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terça-feira, 16 de agosto de 2016

O Paradoxo de Denis

E mais um filme com a indefectível Amy Adams entrando em contato (imediato) com extraterrestres. Não espero de ninguém o mesmo interesse que tenho sobre o tema, portanto já abro logo com o super-trunfo: a direção é de Denis Villeneuve.

De Os Suspeitos. De Sicario. E, puta que lhe pariu, de Incêndios.


Não é o caso típico de um nome respeitado fora do circuitão se queimando no mainstream (não é mesmo, Oliver Hirschbiegel?). Villeneuve é só know-how a este ponto. Ponho fé. E preciso.

Faz algum tempo que impera uma carência de bons filmes "de contato" sob uma ótica mais pragmática ou, no mínimo, propondo especulações sóbrias, pé no chão. Filmes de sci-fi à luz do dia, desprovidos, senão de todo, de uma boa parte da velha fantasia distrativa.

Nos últimos anos não faltaram bolas na trave: Esfera, O Dia em que a Terra Parou - remake, O Enigma de Outro Mundo - prequel; todos com instigantes prólogos de recrutamentos-para-lidar-com-uma-situação-misteriosa-e-extraordinária, mas que rapidamente cederam ao peso de suas promessas. Distrito 9 era diversão e panfleto, outro assunto. Maçãs e laranjas.

Em meio ao mar de frustrações, os únicos que me fizeram sair do cinema pleno de satisfação foi Contato, já quase completando seus 20 anos com fôlego invejável, e o controverso Prometheus, um dos blockbusters mais intrigantes e ousados que já tive o prazer de assistir - e aguardo muito a continuação, mesmo ciente das presepadas de Ridley Scott.

Enfim, escrito isso, gostei do que vi nesta prévia de Arrival (aqui, A Chegada). Parece uma adaptação livre do item "Eles são muito alienígenas" constante no Paradoxo de Fermi, o que, sem dúvida, é uma visão não só fora da zona de conforto hollywoodiana, mas da humana enquanto perspectiva.

Arrival estreia em 10 de novembro.

Dever de casa para o incauto leitor: It Came from Outer Space (1953), o ponto zero... ou melhor, o ponto 0,5 disso que comentei aí e que começa quase despercebido com a xenofobiazinha nossa de cada dia.

domingo, 31 de janeiro de 2016

O Arquivo X está lá fora


Estamos vivendo uma era inédita para a difusão de séries. Com o veículo transcendendo as plataformas tradicionais, novas e velhas apostas na grade de títulos pipocam num ritmo vertiginoso, se acotovelando entre premières, entressafras e seasons finales. Diante deste cenário, nada mais natural que os divisores de águas retornem do além televisivo para reclamar a sua parte nos espólios deste futuro que ajudaram a construir.

Arquivo X foi, provavelmente, o divisor de águas definitivo. Antes da série, a expressão "mais um enlatado americano" era típica para definir as produções genéricas importadas de lá. E era só o que havia mesmo. Seu legado é tão profundo quanto duradouro - Lost, Sobrenatural, Fringe e inúmeras outras devem as calças a Arquivo X.

Criada por Chris Carter, a série estreou em setembro de 1993, começando como um azarão e alçado ao status de fenômeno pop. Azarão, porque a proposta abordando o paranormal, o sobrenatural e, principalmente, homenzinhos verdes, estava fora de moda naquele início pragmático de década. Talvez a audiência norte-americana estivesse sacudida demais pela realidade, diante da guerra no Iraque, do atentado ao World Trade Center, do Unabomber, do massacre em Waco/Texas e da expectativa pela primeira administração democrata em mais de 10 anos.

Se me perguntassem então o que fez a diferença entre o ícone mainstream que Arquivo X se tornou e o cult obscuro que fatalmente teria sido, diria que foi um ingrediente utilizado sem moderação por Carter: política e conspirações. Entre corredores de escritórios federais, reuniões a portas fechadas e sussurros ao pé do ouvido, o espectador norte-americano teve exatamente a resposta na telinha para tudo aquilo que ele suspeitava vendo as manchetes do dia-a-dia: o governo estava pouco se fodendo para o povo.

