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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Trilhando o caminho


Até anteontem minha experiência com mangás se limitava à versão invertida e ocidentalizada de Akira. Hoje, além de ter a exata noção dessa blasfêmia, tenho me iniciado no mangaverso de maneira estranhamente ordenada. Isso graças à vasta gama de opções que pululam no mercado. Tenho bicado desde aventuras pop e cyberpunkadarias diversas até salseiros, digamos, mais clássicos. E encabeçando o gênero, a cultura, a raça e, pelas barbas de Toshiro Mifune, a maldita ilha inteira, Lobo Solitário, de Kazuo Koike e Goseki Kojima.

...que só conhecia pela fama monolítica, impacto cultural e homenagens solenes de gente como Frank Miller, Bill Sienkiewicz, Matt Wagner e Mike Ploog.

...que também capearam a revista quando foi lançada na 1ª vez nos EUA pela, duh, First Comics em 1987.

...que publicou menos de 1/3 da série antes de fechar as portas. Paraquedismo editorial desconhece fronteiras.

Lobo Solitário estreou em 1970. É alçado à l'état de l'art desde priscas eras, o que, em tese, já faria da atemporalidade uma marca registrada. Do alto de sua invejável autonomia, o que Lobo Solitário menos precisa é da condescendência de um velho gafanhoto como eu. Perfeita desculpa para ser simples, direto e pegar pesado onde e quando for possível. E eis que finalmente li os primeiros passos daquilo que Koike & Kojima aprontaram em seus estúdios há meio século...

Na trama, seguimos Itto Ogami e o simpático Daigoro, seu filhinho de três anos, numa jornada pelo interior do Japão. Apesar da aparência algo simplória e da atitude errática, Ogami é um guerreiro formidável e um estrategista brilhante. Não é muito afeito a discrições: no carrinho do bebê, leva um cartaz anunciando que aluga sua espada e seu filho - sem más intenções quanto ao segundo, que fique claro, a menos que seja para ludibriar algum infeliz até uma morte inevitável e hedionda.

Resumindo, é um assassino profissional capaz das mais ardilosas artimanhas para atingir seus objetivos. Além de conhecer os ditames SunTzuísticos de cabo a rabo e aplicá-los sem piedade ou moderação.

São histórias curtas. Em quase todas, ele está cumprindo ou vai cumprir uma missão... ou não... e é tudo o que se pode comentar sobre o 1º volume sem comprometer as surpresas que vão aparecendo. E o mais incrível: a essência dessas surpresas seguem intactas ainda hoje. Após décadas de pequenas e grandes reviravoltas em ficção e não-ficção em todos os gêneros e estilos, ainda há sacadas em Lobo Solitário que vão pegar no contrapé do marinheiro (ou o ronin, ha-ha) de 1ª viagem.


Nas primeiras folheadas, nota-se na narrativa a cadência inconfundível de um storytelling de western, o que automaticamente estreita relações com o "cinema samurai" de Kurosawa, Kobayashi e fraquinhos afins. Várias passagens lembram um grande plano cinematográfico - particularmente no clima de Harakiri (1962), um clássico do cinema com o qual Lobo Solitário divide vários elementos em comum - se não viu, largue tudo agora e veja... esse merece um lugarzão na lista dos filmes para assistir antes de morrer.

A dinâmica dos personagens, de todos eles, dos coadjuvantes até os maiores "vilões", é tão ou mais importante quanto a do próprio protagonista. É ela que nos ajuda a delinear o intrincado perfil de Itto Ogami - por fora, uma personificação do mito do cavaleiro solitário caladão e instintivo do faroeste clássico. E além: você se importa com esses personagens bem mais do que você achou que se importaria no início. Isto é o maior elogio que consigo imaginar para um contexto de ficção.

Lógico que as credenciais de Lobo Solitário impressionam e até intimidam o leitor novato. Primeiro, porque uma das famas que o precedem é a sua acuracidade histórica. Segundo, a relação da premissa com o complexo cenário sócio-político do Japão feudal. Especificamente o chamado Período Edo - do qual sei absolutamente bulhufas, embora uma breve consulta ao Wiki dê conta que foi o último período do sistema militar feudal japonês e uma época de grande turbulência interna. Um pano de fundo repleto de aspectos únicos a serem (bem) explorados numa ficção, mas com algumas arapucas malocadas pelo caminho.

