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sexta-feira, 8 de março de 2024
とりあえずさよなら鳥山 !!
Hoje, meio-mundo acordou tomando susto: se foi o Akira Toriyama. Novo ainda, só seis ponto oito. Ao que consta, o fato se deu no dia 1º e só agora a notícia foi divulgada pelo seu estúdio. Notável. Os japoneses sabem ser discretos.
Desnecessário, mas obrigatório comentar que Toriyama foi um gigante do entretenimento. Sozinho, era um dos maiores expoentes comerciais de mangás, animês e games do mundo. Aquele net worth de US$ 55 mi estimado pelo CBR? Balela. Que um raio me parta se a coisa não passa do 1 bi, fácil. Metade disso só de licenciamentos. Neste exato momento, a notícia varre o globo furando bolhas e nichos como pouquíssimos nomes ligados aos quadrinhos seriam capazes.
Meu contato com a obra do mangaká se resume ao genial Dr. Slump e à brilhante primeira fase de Dragon Ball. E quanto ao estouradaço e quilométrico animê, assisti e reassisti tudo até o GT – que não contou com a participação do homem. Pois é, fui mais um dos abnegados que aguardavam episódios e episódios a fio até Goku chegar de algum lugar distante para arrebentar a fuça do vilão e salvar a pátria.
Teve seus problemas? Teve. Mas Akira Toriyama foi grande.
Bom, talvez não tão grande, mas com certeza garantiu um capítulo só seu lá naquele livro...
quarta-feira, 13 de setembro de 2023
Nausicaääääääääää

