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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O PROTOCOLO DE KLAATU


Então fizeram mesmo. Cai mais um dos intocáveis, numa contagem de corpos... ou melhor, de clássicos que não parece ter fim em Hollywood. Não sei se é mera falta de idéias novas ou de uma geração substituta à altura (onde estão os novos Ridley Scott, John Landis, Joe Dante, James Cameron...?), mas a partir do momento em que temos um remake de nome O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, EUA, 2008), é porque o cenário já passou do estágio "preocupante". A idéia, claro, é completamente desnecessária. E não só porque o original de Robert Wise é sci-fi de apelo humanista que soa universal até hoje ou porque foi corajosamente engajado e apartidário no auge da histeria anticomunista, mas porque é atemporal em essência. Havia ali uma moral, um recado. Sendo assim, como um remake se justifica neste caso? Segundo a nova versão, muda-se a moral, muda-se o recado.

Em tese, até que faz sentido. O ser humano vive se diversificando na autodestruição. Nos anos 50, compreensivelmente, a Bomba era a endorser oficial do apocalipse - ou, ao menos, a ameaça mais imediata. Hoje, pensamos mais nela como um parente distante e (muito) desagradável, ao passo que assuntos como poluição industrial, degelo ártico/antártico, desmatamento indiscriminado e catástrofes naturais cada vez mais subseqüentes estão na ordem do dia. Desenvolvimento humano acelerado rumo ao colapso ambiental definitivo. Está tudo lá, em Wall-e. É nessa verdade inconveniente que o remake encontra sua raison d'être. Ok, vamos classificar isso como uma boa ideia*.

* estreando uma das novas regras ortográficas. Sinto como se tivesse acabado de cometer um crime.

Fora esta e mais algumas leves adaptações, o filme reedita a narrativa e o timing original quase magicamente e sem traumas. Impressiona como a premissa segue funcional e instigante após 57 anos (eu disse que era atemporal) - um ovni invade o espaço aéreo norte-americano e aterrissa em pleno Central Park. Os rapazes do Tio Sam prontamente se posicionam para receber o visitante e o resto é história. O alienígena Klaatu desce para se comunicar pacificamente, mas a xenofobia do homo "sapiens" fala mais alto e o pior acontece.

Uma reverência necessária aqui... no original, esta sequência é uma das mais arrepiantes e icônicas que o cinema já produziu: logo que sai da nave, Klaatu/Michael Rennie é atacado sem qualquer motivo senão o da ignorância; o autômato Gort é ativado e investe contra os agressores, mas é impedido por Klaatu, que, mesmo ferido, salva as vidas de seus algozes. Quase um Trotsky alienígena.

Um momento perfeito e emocionante (justamente homenageado por Luc Besson em O Quinto Elemento). Importante reconhecer que, no novo filme, a cena não tem - e sabiamente nem busca - o mesmo impacto, mas ainda assim é recriada elegantemente. E pontuada com uma versão da lapidar "Klaatu barada nikto" em inflexão extraterrestre quase ininteligível. Adorei.

Klaatu sobrevive, mas fica sob custódia do governo norte-americano. Sabatinado pelas autoridades, ele afirma trazer uma derradeira mensagem para os líderes da Terra, mas esbarra em desconfiança, sectarismo e burocracia - problemas, segundo ele, há muito superados em seu mundo. Apesar do pedido simples, Klaatu descobre que a humanidade está dividida demais para ouvir sobre sua própria destruição. Mais tarde, ele consegue escapar do cativeiro e se mistura à população para compreendê-la melhor e, talvez, oferecer-lhe mais uma chance de redenção. Enquanto isso, a deadline vai se aproximando.


O nome de Scott Derrickson na direção me animou bastante (como já comentei anteriormente). Cineasta sensato e climático, que respeita o tempo e a ordem dos acontecimentos - característica mantida aqui, apesar da típica produção blockbuster com dinâmica acelerada. Puxar o freio, no caso, não deve ter sido tarefa fácil para o diretor, visto que seria mais simples ceder às convenções do gênero e seguir a cartilha de Michael Bay para ameaças espaciais. Afinal, aqui também temos um robô gigante assustador e o marketing já é pré-moldado nestes casos. Não duvido que houveram "sugestões" neste sentido. Contudo, o andamento do filme segue em ritmo cadenciado, sério e sombrio como deveria, com a merecida atenção para as boas performances aqui presentes. Se há mais alguma coisa errada neste remake além de sua existência, e há, não é por inépcia do diretor.

Tenho certeza que agora vou horrorizar o requintado senso crítico dos cinéfilos, mas foda-se: Keanu Reeves está perfeito no papel revisado de Klaatu. Diferente da abordagem suave, naturalmente curiosa e até paternal de Michael Rennie, o Klaanu é uma porta de mogno maciço. Melhor ainda, um tronco de sequóia, incisivo e pragmático. Sua presença 100% seca, indiferente e desprovida de substância (especialidade involuntária do rapaz) deixa o personagem ainda mais austero e sem qualquer afinidade pela condição humana. Numa metáfora simples mas atualíssima pincelada pela personagem de Kathy Bates, Klaatu veio para fazer o que eles (as nações do Primeiro Mundo) sempre fizeram: extinguir os povos menos avançados. Em outro momento, Klaatu diz representar um grupo de civilizações e que a Terra jamais "pertenceu" à raça humana, já que são raros os planetas capazes de suportar formas complexas de vida - o que a torna um objeto de interesse literalmente universal. Levando em conta o vandalismo ambiental que cometemos aqui, não só justifica-se o ultimato dos ETs, como mostra que eles foram até bonzinhos em não incinerar todo mundo sem aviso prévio.

