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sexta-feira, 10 de maio de 2024

Godzilla Plus One (Million)


Godzilla Minus One talvez seja o maior retorno às raízes de Godzilla desde, bem, Godzilla, de 1954. Inicialmente criado como uma metáfora às bombas nucleares – lembrando que o Japão levou duas delas apenas 9 anos antes – e à perseverança humana sob os cenários mais adversos, a franquia do Rei dos Monstros revela muito sobre aquele povo e seu ethos. Quiçá, sobre o resto do mundo.

Se pegar King Kong, de 1933, como contraparte, vira tese. Diante da sua criação, os cowboys do velho oeste se portavam como... cowboys do velho oeste. Vieram, viram, venceram e não se fala mais nisso. Vinte anos depois, o país do sol nascente não só adotava o subgênero, como o reinventava, expandia e colocava seus titãs para fazer de Tóquio um octógono.

Era patente a diferença nas abordagens: Hollywood abatia a tiros os monstros que ousavam atentar contra o american way, varrendo pra baixo do tapete toda a sua verdade inconveniente; o Japão os reverenciava como uma força da natureza, imparáveis, onde as únicas opções eram correr ou ser pisoteado. Era um fantasma que não dava para exorcizar – no máximo, dava para se adaptar a ele.

Isolados os devidos traumas do pós-Guerra, seria a cura pela destruição-reconstrução-repetição? Só o Dr. Gori explica.

O filme passa longe de toda a filosofia de boteco e trata suas reflexões com peso, dramaticidade e, diria até, bastante ousadia em se tratando da honorável Toho Studios. Méritos de Takashi Yamazaki, diretor, roteirista, supervisor de efeitos especiais, contrarregra, ascensorista, zelador, cozinheiro, encanador e flanelinha do filme. Embora não seja das tarefas mais fáceis, o cineasta não hesita em ir fundo nas antigas feridas.


Ryunosuke Kamiki interpreta um protagonista pra lá de improvável, o ex-piloto kamikaze Shikishima. Vagando por um país moralmente derrotado e estruturalmente arrasado, aos poucos ele vai reconstruindo a vida ao lado da jovem Noriko e da bebê Akiko, duas sobreviventes igualmente sozinhas em meio ao caos. Ironicamente, Shikishima passa a ganhar a vida num serviço mortal: recolher e/ou detonar as milhares de minas americanas que agora flutuam pelos mares japoneses. Não demora até eles toparem com algo muito pior vindo das profundezas do oceano.

A trama básica coexiste com o subtexto denunciando os efeitos catastróficos das ações do homem na natureza, um tópico obrigatório na série e desgraçadamente atual. Mas um aspecto que salta da tela logo no primeiro terço do filme é o forte tom de autocrítica política. Coisa rara, ao menos dessa forma tão direta e num Godzilla-movie. Sem cerimônia, Yamazaki aponta o dedo (médio) para as fuças de Hirohito e seus militares pelas mazelas impostas ao povo na 2ª Guerra. Isso não em apenas um diálogo ou cena, mas no filme inteiro. Considerando sua natureza mainstream, diria que é até transgressor.

O roteiro aproveita essa passagem de boiada – alô, ex-ministrinho! – e faz questão de dar nome aos bois do cenário geopolítico da Guerra Fria, notadamente as duas superpotências, bastante ocupadas dividindo os espólios da guerra. O discurso é inesperado, sobretudo contundente: governos fazem a merda e deixam a batata quente para a população civil resolver. Um viés que remete a O Hospedeiro (The Host), espetacular kaiju sul-coreano de 2006.

Todo esse contexto é magistralmente integrado e desenvolvido com o elemento humano. O Shikishima de Kamiki é real, introspectivo, devastado pela síndrome do sobrevivente. E ainda assim, crível quando tenta retomar os trilhos de sua vida. Seu núcleo de colegas de trabalho é divertido e ligeiramente caricato, quase daquela forma que nos acostumamos a ver em filmes e séries orientais. Já a Noriko, da belezura Minami Hamabe (mega-estrela no Japão), é um farol de esperança para o quebrado Shikishima, além de protagonizar simultaneamente a melhor e a pior sacada do filme.

E o que Takashi Yamazaki consegue atingir com um orçamento de 10 milhões de doletas é de tirar o fôlego atômico do Godzilla


O CGI não é indefectível. Isso tanto pelo teto de gastos quanto por opção estilística. Por exemplo, Yamazaki não quis a renderização de músculos na criatura em homenagem aos heróis fantasiados dos primeiros filmes. Então dá para perceber a mecânica dos movimentos do bichão em algumas cenas. Felizmente, acaba conspirando a favor da estranheza geral, que é ver um monolito de milhares de toneladas com um coral do tamanho do Everest nas costas arremessando navios e destruindo edifícios por esporte.

As sequências de ataque do Godzilla são apoteóticas. A nova Baforada Atômica é simplesmente a melhor já feita até aqui.

Durante a ação, o caldeirão de influências pop fica bem evidente. Vai desde os filmes antigos e dos mais recentes da franquia (caso do excelente reboot Shin Godzilla, de 2016), a clássicos sci fi como A Guerra dos Mundos e muito Steven Spielberg – principalmente, Tubarão e Jurassic Park, utilizados com inteligência e diligência, não do modo preguiçoso e esquemático de Godzilla, a bagaça yankee dirigida por Roland Emmerich.

