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quinta-feira, 19 de março de 2026

Operação Judoka

Ainda bolado com o trailer do Lanterna Verde descaracterizado? Não se desespere! (ou talvez só um pouco)


Desde a sua criação, o Judoka não teve missões fáceis. O personagem foi idealizado e quadrinizado em 1969 pelo trio Pedro Anísio, Monteiro Filho e Eduardo Baron a pedido da EBAL para cobrir a saída do popular Judomaster, da DC. Apesar do desafio, nosso homem de verde se saiu bem o suficiente para ganhar uma adaptação para o cinema em 1973. Pioneiro é pouco. Mas as adversidades não deram trégua.

Dirigida pelo escritor, compositor e thelemita Marcelo Ramos Motta, a produção foi bastante caótica e acabou naufragando nas bilheterias – consta que só durou uma semana em cartaz. Com o passar dos anos, adivinha, o longa foi dado como lost media.

Supervilões da vida real à parte, o filme parece uma diversão só, especialmente na perspectiva de hoje. Uma joia trash BRxploitation. Pedro Aguinaga, "o homem mais bonito do mundo", hipercanastrão como o Judoka e a presença da saudosa Elizângela (então um brotinho de 19 anos) devem ter rendido uma química impagável. As figuras cartunescas do elenco de apoio, as cenas de "luta" e dubladores conhecidos da época refazendo várias vozes são a cereja.

Em 2022, o canal #LivedeQuadrinhos publicou o trailer (brilhantemente) restaurado pela Cinemateca do MAM, no Rio, a partir de uma cópia bem detonada. Parecia que a trajetória do nosso herói marcial havia encontrado seu fim, mas como toda boa história tem uma grande reviravolta, essa não foi diferente. Em janeiro último, a jornalista Heloisa Tolipan divulgou em seu site que os negativos originais do filme e do trailer foram encontrados num depósito climatizado da Cinemateca Brasileira. E, ao que parece, estão atualmente em processo de digitalização.

É torcer para isso (re)ver a luz do dia num futuro próximo. Algo que não é muito usual em se tratando da nossa querida Cinemateca Brasileira.

Mas subo o Convento da Penha de joelhos quando acontecer. Preciso assistir a porradaria d'O Judoka versus Banzo, o Lutador Negro!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Quando os Escoteiros se Chocam!


Devo admitir: Grandes Tesouros DC: Superman Vs. Shazam! - Quando as Terras se Chocam! é um resgate surpreendente de um dos quadrinhos mais representativos da DC pré-Crise. Ponto para a Panini. Que não deixou barato, literalmente, tascando o preço de R$ 149,90 por 80 páginas com capa dura e formatão 25,5 x 35,5 cm — ½ centímetro menor que a antológica superedição que a EBAL lançou em 1980.

Superedição essa muito querida pelos quarentões e cinquentões que hoje se despedem de um rim para pôr as mãos mumificadas na nova versão (o velhusco aqui incluso). Na época, não peguei o gibi numa banquinha: ganhei de um amigo da escola n'algum ponto da 1ª metade da década de 1980. Meio surrada e rasgada nos cantos, mas suficiente para explodir aquela cabecinha juvenil com o colorido chapiscado das retículas mágicas da EBAL.

Fora que aquela era a Maior HQ do Universo que já havia folheado na vida. Experiência imersiva inesquecível.

Superman Versus Shazam! (que, por dentro, era "Super-Homem Versus Capitão Márvel") foi um divisor de águas no meu fascínio pela relação entre o herói da DC e o eterno herói da Fawcett. Já notava a curiosa semelhança/equivalência dos dois nos desenhos animados Shazam!, da Filmation, e Superamigos, da Hanna-Barbera. Mas foi ali que soube que essa relação era bem mais estreita, longeva e polêmica do que imaginava.

Por conta disso, tive certeza de que isso ainda renderia muito maisna frente.


Revisitar a parceria de ícones como Gerry Conway, Rich Buckler e Dick Giordano e conceitos como a Terra-1 e a Terra-S sem dúvida irá disparar aquele bom e velho gatilho de nostalgia desnorteante. E muitas dúvidas também...

