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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Hoje é Thor's day!


Mais do que qualquer outro projeto da fase 1 da Marvel Studios, a ideia de uma adaptação do Thor era, de longe, a mais cabulosa. Difícil até de visualizar em minhas adaptaçõezinhas live-action mentais cultivadas em lugares edificantes como filas de banco, ônibus lotados, salinhas de espera e concursos do Banco do Brasil. Tudo bem, um inventor bilionário numa armadura voadora e um supersoldado da 2ª Guerra com síndrome de Rip van Winkle foram belas amostras do nonsense que permeia toda essa campanha de adaptações da Marvel, mas ao menos esses tiveram suas conexões com a realidade cimentadas com resquícios empíricos à base de ciência, empreendedorismo e futurismo pra viagem. Já um antigo deus nórdico pagão...

Mesmo com o conceito já filtrado e ocidentalizado pela "versão Marvel" dos precursores Stan Lee, Jack Kirby e Larry Lieber (Thor acabou virando a puta paga do domínio público: a DC tem dois, a Image também e até a ilustre America's Best Comics deu uma bicada), a simples ideia de personagens mágicos surgindo em cena por si já perfaz uma ruptura do, arram, dogma tecnocrata vigente naquele universo cinematográfico. Se contextualmente era um backflip conceitual, comercialmente, porém, parecia o próximo passo lógico a ser dado. Afinal, se Voldemort e Sauron viraram rockstars, porque não Surtur?

Primeira boa surpresa: a escolha de Kenneth Branagh para a direção, puro futebol-arte. Quem mais qualificado para ilustrar poder, suntuosidade, loucura, tragédia, horror e dramaticidade épicas (ou divinas?) que o gênio que transmigrou Hamlet inteiro para um filme de quatro embasbacantes horas que passam voando? O horizonte ficou ainda mais promissor com a descoberta de que Branagh, além de um excelente vendedor de seus projetos, também era um profundo conhecedor do terreno em que estava pisando. Pra mim, era razão suficiente para celebrar a vida tomando porres de hidromel nas tavernas mais vis do reino.


Bom, Thor não teve Surtur, mas teve Loki, o deus da trapaça e das traquinagens, o Saci-Pererê do folclore escandinavo. Que por pouco não dribla todo o contingente celestial de Asgard e sai correndo com a taça de melhor personagem debaixo do braço. Toda divindade, mágica e mística foram jogadas na sacola da ciência do imponderável, entre planos interdimensionais e galáxias perdidas éter afora n'algum ponto indefinido das 11 supercordas. Resumindo, não eram deuses, eram astronautas. Enquanto isso, Branagh operava bem abaixo de suas capacidades, relegado quase a um timoneiro de luxo. Não de uma nau de guerra viking, mas de um caríssimo iate multiplex em meio a recifes e corais ameaçadores. Sem dúvida, a firma não quis arriscar e limitou os aguerridos movimentos wagnerianos do homem até o limite da completa descaracterização. Só isso explica porque o tom do filme saiu tão soft. Claro que eu não esperava por um Valhalla Rising 2: Ragnarök Now, mas esperava menos ainda pelos açucarados cubinhos de comédia romântica que frequentemente se dissolviam na tela.

Mas pensando bem, salvo em reimaginações autorais, o perfil do Deus do Trovão nos quadrinhos regulares da Marvel nunca foi o do viking primevo e animalesco empunhando um martelo do tamanho de um poste. E em seu universo havia ainda mais conflitinhos pessoais/amorosos do que no filme. Basta lembrar de seus alter-egos com vidas sociais bastante agitadas para um hospedeiro espiritual. O Thor do filme, além de cortar todo o papo furado de identidade secreta disfuncional para os dias atuais (paralelo ao Tony Stark na conclusão de Homem de Ferro), num primeiro momento faz questão de se auto-afirmar como o übermensch tanto no céu (Asgard/Jotunheim) quando na terra (Terra). Não o suficiente para configurá-lo como um überasshole, mas necessário para que sua transformação de um deus para uma pessoa melhor servisse como o rito de passagem que Odin tramava para seu filho e sucessor.

Do ponto A (o Thor imaturo e impulsivo) até o ponto B (o Thor paciente e compassivo) poderia muito bem ter sido um combinado entre a graphic Thor: A Era do Trovão, de Matt Fraction, com o Thor humanista/humanizado do universo Ultimate - especialmente no que tange à sua via crucis terrena.

E não faltam referências ao Cristianismo em Thor.


Muitos fragmentos da narrativa cristã têm passe livre na história, não só nos subtextos do roteiro, como também no timing, na dimensão dos eventos, nas motivações e principalmente no enorme apelo estético de algumas cenas. Temos lá Odin enviando seu filho à Terra despido de toda sua glória e completamente mortal; temos os amigos recém-feitos que, como bons discípulos hebreus, o seguem e o auxiliam em sua jornada, mesmo reprimidos por forças governamentais; seus ensinamentos meio revolucionários meio transcendentais meio bicho-grilo-mermão a esses mesmos amigos-discípulos; Thor se sentindo abandonado por seu pai todo-poderoso e quase perguntando o porquê disso - nem precisava -, reeditando uma famosa cena de sua versão Ultimate; a salvação através do sacrifício; a redenção e a ascensão aos céus; e, claro, a queda do vilão chifrudo do firmamento direto para o buraco (de minhoca?). E com certeza teve mais, muito mais.

Costumo pagar certo pau pro J. Michael Straczynski, que co-escreveu a história, mas gosto de pensar nessas analogias mítico-religiosas como um código Morse transgressor que Branagh enviou subliminarmente aos seus admiradores bem debaixo dos narizes dos censores da Disney-Marvel (eu copiei, Branagh, eu copiei, câmbio!). Porque não devia ser do interesse do estúdio bancar um longa com qualquer outra objetivo que não o de acessório promocional para o blockbuster que foi Os Vingadores. E de todos os filmes dessa primeira safra, Thor foi o que mais teve cara de brinde.