1 ano. Esse foi o gap entre os dois primeiros volumes (de 7) de Nausicaä do Vale do Vento, pela JBC. O mercado editoral japonês é notoriamente minucioso, exigente e chato para um cacete com a republicação de suas propriedades. E a coisa piora muito quando se tem na conta um flop embaraçoso (alô, Conrad!). Especialmente daquele país lá, que não é sério.
Neste relançamento em particular, por si só miraculoso, a JBC vem ao menos tratando de colocar os pingos nos i's. Como se deve, aliás.
O probleminha – meu – é que há anos venho lutando contra aquele play maroto no longa animado de 1984, que nunca vi. Sempre prefiro conferir o material original antes da adaptação. Por isso não assisti The Boys até hoje. Só que, neste ritmo, a coisa deve encostar em Futurama.
Em contrapartida, o Nausicaä-filme também é uma obra do próprio mangaká. Então, o Honorável Sr. Hayao Miyazaki que me desculpe, mas estou pensando seriamente em trai-lo. Com ele mesmo.
Será que vou estragar/spoilerar muito a leitura?
Ps: só passando pra confirmar que esse é o típico post "só passando pra..."
domingo, 30 de julho de 2023
Jorgito e a espiral ascendente
Enquanto alguns alertam para a ocidentalização dos animes, esse sneak peek de Uzumaki parece extremamente japonês pra mim...
Nunca li o mangá. A obra de Junji Ito – Jorgito, para quem pega tudo o que a Pipoca & Nanquim lança dele a cada meia hora – já saiu duas vezes por aqui. A 1ª em uma mini em 3 partes pela Conrad e depois em edição única pela Devir. Nem sei se ainda está em catálogo.*
* Mas não se preocupe. Logo mais, a P&N deve re-re-relançar em capa dura, corte trilateral, hot stamp, fitilho e, lógico, bookplate assinado.
Para o horror dos otakus ortodoxos (= pleonasmo), a série animada em 4 episódios está por conta da Production IG USA em parceria com a Cartoon Network. Porém é dirigido pelo honorável Hiroshi Nagahama, com o sol nascente nas veias.
O mangá já foi adaptado para games e até um filme live-action lançado em 2000, mas, incrivelmente, esta nova versão está em fase de produção desde 2019. Deve ser seus motivos burocráticos com tantas companhias envolvidas, sem contar a pandemia lá pelo meio. Nem a data de lançamento foi divulgada ainda, mas Jason DeMarco, vice-presidente da divisão de animações da Warner/Cartoon, promete que sai ainda este ano.
De qualquer forma, a prévia é mesmerizante. E tecnicamente impecável, seguindo os rigores da boa e velha animação tradicional.
Não acho que ninguém ali sofreu qualquer efeito de uma pretensa americanização.
Bom, quase ninguém.
Nunca li o mangá. A obra de Junji Ito – Jorgito, para quem pega tudo o que a Pipoca & Nanquim lança dele a cada meia hora – já saiu duas vezes por aqui. A 1ª em uma mini em 3 partes pela Conrad e depois em edição única pela Devir. Nem sei se ainda está em catálogo.*
* Mas não se preocupe. Logo mais, a P&N deve re-re-relançar em capa dura, corte trilateral, hot stamp, fitilho e, lógico, bookplate assinado.
Para o horror dos otakus ortodoxos (= pleonasmo), a série animada em 4 episódios está por conta da Production IG USA em parceria com a Cartoon Network. Porém é dirigido pelo honorável Hiroshi Nagahama, com o sol nascente nas veias.
O mangá já foi adaptado para games e até um filme live-action lançado em 2000, mas, incrivelmente, esta nova versão está em fase de produção desde 2019. Deve ser seus motivos burocráticos com tantas companhias envolvidas, sem contar a pandemia lá pelo meio. Nem a data de lançamento foi divulgada ainda, mas Jason DeMarco, vice-presidente da divisão de animações da Warner/Cartoon, promete que sai ainda este ano.
De qualquer forma, a prévia é mesmerizante. E tecnicamente impecável, seguindo os rigores da boa e velha animação tradicional.
Não acho que ninguém ali sofreu qualquer efeito de uma pretensa americanização.
Bom, quase ninguém.
quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
Departamento de promoções
O saldo final da Black Friday foi aquele já conhecido "bom-mas-podia-ser-melhor". O assombro das primeiras vezes já passou, de lá pra cá a Amazon dominou e é o que tem pra hoje. Ainda assim, consegui aproveitar e dar baixa em várias coisas de várias listas. No setor dos quadrinhos, resolvi o que tinha pra resolver com a Salvat, botei em dia algum material da Mythos, ri das promoções nonsense da Eaglemoss e recebi há pouco o pacote da Panini - não só o último da leva, como meu último pacote de gibis do ano.
Assim espero.
Justiceiro: Valley Forge é o 4º Deluxe do Caveirão. Um calhamaço de mais de 500 páginas que finaliza o espetacular run de Garth Ennis no título (depois assumido por Gregg Hurwitz) e trazendo complementos generosos: os one-shots The Cell (2005), The Tyger (2006) e The End (2004), além da mini solo completa do inesquecível vilão Barracuda - quem acompanha o blog, sabe que eu sou fã do rapaz. Um dos quadrinhos mais extremos, densos e complexos já feitos. Obrigatório é pouco.
Tinha adorado a capa de Mulher-Gato #1, mas ainda estava na dúvida. Há tempos não leio nada realmente empolgante da gatinha - desde Um Crime Perfeito, pra ser exato. E não conheço nada do trabalho prévio da desenhista e roteirista Joëlle Jones, mas uma googlada de reconhecimento me deu um belo cartão de visitas - além do fato da moça contabilizar três indicações ao Eisner. Em que pese também a parceria com a experiente Laura Allred, resolvi conferir o que essa Selina tem.
Já estava acompanhando a nova fase do Lanterna Verde por Grant Morrison, atualmente na edição #12 lá fora. Suas ideias e conceitos são, como sempre, lisergia pura - mas dessa vez, dando um barato do bom, sem bad trips. Porém, o que me fez sair do DC (++) e colaborar com a DC (Comics) foi o traço lindamente escalafobético do brit Liam Sharp, um dos melhores parceiros que o escocês voador já teve na vida. O homem está desenhando uma barbaridade. Pra daqui a 15 anos erguer essas edições e mandar a plenos pulmões (provavelmente pro espelho): "eu comprei isso na época!"
One-Punch Man é uma das coisas mais divertidas que já li na vida, mas aí vai uma pequena mea culpa: estacionei lá pelo vol. 12 ou 13 já há um bom tempo. O roteiro miniminimalista de ONE e os traços vertiginosos de Yusuke Murata mantiveram o nível tão alto e ainda tão refrescante que cultivei uma retranquinha antes de alguma (inevitável) queda de qualidade. Mas segui pegando e vou me atualizar assim que abrir uma brecha. O que, no caso do Saitama, é trabalho pra 10-15 minutos, no máximo. One-Punch read.
Surreal receber em mãos uma nova edição da Biblioteca Don Rosa pela Panini, no mesmo formato dos volumes da Abril e do ponto onde a coleção parou. Ainda tenho lá, "O Solvente Universal" cancelado na lista de desejos da Amazon. Virou o meu "Wilson". E hoje nós dois vamos tomar todas pra comemorar. Louco é a mãe.
E seguem mais dois volumes de A Espada Selvagem de Conan - A Coleção, as aquisições que mais me dão alegria atualmente. Parece até vingança pelas ESC da Abril nunca adquiridas em tenra idade ou um acerto de contas após décadas de quadrinhos com storytelling de videoclipe e personagens sem culhões (excetuando, claro, os sacudos da Bonelli). E até é, mas também dá uma olhada nas contribuições constantes nas capas. É Roy Thomas, John Buscema, Alfredo Alcala, Dick Giordano, Tony DeZuñiga e toda a sorte de demônios picto-filipinos com o fogo do inferno ebulindo a tinta de seus nanquins. Até o Necronomicon morre de inveja dessa coleção. Puta que o pariu.
Por enquanto é só, pessoal. E antes que eu me esqueça...
Senhor, agradeço por esse material que irei devorar assim que tirar do plástico. Em nome do Stan, do Kirby, do Steve Ditko, amém.
Assim espero.
Justiceiro: Valley Forge é o 4º Deluxe do Caveirão. Um calhamaço de mais de 500 páginas que finaliza o espetacular run de Garth Ennis no título (depois assumido por Gregg Hurwitz) e trazendo complementos generosos: os one-shots The Cell (2005), The Tyger (2006) e The End (2004), além da mini solo completa do inesquecível vilão Barracuda - quem acompanha o blog, sabe que eu sou fã do rapaz. Um dos quadrinhos mais extremos, densos e complexos já feitos. Obrigatório é pouco.
Tinha adorado a capa de Mulher-Gato #1, mas ainda estava na dúvida. Há tempos não leio nada realmente empolgante da gatinha - desde Um Crime Perfeito, pra ser exato. E não conheço nada do trabalho prévio da desenhista e roteirista Joëlle Jones, mas uma googlada de reconhecimento me deu um belo cartão de visitas - além do fato da moça contabilizar três indicações ao Eisner. Em que pese também a parceria com a experiente Laura Allred, resolvi conferir o que essa Selina tem.
Já estava acompanhando a nova fase do Lanterna Verde por Grant Morrison, atualmente na edição #12 lá fora. Suas ideias e conceitos são, como sempre, lisergia pura - mas dessa vez, dando um barato do bom, sem bad trips. Porém, o que me fez sair do DC (++) e colaborar com a DC (Comics) foi o traço lindamente escalafobético do brit Liam Sharp, um dos melhores parceiros que o escocês voador já teve na vida. O homem está desenhando uma barbaridade. Pra daqui a 15 anos erguer essas edições e mandar a plenos pulmões (provavelmente pro espelho): "eu comprei isso na época!"
One-Punch Man é uma das coisas mais divertidas que já li na vida, mas aí vai uma pequena mea culpa: estacionei lá pelo vol. 12 ou 13 já há um bom tempo. O roteiro miniminimalista de ONE e os traços vertiginosos de Yusuke Murata mantiveram o nível tão alto e ainda tão refrescante que cultivei uma retranquinha antes de alguma (inevitável) queda de qualidade. Mas segui pegando e vou me atualizar assim que abrir uma brecha. O que, no caso do Saitama, é trabalho pra 10-15 minutos, no máximo. One-Punch read.
Surreal receber em mãos uma nova edição da Biblioteca Don Rosa pela Panini, no mesmo formato dos volumes da Abril e do ponto onde a coleção parou. Ainda tenho lá, "O Solvente Universal" cancelado na lista de desejos da Amazon. Virou o meu "Wilson". E hoje nós dois vamos tomar todas pra comemorar. Louco é a mãe.
E seguem mais dois volumes de A Espada Selvagem de Conan - A Coleção, as aquisições que mais me dão alegria atualmente. Parece até vingança pelas ESC da Abril nunca adquiridas em tenra idade ou um acerto de contas após décadas de quadrinhos com storytelling de videoclipe e personagens sem culhões (excetuando, claro, os sacudos da Bonelli). E até é, mas também dá uma olhada nas contribuições constantes nas capas. É Roy Thomas, John Buscema, Alfredo Alcala, Dick Giordano, Tony DeZuñiga e toda a sorte de demônios picto-filipinos com o fogo do inferno ebulindo a tinta de seus nanquins. Até o Necronomicon morre de inveja dessa coleção. Puta que o pariu.
Por enquanto é só, pessoal. E antes que eu me esqueça...
Senhor, agradeço por esse material que irei devorar assim que tirar do plástico. Em nome do Stan, do Kirby, do Steve Ditko, amém.
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terça-feira, 9 de maio de 2017
JotaBeCeeeeeeee!!
Bom dia.
A editora JBC (enfim) desembuchou tudo o que sabe sobre a aguardado lançamento de Akira. Mas ainda não tirei os olhos de uma coisa.
70 mangos o volume. E sem cafuné na pré-venda da Saraiva.
Só pra constar.
Ps: vai ser um bate-boca épico no departamento de fusões & aquisições.
A editora JBC (enfim) desembuchou tudo o que sabe sobre a aguardado lançamento de Akira. Mas ainda não tirei os olhos de uma coisa.
70 mangos o volume. E sem cafuné na pré-venda da Saraiva.
Só pra constar.
Ps: vai ser um bate-boca épico no departamento de fusões & aquisições.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
Trilhando o caminho
Até anteontem minha experiência com mangás se limitava à versão invertida e ocidentalizada de Akira. Hoje, além de ter a exata noção dessa blasfêmia, tenho me iniciado no mangaverso de maneira estranhamente ordenada. Isso graças à vasta gama de opções que pululam no mercado. Tenho bicado desde aventuras pop e cyberpunkadarias diversas até salseiros, digamos, mais clássicos. E encabeçando o gênero, a cultura, a raça e, pelas barbas de Toshiro Mifune, a maldita ilha inteira, Lobo Solitário, de Kazuo Koike e Goseki Kojima.
...que só conhecia pela fama monolítica, impacto cultural e homenagens solenes de gente como Frank Miller, Bill Sienkiewicz, Matt Wagner e Mike Ploog.
...que também capearam a revista quando foi lançada na 1ª vez nos EUA pela, duh, First Comics em 1987.
...que publicou menos de 1/3 da série antes de fechar as portas. Paraquedismo editorial desconhece fronteiras.
Lobo Solitário estreou em 1970. É alçado à l'état de l'art desde priscas eras, o que, em tese, já faria da atemporalidade uma marca registrada. Do alto de sua invejável autonomia, o que Lobo Solitário menos precisa é da condescendência de um velho gafanhoto como eu. Perfeita desculpa para ser simples, direto e pegar pesado onde e quando for possível. E eis que finalmente li os primeiros passos daquilo que Koike & Kojima aprontaram em seus estúdios há meio século...
Na trama, seguimos Itto Ogami e o simpático Daigoro, seu filhinho de três anos, numa jornada pelo interior do Japão. Apesar da aparência algo simplória e da atitude errática, Ogami é um guerreiro formidável e um estrategista brilhante. Não é muito afeito a discrições: no carrinho do bebê, leva um cartaz anunciando que aluga sua espada e seu filho - sem más intenções quanto ao segundo, que fique claro, a menos que seja para ludibriar algum infeliz até uma morte inevitável e hedionda.
Resumindo, é um assassino profissional capaz das mais ardilosas artimanhas para atingir seus objetivos. Além de conhecer os ditames SunTzuísticos de cabo a rabo e aplicá-los sem piedade ou moderação.
São histórias curtas. Em quase todas, ele está cumprindo ou vai cumprir uma missão... ou não... e é tudo o que se pode comentar sobre o 1º volume sem comprometer as surpresas que vão aparecendo. E o mais incrível: a essência dessas surpresas seguem intactas ainda hoje. Após décadas de pequenas e grandes reviravoltas em ficção e não-ficção em todos os gêneros e estilos, ainda há sacadas em Lobo Solitário que vão pegar no contrapé do marinheiro (ou o ronin, ha-ha) de 1ª viagem.
Nas primeiras folheadas, nota-se na narrativa a cadência inconfundível de um storytelling de western, o que automaticamente estreita relações com o "cinema samurai" de Kurosawa, Kobayashi e fraquinhos afins. Várias passagens lembram um grande plano cinematográfico - particularmente no clima de Harakiri (1962), um clássico do cinema com o qual Lobo Solitário divide vários elementos em comum - se não viu, largue tudo agora e veja... esse merece um lugarzão na lista dos filmes para assistir antes de morrer.
A dinâmica dos personagens, de todos eles, dos coadjuvantes até os maiores "vilões", é tão ou mais importante quanto a do próprio protagonista. É ela que nos ajuda a delinear o intrincado perfil de Itto Ogami - por fora, uma personificação do mito do cavaleiro solitário caladão e instintivo do faroeste clássico. E além: você se importa com esses personagens bem mais do que você achou que se importaria no início. Isto é o maior elogio que consigo imaginar para um contexto de ficção.
Lógico que as credenciais de Lobo Solitário impressionam e até intimidam o leitor novato. Primeiro, porque uma das famas que o precedem é a sua acuracidade histórica. Segundo, a relação da premissa com o complexo cenário sócio-político do Japão feudal. Especificamente o chamado Período Edo - do qual sei absolutamente bulhufas, embora uma breve consulta ao Wiki dê conta que foi o último período do sistema militar feudal japonês e uma época de grande turbulência interna. Um pano de fundo repleto de aspectos únicos a serem (bem) explorados numa ficção, mas com algumas arapucas malocadas pelo caminho.
Não dá pra ficar explicando um contexto extenso a todo momento sem soar professoral e atravancar a história. É algo a ser inserido cuidadosa e homogeneamente na trama, de modo que o leitor nem perceba. Com espantosa facilidade, Koike desfia toda aquela enorme carga política e social durante a narrativa, sendo inclusive essencial para o desenvolvimento e tridimensionalização dos personagens. Tal qual em Harakiri. E, ah, aquela técnica da "zona mortal"...
Há também uma inesperada dose de misticismo, muito sutil e harmoniosa com a pegada implícita do autor. Provavelmente não foi nada, mas um flerte com o obscuro sempre vai bem, obrigado.
A arte de Goseki Kojima é um papo de boteco à parte. Chega a ser visceral e, eu diria, até emocional algumas vezes. Especialmente nas sequências de luta. Bem gráficas e cruas, evitam todo e qualquer exploitation que caberia ali, mas com sangue e membros decepados à vontade. As perspectivas são um espetáculo, embora engrenagens de uma concepção muito variável - e até aí não sei se é uma característica de mangá enquanto gênero.
Certos trechos, como a apresentação de personagens-chave e vislumbres grandiosos são primorosamente trabalhados, com a arte-final saltando das páginas como o mais sedutor óleo sobre tela. E, revezando, uma maioria de traços que remetem ao minimalismo estético dos comics underground, mas sem relaxar no senso de composição. Isso cria uma, argh, conjuntura não-linear no aspecto gráfico da história, que, ao invés de soar irregular, me pareceu exatamente o contrário: enriqueceu ainda mais a experiência. Sem dúvida, algo bastante intuitivo de acompanhar.
Algumas lutas são ilustradas como slow-motion e poucas vezes vi algo tão orgânico numa HQ. Na época isso deve ter sido um assombro. Mulheres belíssimas, poético nas sombras e um filho da puta nos vultos. Esse cara-Kojima é um fodão mesmo.
E como avisei que não seria condescendente com a obra (ela não precisa disso²), em pouco tempo de leitura fica evidente a natureza invencível do Lobo Solitário. Itto Ogami palitaria os dentes com as garras do Wolverine e pegaria até o Batman com preparo despreparado. Sua franca superioridade técnica, física, estratégica e intelectual frente aos adversários tem, em parte, uma boa explicação lá pelos desdobramentos finais, o que ameniza bem. Só ali pelas páginas 194-195 é que a providência divina exagera na dose - embora a sequência tenha sido qualquer coisa de arregaçante.
O final do volume 1 é um expresso do inferno pelas veredas dramáticas. Não apenas tira o leitor da zona de conforto como incomoda bastante em determinado momento. É onde finalmente nos damos conta da aterradora extensão moral e ética do protagonista.
Não tem como não parabenizar a Panini por abraçar a empreitada que é relançar Lobo Solitário num formato mais bacana. Após esse arrebatador 1º volume, pretendo seguir a odisseia de Ogami e Daigoro. Já é fácil uma das melhores leituras do ano.
Em contrapartida, a Panini... ah, Panini...
Com o volume tsunâmico de mangás que publica atualmente - vários deles muito bons, inclusive - a nova edição de Lobo Solitário viria para coroar dignamente para essa boa fase do mercado. Mas justo aqui, houve um problema não muito digno: a cola (!) utilizada no acabamento interno da lombada. Não sei se devido à quantidade ou à qualidade da mesma, algumas páginas soltam com facilidade, especialmente as do início e as do fim. Fora que os pontos cegos do miolo ficaram bem ondulados, algo típico de encadernação ruim. Uma simples comparação com as edições de Vagabond ou One-Punch Man já são suficientes pra ver que algo saiu muito errado lá na gráfica.
Além disso, uma tendência bem chatinha que vem acompanhando a editora já há algum tempo também comparece aqui: a miguelagem de verniz na capa. O volume 1 de Lobo Solitário veio mais seco que um deserto. E nem precisava sair besuntando geral: só a reserva de verniz no letreiramento da capa e contracapa e/ou na arte original e na variante americana já bastavam para o toque de classe e altivez que um título desse porte merecia.
Miguelar verniz é o fim da civilização ocidental, Panini. Faça-nos o favor...
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Fofo e carniceiro
Lindo e spoilerento pôster de Battle Royale ilustrado por Bryan Lee O'Malley, criador da série Scott Pilgrim. E para uma justa causa: trata-se de um promo para uma exibição do filme organizada via Tugg - uma excelente ideia que bem que poderia pegar por aqui.
Uma maravilha. Só senti falta do sensei Kitano, o assustador personagem do honorável Takeshi Kitano.
Chupa, Jogos Vorazes.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Justiça Sangrenta
Behold, marvetes! A HQ mais vendida de 2011 não poderia ser outra, senão...
...Turma da Mônica Jovem #34.
A Distinta C. deveria checar melhor suas informações (ou contratar um revisor menos "épico"). Porque, sabe como é... o cara do Bleeding Cool não perdoa.
(Cheque o fórum de discussões também. Nunca vi tanto decenauta mordido pelas costas. É divertido.)
E Don Sousa, hein? Joguem limões nele que ele constrói uma multinacional de produtos cítricos. Mestre.
...Turma da Mônica Jovem #34.
A Distinta C. deveria checar melhor suas informações (ou contratar um revisor menos "épico"). Porque, sabe como é... o cara do Bleeding Cool não perdoa.
(Cheque o fórum de discussões também. Nunca vi tanto decenauta mordido pelas costas. É divertido.)
E Don Sousa, hein? Joguem limões nele que ele constrói uma multinacional de produtos cítricos. Mestre.
quinta-feira, 5 de maio de 2005
CARCAJU RELOADED, FESTA CYBERPUNK e APOCALYPSE 2, A MISSÃO
#26-#27

