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segunda-feira, 26 de junho de 2023

“You wouldn't like me when I'm Ang...”


Hulk completou 20 anos de lançamento. Certamente, o filme mais incompreendido e subestimado do gênero e também da carreira de Ang Lee. Não era pra menos. Mesmo com a escalação inspirada e uma galeria de personagens veteranos, com Josh Lucas no papel do traiçoeiro Glenn Talbot e Sam Elliott dando vida ao melhor Thaddeus E. "Thunderbolt" Ross já visto numa telona, a maior parte da trama era uma discussão sobre traumas suprimidos e paternidade tóxica.

Somadas à química a introspecção do Bruce Banner do desconhecido Eric Bana, a abnegada Betty Ross de Jennifer Connelly e o desvario sociopático do David Banner de Nick Nolte, foi uma autêntica masterclass de dramaturgia com orçamento de blockbuster. Isso em plena era pré-Universo Cinematográfico Marvel. Foi uma abordagem que ninguém esperava.

Hulk é tanto "um filme de arte de 150 milhões de dólares" quanto um autoral complicado de assimilar. Mas tinha a curiosa capacidade de permitir uma leitura pessoal e diferenciada para cada espectador – além de se reinventar substancialmente com a passagem dos anos/décadas. Continua uma senhora experiência (gama).

Lembro quando entrei na sala do cinema, ainda extasiado pelo teaser. Só queria assistir o Verdão esmagando geral. Mal sabia que meu sensorial seria uma das vítimas.


Em 2006 – há 17 anos! – fiz algumas breves considerações sobre o filme no finado blog-collab Área Azul, com os camaradas Fivo e JP Volley. Segue abaixo:

Dito isto, podem me adicionar na lista-gama: somos 4 a gostar da adaptação de Hulk por Ang Lee. Por sinal, a estréia do Verdão nas telonas é uma das mais emblemáticas no escopo desse nosso debate. É o exemplo perfeito. O público cinéfilo pode até ter uma certa afinidade com o universo dos quadrinhos, mas a imensa maioria sequer imagina quem é James Howlett, p.ex. (ao passo que quase todo mundo conhece o Wolverine - isso é mais ou menos o padrão por aí afora). No caso do Gigante Esmeralda, calhou de o personagem ficar soterrado sob toneladas de referências defasadíssimas (o seriado dos anos 70) e de conceitos tão superficiais que beiram a total falta de conhecimento (ex.: "o Hulk é tão forte que é capaz de derrubar uma parede de concreto"). 90% dos espectadores nem imaginava que ele derrubaria essa parede com um cuspe. O diretor Ang Lee e os roteiristas James Schamus, Michael France e John Turman, foram tão fiéis aos quadrinhos quanto possível. E atualíssimos à cronologia! Durante décadas, o personagem só era um-cara-que-virava-monstro-quando-ficava-com-raiva, Mr. Hyde + Monstro de Frankenstein, travado. Só na fase Peter David, no final dos anos 90, é que ele ganhou contornos mais intrincados. Abuso infantil, psique reprimida e desordem de múltipla personalidade entraram com tudo dentro do contexto, tornando-o um dos personagens mais complexos e trágicos das HQs. Embora ricas, eram temáticas difíceis por natureza, pesadonas, pouco comerciais - e entraram no filme, quase que heroicamente. Como se não bastasse, a câmera contemplativa de Lee ainda faz links entre a evolução natural e o resultado final de uma evolução forçada artificialmente, em momentos tão sutis quanto um close em um fungo crescendo num pedaço de madeira.

Excetuando o descontrole do roteiro na relação pai/filho na reta final, Hulk foi um filme extremamente necessário para conferir, em uma primeira instância, a tão almejada credibilidade conceitual ao personagem (o Graal de qualquer roteiro que preste). Daqui em diante, já tá liberado: que venha a porrada!


* * *

É irônico como, num cenário que lida com infinitos universos, o Hulk de Ang Lee tenha acabado no limbo que existe entre eles. Ou numa encruzilhada...

Ps: e me diverti horrores com igualmente subestimado game Hulk, que expandia o universo do filme. Eram porradarias épicas contra os supervilões Meia-Vida, Louco, Ravage e o Líder madrugada adentro...

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O PROTOCOLO DE KLAATU


Então fizeram mesmo. Cai mais um dos intocáveis, numa contagem de corpos... ou melhor, de clássicos que não parece ter fim em Hollywood. Não sei se é mera falta de idéias novas ou de uma geração substituta à altura (onde estão os novos Ridley Scott, John Landis, Joe Dante, James Cameron...?), mas a partir do momento em que temos um remake de nome O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, EUA, 2008), é porque o cenário já passou do estágio "preocupante". A idéia, claro, é completamente desnecessária. E não só porque o original de Robert Wise é sci-fi de apelo humanista que soa universal até hoje ou porque foi corajosamente engajado e apartidário no auge da histeria anticomunista, mas porque é atemporal em essência. Havia ali uma moral, um recado. Sendo assim, como um remake se justifica neste caso? Segundo a nova versão, muda-se a moral, muda-se o recado.

Em tese, até que faz sentido. O ser humano vive se diversificando na autodestruição. Nos anos 50, compreensivelmente, a Bomba era a endorser oficial do apocalipse - ou, ao menos, a ameaça mais imediata. Hoje, pensamos mais nela como um parente distante e (muito) desagradável, ao passo que assuntos como poluição industrial, degelo ártico/antártico, desmatamento indiscriminado e catástrofes naturais cada vez mais subseqüentes estão na ordem do dia. Desenvolvimento humano acelerado rumo ao colapso ambiental definitivo. Está tudo lá, em Wall-e. É nessa verdade inconveniente que o remake encontra sua raison d'être. Ok, vamos classificar isso como uma boa ideia*.

* estreando uma das novas regras ortográficas. Sinto como se tivesse acabado de cometer um crime.

Fora esta e mais algumas leves adaptações, o filme reedita a narrativa e o timing original quase magicamente e sem traumas. Impressiona como a premissa segue funcional e instigante após 57 anos (eu disse que era atemporal) - um ovni invade o espaço aéreo norte-americano e aterrissa em pleno Central Park. Os rapazes do Tio Sam prontamente se posicionam para receber o visitante e o resto é história. O alienígena Klaatu desce para se comunicar pacificamente, mas a xenofobia do homo "sapiens" fala mais alto e o pior acontece.

