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quarta-feira, 3 de maio de 2023

Os Marvels


Gosto do Shazam de Os Novos 52. Pronto, digitei.

Acho a reformulação de Geoff Johns uma atualizada bem-vinda e auspiciosa para o superguri octogenário de Bill Parker e C.C. Beck. Na busca por uma ponte com a nova geração, algumas mudanças foram até radicais, caso do próprio Billy Batson. Mas, mesmo nelas, a HQ manteve boa parte daquele charme incipiente da Fawcett na Era de Ouro. É um comic na mais pura acepção da palavra (mágica). Então, foi uma boa surpresa ver essa fase servindo de blueprint em Shazam!, de 2019, e também neste Shazam! Fúria dos Deuses. Foi a saída pop para o Capitão Marvel.

A direção é do mesmo David F. Sandberg com roteiro do mesmo Henry Gayden, agora em companhia de Chris Morgan, da franquia Velozes & Furiosos. Em outras palavras, quem não gostou do 1º filme vai gostar menos ainda do 2º. A nova produção tem os mesmos vícios, forçadas de barra e infrações graves às leis da Física. Mas a química do núcleo principal, as referências e a dinâmica de aventurona oitentista valem o ingresso.

Ou o play em sua fonte de preferência, já que Fúria dos Deuses foi um dos maiores fiascos de bilheteria do Universo Estendido DC.

Não merecia. Cheguei a rascunhar uma lista de filmes da DC que são flagrantemente inferiores, como os dois da Mulher-Maravilha, Esquadrão Suicida de 2016, Liga da Justiça, o agregado Adão Negro... mas a lista já estava enorme e alçando o Capitão Fraldinha a um Cidadão Kane de capa e é bem longe disso. O filme é só uma bobagem divertida e pueril para quem precisa de bobagens divertidas e pueris. E o mais importante: se assume como tal.

Note que usei aí minha melhor lábia de Zeca Urubu vendedor de carros usados.


A história segue a deixa do 1º filme, em que Billy repassa aos irmãos adotivos a senha do Wi-Fi para os poderes do Mago Shazam — tecnicamente, os poderes de um panteão de divindades greco-romanas e de uma suposta figura histórica hebraica, canalizados pelo Mago através de seu cajado, o MacGuffin de Fúria dos Deuses. Logo no início, os garotos e garotas aparecem atuando como uma "Shazamília" (ou seria "Família Marvel"?) e sofrendo com a falta de experiência e de espírito de equipe. A opinião pública, claro, não perdoa.

A estrutura é bem Marvel: vida secreta de super-herói, dificuldades de manter o grupo unido, problemas financeiros do lar adotivo, bullying na escola e, no caso de Billy, a iminência da maioridade o obrigando a seguir seu próprio caminho. Em meio a tudo, a chegada das Filhas de Atlas reivindicando os poderes divinos de seu pai que, por acaso, estão com os Marvels... ops, Shazams.

A premissa é um pires, porém o cânone era minimalista por natureza. Em contrapartida, o filme tem nada menos que dez co-protagonistas. Impossível montar algo nivelado e com uma distribuição razoável de diálogos. Zachary Levi, que embolsou 3 milhões e meio de doletas nesta sequência, obviamente monopoliza o tempo de tela. Já Asher Angel, como Billy Batson, teve uma participação ridícula em relação ao 1º. Trabalhou de bandido, o jovem. Neste sentido, o carismático Jack Dylan Grazer, reprisando o papel de Freddy Freeman, é o principal Júnior do filme. Sobra bem pouco para dividir entre os demais.

Para maquiar um pouco as deficiências, Sandberg usa elementos do gênero coming of age. A inspiração são produções como Deu a Louca nos Monstros, Uma Noite de Aventuras, Conta Comigo e até a série Anos Incríveis. O tempo todo Billy usa uma camiseta dos Goonies. O que funciona até certo ponto, já que o assunto principal da trama é outro e, bem, não estamos mais nos anos 1980. Infelizmente.

