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sexta-feira, 9 de agosto de 2024

O cliente ficou louco!


Fiz sexo com o meu cartão hoje. A maioria saiu por quase metade do preço na promocha da Panini acumulando com o cupom HQBARATA – até o momento, ainda tá valendo.

Deu pra enxugar um pouco daquela lista de candidatos à zona de rebaixamento (= reimpressão só na próxima era geológica). Mais uma nóia para o gibizeiro pós-moderno...

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Até mais, Marie & Gary


Marie Severin
(1929 - 2018)
&
Gary Friedrich
(1943 - 2018)

Parece que foi ontem que eu comemorava o encontro, num só encadernado, de grandes quadrinhistas da velha escola - entre eles, Marie Severin e Gary Friedrich. Saber da partida de ambos na mesma manhã de quinta-feira é daqueles momentos que fazem colocar certas coisinhas sob perspectiva. Mais precisamente, o tempo, a vida, sua finitude. Aquele post já tem absurdos dois anos. E tanto Severin quanto Friedrich, cidadãos seniores cujas biografias se confundem com a história dos comics, tiveram seus últimos trabalhos publicados há longínquos 25 anos - também conhecido como 1/4 de século.

Gary Friedrich não era um simples veterano. Era veterano de Atlas e Charlton Comics. Isso é pré-Pré-História. Chegou a trabalhar com o irmão de Marie, o fantástico John Severin, em Sgt. Fury and his Howling Commandos. Também foi um co-criador dos infernos, lançando Daimon Hellstrom, o Filho de Satã e o Motoqueiro Fantasma. Este último, foi pivô de um embróglio judicial interminável entre o artista e a Marvel em mais um capítulo vergonhoso na história da editora - e razão pela qual escolhi a imagem até meio comovente dele aí em cima.

Marie Severin começou com um empurrãozinho do irmão John para cobrir uma vaga de colorista na icônica EC Comics. Trabalhou ao lado do próprio Harvey Kurtzman. Sofreu diretamente com a paranoia do Comics Code na década de 1950, mas ressurgiu na Era de Prata da Marvel, onde construiu uma extensa bibliografia. Co-criou o Tribunal Vivo e a Mulher-Aranha original. Foi particularmente prolífica na cult Crazy Magazine e na Not Brand Echh, publicações satíricas da editora. Workaholic inveterada, brilhou tanto na arte - em gibis e designs de outros produtos relacionados, incluindo o papel higiênico do Hulk e do Aranha! - como também no comando de projetos e divisões.

Pioneira é pouco: Marie Severin foi um mulherão da porra.

E com lucidez e senso de humor afiado até (quase) o fim!


Hulk de raiz esmaga camundongo corporativo!

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

A GUERRA DE PAK


Tudo começou em Incredible Hulk #100. Ou melhor... recomeçou. Entre os extras que compõem tradicionalmente as centésimas edições (no caso, a origem do Hulk e o arco clássico onde ele é julgado e termina esmagando meio mundo), uma breve história chamada Planet Cho foi o estopim para o mais novo apocalipse da Marvel.

Ao contrário do que me pareceu à primeira vista, não se trata de uma homenagem ao conjunto da obra de Frank Cho (bem que ele merecia), mas um olhar mais profundo sobre o garoto Amadeus Cho. Dezesseis anos e um super-gênio, Cho é considerado a sétima pessoa mais inteligente do planeta, com capacidade para processar de dados que faria um Cray parecer um cartão perfurado. Também é o vencedor do Mastermind Excello, um contest frita-miolos da internet (favor não confundir com o Mastermind Excello Earl Everett, da Mystic Comics #2, de abril de 1940!). Cerca de uma hora após a vitória no concurso, explodiram a casa do rapaz com todo mundo dentro. Desde então, a toda-poderosa SHIELD tem investigado seu paradeiro, visto que uma operação não-autorizada que estava em seu encalço veio à tona.

Após a confirmação de que Cho ainda estava vivo, a mega-agência reclassificou sua habilidade única de raciocínio e resolveu enquadrá-lo na famigerada Lei de Registro dos Super-Humanos. O que eles não sabiam é que as ambições de Amadeus Cho iam muito além de viver na ilegalidade.

Recapitulando, Hulk, o Incrível, foi a júri novamente em The New Avengers: Illuminati #1, publicada em maio do ano passado. Longe de ser um júri popular, o Gigante Esmeralda foi condenado ao exílio pelo Illuminati - espécie de Comissão de Ética da Marvel, formada na surdina por Doutor Estranho, Namor, Professor Xavier, Raio Negro, Homem de Ferro e Reed Richards. Destes, apenas Doc Strange e o Príncipe Submarino podem ser considerados amigos do Hulk, chegando a combater nas mesmas fileiras durante os áureos tempos dos Defensores. Numa sessão turbulenta e sem a presença de Xavier, o Illuminati decide pela deportação do Golias Verde para um planeta distante. O único voto contra é de Namor. Com ajudinha de sua habitual impetuosidade e individualismo, ele enxergou ali uma decisão prepotente e unilateral de um clubinho fechado.

De fato, eles acabam banindo o Hulk mesmo, numa jogada absolutamente desonesta, dando origem à saga Planet Hulk.

Tempos depois, o Illuminati voltaria a se reunir para um derradeiro encontro. Um Homem de Ferro lobista coloca em pauta o rascunho da Lei de Registro de Super-Humanos, fator determinante na dissolução do grupo. Doutor Estranho e, novamente, Namor prontamente renegam o projeto imposto pelo governo. Do lado da Lei e do Latinha, estão Reed Richards, Raio Negro e, posteriormente, um Xavier estrategicamente tucano. É o embrião da Guerra Civil.