Isso a despeito dos valores de produção, explodindo na telona com a força de mil megatons nos segmentos passados em Asgard (uma magnífica renderização tridimensional da arte de Walter Simonson - a versão 3D do filme, no entanto, foi uma belíssima porcaria). Nem em meus sonhos marvetes mais psicodélicos pude vislumbrar um reino tão grandioso e deslumbrante, ainda que Bifröst pareça dar direto no Studio 54 em plena efervescência disco. Poderia até ter saído diferente, mas dificilmente melhorado - é uma ponte de arco-íris, queria o quê?

O mesmo alto padrão criativo se repete no CGI em torno dos Nove Mundos de Yggdrasil, onde o espaço mais parece um óleo sobre tela vivo retratando os efeitos especiais do filme Contato. A tela verde ainda não é amigável à presença dos atores, mas o espetáculo visual é inegável. Meus olhos saíram de barriga cheia.


Chris Hemsworth provavelmente é o melhor Thor Odinson que o cinema atual poderia vender. Não é como se ele fosse protagonizar a cinebiografia do Laurence Olivier. O filho de Odin é meio como se fosse o Conan ou o Tarzan. Aqui conta mais a postura, o sangue nos óio e o físico do jagunço. Fora que o rapaz nem é ruim, ainda mais beneficiado pelo fato de que a canastrice do Thor dos quadrinhos responde por boa parte do seu charme. E só não blasfemo que Anthony Hopkins nasceu para interpretar Odin porque esse posto já pertence a um certo psiquiatra glutão. Na época do casting, eu torcia por Stellan Skarsgård, por motivos óbvios, mas hoje vejo o quão sábia foi a escolha. Rene Russo, tadinha e ainda linda, teve suas cenas jazendo no Hel da sala de edição. Entrou muda e saiu quase calada. Não muito diferente da Frigga nos quadrinhos, por sinal. Já Colm Feore (esse cara me assusta) também foi desperdiçado, ainda que em menor escala.

Ironicamente, o papel de Loki era o mais traiçoeiro de compor. Facilmente poderia resvalar no histriônico, unidimensional e clichê. Uma verdadeira armadilha de urso que Tom Hiddleston soube evitar com notável destreza (lembra dessa expressão, fiel seguidor? 'Nuff said!). Seu Loki é conflituoso por natureza e tem seu caráter questionável, mas também consegue demonstrar dor e amargura diante de sua trágica situação (um imbróglio familiar interplanetário bem à Novos Deuses). No clímax do filme, Hiddleston manda um olhar de "você morreu pra mim" que é de cortar o coração e pendurá-lo em praça pública.

Os Três Guerreiros renderam a melhor piada do filme e, mesmo sendo esquisito ver um ex-Frank Castle pilotando a barriga do Volstagg, estavam muito bem caracterizados. Assim como - e comeria feliz - a mulher maravilha Jaimie Alexander recheando de curvas a armadura de Lady Sif e segurando o fator tomboy bem firme na coleira, afinal ela pode virar o interesse romântico do herói a qualquer momento, ou filme. Idris Elba, ameaçador. Até hoje não sei porquê o auê em torno da cor da pele do homem. A cota foi descarada, sim, mas ele consegue ser sensacional mesmo naquele modelito de rei da bateria. Ah, contextualmente... o Heimdall do filme não era germânico, nem caucasiano. Nem humano era. Reparou na altura dele em relação aos outros? Isso posto...

Do núcleo "turma de Asgard", senti falta do Balder. Talvez no próximo. Ou melhor, no próximo depois do próximo.


Skarsgård fez um melhor negócio ficando na pele do dr. Selvig mesmo. Além de coadjuvar neste filme, também foi um quase-MacGuffin em Os Vingadores e ainda pegou a continuação de Thor. Confesso que é um pouco estranho vê-lo tanto em filmes-pipoca, mas não tanto quanto ver a Kat Dennings como coadjuvante cômica meio sem ter nada pra fazer ali. Natalie Portman, que provavelmente ainda será adorável quando tiver uns 105 anos, encabeça o trio improvável com uma Jane Foster que não é enfermeira, mas uma astrofísica. Papel que ela interpreta com os pés nas costas e fazendo malabarismo com duas tochas, três gatinhos e quatro facas ginsu. Natalie é a Hit Girl da minha geração. E vem matando dragões há muitas eras antes de levar um Oscar pra casa. Foi bom vê-la ganhando uns milhões de doletas só pra se divertir, trocar umas ideias com o Branagh (a razão dela assinar o contrato) e dar uns amassos no galã musculoso. Ela merece.

O que faz Thor tão coxo quanto o dr. Donald Blake é sua falta de ambição. A cinematografia não chega a ser do tipo TV-movie, como os longas do Quarteto Fantástico, mas também não é muito mais além. A maior parte da verba destinada aos efeitos deve ter ficado nas contas de Asgard, porque na Terra o esquema é muito mais modesto. Toda a destruição do Destruidor (pleonasmo?) beira o inócuo, principalmente durante as investidas dos Três Guerreiros-mais-a-donzela, quando são simplesmente expelidos de um lado pro outros pelos raios do monstro. Thor conjurando o tornado mais fake do cinema e sua luta virtualmente inexistente com o Destruidor foi a cereja. Ou a framboesa. Nos quadrinhos, odes eram escritas em torno desse confronto titânico, que durava páginas a fio e, não raro, terminava mal pro loirão. Anticlímax é isso aí.