Pior é o fato dos meninos não serem nem de longe parecidos com suas contrapartes superadultas. Nem na fisionomia, nem no tom das interpretações — incluindo aí o "Capitão Marvel Jr."/Freddy Freeman adulto do Adam Brody (que fazia o nerdão Seth Cohen na novelinha The O.C. há 5 mil anos A.C.). Isso ocorre, literalmente, com os meninos, porque as meninas brilham.

Meagan Good está em sintonia perfeita com a atuação da figurinha Faithe Herman no papel da simpática Darla. E a Mary Bromfield de Grace Caroline Currey (de A Queda) simplesmente veste o traje de super-heroína, me deixando com uma certeza: Grace é uma graça.

Com isso, ela também gera um rombo na parte do roteiro sobre "identidades secretas". Quer saber? Tô nem aí. Quero um filme solo da Mary Marvel.


Um pecado foi submeter Lucy Liu e a maravilhosa Helen Mirren — as vilãs Kalypso e Hespera, respectivamente — a um figurino que parece sobra de produção dos Power Rangers. Mesmo assim, Dame Mirren parece à vontade e entrega 0.000½ de seu talento, o que, comparada ao resto do elenco, equivale a uma supernova dramática. Já Lucy Liu só bate ponto e está absolutamente canastrona, atuando como se estivesse tentando lembrar se deixou a torneira aberta em casa.

A presença de ambas só reforça a nova realidade do mainstream hollywoodiano. Cedo ou tarde, todos trabalharão numa adaptação de quadrinhos. O que deve tirar o sono do Martin Scorsese.

Um ponto bastante positivo foi o retorno de Djimon Hounsou como o Mago. Os bate-bolas dele com o Freddy são espirituosos e algo atrapalhados, no bom sentido. E, em dado momento, o Shazam Sênior praticamente repete o visual do Papa Meia-Noite, personagem de Hounsou em Constantine. Pagaria para ver esse crossover.

Na boa sequência em que a cidade é atacada por Ciclopes, Minotauros, Manticoras e Harpias (que tanto queria ter visto nos longas da Maravilha) é impossível não lembrar dos deliciosos clássicos com a mão de Ray Harryhausen, como Fúria de Titãs, Jasão e os Argonautas e a série de filmes do Simbad. E também evidenciou algo que já acontecia desde os primeiros minutos — morre gente para um caralho nesse filme. Inclusive como resultado direto das ações dos heróis. É algo no nível "precisamos de um recordatório do Mark Millar aqui!"

Parece que alguém na Warner mandou largar mão do PG-13 que depois ele resolvia com os censores. Geoff Johns, foi tu, meu filho?

No final, apesar dos tropeços, a experiência foi deveras satisfatória. Certo que assistirei outras vezes. Talvez n'alguma Temperatura Máxima com aquela moqueca, muita pimenta, cerveja trincando no bucho e um joguinho do Galo ou da Lusa na sequência.

Quanto ao nome do herói e as opções à pegadinha óbvia com a sua transformação, para mim, não há dúvidas...


O Billy Batson dos anos 70 é que sabe das coisas.

Ps: quando moleque, queria muito dar uma surra nesse cara.
Pps: tem duas cenas pós-créditos, bobas, esquecíveis e caras de mamão. Mas eu ri.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

PÁGINAS DA VIDA


Como transformar uma causa nobre em filme de Hollywood? Perguntem a Edward Zwick. Ele sabe. E não estou depreciando esta “sabedoria” ao afirmar isto. De certa forma, o cara pode até ser conscientemente sábio. Afinal, não tenho dúvidas que Diamante de Sangue (Blood Diamond, 2006, EUA) vai ter muito mais audiência do que um Hotel Ruanda da vida jamais sonhou ter. Resta saber se a massa vai pegar o impacto das questões do pano de fundo ou só vai lembrar que Jennifer Connelly é gostosa até mal vestida. Estaria sendo tendencioso ao tomar só este filme como parâmetro, mas uma olhadela no IMDB deixa ver que, além deste, Ed dirigiu O Último Samurai, Coragem Sob Fogo e Nova York Sitiada, entre outros. Sou sincero ao dizer que realmente não lembro bem dos dois últimos, a não ser por NYS ter sido rotulado como filme-Mãe-Dinah ao prever o 9/11. Já n’O Último Samurai, fez a festa com liberdades criativo-poéticas na sua visão da sociedade japonesa do século passado, com direito a Tom Cruise pegando viúva de samurai e o escambau. Se isto não é Hollywood’s Delivery, então eu não sei o que é.