Nenhuma das regras esmiuçadas na Constituição se aplicavam aos engravatados. O governo e suas agências faziam o que queriam, quando queriam, com quem queriam e não davam nenhuma satisfação. Eles eram os cowboys e as pessoas, o gado.

Revendo recentemente as 4 primeiras temporadas, ficou ainda mais claro aquilo que eu não prestei tanta atenção na época. Na ânsia pelo resultado, frequentemente deixei passar o jogo. A trama principal, versando sobre uma conspiração mundial envolvendo raças extraterrestres, era apenas um sedutor cenário para as observações políticas de Carter. Uma conspiração onde governos e pessoas do alto escalão disputam posições para o jogo do milênio, prafraseando S.R. Hadden, é quase que o diário de bordo das entranhas do poder.

A questão é, se após um run com temporadas finais bastante desgastadas, um longa apenas razoável e outro ruim, Arquivo X ainda encontraria relevância conceitual nos dias atuais. Pelo que foi demonstrado nos dois episódios de estreia, não só a encontrou, como deitou e rolou com ela.

De forma esperta, o roteiro praticamente não encosta na estrutura consagrada. Estão lá Fox Mulder e Dana Scully - e é sempre um prazer rever esses dois - começando de onde tudo parou na última temporada e em Arquivo X: Eu Quero Acreditar. Ambos completamente fora do radar, apenas para serem jogados no tabuleiro novamente com uma facilidade que só o contexto de Arquivo X consegue permitir sem descer esquisito.


A abertura do episódio de estreia ("My Struggle"), dirigido e escrito pelo próprio Chris Carter, é um must-see para fãs. Com uma sequência reunindo vários momentos - e monstros - clássicos da série nos anos noventa, incluindo promos publicitários famosos seguidos por aquela abertura, uma narração de Mulder faz um resumo hipercompacto do perrengue enfrentado até ali - curiosamente sem referenciar a fase final da série, protagonizada por John Doggett (Robert Patrick) e Monica Reyes (Annabeth Gish). A trama traz um lauto delivery de paranoia conspiratória e, como não poderia deixar de ser, é focada nas relações do governo dos EUA com uma suposta invasão alienígena começando no infame incidente em Roswell.

Velho conhecido do público, mas ainda cheio de desdobramentos intocados, o plot avança vários capítulos dentro da mitologia. E isso inclui uma grande reviravolta que, não somos bestas, pode ou não ser verdade. Dentro da mesma lógica, as novas revelações entrariam em contradição com vários elementos notórios de Arquivo X. Nada que mais tarde não seja explicado/expandido/evoluído/escrutinado. Ou, na menos ambiciosa das hipóteses, desmentido.

Especialmente interessante é ver David Duchovny e Gillian Anderson de volta aos elegantes blazers do FBI. Anderson é atriz de teatro, atua com tração nas 4 rodas. Mas Duchovny ainda era uma incógnita. Ainda que Fox Mulder seja o personagem da sua vida, quem acompanhou as peripécias de Hank Moody em Californication certamente teve dúvidas se ele ainda convenceria como o obsessivo e atormentado Fox Mulder. Mas é mesmo como andar de bicicleta. E um exemplo de raro ménage à trois de um ator com dois personagens icônicos.

Mitch Pileggi, o eterno diretor-assistente Walter Skinner, também retorna tão naturalmente que parece que nunca deixou a sua sala no Bureau. A postura severa e rabugenta com uma disfarçada afinidade por Mulder e Scully ainda é rigorosamente a mesma. Não tive como não lembrar da época em que, sem TV por assinatura, eu corria atrás dos episódios de Arquivo X (em locadoras longínquas ou perdidos pela programação aberta) como uma verdadeira caça ao tesouro. Outro grande resgate - surpresa - dá as caras em certo ponto e foi certamente algo muito gratificante para os espectadores veteranos.