Uma vez destrinchada a fabulosa contra-atuação de Kleatu, fica mole destacar os demais. O elenco é de outro mundo, uma conjunção de astros e outros chavões estratosféricos. Em ordem ascendente: a sempre maravilhosa Jennifer Connelly simplesmente rouba pra si a personagem Helen Benson, agora uma conceituada astrobióloga (atualização pertinente e pra lá de necessária); Kathy Bates superinterpreta e confere uma postura protecionista e republicanóide, o contrário de seu correspondente burocrata do filme original; e o venerável John Cleese, no papel do Prof. Barnhardt, me faz querer abraçar o responsável pelo casting, tamanha a iluminação do sujeito. É dele o melhor e mais importante momento do filme, mesmo numa participação desgraçadamente curta.

Coincidentemente, a partir dali todas as boas expectativas vão sendo frustradas uma a uma em velocidade de dobra. O remake tinha lá suas chances de dignidade (correspondidas até ali com um trabalho sóbrio e competente), mas o que se sucedeu foi um frango escandaloso do roteiro adaptado por David Scarpa.


Sequências como a do "dia em que a Terra parou" per se, soam tão irregulares quanto um furo de lógica (ora, um simples pulso eletromagnético em escala global não seria um genocídio de qualquer maneira?), e a mudança de opinião de Klaatu no final soa exageradamente prematura, ao passo que seu conterrâneo levou 70 anos para ser humanizado. O plot sentimental envolvendo o filho adotivo de Helen, Jacob (Jaden Smith, chato pra caralho), ocupa minutos preciosos de tela e se arrasta muito além da conta. O resultado não poderia ser outro, senão a mais pura pieguice que redime tudo e a todos salva do apocalipse. Quer mais? Na hora, mais que lembrei do filme Esfera (o modo promissor como começa e o modo miserável como acaba).

Mas o caso mais triste é o de Gort (acrônimo terrestre para "Genetically Organized Robotic Technology"), pois, afinal, conseguiram realizar a parte mais difícil antes de colocarem tudo a perder. O golem artificial foi discretamente redesenhado, mantendo o visual humanóide e com uma textura parecida com a do Monolito Negro, de 2001: Uma Odisséia no Espaço. As semelhanças bacanas não param na estética: Gort também é indecifrável, ameaçador e parece ter poder suficiente para arremessar a Terra pra fora da Via Láctea. Parece só uma questão de tempo para o badass espacial voltar a chutar bundas como em 1951, porém... Do jeito que ficou, Frankie Muniz, em O Agente Teen, resolveria a situação sem maiores dificuldades. Decepcionante assim.

Durante pouco mais de uma hora, foi o filme que traduziria satisfatoriamente o clássico original para as novas gerações. De volta ao status de remake que jamais deveria ter existido, O Dia em Que a Terra Parou se tornou um exemplo perfeito de potencial inimaginável limitado pela falta de imaginação. Além do quê, a humanidade não anda merecendo redenção ultimamente. Muito menos uma com gosto de Spielberg.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O RETORNO DE GORT

Parecia inevitável. Chegamos ao remake de O Dia Em Que A Terra Parou. Depois disso, nada mais é sagrado em Hollywood. A péssima fase criativa da indústria já se fazia notar em refilmagens como A Profecia, Os Invasores e Eu Sou A Lenda, mas com certos símbolos não se mexe. O filme original de Robert Wise é um deles. Não apenas pela mensagem, atemporal (mesmo atrelada a um cenário geopolítico específico), mas também, principalmente, por seu valor cinematográfico.

Lançado em 1951, o filme trouxe efeitos visuais incrivelmente sóbrios e sofisticados para a época e recebeu uma produção impecável - não se viam muitos militares "reais" (com canhões, jipes, tanques e um contingente generoso em cena) nos sci-fi de antanho, considerados veículos B por excelência, sem tanta vocação para o mainstream. E pela primeira vez, o ET destoava da recorrente alusão comunista. Klaatu era um ser benevolente. Nós é que éramos os monstros. Clássico.

Tudo pronto para mais uma bomba anunciada, mas eis que chega o 1º trailer deste remake (cuja existência fui saber há pouco). Confesso que curti mais do que gostaria de admitir.



Ok, Keanu Reeves é um ator ruim (dãã), mas funcionou em Matrix. Seu ar frio e distante bateu com a aura messiânica que o personagem demandava. Aqui o princípio é quase o mesmo, num contexto até mais lógico e compreensível. Sinceramente, gostei dele aqui. Jennifer Connelly garante credibilidade (e muito mais) em cena e o elenco de apoio conta com Kathy Bates e John Cleese (uôu!). Pelo que percebi, muita coisa mudou na história. As obrigatórias seqüências de destruição em massa sugerem que Klaatu fará bem mais que um apagão global. E ao que parece, Helen (Connelly) vai chegar meio tarde pra dizer "Klaatu Barada Nikto". No último frame, vemos uma imagem do icônico Gort, o guarda-costas alienígena mais badass do Cinema.

Outra coisa... a música que rola no trailer me ganhou na lábia. Depois que Danny Boyle descobriu o Godspeed You! Black Emperor nasceu uma praga de trilhas atmosféricas. Não sei se essa canção é deles (ou seria do Mogwai?), mas foi determinante pra me vender a idéia. Cinema e shoegazer music nasceram um pro outro.

Agora as credenciais: o cineasta Scott Derrickson roteirizou e dirigiu o ótimo O Exorcismo de Emily Rose. Por outro lado, também realizou Hellraiser: Inferno, no início de carreira (mas até aí, o jovem James Cameron fez Piranhas 2: Assassinas Voadoras pra levantar algum... então tá 50/50). Já o roteirista David Scarpa escreveu A Última Fortaleza, que é realmente um bom filme.

Continuo execrando a idéia do remake. Mas se antes não esperava nada, agora já espero alguma coisa.