Sendo um pouco mais chato, o roteiro também não fez muita questão de esconder seus buracos. No ato final, os Três Guerreiros-mais-a-donzela desaparecem sem grandes explicações. Do mesmo jeito, Heimdall, que seria o cara que resolveria a parada ali pro lado dos mocinhos, evapora. E Odin não precisaria fazer absolutamente nenhuma escolha naquele momento, já recuperado do Sono e com seus superpoderes de deus bombando em suas sagradas veias. A impressão é que eles tinham uma agenda nas mãos, uma deadline no pescoço e nenhuma ideia brilhante naquele momento.

Por tudo o que já foi cometido em nome do personagem, Thor se sobressai com facilidade. Podia ter sido bem melhor? Vastamente. E tinha todas as condições pra isso. Essa permanece sendo minha maior frustração com o filme e que não influi no que ele realmente representa: uma super-produção no mínimo digna daquele Thor das HQs, que mesmo eu, com onze anos de idade, jamais acreditei que um dia sairia daquelas páginas para outro lugar que não fosse a minha imaginação fértil.

Sentimentos fortes no cinema aquele dia. Por um filme que se contentou em ser um mero passatempo.

Thor (EUA, 2011), 115 min.
Direção: Kenneth Branagh
Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Tom Hiddleston, Anthony Hopkins, Stellan Skarsgård, Kat Dennings, Idris Elba, Jaimie Alexander, Ray Stevenson, Clark Gregg, Colm Feore

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

New World Zombie


Guerra Mundial Z (World War Z, 2013) é, de certa maneira, um tipo de marco. Zumbis sendo populares o bastante para estrelarem um blockbuster com Brad Pitt era algo impensável até pouco tempo. Foi uma autêntica escalada social. Nem George A. Romero, Lucio Fulci ou o feiticeiro bokor mais chumbado de peiote de todo o Haiti jamais sonharam que suas crias chegariam a tanto. Difícil precisar exatamente porque o grande público se afeiçoou tanto aos zumbis a ponto de um estúdio largar 190 milhões de obamas em suas mãos putrefactas. Talvez seja uma forma de encarar melhor a ideia da morte, dando-lhe um rosto para confrontar. Ou talvez algum desejo reprimido por colapso social. É algo a se pensar, claro, com o devido acompanhamento. O fato é que o filme, adaptado do notório livro de Max Brooks, tem sua ambiciosa missão estampada no título: registrar o apocalipse zumbi se desdobrando em escala global ao invés de focar um único microcosmo.

Na verdade, essa era a bola que ninguém queria cortar. Vimos relances disso no final do infame Zombi 2, do Fulci, e na abertura da refilmagem Madrugada dos Mortos, de Zack Snyder. E também em perspectivas regionais como visto em The Dead, dos irmãos Ford, Canibais, dos irmãos Spierig, e até em Mangue Negro, de Rodrigo Aragão, passado em terras capixabas (se derrubar é pênalti!). Fora isso, apenas o velho esquema das transmissões de rádio e TV reportando o caos mundo afora - um recurso já bastante utilizado desde o icônico A Noite dos Mortos-Vivos, de Romero. Uma guerra mundial dos zumbis, per se, é a 1ª vez. E o filme entrega. Pelo menos 1/4 da quantidade esperada. E com o produto não lá muito íntegro. Mas entrega.

A trama segue os passos de Gerry Lane (Pitt), um ex-empregado da ONU especialista em zonas de conflito e que agora curte uma idílica vidinha civil. Num dia qualquer, parado no tráfego com sua família, ele é pego no olho do furacão morto-vivo. Zumbis velocistas fazem um mega-arrastão pelas ruas, cravando os dentes em tudo o que se move e mal dando tempo para os motoristas em fuga exercitarem suas barbeiragens. Por pouco, Gerry escapa ileso com sua família. Após passar um sufoco para sobreviver, eles são resgatados e Gerry é "convidado" a conduzir a investigação que irá determinar as origens da praga e, quem sabe, a sua cura.

A partir daí, o filme emenda num vertiginoso tour zumbístico com escalas na Coréia do Sul, Israel e País de Gales.


Com várias opções interessantes na manga, o diretor Marc Forster privilegiou a energia cinética acima da atmosfera. Especialmente no segmento israelense, onde os zumbis literalmente caem do céu e tem uma cinematografia parecida com a de inúmeros thrillers de ação/guerra situadas naquela região (como O Reino, por exemplo). Isso faz com que os zumbis assumam um papel quase figurativo, podendo ser qualquer ameaça insurgente daquelas bandas. É um terreno bastante conhecido pelo cineasta de Redenção e O Caçador de Pipas. Essa contextualização geopolítica em detrimento do horror inerente às criaturas é incomum, mas não é algo necessariamente negativo.

Quando envereda pelo suspense, contudo, Forster monta sequências eficientes, como a fuga de Gerry e sua família pelos corredores de um prédio às escuras. O clima é de survival horror game e até os infames e gratuitos jump scares foram bem colocados. Outro grande momento de tensão é o ataque de zumbis dentro de um avião em pleno voo. Mesmo numa situação beirando o insustentável, os protagonistas e os demais passageiros mantêm o sangue frio e cooperam em silêncio para conter a horda desmorta.

Já em algumas cenas, Forster se embriaga na fonte de Spielberg. A inspiração é nítida quando Gerry e sua família vão até uma farmácia que está sendo saqueada. Lá eles testemunham a civilização despencar bem diante de seus olhos - tudo muito semelhante a um trecho de Guerra dos Mundos, incluindo desesperadas trocas de tiros. Outro momento tipicamente spieberguiano é quando Gerry & cia. invadem um centro de laboratórios tomado por zumbis. Furtivamente, eles se esgueiram pelos corredores, cruzam divisórias engatinhando e usam o silêncio (e o barulho) ao seu favor, num nervoso jogo de gato e rato. Tal qual os guris de Jurassic Park tentando se safar numa cozinha sitiada por dois velociraptors.

Por sinal, os zumbis do filme - ou "zekes" - não fazem feio perto dos dinos. Ou de um crocodilo, de um tubarão...