Mas voltando ao Cho...





Amadeus Cho...


O rapaz-prodígio© assombra geral ao dar seguidos olés em missões especiais da SHIELD, mas barbariza mesmo quando hackeia os sistemas do Edifício Baxter, o cafofo ultra-high-tech do Quarteto Fantástico. Diante de um surpreso Reed Richards, ele revela conhecer detalhadamente o esquema do exílio imposto ao Hulk. Após uma hilária disputa geek com Reed, Cho assume o controle de um satélite e mostra que o Gigante Esmeralda jamais chegou ao destino programado. A seqüência segue com Amadeus e Reed colocando na balança os prejuízos e os feitos heróicos já praticados pelo Hulk, num flashback que impressiona pelo alcance retroativo (lembraram de Jericho e da montanha em Guerras Secretas). Sem entregar o jogo, o garoto afirma que não medirá esforços para trazê-lo de volta - ameaça bastante considerada por Reed, tendo em vista o intelecto excepcional de Amadeus e o paradeiro desconhecido do Golias Verde.

A história termina com Reed se encontrando com o Homem de Ferro. Juntos, avaliam a situação como sendo catastrófica: a possibilidade do Hulk retornar é muito real, pois ele ainda tem amigos aqui.

Apesar de breve, foi uma excelente intro de Greg Pak para World War Hulk. Suspense na medida, humor nervoso e uma atmosfera bem diferente de seu trampo em Planet Hulk. Discreto, Pak não tem o approach bombástico de um Mark Millar ou a complexidade (muitas vezes, desmedida) de um Warren Ellis ou de um Grant Morrison. Pak é um miniaturista. Seu diferencial está nos detalhes. Planet Hulk é o exemplo perfeito. Como quem não queria nada, ele gradualmente desconstruiu o perfil do herói, reestruturou suas motivações e a profundidade de suas atitudes. No final, soa quase como um novo personagem. E bem mais instigante do que antes.

Ajuda também o fato de Pak evitar idéias... não muito "produtivas" (vide Straczynski) e manter um impressionante índice de acertos no que tange às inovações. Isto pra não citar o número de plots importantes que ele está administrando no momento e mais importante, com qualidade. É como se fosse um Brian Michael Bendis sem a existência do Homem-Aranha Ultimate. Com certeza, Greg Pak é o nome do momento na Casa das Idéias.

Os desenhos são do excelente Gary Frank. É um imenso prazer ver como seu estilo Jim-Lee-with-brains funciona no universo do Hulk.

Em Incredible Hulk #106 e World War Hulk Prologue: World Breaker esta linha narrativa é retomada. O check-list 'zilla divulgado pela editora é equivalente ao impacto causado naquele cenário pós-Guerra Civil. Nem imagino como a Panini Comics vai organizar a "Guerra Hulkial" por aqui sem apelar para a velha tesourada.


Incredible Hulk #106


IH #106 começa com Jennifer Walters, a Mulher-Hulk, sendo chutada pra fora de um helicarrier da SHIELD. Jen foi uma das primeiras a abraçar a causa da Lei de Registro patrocinada pelo Homem de Ferro, cujos ideais ela seguia fielmente - até ele revelar o destino que reservou ao seu primo mais famoso. A reação da gamma-girl, obviamente, foi esmagadora. Prevenido, Stark injeta um de seus nanobots inibidores de poderes. Assim, após muito tempo medindo dois metros, Jen volta a ser 100% humana, frágil e baixinha. E vai pro olho pra rua.

E quem está lá, esperando na esquina?

Ao que parece, Cho também derrubou os firewalls da SHIELD, pois sabe tudo o que acabou de acontecer. E Reed Richards, na cola do moleque, sabe que ele sabe - pretexto fácil para trocadilhos infames ("Ele sabe que eu sei o que ele está fazendo... provavelmente até sabe que eu quero que ele saiba que eu sei..."). Cho tenta convencer Jen a unir forças com ele para trazer o Hulk de volta. Ironicamente, ela, mesmo com todos os motivos para aceitar, parece ser a única voz sensata entre os dois extremos. Jen sabe muito bem que se o Gigante Verde voltar, poderá custar a vida de muitos. E sofre por causa disso. Logo em seguida, o cabeludo Doutor Samson é enviado para interceptar os dois.

Como um mestre enxadrista, Cho antecipa tudo e deixa o cenário devidamente preparado. No final, é revelado que ele tem o suporte de Hércules e do mutante Anjo, ambos ex-integrantes do supergrupo Campeões (que contava também com Motoqueiro Fantasma, Viúva Negra e Homem de Gelo - formação bizarra no último).

Curiosamente, a Marvel iria revitalizar os Campeões, agora com novos integrantes e supervisionados pela Iniciativa, a rede de super-equipes controladas pelo governo. O problema é que os direitos da marca foram abandonados pela editora, que desde 1978 não a utilizava, e adquiridos posteriormente pela Heroic Publishing. A saída foi bem à Navalha de Ockham: "mudem o nome". O grupo agora se chamará The Order.

Mas calma lá... The Order é a mesma alcunha que os Defensores originais adotaram na época em que decidiram proteger o mundo com mão-de-ferro. Originalidade? Pra quê?