Uma reverência necessária aqui... no original, esta sequência é uma das mais arrepiantes e icônicas que o cinema já produziu: logo que sai da nave, Klaatu/Michael Rennie é atacado sem qualquer motivo senão o da ignorância; o autômato Gort é ativado e investe contra os agressores, mas é impedido por Klaatu, que, mesmo ferido, salva as vidas de seus algozes. Quase um Trotsky alienígena.

Um momento perfeito e emocionante (justamente homenageado por Luc Besson em O Quinto Elemento). Importante reconhecer que, no novo filme, a cena não tem - e sabiamente nem busca - o mesmo impacto, mas ainda assim é recriada elegantemente. E pontuada com uma versão da lapidar "Klaatu barada nikto" em inflexão extraterrestre quase ininteligível. Adorei.

Klaatu sobrevive, mas fica sob custódia do governo norte-americano. Sabatinado pelas autoridades, ele afirma trazer uma derradeira mensagem para os líderes da Terra, mas esbarra em desconfiança, sectarismo e burocracia - problemas, segundo ele, há muito superados em seu mundo. Apesar do pedido simples, Klaatu descobre que a humanidade está dividida demais para ouvir sobre sua própria destruição. Mais tarde, ele consegue escapar do cativeiro e se mistura à população para compreendê-la melhor e, talvez, oferecer-lhe mais uma chance de redenção. Enquanto isso, a deadline vai se aproximando.


O nome de Scott Derrickson na direção me animou bastante (como já comentei anteriormente). Cineasta sensato e climático, que respeita o tempo e a ordem dos acontecimentos - característica mantida aqui, apesar da típica produção blockbuster com dinâmica acelerada. Puxar o freio, no caso, não deve ter sido tarefa fácil para o diretor, visto que seria mais simples ceder às convenções do gênero e seguir a cartilha de Michael Bay para ameaças espaciais. Afinal, aqui também temos um robô gigante assustador e o marketing já é pré-moldado nestes casos. Não duvido que houveram "sugestões" neste sentido. Contudo, o andamento do filme segue em ritmo cadenciado, sério e sombrio como deveria, com a merecida atenção para as boas performances aqui presentes. Se há mais alguma coisa errada neste remake além de sua existência, e há, não é por inépcia do diretor.

Tenho certeza que agora vou horrorizar o requintado senso crítico dos cinéfilos, mas foda-se: Keanu Reeves está perfeito no papel revisado de Klaatu. Diferente da abordagem suave, naturalmente curiosa e até paternal de Michael Rennie, o Klaanu é uma porta de mogno maciço. Melhor ainda, um tronco de sequóia, incisivo e pragmático. Sua presença 100% seca, indiferente e desprovida de substância (especialidade involuntária do rapaz) deixa o personagem ainda mais austero e sem qualquer afinidade pela condição humana. Numa metáfora simples mas atualíssima pincelada pela personagem de Kathy Bates, Klaatu veio para fazer o que eles (as nações do Primeiro Mundo) sempre fizeram: extinguir os povos menos avançados. Em outro momento, Klaatu diz representar um grupo de civilizações e que a Terra jamais "pertenceu" à raça humana, já que são raros os planetas capazes de suportar formas complexas de vida - o que a torna um objeto de interesse literalmente universal. Levando em conta o vandalismo ambiental que cometemos aqui, não só justifica-se o ultimato dos ETs, como mostra que eles foram até bonzinhos em não incinerar todo mundo sem aviso prévio.

Uma vez destrinchada a fabulosa contra-atuação de Kleatu, fica mole destacar os demais. O elenco é de outro mundo, uma conjunção de astros e outros chavões estratosféricos. Em ordem ascendente: a sempre maravilhosa Jennifer Connelly simplesmente rouba pra si a personagem Helen Benson, agora uma conceituada astrobióloga (atualização pertinente e pra lá de necessária); Kathy Bates superinterpreta e confere uma postura protecionista e republicanóide, o contrário de seu correspondente burocrata do filme original; e o venerável John Cleese, no papel do Prof. Barnhardt, me faz querer abraçar o responsável pelo casting, tamanha a iluminação do sujeito. É dele o melhor e mais importante momento do filme, mesmo numa participação desgraçadamente curta.

Coincidentemente, a partir dali todas as boas expectativas vão sendo frustradas uma a uma em velocidade de dobra. O remake tinha lá suas chances de dignidade (correspondidas até ali com um trabalho sóbrio e competente), mas o que se sucedeu foi um frango escandaloso do roteiro adaptado por David Scarpa.


Sequências como a do "dia em que a Terra parou" per se, soam tão irregulares quanto um furo de lógica (ora, um simples pulso eletromagnético em escala global não seria um genocídio de qualquer maneira?), e a mudança de opinião de Klaatu no final soa exageradamente prematura, ao passo que seu conterrâneo levou 70 anos para ser humanizado. O plot sentimental envolvendo o filho adotivo de Helen, Jacob (Jaden Smith, chato pra caralho), ocupa minutos preciosos de tela e se arrasta muito além da conta. O resultado não poderia ser outro, senão a mais pura pieguice que redime tudo e a todos salva do apocalipse. Quer mais? Na hora, mais que lembrei do filme Esfera (o modo promissor como começa e o modo miserável como acaba).

Mas o caso mais triste é o de Gort (acrônimo terrestre para "Genetically Organized Robotic Technology"), pois, afinal, conseguiram realizar a parte mais difícil antes de colocarem tudo a perder. O golem artificial foi discretamente redesenhado, mantendo o visual humanóide e com uma textura parecida com a do Monolito Negro, de 2001: Uma Odisséia no Espaço. As semelhanças bacanas não param na estética: Gort também é indecifrável, ameaçador e parece ter poder suficiente para arremessar a Terra pra fora da Via Láctea. Parece só uma questão de tempo para o badass espacial voltar a chutar bundas como em 1951, porém... Do jeito que ficou, Frankie Muniz, em O Agente Teen, resolveria a situação sem maiores dificuldades. Decepcionante assim.