Há pouco o que se inovar no perfil dos zumbis, mas Guerra Mundial Z marca seus pontos. A zumbificação se dá em tempo recorde: de 10 a 12 segundos a partir da mordida temos um morto-vivo prontinho pra ação. E são muito rápidos, mesmo descontando as turbinadas digitais - ainda pouco convincentes, diga-se, mas melhores que os ridículos bonecos de Eu Sou a Lenda. O ataque é minimalista ao extremo, basicamente mandibular. Zumbis se atiram pra cima das vítimas e travam seus maxilares nelas como se fossem pitbulls, o que é, ao mesmo tempo, engraçado e assustador. Engraçado porque lembra Pac-Man. E assustador porque mostra que os monstrengos não estão pra brincadeira e vão direto ao que interessa.

O grande diferencial é que dessa vez não há uma fome louca por carne, massa cinzenta, vísceras ou fluídos: o objetivo é simplesmente espalhar a infecção a qualquer custo, para o máximo de pessoas possível. Isso, mais o fato de serem os zumbis que menos ligam para a própria integridade física da história, rende imagens pra lá de impactantes, como as cenas de um tsunami zumbi invadindo as ruas e escadarias de Israel como se fosse uma pororoca pútrida com dentes. Fora que dá a incômoda sensação de que eles são apenas ferramentas descartáveis para um propósito obscuro e ainda mais ameaçador.

Aliás, por "zumbis não ligando para a própria integridade física", favor descontar o pleonasmo, visto que só com essa descomunal desencanação e sacrifício pelo coletivo seria possível para as criaturas formarem pontes de formiga...




...sem dúvida, o carro-chefe do filme e uma das ideias/cenas mais perturbadoras que já vi no cinema.

É a versão pesadelo de um outro pesadelo.


Cultura pop, você é aterradora.

Uma das incógnitas do filme era a presença de Brad Pitt. Era uma dúvida que me incomodava já no teaser. Seria o marido da Angelina Jolie capaz de se desvencilhar da aura de galã/capitão do time e conseguir vender desespero, impotência e medo com credibilidade? Seria capaz de vingar como um simples mortal em uma situação extraordinária? Convencer que existe sangue quente sendo bombeado naquelas veias? Se não dá pra exigir muito, ao menos vemos um esforço honesto nesse sentido.

Seu melhor momento é quando Gerry foge com sua família para o terraço de um prédio. Realmente dramático. Durante o resto do filme, há alguns lampejos desse sentimento, mas nada que se compare. Botei na conta da frieza e experiência de campo que o personagem acumulou em seus tempos de ONU.

Com relação ao restante do elenco, há pouco o que comentar já que é composto de uma maioria de personagens efêmeros - muito embora a soldado israelense Segen, interpretada pela atriz Daniella Kertesz, seja algo promissora. Também foi ótima a participação de David Morse como um ex-agente da CIA. Meio esperto, meio insano e totalmente encarcerado. Curioso como todo bom ator se aventura pelo menos uma vez em personagens desse tipo. Que o diga Elias Koteas em Possuídos e o Ed Harris assustador de Justa Causa. Deve ser o efeito Lecter batendo.


A adaptação, desenvolvida a dez mãos, entre elas as de Damon Lindelof e J. Michael Straczynski, até consegue uma transposição satisfatória para o formato. Obviamente, a maior parte do material foi editado, o que não evitou algumas das falhas cometidas pelas maioria das adaptações que o cinema faz de livros, sendo a passagem do tempo a mais evidente. As escalas do voos internacionais de Gerry são tão imediatas que na conexão Israel-País de Gales a impressão é que ele nem havia chegado à metade do caminho. O problema aí é bem pontual.

Há um grande imediatismo assolando as produções de Hollywood. Desconfio que é para agradar os guris da geração Playstation, cujo déficit de atenção é cada dia mais agudo. Tudo tem que ser rápido, pra ontem, no corte de um videoclipe (que termo mais démodé). Isso implode qualquer construção dramática e não é compatível com um storytelling decente. Quanto mais um escrito a partir de uma narrativa literária.

Mas o que mais surpreende, porém, é a quantidade irrisória de sangue e entranhas dilaceradas para um filme de zumbis. Mesmo partindo da premissa de que não são criaturas comegente e que se contentam em morder pessoas para perpetuar a espécie, ficou faltando algo ali - ou sobrando...

O uso frequente de camera shake só reforça essa impressão de pouco grafismo. Em compensação, foi muito bem-sacado na sequência do ataque no início do filme, quando vultos zumbificados se misturam à multidão em pânico, quase indistinguíveis, criando um efeito de confusão e perplexidade muito bacana.

A duração do longa conspirou contra, mesmo na versão uncut. Muito curtinho, quando o ideal deveria ser pelo menos umas duas horas e meia. A conclusão escancarada precedida pela inevitável narração em off com resuminho da ópera foram sintomáticos. Preferia esse troquinho convertido em mais história e mais mordidas. Embora Guerra Mundial Z fique devendo na ousadia e no sentido literal do título que ostenta, não dá pra negar que é divertido e vale eventuais reprises com muita pipoca.

...pelo menos até que Danny Boyle e Alex Garland mexam seus traseiros brancos e finalmente tirem Extermínio 3 do papel.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

RECLAMÃO SUPREMO


É, parei de reclamar da DC. J. Michael Straczynski é a prova viva de que a Marvel pode ser tão nonsense e cruel em suas decisões editoriais quanto a subsidiária da Warner Bros. O pobre Stracza tem sido o alvo preferencial daqueles mini-tiranos (será que aquele arquiinimigo dos Micronautas descolou um emprego da hora na Casa das Idéias?). Estreando com toda a pompa de "ex-escritor de Babylon 5" - bom programa, por sinal -, logo caiu nas graças dos exigentes fãs do Aranha, onde escreveu muito tempo e culminou lá em fases ruins (nas quais até o defendo... isso nada mais é que barrigada, falta de renovação, inépcia, negligência administrativa). Paralelamente, ele reafirmou seu talento na memorável fase inicial de Poder Supremo. Releitura instigante, realista e gráfica da Liga da Justiça, a série ganhou spin-offs menores e, já fora da linha MAX, emendou numa competente seqüência PG-13.

