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quinta-feira, 6 de março de 2025

DD volta ao trabalho


Demolidor: Renascido chega para assumir uma bronca de longa data da Disney+. Não é de hoje que o conteúdo Marvel da plataforma vem sendo hostilizado por uma legião insatisfeita de fanboys da editora – uns quatro ou cinco que gritam por 400 ou 500, em média. Entre as acusações, a de que a megacompanhia não teria cojones para lidar com o material urbano casca-grossa-macho-bagarai dos quadrinhos. Pois bem, só nos primeiros quinze minutos já tem mais porradaria e sangue do que em Pinguim inteiro. E no final das contas, só prova, pela enésima vez, que apenas isso não é garantia de nada.

É preciso louvar o esforço da Disney para agradar o público ao restaurar o Demolidor da Netflix enquanto sincroniza com os eventos do MCU. Charlie Cox e o Wilson Fisk de Vincent D'Onofrio já são habituées na nova casa e a produção reescalou a Vanessa da bela Ayelet Zurer e o sinistro Mercenário de Wilson Bethel. Tudo em nome dos bons tempos.

O resgate também incluiu, logicamente, a Karen Page de Deborah Ann Woll e o Foggy Nelson de Elden Henson. Eles voltaram. Mas não muito, só um pouco. Quase nada, pra ser franco.

O negócio é que recaiu sobre a dupla a decisão mais controversa deste início de temporada. Logo de cara. Quem conseguir passar por esta provação de última hora, será recompensado. De alguma forma.


Mesmo com inserções de CGI ruim, o tira-teima Oldboyesco entre Audacioso e Poindexter é eletrizante, visceral e sem freio. O tenso diálogo entre Fisk e Murdock num restaurante vem da excelente inspiração em De Niro e Pacino na cena clássica de Fogo Contra Fogo. A referência ao Justiceiro e aos desdobramentos daquele símbolo no mundo real não passou despercebida, tampouco. Cojones.

Outra boa sacada foi levar à trama o dilema legal do vigilantismo na figura do Tigre Branco Hector Ayala – papel póstumo do ator porto-riquenho Kamar de los Reyes, morto em 2023. Pra mim, pelo menos, foi uma grata surpresa: o Tigre Branco sempre foi um dos meus personagens B prediletos.

Problemas? Alguns de ritmo, sim. O Rei do Crime se candidatando/vencendo para prefeito nova-iorquino em velocidade de dobra, por exemplo. Da mesma safra do vilão dando entrada no xadrez e se tornando o rei do lugar em 30 segundos nos seus áureos tempos de Netflix. Deve ser algum superpoder de carisma setado no nível 11. Mas dá pra abstrair.

Principalmente quando o payoff são sequências como o cliffhanger do ep. 2. Uma catarse brutal e libertadora seguida da "Get Free" do The Vines na orelha. Puro exibicionismo.

Quero mais.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Americano genioso

Indulgente, não diria. Celebratório, com certeza.


O trailer de Frank Miller: American Genius traz uma vibração que lembra bastante a condescendência de Stan Lee, da Disney+. E a presença do bom, velho e malandrão Stanley Lieber deixa a coisa ainda mais sintomática. Infelizmente, o documentário deve fazer vista grossa ao aspecto mais polêmico e fascinante de sua carreira: o Frank Miller pôs-11/9.

Ao que tudo indica, o tom é 100% chapa-branca e não traz menções às suas epifanias de extrema direita, às tentativas pernetas de redenção e muito menos ao injusto revisionismo negativo que sua obra tem experimentado nos últimos anos. São tópicos de ouro para qualquer documentarista que almeja fomentar o debate e a reflexão. Pelo jeito, não será desta vez. A direção é da estreante Silenn Thomas, produtora executiva de 300 e Sin City: A Dama Fatal e que, por acaso, também é a CEO da Frank Miller Ink, empresa do quadrinista. Pois é.

Curiosamente, a premiere oficial foi no Rome Film Festival, em 2021. Contudo, só agora descolou uma estreia pela rede Cinemark (dos EUA, claro), prevista para 10 de junho. Em seguida, o doc será disponibilizado on demand.

A lista de convivas foi generosa e trouxe de Neal Adams e Zack Snyder a Jim Lee e Robert Rodriguez. E também me pegou de supetão com a indefectível Jessica "Nancy Callahan" Alba ressurgindo e tecendo juras de amor aos gibis do Frank. Melhor que isso, só se aparecesse de cowgirl e recriasse a clássica cena no Kadie's.

O doc é sobre o Miller gênio, mas podia ser também sobre o Miller genioso. Renderia demais em tela. Não vai rolar. E claro que verei e me divertirei mesmo assim. Acima de tudo, é melhor um tributo em vida do que a opção. Ele merece.

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

A Quebra de Murdock

Resetaram a série do Demolidor...

Marvel has let go of writers and directors of 'Daredevil: Born Again' after being less than enthused by what had been shot so far

Publicado por The Hollywood Reporter em Quarta-feira, 11 de outubro de 2023

"A série não estava funcionando."

Foi a impressão do próprio Kevin Feige e que foi repercutida no The Hollywood Reporter. Graças a Odin pela greve dos roteiristas e atores (ou não), que viabilizou o gap para o mandachuva da Marvel Studios e um combo de executivos avaliarem a produção que já superava a metade dos 18 episódios previstos.

O artigo é fascinante por descrever mais claramante o funcionamento das engrenagens do broadcasting americano – ou, conforme mencionado, da "cultura de TV tradicional". Coisa que parece do tempo da Telefunken preto e branco da sua querida vovozinha, mas não é e ainda tem muito a ensinar à era do streaming.

Alguns trechos curiosos e estarrecedores:

“Apesar de tudo, a Marvel Television evitou o modelo tradicional de produção de TV. Ela não contratou pilotos, mas em vez disso filmou temporadas inteiras de TV com mais de US$ 150 milhões em tempo real. Não contratou showrunners, mas dependeu de executivos de cinema para dirigir sua série. E assim como a Marvel faz com seus filmes, ela contou com a pós-produção e refilmagens para consertar o que não estava funcionando.”

👿 A receita para o desastre. E, salvos Loki, WandaVision e Falcão e o Soldado Invernal, foi mesmo.


“Estamos tentando casar a cultura Marvel com a cultura da televisão tradicional”, diz Brad Winderbaum, chefe de streaming, televisão e animação da Marvel. “Tudo se resume a: ‘Como podemos contar histórias na televisão que honrem o que há de tão bom no material original?’”

👿 O formato serializado sempre foi o mais adequado para adaptar HQs, bem mais do que longas para o cinema. Simplesmente porque 99,9% das HQs são... serializadas. Acho que nenhum desses caras assistiu Batman - The Animated Series ou Justice League ou Justice League Unlimited.


“O seriado é o primeiro da Marvel a contar com um herói que já teve uma série de sucesso na Netflix, com três temporadas. Mas fontes dizem que (os roteiristas-chefes Matt) Corman e (Chris) Ord elaboraram um procedural que não lembrava a versão da Netflix, conhecida por sua ação e violência. (Charlie) Cox nem apareceu fantasiado até o quarto episódio.”

👿 O pior é que sou louco por filmes e séries procedural e dramas de tribunal. Seria interessante numa série "Nelson and Murdock: Attorneys at Law". Mas não é esse o caso...


“Em Cavaleiro da Lua, estrelado por Oscar Isaac, o criador e escritor do programa Jeremy Slater saiu e o diretor Mohamed Diab assumiu as rédeas. Jessica Gao desenvolveu e escreveu Mulher-Hulk: Defensora de Heróis, mas foi deixada de lado quando a diretora Kat Coiro entrou no projeto.” (...)

“Kyle Bradstreet, escritor e produtor executivo do vencedor do Emmy da USA Network, Mr. Robot, estava trabalhando nos roteiros de Invasão Secreta há cerca de um ano quando foi demitido depois que a Marvel decidiu seguir uma direção diferente. Entra em cena o novo escritor Brian Tucker, que escreveu o thriller policial Broken City. Thomas Bezucha, que dirigiu o thriller Let Him Go, e Ali Selim, que trabalhou no drama do Hulu sobre o 11 de setembro, The Looming Tower, estavam a bordo como diretores e para ajudar a desvendar a história.” (...)