Trailer HD
DTESS (site oficial)


No playlist: Kaftwerk, Mininum Maximum.

terça-feira, 6 de junho de 2006

VANITY FAIR


"Behold! I send you out as sheep amidst the wolves"

Nada mais propício que um 6/6/6 para falar sobre as maravilhas que só o capeta pode proporcionar. O assunto é vasto! Poderia brincar com aforismos sobre fim do mundo: guerras do "demônio" do leste contra o oeste que provocariam o Apocalipse, o nascimento do anticristo, enfim, um seis de junho de 2006 seria estímulo para abordar muita coisa que já foi feita com o tema, mas também tornaria tudo muito disperso. Então preferi dar uma olhada mais atenta na abordagem que mais me impressionou até hoje, a ponto de perceber que The World's Worst Issues não tem nada a ver com o décimo oitavo anjo.

Até gostaria de falar sobe A Profecia (se tivesse visto), mas, em se tratando do anjo caído e assuntos afins, fico logo com a caracterização que julgo mais perfeita e adequada àquilo que imagino que seria sua persona. Advogado do Diabo (Devil's Advocate, 1997) é daqueles filmes que ficam fácil no meu top ten. Considero-o perfeito em todas as suas possibilidades, inclusive (e talvez principalmente) nos defeitos. Irônico, pois o texto de hoje escolheu um filme que passa ao largo do terror, gênero onde o cramulhão é habituée, e refugia-se em uma mistura de suspense e, sei lá, drama? Os americanos têm uma categoria ótima para este caso: thriller. Designação apropriada para aquilo que é ao mesmo tempo terror, suspense, drama, ficção e, por outro lado, não é nada disto. É o tipo de filme que te estimula, excita, deixa apreensivo, enfim... it thrills you. Simples assim. Curioso como algo banal como a classificação de um filme torna-se complicada ou "desencaixada" quando tentamos enquadrá-lo em categorias cartesianas, racionalmente criadas, e torna-se a coisa mais simples do mundo quando o classificamos segundo um critério emocional, passional, de acordo com o que sentimos enquanto o assistimos.

O filme acerta até na escolha do título. As duas palavras da versão original conseguem, numa tacada só, ser a sinopse, o tema e a matriz do filme; além de, por mais óbvio que seja (e tudo sempre é óbvio depois que é feito), compor um trocadilho perfeito e espirituoso como poucos. Difícil alguém não ter visto, mas somos apresentados a Kevin Lomax, jovem advogado de uma cidade do interior que nunca perdeu um caso na vida, mesmo que não acredite na inocência das pessoas que defende. Seu desempenho chama a atenção de um dos maiores escritórios de advocacia de Nova Iorque que o convida a fazer parte de sua equipe. A possibilidades de independência financeira e realização profissional convencem o jovem advogado que, ao chegar à cidade grande, passa a conviver com o presidente do escritório, John Milton, um envolvente advogado que atua em todo o globo e cuja presença magnetiza o ambiente. Não sei se estaria sendo injusto com Scarface e outras obras que sempre surgem na memória quando falam no nome de Al Pacino, mas o que ele faz com John Milton é literalmente demoníaco. Já ouvi por aí que um bom ator destaca-se em suas falas, mas atores excepcionais destacam-se em seus silêncios. Se esta frase fosse um verbete de um dicionário qualquer, ao lado teria a foto de Pacino em Advogado do Diabo. De preferência na cena da igreja, onde, num olhar só, é capaz de passar desprezo, sarcasmo, orgulho, vaidade e a mais perfeita "filhadaputicidade" que já vi por aí. Costuma-se dizer que o demo possui pessoas, incorpora, coisa e tal. Se for verdade, Belzebu deve estar revoltado, pois Pacino o possuiu, incorporou e chamou de minha nega! E pensar que o próprio Al achou que não estaria à altura do papel. Graças a Deus Pacino foi o Capeta.


Sua encarnação do demônio é, paradoxalmente, das mais simples que já vi. Alguns discordariam. Diriam que é dos mais complexos, que a lógica pela qual funciona não é a do maniqueísmo barato que povoa 90% das obras do gênero, que flutua nos tons de cinza da existência ao invés de sentar-se confortavelmente no trono do lado negro, que aqui adquire tridimensionalidade ímpar, dificilmente percebida em outras obras. Concordo com tudo, mas vejo que esta complexidade só existe se tentarmos ver o filme com a mesma característica cartesiana que torna difícil classificá-lo segundo o gênero. John Milton não deve ser entendido. Há que ser absorvido. Tudo aquilo que acima seria usado para dar a dimensão de um personagem complexo, ouso tomar como argumentos para mostrá-lo como simples ao extremo. Ele não pensa no que faz, deixa que o rio tome seu curso, que as coisas aconteçam como têm que acontecer, por mais que pareça o inverso. Vive em meio ao povo, só anda de metrô e faz da verdade sua maior arma. Simples assim².


Deixe-me dar algumas informações privilegiadas sobre Deus. Deus gosta de
assistir. É um pervertido. Pense nisto. Ele dá ao homem instintos.
Ele lhes dá este dom extraordinário e então o que Ele faz?
Eu juro; pela Sua própria diversão, pela Sua própria e
íntima piada cósmica, Ele estabelece as regras em oposição!
É a maior sacanagem de todos os tempos! Olhe! Mas não toque. Toque,
mas não prove! Prove, mas não engula. Hahahaha… e enquanto
você fica pulando de um pé para o outro, o que Ele está
fazendo? Ele está gargalhando! Ele é um sádico! Um senhorio ausente! Venerar a isto? NUNCA!!