Stracza rendeu grana e elogios ao clube. Mesmo assim, foi o bode expiatório num lance polêmico (pra dizer o mínimo) que desembocou em sua contratação pelo time adversário. Um final melancólico, nada surpreendente e que, a julgar pelo que se viu em Confronto Supremo e nesta estréia de Squadron Supreme 2, ainda não terminou.

Primeiro, algumas considerações com spoilers sobre Confronto Supremo, que atualmente está sendo publicada aqui em Marvel Millennium: Homem-Aranha --

A minissérie é dividida em nove partes, sendo as 3 primeiras de Brian Michael Bendis, as 3 seguintes de Straczynski e concluindo com 3 do Jeph Loeb. Começou até bem(dis) na trinca inicial, antecipando o que seria o embate Vingadores x Superamigos definitivo, e melhorou absurdamente com um texto inspirado e impagável do Stracza. Mas, numa queda dramática de qualidade e bom-senso (parece até perseguição, mas juro que não é), virou o samba do alemão doido pelas mãos do Loeb.

Evidente que os créditos negativos não são exclusivos do J.Lo, mas ele ficou com a missão ingrata de roteirizar o destino ridículo de alguns personagens. Resumindo bastante: a serial-maravilha Zarda migrou pro Ultiverso e Nick Fury L. Jackson, milagrosamente com dois braços, foi rebaixado a vilão e despachado pro universo do Esquadrão Supremo (Terra-31916).

Afe.


Squadron Supreme 2 começa com um gap de cinco anos após Confronto Supremo. Nesse meio-tempo, o Esquadrão se dissolveu, sendo que Hipérion e Dr. Espectro desapareceram sem deixar vestígios. Com dor-de-cotovelo, a mídia passou a exaltar entusiasticamente os feitos de pessoas comuns, sem super-poderes. Mesmo uma expedição lunar ganha destaque estratosférico (ops), especialmente depois que a tripulação retorna na surdina, sem dar declarações à imprensa. A gostosinha Arcanna Jones agora presta serviços quânticos para líderes religiosos, enquanto Nick Fury e Emil Burbank (que estavam em cana) aparentemente deram a volta por cima e viraram oficiais da inteligência norte-americana. Nas ruas, eventos estranhos indicam que uma nova onda meta-humana está se formando no horizonte.

Ao mesmo tempo em que os astronautas se revelam uma nooooova versão do Quarteto Fantástico, os outros personagens estreantes também não fogem à regra. Nesta primeira edição, temos um Capitão América munido com um rifle, capacete da Primeira Guerra e literalmente enrolado na bandeira americana. E temos também a tal Arachnophilia, que deve ser a bilionésima variação feminina do Spidey. E assim o Universo Supremo vai abandonando seus dias de subversão do Universo DC para se tornar uma versão alternativa da própria Marvel. Como se fosse uma última pá de cal em cima da passagem de Straczynski pela casa.

Sem grandes destaques para a arte irregular do italiano Marco Turini. Desleixada para os padrões do circuitão, ainda está bastante atrelada às suas incursões na porno-erótica (parecia que a qualquer momento ia rolar uma mega-suruba na história). Imagina o Carlos Zéfiro na Marvel desenhando super-herói... é mais ou menos por aí.

Por fim, um alento: quem assina o roteiro é o sumido Howard Chaykin (lembra de American Flagg!?), um sujeito normalmente competente, criativo, com timing afiado e especialista em coordenar cenários de caos sócio-político, o que é bem o caso aqui. Contudo, encarar esta edição é como mergulhar de cabeça no olho de um furacão. Com vários elementos novos ainda inexplicados, informações fragmentadas e um completo reboot daquele mundo que nós conhecíamos e amávamos (a Zarda principalmente...), o resultado não poderia ser outro senão ter que aguardar pacientemente no escuro até o próximo capítulo.

Pelo menos não é o Loeb aqui. Afinal, ele ainda está nos Ultimates.

Ah é, ele está nos Ultimates! Ah nããoooo...

domingo, 6 de janeiro de 2008

ONE MORE HATE


"O Homem-Aranha é da Marvel, não meu, e no fim do dia, por mais que eu não concorde com certas coisas, e por mais que eu tenha deixado bastante claro para todas as partes que eu não concordo, tenho de honrar suas decisões". Nos últimos meses, o roteirista J. Michael Straczynski tem passado por um inferno editorial que bem poderia ser obra de Mefisto, o belzebu 616, não fosse perpetrado por uma criatura ainda mais diabólica: Joe Quesada, editor-in-chief da Marvel Comics. O que vem acontecendo com esses dois à frente da cronologia do Homem-Aranha de muitas formas pode ser comparado a um clube de futebol. Tem o esquema de jogo, as escalações, o craque instável, o dirigente ganancioso. E tem o 'pequeno' elemento que os dois mundos esquecem, com freqüência: a torcida. O público.

Por "público" entenda-se não só os leitores assíduos, cinéfilos e os saudosistas, mas também os que têm voz na grande mídia. Para a unanimidade que é este personagem - o mais perfeito resultado dos conceitos criados por Stan Lee - isto proporciona um daqueles casos raros em que centenas de milhares podem gritar em uma só voz.

