dias de vingadora. Dos Vingadores da Costa Oeste, mas, ainda assim, vingadora.

Publicada lá fora em Avengers West Coast vol. 2 #84-86 (jul-set/1992), a trama escrita por Roy Thomas e por sua esposa Dann Thomas flerta com questões de representatividade e sororidade, mesmo que timidamente — o que já era um quase um libelo feminista naqueles anos 1990 de Psylockes e Witchblades. A história realmente deu uma origem (genérica) para a personagem, que havia surgido do nada em Guerras Secretas. Mas fica muito mais interessante quando mostra Julia enfrentando seus perrengues pessoais com a mesma garra com que enfrenta sua curiosa galeria de vilões.

Apesar das participações do Homem-Aranha e dos Vingadores da Costa Oeste, a estrela é mesmo Julia Carpenter. Mesmo que os créditos digam o contrário. Uma pena que a tradução e adaptação, do estúdio Art & Comics (de Jotapê Martins & Hélcio de Carvalho...), mete um bisturi cego em diálogos que tridimensionalizam a delicada situação da protagonista. Era a luta seguindo além das páginas.

"Apareceu uma Aranha..." está longe de ser uma história perfeita. Mas é o suficiente para fazer da Julia a melhor personagem a usar esse codinome.

Mãezaça!

sábado, 4 de dezembro de 2021

Homem-Aranha e seus Incríveis Amigos 2

Pode me zoar à vontade: estou curioso sobre Sem Volta para Casa. Mas a curiosidade nem chega perto da expectativa em torno de Homem-Aranha no Aranhaverso 2, continuação do longa animado divertidíssimo, cheio de coração e meio caótico de 2018. E o teaser só instigou, com perdão do pleonasmo.


A sequência final é literalmente uma HQ viva*. E com o Homem-Aranha 2099 nela.

Outubro de 2022 tá muito longe...


* E não é pra menos! 👇

Wawawewa. Am excite. I was fortunate to have worked on this in the conceptual stages. Count me doubly anticipatory.

Publicado por Bill Sienkiewicz em Domingo, 5 de dezembro de 2021

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Goodbye, Mighty Isis


Joanna Kara Cameron
(1951 - 2021)

Joanna Cameron (ou JoAnna, dependendo do crédito) não era muito conhecida pelas últimas gerações, mas tem seu lugar no rodapé da história da cultura pop. Iniciou a carreira de atriz no finzinho da década de 1960 e figurou em algumas poucas produções para o cinema —a TV logo se tornou seu habitat natural/profissional, mas quase estrelou Love Story (1970) no lugar de Ali MacGraw, o que seria uma dramática mudança de eventos. No fim, acabou concentrando sua atuação em participações em seriados, dos famosos Daniel Boone e Columbo a pérolas da obscuridade televisiva.

Seu grande momento, no entanto, foi protagonizando Poderosa Ísis, série produzida pela Filmation e co-criada pelo próprio Lou Scheimer (que certamente reaproveitou alguns elementos dali para sua She-Ra, anos depois). Ísis durou breves duas temporadas, de 1975 a 1977, mas a caracterização marcante de Joanna como a super-heroína/deusa egípcia rendeu um título próprio nos quadrinhos DC e um crossover no seriado Shazam!, além de um cult following canino através das décadas.

Depois disso, Joanna fez apenas cameos em algumas séries. Um deles, no notório seriado setentista do Homem-Aranha —de biquíni, com a benção de Rá. Seu último trabalho em frente às câmeras foi, ironicamente, no telefilme Swan Song, de 1980.

A partir dali, sua vida se passou distante dos sets de filmagem: trabalhou por 10 anos como enfermeira cuidadora e atualmente atuava como gerente de marketing em dois hotéis no Hawaii. No máximo, fez algumas raras aparições em comic cons. Mas o legado como a pioneira super-heroína já estava garantido na posteridade.

Não por acaso, a notícia de sua passagem foi divulgada por uma ex-companheira de set, Joanna Pang, a Cindy Lee de Poderosa Ísis.


A série era voltada ao público infantil, com narrativas simples, lições de moral e orçamento muito mais limitado do que a série da princesinha Marston. Mas a figura carismática de Joanna personificada como a super-heroína, mesmo com indumentária simplória, eclipsava demais complicações.

Joanna era magnífica.


E Poderosa...


Thank you for everything, JoAnna!