“Até agora, tudo normal, pelo menos para os padrões de desenvolvimento criativo da Marvel. Os detalhes são obscuros, mas o que aconteceu a seguir, no verão de 2022, debilitou a produção à medida que as facções se entrincheiravam e os líderes competiam pela supremacia durante a pré-produção de Invasão Secreta em Londres. ‘Foram semanas em que as pessoas não se davam bem e isso explodiu’, disse uma fonte. A Marvel se recusou a comentar diretamente sobre o assunto.” (...)

“À medida que avança, a Marvel está fazendo mudanças concretas na forma como produz TV. Agora tem planos de contratar showrunners. O trabalho de pós-produção de Gao em Mulher-Hulk ajudou a Marvel a ver que seria útil para seus programas ter uma linha criativa do início ao fim.”


👿 Uma dança das cadeiras no olho de um furacão e a Marvel conduzindo as séries sem showrunners. Isso explica muita coisa.

Ps do copo meio cheio: sei lá o que vão arrumar daí pra frente, mas pelo menos pegaram essa no voo...

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Demolidor Depois de Horas


Aproveitando o aniversário do genial David Mazzucchelli, nada como relembrar um dos melhores pesadelos recorrentes que alguém já me deu nesta vida. Lembro vividamente de quando li a história que fecha Superaventuras Marvel #49. "A Noite Mais Longa de Minha Vida" foi coescrita pelo prolífico Harlan Ellison e por Arthur Byron Cover, ambos figurões da literatura de ficção científica. A trama mostrava nosso querido e sofrido Demolidor indo ajudar uma inocente menininha e sendo mastigado por uma mansão lotada de armadilhas mortais.

O lugar era de botar o Jigsaw e o Arcade chorando abraçados em posição fetal. Em conchinha, portanto. Dava quase para ver o brilho sádico nos olhos de Ellison e Cover ao escreverem o roteiro.

Lógico que foram Mazzucchelli, no topo da forma Marvel style, e o saudoso arte-finalista filipino Danny Bulanadi que me arrastaram para dentro daquele cenário de suspense, terror e do mais puro "putaqueuspa, agora fudeu!!". Era julho de 1986 e ainda ficava petrificado de medo com as reprises de Geração Proteus, O Enigma de Andrômeda e Westworld, de temáticas similares. Ou seja, era uma presa fácil. Tanto quanto o pobre Matt Murdock.


Quando terminei, a sensação era ter sido atropelado por uma frota de caminhões. Não foi à toa que colocaram essa história no final da revista.

Hoje, milhões de releituras depois, acho divertida demais. Uma aula de construção e plot twist. Mas o finalzinho perturbador, à Rod Serling, ainda é de arrepiar. Brrr.

Feliz níver, Mazzucca!

sexta-feira, 23 de junho de 2023

quarta-feira, 8 de março de 2023

Bem-vindo de volta, Jon


Jon Bernthal está de volta ao caveirão. O retorno do Justiceiro em sua melhor versão é a 1ª grande notícia do Marvel Studios/Disney+ desde as integrações de Charlie Cox e Vincent D'Onofrio.

Demolidor: Nascido de Novo — sugestivo título — terá 18 episódios com previsão de estreia para a "primavera de 2024" (entre março e junho). A produção traz uma certa aura de projeto prioritário do estúdio. Cox inclusive já comentou que as filmagens levarão praticamente o ano todo. Planejamento sem pressa. Bom indício até prova ao contrário.

Nem tudo são rosas: a dupla Deborah Ann Woll e Elden Henson (Karen Page & Foggy Nelson, respectivamente), também do DDflix, ainda não foram confirmados na série. As opções seriam a ausência dos personagens neste início de reboot e até um possível recast de atriz e ator.

O que, pra mim, seria uma tremenda bola fora. Veremos.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Obrigado, Sergius


Dennis J. O'Neil
(1939 - 2020)

Impossível resumir a importância de Dennis O'Neil – ou "Sergius O'Shaughnessy" – nos comics dos últimos 45 anos. Muito mais fácil resumir sua importância em nossas vidas. Ele já era publicado por aqui pelo menos desde o final dos anos 1960 e, num microcosmo de uma microsituação, desde os primeiros gibis que li na vida.

Foi ele quem criou a 1ª fagulha de consciência social em minha alienada cabecinha fã de "crunchs!" e "pows!" com sua inesquecível fase do Lanterna Verde & Arqueiro Verde ao lado do genial Neal Adams, lançada aqui na saudosa Superamigos. "Inesquecível", aliás, é um pleonasmo: pra mim, ainda é releitura sazonal e estupidamente atual.

E teve a revolucionária e influente incursão no Batman. E a fantástica carreira como editor – graças a ele, o jovem Frank Miller ganhou total controle sobre o Demolidor, livrando o herói da obscuridade certa. E o Questão, que, elevado a um novo patamar, tornou essencial a série Os Caçadores, da Abril.


São apenas alguns highlights. O melhor run de O'Neil foi, sem dúvida, sua brilhante vida dedicada aos quadrinhos. Uma impecável lição de amor à arte.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Typhoid Ann

Ann Nocenti, minha heroína particular e reserva moral da Superaventuras Marvel, deu uma entrevista bacanuda para o podcast Women of Marvel.


O episódio completo pode ser conferido abaixo...


...ou aqui, para fazer um agrado às garotas com um buquê de page hits.

Jornalista, roteirista e ex-editora na Marvel, Nocenti sempre rendeu ótimas entrevistas. Ela não é de fazer média: normalmente solta o verbo até o limite possível antes de incomodar (muito) alguém, mas sempre com franqueza e bom humor adoráveis. E, mais importante: zero frescurite. Talvez seja herança da época pré-redes sociais, quando as pessoas conversavam olhando nos olhos e não se ofendiam tão fácil.

Sendo assim, salta aos ouvidos como as podcasters Sana Amanat e Judy Stephens desperdiçam o Fator Nocenti para um bom papo de boteco. Apesar da eventual quadrinhista se mostrar articulada e generosa, a condução é respeitosa e bem chapa branca. E termina dez minutos antes do tempo regulamentar. Sintomático.

Ainda assim, Nocenti fala bastante sobre sua juventude lendo velhas antologias do Pogo (o Bone original) e do Dick Tracy - cujos inimigos caricatos e disformes lhe criou um fascínio por vilões e monstros ainda criança - e sobre a dinâmica interna da Marvel com alguns causos de bastidores da era Jim Shooter - o ponto onde a entrevista poderia ter virado puro rock & roll, não fossem as comportadas apresentadoras/funcionárias da editora.

Outros pontos interessantes: a importância de Louise Simonson e da grande Marie Severin em sua carreira, a perícia de Archie Goodwin em mecânicas de plots, a ocasião em que Mark Gruenwald a pediu para matar a Mulher-Aranha logo num de seus primeiros trabalhos, como é a transição de editor-assistente para mentor ("e então você se demite"), suas crias (Longshot, Mojo, Espiral, Coração Negro), a influência de Chris Claremont na composição de personagens femininas fortes e os conselhos de Dennis O'Neil - também um jornalista - sobre como inserir questões políticas e sociais em gibis de super-herói.

Um dos trechos em que fica evidente a diferença entre as cascas-grossas gerações 1970-1980 e a superprotegida geração pós-milênio, é quando ela comenta sobre a "experiência de campo" necessária para contar uma boa história - coisa a própria Ann conhece bem. Curiosa também era a estratégia quase suicida do processo criativo. Com deadlines absurdas e trabalhando literalmente madrugadas adentro, "trazíamos muitas ideias malucas porque achávamos que elas iriam acabar numa lata de lixo".

A melhor parte, pra mim, é sobre os primórdios da relação com John Romita Jr. e a escalação da dupla, por intermédio de Ralph Macchio, para assumir o Demolidor pós-Miller/Mazzucchelli. Uma senhora responsabilidade. E, claro, o trecho onde que ela fala sobre uma de suas maiores personagens: Mary Tyfoid.