Na história recente do personagem, não faltaram motivos para que reações negativas tomassem corpo e revelassem uma desconsideração total pelos "fiéis seguidores". Na maioria das vezes, infelizmente, derivada de questões mercadológicas. A Marvel é uma major, antes de qualquer outra coisa. Todos entendem isto, ou deveriam. Incontáveis leões vivem naquela selva de pedra. Decisões difíceis têm de ser tomadas a toda hora, mas as que ficam na história são as erradas. Aquelas que, indubitavelmente, são escolhidas para ocultar a falta da principal matéria-prima daquele ramo: a criatividade.

Neste ponto, One More Day conseguiu seu lugar de honra.


Amazing Spider-Man #545, edição que conclui o arco em 4 partes, já é, com certeza, a mais controversa do personagem em anos. Bate de longe a saga do clone, o spider-totem, certas ressurreições, a identidade revelada e os filhos de Gwen Stacy. Na verdade, desde a morte de Gwen não havia tanta polêmica - com a diferença que, esta sim, foi uma jogada brilhante que marcou para sempre a vida do personagem. Mas Joe Quesada simplesmente ignorou qualquer precedente artístico. Há tempos ele bradava aos quatro ventos que considerava o casamento de Peter e MJ um erro editorial e que um dia iria consertar isso. Só esqueceu de avisar que ia "consertar" com outro erro, numa decisão unilateral visando apenas os balancetes do fim do mês. Prevendo o desastre, Straczinsky até tentou (sem sucesso) dar linha dos créditos e acabou fazendo um longo desabafo no Newsarama. Coitado.

Provavelmente por desencargo de consciência, ele foi poupado de maiores chamuscadas e ganhou até uma página de agradecimentos de notáveis como Bendis, Romita Jr., Mark Millar, o presidente da Marvel Studios Kevin Feige e, pasme, Stan Lee.

As reações críticas ao arco não poderiam ter sido mais funestas. "A pior revista da Marvel publicada em 2007", "o melhor exemplo de que a influência editorial pode ser horrivelmente errada", "egoísta e infantil", "um tapa na cara dos fãs" ou apenas "totalmente ridícula", foram algumas das impressões. Lucas Seigel, do IGN, lembra que Joe Quesada mantém uma política anti-tabagista nos heróis Marvel, para não incentivar crianças ao fumo, mas que ele não tem problemas com Peter fazendo um pacto com o demônio.

Segundo o rotundo editor, com One More Day, tudo na vida de Peter volta ao standard do início dos anos 70 (uau, é assim que se livra de um problema!), com o desenvolvimento natural daquele mesmo cenário sem qualquer grande mudança contextual. Tia May está viva, os lançadores de teia estão de volta, a identidade secreta está preservada e até Harry Osbourne retorna dos mortos. Como declarou o staff da Marvel, "isto é mágica, não temos de explicar".

A sensação de perda aumenta quando se vê a qualidade narrativa da edição. Muito bem escrita, com uma dinâmica espetacular entre os protagonistas e com os melhores desenhos já feitos por Quesada, Amazing Spider-Man #545 emociona. Talvez por mostrar, com incrível sensibilidade, tudo o que está sendo sacrificado naquele momento. É uma história de angústia, amor, culpa e arrependimento. Poucas vezes a arte seqüencial foi tão bem caracterizada quanto nos trechos das páginas 10 a 13. Qualquer um que ao menos já gostou de alguém na vida irá se identificar. Acredite, Peter e MJ jamais estiveram tão próximos quanto no fim.

Seria uma das grandes histórias da vida do Aranha, não fosse para selar a pior das idéias.

quarta-feira, 26 de abril de 2006

VIVE LA REVOLUCIÓN!


Quando pensamos em elementos cuja simples existência nos dá a percepção do sentimento de relação próxima e direta, composições clássicas de modelos que funcionam – mesmo que minimamente próximo ao que se espera - sempre tendem as opiniões para o continuísmo. A mudança brusca sempre é temerária. É o medo do desconhecido, de como aquilo pode funcionar. No serviço público, por exemplo, por pior que seja o setor em que trabalhe, quando o cargo majoritário é alternado pelo voto, sempre (raras exceções que confirmam a regra) surge aquela dúvida:"Oh... e agora? O que será de nós?" (pelo menos para quem trabalha e gosta de trabalhar). A troca de colégio na infância trazia o mesmo sentimento, bem como a expectativa de terminar um namoro que não dá certo simplesmente porque se acostumou à presença da pessoa. Não sei se é porque costumo ser do contra, mas a mudança de ambientes sempre me agradou, por maior apreensão que o desconhecido cause. Mudanças arejam idéias, trazem revisões de conceitos, remodelam formas que há muito precisam ser remodeladas e atualizam o ambiente.

A relação que tenho com os quadrinhos - e, creio, não deve ser diferente da maioria das pessoas que se permitiram apaixonar por este veículo (o que traz à baila também a discussão do preconceito pelas HQ's, coisa para um post separado ou para a Área Azul) – é muito pessoal. A espera pelo lançamento de determinado título, as flutuações de humores com o que fazem com determinado personagem, as indignações que emergem de "injustiças" e reações afins dão um sentimento de intimidade ímpar. É natural, portanto, que mudanças em personagens sejam chocantes, mesmo que mantenham sua essência. Tenho lido por aí muitas opiniões desancando o novo visual do Homem-Aranha, colocando como se fosse uma atrocidade inafiançável. Sinceramente? Eu gostei! Sei que é temporária (quem sabe me engano) e serve apenas a: 1 – criar um hype interessante às vendas, e; 2 – criar elemento adicional para a "saga do ano", Civil War. Claro, Millar nos roteiros, com o sucesso estrondoso e incontestável de Ultimates ainda ecoando alto no córtex e um racha no casal 20 dos casais 20 das superequipes (Homem de Ferro e Capitão América) já seriam mais do que atrativos para tornar a saga indispensável sob o ponto de vista de expectativa, mas, se dá para salgar um pouco a sopa numa polêmica com o personagem mais popular da casa, tanto melhor!