Durante pouco mais de uma hora, foi o filme que traduziria satisfatoriamente o clássico original para as novas gerações. De volta ao status de remake que jamais deveria ter existido, O Dia em Que a Terra Parou se tornou um exemplo perfeito de potencial inimaginável limitado pela falta de imaginação. Além do quê, a humanidade não anda merecendo redenção ultimamente. Muito menos uma com gosto de Spielberg.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O RETORNO DE GORT

Parecia inevitável. Chegamos ao remake de O Dia Em Que A Terra Parou. Depois disso, nada mais é sagrado em Hollywood. A péssima fase criativa da indústria já se fazia notar em refilmagens como A Profecia, Os Invasores e Eu Sou A Lenda, mas com certos símbolos não se mexe. O filme original de Robert Wise é um deles. Não apenas pela mensagem, atemporal (mesmo atrelada a um cenário geopolítico específico), mas também, principalmente, por seu valor cinematográfico.

Lançado em 1951, o filme trouxe efeitos visuais incrivelmente sóbrios e sofisticados para a época e recebeu uma produção impecável - não se viam muitos militares "reais" (com canhões, jipes, tanques e um contingente generoso em cena) nos sci-fi de antanho, considerados veículos B por excelência, sem tanta vocação para o mainstream. E pela primeira vez, o ET destoava da recorrente alusão comunista. Klaatu era um ser benevolente. Nós é que éramos os monstros. Clássico.

Tudo pronto para mais uma bomba anunciada, mas eis que chega o 1º trailer deste remake (cuja existência fui saber há pouco). Confesso que curti mais do que gostaria de admitir.



Ok, Keanu Reeves é um ator ruim (dãã), mas funcionou em Matrix. Seu ar frio e distante bateu com a aura messiânica que o personagem demandava. Aqui o princípio é quase o mesmo, num contexto até mais lógico e compreensível. Sinceramente, gostei dele aqui. Jennifer Connelly garante credibilidade (e muito mais) em cena e o elenco de apoio conta com Kathy Bates e John Cleese (uôu!). Pelo que percebi, muita coisa mudou na história. As obrigatórias seqüências de destruição em massa sugerem que Klaatu fará bem mais que um apagão global. E ao que parece, Helen (Connelly) vai chegar meio tarde pra dizer "Klaatu Barada Nikto". No último frame, vemos uma imagem do icônico Gort, o guarda-costas alienígena mais badass do Cinema.

Outra coisa... a música que rola no trailer me ganhou na lábia. Depois que Danny Boyle descobriu o Godspeed You! Black Emperor nasceu uma praga de trilhas atmosféricas. Não sei se essa canção é deles (ou seria do Mogwai?), mas foi determinante pra me vender a idéia. Cinema e shoegazer music nasceram um pro outro.

Agora as credenciais: o cineasta Scott Derrickson roteirizou e dirigiu o ótimo O Exorcismo de Emily Rose. Por outro lado, também realizou Hellraiser: Inferno, no início de carreira (mas até aí, o jovem James Cameron fez Piranhas 2: Assassinas Voadoras pra levantar algum... então tá 50/50). Já o roteirista David Scarpa escreveu A Última Fortaleza, que é realmente um bom filme.

Continuo execrando a idéia do remake. Mas se antes não esperava nada, agora já espero alguma coisa.


Trailer HD
DTESS (site oficial)


No playlist: Kaftwerk, Mininum Maximum.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Operação Resgate
Edição split: Connelly Begins x Motorista Fantasma




O italiano Dario Argento já estava muito no lucro quando realizou Phenomena (idem, Itália, 1985). O filme foi precedido pelo cult Profondo Rosso, de 1975, pelo hit subterrâneo e masterpiece do giallo Suspiria, de 77, por Inferno, de 1980, e pelo casca-grossíssima Tenebrae, de 82. Uma quadra gótica de dar inveja à qualquer aficcionado e que ainda será descoberta e regurgitada pelo circuitão como se fosse algo recém-inventado por algum "visionário" de Hollywood...

Mesmo inserido em um traçado final que Argento arquitetou - concluído por Opera, de 87, e Trauma, de 93 - Phenomena talvez tenha sido o primeiro passo para uma concepção mais acessível das pirações dark do cineasta. De muitas maneiras, estava conectado ao que andava sendo feito de moderno em thrillers de horror na época - cujas diretrizes básicas foram fornecidas em grande parte por ele mesmo (e Fulci, Lenzi, Bava, Avati...). Em tudo ali, Argento soava mais dinâmico, atual.

Indo tão fundo quanto a poça que meu café fez aqui, o cinema de Argento e Sua Gangue foram essenciais para retirar o terror do estágio trash-exploitation patrocinado por Roger Corman e os condes romenos da Hammer Films.

Esta impressão de abertura, apesar de ser mérito de um conjunto de fatores, inevitavelmente saltava aos olhos só de conferir o cast principal: estrelavam o saudoso Donald Pleasence, que, além da moral de ator respeitável, era figurinha fácil em incursões mais comerciais (fora que ele era simplesmente o Dr. Loomis, arquiinimigo de Michael Myers, em Halloween!), e uma jovenzinha de catorze anos que literalmente encantou Argento, após vê-la num pequeno papel em Era Uma Vez na América, do amigo Sergio Leone.

Jennifer Connelly, além da... do... ah, de tudo... esta mulher é... já exibia timing, carisma e maturidade absurdos em cena. E charme. Valha-me Deus. Sua participação em Phenomena excede o espaço reservado à sua personagem e o arquétipo que ela possa representar - mas já retorno ao ponto.


A premissa era um mix dos elementos mais caros à cinematografia de Argento, sendo que a primeira metade remete a uma estética de suspense slasher e a segunda ao horror surrealista enegrecido por uma pesada atmosfera onírica (já dizia John Carpenter que assistir Argento era como "estar preso num pesadelo"). No primeiro ato, uma jovem dinamarquesa (Fiore Argento, filha do diretor) perde o ônibus e acaba se perdendo também. Procurando por ajuda, a menina vai parar numa casa de campo, onde é recebida na base de correntes e tesouras. A seqüência é bastante tensa, sendo finalizada de maneira crua, chocante, mesmo para os padrões atuais ("Se o cara faz isto com a própria filha, que dirá com o resto" - dogg, filósofo malaio) - por outro lado, a beleza técnica da cena é inegável... nada se compara a um bom exercício de hiper-realismo, ainda que o realizador seja dado ao surrealismo (trocadilho realmente ruim).