Segundo ela, a vilã tem uma dualidade e contradição equivalentes às do próprio Matt Murdock/Demolidor, que, por sua vez, ainda tem uma queda por garotas malvadas. Tal qual o Destemido, Mary lida o tempo todo com um reflexo distorcido dela própria. E Nocenti não se furtava em ir fundo na ferida. Isso bate com a impressão que sempre tive da personagem, cuja complexidade ia muito além do perfil crazy bimbo de uma Arlequina, por exemplo.

Perturbação de identidade dissociativa num contexto pop com super-heróis e supervilões? Você já via (lia) muito antes de Shyamalan e a trilogia Corpo Fechado.

Num dos meus trechos favoritos, Nocenti reflete sobre a evolução de Tyfoid, ficando mais e mais sombria até virar uma matadora de homens. Ou, nas palavras dela, "alguém que poderia invadir um abrigo para mulheres e checar nos arquivos o que cada homem fez com cada mulher e então ir atrás deles para retribuir cada ferimento".

Uma excelente ideia.


Lógico que a Mary Tyfoid é uma das minhas vilãs do coração. E a primeira a conquistar um lugarzinho na (disputada) estante...

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Fisk, Wilson


Ok, isso foi... lindo.

Tenho algumas reservas sérias (tá bom, ha, ha) com a 2ª temporada de Demolidor, mas nenhuma delas envolve a figurona do senhor Vincent D'Onofrio. E certamente não agora, depois desse blazer branco - sei como isso soa, mas fiquei empolgado mesmo e não estou nem aí!

Tomara que Thanos tenha feito escola.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Bebendo com Nocenti


"Bebendo com o Demônio" é, de certo, um conto de Natal que passaria ao longe do know-how criativo do bom e velho titio Stan.

Publicada originalmente em Daredevil #266, num imperdoável maio de 1989, a história ganhou um melhor timing na edição nacional, em Superaventuras Marvel #115, da Abril. Era janeiro de 1992 e a ressaca natalina ainda batia forte. Assinada pela clássica dupla Ann Nocenti-John Romita Jr., "Bebendo com o Demônio" é uma desconstrução daquele clima de paz, amor e solidariedade despejado todo fim de ano em pacotes superficiais e efêmeros.

Com sua vida pessoal em frangalhos e recém-saído de um dos piores momentos - e surras - de sua trajetória de vigilante, o Demolidor estava sem rumo e imerso numa bad trip infernal naquele 24 de dezembro.

A premissa era minimalista: o defensor da Cozinha do Inferno atravessando a noite da maior festa cristã num pub em companhia dos figurantes, dos desajustados, dos caras pequenos, dos outsiders. De todos aqueles amigos da Geni.

Personagens mundanos como uma elegante senhora numa eterna espera romântica, um marido abusivo, um reacionário de meia-idade, dois irmãos que escondem profundas cicatrizes familiares. Todos, por um breve momento, sentindo o gostinho do protagonismo. Que pode ser bem amargo.

“Alguém mordeu a maçã! Ela apodreceu naquele dia!”

Aquele microcosmo impregnado de frustrações, mágoas, angústias e pequenas tragédias humanas foi praticamente um tapete estendido para os leões que rugem na escuridão. Um cenário sob medida para mais uma incursão do diabo-in-chief da Marvel. Na época, Matt Murdock andava às voltas com o insidioso Mefisto por conta do evento Inferno. Àquela altura, a megassaga já havia acabado, mas o rei das trevas não esqueceu.

Disposto a tudo para corrompê-lo psicológica e moralmente, Matt era o 2º grande troféu almejado por Mefisto (sendo o 1º Norrin Radd, o virtuoso Surfista Prateado). Até mesmo a forma assumida pela criatura foi uma pista do que Mefisto era capaz para alcançar seu objetivo - além de servir como alusão a um dos maiores pecados de Matt. Mesmo com a tensão subindo e ruindo tudo e todos ao redor, o vigilante seguia paralisado, inerte com a culpa católica vazando pelos poros.

Nocenti estava implacável com o Demônio.

“Eles se matarão continuamente... sem parar! Morderão as maçãs!
Irmão matará irmão! Continuamente... sem parar!”

É uma leitura marcante, no mínimo. Uma das minhas prediletas.

Sempre me pareceu que uma narrativa com aquele grau de intensidade só podia ser escrita por quem viveu aquilo tudo. Ao menos a versão realística de uma solitária noite de Natal rodeado de estranhos, mas em companhia apenas de seus fantasmas (ou demônios) particulares.

E foi realmente o que aconteceu.


Em 2014, Ann Nocenti contou ao site 13th Dimension como "Bebendo como o Demônio" foi inspirado em fatos reais - e bastante pessoais. Nas entrelinhas, um depoimento de como momentos potencialmente ruins podem se revelar experiências positivas, até mesmo rendendo bons frutos no futuro.

Não precisava disso pra ser uma releitura obrigatória de Natal. Mas que foi a assinatura que concluiu a obra, 25 anos depois, isso foi...


“Pra mim o mundo não tem mais jeito! A maçã está podre! 
Não tem mais volta!”

Feliz Natal e um ótimo 2018.

domingo, 30 de julho de 2017

(Colecionadores) Amotinados, uni-vos!

Dos confins dos traiçoeiros territórios dos mercenários livres ressoam choros e soluços copiosos...


A vida do encadernad(ã)o Os Novos Vingadores: Motim! nas livrarias não foi longa, mas foi bastante próspera. Na época, não creio que a editora Panini antecipava o tamanho da procura que a edição teria e lançou uma tiragem bem aquém da demanda. Jogada por mim no balaio do "a adquirir quando sobrar algum $$$", vi Motim! se amotinar contra meus planos ao evaporar sistematicamente de todas as cadeias (de livrarias) físicas e virtuais. Quando menos percebi, a edição já estava sendo vendida a peso de ouro em vários sites de venda informal - e não só o Mercado Livre.

Foi nessa época que desenvolvi uma teoria conspiratória de boteco sobre uma raça reptiliana disfarçada que adquiria grandes lotes de títulos recém-lançados para revendê-los por aí a preços pornográficos. Caso tenha interesse, os direitos de filmagem ainda estão disponíveis para venda.

Lançado pela Panini originalmente em fevereiro de 2012, o compilado tem 380 páginas reunindo as edições de 1 a 15 de New Avengers. Bom, após tantas análises elogiosas é até redundante dizer que curto bastante essa fase específica dos Vingadores (mesmo 13 anos depois de escrever a bagaça #1) e por isso mesmo tinha um grande interesse nesse relançamento.

Calhou do destino me recompensar pelo exercício espartano de paciência. Com o preço de capa a 79 dólares brasileiros, peguei a edição por 50 mangos na promocha da Fnac (que ultimamente anda despirocando grandemente nos descontos, fique de olho). E o mais legal de tudo foi rolar de rir dos mercenários tristes com suas edições encalhadas ad eternum. Para alguns a ficha ainda não caiu - e duvido muito que caia um dia.

Chamo isso de síndrome d'O Evangelho Segundo Lobo pós-traumática.


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E com Demolidor - O Homem sem Medo finalmente retornando à ponta da agulha - outra por muitos anos sendo chamada de "raridade" pelos escalpadores sem a menor propriedade - vou me dar ao luxo de uma pequena atualização.

Há alguns anos, um mix explosivo de falta de espaço e armazenamento improvisado rapidamente evoluiu para várias montanhas de edições com capa dura e papel couché empilhadas, resultando num quase-worst case scenario: as páginas de muitas edições ficaram irreversivelmente coladas.

Aliás, coladas não... fundidas mesmo. Algo químico envolvendo a tinta da impressão e a estrutura do caro e ultrassensível papel deluxe. Apesar do processo ser gradual (começa com as páginas grudando suavemente), não vi nada até ser tarde demais. O miolo de alguns encadernados virou uma coisa só, um paralelepípedo com capa dura.