Holy moley! Agent Of S.H.I.E.L.D, o novo arco do Wolverine, é o cão chupando manga!! Nem era pra eu estar comentando isso agora, visto que o bicho vai pegar mesmo é na edição #28, mas não consegui ficar impassível... Em apenas duas edições o novo arco está conseguindo ser ainda mais emocionante do que o anterior, o já clássico Enemy Of The State! Tudo bem, não podia mesmo ser diferente com Mark Millar e John Romita Jr regendo essa verdadeira orquestra da destruição... mas quando achei que as situações anteriores estabeleceram um certo limite narrativo, fui atropelado por uma seqüência arrasadora de acontecimentos. Aí é parar por alguns minutos, dar uma respirada e, aos poucos, retomar a leitura.
No arco anterior, Logan sofreu uma lavagem cerebral hardcore. Cortesia de uma mega-operação conjunta da Hydra com o Tentáculo. Com muito custo, e após uma matança generalizada (incluindo aí o despacho de um herói mais ou menos conhecido), a S.H.I.E.L.D. finalmente consegue capturar o baixinho dos infernos. O problema é que a Hydra gostou da brincadeira e passou a coletar e condicionar vários heróis e supervilões do segundo escalão. Mas nem todos vieram do semi-anonimato... Elektra que o diga.
Aliás, quem conhece o background da ninja grega sabe qual é o modus operandi do Tentáculo. A maioria deve saber que ela foi ressuscitada em uma cerimônia promovida pela organização. O que Millar fez foi elevar a funcionalidade desse procedimento a uma escala real. Afinal, alguém que tenha esse poder certamente o usaria para fins mais abrangentes e ambiciosos do que o que foi executado até aqui. Já a presença da Hydra se justifica tanto pela eficiência logística e ultra-tecnologia envolvida, quanto pela elaboração prática dos planos - que envolvem o controle de um avançadíssimo terraformer criado em parceria por Reed Richards, Tony Stark e Henry Pym.
Sem contar que, ao longo do anos, a Hydra foi uma das únicas organizações a encarar de frente, de forma consecutiva e sem derrotas iminentes, pesos-pesados como os Vingadores e a... S.H.I.E.L.D.