No filme, Connelly também é Jennifer, só que Jennifer Corvino, filha de um famoso ator americano, que é enviada à Suíça para estudar num renomado colégio internacional para moças. Logo que a menina chega ao país do sigilo bancário, vemos que ela tem o estranho dom de interagir telepaticamente com insetos. E também sofre com pesadelos tenebrosos e um tipo de sonambulismo hardcore (daqueles de levantar dormindo, ir pra guerra e voltar a tempo do café da manhã). No colégio, ela divide o quarto com Sophie (Federica Mastroianni), uma francesa bobinha mas ordinária com quem rapidamente faz amizade. No entanto, a recepção das demais alunas não é nada hospitaleira e Jennifer já chega batendo de frente com a coordernadora da instituição, a Sra. Frau Brückner (vivida por Daria Nicolodi, ex-esposa do nepotista Dario). Pra completar o cenário, estão ocorrendo vários assassinatos hediondos na região.

A principal característica destas mortes é a decapitação das vítimas. Na maioria dos casos, as cabeças nunca foram encontradas. Donald Pleasence interpreta o Prof. John McGregor, um entomologista paraplégico que está auxiliando a polícia a elucidar os crimes através da perícia nos cadáveres, consumidos por vermes e larvas de insetos - o que cria um estranho vínculo com as habilidades especiais de Jennifer. Não demora muito até os dois se conhecerem e sentirem uma empatia quase imediata.

O tempo começa a fechar quando as alunas do internato se tornam os novos alvos do serial-killer. Ao mesmo tempo, as crises de sonambulismo de Jennifer ficam mais intensas e parecem estar ligadas sensorial/paranormal/mística/darioargentamente ao frenesi dos assassinatos.

Mas isto é na primeira hora. Depois a coisa parte pro giallo-core de sempre.


A metade final de Phenomena é pra deixar os admiradores de Argento se sentindo em casa. Não chega a soterrar espectador com claustrofobia (pra isto, existe Suspiria), mas a pegada é inconfundível. É como se Jennifer parasse de ter pesadelos para vivê-los ipsi literis. Em certo ponto, a identidade do assassino é envolta em um clima tão obscuro que ele quase se torna uma entidade onipresente dentro do filme. De fato, não dá pra antecipar totalmente o desfecho (ainda bem que teve um - assista e passe por essa paranóia também), já que os indícios dão conta de que ali operam forças que não são deste mundo.

Falando no sobrenatural, não há o que reclamar sobre a exploração dos poderes de Jennifer no filme. Os mesmos são utilizados ao máximo de sua capacidade e assim Argento acabou criando uma perfeita (e igualmente poderosa) contraparte para a ameaça do assassino. Nenhuma chance foi perdida aqui - com o tempo e o aprimoramento, a menina se torna a Fênix Negra dos insetos. E isto não é apenas uma referência en passant: não sei bem porque, mas desconfio que Jean... digo, Jen, iria se adaptar muito melhor numa certa escola em Westchester, NY, do que aquela na Suíça. Se a coincidência for pouca, confira as cenas em que o Professor... hã, McGregor ensina a Jen como controlar seus poderes e o macete pra sair do estado de sonambulismo.

Como se não bastasse, McGregor também é acometido da monumental irresponsabilidade que todo tutor dos quadrinhos tem para com seus jovens pupilos. Não satisfeito com o trabalho da polícia, o bom professor (obcecado em vingar uma antiga assistente) resolve colocar a menina de catorze anos no encalço do maníaco sangüinário. E não pense que existe alguma margem de segurança aí.

Nas duas últimas longas seqüências do filme, o climão de pesadelo generalizado toma conta e Alice, digo, Jennifer, vai descendo até o ponto mais baixo do inferno. Impressionante como ela ainda consegue manter um fiapo de sobriedade diante das situações tenebrosas que passa. Ah, mas isto só dura até o mergulho numa vala escrotíssima cheia de cabeças, membros decepados, tripas, vermes, coliformes e detritos diversos. Perto disto aqui, a chuveirada de suínos em decomposição de Saw 3 é como dividir uma hidro com a Hellen Ganzarolli. Mal deu pra acreditar que ela caiu ali mesmo.

Daí pra frente, alguns lugares-comuns do gênero surgem quase que de forma caricatural, incluindo o final fake, à Jason Voorhees do primeiro filme, e um inusitado final-pra-valer, que combina bizarria e violência gráfica extrema.


Phenomena é um filme estranho, que se alimenta de suas próprias imperfeições. Consegue ser incrivelmente equivocado em alguns momentos e brilhante em outros tantos. A cena em que Jennifer, numa paisagem idílica, segue um inseto para descobrir o paradeiro do assassino é belíssima, por mais esquisito que possa parecer. A bad trip sleepwalker da moça é realmente assustadora e incômoda. O já citado prólogo do filme é primorosamente escrito, filmado, montado e o escambau. Momento clássico mais do que obrigatório.

E sim, há várias outras questões sobre Phenomena a serem debatidas fervorosamente, mas a mais contundente é esta: Jennifer Connelly foi rainha do grito em seu primeiro filme como protagonista (engula esta, Jamie Lee Curtis!).

Jennifer já era uma gigante em cena. Sua atuação era um diamante quase lapidado, demonstrando a mesma carga de sensualidade, inteligência e certa introspecção que se vê hoje. A atriz literalmente brinca de empilhar as convenções estilísticas do filme. Mesmo porquê, o cinema de Argento é extremamente hermético, autoral, segmentado por opção - basta ver os diálogos dela com as travadinhas Sophie e Sra. Brückner... a menina passeia livre em cena. Elegante e sagaz, Connelly nunca se entrega ao preciosismo e veste a camisa sempre que necessário. Um show. Só a presença dela já faz valer a assistida.


Infelizmente, a carreira internacional do filme recebeu um duro golpe ao ser lançado nos Estados Unidos. A censura da época - mais slasher que nunca - mutilou quase trinta minutos da produção e o lançou com o não-poderia-ser-mais-genérico título "Creepers". No Brasil, o título original foi mantido, mas a cópia era a mesma editada nos EUA. Só em janeiro de 2006, a versão integral finalmente foi lançada aqui, em DVD, via Works Editora, encartado na edição #6 da revista Cine Monstro.