World War Hulk Prologue: World Breaker


Casus Belli foi escrita por Peter David, velho conhecido do Verdão, e ilustrada pela trinca Al Rio, Lee Weeks e Sean Philips. O resultado visual acaba sendo irregular, mas Peter David é artilheiro e desempata. O cara sabe fuçar como ninguém o psicológico de uma situação extraordinária. A idéia é registrar o que acontece entre o fim de Planet Hulk e o início de World War Hulk. O enfoque é basicamente o Hulk em rota de colisão com a Terra e Jen Walters discutindo com Doc Samson num hotelzinho vagabundo e repensando sua posição frente ao caos iminente. Portanto, tome diálogos, decisões e preparativos de ambos os lados.

Hulk vem acompanhado por comrades de peso. Estão com ele até a morte: Miek, Brood (da Ninhada), a vermelhinha Elloe, o pedregoso Korg (muito forte) e o honrado Hiroim, detentor do Oldstrong, a "Força das Sombras" (muito, muito, muuuuito forte). Juntos, formam o chamado Warbound. Além da traição que sofreu, Hulk tem o sangue de um planeta em suas mãos, incluindo aí o de sua esposa grávida. Todos mortos pela explosão do construto que o Illuminati usou para baní-lo. O que os roteiristas farão para arrefecer esse problemão é algo que me deixa cabreiro. Dificilmente o Hulk, furioso e fora de controle, pouparia a vida de algum dos envolvidos.

Aliás, "fora de controle" nem tanto... ao perceber que ele está ficando cego pelo ódio e ameaçando a vida de seus companheiros, Hiroim o inicia num treinamento de meditação e redirecionamento da raiva. Peter David, cheio do timing, novamente usa a questão da dupla personalidade como um bom recurso criativo.

World War Hulk Prologue acaba sendo notável pela estratégia adotada pelo Verdão em parceria com Hiroim. É aqui que eles decidem qual será o primeiro alvo. O único que pode derrotar o Hulk.


World War Hulk #1


Acaba a contagem regressiva. O Hulk e o Warbound finalmente chegam à Terra, mas antes fazem uma rápida escala na Lua - mais precisamente, no domínio dos Inumanos. Seu governante, Raio Negro, é o primeiro da lista negra. É o mais duro adversário que o Verdão já enfrentou desde sua criação e o combate prometia. No entanto, a narrativa é implícita. Rigorosamente, limita-se às mesmas cenas já reveladas no preview divulgado meses atrás. Ofereço aqui a saída pela esquerda: como já houveram referências à dificuldade da luta (vide o planejamento metódico de Hulk e Hiroim em WWH Prologue) é quase certa a inserção de um retcon mais revelador adiante. Quase certa não, quase obrigatória. Seja como for, o resultado do confronto deve ter arrepiado até Jack Kirby lá no céu dos artistas.

A poeira levantada na Lua é só o aperitivo da edição. Hulk e o Warbound já chegam ao puny planet botando o terror em New York. Com direito a telão holográfico na Madison Square e em centros urbanos no mundo inteiro, o Gigante Verde esparra geral tudo o que passou nos últimos meses, desde a arapuca armada pelo Illuminati até a explosão que arrasou Sakaar, o mundo onde se deu a saga Planet Hulk. Em seguida, ordena a evacuação de Manhattan. E a presença de Reed Richards, Homem de Ferro e Doc Strange. Pra ontem.

As contramedidas de Tony Stark vêm em velocidade de dobra: oferece perdão presidencial ao Dr. Estranho e todos os heróis ilegais em troca de auxílio na evacuação da ilha. Além disso, coloca Robert Reynolds, o Sentinela, em stand-by para um eventual abraço no trem-bala gama.

O resto é som & fúria. O embate central é do Hulk contra um Homem de Ferro tunado com carenagem de Transformer. Destruição total. Difícil não lembrar do 11 de setembro quando a torre dos Novos Vingadores vem abaixo.

Greg Pak teve seu dia de Mark Millar. E John Romita Jr. mais um trabalho para constar na antologia.


Incredible Hulk #107


Amadeus Cho é malandro à moda brasileira. Tanto que Hércules e Anjo estão de pé (e asa) atrás com ele e mesmo assim são levados na conversa. Pelo menos o suficiente para juntos detonarem um cerco da SHIELD. A coisa segue aos trancos e barrancos e piora ainda mais quando Cho confessa ao Anjo que desviou uma fatia milionária de suas contas bancárias (agora bloqueadas pelo governo por virar cúmplice de um foragido), o que deixa o mutante com um humor nada angelical. Mas foi dinheiro bem gasto. Um de seus "sábios investimentos" foi em uma nave anfíbia de última geração - seu objetivo é chegar até Atlantis e pedir a ajuda de seu soberano, Namor.

(...) convencer Namor de alguma coisa é uma missão impossível até pro Beyonder. Após um sonoro "não" e o inevitável e quilométrico discurso ressentido ("eu avisei", "seus tolos"), o Príncipe Submarino assiste a transmissão de guerra do Hulk, mas mantém a decisão de não intervir. O tempo fecha quando ele e Hércules se estranham, cada um com seus próprios pontos de vista sobre os sentimentos do Verdão. Neste momento, Namora (prima de Namor), toma partido de Cho & Amigos. O senhor de Atlantis se isenta de qualquer responsabilidade e vai embora - depois de "esbarrar" na nave deles, só de sacanagem.

Quando o grupo finalmente chega em New York, a luta entre Hulk e o Homem de Ferro está acontecendo e a cidade está um caos. Muitas pessoas ficaram para trás e eles ajudam como podem. Assim que a briga acaba, eles vão ao encontro do Monstr... hã, do Golias Verde, que está 110% insano. Cho tenta conversar, mas Hulk parte pra cima, ainda no calor da batalha. Hércules o confronta numa seqüência bastante violenta e, da maneira mais difícil, consegue mostrar que há algo mais em jogo.