Godzilla Minus One é para ver, rever e guardar no coração. É, antes de tudo, uma experiência cinematográfica. Que, estupidamente, perdi. E tento reeditar caseiramente, da melhor maneira possível.

É... tenho que conviver com o fato de que vi o Godzilla '98 no cinema ao invés dessa maravilha. Trauma de guerra é fogo.

Ps: a versão Godzilla Minus One/Minus Color, em p&b (dã) e com uma pegada mais documentarista, também é imperdível.

quarta-feira, 31 de março de 2021

O Retorno dos Reis




Deve significar algo importante o crossover de dois ícones da cultura mundial se porrando com paixão e orçamento hollywoodiano. Isso sem contar a presença do digníssimo (spoiler aqui se não viu o último trailer) Mechagodzilla com os melhores pixels e texturas digitais que os dólares podem comprar. Depois formulo isso com uns gorós na cabeça.

O que sei agora é que acabei de me divertir demais. Se estivesse no cinema, ficaria para mais uma sessão. Como nos bons tempos.

Ps: e o filme não fez corpo mole: só um deles leva o cinturão pra casa. Oh yeah, baby...

domingo, 24 de janeiro de 2021

O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro

Me perdoe o (ar)roubo Glauberiano, mas é o que me parece o trailer de Godzilla vs. Kong (e agora sim o saudoso cineasta se revira). Contemplai!


Privilegiaram ou não o macacão da RKO? Além da pinta de herói puro de coração, no compilado só ele bate, pelamordoForeman. Até a icônica Baforada Atômica do lagartão parece inútil.

E minha suspensão de descrença já operava no talo pra administrar as dimensões envolvidas – tudo bem que Kong entrou em fase de crescimento desde 1933, mas é irônico pensar que, em suas gêneses, o máximo que o anti-herói da Toho precisava fazer pra resolver a parada era dar um passinho. E dar uma geral depois.

Estranhezas à parte, é, de longe, a maior produção da carreira do diretor Adam Wingard até agora. O garotão (38 anos) é remanescente de longas de terror – dos quais só assisti o bom You're Next, de 2011 – e seus maiores filmes foram Bruxa de Blair, sequência do found footage de 1999, e Death Note, adaptação do notório mangá de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata... residirá aí uma predileção à cultura pop nipônica que fará Gojira surpreender o símio yankee no world-wide-octógono?

Só Gyodai sabe.

Ps: ...macacos me mordam. Que reviravolta!

sábado, 17 de maio de 2014

Biotecnologia é o Godzilla

Não que seja tão mal. Como toda tecnologia, está nas mãos erradas.

(Atualizado!)



Rebaixado a bônus:



Sub-Bonus trackZilla: essa me ganhou pela edição impecável, melhor que a porcaria do filme inteiro.


Godzilla... Rrrrrauu!

quarta-feira, 30 de abril de 2014

UFZilla

A rigor, apenas o juiz mandando o "round 1, fight":


Isso vai ser grande...

sábado, 18 de maio de 2013

*.RIM!

Go ahead, del Toro, make my day!


Perto desse, o primeiro trailer parece uma fábula sobre lagartixas atiradas na descarga.

Enquanto isso, num oceano não muito longe dali...


...a Asylum segue refinando sua arte de paraguaizar blockbusters iminentes. Os caras estão ficando bons! Periga até o Graham Greene sair dessa sem grandes chamuscadas.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Mothra não mora mais aqui


Muito bem, saiu o primeiro trailer oficial de Pacific Rim, a nova brincadeira remunerada do grande Guillermo del Toro (agora me ocorreu que ele largou um filme com anões pra fazer um filme com gigantes). Estrondoso como esperado.


Vamos aos pré-julgamentos. Nota-se o cuidado em conferir uma sensação de peso/impacto/presença aos monstrões, que numa primeira impressão lembram o Kraken do remake de Fúria de Titãs - espero que não tão ineptos - e levam jeito que disparam rajadas atômicas até pelo nariz, na melhor tradição Gojírica (nada daquela asneira com carros explodindo no ar como fizeram no Godzilla americano). Os primos ocidentais do Gundam também parecem bacanas, com um esquema de pilotagem parecido com o do game Slave Zero.

Já os trechos de luta (vale-tudo com monstro gigante! Urruw!!) têm a dinâmica de um Gigantes de Aço made in Brobdingnag. O que é legal, mas bem limitante se ficar só nisso. Precisamos de mechas equipados com canhões de plasma, campos eletromagnéticos, retrofoguetes, supercombos, além de uns mini-nukes na faixa.

E falando em átomos, espero uma boa explicação para a preferência a robôs gigantes multizilionários à bem mais simples e efetiva opção nuclear. Posso pensar em uns dez motivos agora, no susto. Tomara que não me deixem no vácuo nessa.

No geral, o queixo não chegou a se deslocar, mas gostei bastante do que vi. E aproveitando o clima daikaijuesco, segue aí a versão ultraporrada do Helmet para o teminha do clássico Gigantor.


Ps: a Drew Barrymore é muito fofa.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O chão já está tremendo

Então, subitamente, Guillermo del Toro despeja as primeiras cenas de seu próximo filme, Pacific Rim.