A trilha sonora de Phenomena é foda. Pra caralho. Argento não titubeou e meteu a antológica Flash Of The Blade, do Iron Maiden, quase inteira durante uma seqüência em que o assassino caça uma vítima. Lá pelas outras tantas, foi a vez da descarrilhante Locomotive, do Motörhead. Motör-fuckin'-head, man. Ficou parecendo um daqueles clipes incidentais de Donnie Darko, só que pra macho. Genial.

E não pára por aí. Bill Wyman, ex-baixista dos Stones participa com uma trilha de arrepiar e Claudio Simonetti também está lá. Simonetti (nascido em São Paulo), que todo fã de horror deveria conhecer, foi tecladista no dino progressivo Goblin, onde compôs para outros filmes de Argento, além do inesquecível tema do mega-clássico Dawn Of The Dead, de George A. Romero, entre outras belezinhas memoráveis. Não é à toa que vários grupos heavy, gothic e prog metal devem as calças pro cara. Influência melódica primordial.

O tema principal de Phenomena também ganhou um "pseudo-clipe", que Simonetti fez entre as gravações do filme. Visto hoje, é tosco no último - como todo clipe daquela era recém-MTVitimizada, aliás. Mas sabe como é... música pronta, câmeras ligadas, cenário em cima, Jennifer Connelly lá de bobeira...


Recentemente, Simonetti fundou a banda Dæmonia, que faz releituras metalizadas para os clássicos que ele compôs para o cinema. O projeto é imperdível.


Próximo!





Lembro como se fosse ontem: meu sonho de consumo adolescente eram o Ford Falcon V8 Interceptor do Mad Max, o De Lorean DMC-12, óbvio, e o Dodge M4S Turbo, de The Wraith, a Aparição (The Wraith, EUA, 1986). Muitos anos depois, ainda não sou milionário e mesmo se fosse, dificilmente conseguiria adquirir este último. Como se tratava de um modelo conceitual, a Dodge só fabricou 1 unidade original (na época, pela bagatela de 6mi US$) e mais seis clones (1mi US$, each) devidamente destruídos durante as filmagens. Desde então, o Pontiac '82 preto da Supermáquina subiu uma colocação na minha lista.

The Wraith é o patinho bonito da filmografia do diretor/roteirista Mike Marvin. O cara simplesmente não fez nada que prestasse depois deste filme, chegando a dirigir até um daqueles pornôs soft reprisados à exaustão no Cine Band Privé. Aqui, no entanto, ele soube dosar energia, boas sacadas e despretensão na medida certa, resultando num filme bastante divertido, mesmo descontando as oitentices típicas (que, por mim, tudo bem).

Aliás, The Wraith não é exatamente um filme de terror, nem suspense, nem sci-fi e nem ação, mas traz características de todos estes gêneros em seu DNA, fluindo simultaneamente. E funciona como um ponto a favor, pois durante o tempo todo se espera uma postura pré-definida que nunca chega e se amarra de forma ainda mais curiosa. Fora que mantém o sensorial sempre no full mode.

Dá quase pra elogiar esta concepção descompromissada (mas não desfocada) da narrativa, só que, pela ficha corrida do diretor, imagino que foi involuntário mesmo.



A história é aquele chocolate. Você sabe como é, o gosto que tem, mas... Nos cafundós do Arizona, uma gangue de piratas do asfalto faz o rapa em quem transita pelas estradas do perímetro. O líder do bando é o sociopata Packard Walsh (Nick Cassavetes, ele mesmo, filho do grande John e o diretor de Um Ato de Coragem e Alpha Dog) e os demais são Rughead (Clint Howard, ainda mais bizarro na sua fase new wave), o maluco viciado em fluído hidráulico Skank (David Sherrill) e o smeagolzinho expert em carburadores Gutterboy (Jamie Bozian), entre outros buchas com a inscrição "morgue" tatuada na testa.

Em geral, eles "propõem" um racha aos motoristas incautos, valendo o carro do perdedor. Mas isto é só por diversão, já que os bad guys, além de serem trapaceiros assassinos, têm os motores mais envenenados da região. Seus carros já eram tunados antes mesmo de inventarem o termo. Na cola dos punks, está o Xerife Loomis (Randy Quaid), que sempre come poeira atrás de um flagrante e está investigando o assassinato de um rapaz, possivelmente morto pela quadrilha.

Até que um dia, um forasteiro de nome Jake (Charlie Sheen) chega ao lugar e já vai se engraçando pra cima de Keri Johnson (Sherilyn Fenn, a Helena de Encaixotando Helena, novinha e um tesão), ex-namorada do garoto assassinado e território do malvadão Packard. Apesar das ameaças do maluco, os dois estão dispostos a deixar a natureza seguir seu curso.

Tudo se encaminha para mais um homicídio providencial, até que um misterioso carro preto com turbina de F-15 e design futurista surge reivindicando a supremacia das estradas - e jogando bem mais pesado que os vilões. A partir daí, sobram cadáveres, acidentes espetaculares e muito aço retorcido.



Segundo o diretor, o filme é uma adaptação livre de O Estranho sem Nome, um western sobrenatural do Eastwood pós-Leone. Ah, bom. Se é assim, sim. Isso explica muitas coisas, mesmo as não-explicadas. Mas o Mike dem-moderfóquer Marvin conseguiu deixar tudo ainda mais enigmático, principalmente na conclusão (e olha que em O Estranho sem Nome - spoiler - tinha um cowboy que desaparecia no final). Possibilidades não faltam para tentar explicar a natureza fantástica e os incríveis feitos do super-carro...

Ele pode ter vindo do céu (acho que não), do inferno (acho que sim), pode ter sido um fusquinha 76 abduzido e tunado com tecnologia alien, pode ser um projeto secreto do governo americano (eles fazem de tudo lá), pode ter vindo do futuro (exatamente, acabaram as idéias)... é só escolher. Qualquer hipótese faz sentido porque as pistas que Marvin vai deixando durante a história não fazem o menor sentido.

