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quinta-feira, 2 de julho de 2009

HOLLYWOOD, O SUCESSO


Geralmente, quando vou ao cinema assistir uma continuação, procuro antes rever o filme anterior. Só pra entrar no clima, pescar eventuais pontas soltas, estabelecer alguns parâmetros comparativos, por aí vai. Mania besta, eu sei. Por sorte, não tive tempo de fazer isso antes de ver Transformers: A Vingança dos Derrotados (Transformers: Revenge of the Fallen, USBay, 2009). Eu teria uma overdose e sofreria a mesma reação convulsiva daqueles pequenos que assistiram Pokémon no cinema. Sairia carregado de maca em posição fetal, balbuciando "no no no nonononono!!". Jamais retornaria daquele estado de catatonia sensorial; estaria preso para sempre no Bayworld, o mundo segundo as lentes pirotécnicas de Michael Bay, onde tudo é frenético, imediato, espásmico. Método Ludovico perde.

Por algum motivo que me foge agora, no fundo, eu tinha esperanças que esta sequência trouxesse algumas diferenças substanciais em relação ao primeiro. Que nada. Eu poderia apenas repetir o texto anterior, caprichando nos superlativos, que ainda estaria sendo absolutamente fiel. Aqui se faz a velha máxima do bigger, stronger & faster, versão Godzilla vs. Mothra entupidos de ácido. Com seu estilo inconfundível (influenciado pelos comerciais da Hollywood?), Bay continua gritando "explosão" ao invés de "ação". O roteiro à tres manos é cúmplice, e nessa Bay vai imprimindo suas convicções pessoais da forma mais escancarada possível. Sabemos que ele é o típico macho americano - sexista (ou Foxista?), reacionário e ultrarepublicano. Ao menor sinal de perigo, faz Obama correr para o bunker mais próximo, enquanto os milicos salvam a pátria. Sutil. E falando neles, na maior parte das cenas de ação, o filme lembra um vídeo institucional de propaganda das Forças Armadas. Close naquela bazuca. Enquadra aquele tanque. Cadê os AWACs que eu pedi? Em formação, em formação! Go, go, go, go! Bay loooves the army. Reclamações? Talk to the hand. Ele não tá nem aí com a cor do caqui.

E sou eu que vou esquentar? No no no nonononono. É o que eu digo e repito aqui por extenso: mais do que qualquer outro, Transformers não é filme pra crítico. Ele não seria um profissional competente se elogiasse este acinte à sétima arte. Essa coisa qualquer que foi criada apenas pra vender brinquedos e que, assumidamente, não se leva a sério. Porque crítico não é público, é fiscal do Detran de ressaca numa segunda-feira. E com certeza, pôs um ovo a cada frame que Michael Bay usou para macular na telona o seu tão adorado cinema. Bom, foram duas horas e meia só aqui.

Porém, no quesito pão e circo, é inquestionável: Bay bomba. Ele é um completo despudorado. Exibindo a desenvoltura maquiavélica de um gerente de puteiro, dá ao público que saiu de casa pra ver Transformers exatamente o que ele foi buscar lá... piadinhas sujas, anfetamina em celulóide e a rainha da bateria, Megan Fox.


A escalação do elenco aposta no que deu certo antes. Novamente, são jogados na parede, a 550 km/h, os mesmos LaBeouf (Sam), La Fox (Mikaela), Kevin Dunn (pai de Sam), Julie White (mãe de Sam), Josh Duhamel (milico #1), Tyrese Gibbs (milico #2) e, que surpresa, John Turturro (Simmons). Curioso como todo o elenco agora atua na mesma frequência de Turturro, ao passo que no primeiro filme ele foi o único que sacou o terreno trash em que pisava. Aliás... Turturro, "olhe em seu coração"... encha a burra por mais um ou dois Transformers e dedique o resto da carreira a atuar em filmes de verdade.

A história desta vez mostra Sam tentando levar uma vidinha normal e ingressando na facul, mesmo com um autobot na garagem e a namorada na oficina. O maior conflito entre os dois pombinhos é ver quem se arrisca a falar "eu te amo" primeiro. Cute. Com Megatron jazendo no fundo do Abismo Laurenciano e os Decepticons sobreviventes levando uma dura do exército em parceria com os Autobots, tudo caminha para uma resolução positiva entre humanos e alienígenas. Mas a aparente calmaria só dura até os heróis se depararem com uma nova ameaça: Fallen, o Prime renegado.