A genialidade do filme te impede de dizer até mesmo que o demônio é mau. Mesmo quando retrata o significado das mulheres para o capeta, a despeito dos exageros de proporções bíblicas dos relatos do Al Satanás, não é diferente das posturas machistas de outrora, mas que ainda hoje perduram aqui e ali, onde o homem fala o que a mulher espera ouvir para conseguir o que quer e apenas o que quer. Claro, o que Charlize Theron (em começo de carreira e já ótima) sofre deliberadamente é um absurdo, mas a pedra fundamental de seu sofrimento, seu marido, não faz nada que tenha sido obrigado e ainda ajuda a tacar umas pás de cal. E ele faz isto porque quer. Em nenhum momento Milton usa de artifícios sobrenaturais para fazer com que Kevin Lomax tome as decisões que toma. Vemos o caos crescendo inexorável e puramente devido aos defeitos daquele que fora feito à imagem do criador. O diabo chega ao cúmulo de ser "bonzinho", propõe o porto seguro para Lomax – insiste na proposta – e mesmo assim ele falha, a vaidade mete o pé na porta com tudo! Toma conta dos eventos. Impressiona.


Não temo estar revelando spoilers quando menciono o capeta, pois, por mais que o fato só venha a ser revelado lá pelo final, é o tipo de verdade daquelas que todos sabem, como inconsciente coletivo, antes mesmo de começar o filme. Nem acho tampouco que esta seja a grande questão da obra.


"Melhor reinar no inferno do que servir no Céu"
________________________Kevin Lomax, citando Paraíso Perdido, de John Milton, o autor


Lá no começo eu disse que o filme acerta até nos seus erros. Pois é... 15 entre 10 pessoas acham Keanu Reeves uma porta. Um boneco de Olinda tem mais presença dramática do que ele. O cara que fez Cigano Igor o usou como meta no seu "laboratório" para composição de personagem. Entretanto, não vejo outra pessoa para ser Kevin Lomax. A opção inicial era Brad Pitt, depois John Cusack e Edward Norton, mas estes são muito mais atores que Reeves. Entendo o seguinte, Lomax não poderia ser interpretado por alguém brilhante. Ele tinha que ser falho. Legitimamente falho. Aliás... ser falho e ser escada. E isso é com ele mesmo. Afinal, John Milton é um personagem cuja verborragia inebria, o tempo inteiro incendeia as sensações com suas interpretações do homem e do cotidiano. Poucas vezes um filme teve tantas frases de efeito. Não é nem uma questão apenas de quantidade, mas principalmente de significado. Tantas frases que dá vontade de decorar e falar por aí de vez em quando. E não são soltas, gratuitas, pois todas se encaixam: usam de elementos alegóricos como céu, inferno e diabo para passar a mensagem básica de que, se as coisas não dão certo, não há nenhuma questão sobrenatural a atribuir culpa senão à própria natureza humana. Perceba que neste post reforço bastante que o filme se faz presente muito mais pela naturalidade do que se sente do que pela frieza do que se pensa.


Por mais que tenha o demônio como seu protagonista, a projeção é idônea. Nada mais natural do que representar os princípios torcidos da justiça do que ver o emissário do inferno como um advogado. Afinal, o advogado observa a lei, não faz justiça. O discurso final é suficientemente bem articulado para ser aplicado tanto a favor de Deus quanto do Diabo. Ninguém pode chegar e dizer que aquilo passa ao largo da verdade. Aqueles que desmerecem religiões podem usá-lo para defender ainda mais seus pontos de vista, da mesma forma que os defensores da fé podem usá-lo exatamente para dar mais força ao que acreditam. No fundo, o que sobra é a responsabilidade de cada um com seu meio e o que fazem com o tal do livre-arbítrio. Os argumentos do personagem de Reeves na defesa de seus clientes eram factuais, mas nem por isto justos. E certamente muito mais tendenciosos que os do próprio Milton.


"Free will. It's like butterfly wings: once touched, they never get off the ground.
No, I only set the stage. You pull your own strings. Free will, it is a bitch!"


Há filmes que, com o tempo, passam a gozar de mais prestígio. Que na época de seu lançamento, sabe-se lá o porquê, tiveram recepção aquém do que era esperado. Advogado é um destes. Ainda hoje não vejo o senso comum o colocando no panteão daquelas obras inabaláveis. Seu diretor, Taylor Hackford, continua desconhecido – era uma versão cinematográfica de one hit band até fazer Ray, filme que vingou muito mais por Jamie Foxx e seu Oscar do que propriamente pela qualidade de roteiro. Claro, teve filmes interessantes no passado, mas nada que chame atenção. Há que se destacar aqui suas opções técnicas para ênfase de elementos necessários, ou metáforas e citações presentes o suficiente para serem notados sem tornarem-se pseudo-personagens. Hackford destaca-se, por exemplo, ao mostrar como a tentação leva o homem ao limite, quando Milton conversa com Lomax no beiral da "varanda" de seu escritório, ou na representação do purgatório em relevo decorando a casa do demônio - dantesco -, onde ele não dorme e "fode todos em todo lugar". Até sincero este demônio se dá ao luxo de ser. Não sei e não creio que tenha sido intencional, mas Pacino não é exatamente um modelo de beleza e é baixinho, o que faz com os outros atores sempre o olhem de cima para baixo: "Underestimated from day one! You'd never think I was a master of the universe now, would ya?"

Sempre quis escrever sobre Advogado do Diabo, mas não é velho o suficiente para abordar como algo bom de antigamente nem novo o bastante para contribuir na avaliação de um lançamento. Só que em 1997 não existiam blogs e, se não aproveitasse o 6/6/6, teria que esperar mais 1000 anos para outra deixa.


"Vanity, definitely my favorite sin!"

domingo, 13 de março de 2005

MAGOS, TRAPAÇAS & MIL CIGARROS FUMEGANTES


Em um mundo perfeito, um filme sobre John Constantine teria o Mickey Rourke fase 1981/1990 no papel principal. Aliás, não só o Mickey, mas também um diretor refinado e criador de atmosferas tensas, como Alan Parker, comandando a desconstrução de uma saga gótica pontuada por uma inevitável, mas inesperada, redenção. E um ator austero e obsessivo, imerso em um oceano de introspecção e obscuridade, tal qual Robert De Niro quando resolve ser a Encarnação do Mal. Enfim, tirando uma coisinha aqui e adaptando outra acolá, acho mesmo que o filme Coração Satânico daria uma bela adaptação cinematográfica do mago inglês.