A história começa em easy mode on, mas depois Pak capricha na variedade de situações (Cho "telefonando" para a nave do Warbound foi foda) e manda bem com um Namor totalmente filho da puta. Outra boa sacada foi buscar na Mitologia Grega um inesperado link entre Hércules e o Hulk.

Aqui termina a participação de Gary Frank no título - uma despedida em grande estilo, diga-se, com uma Namora deliciosa (as mulheres do Frank são as melhores!) e o Namor mais carismático e expressivo que eu vejo em muito tempo. E isso realmente me deixa puto da vida.


A Marvel (=Joe Quesada) foi muito zé-ruela em abrir mão deste artista, que assinou um contrato de exclusividade com a DC, em maio passado. "Infeliz", pois quem perde é o leitor de bom gosto. Na DC, Frank está trabalhando ao lado de Geoff Johns (e Richard Donner!) no Superman, onde dificilmente fará mais que reeditar a surrada estética daquele universo - primorosamente pervertida por ele em Poder Supremo. Será reduzido a mais um simulacro sob medida para manter o standard vigente, ao exemplo das passagens de Ivan Reis, Jim Lee e tantos outros pelo título. Posso estar enganado, mas até onde vejo, Gary foi engolido pelo establishment que ajudou a sacanear. De qualquer modo, só veremos o resultado disso aí no final de outubro, quando a Action Comis #858 for lançada - mas esse Clark com cara de Mark Milton só reforça a minha tese.


Mas o show tem de continuar. Portanto, boa sorte para o Frank... é na DC que está o money!


Invincible Iron Man #19


Em Guerra Civil, os roteiristas da Marvel treinaram bastante o esquema de trocentas narrativas correndo em paralelo. Nos títulos que acompanham World War Hulk, eles estão fazendo isso com uma sincronia digna das meninas do Pan. Aquelas que levaram o ouro na ginástica rítmica. Pequenas Elektrinhas que parecem saídas dos gibis, tamanha graciosidade, agilidade e precisão...

...mas cortando o papo surreal e voltando ao subject: o retorno triunfal do Hulk comparece fielmente em todos arcos agregados, então cabe aos escritores se desdobrar nos pormenores da situação. O Latinha protagoniza metade da primeira edição de World War Hulk, então teoricamente não havia muito o que mostrar de novo. Neste quesito, o roteiro de Christos N. Gage (Authority, Avengers: House of M) se sai até bem, no limite de possível. Esperto, antecipou o início da história para algumas horas antes, com Tony Stark remanejando todos os recursos da Casa Branca para deter o "U.F.O." que se aproxima da Terra. Dezenas de drones abordam a nave do Hulk e são atropelados sem muita dificuldade - destaque para o Verdão ordenando "ramming speed" com a profissa de um Capitão Kirk.

O que se segue são as velhas discordâncias com procedimentos da SHIELD (desta vez, com Dum Dum Dugan à frente) e a já clássica luta entre o herói e o anti-herói. Os belos desenhos são o ponto alto da revista - mérito de Butch Guice, que me lembra o Stuart Immonen antes de virar overpop.

Interessante é que a armadura escolhida é a nova versão do modelo Hulkbuster, desenhada especialmente para derrubar o Gorilão. Mas nem injetando os nanites inibidores de poderes teve jeito. The Hulk busted the Hulkbuster.


Ghost Rider #12


A presença de Ghost Rider na lista de sub-arcos que acompanham WWHulk só pode ser explicada como uma forma de capitalizar em cima das últimas marolinhas de popularidade geradas pelo filme. O Motoqueiro Fantasma e seu universo demoníaco/espiritual não têm absolutamente nada a ver com o clima da saga. Simplesmente não existe química.

A história começa com o Espírito da Vingança caçando um demônio que possuiu o piloto de um Airbus. Tudo acaba da pior maneira e ele acorda na manhã seguinte, já na pele de Johnny Blaze. Através do noticiário, o rapaz fica sabendo da invasão do Hulk e resolve ir até lá encarar o Gigante Verde. Fim da história.

Tapa-buraco mequetrefe escrito pelo Daniel Way (Poder Supremo: Falcão Noturno), geralmente um razoável Garth Ennis cover. Mas aqui escangalharam muito a barra. Já os desenhos de Javier Saltares são apenas corretos - e estou sendo bem bonzinho. Só se salva mesmo a belíssima arte da capa, cortesia do italiano Gabriele Dell'Otto.

O irônico é que a voz da razão vem do próprio Lúcifer. Na tentativa de impedir Blaze, ele avisa: "isto não é da nossa conta... não vá..."


Heroes For Hire #11


O tempo foi passando e acabei nunca lendo Heroes For Hire. Esta foi a primeira vez. Me lembrou bastante Nova Onda, de Warren Ellis (publicada aqui via Marvel MAX). Ambos têm muitas similaridades: tom bem-humorado, elementos de espionagem, diálogos cheios de duplo sentido, garotas bem-alimentadas abusando dos decotes e das posições de cachorrinho(a), e integrantes vindos da 4ª divisão dos buchas. Pra completar, as duas equipes têm como líder uma heroína negra das antigas - no caso, Misty Knight, ex-tira e eterna namorada do Punho de Ferro.

Os demais componentes são Shang Chi, Gata Negra, Tarântula, Colleen Wing, Paladino e Humbug. Este último está com um visual novo que lembra um filhote do Besouro Azul, da DC, com o Black Kamen Rider. É o que mais se destaca na edição, já que suas habilidades "insetísticas" interagem com pelo menos dois integrantes do Warbound: Miek e Brood, que estão preparando o terreno para uma infestação alien generalizada.