A sequência de abertura, contando a origem do vilão, ficou até interessante. Chegou a me lembrar da versão de Neil Gaiman e John Romita Jr. para Os Eternos. Pena que no mesmo pacote vieram a dinâmica warp de Bay e a narração em off ultracanastrona de Optimus Prime (embora em concordância com a verve pomposa do personagem nos desenhos). Sem tempo ou vontade para construir qualquer sustentação dramática, o filme vai metralhando personagens na tela indiscriminadamente, tal qual o Transformovie #1, e sabemos bem onde isso vai dar (até hoje quero saber o paradeiro da Maggie, a loirinha fabulosa que ameaçou o reinado da Megan Foxy Babe no primeiro filme). Em um núcleo, temos os colegas de república de Sam, que mantêm um hot site com novidades conspiratórias. Dali é pescado o histriônico Leo (Ramon Rodriguez), que faz as vezes de coadjuvante cômico. Até que não foi mau negócio, já que o cara protagoniza uma cena genuinamente engraçada (a do taser) e uma outra onde seu rosto petrificado já salda 1/4 do ingresso.

Também temos o inevitável mala engravatado do governo (papel que seria de William Atherton em tempos idos) e toneladas de novos Decepticons. Toneladas. Se no primeiro filme meia dúzia deles deu aquele trabalho, não dá pra entender como eles não entram em conflito direto agora, já que estão em um número vastamente superior ao dos Autobots.

Enfim... chega a hora da porrada e vem a sensação de ser pego no meio de um tornado com a calça arriada. E juro que levei um safanão também.


A primeira grande sequência acontece em Shanghai. Sem enrolação, Autobots e uma unidade militar empreendem uma perseguição-monstro a alguns decepticons foragidos. Tão absurda quanto um pesadelo de Chuck Jones filmado pelos irmãos Coen com orçamento de nove dígitos. Robôs furam prédios, pulam pontes, explodem tudo e todos num ângulo de 360º. Ufa. E não é nem 2% do que está por vir. A conclusão do entrevero revela que finalmente Optimus Prime está honrando o nome e incorporando bem mais do desenho oitentista do que apenas a entonação vocal. Diferente do primeiro filme, o líder autobot aqui é uma máquina slasher trituradora de decepticons. O momento em que ele explode a cabeça do gigantesco Demolisher é singular. Puro Dirty Harry's Magnum Force. Faltou só ele dizer "do you feel lucky?".

Melhor ainda é o tour-de-force descaralhante na floresta, em que Optimus, sozinho, chuta com força os rabos de Grindor e Megatron. Graficamente impecável, sensorialmente confuso, foi quase informação demais para só duas retinas e um córtex. Um dia, os melhores videogames serão assim. Outra boa surpresa foram as cenas do Bumblebee. Normalmente pacífico, o ex-fusquinha luta como se fosse o Ray Park e varre o chão do deserto com as carcaças de Ravage e Rampage. Fora a merecida surra que ele dá nos irritantes autobots gêmeos.

Não vou negar que o design dos Bayformers não me agrada. São bagunçados, têm partes móveis em excesso e pouco se vê a combinação de suas formas robóticas com os veículos em que se transformam (o charme dos brinquedinhos desde sempre!). Isso prejudica particularmente as cenas mais aceleradas e qualquer transforminho dos comerciais da Citröen ganha de goleada nesse sentido. Tome como exemplo a aparição do Devastador, o aguardado decepticon combiner. É espetacular, de encher os olhos, mas não poderia ser mais broxante quando o comparamos com o robô original. Vê-lo em ação destruindo uma das pirâmides é a síntese desse desperdício faraônico (e merecedor desse péssimo trocadilho). Como seria mais bacana uma versão amigável aos olhos e mais próxima dos originais.

Mas sabe que a coisa toda me soou mais inteligível com o passar dos minutos? Talvez fosse o efeito daquele Redbull visual batendo ou minha percepção se acostumando - seguido da inteligência, já mediana, despencando. Seja como for, é o melhor CG que o dinheiro pode comprar. E utilizado com fomeagem hardcore para inspirar os guris a envergarem seus joysticks e estuprarem seus Playstation 3.

Só que o grande efeito especial do filme era bem outro. E já vinha sendo vendido, sem spoilers, desde o primeiro teaser promocional.


O cinema iraniano que me perdoe, mas Megan Fox é fundamental. Ela é a Mulher-Gostosa Ultimate. Bay sabe o diamante que tem em mãos e não se furta em colocar a moça empinando a bundinha logo em sua primeira cena. No resto do tempo, ela se dedica a fazer mais biquinhos do que a Kate Beckinsale em Van Helsing - há um recorde aqui, pessoal. Só não senti vergonha alheia porque fui lá justamente pra conferir isso em resolução 950.000 dpi.