A grande sacada de The Wraith é deixar só uma nesguinha de margem para especulações e logo sentar uma machadada na cabeça do espectador. Os vários rachas que acontecem durante o filme são absolutamente empolgantes e quando o Dodjão M4S dos infernos (será?) dá as caras é porque a coisa vai ficar sinistra pra valer. Em 100% dos casos, as disputas terminam em mortes, despenhadeiros e explosões. Fora os Daytonas, Diplomats, Corvettes, GMC Sierras e Plymouths totalmente carbonizados - nota-se que metade destes foram providenciados pela Dodge himself, além, é claro, do carro "protagonista", o que explica o plotter da empresa num veículo sobrenatural (o mais irônico é que só aparece em alguns breves frames... seria uma tentativa de mensagem subliminar?).

Quanto ao motorista propriamente dito, há pouco o que se revelar. Ele aparece algumas vezes, usa um tipo de armadura bio-mecânica e traz consigo uma arma com luzinhas vermelhas que lembra muito uma calibre doze, dispara igual a uma calibre doze e faz o mesmo estrago que uma calibre doze faz. Fui levado a crer que se trata de uma calibre doze sobrenatural.

De qualquer modo, as seqüências de ação foram reforçadas por uma trilha sonora da hora (na época), que parece ter sido escolhida a dedo, sem limite orçamentário e com a fina flor da farofa oitentista. Pura festinha americana.

A corrida inicial rola ao som de Secret Loser, do madman Ozzy Osbourne. Depois tem a Rebel Yell, do papito original Billy Idol, o hit yuppie Addicted To Love, do magnata Robert Palmer, Matter Of Heart, da açucareira Bonnie Tyler, a poseríssima Never Surrender (LOL), do Lion (ROTFLOL), entre muitas outras pérolas pra ouvir no walkman, com o sol a pino, camiseta regata e óculos espelhados.



Apesar do lance com a Dodge ter abocanhado a maior parte dos custos, o filme traz efeitos especiais surpreendentes para a época. Um bom exemplo é o esquema (sacana) que o carro negro tem para destruir os adversários, no qual ele mesmo é pulverizado no processo e se reconstrói entre o fogo e os destroços. Outra cena espantosa é logo no início, quando o carro se materializa no meio de uma encruzilhada (chuta que é macumba!) - algo entre Close Encounters, De Volta para o Futuro e Exterminador do Futuro, versão econômica, mas criativamente promissora.

A propósito, se pensarmos que o possante de O Carro - A Máquina do Diabo é o Hannibal Lecter dos automóveis e Christine, o Carro Assassino é a personagem de Glenn Close em Atração Fatal com tração nas quatro ("A Tração Fatal"), o dodjão preto é o próprio Terminator. Ele mata a sangue frio e sem qualquer cerimônia. O que ele faz no galpão-oficina dos bandidos só pode ser coisa da Skynet. Extermínio automobilístico.

É muito engraçado ver o Nick Cassavetes fazendo papel de galã psicopata no filme. Mais engraçado ainda é o Charlie Sheen como um californian boy metido a fodão, com cabelinho arrepiado e montado numa jurássica XL (que, pelo visto, também é sobrenatural). Naquele mesmo ano ele encarnou um papel que era o total oposto - o junkie de Curtindo a Vida Adoidado. Hoje, fatura os tubos em Two and a Half Men.

Só para registro, sempre fiz uma baita confusão com os nomes de Sherilyn Fenn e Sheryl Lee. Em comum, as duas têm o fato de serem gostosas e musas do David Lynch (participaram de Coração Selvagem e da polêmica Twin Peaks - Fenn era a Audrey e Lee era a própria Laura Palmer, raison d'être da série). E tanto uma quanto a outra amargaram um limbo de produções trashescas durante os anos 90. Atualmente, Sherilyn (uma bela balzaca!) leva uma carreira discreta, com participações esporádicas em seriados famosos e produções made for TV (última frase powered by IMDb®).

The Wraith, a Aparição ainda rende boas sessões até hoje. Como todo bom pop movie. Mas adoraria que o maldito Mike Marvin respondesse algumas perguntas.

Como assim "as instruções estão no porta-luvas"?!


Na trilha: Cars, do Gary Numan.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

PÁGINAS DA VIDA


Como transformar uma causa nobre em filme de Hollywood? Perguntem a Edward Zwick. Ele sabe. E não estou depreciando esta “sabedoria” ao afirmar isto. De certa forma, o cara pode até ser conscientemente sábio. Afinal, não tenho dúvidas que Diamante de Sangue (Blood Diamond, 2006, EUA) vai ter muito mais audiência do que um Hotel Ruanda da vida jamais sonhou ter. Resta saber se a massa vai pegar o impacto das questões do pano de fundo ou só vai lembrar que Jennifer Connelly é gostosa até mal vestida. Estaria sendo tendencioso ao tomar só este filme como parâmetro, mas uma olhadela no IMDB deixa ver que, além deste, Ed dirigiu O Último Samurai, Coragem Sob Fogo e Nova York Sitiada, entre outros. Sou sincero ao dizer que realmente não lembro bem dos dois últimos, a não ser por NYS ter sido rotulado como filme-Mãe-Dinah ao prever o 9/11. Já n’O Último Samurai, fez a festa com liberdades criativo-poéticas na sua visão da sociedade japonesa do século passado, com direito a Tom Cruise pegando viúva de samurai e o escambau. Se isto não é Hollywood’s Delivery, então eu não sei o que é.

Mas péra lá... o filme é ruim? Claro que não. O Último Samurai também não era, mas meu lado meio purista (nestes casos) deu lá suas reclamadas ao entender que a oportunidade panfletária é boa demais para o maniqueísmo e a fórmula padrão blockbuster. A impressão que dá é a de que um roteirista refugiado de Serra Leoa ofereceu seu script num McDonald’s de Los Angeles e o atendente gritou: “Zwick, pede ao Charles (roteirista do filme) para fazer um McScript nº4 neste aqui.” Tsc...deixa eu parar de reclamar, já que me diverti pacas assistindo.