Esse evento ficou conhecido como o Grande Desastre de 2014. Prejuízo de 5,2 quaquilhões em valores atualizados.

Mas até que tive sorte, por isso o quase-wcs. Todos os Sandman e os Preacher saíram dali intactos. Os que tiveram perda total já foram quase todos substituídos. Me falta ainda o vol. 1 da excelente e injustamente ignorada Criminal da Panini (espero uma nova tentativa da editora ou importo...?).

E Homem sem Medo que, apesar do miolo íntegro, ficou curiosamente danificado nas páginas de créditos iniciais e finais.


Sou um novo homem depois dessa experiência. Posso até dizer que me tornei um amigão da vizinhança.

Com grandes desastres...

quinta-feira, 23 de julho de 2015

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

UM HERÓI BOM PRA CACHORRO


É, dessa escapamos. O editor executivo da Marvel, Tom Brevoort, revelou em seu blog a quase-produção de uma série animada do Demolidor nos idos de 1983. Na época, havia um certo hype em torno dos quadrinhos na grande mídia (mas nada comparado ao que ocorre hoje) e a rede ABC quis capitalizar a onda. Logo a network iniciou as negociações com a Marvel para um cartoon do Homem $em Medo a ser exibido nas manhãs de sábado.

Na premissa original, Matt Murdock sofria uma série de mudanças para se enquadrar na telinha. E seus cabelos, agora negros, eram só o começo. Para combater o crime, o advogado ganhou dois sidekicks: sua sobrinha adolescente e seu destemido supercão-guia Lightning ("The Super Dog"!). Juntos, os três enfrentavam as forças do mal em uma van superequipada. Contudo, como o próprio Brevoort chegou a questionar, quem ia dirigir a tal da van? O cego, a "dimenor" ou o cachorro?

O irônico é que essa proposta PG-0 do vigilante chegava numa época em que seus quadrinhos andavam mais violentos do que nunca, via Frank Miller. O rumor que correu nos anos seguintes era de que o projeto foi cancelado devido à capa de Daredevil #184, que trazia o Demolidor apontando uma Magnum .357 para a cara do sossego.


"É, amigo, tenho que admitir... eu tava com o pavio curto"

Na edição, o herói baleava ninguém menos que o Justiceiro. Reza a lenda que isto espantou a alta cúpula yuppie da rede, que pulou fora. Mas segundo Brevoort, a verdade é que houve uma grande reestruturação interna na ABC - coisa comum na área - e todos os projetos de equipes anteriores foram descontinuados.

Já o roteirista Mark Evanier afirma que chegou a escrever o piloto e o conceito da série. Ele lembra que o cão não tinha qualquer poder, funcionando mais como uma Lassie do herói. E que posteriormente a NBC demonstrou interesse pelo desenho, mas que não foi adiante devido às restrições de redes em adotar projetos já descartados pela concorrência.


Já pensou, um Demônio "camp", ao melhor estilo Superamigos?

domingo, 28 de janeiro de 2007

DIABOLE VERTSES EN UN VESES

"Who, in their right mind, could possibly deny the 20th century was entirely mine?"
John Milton (Advogado do Diabo, 1997)

E pelo andar da carruagem, o coisa-ruim anda fazendo uma senhora campanha de publicidade também no século 21. É um tanto desesperador que esta frase tenha sido cunhada numa época pré-11/9, pré-Afeganistão, pré-Iraque, pré-tsunami, pré-mensalão, e por aí vai. Certa vez, li uma teoria sobre o livro/filme O Exorcista que explicava que aqueles eram tempos de crise moral e política nos EUA, somadas aos horrores de uma guerra perdida, à escalada da violência urbana e à ausência geral de valores espirituais. Ou seja... o ambiente perfeito pro demo fazer a festa (começando por garotinhas indefesas). Longe de ser um expert nos aspectos técnicos das manifestações cramulhísticas, imagino que, sendo uma entidade abstrata em nosso plano, a sugestionabilidade coletiva é uma poderosa arma em suas garras. Não que o tinhoso seja o causador da merdaiada em que o ser humano vive se metendo. Seu 'trabalho' é muito mais discreto. Afinal, como profanou humildemente John Milton... "não sou titereiro... apenas preparo o cenário. Você é quem puxa suas próprias cordas".

Na cultura pop convencionou-se tornar a figura do belzebu em algo mais concreto e, nessa, o conceito do anticristo foi prontamente adotado. No cinema, ele aparece mais freqüentemente como uma força invisível e irreprimível (vide o Bzão O Príncipe das Sombras) ou como moleques assustadores com um "666" tatuado em algum lugar do couro (A Profecia, O Bebê de Rosemary). Mas isso é só no caso da paternidade ser do próprio Satan-in-chief. O esquema todo é cheio de regras e estratégias porque o livre-arbítrio, graças a Deus, tá na área.

Nos quadrinhos, essa burocracia infernal, bem mais complicada que uma "simples" possessão (à Etrigan/Jason Blood, da DC), pode ser contornada quando o cão em questão pertence à uma classe inferior - 1/3 dos anjos originais já é um número que demanda alguma pesquisa censitária. Nota-se também que um objetivo de vida mais modesto e não tão ambicioso, tal como "conquistar/destruir o mundo", é um facilitador do processo. Foi assim com o sacana Violador (arquiinimigo do Spawn), da Image, que, se não me falha a memória, é filho de um demônio jurássico old school com uma humana (é isto mesmo, Fivo?).

Já o sinistro Coração Negro, da Marvel, é um caso à parte.


Wes Bentley recebendo o exú Coração Negro: a forma humana do vilão

Criado por Ann Nocenti e John Romita Jr. em 1989, ele debutou numa história do Demolidor (Daredevil vol.1, #270 - publicada no Brasil em Superaventuras Marvel #122). Coração Negro é filho do super-capeta Mefisto, que o concebeu sem envolver qualquer miscigenação - o pequeno Coraçãozinho, além de 100% Negro, é 100% Cramulhão - detalhe que acho interessante. Ensaiando uma versão blasfema do Deus cristão, Mefisto envia seu único filho para a Terra em busca de uma espécie de redenção invertida. E para isto, nada melhor que vilipendiar os valores e ideais de alguma alma justa, incorruptível e altruísta - é ou não é a descrição per se do Demolidor (a.k.a Demônio Audaz)?

Em seus primeiros dias, Coração Negro é instinto puro. Através dos recordatórios, Ann Nocenti (mulher sensacional... ainda vou escrever muito, mas muito sobre ela) detalha minuciosamente cada sensação e etapa do aprendizado da infante criatura das trevas. O resultado lembra o texto de algum documentário estilo Desafios da Vida, com predadores famintos cercando filhotinhos desgarrados. A prosa de Nocenti é ágil e muito bem-sacada, o que impede o roteiro de se tornar pretensioso e enfadonho. Mesmo assim, ela aposta no seguro e suaviza ainda mais a atmosfera com uma participação especial do Homem-Aranha - outro herói sempre às voltas com dilemas éticos e ideológicos.

E Romita Jr., atravessando a primeira e definitiva re(/volu)formulação em seu estilo, insere em sua concepção visual o mesmo clima descomplicado das palavras de Nocenti. Fora que seu design para Mefisto, além de radical, é bem mais aterrorizante que o Conde Drácula cover habitual.


Provavelmente... nunca havia pensado nisso e nem sei se confere de fato... Romita Jr. tenha se reinventado de maneira tão efetiva visando a interação ideal com a narrativa de Nocenti. Acredito mesmo que ele tenha empreendido uma busca pela química perfeita entre suas imagens e o texto dela - deixando pra trás a influência paterna inicial (wow) para descobrir sua verdadeira ID artística, o que resultou numa das melhores parcerias dos quadrinhos, merecedora de TPB's, sketch-books e edições especiais ad nauseum (alô Panini!).

Segue abaixo a história da treta de Murdock e Parker versus o vilão de coração negro. Scans by me.