O engraçado é que estou vendo uma reação muito parecida com a que percebi lá pelos anos 80, quando o herói azul e vermelho ficou preto. Não havia internet, claro, mas era leitor assíduo da seção de cartas e, logo após as Guerras Secretas (acho que por volta da edição 70 da editora Abril), a ojeriza apresentada pelos leitores àquela novidade era pungente. Eu até estranhei no começo, mais pelo costume com o antigo do que propriamente por achar ruim, mas lembro claramente que gostei. E muito! Claro, com a tecnologia de publicação da época, um uniforme eminentemente negro perdia um pouco de qualidade gráfica – tons de cores, por exemplo – mas o resultado geral, principalmente as alterações naturais no comportamento do personagem, foram, por falta de palavra melhor, do caralho! A fase estendeu-se até a edição "105, quando Peter o abandonou oficialmente, mas não definitivamente. Acontece então a reação contrária: seções de cartas agora imploram para que ele não aposente a aranha branca. Que, ao menos, o alterne com o clássico. E de vez em quando ainda o vemos com um dos visuais mais bacanas já criado para um herói.

O fato é que, com um personagem criado na década de 60, com tantos outros criados com características semelhantes, na mesma época e compartilhando cenários e contextos praticamente idênticos, inovação com os mesmos ingredientes com mais de 4 décadas de fermentação passa a ser trabalho possível apenas com pacto demoníaco, no mínimo. Mesmo com as atualizações conjunturais e de contexto – globalização, política regional e/ou geral, amadurecimento de argumentos e roteiros para um público que também amadureceu, artifícios gráficos mais realistas, liberdades de expressão etc – é impossível não fazer o personagem incorrer em revisões do mesmo tema sem alterá-lo. O uniforme negro foi uma tentativa. Personagem ficava mais dark, facilidades com a "roupa viva" criavam situações inovadoras e ainda deram um vilão carismático, mas desperdiçado com o tempo. Particularmente, já há alguns anos venho pensando que os heróis, por mais identificados que sejam com o público, têm que morrer (e permanecerem mortos). Só assim o conceito que ele carrega pode ser reeditado em novo alter ego, mas com alterações que não fazem os fãs reclamarem, já que é, em tese, outro personagem. Vejam, por exemplo, Batman Beyond, Ultimates e Supreme Power.


Só que matar um personagem é muito complicado. A opinião pública ruge e sua volta urge (eca!). Então só uma mente muito criativa para tentar reavivá-lo. E voltamos então para o contexto do novo uniforme do Aranha. Na verdade, a tentativa de revitalização do personagem vem bem antes do novo uniforme. Começa uns 2 ou 3 anos atrás quando Straczynski assumiu o título. Entre altos e baixos, acho que ele acertou muito mais do que errou – e certamente ousou muito mais do que seus antecessores mais recentes. Re-contextualizou sua condição aracnídea que, mesmo com os já citados altos e baixos, apresentou produtos muito bons. Morlun, por exemplo, é um dos personagens mais interessantes já criados como antagonista. Assim foi Ezekiel. O problema destes dois personagens é que eles são perecíveis, ou seja, são interessantes, suportam e dão sustância ao cenário em que está imerso o personagem, mas suas motivações de existência rapidamente se extinguem. E Straczynski os mata. Morlun, diga-se de passagem, é fisiológico, básico, elementar. Seu propósito é raso, mas justamente por isto sua aparição nos dá as porradarias mais honestas que Peter poderia participar. O pau come solto, sem freios, sem consciência, sem preocupações a não ser a própria sobrevivência - o resultado é impressionante (claro, contribuem bastante John Romita Jr, na primeira ocasião, com sua arte de dinamismo raro e Mike Deodato, na segunda ocasião, em sua fase realista). A revitalização contou também com o reforço do lado pessoal do personagem, ao colocá-lo como professor em um colégio. Sacada de mestre, mesmo que tenha sido desperdiçada com o tempo.

Difícil ver Peter se soltando deste jeito. Clique sobre a imagem
para ver maior. A conclusão da luta está aqui

Mesmo assim, com 2 ou 3 anos no cargo e obrigações impostas ao personagem por títulos paralelos e fora de seu domínio (Avengers Disassembled, New Avengers), o próprio Straczinsky deve ter percebido que as linhas estavam convergindo demais e logo cairia no lugar comum. Surge então a saga The Other. Foi coisa grande. Apesar de cumprir um período comum para arcos de heróis, 4 meses, tomou conta de 3 publicações distintas (Amazing, Friendly Neighborhood e Marvel Knights) deste período. A coisa toda oscilou entre o muito bom e o muito ruim. As linhas gerais, parece, foram definidas por ele, bem como o roteiro/argumentos da Amazing, mas esta função foi delegada a terceiros nas outras publicações, o que explica a oscilação de qualidade. Viagens no tempo, Wakanda e Tia May/Mary Jane com armaduras do Homem de Ferro foram de doer, mas se esquecermos estas partes, o todo fica legal. Ele tentou ali remodelar o personagem com um renascimento. Novos poderes, destruição de passado que não fosse importante etc. A relação dele com as capacidades de uma aranha foi fantástica – o ferrão, a visão no escuro, o sensor de vibrações em sua teia – é realmente o alcance total do que o conceito original previa. A forma como ele foi conhecendo suas novas características trouxe consigo nostalgia poderosa, fazendo quem lê rememorar como ele descobriu os poderes originais lá nos idos de Stan Lee. Entretanto, tão logo acabou The Other (diga-se de passagem, a melhor luta que já vi nos últimos tempos do Homem-Aranha está aqui), estas novas características não foram novamente abordadas, assim como a vida de professor quase não é vista mais. Creio que seja pela prioridade dada a Civil War, mas espero ver como isto desenvolver-se-á após a saga.