E ótima a participação de Joel McHael (o Jeff Winger, de Community), aqui no papel de Tad O'Malley, celebridade reacionária de internet e zilionário que nutre interesses em comum com Mulder e Scully. O personagem é promissor.


"Founder's Mutation", o segundo episódio, segue a cartilha da trama paranormal, já remontando aos bons e velhos "episódios de monstro da semana". Inclusive a mesma premissa já foi utilizada algumas vezes nos runs iniciais, sendo aqui atualizada em dinâmica e produção.

Dá pra antecipar a conclusão desde o começo, mas a narrativa tensa, lembrando Scanners nos melhores momentos e as quebras bem-humoradas (orbitando em torno de "modernidades" como Google, Uber e smart phones) garantem a diversão com folgas. E também tem os momentos mais densos deste (re)início, ao abordar um acontecimento traumático da vida dos agentes.

Concebido como uma mini-temporada de 6 episódios, esse breve retorno de Arquivo X não nega sua natureza revivalista - e não há nada para consertar onde não está quebrado, certo? Em tratando da carreira instável da série, mais ou menos. Mas isso também faz parte da descoberta, da diversão. E da verdade.

Logo mais tem outro.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

DISTRITO BLOMKAMP


2009 ainda não acabou, mas já é de Distrito 9. É violento, gore, divertido, impactante, dramático, consciente e tão desgraçadamente humano que não tem como superar - pelo menos no que diz respeito ao campo do sci-fi. Um filmaço. E sem diretor ou atores famosos. Particularmente, nunca tinha ouvido falar de Neill Blomkamp. Este cineasta sul-africano já pode ser considerado a melhor surpresa do gênero nos últimos sessenta e cinco milhões de anos.

Vale a pena conferir no YouTube não só os excelentes virais do filme (coisa rara no formato), como também os quatro curtas anteriores do diretor. O primeiro deles, Alive in Joburg, de 2005, já trazia vários conceitos de Distrito 9.

Logo abaixo:



O filme estreia no final de outubro. Até lá, novas reassistidas pra ajudar a assimilar a porrada.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O PROTOCOLO DE KLAATU


Então fizeram mesmo. Cai mais um dos intocáveis, numa contagem de corpos... ou melhor, de clássicos que não parece ter fim em Hollywood. Não sei se é mera falta de idéias novas ou de uma geração substituta à altura (onde estão os novos Ridley Scott, John Landis, Joe Dante, James Cameron...?), mas a partir do momento em que temos um remake de nome O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, EUA, 2008), é porque o cenário já passou do estágio "preocupante". A idéia, claro, é completamente desnecessária. E não só porque o original de Robert Wise é sci-fi de apelo humanista que soa universal até hoje ou porque foi corajosamente engajado e apartidário no auge da histeria anticomunista, mas porque é atemporal em essência. Havia ali uma moral, um recado. Sendo assim, como um remake se justifica neste caso? Segundo a nova versão, muda-se a moral, muda-se o recado.

Em tese, até que faz sentido. O ser humano vive se diversificando na autodestruição. Nos anos 50, compreensivelmente, a Bomba era a endorser oficial do apocalipse - ou, ao menos, a ameaça mais imediata. Hoje, pensamos mais nela como um parente distante e (muito) desagradável, ao passo que assuntos como poluição industrial, degelo ártico/antártico, desmatamento indiscriminado e catástrofes naturais cada vez mais subseqüentes estão na ordem do dia. Desenvolvimento humano acelerado rumo ao colapso ambiental definitivo. Está tudo lá, em Wall-e. É nessa verdade inconveniente que o remake encontra sua raison d'être. Ok, vamos classificar isso como uma boa ideia*.

* estreando uma das novas regras ortográficas. Sinto como se tivesse acabado de cometer um crime.

Fora esta e mais algumas leves adaptações, o filme reedita a narrativa e o timing original quase magicamente e sem traumas. Impressiona como a premissa segue funcional e instigante após 57 anos (eu disse que era atemporal) - um ovni invade o espaço aéreo norte-americano e aterrissa em pleno Central Park. Os rapazes do Tio Sam prontamente se posicionam para receber o visitante e o resto é história. O alienígena Klaatu desce para se comunicar pacificamente, mas a xenofobia do homo "sapiens" fala mais alto e o pior acontece.