Peter Fisto: Easy Rider from hell
Sinceramente, tento não esperar muito da adaptação de Motoqueiro Fantasma - onde também estrearão na telona o papai Mefisto (ou Mefistófeles) e Coração Negro (Jr). Apesar dos ótimos previews, teasers e trailers, o figura Mark Steven Johnson sempre será o diretor do decepcionante Demolidor. Mas, olhando pelo lado positivo, grande parte das deficiências que deram as caras em Demolidor (sem trocadilho) serão contornadas pela natureza e poderes sobrenaturais do personagem-título. E o cast é bastante animador. Além de Nicolas "droga-eu-queria-mesmo-era-o-Superman" Cage, também tem o meu tio Sam Elliott, o sempre promissor Wes Bentley, a instituição harley-davidsoniana Peter Fonda e a explosively hot Eva Mendes.

E não sei até que ponto se pode confiar nas declarações do diretor, mas que elas são instigantes, isso são: "Coração Negro é mostrado no que eu considero sua 'forma humana' na maior parte do filme. Mas ao longo da história nós recebemos dicas do que existe debaixo desse disfarce. No clímax descobrimos seu eu verdadeiro - e ele é horroroso. Haverá um pouco do visual clássico da HQ adicionado de alguns elementos de horror".

Mefisto te abençoe, meu filho. Motoqueiro Fantasma estréia nos EUA em 16 de fevereiro. No Brasil, dizem que será em 02 de março.

Na trilha: Paradise Lost, One Second Live.

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

THE EVIL THAT LATENESS DO


Sempre tive a sensação de que Kevin Smith seria o escritor perfeito para o Homem-Aranha. Achava que os dois nasceram um pro outro, mesmo antes de Smith se aventurar pelas HQs. Lá pelos idos de Barrados no Shopping/Procura-se Amy, mais ou menos. Enquanto no primeiro filme ele teve a manha de escalar ninguém menos que Stan Lee, em carne e mito (e lhe fazer perguntas como "o pau do Coisa também é de rocha laranja?"), no segundo ele chafurdou geral e botou um trio de quadrinhistas para protagonizar. Mas a ligação com o Teioso vai mais além. Kevin Smith é mestre em destrinchar a vidinha de pessoas comuns (nós!) e situações cotidianas, muitas vezes até dando picas pra continuidade da ação. O que é o genial O Balconista, senão um bando de gente jogando conversa fora durante uma hora e meia? Este aspecto mais informal e despretensioso seria o lado "Peter Parker" de Smith. E a visão peculiar do diretor quando se trata do campo minado que é um relacionamento de verdade? Parker + MJ, travado. Já o senso de humor malandro do aracnídeo corresponderia às típicas observações de Smith sobre o establishment, o showbiz e a cultura pop, sempre carregado de deboche e ironia. Isso sem falar nas 978 referências que Smith metralha por segundo, seja em filmes, entrevistas ou nas HQs de Bluntman & Chronic.

Adicione aí uma dupla de artistas "da hora" (o casal Terry & Rachel Dodson), liberdade editorial suficiente pra fuçar no passado de alguns personagens e voilá. O projeto parecia reluzir no horizonte com a intensidade de uma supernova. Melhor que isso, só se fosse o PT Anderson se aventurando em um conto new yorker do Aranha. Ou então o Lou Reed (já pensou o velho Lou reescrevendo O Garoto que Colecionava Homem-Aranha?). Pelo menos foi essa a impressão que eu tive. Em 2002.

"The Evil That Men Do", o tal projeto, começou arrepiando, com vários previews instigantes sendo divulgados na rede. 99% deles traziam uma Gata Negra quase radioativa de tão gostosa - o que me levou, tempos depois, a dedicar um CdMTxXx inteirinho só pra ela. O casal Dodson estava inspirado e mostrou com quantas curvas se justifica um oba-oba. A mini (em seis partes) estreou em agosto de 2002, mais ou menos na época em que eu descobri que existia vida fora do Kazaa. O tom inicial era de entretenimento leve e descompromissado, com um clima sempre agradabilíssimo. O pacote pop perfeito. Smith estava irresistível nos textos. Normal, pois ele é fã também, e a primeira coisa que fez foi devolver à Gata Negra toda a sensualidade que há tempos lhe negavam (anos-luz da lenga-lenga chorosa envolvendo Wilson Fisk e o poder de "má-sorte"). Logo nas 3 primeiras páginas, Smith nos coloca a par dos pensamentos mais íntimos da gatinha Felicia Hardy, in the shower (onde mais).


A premissa era simples e mostrava o Aranha investigando a morte de um estudante da mesma escola onde seu Parker-ego leciona. Aparentemente, o jovem sofreu uma overdose de heroína, o que contraria seu perfil de bom rapaz. Pra piorar, a autópsia não revela qualquer traço de química ilegal em seu organismo. Nem um tapinha sequer. Correndo por fora, a Gata sai de seu exílio voluntário em Los Angeles para descobrir o paradeiro de sua amiga Tricia Lane, que simplesmente evaporou em New York. Como não poderia deixar de ser (ou poderia?), os dois casos estão conectados e fornecem o subterfúgio perfeito pra felina reencontrar seu ex-aracno-affair. Kevin Smith não economiza na pimenta e coloca os dois pra trocarem faíscas com os olhos. A narrativa é bem ágil, mesmo sendo bastante verborrágica. Com balões e recordatórios abarrotados de informação, ele registra praticamente todas as impressões dos personagens. Uma referência de estilo mais recente seria Brian Michael Bendis nos seus melhores dias (Alias, Daredevil), acrescido de um humor afiadíssimo. E que humor! A seqüência em que a dupla "tortura" a bandidona Scorpia pra extrair uma informação é de rachar o bico. Já o esperado reencontro dos personagens rende diálogos (e pensamentos!) memoráveis, até resolvendo antigos impasses na relação. Como pano de fundo, uma conspiração meio barra-pesada que pode ou não envolver um figurão de New York com francas aspirações políticas. Mas era só o pano de fundo. Definitivamente, o clima era de comédia romântica recheada de duplo sentido e temperada com uma boa dose de ação. Um Alta Tensão super-heróico.

E assim foi até a 3ª edição, publicada num já longínqüo outubro de 2002, quando Kevin Smith trancou a matrícula e foi cuidar de outros projetos (filmar Jersey Girl pra Miramax e cumprir a agenda de sua produtora View Askew). Saiu sem deixar bilhete ou recado com a vizinha, e só voltou a encostar no roteiro em meados de 2005 ("the impossible has happened") - fazendo com que a mini só voltasse a ser publicada em janeiro último e concluída em março... quase tropeçando em Civil War, portanto. Cabe dizer que o gordinho barbudo foi bastante criticado, sendo até acusado de anti-profissional.

O problema é que nestes meses de "seca", pensava-se que ele já tivesse recebido integralmente por um serviço que não havia concluído (configurando aí um cambalacho ao melhor estilão Tim Maia). Bobagem. Ficou-se sabendo depois que a Marvel Comics só paga por scripts completos e já entregues. Sendo assim, Smith só recebeu quando de fato terminou. Mas ainda havia uma outra questão, dessa vez menos passível de defesa. Um delay na vida de um cara desses significa muita coisa. Lotes de informações novas ou atualizadas e uma visão mais complexa do mundo. Isto se refletiu diretamente na atmosfera "National Lampoon" da HQ e o que veio a seguir começou a justificar o título sombrio da minissérie.

"The Evil That Men Do" é uma citação ao solilóquio de Marco Antônio na tragédia Júlio César, de Shakespeare. O trecho é "The evil that men do lives after them; But the good is oft interred with their bones." ("O mal que os homens fazem vive após eles; Mas o bem é enterrado com seus ossos"). Não, nunca li o velho William (no máximo, assisti o Hamlet do Brannagh). Só sei disso porque também é o título de uma ótima canção do Iron Maiden. Metal é cultura! De qualquer forma, caiu como uma luva. Ou como uma tempestade. Quem acompanhou os capítulos anteriores levou uma ripada na nuca com o quarto round - mesmo com a conclusão pra lá de arrepiante da 3ª edição. Sinceramente, fiquei tão confuso que até pensei que tivesse perdido alguma edição "3½" ou algo do tipo. Kevin Smith revirou tudo de ponta cabeça de tal forma que as novas informações literalmente te soterram desde a primeira página e você só pode balbuciar "não, isto não pode estar acontecendo... deve ser um pesadelo". O casal Dodson também retornou à prancheta e ambos tiveram de se readaptar. A arte-final de Rachel ficou mais claustrofóbica, as cores (agora de Lee Loughridge), antes suaves e ensolaradas, ficaram mais saturadas e os ângulos e feições de Terry adotaram um ar pesaroso e introspectivo.