Não é todo dia que se vê o famoso porta-aviões aéreo indo à lona. Só vi uma vez, numa história antiga da Mulher-Hulk. Certamente seria mais fácil abater o Air Force One. A mega-batalha que precede essa cena é de arrepiar, e detalhe: é só o começo. Lembra do Millar falando que Enemy Of The State era um filme de 300 milhões de doletas? Agent of S.H.I.E.L.D. duplica esse orçamento em apenas duas edições.
Algumas referências se fazem presentes no novo arco, principalmente em relação à Wolverine: Arma X. O processo de desprogramação de Logan é praticamente reeditado do clássico de Barry Windsor-Smith, inclusive com o mesmo jogo de ponto de vista que "engana" o leitor. Outra referência é à mitologia dos vampiros. O approach conferido às operações de condicionamento do Tentáculo se aproxima bastante do ciclo de procriação vampiresco. Isso ficou bem nítido na cena em que Elektra e alguns ninjas são flagrados assassinando um super-coadjuvante num beco escuro. Pra reforçar ainda mais essa impressão, o único método conhecido pela S.H.I.E.L.D. para evitar que as super-vítimas sejam ressuscitadas e dominadas é decapitando seus cadáveres. Millar é doente.
Coincidentemente, o início da edição #26 e o fim da #27 compartilham momentos singulares de preparação para a iminência de uma situação maior. No primeiro caso, logo nas primeiras páginas somos brindados com uma seqüência belíssima, cheia de poesia e lirismo, quase etérea e - constraste total - carregada de dinâmica física, agraciada por uma palheta de cores e uma fluência de elementos digna de um filme do Zhang Yimou. É linda mesmo. Mérito da arte irretocável de Romita Jr.
A dita seqüência você pode conferir na íntegra no Cag@mba e é protagonizada pelo sujeito aí embaixo.