Titânico. Será finalmente o kaiju movie ocidental supremo? Só saberemos a partir de julho do ano que vem, mas só por essa prévia já dá vontade de apelidar o diretor de Guillermo del Toho.

Dica do Sandrozilla.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Das profundezas com amor 2

Em 2006 a sensação sul-coreana The Host estremeceu os alicerces do circuito alternativo de horror/ação/sci-fi/etc. Virou um kaiju-cult. Em meio ao hype, a possibilidade de uma sequência foi cogitada, mas aparentemente seu desenvolvimento se deu no mesmo habitat subterrâneo da criatura anfíbia do filme. Do lado de cá do hemisfério, um silêncio sepulcral de seis anos deu a conta praticamente por encerrada.

Mas eis que subitamente os vizinhos de Kim Jong-un liberam um first-footage tão surreal e divertido quanto o do primeiro filme:


Continuam uns putinhos insanos, huh? E pela conclusão isso não deve acabar bem. Quem assistiu ao 1º filme sabe que os caras não fazem distinção de porra nenhuma.

Pouco se sabe sobre a continuação, apenas que não é o mesmo diretor do primeiro (o honorável Bong Joon-ho!) e que a criadora dos efeitos é a Macrograph, também responsável pelo novo do Stephen Chow, Journey to the West. O que pra bom entendedor, já é uma senhora garantia de qualidade.

Via Twitch.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Kaiju nórdico


Lembra de The Troll Hunter, agitado aqui há uns posts atrás? Após aquela ótima imagem promocional, a produção norueguesa agora liberou dois clips tão curtos quanto embasbacantes.

O primeiro é um rápido vislumbre em um troll. De três cabeças.




O segundo e mais impressionante, não é outra coisa senão a resposta escandinava a Cloverfield:




Épico. Queria um folclore adaptável desses pra mim.

Trolljegeren (vulgo The Troll Hunter) tem direção de André Øvredal e estreia em 29 de outubro em terras pagãs.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

The hills have trolls


Até ontem, o filme Trolljegeren (a.k.a. The Troll Hunter, Noruega, 2010) parecia só mais uma produção B a tascar um verniz de horror em alguma lenda celta. Mas nunca subestime a capacidade nórdica de chamar a atenção! Numa imagem promocional, os caras revelaram um troll tamanho G(odzilla) pra Beowulf nenhum botar defeito.

O filme é dirigido por André Øvredal e, apesar da foto divulgada, parece que vai esconder bem o jogo. Pelo trailer, tudo será no estilo de documentário falso (mockumentary), consagrado por A Bruxa de Blair.




Trolljegeren estreia em 29 de outubro. Não aqui, claro.

sábado, 15 de maio de 2010

Como construir um hype


Finalmente saiu o teaser trailer de Super 8, o misterioso projeto de J.J. Abrams em parceria com Steven Spielberg. Inicialmente, especulava-se que teria alguma conexão com Cloverfield - teoria já refutada por J.J. e aparentemente confirmada com o teaser.

Que é qualquer coisa de sensacional, diga-se.


Gostar ou não de J.J. pode até ser relativo (mesmo com os créditos que o cara tem na praça), mas é inegável que ele sabe criar um clima. E sabe manipular a imaginação alheia como poucos.

A margem de erro é bem pequena aqui. E se Spielberg estiver na mesma vibe de Contatos Imediatos e Taken...

sábado, 16 de fevereiro de 2008

YouMovie



Cloverfield - Monstro (Cloverfield, EUA, 2008) coleciona façanhas em seus 85 minutos de trincheira, sendo a principal, talvez, a humanização de um subgênero em agonia. Seja pelo eterno comércio informal da Toho/Daiei ou pelas tentativas obtusas de upgrade (Godzilla, 1998), o kaiju há tempos destrói prédios de papelão em cidades fantasmas, mesmo pertencendo a um nicho pop por excelência. Desde sempre, filme de monstro é filme-evento. É espetáculo quimicamente manipulado para as massas. Objetivo que Cloverfield agarra com som e fúria: o monstro aqui é incomensurável, indescritível, lovecraftiano, mal dá pra saber onde começa e onde termina. Uma força da natureza que mal conseguimos entrever antes de sermos tragados pelos efeitos devastadores da sua presença. Para tal, nada foi mais efetivo do que o formato adotado.

Em tempos de banda larga, iPhones, uploads e handycams, o filme não poderia soar mais familiar. Baseado numa suposta filmagem salva em cartão SD (o que não foi bem o caso), Cloverfield, se não reinventa, anaboliza o estilo mockumentary. Com notável habilidade, inverte pontos de vista, entrelaça cenas de puro baque físico com bucólicas imagens de um vídeo gravado por baixo e recicla as motivações que impulsionam sua filmagem contínua, mesmo em condições radicais de trabalho para o "camera man". Interação e entendimento invejáveis do diretor Matt Reeves com o roteiro de Drew Goddard, ambos graduados em séries de TV.

Entre outras coisas, Reeves foi co-criador e diretor de vários episódios de Felicity. Já Goddard roteirizou Buffy, Angel, Alias e Lost. Os dois são velhos colaboradores de J.J. Abrams (M:I 3), que produz e preenche cada frame com sua recém-aflorada personalidade cinemática. A influência de Lost é evidente, uma vez que Cloverfield reescreve os melhores elementos da série - e que, justiça seja feita, são narrativamente arrebatadores.