Por onde andam o feiticeiro Karmang e Quarrmer, o Super-Homem de Areia?

Grande Rao, como estou velho. Diacho!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

A Fortaleza da Coleção


Geraldo Cachola foi, provavelmente, o maior colecionador de quadrinhos do país. Dono de um dos sebos mais conhecidos de São Paulo, ele era, digamos, pragmático em identificar potenciais aquisições. Especialmente com as viúvas dos colecionadores. "Como elas não conhecem o material, vendem tudo a preço de banana", dizia ele.

Ecos de Rob Gordon e Vilões por Acaso (Comic Book Vilains, 2002)? Pode ser. E faz parte.

Quando um artigo com seu perfil saiu na Mundo dos Super-Heróis #24 (nov-dez/2010), o acervo do homem contabilizava cerca de 250 mil gibis. Ou 1/4 de 1 milhão. Algo difícil de mensurar, mesmo com fotos.

Carlos Grecco, do canal Red Nerd Pill, deu uma forcinha à plebe colecionista e registrou uma visitinha à gigantesca e exclusivíssima gibiteca de Cachola, hoje curada e comercializada por sua filha, Iris Rosemeire.


Impressionante mesmo. Ainda bem que desencanei há tempos de gibis antigos e suas loucas adaptações.

Mas não recusaria uma rápida turnê pelo tal "paraíso". Talvez tropeçasse em alguma coleção fechada da Heróis da TV da Hanna-Barbera. Ou do Ken Parker da Vecchi. Ou do Sandman completo da Globo...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Godspeed, ilustrador!


Ian Kennedy
(1932 - 2022)

No dia 5 último, se foi o legendário ilustrador Ian Kennedy. O artista britânico ganhou fama com seus trabalhos para a 2000 AD, em especial nas strips do herói Dan Dare, na revista Eagle. Sua carreira teve início no final da década de 1940, como trainee no departamento de arte da DC —não a Detective, mas a companhia escocesa DC Thomson & Co., baseada em Dundee, sua terrinha natal. Lá, se especializou em quadrinhos de aventura e guerra, onde deu vazão ao seu fascínio por aviação.

Nos anos 1970, já na 2000 AD, mergulhou no universo de ficção científica da editora. Trabalhou em diversos títulos, sempre concilando com frilas na DC Thomson. Seu estilo preciso e elegante mantinha um padrão notável tanto no lápis e nanquim quanto nas artes pintadas, formato onde, talvez, se tornou mais conhecido mundo afora.

Era prolífico: foi capista em mais de 1600 edições só do título Commando. E seguiu produzindo mesmo após a anunciada aposentadoria.

Em mais de 70 anos de carreira, foi um workaholic inveterado e uma referência na 9ª arte do século XX, mas, acima de tudo, um sujeito feliz. Nada mal pra quem estreou na profissão pintando os quadros pretos das palavras cruzadas do semanário Sunday Post.

Para surpresa de absolutamente ninguém, quase nada de Ian Kennedy foi lançado no Brasil. Segundo o Guia dos Quadrinhos, consta apenas 1 história com sua arte. Foi em julho de 1979 na revista O Capitão Z apresenta: Ano 2000 #6, antologia de materiais da 2000 AD publicada pela EBAL (!).

Fora isso, ele marcou presença em pelo menos mais uma publicação que —ao exemplo do recém falecido cineasta Ivan Reitman— também teve seu impacto por aqui nos anos 1980...


S.P.A.C.E.: Sistemas e Planos de Ataques a Comandos Estelares saiu em 1983 pela editora Rio Gráfica (futura editora Globo) e é, fácil, um dos melhores álbuns de figurinhas já lançados. O álbum montava o cenário de uma guerra entre o exército mutante do sistema planetário da Estrela Negra, comandado por Gruthar, "o Senhor do Seis Negro", e as forças aliadas dos planetas do Sol Vermelho (Krypton não incluso). Ao longo da publicação, conhecemos a origem e a evolução das espécies envolvidas, os níveis de tecnologia, os armamentos, as espaçonaves, os recursos naturais, a fauna interplanetária e até espacial.