Apesar da cara de tosqueira anunciada, o roteiro de Zeb Wells é curioso e mantém o senso de continuidade. E os rabiscos de Clay Mann são bacanas - em especial as moçoilas, agradavelmente voluptuosas. Vamos ver no que vai dar.

A edição também traz uma sub-sub-sub-trama, com o Paladino investigando uma conspiração envolvendo a cavalíssima Carmilla Black, a nova Escorpião. Bobagenzinha à toa. Roteiro de Fred Van Lente e traços curvilíneos de John Bosco, xará do nosso João Bosco.


World War Hulk: X-Men #1


Queria mesmo saber como ia ser o acerto de contas do Verdão com Xavier e, por extensão, com os X-Men. Primeiro, porque o tutor dos mutunas não esteve presente naquela fatídica reunião do Illuminati. Segundo, porque a única coisa que faria Xavier sair de cima do muro seria um gigante radioativo, indestrutível e louco da vida batendo em sua porta.

Tchan-tchan-tchan-tchann...
Hulk esteve com a agenda abarrotada desde que chegou de viagem. Em que ponto da narrativa ele encontra tempo pra ir à Mansão X eu ainda não consegui saber - imagino que deve ter sido depois de tudo o que aconteceu nesta primeira leva de edições. Logo que chega lá, ele é recebido a bala por um grupo de novatos liderado pelo Fera e formado por Mercury, Faísca, Pedreira, Satânico, , Elixir e X-23. Mesmo sabendo do inevitável resultado, todos lutam corajosamente. Mas no fim, Hulk-smash-puny-mutants.

Apesar do quebra-quebra que permeia 98% da edição, WWHulk: X-Men é sobre a postura de Xavier diante disso tudo. O roteiro de Chris Gage meio que fez um sanduíche ideológico aí: abriu e fechou com o bom professor sendo questionado (primeiro pelo Homem de Ferro, depois pelo Verdão) e recheou tudo com bastante porrada. Deu certo e os desenhos de Andrea Di Vito não vacilaram: durante a luta com final premeditado, fica claro o espírito bravo e perseverante do X-time.

Só não sei ao certo como a equipe principal dos X-Men apareceu por aqui. Em Astonishing X-Men #21 - excepcional arco do Joss Whedon - eles estavam a zilhares de quilômetros da Terra.

Excetuando a Wolverinete X-23, não conhecia nenhum dos mutantes newbies que tiveram a paudurescência de enfrentar o Hulk. Sei que é notório o beco sem saída que se tornou esse lance de super-poderes, mas o caso da Mercury foi muito sintomático. Suas habilidades copy-pasteadas do T-1000 remetem à também mutante Robin Vega, que apareceu em Homem-Aranha #192.

Ou seja... os arquivos da Marvel estão mais bagunçados que repartição pública. Nego sai criando personagem sem fazer uma consulta decente e dá nisso.


World War Hulk: Front Line #1


Front Line é um olhar mais realístico sobre os últimos grandes eventos da Marvel. Guerra Civil teve uma, Iron Man também e por aí vai. Tudo sob o ponto de vista dos repórteres investigativos Ben Urich e Sally Floyd, com eventual participação do detetive Danny Granville. Urich saiu recentemente do Daily Bugle de J.J.Jameson e criou seu próprio jornal on-line com Sally - chamado Front Line, claro. A dinâmica entre os dois é o forte da série. Difícil não ser cativado. Para os órfãos de Alias, Front Line é quase um alento.

A edição mostra o impacto do ultimato do Hulk sobre a população e o que acontece nas ruas durante as 24 horas do prazo estipulado. O roteiro é muito bem-humorado, principalmente na segunda metade, quando a nave do Warbound aterrisa no Central Park - um moleque chega a dizer que parece o Cirque du Soleil, mas lembra mesmo uma paródia ao clássico O Dia em que a Terra Parou. Korg é quem faz o corpo-a-corpo para estabelecer os termos da "ocupação pacífica". Porém, logo ele se vê obrigado a pressionar o Departamento de Polícia (!!) quando o dróide do Warbound, Arch-E-5912, é depenado em um subúrbio. A bomba acaba estourando na mão do pobre Danny.

Prosa leve e bem-sacada de Paul Jenkins, meu ídolo. O "normal" dele é tão bom que é até uma pena quando tudo fica "super" no final. Traços urbanóides de Ramon Bachs, como deve ser.


A seguir:



To be continued...


Destrinchando: Incredible Hulk #108, World War Hulk #2, WWH Front Line #2, Ghost Rider #13 (fazer o quê!), Avengers: Initiative #4, Irredeemable Ant-Man #10 (vixe), WWH Gamma Corps #1, Heroes For Hire #12 e WWH X-Men #2. Roooaarr!!

sexta-feira, 20 de abril de 2007

O MELHOR DO TRIO TERNURA


Será que Mark Steven Johnson tinha idéia que o Coração Negro era deste jeito aí? > >

:-)

A história Corações Negros foi roteirizada por Howard Mackie, desenhada pelo abençoado John Romita Jr. e arte-finalizada por um colaborador de velha data, Klaus Janson. Publicada no Brasil em 94, trazia na premissa mais um esquema de Coração Negro para usurpar o trono infernal de seu pai, o mega-cramulhão-mor Mefisto. Para tanto, resolveu recrutar Motoqueiro Fantasma, Wolverine e Justiceiro, três badbad-guys da Marvel Comics que ninguém gostaria de topar num beco escuro. Claro que os três juntos formam uma química explosiva capaz de chamuscar o próprio capeta e a única coisa que Coração Negro arrumou ali foi encrenca.