Mas fiquei imaginando o que pensava Steven Spielberg, aqui produtor executivo, em ocasionais visitas ao set. Deve ter sido algo como "mas que piad... holy shit, que morena!".

Não deixa de ser irônico que a única real concorrência de Fox no filme seja uma linda decepticon. Alice (Isabel Lucas) é uma Pretender, uma linha obscura e tosca dos Transformers cujos integrantes podem se transformar em seres humanos e animais. No entanto, nem os recursos tecnológicos de uma avançada raça robótica se comparam ao shape da estrela principal.

E fico feliz em constatar que após alguns filmes, houve uma melhora significativa em sua... presença física. Megan Fox fucks!


Ao longo da projeção, ela nos brinda com um olhar dramático, uma boca dramática e um decote igualmente dramático. Todos essenciais para o enredo.


A entrega é total. E tome decote.


Em algumas cenas, ela tenta até atuar. E fica muito fofa!


...

La niña Fox mais o calhamaço de ação vertiginosa e produção top de linha. É exatamente o produto pelo qual paguei na bilheteria. E saí de lá bem satisfeito. De novo. O que não me deixa dúvidas quanto à natureza da franquia: Transformers é melhor puteiro da cidade.

Filme? Que filme?

quinta-feira, 29 de maio de 2008

INDIANA JONES E O REINO DO ARQUIVO X


Já nos primeiros segundos, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, 2008) estabelece o primeiro contato entre o último grande herói fictício de Hollywood e o modo americano de fazer cinema atualmente. Olhei direto nos olhinhos virtuais daquela toupeira-ou-roedor-que-o-valha sem notar que o filme já havia começado, certo de que era mais um trailer da Pixar ou de algum concorrente da maratona do CGI. Mesmo que tal conexão tenha sido involuntária, é, sob qualquer ângulo, sintomática. Indiana Jones retorna após um auto-exílio de quase vinte anos. Em termos, é o que deu certo ontem se encontrando com o que está dando certo hoje. Indy e seu universo pertencem a uma era em que filmes de aventura eram bem-amarradas compilações de grandes sacadas e inteligência no emprego de ganchos clássicos, não pedaços do céu despencando com efeitos de som e fúria digital. Ao menos não ininterruptamente para disfarçar conteúdo ou falta de.

Então. Sabe o que falta hoje? Essência. Feeling. Espírito da coisa. Aquilo que, por exemplo, Piratas do Caribe fez bem em dois filmes e mandou direto pra descarga no terceiro. E em se tratando de Indy, tudo fica ainda mais emblemático - neste flagrante encontro do velho com o novo, já é lucro se uma lasquinha daquele passado memorável permanecer intacta na transição. Caso contrário, ainda que sob a gerência do tubarão Spielberg e do ewok Lucas, é porque as regras mudaram de vez, não tem mais volta e eu não passo de um velhote resmungão, carente e saudosista - porém limpinho.

Mas o legal é assistir ao filme e ver que ainda está lá. O que torna esse universo tão especial está lá, inoxidável, juntamente com relíquias astecas, maias, sumérias, hebraicas, Harrison Ford e Karen Allen - mais as saudáveis companhias de Cate Blanchett, John Hurt e Shia LeBeouf. Por outro lado, o que fez do cinemão de aventura essa coisa boboca e cara-de-mamão que é hoje tenta, a todo custo, sabotar este novo/velho filme, insistente tal qual um Dick Vigarista a serviço do mainstream corporativo.


Aforismos à parte, o primeiro ato é tão peculiar e refrescante quanto poderia ser. E já começa realizando um velho sonho: uma seqüência inteirinha passada no misterioso depósito que conclui Caçadores da Arca Perdida. Interessante ver que fica localizado numa espécie de Área 51 (ou talvez a própria) e que Indy sequer sabia de sua existência - a breve ponta da Arca da Aliança foi ironia da fina. Claro que o contexto da "visita" não permite detalhes, mas, em compensação, o clima, a dinâmica e o sexagenário ator parecem ter sido preservados em carbonita desde o último filme. Sem dúvida nenhuma, Indy is back! - mas a doce sensação esbarra na inacreditável cena do teste nuclear. A premissa rende uma situação até curiosa e engraçada, mas acho que, sei lá, um bunker para fugas de emergência não teria sido uma solução menos... menos? Esta foi a primeira sinuosidade em baixo relevo do filme, que não chega a ser uma montanha-russa, mas tem antagonistas russos. Ou melhor, soviéticos. Ou melhor ainda... comunistas!