Uma reverência necessária aqui... no original, esta sequência é uma das mais arrepiantes e icônicas que o cinema já produziu: logo que sai da nave, Klaatu/Michael Rennie é atacado sem qualquer motivo senão o da ignorância; o autômato Gort é ativado e investe contra os agressores, mas é impedido por Klaatu, que, mesmo ferido, salva as vidas de seus algozes. Quase um Trotsky alienígena.

Um momento perfeito e emocionante (justamente homenageado por Luc Besson em O Quinto Elemento). Importante reconhecer que, no novo filme, a cena não tem - e sabiamente nem busca - o mesmo impacto, mas ainda assim é recriada elegantemente. E pontuada com uma versão da lapidar "Klaatu barada nikto" em inflexão extraterrestre quase ininteligível. Adorei.

Klaatu sobrevive, mas fica sob custódia do governo norte-americano. Sabatinado pelas autoridades, ele afirma trazer uma derradeira mensagem para os líderes da Terra, mas esbarra em desconfiança, sectarismo e burocracia - problemas, segundo ele, há muito superados em seu mundo. Apesar do pedido simples, Klaatu descobre que a humanidade está dividida demais para ouvir sobre sua própria destruição. Mais tarde, ele consegue escapar do cativeiro e se mistura à população para compreendê-la melhor e, talvez, oferecer-lhe mais uma chance de redenção. Enquanto isso, a deadline vai se aproximando.


O nome de Scott Derrickson na direção me animou bastante (como já comentei anteriormente). Cineasta sensato e climático, que respeita o tempo e a ordem dos acontecimentos - característica mantida aqui, apesar da típica produção blockbuster com dinâmica acelerada. Puxar o freio, no caso, não deve ter sido tarefa fácil para o diretor, visto que seria mais simples ceder às convenções do gênero e seguir a cartilha de Michael Bay para ameaças espaciais. Afinal, aqui também temos um robô gigante assustador e o marketing já é pré-moldado nestes casos. Não duvido que houveram "sugestões" neste sentido. Contudo, o andamento do filme segue em ritmo cadenciado, sério e sombrio como deveria, com a merecida atenção para as boas performances aqui presentes. Se há mais alguma coisa errada neste remake além de sua existência, e há, não é por inépcia do diretor.

Tenho certeza que agora vou horrorizar o requintado senso crítico dos cinéfilos, mas foda-se: Keanu Reeves está perfeito no papel revisado de Klaatu. Diferente da abordagem suave, naturalmente curiosa e até paternal de Michael Rennie, o Klaanu é uma porta de mogno maciço. Melhor ainda, um tronco de sequóia, incisivo e pragmático. Sua presença 100% seca, indiferente e desprovida de substância (especialidade involuntária do rapaz) deixa o personagem ainda mais austero e sem qualquer afinidade pela condição humana. Numa metáfora simples mas atualíssima pincelada pela personagem de Kathy Bates, Klaatu veio para fazer o que eles (as nações do Primeiro Mundo) sempre fizeram: extinguir os povos menos avançados. Em outro momento, Klaatu diz representar um grupo de civilizações e que a Terra jamais "pertenceu" à raça humana, já que são raros os planetas capazes de suportar formas complexas de vida - o que a torna um objeto de interesse literalmente universal. Levando em conta o vandalismo ambiental que cometemos aqui, não só justifica-se o ultimato dos ETs, como mostra que eles foram até bonzinhos em não incinerar todo mundo sem aviso prévio.

Uma vez destrinchada a fabulosa contra-atuação de Kleatu, fica mole destacar os demais. O elenco é de outro mundo, uma conjunção de astros e outros chavões estratosféricos. Em ordem ascendente: a sempre maravilhosa Jennifer Connelly simplesmente rouba pra si a personagem Helen Benson, agora uma conceituada astrobióloga (atualização pertinente e pra lá de necessária); Kathy Bates superinterpreta e confere uma postura protecionista e republicanóide, o contrário de seu correspondente burocrata do filme original; e o venerável John Cleese, no papel do Prof. Barnhardt, me faz querer abraçar o responsável pelo casting, tamanha a iluminação do sujeito. É dele o melhor e mais importante momento do filme, mesmo numa participação desgraçadamente curta.