Mas péra lá... o filme é ruim? Claro que não. O Último Samurai também não era, mas meu lado meio purista (nestes casos) deu lá suas reclamadas ao entender que a oportunidade panfletária é boa demais para o maniqueísmo e a fórmula padrão blockbuster. A impressão que dá é a de que um roteirista refugiado de Serra Leoa ofereceu seu script num McDonald’s de Los Angeles e o atendente gritou: “Zwick, pede ao Charles (roteirista do filme) para fazer um McScript nº4 neste aqui.” Tsc...deixa eu parar de reclamar, já que me diverti pacas assistindo.


Diamante de Sangue acontece no fim da década de 90, quando os conflitos na África moldaram esta idéia que a gente tem de “África” como a definição completa de um local, ao invés de um conjunto de países independentes. Não bastando as diferenças tribais, tem ainda a exploração que o “mundo civilizado” faz dos recursos locais. No passado já foi a borracha, petróleo etc. No momento apresentado, eram os diamantes. A Guerra Civil come solta e os dois lados, governo e rebeldes, são bancados pelos comerciantes das jóias. No meio deste ambiente conturbado temos Solomon Vandy (Djimon Hounsou) sendo afastado de sua família e escravizado nas minas de diamantes, quando os rebeldes tomam conta do lugar. Na mina, ele encontra um diamante do tamanho de uma amêndoa, 100 kilates, mas um conflito se inicia e ele o esconde. Entra em cena Danny Archer (Leonardo DiCaprio), um mercenário do Zimbábue¹ descrente da utilidade de conceitos morais que ouve falar do diamante e passa a caçá-lo para conseguir sua paz fora daquele continente. No meio do conflito, surge a jornalista Maddy Bowen (Jennifer Connelly), candidata a catalisadora da provável redenção moral de um e do reencontro com a família de outro.

A despeito da narração inicial, que destaca a ausência de mocinhos em guerras civis como esta, o resto do filme coloca a pecha de vilão nas costas dos infanto-rebeldes-que-ouvem-hip-hop, enquanto o governo posa de mantenedor da ordem. O terceiro elemento é o interesse estrangeiro e a carga moral que move a trama, ou seja, a dondoca que compra a jóia sem se preocupar com a origem da mesma e o executivo que só visa o lucro e banca o conflito. Há de convir que um plot destes é álcool o suficiente criar um roteiro de pegar fogo e dar tapa na cara de espectador, mas a coisa é diluída em litros e litros de ação rambesca e transforma alquilo que tinha potencial para ser uma bagaceira de arrancar tripa em uma Smirnoff Ice. Curioso como, em dado momento, temos uma espécie de metalinguagem, quando Maddy diz que não sente muito futuro no que faz, já que as notícias que consegue ali, longe de ter o impacto que deveriam, vão passar no jornal da noite entre a parte de esportes e o escândalo da última celebridade. Realmente a sociedade não leva o assunto a sério, assim como o filme, mas Joaquin Phoenix conseguiu melhor impacto com frase parecida em Hotel Ruanda.


Às vezes o roteiro se lembra que o background em tela é pesado e volta a tratar o assunto, mas logo depois esquece e volta à ação que diverte e desperdiça. Nesta salada, destaco a seqüência que mostra a guerra civil comendo solta na cidade, quando a câmera nos leva em vielas apertadas e dá a impressão de desespero mesmo, como se estivéssemos vendo tudo numa seqüência de flashes.

Destaco também as atuações. Djimon, como sempre, está ótimo. Seu papel tem peso enorme e ele o carrega com facilidade. Não sou pai, não consigo sintetizar o que alguém que vivesse aquilo poderia sentir naquele caso, mas deve ser realmente um sentimento pungente. Já Jennifer, não acho que seu papel teve lá muita exigência. Assim, posso dizer que ela foi competente. Não é culpa dela se o roteiro a colocou numa situação que não tinha como passar sentimento verdadeiro, assim como não é culpa de DiCaprio ter que parecer canastrão em algumas seqüências.