Não dá pra ficar explicando um contexto extenso a todo momento sem soar professoral e atravancar a história. É algo a ser inserido cuidadosa e homogeneamente na trama, de modo que o leitor nem perceba. Com espantosa facilidade, Koike desfia toda aquela enorme carga política e social durante a narrativa, sendo inclusive essencial para o desenvolvimento e tridimensionalização dos personagens. Tal qual em Harakiri. E, ah, aquela técnica da "zona mortal"...

Há também uma inesperada dose de misticismo, muito sutil e harmoniosa com a pegada implícita do autor. Provavelmente não foi nada, mas um flerte com o obscuro sempre vai bem, obrigado.


A arte de Goseki Kojima é um papo de boteco à parte. Chega a ser visceral e, eu diria, até emocional algumas vezes. Especialmente nas sequências de luta. Bem gráficas e cruas, evitam todo e qualquer exploitation que caberia ali, mas com sangue e membros decepados à vontade. As perspectivas são um espetáculo, embora engrenagens de uma concepção muito variável - e até aí não sei se é uma característica de mangá enquanto gênero.

Certos trechos, como a apresentação de personagens-chave e vislumbres grandiosos são primorosamente trabalhados, com a arte-final saltando das páginas como o mais sedutor óleo sobre tela. E, revezando, uma maioria de traços que remetem ao minimalismo estético dos comics underground, mas sem relaxar no senso de composição. Isso cria uma, argh, conjuntura não-linear no aspecto gráfico da história, que, ao invés de soar irregular, me pareceu exatamente o contrário: enriqueceu ainda mais a experiência. Sem dúvida, algo bastante intuitivo de acompanhar.

Algumas lutas são ilustradas como slow-motion e poucas vezes vi algo tão orgânico numa HQ. Na época isso deve ter sido um assombro. Mulheres belíssimas, poético nas sombras e um filho da puta nos vultos. Esse cara-Kojima é um fodão mesmo.

E como avisei que não seria condescendente com a obra (ela não precisa disso²), em pouco tempo de leitura fica evidente a natureza invencível do Lobo Solitário. Itto Ogami palitaria os dentes com as garras do Wolverine e pegaria até o Batman com preparo despreparado. Sua franca superioridade técnica, física, estratégica e intelectual frente aos adversários tem, em parte, uma boa explicação lá pelos desdobramentos finais, o que ameniza bem. Só ali pelas páginas 194-195 é que a providência divina exagera na dose - embora a sequência tenha sido qualquer coisa de arregaçante.

O final do volume 1 é um expresso do inferno pelas veredas dramáticas. Não apenas tira o leitor da zona de conforto como incomoda bastante em determinado momento. É onde finalmente nos damos conta da aterradora extensão moral e ética do protagonista.

Não tem como não parabenizar a Panini por abraçar a empreitada que é relançar Lobo Solitário num formato mais bacana. Após esse arrebatador 1º volume, pretendo seguir a odisseia de Ogami e Daigoro. Já é fácil uma das melhores leituras do ano.

Em contrapartida, a Panini... ah, Panini...


Com o volume tsunâmico de mangás que publica atualmente - vários deles muito bons, inclusive - a nova edição de Lobo Solitário viria para coroar dignamente para essa boa fase do mercado. Mas justo aqui, houve um problema não muito digno: a cola (!) utilizada no acabamento interno da lombada. Não sei se devido à quantidade ou à qualidade da mesma, algumas páginas soltam com facilidade, especialmente as do início e as do fim. Fora que os pontos cegos do miolo ficaram bem ondulados, algo típico de encadernação ruim. Uma simples comparação com as edições de Vagabond ou One-Punch Man já são suficientes pra ver que algo saiu muito errado lá na gráfica.

Além disso, uma tendência bem chatinha que vem acompanhando a editora já há algum tempo também comparece aqui: a miguelagem de verniz na capa. O volume 1 de Lobo Solitário veio mais seco que um deserto. E nem precisava sair besuntando geral: só a reserva de verniz no letreiramento da capa e contracapa e/ou na arte original e na variante americana já bastavam para o toque de classe e altivez que um título desse porte merecia.

Miguelar verniz é o fim da civilização ocidental, Panini. Faça-nos o favor...