Coincidentemente, a partir dali todas as boas expectativas vão sendo frustradas uma a uma em velocidade de dobra. O remake tinha lá suas chances de dignidade (correspondidas até ali com um trabalho sóbrio e competente), mas o que se sucedeu foi um frango escandaloso do roteiro adaptado por David Scarpa.


Sequências como a do "dia em que a Terra parou" per se, soam tão irregulares quanto um furo de lógica (ora, um simples pulso eletromagnético em escala global não seria um genocídio de qualquer maneira?), e a mudança de opinião de Klaatu no final soa exageradamente prematura, ao passo que seu conterrâneo levou 70 anos para ser humanizado. O plot sentimental envolvendo o filho adotivo de Helen, Jacob (Jaden Smith, chato pra caralho), ocupa minutos preciosos de tela e se arrasta muito além da conta. O resultado não poderia ser outro, senão a mais pura pieguice que redime tudo e a todos salva do apocalipse. Quer mais? Na hora, mais que lembrei do filme Esfera (o modo promissor como começa e o modo miserável como acaba).

Mas o caso mais triste é o de Gort (acrônimo terrestre para "Genetically Organized Robotic Technology"), pois, afinal, conseguiram realizar a parte mais difícil antes de colocarem tudo a perder. O golem artificial foi discretamente redesenhado, mantendo o visual humanóide e com uma textura parecida com a do Monolito Negro, de 2001: Uma Odisséia no Espaço. As semelhanças bacanas não param na estética: Gort também é indecifrável, ameaçador e parece ter poder suficiente para arremessar a Terra pra fora da Via Láctea. Parece só uma questão de tempo para o badass espacial voltar a chutar bundas como em 1951, porém... Do jeito que ficou, Frankie Muniz, em O Agente Teen, resolveria a situação sem maiores dificuldades. Decepcionante assim.

Durante pouco mais de uma hora, foi o filme que traduziria satisfatoriamente o clássico original para as novas gerações. De volta ao status de remake que jamais deveria ter existido, O Dia em Que a Terra Parou se tornou um exemplo perfeito de potencial inimaginável limitado pela falta de imaginação. Além do quê, a humanidade não anda merecendo redenção ultimamente. Muito menos uma com gosto de Spielberg.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O RETORNO DE GORT

Parecia inevitável. Chegamos ao remake de O Dia Em Que A Terra Parou. Depois disso, nada mais é sagrado em Hollywood. A péssima fase criativa da indústria já se fazia notar em refilmagens como A Profecia, Os Invasores e Eu Sou A Lenda, mas com certos símbolos não se mexe. O filme original de Robert Wise é um deles. Não apenas pela mensagem, atemporal (mesmo atrelada a um cenário geopolítico específico), mas também, principalmente, por seu valor cinematográfico.

Lançado em 1951, o filme trouxe efeitos visuais incrivelmente sóbrios e sofisticados para a época e recebeu uma produção impecável - não se viam muitos militares "reais" (com canhões, jipes, tanques e um contingente generoso em cena) nos sci-fi de antanho, considerados veículos B por excelência, sem tanta vocação para o mainstream. E pela primeira vez, o ET destoava da recorrente alusão comunista. Klaatu era um ser benevolente. Nós é que éramos os monstros. Clássico.

Tudo pronto para mais uma bomba anunciada, mas eis que chega o 1º trailer deste remake (cuja existência fui saber há pouco). Confesso que curti mais do que gostaria de admitir.