Ok, isto faz de "TETMD" um trabalho irregular na mais perfeita acepção da palavra. O hiato quilométrico entre uma metade e outra foi crucial em todos os apectos. Mas embora muitos discordem, irregular não é, necessariamente, algo ruim. Tudo bem que uma certa pré-disposição ajuda na hora de assimilar informações (o que parece ser uma anomalia meio rara por aí). O fato é que Kevin Smith conseguiu conferir mais profundidade e dimensão no perfil psicológico dos personagens do que eles pouco ou jamais tiveram em suas longas bi(bli)ografias. Isto inclui desde os vilões até o próprio Aranha e, em maior grau, a Gata Negra.

Como disse o próprio Smith: "É uma história muito melhor agora do que se eu a tivesse completado em 2002". É vero. Senão, vejamos: o diálogo inicial entre Felicia e um certo advogado da Cozinha do Inferno chega a ser atordoante, tamanho o fluxo de novidades de cair o queixo; o momento em que Peter tenta convencer Matt Murdock de que precisa de sua ajuda, revezando entre o bom-humor (Peter lembra de uma história vexatória - fase pré-Miller - na qual Matt fingia que estava morto e que na verdade era o seu irmão gêmeo) até a mais pura, deslavada e emocionante amizade; Murdock (de novo) lembrando que é PhD no campo Mulher Com Problema (Mary Tyfoid, Viúva Negra, Heather Glenn, Karen Page, E. Natchios, Maya Lopez, etc, etc); a "instrutiva" participação do mutante Noturno; a bem sacada natureza dos misteriosos poderes dos vilões (cujo background envolve até um notório carrasco nazi); o clima pesadão à Sobre Meninos e Lobos em uma linha narrativa específica (simplesmente impossível não relacionar).

Mas talvez o maior mérito de Smith em "TETMD" tenha sido colocar Felicia Hardy frente-a-frente com os demônios de seu passado obscuro. Isso sem tropeçar em clichês e sem recorrer à soluções fáceis. O resultado é que eu gosto muito mais da Gata Negra agora do que antes, se é que isto é possível. Na conclusão, Smith ainda fornece um link para a revitalização de um dos inimigos mais esdrúxulos do Aranha. Do jeito que foi feito, os desdobramentos parecem promissores.

De fato, a segunda metade de "TETMD" é muito mais história que a primeira. Mais intrincada, crível e tridimensional. Praticamente uma humanização da proposta anterior. Ainda assim, não foi desta vez que vi meus ídolos se reunirem em perfeita harmonia. No entanto, após a catarse proporcionada pelas duas últimas edições, algo ficou bem claro pra mim: não foi Kevin Smith quem atrasou, foi "The Evil That Men Do" que chegou muito, muito cedo.

Só pra lembrar: a Panini Comics está publicando a minissérie por aqui, sob a alcunha "O Mal no Coração dos Homens" - razão pela qual abordei o espírito da HQ e não seus fatos e escolhas criativas. Já pensou, você comprando a revista religiosamente e levar com um spoiler bem na cara?


dogg, a pensar. E na trilha: o estonteante álbum de estréia do Black Stone Cherry.

segunda-feira, 24 de julho de 2006

A GUERRA DE MARK


Isto está começando a se tornar uma espécie de afirmação do óbvio e, ainda assim, de forma repetida. Tentarei fazer um pouco diferente desta vez: Se houvesse Mark Millar's facts, um deles seria: "Chuck Norris é o Cara!!! Mas o Cara é Mark Millar". Tá bom, eu sei, horrível, mas pelo menos foi diferente e mantém a idéia que queria passar. Mark Millar é o roteirista de quadrinhos mais competente em franca produção atualmente.

Sempre gostei muito de tudo o que ele escreveu, mas é inegável que fica muito mais à vontade em contextos que lhe permitam criar roteiros de repercussão global do que em ambientes menores, mais íntimos, campo que Bendis domina com facilidade e Ed Brubaker é discípulo destacado. Isto é facilmente percebido na diferença de qualidade de seus trabalhos em Superman: Red Son, The Authority e os dois arcos de Wolverine em comparação, por exemplo, com seu trabalho em Marvel Knights Spider-Man e Chosen. Em janeiro abusei dos elogios ao segundo volume de Ultimates e, neste meio ano que passou, foram divulgadas as linhas gerais de seu novo trabalho, algo grande e fenomenal que o próprio já vinha alardeando há algum tempo, uma saga que atingiria o Universo Marvel de ponta a ponta, com a participação mais maciça de personagens já vista: Civil War. Já vimos confete jogado por coisa parecida por aí e, falo por mim, já tinha me condicionado a associar que este tipo de alarde significava algum novo vilão overpowered ou um personagem já conhecido, mas numa virada igualmente overpowered e que ameaçava a todos. Algumas foram boas, outras nem tanto, mas certamente privilegiavam contextos grandiloqüentes, onde personagens populares, mas cuja importância é mais sentida nas coisas pequenas do dia a dia – Homem-Aranha e Demolidor, por exemplo – eram relegados a papéis coadjuvantes. Estas sagas eram claramente pontos fora de curva e invariavelmente apresentavam finais forçadíssimos, ou seja, eventos que, de tão grandiosos, saltavam absurdamente daquele contexto mais "pé no chão" da Marvel (até onde o termo permite, claro, já que falamos de quadrinhos de heróis). A maioria, apesar de ruidosa, apresentava nenhuma ou poucas conseqüências a médio prazo, sendo relegadas ao esquecimento na sua relevância para a cronologia atual. Massacre, por exemplo, de conseqüências atuais só tem uma: Bishop. Um personagem que perdeu o sentido de existir após a saga e hoje vaga perdido como uma assombração no mundo mutante.

Quem costuma vir aqui certamente está familiarizado com o que vem a ser Civil War, mas não custa apresentar o caso àqueles que não são tão afeitos aos quadrinhos. Parto para a sinopse oficial: Um reality show que mostra super-heróis de quinta categoria resulta em centenas de mortos quando um dos vilões explode a si mesmo. A opinião pública torna-se hostil aos vigilantes e o governo americano aprova uma lei de registro de todos os seres que detenham habilidades super-humanas. Com isto, a comunidade de heróis encontra-se dividida e uma guerra entre eles tem início, já que os que se recusarem a submissão ao registro e ao controle da SHIELD serão considerados foras-da-lei e, ato contínuo, caçados.


Premissa até simples, não? Então destaca-se dois dos maiores ícones do supergrupo mais categórico da editora e os colocam como líderes de seus "exércitos": Homem de Ferro de um lado e Capitão América do outro. E já aqui Millar mostra que é escritor acima da média. Se fosse feita uma enquete onde o plot da saga fosse apresentado para qualquer "comicófilo" (que termo horroroso) e perguntassem qual time estaria contra o registro e qual estaria a favor, creio que seriam unânimes em apontar a encarnação da retidão moral, do american way of life e da obediência cega ao governo como o cara que lideraria a equipe pró-registro. No entanto, mesmo que sua identidade seja pública, é o Capitão América quem ergue o primeiro punho contra a lei, ao passo que o novíssimo Tony Stark fascista pós-Extremis coloca o sistema em seu favor de forma covarde, indo na contramão do que parecia ser sua opinião até bem pouco tempo antes dos eventos em Stamford, onde ocorreu a explosão.