Diamante de Sangue acontece no fim da década de 90, quando os conflitos na África moldaram esta idéia que a gente tem de “África” como a definição completa de um local, ao invés de um conjunto de países independentes. Não bastando as diferenças tribais, tem ainda a exploração que o “mundo civilizado” faz dos recursos locais. No passado já foi a borracha, petróleo etc. No momento apresentado, eram os diamantes. A Guerra Civil come solta e os dois lados, governo e rebeldes, são bancados pelos comerciantes das jóias. No meio deste ambiente conturbado temos Solomon Vandy (Djimon Hounsou) sendo afastado de sua família e escravizado nas minas de diamantes, quando os rebeldes tomam conta do lugar. Na mina, ele encontra um diamante do tamanho de uma amêndoa, 100 kilates, mas um conflito se inicia e ele o esconde. Entra em cena Danny Archer (Leonardo DiCaprio), um mercenário do Zimbábue¹ descrente da utilidade de conceitos morais que ouve falar do diamante e passa a caçá-lo para conseguir sua paz fora daquele continente. No meio do conflito, surge a jornalista Maddy Bowen (Jennifer Connelly), candidata a catalisadora da provável redenção moral de um e do reencontro com a família de outro.

A despeito da narração inicial, que destaca a ausência de mocinhos em guerras civis como esta, o resto do filme coloca a pecha de vilão nas costas dos infanto-rebeldes-que-ouvem-hip-hop, enquanto o governo posa de mantenedor da ordem. O terceiro elemento é o interesse estrangeiro e a carga moral que move a trama, ou seja, a dondoca que compra a jóia sem se preocupar com a origem da mesma e o executivo que só visa o lucro e banca o conflito. Há de convir que um plot destes é álcool o suficiente criar um roteiro de pegar fogo e dar tapa na cara de espectador, mas a coisa é diluída em litros e litros de ação rambesca e transforma alquilo que tinha potencial para ser uma bagaceira de arrancar tripa em uma Smirnoff Ice. Curioso como, em dado momento, temos uma espécie de metalinguagem, quando Maddy diz que não sente muito futuro no que faz, já que as notícias que consegue ali, longe de ter o impacto que deveriam, vão passar no jornal da noite entre a parte de esportes e o escândalo da última celebridade. Realmente a sociedade não leva o assunto a sério, assim como o filme, mas Joaquin Phoenix conseguiu melhor impacto com frase parecida em Hotel Ruanda.


Às vezes o roteiro se lembra que o background em tela é pesado e volta a tratar o assunto, mas logo depois esquece e volta à ação que diverte e desperdiça. Nesta salada, destaco a seqüência que mostra a guerra civil comendo solta na cidade, quando a câmera nos leva em vielas apertadas e dá a impressão de desespero mesmo, como se estivéssemos vendo tudo numa seqüência de flashes.

Destaco também as atuações. Djimon, como sempre, está ótimo. Seu papel tem peso enorme e ele o carrega com facilidade. Não sou pai, não consigo sintetizar o que alguém que vivesse aquilo poderia sentir naquele caso, mas deve ser realmente um sentimento pungente. Já Jennifer, não acho que seu papel teve lá muita exigência. Assim, posso dizer que ela foi competente. Não é culpa dela se o roteiro a colocou numa situação que não tinha como passar sentimento verdadeiro, assim como não é culpa de DiCaprio ter que parecer canastrão em algumas seqüências.


Recentemente, em um grupo de discussão, foi debatido sobre quem seria melhor, Pitt ou DiCaprio. Lembro ter dito que reconhecia a qualidade do trabalho deste último, mas o problema é que a cara de moleque dele tirava toda a credibilidade da atuação. O rosto de porcelana caia muito bem em Prenda-me se for capaz e Titanic, sem entrar no mérito da qualidade dos filmes, mas não tinha como sentir que um "moleque" tinha o poder e a autoridade de um Howard Hughes. Não tinha como sentir que um "moleque" tinha a obstinação e a garra de Amsterdam Vallon. Não tinha. Agora tem. Finalmente o "moleque" conseguiu cara de homem. Umas rugas aqui e ali deram seriedade e aderência às palavras do ator. O sotaque e maneirismos da África do Sul são... bem... nunca estive na África do Sul e nunca tive como conhecer seus costumes e comportamento, mas não tenho como negar que Leonardo construiu um personagem tridimensional. Ele tem passado, ele tem presente, ele tem vícios, ele tem costumes e tudo isto parece natural. Parece dele. E convence. Conseguiu até fazer uma troca de socos com Djimon parecer verossímil, coisa que, se acontecesse um ano atrás, o negão seria julgado por infanticídio antes mesmo de a porrada estancar. No entanto, mesmo com atuação impecável, o McScript nº4, seus clichês e soluções prontas dão um jeito de fazê-lo parecer um Stallone Cobra aqui e ali. Merece a indicação ao Globo de Ouro.

Seu eu lesse novamente meus textos, teria certeza que não ficaria muito motivado a ver Diamante de Sangue, mas não é o caso. Além de divertir, ainda serviu para informar à minha namorada que, infelizmente, não poderei comprar nunca um diamante para ela. Tenho agora que encontrar desculpas parecidas para outros objetos de consumo...


¹ - O Zimbábue foi colonizado pela Holanda, daí a caracterização da personagem.

domingo, 25 de julho de 2004

OPERAÇÃO RESGATE

Nova pala. Filmes, discos e pontos altos de um passado distante à curto prazo. E na edição de estréia...


RÉQUIEM PARA UM SONHO
(EUA, 2000)

"Uma viagem ao inferno", segundo uma amiga. E é mesmo. Eu ficaria só nessa definição - justa e muito elucidativa - mas acho uma sacanagem com o trabalho excepcional dos atores, da montagem esquizofrênica e da direção milimetricamente cruel.

Aliás, o capitão do barco foi o the next big thing Darren Aronofsky, justificando em cada frame o hype que se formou ao seu redor. Com uma mão pesada, ele criou uma atmosfera claustrofóbica, urbanóide e paranóica. Durante todo o filme, a câmera se encontra em uma provável "linha de fogo" (caíam esguichos de água, sangue e até vômito na lente).

Mas o ponto alto do pacote foi a edição de som. Ruídos, distorções e tenebrosos feedbacks aparecem abruptamente e em volume alto (experimenta assistir esse filme com as caixas de som devidamente espalhadas). Já a trilha incidental é formada por 3 peças (Summer, Fall e Winter) dividida em várias suítes. A de Winter, em especial, é tristemente emocionante.