Gorgon periga ser o vilão mais bacana da Marvel em muito, muito tempo (pra ser mais exato, desde os primeiros momentos do Rei do Crime após sua reinvenção por Frank Miller). Não consigo imaginar alguém ganhando desse cara no mano-a-mano. Sua técnica é inexpugnável (sempre quis escrever isso!). Não tem pra ninguém. Como se não bastasse, Gorgon é um mutante capaz de petrificar qualquer pessoa só com o olhar - um dom que ele dificilmente utiliza, para não desvirtuar sua honra e status de guerreiro nato. Millar também resolve dar uma colher de chá e faz um breve resumo de sua origem - que bem merecia ser contada mais detalhadamente em um daqueles belos encadernados especiais.
Ao final, vemos a reabilitação forçada de Wolverine e um fato em particular que o liberta de todas as amarras pra fazer o que sabe melhor - e sem qualquer senso de justiça ou de redenção por trás, e sim por pura, urgente e necessária vingança. Após uma rápida e aterradora "contabilidade" (numa ótima seqüência, óóóótimaaaa... típica de um filme imperdível), ele estipula a quantidade de cadáveres e sangue jorrando em bicas que irá fazer nas próximas duas, três, quatro edições. Ah, eu não falei... Agent Of S.H.I.E.L.D. é um arco em 6 capítulos.
A hora da retribuição chegou, e meu amigo... a Hydra que se cuide.
#1-#2