A primeira meia-hora do filme é projetada para instigar a identificação do espectador. Começa com momentos íntimos entre Rob Hawkins (Michael Stahl-David) e sua melhor amiga/quase namorada Beth (Odette Yustman), documentando o que seria o início de um relacionamento amoroso. Corta pra quase um mês depois. O irmão de Rob, Jason (Mike Vogel), e sua namorada Lily (Jessica Lucas) preparam uma festa de despedida pra ele, que assumirá um cargo de chefia no escritório de sua empresa, no Japão. A cena flui com grande articulação e mantém a afinidade com alguns subterfúgios, como os amigos deixando mensagens de boa viagem e uma trilha pop casual. É nesta seqüência que somos apresentados ao nosso avatar dentro do filme.

Hud (T.J. Miller) se torna o mapa, a bússola e a âncora do espectador, a partir do momento em que assume a câmera. Inicialmente à contra-gosto, ele acaba se revelando uma espécie de paparazzi video-maker. Sua absurda indiscrição nos permite saber o que aconteceu do romance inicial até o exílio voluntário de Rob. Suas incursões sempre inconvenientes revelam os traços mais peculiares de cada personagem, começando por ele mesmo e sua paixonite aguda pela reservada Marlena (Lizzy Caplan).

E mais importante, sua fragilidade diante do inesperado é o combustível do filme. A dinâmica e os impactos pontuais são equalizados conforme sua percepção dos acontecimentos - que é, invariavelmente, embasbacada.


Espertamente, o filme não entrega o jogo tão fácil. A seqüência do primeiro ataque prima pela incerteza. À primeira vista, o que parece o Godzilla fazendo um tour por Manhattan, também poderia ser uma nova investida da Al Qaeda. Viés atualíssimo, se estendendo pelos celulares e handheld cameras que filmam, em primeira mão, um "souvenir" atirado no meio da rua (com sorte, o vídeo amador poderia ir parar na CNN, quem sabe). E novamente citando o filme de Roland Emmerich, Cloverfield mastiga e cospe a cena correspondente daquela produção. É ridiculamente superior em composição, timing, tensão e até em escalas, mesmo custando muito menos. O curioso é que a fórmula é exatamente a inversa, num exercício nada sutil de sugestão. Quando os personagens se abrigam numa loja, algo dantesco acontece lá fora, mas a proporção se torna muito mais aterradora pela sua natureza desconhecida. Um velho recurso de suspense clássico, criado por Hitchcock e traduzido para o cinemão blockbuster por Spielberg (Encurralado, 1971), assumido aqui com um tesão pelo idiossincrático poucas vezes visto numa produção de ponta.

Não há "overdoses de monstro", mas doses esporádicas com tarja preta, intensas e traumáticas o suficiente pra manter a adrenalina sempre em ebulição e os olhos dilatados até o flerte definitivo, quase ao final. Fora que elimina qualquer possibilidade de assimilação (ou até simpatia) pela imagem da criatura, que do início ao fim se mostra como deveria: um nêmesis estrangeiro e obscuro, algo entre um pesadelo vivo e uma aberração inumana. O mesmo vale para seus acompanhantes, repugnantes pulgões-carrapatos-aracnídeos-face huggers, que protagonizam um trecho realmente incômodo num túnel de metrô. Ri de nervoso ali.

O crossover estilístico desenvolvido pelo filme resultou no longa-metragem mais pop e acessível já filmado em 1ª pessoa. Gênerozinho anti-comercial e ranhento, aqui anos-luz da cria mais notória e influente de Ruggero Deodato. Ao contrário do que os cartazes de aviso dos cinemas americanos indicavam, o sensório é (quase) preservado em momentos de enquadramento estável, nitidez, contraste e um conveniente foco automático - tecnologia, enfim. Faz uma diferença crucial na empreitada. E que empreitada.

O filme não mede esforços para colocar a vida dos personagens na ponta da faca. Nada é tão simples, seja atravessar uma rua, conversar com a mãe pelo celular, voltar para resgatar um amigo ou, o mais difícil, se conformar com uma situação insustentável e ainda saber o que fazer com aquele último e precioso instante - justo onde Cloverfield transcende categorizações e se revela maior do qualquer monstro.


SPOILERS ahead, punk.

Com uma massiva campanha marketeira viral, o filme cultivou dúvidas bem antes de seu lançamento lá fora, a começar pelo título. Durante a produção, o projeto foi rebatizado várias vezes, com nomes variando entre Slusho, Cheese (?!), Clover, Monstrous e até 1-18-08, que foi a data da estréia oficial. Acabou ganhando Cloverfield mesmo, nome de um boulevard próximo ao escritório de J.J. Abrams em Santa Monica, Califórnia.

O filme surgiu da idéia de um (produto-)monstro genuinamente americano, em contrapartida ao teor insano e destrutivo de Godzilla no Japão - não por acaso, o destino inicial do personagem Rob. Um dos pontos de partida ganhou uma referência no filme, quando Rob e Beth passam um dia num parque em Coney Island. É uma citação ao clássico do stop-motion The Beast From 20,000 Fathoms, de 1953, onde um monstrengo vira ao avesso o centro de New York e, posteriormente, Coney Island. Outra homenagem foi a cabeça da Dama da Liberdade estatelada na rua, reverenciando, obviamente, Fuga de Nova York.