Isso sim seria sonhar com o impossível...


...ao contrário da possibilidade de Gordon Matthew Sumner, o Sting, interpretar o personagem. Além de ser a base que ajudou Alan Moore a captar o espírito de Constantine (e de uma forma ainda mais intensa do que a idealização Rutger Hauer/Lestat de Anne Rice), Sting está por aí, vivinho da silva, com aquela mesma expressão enigmática e, acima de tudo, ainda um bom ator, como sempre foi - vide o seu Barão Frankenstein no belo A Prometida, e, claro, sua pequena e ótima participação em Jogos, Trapaças & Dois Canos Fumegantes.

...sem contar que ele foi o líder do Police, uma boa banda... mas vamos parar de viajar e trabalhar com o que temos. :)

Sabe, talvez seja melhor você não ler o resto se ainda não assistiu ao filme. Não que eu vá revelar algum spoiler sem avisar antes, não mesmo... mas é que fiquei muito feliz ao redescobrir a maravilha que é degustar lentamente uma projeção sem fazer idéia do que está por vir. Entrei na sessão sem saber praticamente nada do roteiro. Deveria ser sempre assim, independente se a experiência for boa ou não. Recomendo.


Pra situar: John Constantine é o personagem mais tridimensional e idiossincrático dos quadrinhos. Nem de longe ele lembra o maniqueísmo e a correção política habitual das HQs. Grande parte de seus êxitos se deve mais a sua malandragem do que aos seus dons sobrenaturais. Mas isso não o impede de expor fraquezas de espírito tão extremas quanto a sua esperteza. Ao mesmo tempo em que mostra o dedão para um Lúcifer babando de ódio, ele foge apavorado de um "simples" serial killer sem rosto. Com o passar dos anos, sempre em contato com os três lados da natureza (o que deixaria qualquer um pirado) e colecionando inimigos no Céu, na Terra e no Inferno, Constantine se tornou uma versão decadente e dissimulada de um molde original que já não era lá essas coisas. Definitivamente, é o sujeito dos quadrinhos a quem eu escolheria pra jogar conversa fora e encher a cara num pub londrino.

A primeira surpresa na produção de Constantine (2005) foi a escalação de Keanu Reeves para viver o personagem. Com o eterno ar californian boy (apesar de ser libanês), Reeves não tem nem 1% da aura enegrecida e espirituosa de Constantine, e só está aqui devido ao seu status de segura-bilheteria pós-trilogia blockbuster. A segunda paulada na nuca dos fãs foi a mudança da naturalidade do mago e de sua localização geográfica. Saem a sua Liverpool natal e as vielas mal-assombradas de Londres, entra Los Angeles, Califórnia. E a parte mais radical da adaptação pára por aí. De resto, são apenas texturas e nuances reinterpretadas e pouco relevantes, mesmo para aqueles admiradores mais xiitas, que têm todas as edições de Hellblazer ainda no plástico.

Só lembrando que um filme não é uma HQ e, portanto, não tem as obrigações de tal - mas sim a ética de oferecer um tratamento digno da fonte.

Depois dessa sentença quase-babaca mas necessária, eu diria que Constantine tem uma premissa que é mais ou menos um greatest hits de muito do que o mago já encarou em sua cronologia quadrinhística. Bem rapidinho e sem detalhes: o filme retrata uma guerra velada entre o Céu e o Inferno, e a tentativa demoníaca de transpor as barreiras divinas para conquistar a Terra e reescrever o Apocalipse. No processo, eles esbarram em vários "intermediários", como o próprio Constantine, seu jovem aprendiz Chas (Shia LaBeouf), Papa Meia-Noite (o ótimo Djimon Hounsou, de Amistad), e em vítimas-chave, como Angela Dodson e sua irmã gêmea, Isabel (ambas interpretadas pela bela Rachel Weisz).


Se essa linha básica já soa rebuscada pra você, cultuador de Anjos Rebeldes e Advogado do Diabo, posso dar a boa notícia de que, ao longo do filme, vão pipocando informações e características bem peculiares, pra não dizer insólitas (fruto direto da autenticidade dos quadrinhos), inclusive na reta final, meio paralela ao standard hollywoodiano. Confesso que não esperava tal desenvoltura do diretor Francis Lawrence, mais um vídeo-clipeiro estreando com uma adaptação de HQ (isso já tá ficando surreal), e do roteiro de Kevin Brodbin e Frank Cappello. Mesmo com uma boa concepção para o visual do Inferno - uma metrópole em chamas - o uso do CG no design dos demônios ficou um tanto batido. Os alados ficaram idênticos ao demônio que Eddie Murphy enfrentou em O Rapto do Menino Dourado, e os rastejantes são bem parecidos com os hunters de Resident Evil. Mas eles têm sua função pré-determinada na narrativa, não influenciando picas a quantidade de pixels que os envolvem. No final, são mesmo as caracterizações humanas (e sobre-humanas) que acabam se sobressaindo.

Num lampejo de fé e boa vontade, cometeram um arcanjo Gabriel bem interessante (interpretado na medida pela inglesa Tilda Swinton). Andrógino e perigoso justamente pela sua subserviência cega ao plano divino, Gabriel trava com Constantine alguns dos melhores diálogos do filme - aquele primeiro na biblioteca foi uma maravilha que só. Outro personagem interessante é Balthazar (Gavin Rossdale), um mensageiro do Inferno com um visual clean executivo. Apesar de instigante ao influenciar negativamente sem interferir no livre-arbítrio e de manter uma concorrência meio salafrária (e não-explicada) com Constantine, ele acabou sendo pouco explorado na trama, o que é uma pena. Já Rachel Weisz está em seu auge como atriz, se destacando mesmo em um pop movie como Constantine. Segura, sempre no tom certo, desviando fácil de clichês interpretativos, e, acima de tudo, "linda como um Monet", Rachel está em franca campanha para abocanhar aquele pepino dourado que Hollywood oferece todo ano.