É a presença deles que traça o perfil mais historicamente complexo do roteiro. Estão lá toda a histeria anticomunista da década de 1950 e a sombra de uma iminente guerra nuclear supermotivando a vilã Irina Spalko (Blanchett), espécie de "Ilsa, She-Wolf of the SS" versão KGB. Além disso, todos sabem que Spielberg tem um carinho especial pela época. Pela música, pela juventude, pela política e até pelos aliens da época. O racha que dá início ao filme e a ceninha genial (e hilária) da briga de playboys X motociclistas só poderiam ter sido dirigidas daquele jeito por um romântico da carteirinha.

Por fim, a composição do personagem Mutt (LaBeouf), quase um tributo ao Marlon Brando de O Selvagem, e as controvérsias de um suposto evento ocorrido dez anos antes (o filme se passa em 1957). Neste ponto, Caveira de Cristal - Lucas se superou com este título - inova de maneira até surpreendente para quem esperava outra caçada atrás de algum ícone místico/religioso/metafórico.

Há quem estranhe o fator 'Arquivo X' presente no filme, mas, como reza a Física Quântica, tudo depende do observador. Só posso dizer por mim: Planetary, eventuais sessões à base de Taken e do subestimado longa de Arquivo X me fazem enxergar a proposta com sincera naturalidade. Mas qualquer um que já tenha lido as presepadas de Eram Os Deuses Astronautas? (antes ou depois de Feliz Ano Velho, tanto faz) já está habilitado a considerar a idéia de maneira mais receptiva. Senão, tenta essa: boa parte da ufologia funciona como uma extensão vanguardista da arqueologia. Ou: a ufologia está para a arqueologia assim como a parapsicologia está para a psicologia.

No mais, o objeto em questão é um McGuffin tão fantástico quanto "uma arca que torna qualquer exército invencível" ou um "cálice que dá a vida eterna". E assim o notório ceticismo de Indy também ganha seu upgrade.


O filme não escapa incólume às turbulências do roteiro, principalmente na tradicional seqüência de Indy atacando o comboio dos vilões. Nem mesmo a melhor equipe de 2ª unidade do mundo - e não duvido que fosse o caso - conseguiria convencer com uma floresta amazônica cujo solo é um tapete de tão nivelado, nativos peruanos que parecem treinados pelo Clã da Lótus Branca e uma péssima referência ao Greystoke remanescente. Isso sem falar na boca-de-fumo de formigas botocudas (a siafu africana), me lembrando imediatamente o ataque dos besouros assassinos de A Múmia, inclusive com uma das mortes idêntica. Decepcionante lugar-comum.

Cate Blanchett, atriz que engrandece a profissão a cada papel, recebeu uma missão ingrata. A natureza de sua personagem é por demais unidimensional e acaba se revelando insuficiente em seu lado da balança - ainda mais se compararmos com o primeiro e terceiro filmes da franquia, que contavam com uma variedade generosa de vilões se revezando no comando. Já o venerável John Hurt é uma escola dramática, mas também um completo outsider na escolha de papéis (ele foi o Homem-Elefante, oras!). Portanto tudo OK se a sua participação aqui acontece em 1ª marcha. E sem maiores comentários sobre Ray Winstone, como o vira-folha Mac. É um coadjuvante cômico ganancioso com o destino dos coadjuvantes cômicos gananciosos.

Todos os problemas que senti em relação à Caveira de Cristal refletem exatamente um típico clima de reencontro de veteranos. É a ressaca da festa da classe de 81. A curtição dos caras - e Karen Allen - em estar ali, juntos novamente, está estampada em cada frame dos 124 minutos do filme. E aos moldes antigos, sem readaptações na narrativa, sem urgência. A química volta a acontecer, mesmo que seu resultado se atenha à mais deslavada diversão sem compromissos que a série poderia se permitir antes de arriscar sua qualidade.

Rever Harrison Ford na pele de Indiana Jones é como rever um velho amigo que nunca nos decepcionou. Merecia um filme melhor, mas nesta altura do campeonato, isso já é tão valioso quanto um Santo Graal.

domingo, 22 de julho de 2007

NO NO NO NONONONONO


Todo mundo sabe como é o Michael Bay. O cara gosta de empunhar uma câmera como se fosse uma metralhadora. Bay não filma, ele fuzila. Planta as minas terrestres, joga as granadas, dispara os morteiros e grita "Ação!". O que vem a seguir são duas horinhas de firulagem pirotécnica, escoradas por edição vertiginosa, piadinhas infames, sexismo e aquela patriotada em câmera lenta de fazer corar as bochechas do Tio Sam. Estes são os termos de Bay, take it or leave it, e presença tão certa quanto um momento contemplativo num filme do Kurosawa.