Ok, Keanu Reeves é um ator ruim (dãã), mas funcionou em Matrix. Seu ar frio e distante bateu com a aura messiânica que o personagem demandava. Aqui o princípio é quase o mesmo, num contexto até mais lógico e compreensível. Sinceramente, gostei dele aqui. Jennifer Connelly garante credibilidade (e muito mais) em cena e o elenco de apoio conta com Kathy Bates e John Cleese (uôu!). Pelo que percebi, muita coisa mudou na história. As obrigatórias seqüências de destruição em massa sugerem que Klaatu fará bem mais que um apagão global. E ao que parece, Helen (Connelly) vai chegar meio tarde pra dizer "Klaatu Barada Nikto". No último frame, vemos uma imagem do icônico Gort, o guarda-costas alienígena mais badass do Cinema.

Outra coisa... a música que rola no trailer me ganhou na lábia. Depois que Danny Boyle descobriu o Godspeed You! Black Emperor nasceu uma praga de trilhas atmosféricas. Não sei se essa canção é deles (ou seria do Mogwai?), mas foi determinante pra me vender a idéia. Cinema e shoegazer music nasceram um pro outro.

Agora as credenciais: o cineasta Scott Derrickson roteirizou e dirigiu o ótimo O Exorcismo de Emily Rose. Por outro lado, também realizou Hellraiser: Inferno, no início de carreira (mas até aí, o jovem James Cameron fez Piranhas 2: Assassinas Voadoras pra levantar algum... então tá 50/50). Já o roteirista David Scarpa escreveu A Última Fortaleza, que é realmente um bom filme.

Continuo execrando a idéia do remake. Mas se antes não esperava nada, agora já espero alguma coisa.


Trailer HD
DTESS (site oficial)


No playlist: Kaftwerk, Mininum Maximum.

quinta-feira, 9 de junho de 2005

V - COMO ID4 DEVERIA SER



V – A Batalha Final (V – The Final Battle, 1984) foi uma série que a Globo passou por aqui em 1985 ou 1986 (caceta... eu tinha entre 8 e 10 anos... de onde eu tirei esta lembrança?) na esteira do sucesso de Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of Third Kind, 1977) e E.T – O Extraterrestre (E.T.- The Extra-Terrestrial, 1982), filmes blockbuster que consolidaram a imagem de Spielberg e provocaram a ressurreição do gênero "eles estão entre nós", cuja última chama de apelo ocorrera na geração anterior com os clássicos Guerra dos Mundos (The War of the Worlds, 1953) e O Dia que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, 1951).

Entretanto, ao invés da postura boazinha dos ETs Spielberguianos, os Visitantes de V tinham objetivos um pouco mais egoístas, querendo acabar com a espécie humana e dominar o mundo. Na verdade, a mini-série original que passou nos EUA chamava-se apenas V e foi produzida em 1983, sendo que no ano seguinte foi produzida a continuação que, por mostrar os esforços da resistência contra os lagartões invasores, recebeu o subtítulo "A Batalha Final". Aqui no Brasil as duas foram unidas e passaram de uma só vez na TV Globo, anos depois reprisados no SBT.

Esta produção serviu de debut para Robert Englund. Não que já não tivesse atuado em outros filmes, mas aqui ganhou destaque e no mesmo ano foi imortalizado na pele de Freddy Krueger, sendo o único ator do elenco a ganhar algum renome no futuro.



Se eu pudesse dar só uma dica sobre o futuro seria esta: usem o filtro solar!


V nos apresentava as primeiras imagens realmente convincentes de dominação, com efeitos especiais bem competentes para a época e uma nave-mãe de respeito, praticamente copiada em Independence Day. As metáforas ao Macartismo e fascismo por trás das atitudes alienígenas, assumo, passaram em branco por mim, que só fui tomar conhecimento anos depois lendo a respeito. Aliás, seria demais esperar que um moleque pré-púbere soubesse isto; nerdice além do aceitável. À época eu estava muito mais preocupado em assombrar-me com as peles saindo e revelando os lagartos comedores de ratinhos. Ainda hoje tenho a lembrança do sentimento de repulsa que tive ao ver a Diana comendo aquela ratazana gigante, só deixando o rabinho (heh... ela não come o rabinho... aham... hummm... voltando ao assunto:), apenas aplacado pela semelhança absurda que os módulos de transporte tinham com meu Playmobil Space.