O target mais freqüente dos virais foi o visual do monstro. Um sem-número de imagens, fan-arts em sua maioria, rodaram a internet ad nauseum. A mais divulgada foi uma espécie de baleia mutante, que, embora tenha errado no shape, foi uma das primeiras fontes a mencionar a existência dos parasitas super-desenvolvidos. Uma outra imagem bem conhecida chegou mais perto do aspecto real - que no fim das contas, foi o quê... uma cruza escrota entre Rancor e Gyodai? :-)

Conforme atestou o tenebroso sussuro pós-créditos, já sabemos que a criatura é ultra-resistente. Os demais pontos de discussão giram em torno de suas proporções, o que é, de onde vem, pra onde vai, qual seu papel no universo, etc.



Um dos misteriosos previews gerou várias especulações, sugerindo que o monstro tem uma predileção megalodôntica por baleias no breakfast. O que explicaria a foto ao lado, mostrando o mar vermelho de sangue. Ou será que não? Pouco tempo depois, foi liberada uma foto com visão noturna flagrando uma ofensiva marítima contra um alvo não-identificado. Alguma chance da criatura ter tombado no ataque?

O tempo e a ordem dos acontecimentos parece ser a chave para se entender melhor o universo expandido de Cloverfield. O site 1-18-08 traz algumas fotos de cenas constantes no filme e outras tantas inéditas, com hora e data aproximadas dos eventos (abaixe o volume pra não enfartar com o ruidoso "rooooaaaarr" que a página carrega). Uma das fotos traz a loira Jamie Lascano, que esteve na despedida de Rob e protagonizou uma série de vídeos caseiros. Todos compilados junto com reportagens (algumas de arrepiar) sobre um violento ataque na plataforma Chuai - estranhamente creditado ao grupo ecoterrorista T.I.D.O. - e vários comerciais de TV no canal do YouTube do Cloverfield Clues. Alguma dúvida sobre o termo "universo expandido"?

Agora, uma luz no fim do túnel e tomara que não seja um trem: a Chuai Station pertence à Tagruato Corporation, uma companhia de perfuração. Rob iria assumir a vice-presidência da Slusho! (por sinal, um dos títulos fake do filme), fabricante japonesa de soda e subsidiária da Tagruato. Agora a parte mais surreal. Visitando o site miguxíssimo da Slusho!, na seção flavors (sabores) há uma linha afirmando que todos os produtos têm como base um ingrediente extraído do fundo do mar. Daí pode-se especular muita coisa. E vai de encontro com a teoria mais comentada, a do OVNI caindo no oceano.

Isto acontece na última cena do filme, no canto direito, com Rob e Beth na roda gigante em Coney Island. Pode muito bem ser a arrebentação, pois basicamente só se vê espuma (infelizmente, os videocaps disponíveis no YouTube estão em qualidade sofrível). Muitos afirmam que o "OVNI" seria um satélite japonês e estaria ligado diretamente ao ragnarök perpretado pelo monstro. Na minha opinião, filmar acidentalmente algo tão insólito, com mesma câmera, cartão de memória e protagonistas, seria uma coincidência, digamos, monstruosa. Mas nunca se sabe.


O logo d'A Pérola, a estação 5 da Iniciativa Dharma, aparece logo no início. E teria Beth, sobrenome McIntyre, algum parentesco com Hugh McIntyre, Diretor de Comunicação da Hanso Foundation? Os tentáculos de Lost parecem se entrelaçar em Cloverfield. Talvez esses caras tenham acertado em algo, afinal.

Próximo item: alguém mais teve a impressão de que o monstro nunca se afastava? Que às vezes parecia se desdobrar em dois, ou três (invadindo o coração da Big Apple à mil por hora, mas voltando atrás logo em seguida, tipo "oh shit, esqueci de derrubar a ponte")? Ou que o monstro que vitimou Hud não parecia alto o suficiente para decapitar a Estátua da Liberdade e se apoiar em arranha-céus pra não cair? Que os militares não fazem referências quantitativas, mesmo pra designar a criatura no singular (e de bônus, um "a ilha está cercada" dúbio até não poder mais)? E porque considerar a Operação Martelo na ilha inteira? Foram duas explosões?

A pergunta que não quer calar: Cloverfield tinha mais de 1 monstro?

Marlena. Mordida por um dos parasitas, ela sofre uma hemorragia brutal. Alguém grita que ela está infectada e alguns soldados a isolam numa tenda. Segundos depois, ela incha e explode da cintura pra cima. Daí em diante, nada se sabe. Seriam embriões parasitas eclodindo, Alien's style, ou algum tipo de reação química venenosa? P.s.: coitadinha da Marlena.


A confirmar:

Todos morreram? Até ontem, eu tinha certeza que não, visto que o helicóptero que levou Lily saiu segundos antes do helicóptero de Hud, Rob & Beth. Mas várias fontes na web destacam a comunicação via rádio após a queda do 2º helicóptero: "All helicopters down. Target still active. Hammer down in 15 min. Sirens sound in 2 min. (...)"

Então, a seqüência já cogitada não deverá se basear nas experiências posteriores de algum sobrevivente. Se for o caso, bate com o que Matt Reeves andou entregando:

"Há um momento na Ponte do Brooklyn em que um cara filma algo ao lado da ponte e Hud o vê filmando, e depois o navio que está sendo virado e a Estátua da Liberdade sem a cabeça. Então ele olha de novo e vê esse cara o filmando. Na minha cabeça, foram dois filmes interagindo por um breve momento e pensei que seria interessante a idéia deste incidente ocorrendo com diferentes pontos de vista, e vários filmes onde poderíamos observar trechos uns dos outros."