Recentemente, em um grupo de discussão, foi debatido sobre quem seria melhor, Pitt ou DiCaprio. Lembro ter dito que reconhecia a qualidade do trabalho deste último, mas o problema é que a cara de moleque dele tirava toda a credibilidade da atuação. O rosto de porcelana caia muito bem em Prenda-me se for capaz e Titanic, sem entrar no mérito da qualidade dos filmes, mas não tinha como sentir que um "moleque" tinha o poder e a autoridade de um Howard Hughes. Não tinha como sentir que um "moleque" tinha a obstinação e a garra de Amsterdam Vallon. Não tinha. Agora tem. Finalmente o "moleque" conseguiu cara de homem. Umas rugas aqui e ali deram seriedade e aderência às palavras do ator. O sotaque e maneirismos da África do Sul são... bem... nunca estive na África do Sul e nunca tive como conhecer seus costumes e comportamento, mas não tenho como negar que Leonardo construiu um personagem tridimensional. Ele tem passado, ele tem presente, ele tem vícios, ele tem costumes e tudo isto parece natural. Parece dele. E convence. Conseguiu até fazer uma troca de socos com Djimon parecer verossímil, coisa que, se acontecesse um ano atrás, o negão seria julgado por infanticídio antes mesmo de a porrada estancar. No entanto, mesmo com atuação impecável, o McScript nº4, seus clichês e soluções prontas dão um jeito de fazê-lo parecer um Stallone Cobra aqui e ali. Merece a indicação ao Globo de Ouro.

Seu eu lesse novamente meus textos, teria certeza que não ficaria muito motivado a ver Diamante de Sangue, mas não é o caso. Além de divertir, ainda serviu para informar à minha namorada que, infelizmente, não poderei comprar nunca um diamante para ela. Tenho agora que encontrar desculpas parecidas para outros objetos de consumo...


¹ - O Zimbábue foi colonizado pela Holanda, daí a caracterização da personagem.

domingo, 13 de março de 2005

MAGOS, TRAPAÇAS & MIL CIGARROS FUMEGANTES


Em um mundo perfeito, um filme sobre John Constantine teria o Mickey Rourke fase 1981/1990 no papel principal. Aliás, não só o Mickey, mas também um diretor refinado e criador de atmosferas tensas, como Alan Parker, comandando a desconstrução de uma saga gótica pontuada por uma inevitável, mas inesperada, redenção. E um ator austero e obsessivo, imerso em um oceano de introspecção e obscuridade, tal qual Robert De Niro quando resolve ser a Encarnação do Mal. Enfim, tirando uma coisinha aqui e adaptando outra acolá, acho mesmo que o filme Coração Satânico daria uma bela adaptação cinematográfica do mago inglês.

Isso sim seria sonhar com o impossível...


...ao contrário da possibilidade de Gordon Matthew Sumner, o Sting, interpretar o personagem. Além de ser a base que ajudou Alan Moore a captar o espírito de Constantine (e de uma forma ainda mais intensa do que a idealização Rutger Hauer/Lestat de Anne Rice), Sting está por aí, vivinho da silva, com aquela mesma expressão enigmática e, acima de tudo, ainda um bom ator, como sempre foi - vide o seu Barão Frankenstein no belo A Prometida, e, claro, sua pequena e ótima participação em Jogos, Trapaças & Dois Canos Fumegantes.

...sem contar que ele foi o líder do Police, uma boa banda... mas vamos parar de viajar e trabalhar com o que temos. :)

Sabe, talvez seja melhor você não ler o resto se ainda não assistiu ao filme. Não que eu vá revelar algum spoiler sem avisar antes, não mesmo... mas é que fiquei muito feliz ao redescobrir a maravilha que é degustar lentamente uma projeção sem fazer idéia do que está por vir. Entrei na sessão sem saber praticamente nada do roteiro. Deveria ser sempre assim, independente se a experiência for boa ou não. Recomendo.