Era um conceito tão bacana quanto ambicioso. E um universo sci fi prontinho para acomodar inúmeras boas histórias.



Magistralmente ilustrado por Kennedy, o texto era de Kelvin Gosnell, um dos primeiros editores da 2000 AD, com visível inspiração em pilares como Duna, Star Trek e as obras de Isaac Asimov. Infelizmente, timing não era o forte da Rio Gráfica, que acabou lançando o álbum na mesma época do álbum de figurinhas de O Retorno de Jedi. O resto é lenda...

...ou seria, não fosse o bom samaritano do blog Mensagens do Hiperespaço, que digitalizou um raríssimo exemplar completo e disponibilizou para download.

Ainda hoje, o brilhante conjunto da obra de Ian Kennedy espera justiça por aqui na forma de publicações à altura. Como foi com S.P.A.C.E.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

PIXEL NA COVA DOS LEÕES


Quem dera que Alan Moore fosse brasileiro e escrevesse textos sobre quadrinhos pra Folha ou pr'O Globo. Além de ser um pensador à altura, ele não tem papas na língua (ou no teclado) e com certeza não deixaria de analisar o renascimento comercial do selo Vertigo no Brasil.

Vamos fazer assim: a Pixel Media foi um assombro pela velocidade com que se fez acontecer e pelo tratamento desse material tão esculhambado por aqui - administrado através dos anos por pára-quedistas sem senso de cronologia e com preços ionosféricos. Ainda não dá pra afirmar que a Pixel é a Joana D'Arc do vertigueiro brazuca, mas o mix acachapante da sua publicação principal - aliado ao precinho supreendentemente justo - já é um milagre que a editora operou.

Baixando um pouco a embriaguez orgástica que a Pixel anda me proporcionando, é certo que alguns poucos vacilos têm de ser limados em nome da sincronia. Errinhos de digitação e uma tradução literal que deixa os textos meio truncados são pequenos detalhes a serem lapidados com o passar das edições, espero. Também não sei até onde é produtivo "tentar consertar" as besteiras que fizeram com a cronologia da Vertigo nos últimos anos. Os resuminhos são uma mão na roda e bem escritos, mas ainda não consigo visualizar onde querem chegar, p.ex, com Planetary começando no #13.

Outro fator que considero como médio grau de risco é a presença de André Forastieri, comparecendo como diretor editorial nos créditos (e voltando à velha forma com o belo texto comparando a Vertigo ao movimento punk na edição de estréia). Ora, o velho Forasta foi a alma, o sangue e o múque da Bizz no final dos anos 80/início dos 90. De fato, foi a melhor coisa daquela safra, mesmo quando não se concordava com ele. Depois disso, teve uma rápida passagem pela General (a revista mais legal das que não deram certo) e foi um dos responsáveis diretos pela Conrad, uma das maiores salgadeiras do mercado de HQs. É disto que tenho medo e que ameaça a quase putesca farra mensal dos 9,90 (já aprovados no meu disputado orçamento). Temo que num belo dia a Pixel Magazine apareça com capa dura na banquinha do Seu Zé.

Ao que expus as minhas fobias com cara de Morte a R$ 60 para o Fivo (que está vivo e rende trocas de e-mails que um dia hei de publicar aqui), o cabra me disse pra ter fé porque ele pode ter encontrado um bom formato de business agora. Deus te ouça, meu filho.

Pixel Magazine é mulher gostosa. E nesta terceira edição ela continua rebolando irresistível. Tem Fábulas, a maravilhosa cria de Bill Willingham, mostrando o background do Garoto Azul na história/conto O Último Castelo. Referências visuais ao Senhor dos Anéis e uma Branca de Neve à Brandy (de Liberty Meadows), usados com timing e criatividade, deixam a paisagem ainda mais instigante. Também temos mais um balaço de John Constantine, desta vez extraído de Hellblazer #142. História tão curta quanto visceral, um absurdo de vigor narrativo.