Mas não vou ficar fazendo pose de intele-cu-tualzinho entendido em cinema iraniano e dizer que tais elementos não agradem vez ou outra. Afinal, cresci assistindo Rambo 2, Comando Para Matar e todos os Máquina Mortífera. Bay é apenas e tão somente um subproduto disso aí, com ênfase no 4 de julho. E, convenhamos, A Rocha e A Ilha foram bacanas em um nível quase sério de conversação - fora Con Air, dirigido na mesma tocada por Simon West, resultando no filme mais Michael Bay que Michael Bay não fez.
Temos o diretor, os equipamentos, temos a história. Transformers (idem, EUA e bota EUA nisso, 2007) era o case perfeito para um cineasta como Bay. Na adaptação haveria pouco o que contar e muito o que destruir. E Spielberg, puta velha que é, sabia disso. Nos anos 80, os personagens, baseados nos action toys da Hasbro, ganharam um background sob encomenda para o desenho animado e para os quadrinhos. Em um tom infanto-juvenil, a história versava sobre uma guerra civil num planeta artificial chamado Cybertron. De um lado, estavam os heróicos Autobots liderados por Optimus Prime com as cores da bandeira americana. De outro, os bad-guys Decepticons liderados pelo tirânico Megatron.

Eventualmente, a briga entre os dois clãs vem parar na Terra, onde os Autobots recebem a providencial ajuda de sidekicks humanos, como o jovem Spike e seu pai, "Sparkplug" Witwicky. Essa lasquinha de premissa era o máximo de complexidade que o universo dos personagens alcançava em seu primeiro momento. Para o filme, era a matéria-prima a ser trabalhada. Claro, depois houve até um desenvolvimento interessante, mais violento e grandiloqüente, ambientado num "futuro" (2005!) cujo clímax gerou um longa-metragem em 1986, excepcionalmente à frente dos padrões da época.


O velho Spike ganhou outra personalidade e outro nome. Agora ele é Sam (o ótimo Shia LaBeouf), e seu pai agora é apenas um coroa gente-boa e tapado (Kevin Dunn). Sam é tratado como um nerd em negação, tentando em vão driblar os valentões da escola pra chegar junto da estonteante Mikaela (Megan Fox) - justiça seja feita, o rapaz tem pressa nessa mudança de status e faz tudo isso da maneira mais corajosa, sarcástica e auto-confiante possível. A menina só não reconhece isso porque deve ser tão burra quanto bonita. Não demora muito e logo Sam e Mikaela se vêem às voltas com robozões de dez metros brigando por aí. A começar por Bumblebee, o simpático Fusquinha do desenho original, agora um Camaro.

Também temos um pequeno contingente militar no epicentro da ação. Liderados pelo Capitão Lennox (Josh Duhamel), alguns sobreviventes de uma base destroçada pelo Decepticon Blackout (um robocóptero) também passam o diabo ao serem atacados por Scorponok, outro Decepticon. E como não poderia deixar de ser em tempos de 24 Horas, temos o Secretário de Defesa norte-americano (Jon Voight) participando ativamente da aventura. Já o habitat preferencial do grande John Turturro é qualquer produção dos irmãos Coen, mas aqui ele faz um divertido MIB cuja organização mantém Megatron (vocais perfeitos de Hugo Weaving) congelado em segredo há anos.

Pelo roteiro, dá pra perceber que os três escritores contratados são broderzões de Michael Bay. Não só preservaram todas as características usuais dos combos cinematográficos do diretor, como chegaram ao ponto de citar até Armageddon numa das inúmeras piadinhas rasteiras do filme. Também se mostraram atualizadinhos com a cultura e-trash - o que tem de closes numa página do e-Bay e neguinho filmando pelo celular não é brincadeira. E não dá nem pra citar furos do roteiro aqui. Se isso já é carne-de-vaca em qualquer produção do gênero, em filme do Michael Bay é quase um regulamento estatutário. São muitos, de todos os tipos e tamanhos. Existem flutuações também. Vários personagens (como a gatíssima "nerd" Maggie) e situações (os robôs criados pelo Cubo AllSpark) são atirados ao limbo assim que deixam de importar para a narrativa. Mas admito que tenho esses vacilos como uma atração à parte. Isso que dá assistir filme B direto. A gente acaba ficando paternalista.

