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quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Gaviões do Forró


Costumo torcer por azarões, mas em Gavião Arqueiro o azar foi meu mesmo. Desde o início, a série da Marvel Studios/Disney+ imprimia um tom ameno que me fazia apostar numa dramática virada de eventos no último ato. Ao invés disso, a coisa derrapou feio na reta final. Com espaço mínimo para desenvolver uma narrativa consistente, exageraram na quantidade de subplots —conte comigo: Maya Lopez/Eco, Yelena, mãe da Kate, Ronin, relógio misterioso, Espadachim, Rei— e assim as amarrações foram se acotovelando no último episódio, como se fosse um mix do tradicional arrasta-pé nordestino com a deadline da Marvel.

Mesmo a breve redenção do Vincent D'Onofrio retornando das cinzas netflixianas como Wilson Fisk durou só até a pavorosa sequência de luta com Kate. A despeito do figurino referencial pero inadequado (isso não é exatamente isso), fica difícil saber o que o showrunner Jonathan Igla (de Mad Men) tinha em mente ali. A postura cerebral e austera de outrora deu lugar a atitudes inconsequentes e impulsivas. O Rei do Crime saindo pra resolver um abacaxi com as próprias mãos em público? Tratamento mais pedestre, impossível.

E nem precisa mencionar as flechas mágicas dando conta dos 2 milhões de novos membros da Gangue do Agasalho. O ato final inteiro foi mal dirigido. O atropelamento foi ridiculamente abrupto, praticamente um jump scare, além de impossível: Fisk estava a meio metro de um carro em ponto morto. E se esta versão do Rei tem superforça para arrancar a porta do veículo, então a Kate tem super-invulnerabilidade. Cada soco daquele era pra ela cuspir um pulmão. Muito, muito ruim mesmo.

Outra coisa esquisita foi a Kate vendo a mãe sendo presa por homicídio e na manhã seguinte ela está na casa do Clint pra comemorar o Natal. Merecido descanso, hm?

Uma sobra positiva: a química/bate-bola entre Kate e Yelena. Sempre bem divertidas, especialmente na cena da mão boba no elevador. Quero um episódio girls-night-out das duas soltas em NY pra ontem.

Jeremy Renner já pode pendurar a aljava, o arco e as flechas (claro que a fila dele já andou faz tempo). Suas dívidas com o MCU —e vice-versa— foram quitadas.

Só não precisava daquele musical Broadwayesco breguíssimo nos pós-créditos. Apertei o fast forward como se não existisse amanhã...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Viúva, Interrompida


Só quebrando a tradicional castidade/procrastinação do BZ sobre as séries do UCM para destacar uma das cenas mais bacanas daquela grade. O 5º episódio de Gavião Arqueiro abrindo com a Viúva-Negra Yelena (nossa querida, maravilhosa, salve, salve, Florence Pugh) indo e voltando do Blip em tempo real me fez pensar nos zilhões de pequenas histórias sensacionais que poderiam ser contadas a partir dessa perspectiva humanizada do evento. Após aquilo, fiquei babando pra ver uma novelinha ao estilo Televisa em que Yelena ia descobrindo chocada o que se passou no mundo nos últimos 5 anos —e, claro, com a sua irmã Natasha.

Mas não rolou, nem vai rolar. O jeito é garimpar satisfação em algum fanfic por aí. E isso não desejo ao meu pior inimigo (bem...!).

Sobre o episódio propriamente dito, os atores e atrizes seguem tirando leite de pedra. O roteiro insiste na mesma toada mediana com reviravolta previsível e um timing coalhado de tão vencido. Fosse no 2º ou 3º capítulo, teria estremecido os alicerces aqui. E jamais daquela forma tão preguiçosa e miguelenta, ainda. Presença de palco conta, Marvel Studios.

Tirando isso, de boa. Antes tarde do que... não, teria sido melhor antes mesmo.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

O Paradoxo de Denis

E mais um filme com a indefectível Amy Adams entrando em contato (imediato) com extraterrestres. Não espero de ninguém o mesmo interesse que tenho sobre o tema, portanto já abro logo com o super-trunfo: a direção é de Denis Villeneuve.

De Os Suspeitos. De Sicario. E, puta que lhe pariu, de Incêndios.


Não é o caso típico de um nome respeitado fora do circuitão se queimando no mainstream (não é mesmo, Oliver Hirschbiegel?). Villeneuve é só know-how a este ponto. Ponho fé. E preciso.

Faz algum tempo que impera uma carência de bons filmes "de contato" sob uma ótica mais pragmática ou, no mínimo, propondo especulações sóbrias, pé no chão. Filmes de sci-fi à luz do dia, desprovidos, senão de todo, de uma boa parte da velha fantasia distrativa.

Nos últimos anos não faltaram bolas na trave: Esfera, O Dia em que a Terra Parou - remake, O Enigma de Outro Mundo - prequel; todos com instigantes prólogos de recrutamentos-para-lidar-com-uma-situação-misteriosa-e-extraordinária, mas que rapidamente cederam ao peso de suas promessas. Distrito 9 era diversão e panfleto, outro assunto. Maçãs e laranjas.

Em meio ao mar de frustrações, os únicos que me fizeram sair do cinema pleno de satisfação foi Contato, já quase completando seus 20 anos com fôlego invejável, e o controverso Prometheus, um dos blockbusters mais intrigantes e ousados que já tive o prazer de assistir - e aguardo muito a continuação, mesmo ciente das presepadas de Ridley Scott.

Enfim, escrito isso, gostei do que vi nesta prévia de Arrival (aqui, A Chegada). Parece uma adaptação livre do item "Eles são muito alienígenas" constante no Paradoxo de Fermi, o que, sem dúvida, é uma visão não só fora da zona de conforto hollywoodiana, mas da humana enquanto perspectiva.

Arrival estreia em 10 de novembro.

Dever de casa para o incauto leitor: It Came from Outer Space (1953), o ponto zero... ou melhor, o ponto 0,5 disso que comentei aí e que começa quase despercebido com a xenofobiazinha nossa de cada dia.