E Keanu. Keanu Reeves é mais um conceito ambulante do que um ator. Ele é sim um ator limitadíssimo, mas ele sabe disso. Espertamente, o cara não arrisca nenhum preciosismo, tons mais altos ou inflexões histéricas. Sua interpretação varia do discreto ao introspectivo, característica sabiamente utilizada em seus "diálogos" com grandalhões da atuação como Al Pacino, Gene Hackman e Frank Langella. Em outras palavras, Keanu não atrapalha. Mas só isso não é o suficiente para um papel como o de John Constantine, já que o mago cultiva uma personalidade bem peculiar: é arrogante, calculista, canalha e um anti-herói por profissão (e opção). Uma má companhia que desvia qualquer um do bom caminho. Tipo Marcelo Nova quando começou a andar com Raulzito.

Mas, por fim, a abordagem preocupada, tristonha e contida de Keanu acaba encontrando um elemento no roteiro como respaldo (um dos lances greatest hits que eu comentei). Além do mais, ótimas seqüências como a do exorcismo hardcore em uma menina endemoniada, logo no começo, e o profissionalismo de Constantine ao enfrentar um monstro escroto (que é a própria letra de Bichos Escrotos em live-action!) e uma revoada de demônios durante um blecaute, são diversão garantida. Dessa vez passa.

A seguir, um comentário com SPOILER. Tenha medo, tenha muito medo...

Marque o texto logo abaixo da imagem.



A medalha de prata da categoria "poderia ser melhor", infelizmente, vai para Lúcifer e seu filho. Quem é leitor assíduo das publicações do selo Vertigo, e conferiu pérolas do calibre de A Opção Estrela-da-Manhã e Cartas na Mesa, vai se decepcionar com o senhor das trevas nesse filme. Interpretado pelo excelente Peter Stormare, "Lu" acaba desperdiçado pelo roteiro, só aparecendo bem no final e se revelando nada mais do que um palhaço do inferno, quase um Coringa das profundezas. Nas graphic novels, ele é perspicaz, insidioso, estrategista, manipulador, calculista e extremamente charmoso... um tour-de-force de atitudes e emoções tão perversamente elaboradas pra levar vantagem em tudo, que só encontra paralelo na quase vilania de Constantine - não por acaso, sua única contraparte à altura. Já o "filho" de Lúcifer é uma decepcionante propaganda enganosa... poderiam ter concebido uma ameaça ainda mais hedionda do que o Tinhoso, mas, fora a possessão no rapaz chicano e a azia cavernosa que ele dá na personagem de Rachel Weisz, em nenhum momento ele mostra sua cara feia. Pena.

É visível que o filme se preocupa em estabelecer uma conexão mais íntima com o material das HQs. Basta observar que a história não é entregue de bandeja ao público mais preguiçoso e que o próprio Constantine não é banalizado como um bastião na "luta entre o Bem e o Mal". E ainda por cima, conseguiu decodificar o contexto dos quadrinhos para uma linguagem bem mais acessível, sem maiores traumas e sem perder aquela verve tétrica da narrativa. Constantine acaba virando a mesa sobre os pessimistas de plantão (ó eu lá) e se firmando como um lugar-comum agradável para gregos e troianos - ou para fanboys fundamentalistas e o publiquinho fã do final de O Sexto Sentido.

Nesses tempos em que os estúdios são tentados (por Lúcifer?) a descaracterizar totalmente os personagens de HQs em suas adaptações para o cinema, acredite... isso é uma virtude e tanto.

E aos detratores... com a palavra, o próprio John Constantine.



dogg terminou de escrever esse texto ao som de Sympathy For The Devil - a aventura demoníaca de Mick Jagger à base de samba (palavras do próprio). Eu hein... mangalô-pédepato-trêsvezes... :P

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005

A PRIMEIRA IMPRESSÃO É A QUE FICA, POR ISSO SANDY COLLORA SÓ FAZ TRAILERS


Antigamente aí nesse espaço à esquerda tinha uma micro-seção chamada "bombas se aproximando". O objetivo básico era apontar as próximas besteiras de Hollywood, através de uma primeira impressão baseada em sinopses do roteiro, trailers, fotos ou qualquer outro tipo de preview da produção. Acertei umas (Thunderbirds) e outras (Casseta & Planeta - A Taça É Nossa), sem contar as óbvias (Mulher-Gato), mas desisti após deixar passar incólume uma bomba nuclear de 1000 teratons (Van Helsing, que, inocentemente, fui ao cinema assistir). E certas produções me deixavam realmente na dúvida, como esse O Guia do Mochileiro das Galáxias, adaptação do livro homônimo de Douglas Adams. Eu achava que a transposição do livro para o filme faria a história perder todo o charme original. Bom, ainda não dá pra saber, mas pelo instigante trailer divulgado parece que o pessoal envolvido está fazendo o melhor possível. Os efeitos especiais estão de primeira e Martin Freedman está ótimo como Arthur Dent, um cara absurdamente normal numa situação surreal (e andando com o mesmo roupão durante toda a história). Tudo bem, tem algumas cenas que lembram muito ID-4 (as gigantescas naves pairando sobre as cidades) e um humor negro e uns aliens bem à MIB (até a trilha sonora do trailer é a mesma).

Enfim, o livro é ótimo, o trailer é bacana e o filme pode ser ótimo também. Ou não.