Réquiem aponta seus holofotes para o cotidiano chapado de Harry Goldfarb (Jared Leto), sua namorada Marion Silver (Jennifer... ai, ai... Connelly) e seu melhor - e único - amigo, Tyrone (Marlon Wayans, surpreendendo), todos viciados 24-7. "Dependente químico" aqui, seria inadequado, pois há muito eles ultrapassaram a linha vermelha. O curso dos personagens segue uma trajetória de descida ininterrupta. Não parece haver fim na suposta "queda", pois, aparentemente, essa é a natureza da vida errática que escolheram (ou a qual não conseguem sair). Por isso acaba sendo impactante assistí-los rearranjando toda a sua vida apenas por causa de mais uma (uma!) injetadinha de heroína ou congêneres, como se qualquer sacrifício fosse auto-justificado pelo "prazer de sentir o barato".

É difícil analisar esse filme sem se render à uma observação social irresponsável e hipócrita (afinal, às vezes eu bebo bagarái, o que não deve me dar o aval pra julgar os hábitos de terceiros). Então, colocarei o meu coração em cima da mesa por um instante para poder destrinchar essa belezura de filme de forma mais técnica.


Imagino que todo mundo conhece ao menos uma pessoa que desceu ao inferno escorregando pela agulha de uma seringa. Então aqui está um legitímo déja-vu drogado e prostituído. Jared Leto, um ator apenas razoável, encontrou o personagem da sua vida nesse filme. Toda a sua razoabilidade (existe?) conferiu um bem-vindo tom passive junkie no papel de Harry, um cara fraco demais para remar contra a maré.

Já Jennifer Connelly é atriz. Atriz mesmo. E uma das raras que não se deixa subjulgar pela sua beleza. Aliás, Jenny é famosa por criar climas de absoluta cumplicidade com seus parceiros de cena (que o digam os sortudos Billy Cudrup, Russell Crowe e Eric Bana). Aqui, o nível de sua atuação já era o esperado, ou seja, muito acima da média. Sua personagem, Marion, é o suporte de Harry. Os dois atingem tanta química juntos, que eu nem sei por quê eles ainda precisam se drogar. A cena em que Harry pede perdão à Marion, num momento derradeiro do filme, é de trincar a íris.

Marlon Wayans, distante das gags e das comédias fáceis (ê redundância), exibe uma insuspeita desenvoltura no papel de Tyrone. É patético, melancólico e caótico, mas ao lado de Harry, faz todo o sentido do mundo.


Mas o destaque mesmo fica por conta da veterana atriz Ellen Burstyn (O Exorcista). Claro, claro, a mulher é fera, sabe tudo, tinha de ser ela mesmo. Sua personagem, Sara (mãe de Harry), é a mais vitimizada do filme, e o link para assuntos tão ou mais espinhudos quanto drogas pesadas (massificação via TV, paranóia estética, anorexia, medicação indiscriminada, desamparo e solidão). Uma atuação memorável.

Fica a sensação de que, sem o aparato cinematográfico, os personagens, de tão tridimensionais e humanamente críveis, poderiam ser alguém que conhecemos na nossa vida real. E o grande mérito do filme foi ter dado à eles a possibilidade de continuar seguindo, mesmo que em sentido descendente. Réquiem é documento verdade. Não começa, nem termina, apenas continua. Que nem a vida.

Nota: esse filme é para poucos. A seqüência de acontecimentos finais é mostrada de forma muito gráfica e rápida, gerando um efeito psicologicamente denso e quase insuportável. Uma viagem ao inferno.


''Fear Factory - Demanufacture (1995)

Choque industrial-thrash carregado de futurismo fatalista à 1984 (George Orwell). Logo no início, uma introdução cibernética retirada do tema de Exterminador do Futuro já dá uma boa idéia do que está por vir.

Demanufacture é a trilha sonora de um futuro em chamas, desvastado pela guerra contra o sistema e as máquinas, onde individualismo deu lugar à códigos de barras. Esse álbum é, ao mesmo tempo, frio, minimalista, messiânico e absurdamente épico. Uma verdadeira bad trip com toques de pesadelo bio-mecânico.

Temas como clonagem, tecnologia, conspiração, manipulação das massas, desordem, sociopatia e fé (?), estão aqui, antecipando um caos urbano aterrador e, ao mesmo tempo, fascinante.

A performance instrumental da banda segue o mesmo conceito de precisão matemática e sangue frio. O guitarrista Dino Cazares (o Asesino, do grupo Brujeria) constrói bases efetivas, diretas e com quantidade zero de virtuosismo (praticamente não há solos) - atitude seguida pela linha baixo de Christian Olde Wolbers. Já os vocais de Burton C. Bell estão entre os melhores do rock atual. Balanceando entre a rasgação agressiva e um inacreditável (repito: inacreditável) alcance melódico, quase gregoriano, é daquele tipo em que você não consegue imaginar algo sequer comparável no gênero. Foi abençoado, com certeza. Mas o destaque final acaba vindo das batidas de Raymond Herrera. Nunca ouvi dois bumbos serem usados de maneira tão abusiva antes (nem depois). Parece uma metralhadora! Como está escrito no encarte, ele é o "gerador efetivo de pulsos maximizados". Tenho de concordar, seja lá o que isso quer dizer.

A abertura explosiva com a faixa-título, Self Bias Resistor, Replica, New Breed (não sei por quê, mas essa me lembra a onda de choque de uma explosão nuclear...!), Body Hammer, Flashpoint, HK (Hunter-Killer), Pisschrist, A Therapy for Pain... todas as músicas se complementam em uma seqüência incendiária. Embora seja muito difícil destacar uma faixa em especial, tenho a obrigação de dizer que Zero Signal é um arraso. Provavelmente, é a música de metal extremo mais perfeita da História. Demanufacture ainda traz ótimas covers: Dog Day Sunrise (Head of David) e Your Mistake (Agnostic Front).

Apesar do óbvio mérito da banda, muito de seu êxito artístico (e comercial, pois esse disco vendeu muito) foi absurdamente realçado pela excelente produção do veterano Colin Richardson e pelo trabalho do engenheiro de som Steve Harris (não o do Iron!). Com certeza, eles foram o quinto e o sexto componentes do grupo.

Disparado o melhor do Fear Factory e um dos melhores álbuns da década passada.