Um tecno-furacão cyberpunk, insano e mangazístico com clima de spinoff. Essa é Livewires, mini em 6 capítulos que está saindo pela linha Marvel Next. A revista conta com a fina-flor dos quadrinhos para o século 21: o desenhista Rick Mays (Kabuki), o arte-finalista Jason Martin (Battle Chasers) e o roteirista, "sketchista" e maluco de plantão Adam Warren (Gen¹³, Dirty Pair). Sou fã do Warren já há algum tempo. É um dos únicos quadrinhistas que só produziram coisa boa, e olha que eu nem sou tão fã de mangá. Assim que vi seu nome nos créditos dessa HQ já me interessei de imediato. Seu estilo está lá, intacto... ação vertiginosa, dinâmica à velocidade da luz, diálogos abarrotados de informação, situações beirando o nonsense e pinups esfuziantes.
Na edição de estréia, Livewires é toda velocista. Começa à mil por hora e termina à dez mil, sem pausa pra descanso. Explosões, invasões, monstros, superpoderes, tiros e quebra-quebra generalizado, com uma nesga de história sendo contada nas entrelinhas. É ótima. Livewires é o nome de um projeto secreto do governo norte-americano que visa retaliar as ações de grupos terroristas ultra-avançados da Marvel, sendo a I.M.A. (Idéias Mecânicas Avançadas) o seu alvo primário. Como integrantes, cinco robôs humanóides trabalhando à paisana. Como de praxe, os personagens e seus codinomes são bem... "diferentes":
Gothic Lolita, ou "Ninfeta Gótica"... a que eu mais gosto. Devido ao seu smartware chamado Hulksmashitude (algo mais ou menos como "AtitudeHulksmaga"... idéia maluca do Warren) ela é tão forte quanto a Mulher-Hulk. Em contrapartida, o seu grito de guerra é dizer "mal-me-quer-bem-me-quer" repetidamente enquanto destrói criaturas gigantescas na base da porrada (outra idéia maluca)... Bem sisuda, ela é o lado introspectivo e sarcástico do grupo.
Hollowpoint Ninja... O "Ninja Ponta-Oca" é o cara da artilharia pesada, das infiltrações soturnas e das "técnicas avançadas de persuasão". É conhecedor profundo de qualquer tipo de armamento e estratégia de combate. Além disso, é muito ágil, rápido e extremamente habilidoso em lutas corporais. Fala pouco e de forma objetiva. É um ninja oras.
Hah... essa é Social Butterfly, a "Borboleta Social". É a gracinha simpática do grupo, e carinhosa até quando está ardendo em chamas. Seu poder só podia ter vindo da mente esquizóide de Adam Warren. Ela é capaz de controlar a vontade das pessoas através de expressões faciais, linguagem corporal, voz com sinais infrasônicos, produção artificial de feromônios (putz), campo indutor de manipulação cerebral, e "zilhões de outras maneiras de bagunçar a mente humana". É "Social" para os íntimos.
Cornfed. "Cansei de Cereais"...? Não duvidaria. Cornfed é o arranjador e despachante da equipe. Resolve os problemas de logística e eventuais falhas operacionais nas missões. Tem uma visão bem singular e irônica do propósito do grupo e de sua própria existência robótica. É uma espécie de Silent Bob artificial. Cornfed é gente-boa.
Stem Cell ("Célula-Tronco", huahuaheheuh), representa os olhos e a percepção desnorteada do leitor durante a ação ininterrupta. Ela acaba de ser construída e teve a memória bloqueada devido à uma pane em seu filtro neural - pretexto esperto para não deixar o leitor sozinho em sua confusão. Ela é uma espécie de central-monstro de dados especializada em engenharia tecnológica. Seu smartware reconhece e duplica qualquer construto já concebido pelo homem. Pode inclusive redesenhar esses mecanismos em versões mais avançadas. A idéia estranha da vez é a sua capacidade de reproduzir alguns equipamentos no estômago - na verdade uma usina de substâncias químicas manipuladas por nano-robôs programados para esse objetivo. Daí a visão linda dela vomitando pequenas baterias atômicas, pentes de metralhadoras, válvulas e por aí vai. Pobre menina.E falando em nano-tecnologia, uma particularidade dos autômatos de Livewires é a sua conduta de reciclagem de equipamentos. A pele artificial, por exemplo, é feita com uma trama de exo-redes reaproveitáveis e rica em componentes nanotech codificados para qualquer smartware habilitado na equipe. Eles literalmente comem partes sintéticas dos robôs destruídos para conhecer todas as experiências e absorver as informações contidas neles. Em outras palavras, eles são adeptos da prática do canibalismo, e em um contexto igual ao da crença de certas tribos...