À despeito da inspiração midiática nas mesmas circunstâncias que cercaram o 9/11, Reeves acabou criando um filão quase inesgotável. Além de renovar a mítica do evento principal e desenvolver sagas paralelas igualmente instigantes, tem a possibilidade de agregar novos dados ao contexto. E desta forma, talvez conferir uma outra dimensão às perguntas que contribuíram tanto para o charme deste primeiro filme - mas que se forem respondidas num futuro próximo também será de bom grado...

Créditos não-remunerados para os sobreviventes Fivo, Guimba e Sandro.

domingo, 18 de dezembro de 2005

GOD SAVE THE KING


De todas as formas de arte, o Cinema talvez seja a que captura o imaginário popular da maneira mais urgente e direta - mesmo que o objeto dessa imaginação preze pela mais absoluta bizarria. Sabe-se lá por quê diabos certas premissas, de tão insólitas, acabam alçando uma condição de quase-mito e criando verdadeiros ícones pop. Um gorila de dez metros arrebentando em Nova Iorque é uma delas. Talvez seja pela personificação do nobre selvagem, pela crítica subentendida à intervenção inconseqüente do homem na natureza ou pelo simples cagaço de imaginar um bicho desses solto por aí. Ao longo dos anos, a imagem do King Kong se tornou uma marca tão reconhecível quanto Mickey Mouse e Superman (só perde para o Papai Noel da Coca-Cola, aquele velho batuta). Até mais, eu diria, visto que, fora os remakes e o vale-tudo com o Godzilla, a referência primordial é unicamente o clássico de 1933, limitando-se aí ao merchandising e à uma gama de referências soltas ao personagem. Mesmo assim, Kong ainda é o King. Imagina se o mito tivesse sido bem administrado esses anos todos.

Outro ponto é o arco fechado que constitui o filme original. A saga tem início, meio e fim, o que (teoricamente) inviabilizaria qualquer pretensa continuação. É possível que se trate de uma obra atemporal, visto que provoca curiosidade até hoje. Então, fica difícil justificar a existência do King Kong de Peter Jackson a não ser pela sua divulgadíssima devoção ao filme. O mesmo se pôde dizer do ótimo Gus Van Sant e seu desnecessário Psicose, clonado frame a frame do clássico de Hitchcock - o que me leva a questionar a validade de refazer algo que já é perfeito em sua proposta. Contudo, desse mal Jackson não sofre. O que ocorre no novo King Kong é bem mais um upgrade do qualquer outra coisa. Ao contrário do remake de 1976 (bastante competente, diga-se de passagem, e aí vai o meu escalpo a preço de banana), o filme se atém às mesmas marcações situacionais do original, devidamente anabolizadas com vitamina CG e belas jogadas individuais do zagueiro Jackson. Até cenas cortadas na edição do original foram recriadas, sem qualquer prejú para a fluidez da história.

Fico imaginando que representar os personagens de King Kong seja mais ou menos como encarnar figuras como Hamlet, Lobo Mau ou Chapeuzinho Vermelho. Todos os trejeitos, inflexões e motivações estão lá, bem sedimentadas e se completando mutuamente. Tem o galã fake, o herói puro de coração, a mocinha em perigo, o louco obsessivo, e por aí vai. São a matéria-prima para os estereótipos que ajudaram a forjar a cara da cultura popular moderna. Todos se saem muito bem.

Maravilhosa de linda, Naomi Watts encarna à perfeição o papel de Ann Darrow, a Bela. É uma grande atriz e ocupa tranqüila a lacuna que Nicole Kidman vem deixando com seu progressivo distanciamento daquilo que realmente importa. A cena em que ela tenta ganhar a simpatia de Kong é bem espirituosa e, ao mesmo tempo, desconcertante. Já Adrien Brody tem um olhar tão piedoso que dá vontade de meter a mão no bolso e lhe entregar a carteira com o salário do mês. Usando isto ao seu favor ele eventualmente - e merecidamente - se dá muito bem (como em O Pianista), mas, às vezes, acaba resvalando numa irritante mistura de auto-comiseração com falta de atitude. Nada que chegue a atrapalhar, já que seu personagem, Jack Driscoll, é hesitante por natureza.

Quanto ao Jack Black, confesso que estava bem curioso e fiquei ainda mais após ver seus comentários hiper-exaltados no vídeo-blog da produção. JB é um Taz live-action. Como Peter Jackson iria domar a fera? Ajudou bastante o fato dele ter ficado com o papel do diretor-showman Carl Denham. Bem mais contido que de costume, mas mantendo o fôlego de sempre, ele consegue ser engraçado, malandro e (bastante) odioso, exibindo um timing invejável. Sempre tive um interesse especial por este tipo de personagem obsessivo e algo irracional. Cineastas que encaram a profissão quase como uma ciência (ou uma religião, ou um vício) já renderam performances memoráveis, como John Malkovich em A Sombra de um Vampiro, Johnny Depp em Ed Wood e até Burt Reynolds em Boogie Nights. Faltou isto aqui pro Jack Black chegar lá.