Trailer:
480x360 (26,4 Mb)
320x240 (11,7 Mb)


Esse aqui me interessa muito. Impressionante o trailer de A Scanner Darkly! Dirigido por Richard Linklater, o filme é baseado num livro (de novo!) do guru cyberpunk Philip K. Dick - o homem de Blade Runner, mas você já sabe disso. Devido a enorme influência do autor nas últimas décadas, a história já não soa tão inovadora para a atual percepção pop: no futuro, vemos um policial combatendo o tráfico de drogas. O problema é que ele tem dupla personalidade e a sua "outra face" é a de um dependente químico. Meio Estranhos Prazeres (Strange Days, com Ralph Fiennes), mas beleza. Além do elenco interessante (Keanu Reeves, Woody Harrelson, Winona Ryder, Robert Downey Jr. e Rory Cochrane), o filme traz a mesma técnica de animação empregada por Linklater em Walking Life.

Devo dizer que o trailer me animou bastante, e que se dane o trocadilho. A última vez que fiquei tão empolgado com os efeitos de um filme foi no injustiçado Amor Além da Vida (When Dreams May Come, 1998). Logo abaixo, Winona Ryder, Woody Harrelson, Robert Downey Jr. e Keanu Reeves, devidamente 'animatizados'.








Trailer:
320x240 (5 Mb)
480x360 (10,7 Mb)

Em tempo... alguém aí lembra do genial clip Brazil Banana Samba, da banda brazuca Yo-Ho-Delic?


EU ERA UMA PESSOA REALMENTE INTOLERANTE



Clique nas figuras para ampliá-las. Senão você não conseguirá ler o que está escrito nos balões.

Esse é o Frank Castle em seus primeiros dias (mais precisamente em Homem-Aranha #54 - dez/1987). Ele conseguia ser ainda mais paranóico e psicopático do que o personagem que conhecemos hoje. Castle era um foot in the eggs. O cara punia cuspida em via pública com uma rajada de Uzi. Dava tiro à revelia. Hoje ele pelo menos esquematiza alguma coisa, corre atrás dos verdadeiros chefões, ajuda alguns super-heróis e até poupa alguns meliantes. Acho que esse "amaciamento" se deve ao tratamento recebido por ele através de anos de bom trabalho roteirístico. Imagina se o Justiceiro continuasse um personagem obscuro dos anos 70, e sendo resgatado por um asshole do porte de Rob Liefeld? Só ia dar tiro e tripas voando. Seria um retorno às HQs sem balões.

Lembrei desse Castle-Lampião quando li o excelente artigo do Alcofa no MdM. Recomendo, muito foda. Ou melhor... megafodônico®.


Postaram esse post: dogg, algumas várias latinhas de Skol e o hino I Am The Law, do Anthrax (show no domingo!)

sexta-feira, 14 de maio de 2004

CONSTANEO


Finalmente chegou um aperitivo do filme do John Constantine. Considerando que nenhum fã de Hellblazer espera alguma coisa que preste desse filme, até que a prévia é interessante. Por outro lado, essas prévias costumam ser sempre interessantes...


Belos olhos...


Aí ele tá a cara do Neo


Spider-Girl possessed


Depósito de objetos místicos milenares... já vi isso antes...


Adoraria ter isso na minha sala


Rachel Weisz... linda como um Monet


Ai, Rachel...


Opa, opa, opa...

Essa imagem foi a que mais me preocupou. Em boa parte do teaser, Keanu corre com uma espécie de metralhadora-crucifixo nas mãos... Muito estranho. Me lembrou Blade e, o que é pior, Van Helsing.


Ok, isso ele aprendeu com o Eric Bana


Rachel analisando uma cadáver até bonitinha


Um tipo de ninho dos demônios


Só espero que estes ainda não sejam...


...os principais vilões

Com o sensor de alta exigência cinematográfica ligado (o mesmo que esqueci de desligar antes da sessão de Van Helsing), vejo climas de terror rebuscados, beneficiados por efeitos digitais mil e cenários pretensamente dark. Um irmão mais novo de A Casa Amaldiçoada e Fim dos Dias. Já com o senso crítico amaciado, com uma grana preta no banco e após uma noitada com a Juliana Paes, dá pra enxergar algumas nuances interessantes. Rachel Weisz, mais linda que nunca, parece bem entrosada na história (e que sotaque, hmmm...). Keanu Reeves aparenta estar bem mais direto e auto-confiante, mesmo porquê, o personagem exige isso. Os demônios com jeitão de morcego são bem realistas.

Existe uma seqüência no meio do teaser que é muito bem-feita. A personagem de Rachel é "arrastada" por uma força invisível para fora de um edifício (foi impossível não lembrar de Matrix, hehehe). E também não vi nem Peter Stormare (que faz o Satanás), nem Djimon Hounsou (o sinistro Papa Midnite).

Foi um bom teaser, mas não sei ainda se vou tirá-lo do Bombas. O filme só vai estrear em 11 de fevereiro de 2005 nos EUA (e aqui no Brasil, só Deus).






Essa grande viagem de mais de 25 anos começou com Ian Frasier Kilmister esbarrando em trechos da História (do rock'n'roll e, porque não, da Cultura Moderna). Com 20 e poucos anos, ele foi "o cara que passava o som do Experience", banda do ícone Jimi Hendrix. Anos sessenta, flower-power, "Make Love Not War" (ah, aquelas groupies hippies não eram mesmo maravilhosas?), drogas, rock'n'roll, sexo de novo e muita cachaçada. Ian, nessa época, contraiu o apelido que dura até hoje, Lemmy. Segundo a lenda, é porque ele pedia grana emprestada toda hora ("lemme a few"). O fato é que ele chapava todas e nem o Jimi Hendrix Experience pôde com o nível etílico do moleque. Dali, ele saiu para fazer parte do seminal grupo space progressive Hawkwind, em 1971. Segurou o posto de baixista até 75 e rachou fora. Voltou à Londres, sua terra natal, e finalmente montou o Motörhead (o nome da última música que compôs para o Hawkwind).


O resultado não poderia ter sido mais arrasador. Era Lemmy no baixão cavernoso e nos vocais curtidos à whisky de segunda, Fast Eddie Clarke na guitarra punk'n'roll e backings, e Phil "Animal" Taylor numa batera demolidora. A banda parecia um trator desgovernado descendo uma ladeira.