Adam Warren é doido. E Livewires é extremamente divertido.
Final

Sem muito hype, chega ao fim a extensão da extorsiva A Era do Apocalypse, mega-saga que obrigou os x-fãs a gastarem rios de dinheiro em meados dos anos 90. Três coisas: 1. extensão, porque essa mini-série em 6 partes não teve "cara" de continuação. Acho que o nome da saga original é imponente demais pra essa história que visou apenas aparar algumas pontas soltas e, claro, arrecadar um cashzinho de leve; 2. extorsiva, pois EdA se espalhou por todas as revistas mutunas da época. Quem queria entender alguma coisa tinha de comprar quase tudo; 3. A aliteração extensão/extorsiva foi sem querer.
O fato é que, se encarada sem muita expectativa, essa mini até que tem seus picos de qualidade e algumas boas sacadas. Principalmente na última edição. A história se passa 1 ano após a morte do vilânico Apocalypse, e o planeta está em franca reconstrução. Liderados por Magneto, os X-Men agora são a polícia do mundo contra os espólios terroristas remanescentes da antiga tirania. Essas poucas células inimigas são derrotadas até com uma certa facilidade pelos X-Men. E detalhe... agora eles raramente fazem prisioneiros. Uma nova ordem mundial se estabelece e Magneto aparece muito bem na foto. O crédito extra se deve todo à sua vitória pessoal sobre Apocalypse e ao fato de ter impedido o bombardeio nuclear em massa no fim da saga original. O problema - e que já foi detectado por aqueles que leram a saga - é que Magneto apenas matou Apocalypse. Quem salvou a Terra do ataque nuclear foi Jean Grey, não ele.
Esse segredinho obscuro elevou a moral de Magneto nos círculos políticos e na opinião pública, que passou a encará-lo como um líder da Humanidade. Além dele, o único que sabe disso é Nathaniel Essex, o tétrico Sr. Sinistro, até então dado como morto. Obviamente que a gente logo espera dele uma chantagem das boas. Mas o mistério só aumenta quando Sinistro reaparece para Magneto e simplesmente o obriga a esquecê-lo e a jamais tentar encontrá-lo. O que dá a entender que o vilão também guarda seus segredinhos sujos a sete chaves.

Se no início da mini-série o traço do Chris Bachalo estava bem mangazão, nas duas últimas edições ele partiu de vez para o estilo nipônico de HQs. Particularmente, muito me agrada o trampo do Bachalo. Quanto mais ele estiliza o seus desenhos, melhor. E pra cada narigão que ele desenha, existem umas três pinups interessantes pra compensar.
Como já comentei certa vez, o roteiro de Akira Yoshida não faz feio com o pouco que tem. Mesmo sem tentar (ou poder) desvirtuar a mitologia estabelecida pela obra original, ele conseguiu criar algumas situações inusitadas (como a relação entre Wolverine e X-23, sua suposta filha) e outras que acabaram se revelando bons achados (como o tal segredo que o Sr. Sinistro tanto esconde - se quiser conhecer esse spoiler, clique aqui).
Por outro lado, algumas cenas que ameaçavam se tornar viradas brilhantes e inesperadas na narrativa - como a pausa no combate final para uma instigante conversa entre Magneto e Sinistro sobre a validade de suas motivações - acabaram se limitando a uma mera introdução pra famosa pancadaria-resolve-tudo. Personagens marcantes (e importantes) de outrora, como Dentes-de-Sabre e Blink, embora vivos, foram apenas citados. E a conclusão, pra lá de aberta, sugere uma futura mini comemorativa. De quê agora... 11 anos?
No final das contas, X-Men: Age Of Apocalypse - 10th Anniversary é um passatempo interessante e pode, no mínimo, ser encarado como um caça-níqueis de luxo. Mas considerando a propagação do papel-jornal nas HQs publicadas por aqui, o custo-benefício desse níquel fica bem inflacionado.
Decide aí quando chegar. :)
dogg, ouvindo muito rock australiano. Na faixa... o álbum True to the Tone, dos maroleiros do GANGgajang.
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sábado, 30 de outubro de 2004
SESSÃO TAPANAKARA

Filmes de artes marciais sempre trilharam um caminho à parte do esquemão cinematográfico. O estilo sempre rendeu muito assunto (ou boas desculpas) para alguma produção sair do papel, em larga escala. Historicamente também é revelante, pois promove o embate entre o velho e o novo, ao traduzir - ou ao menos tentar - para a linguagem contemporânea a cultura e filosofia milenares desse pessoal de olhinhos puxados. Quando alguém leva um chutão no meio da boca, não se trata de violência gratuita, e sim de 3.000 anos de aperfeiçoamento espiritual. Yááá!
Mas então, por que desse véu de subcultura que sempre predominou aí? Filmes de artes marciais são uma excelente idéia comercial que não foi inventada por Hollywood. O embargo se tornou inevitável. Pô, os caras criaram uma nova maneira de espancar seres humanos. Que graça tem o velho estilo Starsky & Hutch de bater? Chega daquele esquema desgastado de soco-no-estômago/soco-no-queixo. O lance é chutar traseiros com estilo. O resultado é contagiante, praticamente imediato. No meu caso, foi nos idos de 83-84, assistindo aos episódios reprisados de Faixa Preta. Pela primeira vez, eu passei a ouvir o "creck" dos ossos se partindo, os lutadores espirrando sangue em bicas, saltos inacreditáveis, tombos idem, o barulho das porradas que mais parecia o som de uma chicotada, aquele sonzinho de velocidade mesmo quando o personagem apenas vira o rosto abruptamente, etc.
Hong Kong era o Paraíso dos filmes de artes marciais, e eu já queria até aprender cantonês. Mandarim também (mudei de idéia logo no primeiro caractere).

O furacão Kill Bill já passou, mas abriu um rentável precedente. Embarcando na onda, algumas relíquias da 7ª arte marcial estão sendo relançadas em DVD, como A Câmara 36 de Shaolin (The 36th Chamber of Shaolin/1978). Considerado um dos maiores precursores do estilo, o filme traz muitos elementos familiares, para fãs tanto de animês (principalmente Dragonball, Samurai X e Cavaleiros do Zodíaco) quanto de filmes de luta mais recentes.
A história é básica ao extremo, como já é de costume no gênero. Durante a supremacia dos Manchus, um grupo de anarquistas disfarçados de professores monta uma base em Cantão. Descobertos, eles são massacrados e o único sobrevivente, San Te (o veterano Gordon Liu), busca refúgio no Templo Shaolin. Meio a contra-gosto, os monges acabam o aceitando. Obstinado, San Te se torna um aprendiz perseverante, e é aí que começa o foco do filme: o treinamento Shaolin.