Pórem, o melhor ator em cena é mesmo o Kong, digitalizado a partir das macaquices de Andy Serkis, ex-Gollum. Kong faz caras e bocas, é divertido, orgulhoso, melancólico e assustador. O gestual, a anatomia e a física envolvida estão às raias da perfeição, à exceção de um ou outro relance mínimo. O resultado final é um passo à frente na área e isso está estampado em cada pêlo tremelicante do gorilão.

Serkis também comparece em carne e osso no filme, no papel do marujo Lumpy (o bigodudo de boina). Bom ator, hein.


Talvez o grande desafio de Jackson tenha sido rechear um argumento que, no original, durava pouco mais de uma hora e meia pra ser contado. Atualizando a narrativa pra lá de sintética do cinemão da época, estica-se aí para umas duas horas, já exibindo uma barrigada de sete meses no roteiro. Pois Jackson espichou a coisa pra pouco mais de três horas. Contudo, são três horinhas saradas, cheias da disposição, com alguns poucos pneuzinhos aqui e acolá. Tudo bem, King Kong é uma ode ao minimalismo (quer algo mais minimalista que um macaco gigante no topo de um arranha-céu tentando estapear uns biplanos?), o que não impede a viagem de ser divertida até o clímax-referência pop. Na verdade, é em seus dois terços iniciais que King Kong superfatura o preço do ingresso.

A New York fudida da Grande Depressão foi retratada primorosamente. O clima de desolação e pendura geral foi ilustrado de forma rápida e eficiente. Mas é na Ilha da Caveira que o mesmo doente que realizou Fome Animal dá as caras e a diversão alcança níveis quase diabólicos. O lugar faz a ilha de Jurassic Park parecer... um parque. É o inferno na terra. Nativos que parecem possuídos pelo espírito do Aiatolá Khomeini em dia de segunda-feira, insetos, ácaros e zicziras gigantes, dinossauros sempre em horário de almoço, fazem o King Kong parecer o Frei Damião, tamanha sua bondade em apenas atirar os humanos a esmo por aí. É uma festa no apê do capeta, cheia de greatest hits - a mais incômoda foi a parte em que nossos heróis tentam sobreviver em um ambiente que lembra uma fossa do tamanho do Maracanã e infestada de criaturinhas adoráveis querendo fazer uma boquinha (ou duas, três...). Essa cena, inclusive, foi uma das descartadas no filme original. O ponto alto, como sugerido dos previews, é o telecatch de Kong contra uma turba de T-Rexes insandecidos querendo comer a Naomi (realmente eles tinham uma boa motivação). Antológico. A seqüência nos cipós, com a variação dos pontos de ação, é Spielberg puro.

- E só pra registro: a seqüência em que Kong revira o tronco atravessado no abismo ficou muito mais tensa e arrepiante no remake de 1976 (sendo um dos melhores momentos daquele filme).

Como nem tudo é perfeito, o andamento dá uma brecada a caminho da reta final, no que poderíamos chamar de "parte sensível" do filme. O problema é que a química entre Naomi e Kong se desenvolve ao máximo bem antes da conclusão. Daí pra frente o bom trabalho deles fica seriamente comprometido pela esticada do roteiro. De qualquer forma, ainda rende uma cena realmente bela, quando os dois brincam na neve. Pode parecer piegas, e é mesmo, mas é bonito de se ver.

Sobre a readaptação do enredo, há pouco a se comentar. Muito daquela logística perneta do original foi mantida, afinal ela acabou atrelando um certo charme involuntário ao conceito. Use a imaginação. "Como eles conseguiram tirar o navio do meio das rochas?" - Maré. "Como eles transportaram o gorila até o continente?" - Pediram ajuda pelo rádio. "Onde foram parar os nativos?" - Se esconderam, pô. "Como Jack conseguiu encontrar Kong e Ann naquela ilha infernal e gigantesca?" - Não sei, só sei que foi assim. E por aí vai.

King Kong é o último blockbuster de 2005 e pra ser sincero eu nem lembro quais foram os outros. Mas uma coisa eu posso dizer: se restasse esse filme como referência do cinemão pipoca desse ano, eu diria que ele está muito bem representado.

Long live the King.

quinta-feira, 9 de junho de 2005

V - COMO ID4 DEVERIA SER



V – A Batalha Final (V – The Final Battle, 1984) foi uma série que a Globo passou por aqui em 1985 ou 1986 (caceta... eu tinha entre 8 e 10 anos... de onde eu tirei esta lembrança?) na esteira do sucesso de Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of Third Kind, 1977) e E.T – O Extraterrestre (E.T.- The Extra-Terrestrial, 1982), filmes blockbuster que consolidaram a imagem de Spielberg e provocaram a ressurreição do gênero "eles estão entre nós", cuja última chama de apelo ocorrera na geração anterior com os clássicos Guerra dos Mundos (The War of the Worlds, 1953) e O Dia que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, 1951).

Entretanto, ao invés da postura boazinha dos ETs Spielberguianos, os Visitantes de V tinham objetivos um pouco mais egoístas, querendo acabar com a espécie humana e dominar o mundo. Na verdade, a mini-série original que passou nos EUA chamava-se apenas V e foi produzida em 1983, sendo que no ano seguinte foi produzida a continuação que, por mostrar os esforços da resistência contra os lagartões invasores, recebeu o subtítulo "A Batalha Final". Aqui no Brasil as duas foram unidas e passaram de uma só vez na TV Globo, anos depois reprisados no SBT.