A saga é positivamente pretensiosa, apesar de se mostrar fantástica nos detalhes minimalistas. Além das ocorrências em diversas publicações normais mensais, contará ainda com as edições de Civil War, mais outras tantas criadas apenas para a saga (check-list aqui). É complicado acompanhar tudo, não tenho este tempo todo à disposição, mas pelo que já foi possível ver, Millar não estava brincando quando dizia que seria a saga mais abrangente já feita na Marvel. Vemos a participação de diversos personagens que eu já não via há mais de década (alguém lembra de Solo? "Enquanto eu viver, o terror morre!"). Sentimos como o cenário os afeta de uma forma bem mais clara. Por mais que as participações destes personagens obscuros sejam até breves, são bem mais relevantes para o contexto geral do que as participações já mencionadas do Demolidor em sagas passadas, só para citar um dos grandes personagens da editora.


O leitor mais atento percebe também que os motivos não nascem do nada. Os eventos que levaram a ela a tornam quase obrigatória, uma conseqüência natural do que vinha acontecendo em todas as revistas da Marvel. Algo planejado há anos, portanto, bem diferente daquele produto confuso e mal acabado que foi Infinite Crisis na editora rival. Para percebermos o nível do planejamento neste trabalho, precisamos de uma revisão de eventos ocorridos nos últimos dois anos. Tivemos nesta época Avengers Disassembled, que começou a arrumar a cama para o que tomou lugar hoje. Ali alguns heróis relevantes foram mortos por uma integrante com poderes descontrolados do grupo de moral mais ilibada da Casa de Idéias. A conseqüência natural foi uma equipe onde os integrantes tinham muito pouco a ver uns com os outros, mas que serviram a um, aliás... dois propósitos bem funcionais: por um lado colocou a revista dos Vingadores mês após mês no Top Ten de revistas mais vendidas dos EUA, por outro propiciou um meio para House of M. Esta última foi bem meia boca, mas seu principal legado para a cronologia foi a redução da população de centenas de milhares de mutantes em todo o globo a apenas 198 (Decimation), o que facilitou o trabalho do governo em controlá-los com Sentinelas tripulados em uma área de contenção. Era já o primeiro ato de controle de super-poderes.

Concomitantemente, ocorreu o especial em cinco edições Secret War, onde Nick Fury criou uma equipe para um serviço sujo na Latvéria que nos apontou os principais pré-requisitos de Civil War, começando pela destituição de Nick Fury do comando da SHIELD. Este especial apresentou também o investimento sistêmico e secreto que a SHIELD faria em uma divisão própria de meta-humanos, bem como a nova e insegura diretora: Maria Hill. Não bastando o fardo de substituir uma lenda, a nova diretora teve que lidar com o descontentamento declarado que o Presidente dos EUA manifestava a respeito da quantidade e atuação de super seres no planeta, bem como os efeitos deles na balança de poderes no mundo, reforçando como gostaria que eles sumissem.

No ano que se seguiu, fomos apresentados ao Illuminati. Um grupo formado por Tony Stark, Charles Xavier, Raio Negro, Stephen Strange, Namor e Reed Richards. Este grupo foi introduzido num retcon que o mostra como um comitê de representações de grupos de super-seres da Terra que, após a guerra Kree-Skrull, com objetivos comuns, trocariam informações e estariam mais presentes na "política" dos super-seres, para evitar desastres potenciais. O grupo, por influência da SHIELD e através do Homem de Ferro, decidiu recentemente que o Hulk tornou-se uma ameaça não mais aceitável, o que os levou a banirem-no para o espaço (Planet Hulk). Mais uma ação de "controle".


De tudo o que foi listado até agora, nada foi escrito por Millar. Na verdade, tudo, menos Planet Hulk, foi levado por Bendis, que, para mim, perde de Millar por um nariz o título de "O Cara". O próprio Millar dizia ano passado que planejava Civil War com Bendis, e o trabalho foi muito bem feito. Vendo tudo o que passou, as únicas pontas ainda soltas nas motivações do estouro de Civil War são, para mim, a postura apaixonada e incoerente de Reed pelo registro e o papel que Hulk terá quando retornar. Claro, porque ele retornará (o que, se realmente ocorrer, será uma recorrência do que vem acontecendo em Ultimates – tanto o v1 quanto o v2).

E o Homem de Ferro nunca foi tão presente. Bancou os New Avengers e participou de uma série de situações que colocaram Peter Parker numa condição de dever de honra para com ele, foi transformado num bichinho de estimação que seria a carta na manga que Stark pôde usar em Civil War #2, quando Peter mostrou sua identidade em público. Além disto, recentemente pagou o Homem de Titânio para atacá-lo em Washington e vem tendo encontros fechados com o presidente desde antes da aprovação do Ato de Registro.


Millar é corajoso também. A identidade secreta de Peter era uma das vacas sagradas dos quadrinhos, daquelas que todos brincaram, mas nunca conseguiram desvelar. Ele não só fez isto como reviveu um ícone. Há tempos o Capitão América é um dos personagens mais chatos dos quadrinhos. Na primeira oportunidade, Millar o renovou, tirou aquela pecha de herói, colocou um perfil de personagem que age na base d'os fins justificam os meios e o Capitão Ultimate é um dos personagens mais interessantes daquela revista. Já tinha feito trabalho semelhante nos dois arcos que escreveu para Wolverine recentemente e está reproduzindo seu toque de Midas com o Capitão América da cronologia normal, onde aquele cara que personificava a obediência cega à bandeira agora se permite ter os olhos injetados de ódio, ir contra o governo americano e até às últimas conseqüências pelo que acha certo. Voltou a ser um personagem interessante. Foi o destaque da primeira edição, só perdeu o destaque na segunda para a revelação de Peter e, na terceira, voltou ao foco, mesmo que seja por estar apanhando como cachorro vadio.

Algumas certezas já são possíveis de se ter como conseqüências de Civil War. Homem de Ferro e Capitão América não poderão mais coexistir na relação de poder de outrora, onde Stark financiava a liderança de Rogers. É claro também que os objetivos do Presidente para a comunidade de heróis são bem mais cinzentos do que podem sugerir, bem como a legitimidade do “acaso” na explosão de Stamford, que desencadeou o Ato. Há a certeza também de que até o fim da saga muita coisa virá, pois o racha na Família Fantástica ainda não foi explorado o suficiente, nem a participação dos mutantes no evento, o conflito interno e as conseqüências do posicionamento do Homem Aranha, o retorno de Thor, Magneto pós-Coletivo e, principalmente, a guerra batendo às portas da Atlântida de Namor ou aos Inumanos e Raio Negro.



A imagem de cima é de Wolverine #42 e a de baixo de
Civil War #1 - sensação de trabalho em equipe.

Paralelamente, Millar vem contando também com gente muito inspirada nas revistas que participam da saga, além de um claro trabalho de equipe, conforme a imagem acima demonstra. O normalmente irregular Paul Jenkins vem fazendo trabalho belíssimo em Civil War Front Line, onde o conflito é contado e vivido pela ótica de outros personagens, como repórteres e vítimas, dando uma inversão de visão interessantíssima que já vimos em Marvels e no recente Guerra dos Mundos, só para citar outra mídia, mas nunca de forma concomitante. Marc Guggenheim (de CSI: Miami) vem desempenhando um bom papel também nas páginas de Wolverine em companhia de um surpreendentemente maduro Humberto Ramos, que conseguiu evoluir seu trabalho de algo irreconhecível para o que já pode ser chamado de estilo. Straczynski e Roberto Aguirre-Sacasa também cumprem bem seu papel em Amazing Spider-Man e Sensational Spider-Man, respectivamente.