Cada aluno deve atravessar 36 câmaras, cada uma com um desafio diferente, e se tornar mestre em cada especialidade. Como o filme é de 78 e portanto o SPOILER já prescreveu, já adianto que apenas algumas câmaras são mostradas. Mas pena mesmo foi a exclusão do treinamento na 36ª câmara, a mais avançada.
Lá existe apenas um grupo de monges anciões (parecem os irmãos mais velhos do mestre Pai Mei, de Kill Bill vol. 2), que derrubam o adversário apenas com a força do pensamento.
A Câmara 36... é tecnicamente impecável. É o que há de melhor em termos de coreografia marcial. Só a luta do início (sem ser o belo solo de abertura de Liu) já vale o filme. Aliás, trata-se de uma trilogia. Após esse, seguem Retorno à Câmara 36 (Return to the 36th Chamber/1980) e Discípulos da Câmara 36 (Disciples of the 36th Chamber/1984) - todos devidamente digitalizados. As continuações elevam à 9ª potência o já alto nível técnico das seqüências de luta, assim como elevam na mesma proporção a nulidade do roteiro. Mesmo assim, são altamente recomendáveis para amantes da porradaria em grande estilo. E, em Discípulos..., existe uma cena imperdível envolvendo a mãe de um personagem. Ela, mestra, aposta com um oficial que, se ele conseguir abrir as pernas dela, se casa com ele. Adivinha se o cara consegue... a mulé é foda!

Esse carinha já está na estrada há um bom tempo. Considero Jet Li o grande nome dos filmes de artes marciais da atualidade, embora ainda não tenha "acontecido" adequadamente no grande circuito (situação que deve mudar com a carreira mundial do badalado Hero). Após uma bela estréia em Hollywood (Riggs e Murtaugh que o digam!), a poeira abaixou legal com sucessivos e agüados filmes-americanos-de-artes-marciais. Tudo bem, alguns ficaram um pouco acima da média, mas pra cada O Beijo do Dragão existem dois Romeu tem que Morrer ou Contra o Tempo. Ali não havia cheiro de arroz frito com badejo cru, e sim de McChiken com Coca-Cola.
Jet Li já fez uma porrada de filmes legais (assisti um agora que é um verdadeiro luxo: Punhos de Dragão, produção de 1984 em que ele atua, dirige e ainda desce o cacete em soldados americanos - bem oportuno e, da metade pro final, realmente FODA), como esse Lutar ou Morrer (Fist of Legend/1994).

Remake do mega-clássico A Fúria do Dragão (Fist of Fury/1971), Lutar... não se limita a repetir o brilhantismo do filme estrelado por Bruce Lee, mas cria uma nova história sob o mesmo contexto da situação anterior. O filme conta a trajetória do chinês Chen Zhen (Jet Li), que está estudando no Japão quando recebe a notícia da morte de seu antigo mestre, que foi derrotado num combate suspeito com um lutador do clã japonês Dragão Negro. O mestre Huo Yuanjia realmente existiu (e também morreu sob circunstâncias similares), e nas duas versões aparece uma fotografia real dele.
Da mesma forma que o original, aqui também é feita uma boa descrição da conturbada situação social da república chinesa na década de 20. Pressionada por uma ocupação e embargo ostensivo do Reino Unido e Japão, um dos reflexos mais notáveis foi o caos urbano e a crescente tensão social, principalmente entre chineses e japoneses. O Chen Zhen de Bruce Lee foi um rolo compressor de selvageria irracional, não se furtando em trucidar japoneses onde e quando bem entendesse. Já o Zhen do Jet Li é mais... "zen" (podre, eu sei). Bem mais racional e comedido, ele pertence à um universo onde nem todos os japoneses são assassinos cruéis e impiedosos - elemento personificado por Mitsuko, sua namorada japonesa (a gatinha Nakayama Shinobu).
As lutas são demais... esqueça as bobagens CGÍsticas de Matrix e congêneres. Antigamente, os caras até usavam fios, mas batiam e se socavam de verdade. Além do quê, Lutar... tem um dos vilões mais monstruosos que já vi em filmes desse estilo: o General Fujita. O cara é do tamanho do Kareem Abdul-Jabbar e tem a cabeça mais dura que o Richard Kiel. Imagina isso usando uma farda militar estilo M.Bison (só que verde). Sinistro...!


O Grunge, cara... ele é um completo sem-noção... um Joselito meta-humano... acho que o verdadeiro "superpoder" dele é pensar, falar e fazer besteira. E em 90% dos casos tem a ver com putaria. Igual eu. A diferença é que suas companheiras de aventura são as melzinho-na-boca Caitlin Fairchild, Roxy e Sarah, vulgas "o que há em matéria de gostosura super-heroística".
Essa HQ foi escrita, produzida e dirigida pela fera Adam Warren, disparado o melhor desenhista não-japonês de mangás do Universo (aliás, ele é melhor até do que muito japa também!). Adam é dono de um estilo em que não falta nada e até sobra - sobra velocidade, porradaria, humor escrachado e garotas ultra-gostosas à beira de um hentai escancarado.
Na história, Grunge (clone do Stifler, de American Pie), empolgado com uma sessão básica de filmes de kung-fu, começa a alugar o ouvido da gracinha Roxy com um pseudo-roteiro de cinema. Aí começa a bobagem referencial... aldeias destruídas, mestres assassinados, gangues à Yakuza, citações, citações e citações... putz, as "traduções mal-feitas" são hilárias... Cara, eu li essa porra à uns dois dias e ainda tô rindo.
Scans by: doggma (sim, eu confesso...) - Arquivo cbr atualizado em 01/09/2017
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Te aconselho usar a velocidade Shaolin para essa HQ. O Photobucket anda com um papo muito estranho ultimamente... :P
Aliás, quem achar a referência ao Star Wars ganha um "muito bem" da minha parte...
E agora, a difícil técnica da "chamadinha-com-o-dedo"... por favor, não tente isso em casa.



dogg, só alegria com o disco do Neurotic Outsiders rolando.
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