Esta produção serviu de debut para Robert Englund. Não que já não tivesse atuado em outros filmes, mas aqui ganhou destaque e no mesmo ano foi imortalizado na pele de Freddy Krueger, sendo o único ator do elenco a ganhar algum renome no futuro.



Se eu pudesse dar só uma dica sobre o futuro seria esta: usem o filtro solar!


V nos apresentava as primeiras imagens realmente convincentes de dominação, com efeitos especiais bem competentes para a época e uma nave-mãe de respeito, praticamente copiada em Independence Day. As metáforas ao Macartismo e fascismo por trás das atitudes alienígenas, assumo, passaram em branco por mim, que só fui tomar conhecimento anos depois lendo a respeito. Aliás, seria demais esperar que um moleque pré-púbere soubesse isto; nerdice além do aceitável. À época eu estava muito mais preocupado em assombrar-me com as peles saindo e revelando os lagartos comedores de ratinhos. Ainda hoje tenho a lembrança do sentimento de repulsa que tive ao ver a Diana comendo aquela ratazana gigante, só deixando o rabinho (heh... ela não come o rabinho... aham... hummm... voltando ao assunto:), apenas aplacado pela semelhança absurda que os módulos de transporte tinham com meu Playmobil Space.



Igualzinho ao Playmobil Space


Em 1995 ainda outra continuação em forma de mini-série foi feita, mas não passou no Brasil. Em 2004 e 2005 nova continuação tomou corpo com o elenco original (os que estão vivos, claro), mas sempre que pesquiso no IMDB, o negócio está em post production.



Diana não come o rabo dos ratinhos


O DVD das 3 séries oitentistas vendeu como água nos Esteites, pena que não lançam aqui. Cerca de um ano atrás consultei o Submarino acerca da possibilidade de importação, mas recebi a resposta de que não há sequer prazo.





HAVIA CÉREBRO ANTES DE JASPION



Certamente posso estar chovendo no molhado ao resolver falar sobre estes programas já tão abordados em sites do gênero, mas a percepção da não planejada datação de uma época através dos temas abordados pelos programas abordados a seguir merecem uma abordagem conjunta. Pirata do Espaço, Patrulha Estelar e Ultraseven foram três ícones do entretenimento infantil surgidos no final dos anos 70, com sucesso nos 80, que diferem muito de alguns contemporâneos e de todos os que o sucederam. Dois animes e um live action que foram originariamente voltados para o público infantil, mas os dramas vividos nas três produções encontraram eco no coração de muitos adultos e jovens da época, abordando assuntos de difícil digestão para o público original. Isto fez com que, à exceção de Pirata do Espaço (ignorado no Japão, mas com sucesso retumbante na Itália e considerável no Brasil), tenham sido encarados como obras cult e formaram uma legião de fãs na faixa da juventude.




As três séries compunham o primeiro movimento de retorno dos programas japoneses à TV desde National Kid. Pirata do Espaço (Groizer X) não primava pela qualidade técnica, mas era uma desgraça atrás da outra, fazendo com que os espectadores lidassem com aspectos de vida/morte diferentes da forma leve como outras produções infantis apresentavam. Claro que o visual do robozão, suas armas e a música-tema (botão direito e "salvar destino como") favoreceram muito a aceitação dentre o grande público brasileiro, mas os aspectos de roteiro é que constituíam a verdadeira novidade. Mais informações sobre Pirata do Espaço podem ser encontradas aqui.


A série não teve o sucesso esperado no país de origem, motivo pelo qual não foi muito longa, mas foi inspiração para o surgimento de diversas variações sobre o mesmo tema. Uma das mais famosas, a ponto de criar frisson nos EUA e iniciar a influência da cultura televisiva japonesa naquele país, foi Patrulha Estelar (Ushuu Senkan Yamato). Esse sim ganhou reconhecimento amplo, recebendo inclusive nomes ocidentais ao entrar na indústria americana.

Mais informações sobre Patrulha Estelar podem ser encontradas aqui.


Ultraseven foi o terceiro membro da família Ultra que passou por nossas terras. Sucesso estrondoso no Japão, passou aqui aproveitando a ótima repercussão que Ultraman e O Regresso de Ultraman (além do genérico Spectreman) tinham à época. Entretanto, enquanto seus primos protagonizavam aventuras lineares, mais do mesmo, Ultraseven e seu alter ego (que não era humano) Dan Moroboshi diferia dos outros por motivos e conflitos já identificados neste texto. Não sei dizer se é o único Ultra-membro que tinha esta abordagem, já que devia haver para mais de dez ultra-primos em exibição no Japão, mas certamente foi o personagem que mais se destacou, alcançando a maior longevidade com suas séries. Clicando aqui (botão direito e "salvar destino como"), você baixa a música da abertura.

Mais informações sobre toda a família Ultra podem ser encontradas aqui.



Clique na imagem para uma versão um pouco maior da família reunida


Aqui e aqui há dois artigos do Omelete que esgotam o tema "Ultraseven".


À exceção de Pirata, as outras séries foram transformadas em boxes de DVD lá fora. Surpreende-me que até hoje não tenha sido lançado no Brasil. É o tipo de coisa que vende fácil.