Esta foi uma das raras ocasiões em que Coração Negro recebeu uma atenção especial por estes cantos, visto que a cronologia (já ralinha) do demoníaco vilão foi bastante depredada durante a era Abril Jovem. O personagem foi bem aproveitado por aqui em seus primeiros dias - na fase Ann Nocenti/Romita Jr. do Demolidor, publicada na saudosa Superaventuras Marvel - e após isto, apenas em participações pra lá de esporádicas e especiais en passant como este.

Lá fora, ele teve uma longeva story-line, publicada na revista Ghost Rider, que nunca viu a luz do dia por aqui, e mesmo lá sofreu com um impedimento na grande área. No fim dos anos 90, a última edição de GR, a #94, foi simbólica neste sentido. Cancelada pela Marvel por motivos de déficit financeiro (pendura mesmo), deixou de concluir toda a fase de Danny Ketch nos ossos do Motoqueiro, iniciar um novo plot com o motoca anterior Johnny Blaze (agora pai de família), e até fazer algumas revelações, como a verdadeira identidade de Black Rose, a satânica consorte de Coração Negro (era a finada Roxanne Simpson, ex-esposa de Blaze).

Com o caixa da Marvel já recuperado via cinemão roliúdiâno, a edição acabou sendo publicada no final do ano passado, com direito à desculpa esfarrapada, bônus e tudo. Mas aí o timing já tinha ido pro saco. De qualquer modo, obrigado pelos peixes.

E vamos ser justos... por anos, a Marvel operou às portas da concordata, cancelando títulos sumária e impiedosamente, levando em conta apenas a projeção de vendas. Complicado editar uma cronologia que, de uma hora pra outra, vira um total dead end. Na verdade, não faz o menor sentido. Claro que isto não justifica todas as derrapadas da Abril, mas é algo a se colocar na balança. A Panini mesmo nunca teve de encarar um pepino destes e já toma algumas decisões bem polêmicas.

O scan da edição nacional de Corações Negros está disponível na rede há um bom tempo, mas o arquivo que mais se propagou foi aquele no tenebroso formato pdf. Não é por nada, mas Acrobat Reader, pra mim, só serve pra ler edital. Então resolvi escanear no padrão gringo, dar aquele acabamento básico no Photochopp e subir pra ver se espalha por aí.

A HQ está linkada na imagem abaixo. Sem tarjas, marcas d'água ou senhas. Totalmente open-source e freeware.



Mirrors:
FileFactory
Badongo
Links off


Corações Negros também ganhou uma continuação em 94, até onde sei, inédita no Brasil.

Em The Dark Design, o Trio Ternura se vê novamente às voltas com o bastardo dos infernos Coração Negro, ainda conspirando contra seu progenitor Mefisto. Roteiro do mesmo Howard Mackie (expert em enxofre) e "Images" por conta de Ron Garney.

A narrativa traz muito pouco do clima de suspense anterior e aposta num package de ação semi-standard. É muito funcional no que propõe, mas os pontos altos são, de longe, o senso esperto de continuidade (os personagens não ignoram os eventos da primeira aventura) e um final realmente inesperado, pra dizer o mínimo.


Esta história está disponível nos links a seguir [em inglês] >>

The Dark Design
Mirror: FileFactory
Links off


"I'm rolling thunder, pouring rain... I'm coming on like a hurricane..."

domingo, 4 de março de 2007

DIRETOR FANTASMA


"Spawn was much much better than this". Essas palavras calaram fundo na minha mente quando li o review do Harry Knowles sobre Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider, 2007). E ele estava lá, desfiando passionalmente sua fúria fanboy-mor em cima de mais um suposto desperdício de um bom personagem dos quadrinhos. Analisando friamente, nada de novo até aí, visto que o diretor é o mesmo Mark Steven Johnson, do meio-médio-ligeiro Demolidor e responsável por uma nova enfermidade chamada transtorno obsessivo-compulsivo de Elektra*. O mal de Johnson é muito peculiar. Ele soa como se fosse um subproduto de Paul W. Anderson (de Aliens vs Predador), que por si só já é um subproduto de diretor-operário. A ironia é que Johnson tem boas idéias conceituais (Demolidor mesmo tem várias delas), mas as anula uma a uma impiedosamente em lances de absurda previsibilidade. Pra piorar, não parece ter a mínima intimidade com diálogos inspirados ou roteiros bem amarrados. E neste filme, além de dirigir, ele adapta e roteiriza... ou seja, Motoqueiro Fantasma é 100% Mark Steven Johnson, um cineasta 25%.

De qualquer modo, o filme é bastante fiel à premissa dos quadrinhos e condensa tudo que o Motoqueiro tem de melhor. Seu alter-ego é o motoqueiro Johnny Blaze com a roupagem e os poderes do motoqueiro Daniel Ketch. Nicolas Cage finalmente conseguiu o tão sonhado papel de super-herói e não faz feio no que lhe diz respeito. E a história é aquele mesmo causo faustiano contado na Marvel Spotlight #5, só que mais enxuto. O jovem Johnny (Matt Long) e seu pai, Barton Blaze (Brett Cullen), fazem um espetáculo com acrobacias em motos. Nas horas vagas, Johnny encara outro espetáculo, de nome Roxanne Simpson (Raquel hhhmmm Alessi). Um belo dia, ele descobre que seu velho pai tem câncer e está em fase terminal. É quando aparece o boitatá-de-Armani Mefisto (Peter Fonda), com um providencial contrato debaixo da asa. Sem maiores espiritualidades, Johnny vende sua alma pra aprender a tocar guitarra... digo, salvar a vida de seu pai do mal irremediável. Desse mal irremediável, melhor dizendo, pois o mesmo empacota na primeira manobra arriscada de sua apresentação, configurando aí uma autêntica sacanagem dos diabos.