Só pra comentar sobre um errinho específico, em certo momento, Sam pergunta a Optimus Prime como eles aprenderam falar inglês e o bom Autobot responde dizendo "World Wide Web". Beleza, até aí tudo bem. Mas quando Megatron (que esteve preso no gelo por milhares de anos e vem sendo mantido congelado pelo governo há décadas) consegue se libertar, a primeira coisa que ele fala é "I am Megatron" e já sai praticamente cantando o hino americano por aí. Ou seja, até tentaram justificar o aprendizado do idioma, mas não se furtaram em desrespeitar as próprias soluções criativas. Deus, como eu adoro blockbusters.


A visão de Michael Bay é lisergia pura. Tem sua própria constituição de tempo e espaço. É algo viciante essa montagem de videoclip com cinema 180º - "viciante" no sentido de bad trip. Chega a dar um nó na cachola a distorção temporal que ele imprime na maioria das cenas. Tudo acontece rápido demais e em slow motion. É a mesma física usada em pesadelos. A edição estilhaçada faz com que os personagens cruzem os extremos do planeta no tempo de um comentário em off. Vou tentar descrever o momento em que o Secretário de Defesa vê um pelotão emboscado no deserto e manda o tradicional "tirem nossos rapazes de lá" - no "tirem...", uma cena mostra um porta-aviões e um grupo de pilotos correndo em direção aos caças; no "...nossos rapazes", os caças estão em pleno vôo; no "...de lá", os caças (mais um AWAC e um bombardeio) já estão no meio do deserto detonando o inimigo.

Assistir uma cena ou duas até que não traz danos significativos, mas duas horas e vinte minutos disso aí é pra fazer qualquer um sair andando do cinema com a sensação de gravidade zero. Estrago sensorial.

Do lado dos Decepticons foram escalados Starscream, Frenzy, Barricade (uma puta carreta de polícia com a inscrição "para punir e escravizar") e Bonecrusher, fora os já citados Megatron, Scorponok e Blackout. Dos Autobots, além de Optimus Prime e Bumblebee, comparecem Ironhide, Ratchet e Jazz. Todos os Transformers (graficamente irrepreensíveis) se provaram bem selecionados, mesmo que não faça muita diferença as peculiaridades de cada um em relação ao nível de destruição que eles causam - e a despeito de todas as possibilidades dos robôs terem sido exploradas ao máximo durante as lutas. A vantagem para os Decepticons é evidente, principalmente na superioridade de Megatron frente a Optimus. O que me surpreendeu e foi um tanto frustrante, visto que pouco antes o líder dos Autobots havia detonado um enorme Decepticon no braço, com a mesma habilidade de um Jason Bourne.

Já houveram grandes momentos no cinema com uma guerra acontecendo num centro urbano, mas nunca deste jeito. A batalha final é um exercício catártico e caótico, do jeito como só Michael Bay seria capaz. Porque ele não tem filtro. Em seu universo particular, não existe preocupação com enredo, diálogos e atuação. O limite de Bay é o limite do nonsense e não dá pra rivalizar com isso. O resultado é que, óbvia e inegavelmente, com todos os seus erros e até por causa deles, Transformers é o melhor blockbuster do ano.
Finalmente encontrei o substituto de Tropas Estelares pra quando eu quiser impressionar as visitas.


Na trilha: Money, Pink Floyd.

domingo, 13 de março de 2005

MAGOS, TRAPAÇAS & MIL CIGARROS FUMEGANTES


Em um mundo perfeito, um filme sobre John Constantine teria o Mickey Rourke fase 1981/1990 no papel principal. Aliás, não só o Mickey, mas também um diretor refinado e criador de atmosferas tensas, como Alan Parker, comandando a desconstrução de uma saga gótica pontuada por uma inevitável, mas inesperada, redenção. E um ator austero e obsessivo, imerso em um oceano de introspecção e obscuridade, tal qual Robert De Niro quando resolve ser a Encarnação do Mal. Enfim, tirando uma coisinha aqui e adaptando outra acolá, acho mesmo que o filme Coração Satânico daria uma bela adaptação cinematográfica do mago inglês.

Isso sim seria sonhar com o impossível...


...ao contrário da possibilidade de Gordon Matthew Sumner, o Sting, interpretar o personagem. Além de ser a base que ajudou Alan Moore a captar o espírito de Constantine (e de uma forma ainda mais intensa do que a idealização Rutger Hauer/Lestat de Anne Rice), Sting está por aí, vivinho da silva, com aquela mesma expressão enigmática e, acima de tudo, ainda um bom ator, como sempre foi - vide o seu Barão Frankenstein no belo A Prometida, e, claro, sua pequena e ótima participação em Jogos, Trapaças & Dois Canos Fumegantes.