Igualzinho ao Playmobil Space


Em 1995 ainda outra continuação em forma de mini-série foi feita, mas não passou no Brasil. Em 2004 e 2005 nova continuação tomou corpo com o elenco original (os que estão vivos, claro), mas sempre que pesquiso no IMDB, o negócio está em post production.



Diana não come o rabo dos ratinhos


O DVD das 3 séries oitentistas vendeu como água nos Esteites, pena que não lançam aqui. Cerca de um ano atrás consultei o Submarino acerca da possibilidade de importação, mas recebi a resposta de que não há sequer prazo.





HAVIA CÉREBRO ANTES DE JASPION



Certamente posso estar chovendo no molhado ao resolver falar sobre estes programas já tão abordados em sites do gênero, mas a percepção da não planejada datação de uma época através dos temas abordados pelos programas abordados a seguir merecem uma abordagem conjunta. Pirata do Espaço, Patrulha Estelar e Ultraseven foram três ícones do entretenimento infantil surgidos no final dos anos 70, com sucesso nos 80, que diferem muito de alguns contemporâneos e de todos os que o sucederam. Dois animes e um live action que foram originariamente voltados para o público infantil, mas os dramas vividos nas três produções encontraram eco no coração de muitos adultos e jovens da época, abordando assuntos de difícil digestão para o público original. Isto fez com que, à exceção de Pirata do Espaço (ignorado no Japão, mas com sucesso retumbante na Itália e considerável no Brasil), tenham sido encarados como obras cult e formaram uma legião de fãs na faixa da juventude.




As três séries compunham o primeiro movimento de retorno dos programas japoneses à TV desde National Kid. Pirata do Espaço (Groizer X) não primava pela qualidade técnica, mas era uma desgraça atrás da outra, fazendo com que os espectadores lidassem com aspectos de vida/morte diferentes da forma leve como outras produções infantis apresentavam. Claro que o visual do robozão, suas armas e a música-tema (botão direito e "salvar destino como") favoreceram muito a aceitação dentre o grande público brasileiro, mas os aspectos de roteiro é que constituíam a verdadeira novidade. Mais informações sobre Pirata do Espaço podem ser encontradas aqui.


A série não teve o sucesso esperado no país de origem, motivo pelo qual não foi muito longa, mas foi inspiração para o surgimento de diversas variações sobre o mesmo tema. Uma das mais famosas, a ponto de criar frisson nos EUA e iniciar a influência da cultura televisiva japonesa naquele país, foi Patrulha Estelar (Ushuu Senkan Yamato). Esse sim ganhou reconhecimento amplo, recebendo inclusive nomes ocidentais ao entrar na indústria americana.

Mais informações sobre Patrulha Estelar podem ser encontradas aqui.


Ultraseven foi o terceiro membro da família Ultra que passou por nossas terras. Sucesso estrondoso no Japão, passou aqui aproveitando a ótima repercussão que Ultraman e O Regresso de Ultraman (além do genérico Spectreman) tinham à época. Entretanto, enquanto seus primos protagonizavam aventuras lineares, mais do mesmo, Ultraseven e seu alter ego (que não era humano) Dan Moroboshi diferia dos outros por motivos e conflitos já identificados neste texto. Não sei dizer se é o único Ultra-membro que tinha esta abordagem, já que devia haver para mais de dez ultra-primos em exibição no Japão, mas certamente foi o personagem que mais se destacou, alcançando a maior longevidade com suas séries. Clicando aqui (botão direito e "salvar destino como"), você baixa a música da abertura.

Mais informações sobre toda a família Ultra podem ser encontradas aqui.



Clique na imagem para uma versão um pouco maior da família reunida


Aqui e aqui há dois artigos do Omelete que esgotam o tema "Ultraseven".


À exceção de Pirata, as outras séries foram transformadas em boxes de DVD lá fora. Surpreende-me que até hoje não tenha sido lançado no Brasil. É o tipo de coisa que vende fácil.