Amargurado, Johnny cai na estrada e embarca numa carreira-solo bem sucedida, mas vazia. Os anos passam e ele reencontra seu antigo amor, Roxanne (já esculpida com as curvas de Eva Mendes), que, óbvio, virou jornalista. Como esmola demais o santo desconfia, Johnny também recebe a desagradável visita de Mefisto – o ser mega-satânico está reivindicando sua parte no contrato para conter a rebeldia de seu filho, Coração Negro (Wes Bentley).


Um grande mérito foi manter intacta não só a presença cavernosa do Motoqueiro, como também a enorme extensão de seus poderes - o personagem é muito poderoso, mesmo para os padrões super das HQs, e isto é claramente demonstrado aqui em diversas situações. Seu vozeirão gutural ficou ótimo, de meter medo em vocalista de death metal. Rola Crazy Train, do Ozzy. O maneiríssimo Olhar da Penitência está lá também. E quando seu "uniforme" fica totalmente caracterizado, com os vinte quilos de couro preto, corrente atravessada e espinhos metálicos, bate até um certo regozijo nerd. Nem o Homem-Aranha foi tão justiçado. Outra boa sacada foi o background sintético do Blaze pré-Motoqueiro. Ficou tudo mais ágil e marcante. Nos quadrinhos, a trajetória do rapaz (que era adotado) é um dramalhão texano daqueles. E uma vez mais, Johnson prova que, tirando alguns poucos Aflecks, é certeiro no que tange à escolha do elenco. Além do easy rider Peter Fonda, também tem meu tio Sam Elliott num papel que, fora ele, apenas meu outro tio, Clint Eastwood, poderia personificar com tal foderocitude, son. Rrrc. Cusp.

Parece bom, né. Mas não é bem por aí não. Johnson ainda continua matando seus bons rompantes com a frieza de um serial-killer, e a partir da segunda metade, ele o faz com talento ímpar. É aí que eu entendo melhor a fúria Knowlesca: o cineasta parece se esmerar para garantir que o produto final seja milimetricamente razoável e nada mais, mesmo com todas as condições favoráveis para deslanchar (o extremo oposto de Bryan Singer, na época do 1º X-Men). Johnson assume a ponta sem grandes dificuldades, mas aperta o freio bem no meio da curva. Essa atitude irrita mais do que se o filme fosse uma pilha de merda fresca.

Em Motoqueiro Fantasma existem momentos de puro vazio contextual. Não raro o personagem, com todo aquele visual dark hardcore, "trava" em cena e não diz a que veio, e quando diz não tem a menor importância - é impossível lembrar das falas do Motoqueiro segundos após as mesmas. Fonda e Elliott não passam de coadjuvantes de luxo – Elliott então, é praticamente despejado do filme em uma última cena cheia de buracos na lógica (não podia só ter pego carona na moto pra poder ajudar mais?). Já Coração Negro tem um poder com um efeito sinistrão, mas passa o filme inteiro se utilizando de seus assistentes – demônios buchas que representam as forças elementais. Cage, por sua vez, insiste em apontar o dedo em riste, ficar uma eternidade em silêncio pra finalizar dizendo alguma pasmaceira óbvia – maneirismo canastrão repetido ad nauseum (de quem terá sido a idéia...). Isso pra não falar na fixação do personagem por Carpenters e balinhas de jujuba (!!).

A apenas quinze minutos do final, eu imaginava se uma boa briga entre o Motoqueiro e Coração Negro não resolveria a parada. Sim, resolveria. Mas Johnson já tinha jogado a toalha há quarenta minutos atrás. Imagine o Deacon Frost, vilão do 1º Blade, com as mesmas motivações e planos para dominação do mundo, mas sem a luta final. Este é Coração Negro, que, por sinal, não tem nada demais em sua forma verdadeira, à despeito das declarações exageradas do diretor.

Um ano de pós-produção pra isto. Estou impressionado.


Parabéns Johnson, você conseguiu. Motoqueiro Fantasma é o filme mais mediano dos últimos tempos. Pelo menos rendeu aquela simulação em flash no site oficial.

Ah, mas eu não tenho webcam... tsc.


A propósito, um breve adendo:


Nicolas Cage já topou com um motoqueiro dos infernos, certa vez. Tal de Leonard Smalls, motoqueiro solitário do Apocalipse... ou algo que o valha.






Puxa vida, aquele cara era bem durão para uma metáfora.


Parabéns Eva Mendes. Beijão na boca!

domingo, 28 de janeiro de 2007

DIABOLE VERTSES EN UN VESES

"Who, in their right mind, could possibly deny the 20th century was entirely mine?"
John Milton (Advogado do Diabo, 1997)

E pelo andar da carruagem, o coisa-ruim anda fazendo uma senhora campanha de publicidade também no século 21. É um tanto desesperador que esta frase tenha sido cunhada numa época pré-11/9, pré-Afeganistão, pré-Iraque, pré-tsunami, pré-mensalão, e por aí vai. Certa vez, li uma teoria sobre o livro/filme O Exorcista que explicava que aqueles eram tempos de crise moral e política nos EUA, somadas aos horrores de uma guerra perdida, à escalada da violência urbana e à ausência geral de valores espirituais. Ou seja... o ambiente perfeito pro demo fazer a festa (começando por garotinhas indefesas). Longe de ser um expert nos aspectos técnicos das manifestações cramulhísticas, imagino que, sendo uma entidade abstrata em nosso plano, a sugestionabilidade coletiva é uma poderosa arma em suas garras. Não que o tinhoso seja o causador da merdaiada em que o ser humano vive se metendo. Seu 'trabalho' é muito mais discreto. Afinal, como profanou humildemente John Milton... "não sou titereiro... apenas preparo o cenário. Você é quem puxa suas próprias cordas".