...sem contar que ele foi o líder do Police, uma boa banda... mas vamos parar de viajar e trabalhar com o que temos. :)

Sabe, talvez seja melhor você não ler o resto se ainda não assistiu ao filme. Não que eu vá revelar algum spoiler sem avisar antes, não mesmo... mas é que fiquei muito feliz ao redescobrir a maravilha que é degustar lentamente uma projeção sem fazer idéia do que está por vir. Entrei na sessão sem saber praticamente nada do roteiro. Deveria ser sempre assim, independente se a experiência for boa ou não. Recomendo.


Pra situar: John Constantine é o personagem mais tridimensional e idiossincrático dos quadrinhos. Nem de longe ele lembra o maniqueísmo e a correção política habitual das HQs. Grande parte de seus êxitos se deve mais a sua malandragem do que aos seus dons sobrenaturais. Mas isso não o impede de expor fraquezas de espírito tão extremas quanto a sua esperteza. Ao mesmo tempo em que mostra o dedão para um Lúcifer babando de ódio, ele foge apavorado de um "simples" serial killer sem rosto. Com o passar dos anos, sempre em contato com os três lados da natureza (o que deixaria qualquer um pirado) e colecionando inimigos no Céu, na Terra e no Inferno, Constantine se tornou uma versão decadente e dissimulada de um molde original que já não era lá essas coisas. Definitivamente, é o sujeito dos quadrinhos a quem eu escolheria pra jogar conversa fora e encher a cara num pub londrino.

A primeira surpresa na produção de Constantine (2005) foi a escalação de Keanu Reeves para viver o personagem. Com o eterno ar californian boy (apesar de ser libanês), Reeves não tem nem 1% da aura enegrecida e espirituosa de Constantine, e só está aqui devido ao seu status de segura-bilheteria pós-trilogia blockbuster. A segunda paulada na nuca dos fãs foi a mudança da naturalidade do mago e de sua localização geográfica. Saem a sua Liverpool natal e as vielas mal-assombradas de Londres, entra Los Angeles, Califórnia. E a parte mais radical da adaptação pára por aí. De resto, são apenas texturas e nuances reinterpretadas e pouco relevantes, mesmo para aqueles admiradores mais xiitas, que têm todas as edições de Hellblazer ainda no plástico.

Só lembrando que um filme não é uma HQ e, portanto, não tem as obrigações de tal - mas sim a ética de oferecer um tratamento digno da fonte.

Depois dessa sentença quase-babaca mas necessária, eu diria que Constantine tem uma premissa que é mais ou menos um greatest hits de muito do que o mago já encarou em sua cronologia quadrinhística. Bem rapidinho e sem detalhes: o filme retrata uma guerra velada entre o Céu e o Inferno, e a tentativa demoníaca de transpor as barreiras divinas para conquistar a Terra e reescrever o Apocalipse. No processo, eles esbarram em vários "intermediários", como o próprio Constantine, seu jovem aprendiz Chas (Shia LaBeouf), Papa Meia-Noite (o ótimo Djimon Hounsou, de Amistad), e em vítimas-chave, como Angela Dodson e sua irmã gêmea, Isabel (ambas interpretadas pela bela Rachel Weisz).


Se essa linha básica já soa rebuscada pra você, cultuador de Anjos Rebeldes e Advogado do Diabo, posso dar a boa notícia de que, ao longo do filme, vão pipocando informações e características bem peculiares, pra não dizer insólitas (fruto direto da autenticidade dos quadrinhos), inclusive na reta final, meio paralela ao standard hollywoodiano. Confesso que não esperava tal desenvoltura do diretor Francis Lawrence, mais um vídeo-clipeiro estreando com uma adaptação de HQ (isso já tá ficando surreal), e do roteiro de Kevin Brodbin e Frank Cappello. Mesmo com uma boa concepção para o visual do Inferno - uma metrópole em chamas - o uso do CG no design dos demônios ficou um tanto batido. Os alados ficaram idênticos ao demônio que Eddie Murphy enfrentou em O Rapto do Menino Dourado, e os rastejantes são bem parecidos com os hunters de Resident Evil. Mas eles têm sua função pré-determinada na narrativa, não influenciando picas a quantidade de pixels que os envolvem. No final, são mesmo as caracterizações humanas (e sobre-humanas) que acabam se sobressaindo.