Motörhead, de 77, era o álbum de estréia que toda banda que se diz ROCK deveria conceber. Lemmy, antes de tudo, sempre foi um old school rocker, então nada de emular o nascente punk ou heavy metal da época. O som era sim, rock'n'roll até o talo, seco, visceral, louder e alucinante. Estão lá clássicos como a faixa-título, Iron Horse, Train Kept' A Rollin', I'm Your Witch Doctor, e outros mísseis.


Em 79, veio o sucessor Overkill, com as pauladas Stay Clean, Capricorn, No Class, Metropolis e a faixa-título absurdamente thrash. Esse disco ainda traz o blues-terremoto Damage Case, recentemente coverizada pelo Metallica (o que aliás, é uma puta redundância!).


Bomber, também veio em 79 e dá-lhe mais clássicos: All The Aces, Stone Dead Forever, Talking Head e a destruidora faixa-título.


Abrindo a década de 80, um clássico dos clássicos: Ace Of Spades. A capa, com o power-trio caracterizado como pistoleiros à Sergio Leone, prenunciava o massacre iminente. Não dá pra apontar nenhuma música específica, já que aqui tudo o que significa Motörhead está embutido em cada nota alta de guitarra, no baixo ultra-distorcido, na bateria-metralhadora e na voz gutural e rouquíssima de Lemmy. Ok, me rendendo como um covarde na trincheira, aí vai: Ace Of Spades, a música, é um dos 5 maiores petardos do Rock de todos os tempos. Não canso de ouvir essa música no talo, desde que eu tinha uns 10 anos. Perdi a conta de quantos twiters eu já queimei com ela tocando.


Na seqüência, um álbum que é presença constante em várias listas de "Melhores Ao Vivo": No Sleep 'Til Hammersmith, de 81. Todos os clássicos estão aqui, em altíssimas e espancadoras versões. É impressionante o barulho e o peso que os três alcançavam ao vivo. Intensidade pura. Um dos melhores shows de rock desde sempre. E detalhe: sem overdubs. Da época em que rock era feito com garra de verdade e não através de uma tela de computador. Ou de baladas tristonhas.


Iron Fist, de 82 (ô banda que produz!!), aliviou um pouco na agressividade. Mesmo assim, ainda tinham uppercuts como I'm The Doctor, Go To Hell, Loser e a faixa-título.

Esse também foi o último disco com a formação clássica. E aí começa um festival de músicos entrando e saindo do Cabeça de Motor. Mas como foi o Lemmy que sempre comandou a coisa toda, o Motörhead manteve o alto nível intacto. Porra, o disco Orgasmatron - classicaço - é de 86! Rock'n'Roll é de 87!


1916, de 91, é um puta disco de rock'n'roll também. É essencial, e traz duas homenagens importantes. Uma é para a banda-irmã Ramones, na forma da música, ahn, R.A.M.O.N.E.S.. A outra é pra nós, brasileiros (aaêêêê!!): a paulada Going To Brazil. E ainda têm a auto-afirmativa I'm So Bad (Baby I Don't Care) e a porradíssima No Voices In The Sky. Discaço!

A formação atual do Motörhead se iniciou no disco de 96, Overnight Sensation. O álbum, pesadão (mesmo para os padrões do Motör), marcou a volta da banda para a configuração de trio (após um longo período como quarteto). Então ficou Lemmy (baixo/vocais), o mal-encarado Phillip Campbell (guitarra) e Mikkey Dee (batera).

Entre extensas turnês mundiais, ainda vieram Snake Bite Love, de 98 (e que eu ainda não ouvi. Tsc), Everything Louder Than Everyone Else (um duplo porradíssimo ao vivo, de 99 - ouço quase todo dia), We Are Motörhead, de 2000, e um badalado Best Of... duplo, também de 2000.


Lemmy é um dos nomes mais respeitados do Rock. Tem nego famoso (como James Hetfield disse uma vez) que treme quando ele chega perto. É até contraditório, pois ele é considerado um dos caras mais simples da cena. Mas não deixa de ser compreensível, afinal, o Motörhead atravessou décadas enfrentando crises diversas, modismos, barreira da longevidade, e principalmente, influenciando muita, mas muita gente. Quase todo mundo que faz rock pesado hoje deve as calças ao Lemmy. Metallica, White/Rob Zombie, Sepultura, Pantera (quando existia), Queens Of The Stone Age e todo o pessoal do stoner rock, toda a geração de bandas punk/hardcore/thrash/grind, grunge, e por aí vai.

O Motörhead tem uma característica parecida com bandas como AC/DC, Aerosmith, Kiss e Ramones. Eles sempre tocaram o mesmo tipo de som, e nas poucas vezes em que resolveram mudar, tiveram os seus piores momentos (musicalmente). No caso do Motör, na minha opinião, foi no álbum March Or Die, de 92. Ficou pop demais, talvez pela participação do Ozzy, que é amigão do Lemmy. Descontando o fato de que esse foi o álbum de maior vendagem de sua carreira, fico feliz que eles tenham saído daquela fase hard rock glam.


Eu ouço Motörhead direto. É quase um hábito involuntário. É Motörhead, Ramones e AC/DC. Sempre tem algum disco deles na bandeja do CD-player. Ouço no talo, lendo umas HQs, umas revistas x-rated e entornando uma cerva geladaça. Tirando mulher, não tem coisa melhor. Aliás, ainda vou botar Orgasmatron pra rolar naquelas horas...

Ah, e agora o porquê do "rompante Motör"... Vai ter show deles, sábado agora, em Vitória. Será no mesmo local aonde o Sepultura tocou, uns meses atrás. Troquei uma oportunidade de conhecer grandes amigos no Rio por causa deles (Nem vem! Já pedi desculpas!!). É esse o tanto que eu gosto do Motörhead. :)



Site oficial do Motörhead
Discografia
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