Pra situar: John Constantine é o personagem mais tridimensional e idiossincrático dos quadrinhos. Nem de longe ele lembra o maniqueísmo e a correção política habitual das HQs. Grande parte de seus êxitos se deve mais a sua malandragem do que aos seus dons sobrenaturais. Mas isso não o impede de expor fraquezas de espírito tão extremas quanto a sua esperteza. Ao mesmo tempo em que mostra o dedão para um Lúcifer babando de ódio, ele foge apavorado de um "simples" serial killer sem rosto. Com o passar dos anos, sempre em contato com os três lados da natureza (o que deixaria qualquer um pirado) e colecionando inimigos no Céu, na Terra e no Inferno, Constantine se tornou uma versão decadente e dissimulada de um molde original que já não era lá essas coisas. Definitivamente, é o sujeito dos quadrinhos a quem eu escolheria pra jogar conversa fora e encher a cara num pub londrino.

A primeira surpresa na produção de Constantine (2005) foi a escalação de Keanu Reeves para viver o personagem. Com o eterno ar californian boy (apesar de ser libanês), Reeves não tem nem 1% da aura enegrecida e espirituosa de Constantine, e só está aqui devido ao seu status de segura-bilheteria pós-trilogia blockbuster. A segunda paulada na nuca dos fãs foi a mudança da naturalidade do mago e de sua localização geográfica. Saem a sua Liverpool natal e as vielas mal-assombradas de Londres, entra Los Angeles, Califórnia. E a parte mais radical da adaptação pára por aí. De resto, são apenas texturas e nuances reinterpretadas e pouco relevantes, mesmo para aqueles admiradores mais xiitas, que têm todas as edições de Hellblazer ainda no plástico.

Só lembrando que um filme não é uma HQ e, portanto, não tem as obrigações de tal - mas sim a ética de oferecer um tratamento digno da fonte.

Depois dessa sentença quase-babaca mas necessária, eu diria que Constantine tem uma premissa que é mais ou menos um greatest hits de muito do que o mago já encarou em sua cronologia quadrinhística. Bem rapidinho e sem detalhes: o filme retrata uma guerra velada entre o Céu e o Inferno, e a tentativa demoníaca de transpor as barreiras divinas para conquistar a Terra e reescrever o Apocalipse. No processo, eles esbarram em vários "intermediários", como o próprio Constantine, seu jovem aprendiz Chas (Shia LaBeouf), Papa Meia-Noite (o ótimo Djimon Hounsou, de Amistad), e em vítimas-chave, como Angela Dodson e sua irmã gêmea, Isabel (ambas interpretadas pela bela Rachel Weisz).


Se essa linha básica já soa rebuscada pra você, cultuador de Anjos Rebeldes e Advogado do Diabo, posso dar a boa notícia de que, ao longo do filme, vão pipocando informações e características bem peculiares, pra não dizer insólitas (fruto direto da autenticidade dos quadrinhos), inclusive na reta final, meio paralela ao standard hollywoodiano. Confesso que não esperava tal desenvoltura do diretor Francis Lawrence, mais um vídeo-clipeiro estreando com uma adaptação de HQ (isso já tá ficando surreal), e do roteiro de Kevin Brodbin e Frank Cappello. Mesmo com uma boa concepção para o visual do Inferno - uma metrópole em chamas - o uso do CG no design dos demônios ficou um tanto batido. Os alados ficaram idênticos ao demônio que Eddie Murphy enfrentou em O Rapto do Menino Dourado, e os rastejantes são bem parecidos com os hunters de Resident Evil. Mas eles têm sua função pré-determinada na narrativa, não influenciando picas a quantidade de pixels que os envolvem. No final, são mesmo as caracterizações humanas (e sobre-humanas) que acabam se sobressaindo.

Num lampejo de fé e boa vontade, cometeram um arcanjo Gabriel bem interessante (interpretado na medida pela inglesa Tilda Swinton). Andrógino e perigoso justamente pela sua subserviência cega ao plano divino, Gabriel trava com Constantine alguns dos melhores diálogos do filme - aquele primeiro na biblioteca foi uma maravilha que só. Outro personagem interessante é Balthazar (Gavin Rossdale), um mensageiro do Inferno com um visual clean executivo. Apesar de instigante ao influenciar negativamente sem interferir no livre-arbítrio e de manter uma concorrência meio salafrária (e não-explicada) com Constantine, ele acabou sendo pouco explorado na trama, o que é uma pena. Já Rachel Weisz está em seu auge como atriz, se destacando mesmo em um pop movie como Constantine. Segura, sempre no tom certo, desviando fácil de clichês interpretativos, e, acima de tudo, "linda como um Monet", Rachel está em franca campanha para abocanhar aquele pepino dourado que Hollywood oferece todo ano.