Num lampejo de fé e boa vontade, cometeram um arcanjo Gabriel bem interessante (interpretado na medida pela inglesa Tilda Swinton). Andrógino e perigoso justamente pela sua subserviência cega ao plano divino, Gabriel trava com Constantine alguns dos melhores diálogos do filme - aquele primeiro na biblioteca foi uma maravilha que só. Outro personagem interessante é Balthazar (Gavin Rossdale), um mensageiro do Inferno com um visual clean executivo. Apesar de instigante ao influenciar negativamente sem interferir no livre-arbítrio e de manter uma concorrência meio salafrária (e não-explicada) com Constantine, ele acabou sendo pouco explorado na trama, o que é uma pena. Já Rachel Weisz está em seu auge como atriz, se destacando mesmo em um pop movie como Constantine. Segura, sempre no tom certo, desviando fácil de clichês interpretativos, e, acima de tudo, "linda como um Monet", Rachel está em franca campanha para abocanhar aquele pepino dourado que Hollywood oferece todo ano.

E Keanu. Keanu Reeves é mais um conceito ambulante do que um ator. Ele é sim um ator limitadíssimo, mas ele sabe disso. Espertamente, o cara não arrisca nenhum preciosismo, tons mais altos ou inflexões histéricas. Sua interpretação varia do discreto ao introspectivo, característica sabiamente utilizada em seus "diálogos" com grandalhões da atuação como Al Pacino, Gene Hackman e Frank Langella. Em outras palavras, Keanu não atrapalha. Mas só isso não é o suficiente para um papel como o de John Constantine, já que o mago cultiva uma personalidade bem peculiar: é arrogante, calculista, canalha e um anti-herói por profissão (e opção). Uma má companhia que desvia qualquer um do bom caminho. Tipo Marcelo Nova quando começou a andar com Raulzito.

Mas, por fim, a abordagem preocupada, tristonha e contida de Keanu acaba encontrando um elemento no roteiro como respaldo (um dos lances greatest hits que eu comentei). Além do mais, ótimas seqüências como a do exorcismo hardcore em uma menina endemoniada, logo no começo, e o profissionalismo de Constantine ao enfrentar um monstro escroto (que é a própria letra de Bichos Escrotos em live-action!) e uma revoada de demônios durante um blecaute, são diversão garantida. Dessa vez passa.

A seguir, um comentário com SPOILER. Tenha medo, tenha muito medo...

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A medalha de prata da categoria "poderia ser melhor", infelizmente, vai para Lúcifer e seu filho. Quem é leitor assíduo das publicações do selo Vertigo, e conferiu pérolas do calibre de A Opção Estrela-da-Manhã e Cartas na Mesa, vai se decepcionar com o senhor das trevas nesse filme. Interpretado pelo excelente Peter Stormare, "Lu" acaba desperdiçado pelo roteiro, só aparecendo bem no final e se revelando nada mais do que um palhaço do inferno, quase um Coringa das profundezas. Nas graphic novels, ele é perspicaz, insidioso, estrategista, manipulador, calculista e extremamente charmoso... um tour-de-force de atitudes e emoções tão perversamente elaboradas pra levar vantagem em tudo, que só encontra paralelo na quase vilania de Constantine - não por acaso, sua única contraparte à altura. Já o "filho" de Lúcifer é uma decepcionante propaganda enganosa... poderiam ter concebido uma ameaça ainda mais hedionda do que o Tinhoso, mas, fora a possessão no rapaz chicano e a azia cavernosa que ele dá na personagem de Rachel Weisz, em nenhum momento ele mostra sua cara feia. Pena.

É visível que o filme se preocupa em estabelecer uma conexão mais íntima com o material das HQs. Basta observar que a história não é entregue de bandeja ao público mais preguiçoso e que o próprio Constantine não é banalizado como um bastião na "luta entre o Bem e o Mal". E ainda por cima, conseguiu decodificar o contexto dos quadrinhos para uma linguagem bem mais acessível, sem maiores traumas e sem perder aquela verve tétrica da narrativa. Constantine acaba virando a mesa sobre os pessimistas de plantão (ó eu lá) e se firmando como um lugar-comum agradável para gregos e troianos - ou para fanboys fundamentalistas e o publiquinho fã do final de O Sexto Sentido.

Nesses tempos em que os estúdios são tentados (por Lúcifer?) a descaracterizar totalmente os personagens de HQs em suas adaptações para o cinema, acredite... isso é uma virtude e tanto.

E aos detratores... com a palavra, o próprio John Constantine.



dogg terminou de escrever esse texto ao som de Sympathy For The Devil - a aventura demoníaca de Mick Jagger à base de samba (palavras do próprio). Eu hein... mangalô-pédepato-trêsvezes... :P