Depois de um copinho de whisky pra relaxar, vem Planetary com a missão de dar um olé nos neurônios do leitor. Retirada da edição #15 original, a história Canções da Criação é Alice no País do Espelho encontra Asdrúbal Trouxe o Trombone. Entendeu? Nem eu. A arte sempre agradável de John Cassaday é o fundo falso ideal para um Warren Ellis abarrotado de cafeína e guaraná em pó. A sensação é a mesma de acordar domingo de manhã no meio da invasão à Normandia, mas quer saber? É genial. Você tenta se encontrar na bagaça e quando acha que vai conseguir, Ellis, com um bom filho da puta, mete as travas da chuteira na cara da linearidade. Troço tão sinistro que rendeu até um texto de apoio moral.

Por fim, The Cobweb, trip psicodélica concebida pelo casal Alan Moore & Melinda Gebbie após várias pitadas de nargilé e cházinho de Santo Daime, desta vez até mais comportada.

Tudo nos conformes, agora só quero saber quando vem a próxima dose de Freqüência Global.


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Estava mesmo interessado em que pé andava o bom e véio Swamp Thing. Segundo o editorial, conferido dinamicamente antes da negociação, a abordagem pretende seguir o padrão de horror instituído na fase clássica de Alan Moore (ele já foi citado por aqui hoje?). Amor em Vão é uma mini em duas partes escrita por Joshua Dysart e rabiscada por Enrique Breccia, e até consegue reeditar em parte o climão sorumbático daquela época.

Em parte, porque o que Moore fez lá foi poesia dark, cordel de encruzilhada da Louisiana. Não dá pra superar. No entanto, Dysart (bróderzão de Mike Mignola, com quem anda colaborando em uma série de projetos) é dedicado e mergulha fundo na podridão que é o universo do Monstrão Pantanoso, resgatando até um inimigo velhusco do herói. O que não deixa de surpreender, vindo do mesmo cara que criou Faça 5 Pedidos, aquele mini-mangá da Avril Lavigne.

A arte de Breccia lembra um Sam Kieth menos farsesco, mas ainda assim despirocado. Desenhar demônios e deformações diversas é com ele mesmo. Seu Monstro do Pântano pouco lembra algo vagamente humano. A interação com as idéias doentias de Dysart resulta numa química insana, especialmente nas cenas mais escatológicas.

E o momento romântico da revista é Fome Animal puro. Yeah!


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Como bom admirador do Doutor Alec Holland, sempre tive curiosidade acerca do material mais antigo do personagem, ainda sob a batuta dos criadores Len Wein e Bernie Wrightson. Falta corrigida agora, com a revista Estréia apresenta O Monstro do Pântano #9, lançada em maio de 1980 pela Editora Brasil-América, a famosa EBAL.

Muito antes da reinvenção definitiva do personagem nos anos 80, o leque de possibilidades temáticas era tão abrangente e nonsense quanto todo o resto da DC durante a Era da Prata, mas o tom notadamente mais sisudo antecipava o que estava por vir.

Na tentativa de reverter sua condição grotesca (sendo que hoje ele é praticamente um Shrek de tão desencanado), o Monstro do Pântano se depara com um alienígena e sua nave avariada. Obviamente rola aquela treta entre as criaturas e as coisas se complicam quando uma operação militar chega ao local para investigar o OVNI - vale destacar uma nota engraçadinha dos editores nesta parte. O nome da história é pra lá de sintomático: O Visitante do Espaço.

Monstro do Pântano da 1ª fase é Roger Corman em quadrinhos.

Esta edição também trouxe, há muito, muito tempo atrás, a segunda parte da origem do herói Nuclear, na época batizado Labareda (e "Tempestade" na dublagem nacional do desenho Superamigos). A história chama-se Abram Alas para um Novo Herói! Parte II e foi republicada tempos depois pela Abril. É uma brasa, mora!


(links down)

Estréia apresenta O Monstro do Pântano #9
Mirror



Na trilha: alguma do Notorious B.I.G. No Dia Mundial do Rock.