E Keanu. Keanu Reeves é mais um conceito ambulante do que um ator. Ele é sim um ator limitadíssimo, mas ele sabe disso. Espertamente, o cara não arrisca nenhum preciosismo, tons mais altos ou inflexões histéricas. Sua interpretação varia do discreto ao introspectivo, característica sabiamente utilizada em seus "diálogos" com grandalhões da atuação como Al Pacino, Gene Hackman e Frank Langella. Em outras palavras, Keanu não atrapalha. Mas só isso não é o suficiente para um papel como o de John Constantine, já que o mago cultiva uma personalidade bem peculiar: é arrogante, calculista, canalha e um anti-herói por profissão (e opção). Uma má companhia que desvia qualquer um do bom caminho. Tipo Marcelo Nova quando começou a andar com Raulzito.

Mas, por fim, a abordagem preocupada, tristonha e contida de Keanu acaba encontrando um elemento no roteiro como respaldo (um dos lances greatest hits que eu comentei). Além do mais, ótimas seqüências como a do exorcismo hardcore em uma menina endemoniada, logo no começo, e o profissionalismo de Constantine ao enfrentar um monstro escroto (que é a própria letra de Bichos Escrotos em live-action!) e uma revoada de demônios durante um blecaute, são diversão garantida. Dessa vez passa.

A seguir, um comentário com SPOILER. Tenha medo, tenha muito medo...

Marque o texto logo abaixo da imagem.



A medalha de prata da categoria "poderia ser melhor", infelizmente, vai para Lúcifer e seu filho. Quem é leitor assíduo das publicações do selo Vertigo, e conferiu pérolas do calibre de A Opção Estrela-da-Manhã e Cartas na Mesa, vai se decepcionar com o senhor das trevas nesse filme. Interpretado pelo excelente Peter Stormare, "Lu" acaba desperdiçado pelo roteiro, só aparecendo bem no final e se revelando nada mais do que um palhaço do inferno, quase um Coringa das profundezas. Nas graphic novels, ele é perspicaz, insidioso, estrategista, manipulador, calculista e extremamente charmoso... um tour-de-force de atitudes e emoções tão perversamente elaboradas pra levar vantagem em tudo, que só encontra paralelo na quase vilania de Constantine - não por acaso, sua única contraparte à altura. Já o "filho" de Lúcifer é uma decepcionante propaganda enganosa... poderiam ter concebido uma ameaça ainda mais hedionda do que o Tinhoso, mas, fora a possessão no rapaz chicano e a azia cavernosa que ele dá na personagem de Rachel Weisz, em nenhum momento ele mostra sua cara feia. Pena.

É visível que o filme se preocupa em estabelecer uma conexão mais íntima com o material das HQs. Basta observar que a história não é entregue de bandeja ao público mais preguiçoso e que o próprio Constantine não é banalizado como um bastião na "luta entre o Bem e o Mal". E ainda por cima, conseguiu decodificar o contexto dos quadrinhos para uma linguagem bem mais acessível, sem maiores traumas e sem perder aquela verve tétrica da narrativa. Constantine acaba virando a mesa sobre os pessimistas de plantão (ó eu lá) e se firmando como um lugar-comum agradável para gregos e troianos - ou para fanboys fundamentalistas e o publiquinho fã do final de O Sexto Sentido.

Nesses tempos em que os estúdios são tentados (por Lúcifer?) a descaracterizar totalmente os personagens de HQs em suas adaptações para o cinema, acredite... isso é uma virtude e tanto.

E aos detratores... com a palavra, o próprio John Constantine.



dogg terminou de escrever esse texto ao som de Sympathy For The Devil - a aventura demoníaca de Mick Jagger à base de samba (palavras do próprio). Eu hein... mangalô-pédepato-trêsvezes... :P