O último artifício da recriação do herói foi o novo uniforme. Seu "funcionamento" é forçado demais, mas suas possibilidades são inúmeras, criando novamente um lastro de combinações de roteiro até que nova revolução se faça necessária. Claro, na minha opinião as outras "pernas" da aranha são toscas, mas os outros elementos "funcionam" bem. Até ressuscita características clássicas e abandonadas como as teias embaixo das axilas que permitem planar e o simbionte que poderia simular qualquer vestimenta – inclusive o uniforme convencional.

O importante nisto tudo é que a revolução dos elementos do conceito existe. Mas a essência do personagem permanece.

Que as mudanças sejam bem-vindas!


Artigos Anteriores Relacionados:
Artigo 1 - Ultimates Cartoon - 02/03/2006
Artigo 2 - Ultimates v2, parte 2 - 16/01/2006
Artigo 3 - New Avengers - 15/01/2006
Artigo 4 - Ultimates v2, parte 1 - 14/04/2005
Artigo 5 - Avengers Disassembled - 28/01/2005
Artigo 6 - Homem-Aranha - Jean DeWolf - 15/06/2005
Artigo 7 - Ultimates v1 - 07/06/2004

segunda-feira, 17 de maio de 2004

WHAT IS THE MATRIX?


Não concordo com a imagem acima. Até mesmo como homenagem às vítimas do 11/9 não ficou legal. Bom mesmo ficaria se escrevessem uma história-parábola sobre o ocorrido. Algo situado no próprio universo de fantasia da graphic novel, sem qualquer contato com a nossa realidade cinzenta. Da forma como foi colocado, sugere-se que haveria uma chance de esperança, mesmo que mínima. Ou seja, uma tremenda forçação de barra, totalmente desnecessária (e até desrrespeitosa pra falar a verdade).

Usei o Aranha em frente aos escombros do WTC (Amazing Spider-Man #36, do Straczynski e John Romita Jr.), mais como uma analogia ao escopo "realidade x ficção". Um ótimo exemplo é o Grant Morrison. Ele é o cara que mais divulga a aproximação da ficção dos super-heróis com os acontecimentos do mundo real, o que eu não concordo. Não existe e nem existirá no mundo real o Superman de Paz na Terra. Nem o Capitão Marvel de O Poder da Esperança. Nenhum superser iria parar aqueles aviões antes que explodissem nas torres, prender todos os traficantes de todas as favelas, parar a tortura de prisioneiros no Iraque ou evitar que um homem-bomba cumprisse seu objetivo. Por outro lado, tudo que o Morrison fez, com destaque para os X-Men, foi muito acima da média. Ele soube muito bem transpor situações reais para a ficção. Mais ou menos, como se fosse uma atualização do que Stan Lee fez com o próprio Aranha, em sua época (e fecha-se o círculo).

Acaba sendo ótimo constatar que as idéias de Morrison partem de um princípio errado, mas que o resultado acaba sendo fantástico (sem trocadilhos). Creio que o próprio Straczynski teria feito diferente, se não fosse a pressão editorial que certamente aconteceu na ocasião.

Sobre a parte da "falsa esperança", acho que A Pro já diz tudo o que há pra ser dito. Escrita pelo maluco beleza Garth Ennis e desenhada primorosamente por Amanda Conner, essa HQ já é bem famosa, apesar de cult. Em todo caso, trata-se de uma analogia ao universo dos heróis, em particular da Liga da Justiça, o grupo mais emblemático das HQs.

A protagonista é "gente como a gente" (descontando o fato dela ser uma prostituta, hehe). Ela adquire super poderes e é recrutada para entrar na "Liga". Como se fosse a nossa representante no mundo das HQs, ela bate de frente à toda hora com os clichês da fantasia, sempre de uma forma bem debochada e incrédula. Em um certo momento, ela questiona a completa falta de nexo da existência de super-heróis no "mundo real". Um excelente texto travestido de diversão pueril. Clique na imagem aê.

Filme-lição de casa: O Último Grande Herói, duramente criticado e um fracasso de bilheteria. Sacaneia legal Hollywood e a cultura pop em geral. Um puta filme.




CADÊ O MASSACRE QUE ESTAVA AQUI?


O que aconteceu com a nova versão do clássico O Massacre da Serra Elétrica? Eu tô seco pra assistir esse filme! Ele conseguiu excelentes críticas e uma ótima bilheteria, além de ter um dos trailers mais assustadores dos últimos tempos. É estranho que ninguém esteja reclamando disso... Lembro que no Kill Bill as pessoas quase foram às ruas com a cara-pintada pra exigir a sua estréia. Então, das duas, uma: ou o filme já estreou e eu não fiquei sabendo, ou eu sou a única alma brasileira que espera ansiosamente por ele. :(

Massacre estreou nos EUA em 17 de Outubro de 2003 e ficou pra passar aqui no 1º trimestre de 2004, e até agora nada. O quê diabos está acontecendo? É culpa de quem? Da distribuidora, dos Ribeiro, do sindicato dos pipoqueiros...? Quem eu preciso torturar numa cela americana em Abu Ghraib pra que esse filme chegue ao Brasil?

Pior é ler uma crítica como essa aqui, pra depois ficar babando. Ou ir no Boca do Inferno (parece o irmão perdido do BZ) e ficar na espera. Acho que vou providenciar um massacre da serra elétrica eu mesmo...


Site oficial do filme (pra quê, afinal...)


Obs.: Nem vou falar de um certo sujeito de camisa preta com estampa de caveira (e que não é fã dos Misfits).


Relatório parcial da investigação: (uns 40 minutos mais tarde)
O remake de Massacre foi mulher de vida fácil na mão de várias distribuidoras, mas parece que já encontrou o amor de sua vida. A Europa Filmes pegou a criança pra criar. Dando uma fuçada no site, encontrei o filme pegando poeira na seção "o que vem por aí". Libera logo isso aê!!