Na cultura pop convencionou-se tornar a figura do belzebu em algo mais concreto e, nessa, o conceito do anticristo foi prontamente adotado. No cinema, ele aparece mais freqüentemente como uma força invisível e irreprimível (vide o Bzão O Príncipe das Sombras) ou como moleques assustadores com um "666" tatuado em algum lugar do couro (A Profecia, O Bebê de Rosemary). Mas isso é só no caso da paternidade ser do próprio Satan-in-chief. O esquema todo é cheio de regras e estratégias porque o livre-arbítrio, graças a Deus, tá na área.

Nos quadrinhos, essa burocracia infernal, bem mais complicada que uma "simples" possessão (à Etrigan/Jason Blood, da DC), pode ser contornada quando o cão em questão pertence à uma classe inferior - 1/3 dos anjos originais já é um número que demanda alguma pesquisa censitária. Nota-se também que um objetivo de vida mais modesto e não tão ambicioso, tal como "conquistar/destruir o mundo", é um facilitador do processo. Foi assim com o sacana Violador (arquiinimigo do Spawn), da Image, que, se não me falha a memória, é filho de um demônio jurássico old school com uma humana (é isto mesmo, Fivo?).

Já o sinistro Coração Negro, da Marvel, é um caso à parte.


Wes Bentley recebendo o exú Coração Negro: a forma humana do vilão

Criado por Ann Nocenti e John Romita Jr. em 1989, ele debutou numa história do Demolidor (Daredevil vol.1, #270 - publicada no Brasil em Superaventuras Marvel #122). Coração Negro é filho do super-capeta Mefisto, que o concebeu sem envolver qualquer miscigenação - o pequeno Coraçãozinho, além de 100% Negro, é 100% Cramulhão - detalhe que acho interessante. Ensaiando uma versão blasfema do Deus cristão, Mefisto envia seu único filho para a Terra em busca de uma espécie de redenção invertida. E para isto, nada melhor que vilipendiar os valores e ideais de alguma alma justa, incorruptível e altruísta - é ou não é a descrição per se do Demolidor (a.k.a Demônio Audaz)?

Em seus primeiros dias, Coração Negro é instinto puro. Através dos recordatórios, Ann Nocenti (mulher sensacional... ainda vou escrever muito, mas muito sobre ela) detalha minuciosamente cada sensação e etapa do aprendizado da infante criatura das trevas. O resultado lembra o texto de algum documentário estilo Desafios da Vida, com predadores famintos cercando filhotinhos desgarrados. A prosa de Nocenti é ágil e muito bem-sacada, o que impede o roteiro de se tornar pretensioso e enfadonho. Mesmo assim, ela aposta no seguro e suaviza ainda mais a atmosfera com uma participação especial do Homem-Aranha - outro herói sempre às voltas com dilemas éticos e ideológicos.

E Romita Jr., atravessando a primeira e definitiva re(/volu)formulação em seu estilo, insere em sua concepção visual o mesmo clima descomplicado das palavras de Nocenti. Fora que seu design para Mefisto, além de radical, é bem mais aterrorizante que o Conde Drácula cover habitual.


Provavelmente... nunca havia pensado nisso e nem sei se confere de fato... Romita Jr. tenha se reinventado de maneira tão efetiva visando a interação ideal com a narrativa de Nocenti. Acredito mesmo que ele tenha empreendido uma busca pela química perfeita entre suas imagens e o texto dela - deixando pra trás a influência paterna inicial (wow) para descobrir sua verdadeira ID artística, o que resultou numa das melhores parcerias dos quadrinhos, merecedora de TPB's, sketch-books e edições especiais ad nauseum (alô Panini!).

Segue abaixo a história da treta de Murdock e Parker versus o vilão de coração negro. Scans by me.


Peter Fisto: Easy Rider from hell
Sinceramente, tento não esperar muito da adaptação de Motoqueiro Fantasma - onde também estrearão na telona o papai Mefisto (ou Mefistófeles) e Coração Negro (Jr). Apesar dos ótimos previews, teasers e trailers, o figura Mark Steven Johnson sempre será o diretor do decepcionante Demolidor. Mas, olhando pelo lado positivo, grande parte das deficiências que deram as caras em Demolidor (sem trocadilho) serão contornadas pela natureza e poderes sobrenaturais do personagem-título. E o cast é bastante animador. Além de Nicolas "droga-eu-queria-mesmo-era-o-Superman" Cage, também tem o meu tio Sam Elliott, o sempre promissor Wes Bentley, a instituição harley-davidsoniana Peter Fonda e a explosively hot Eva Mendes.

E não sei até que ponto se pode confiar nas declarações do diretor, mas que elas são instigantes, isso são: "Coração Negro é mostrado no que eu considero sua 'forma humana' na maior parte do filme. Mas ao longo da história nós recebemos dicas do que existe debaixo desse disfarce. No clímax descobrimos seu eu verdadeiro - e ele é horroroso. Haverá um pouco do visual clássico da HQ adicionado de alguns elementos de horror".

Mefisto te abençoe, meu filho. Motoqueiro Fantasma estréia nos EUA em 16 de fevereiro. No Brasil, dizem que será em 02 de março.

Na trilha: Paradise Lost, One Second Live.