Civil War é uma das, senão a melhor coisa que aconteceu recentemente nas revistas tradicionais. Falo isto com segurança, é obrigatório. O final da terceira edição é de cair o queixo. Para não perder tempo gastando palavras sem necessidade, faço minhas as palavras do Demolidor:


Artigos relacionados --

Avengers Disassembled:
Artigo 2 - 28/01/2005
Artigo 1 - 16/11/2004

New Avengers:
Artigo 3 - 15/01/2006
Artigo 2 - 30/03/2005
Artigo 1 - 9/12/2004

Wolverine:
Artigo 1 (Enemy of the State) - 30/03/2005
Artigo 2 (Agent of SHIELD) - 05/05/2005

Ultimates v1:
Artigo 1 - 07/07/2004

Ultimates v2:
Artigo 1 - 14/04/2005
Artigo 2 - 16/01/2006

Ultimates Cartoon:
Artigo 1 - 02/03/2006

Superman - Red Son:
Artigo 1 - 10/07/2004

quarta-feira, 15 de junho de 2005

DEVORADOR DE PECADOS É VILÃO DE GENTE GRANDE


Mudando um pouquinho o assunto dos posts, resolvi falar um pouquinho de quadrinhos. Não sou um cara que tem cultura de HQ do tipo vanguardista, procurando novidades aqui e ali que te deixam atordoado. Normalmente as revistas que li deste gênero são todas apresentadas pelo Doggma (Chosen, Wanted e WE3 são bons exemplos), então minha iniciativa fica mais na linha comercial popular mesmo, com clara tendência para o mundo mais "a vida como ela é" da Marvel (ou ao menos como a vida consegue ser, assumindo que há super-heróis em tudo quanto é canto).

Este negócio de HQ é um vício danado. Comecei lá pelos 7 anos de idade e dura até hoje, 21 anos depois. Comprava revistas direto, afinal o velho formatinho Ebal, depois Abril, era baratinho, cabia no bolso. O tempo passou, os preços começaram a ficar indigestos e, lá por 93 ou 94, decidi que este vício precisava ser controlado. Vendi toda a coleção por uma ninharia na GibiCenter, sebo que tem no Méier. Isto posto, achava que me livraria da maldição, mas dois meses depois comecei um estágio e, com o dinheiro entrando, as revistas voltaram e o remorso por ter vendido caixas e caixas duramente colecionadas (só sobrou a coleção do Homem Aranha 2099) veio com força. Recomecei a coleção já sem tanto fôlego para resgatar as antigas, mas mantive o ritmo até ano passado, quando o peso no orçamento mostrou-se comprometedor e as maravilhas gratuitas e up to date do DC++ me convenceram a gostar de ler na tela, aposentando as revistas reais.


Uma das coisas que mais impressionaram ao longo do tempo foi a sensação de ter nascido na época certa de resolverem envelhecer as revistas também. Em 84, quando comecei a ler quadrinhos, o mercado já tinha seus 24 anos de estrada realmente comercial. Batman, Super-Homem, Namor, Capitão América e outros já existiam nos 60's, mas o boom no mercado surgiu e espalhou-se como uma espécie de metástase de heróis que Stan Lee provocou nesta década.

Com a experiência em sebos, percebi que na minha iniciação no mundo dos quadrinhos a linguagem deste veículo muito pouco havia se atualizado ou envelhecido em comparação com aqueles diálogos simples e infantis de antigamente. O foco do mercado ainda era as crianças e tudo foi mudando exatamente com o tempo em que minha percepção das coisas também amadurecia. Um dos marcos desta evolução percebi um ou dois anos depois com a Graphic Novel Deus Ama, Homem Mata (God Loves, Man Kills) dos X-Men, onde, pela primeira vez, vi os mutantes em ação. Pouco depois tive um choque ao ver a seriedade, diálogos, arte, roteiro e dinâmica de Wolverine & Destrutor: Fusão (Wolverine & Havok: Meltdown). Infelizmente as séries mensais não mantiveram este nível, mas a maturação dos personagens mostrava-se clara.

Diversas obras vindouras mantiveram o processo, com roteiros cada vez mais intrincados e dependentes da cronologia pregressa, desenhos, arte-finalização e diagramação avançando progressivamente nos detalhes e realismo (aham... tá certo que temos Rob Liefeld para ser a exceção que confirma a regra), entremeados por diálogos cuja complexidade passa longe da molecada. Culminando no cenário atual onde não há mais volta na cronologia tradicional. Os roteiros distanciaram-se muito do foco infantil, tornando difícil a assimilação e forçando as editoras a tentar estratégias que sempre desviam-se do foco original. Novos Titãs, Novos Mutantes e Young Avengers, cada um ao seu tempo, pretendiam alcançar este público e, mesmo tendo esta linguagem mais "jovem", sua interligação com o universo Marvel/DC os envelhece.

Temos então a iniciativa da Marvel de arregimentar novos leitores ao recomeçar cronologias com sua linha Ultimate. Uma linha que pretendia ser lida por novos olhos acabou tornando-se coqueluche das vistas cansadas de sempre, com versões superando originais através de histórias atualizadíssimas seja no assunto e roteiro, seja na violência que caracteriza o que chamamos de "hoje em dia". A solução veio então na forma de revistas com os heróis tradicionais sem qualquer ligação com as cronologias conhecidas, usando linguagens infantis que o público em questão exige. Não sei se vingou, mas como o mercado está viciado, só o tempo dirá.


Novos Mutantes, Novos Titãs e Young Avengers

Neste envelhecimento do universo de HQ, é interessante perceber que, por envelhecermos juntos, não percebia a inocência dos diálogos de outrora, já que sempre me identificava com as histórias. Hoje, relendo clássicos de antigamente como a Saga da Fênix, percebemos que os diálogos não se comparam com os de hoje, apesar de a história ser irrepreensível. A memória prega peças e causa algumas decepções, mas tudo isto serviu para falar o que se segue:

Meu personagem preferido é o Homem-Aranha. É o cara mais "real" do universo de histórias em quadrinhos tradicional, com contas para pagar, desemprego para lamentar e outras coisas que apenas quem "só se phode" reconhece. Seu início de carreira era realmente infantil, mas sua maturidade veio sendo percebida em saltos e marcos, como A Morte de Gwen Stacy, Guerras Secretas e a experiência com o simbionte, o casamento com Mary Jane e outros. Ainda hoje percebo que o Aranha dos títulos próprios é mais maduro que o Aranha de sagas globais, crossovers e participações em revistas alheias (exceção feita nas revistas do Demolidor). Na linha de marcos da maturidade do Aranha, há um que não é tão reconhecido pelo público, mas que considero a principal fase de transição do Aranha bobo para o Aranha adulto. E esta história é o arco da Morte de Jean DeWolff.


O arco foi publicado lá fora nas revistas Spectacular Spider-Man #107 a #110 com roteiro do megafodônico® (Alcofa rights reserved) Peter David e desenhos competentes à moda antiga de Rich Buckler. Publicado no Brasil pela Abril Jovem nas revistas O Espetacular Homem-Aranha #87 e #88, logo após a edição em que o aracnídeo enfrentou o Senhor do Fogo.

Jean DeWolff era uma capitã de polícia que, coisa rara, reconhecia no Aracnídeo um herói, trabalhando em cooperação. Com o tempo passou a nutrir afeição ao homem por trás da máscara, sentimento não percebido por Peter, mas que correspondia com sincera amizade.


Às vésperas da Guerra de Gangues, ânimos começando a se exaltar, ocorre a morte da capitã de polícia. Dias depois ocorre a morte de um juiz americano, assassinato cometido sob testemunho de Matt Murdock, o Demolidor. Outros assassinatos ocorrem em meio a uma trama muito bem engendrada, com tensão tangível e manipulações inteligentes. Tudo isto prova que não é necessário um vilão super-poderoso e sim um roteiro inteligente.

O arco foi responsável ainda pelo rompante de fúria de Peter Parker mais violento que já vi, com direito a porradaria entre heróis realmente interessante, com desenrolar próximo do que crê-se possível em um mundo real. É aqui também que Demolidor e Homem-Aranha sedimentam sua amizade, e é quando DD descobre qual a atividade alternativa de Peter.

Seria a história perfeita para ser adaptada para as telonas quando a Sony resolver fazer a transição do personagem live-action da pós adolescência para herói adulto. Certamente o crossover seria impossível, já que DD é da FOX, mas daria para adaptar a história.

Colocaria aqui as revistas para download, mas são 45 Mb e não arrumei espaço de jeito nenhum.