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terça-feira, 18 de março de 2025

A Balada das Fúrias Femininas


Agosto de 1994 foi um divisor de águas. Naquele mês, saía a polêmica Green Lantern #54. Ao mesmo tempo em que a edição choca os leitores com a morte brutal de Alex DeWitt, a namoradinha do Lanterna Verde Kyle Rayner, também dá uma nova carreira à cabeleireira Gail Simone. Seu website Women in Refrigerators – título sem rodeios e autoexplicativo – leva o fato um pouquinho pra fora da bolha nerd e rende contatos com figuras-chave da indústria. Alçada a roteirista, Gail tem breves passagens pelo gibi dos Simpsons e pela Marvel, até que, em 2003, assina com aquela mesma DC Comics da historinha brutal, onde está até hoje.

Claro que a DC não é a única editora historicamente misógina e sexista. A Marvel, tradicionalmente mais progressista, também tem sua cota de esqueletos femininos no armário. Mas é na DC que, por algum motivo, a passada da boiada sempre manteve o cardio em dia. Um exemplo é que logo após cooptar Gail Simone, a distinta publicou a minissérie Crise de Identidade, de Brad Meltzer, com toda a sorte de atrocidades às quais a personagem Sue Dibny foi submetida.

Quando o assunto é idade de consentimento, então, a coisa vira mato. O que queriam fazer com a Mary Marvel foi além de qualquer sensatez. E que o diga o amor-estranho-amor de Slade Wilson e Dana Markov, Hal Jordan e sua bimbo de 13 anos Arisia Rrab (mais tarde, embaraçosamente "consertada" por Geoff Johns para 240 anos!) e prefiro nem mencionar o Terry Long, pelo amor de Nabokov.

A raiz disso tudo parece remontar a uma época em que o escoteirão Superman flertava com suas jovens primas Supergirl e Poderosa como se fosse o sugar daddy das galáxias. Aquele agosto de 1994 pode ser sido um divisor de águas para Gail Simone, mas para a DC, era uma terça-feira qualquer.


São algumas viagens que ficaram após a leitura de As Fúrias Femininas, mini em 6 partes publicada em 2019 lá fora e compilada pela Panini em abril de 2021 aqui dentro. E minhas expectativas com o quadrinho eram o exato oposto desse papo. Com a guarda de elite de Darkseid em pose épica e ameaçadora na capa de Joëlle Jones, imaginei uma aventura de ação militar-espacial 2000 ADística, curta, grossa e divertida. Mas o roteiro da escritora, diretora e indie rocker Cecil Castellucci prefere explorar a cena pelos bastidores. O que, a priori, é uma ideia ótima e, ao mesmo tempo, perigosamente desafiadora.

Poucos terrenos das HQs são tão férteis para analogias ao preconceito de gênero (ou a qualquer preconceito) e à luta pelas causas femininas (ou a qualquer causa) quanto o inferno totalitário de Apokolips. Em particular, as Fúrias Femininas parece que nasceram para isso. A abordagem de Castellucci fica evidente no logo nas primeiras páginas, com a Vovó Bondade supervisionando a 1ª formação da equipe: Auralie, Lashina, Bernadeth, Harriet Louca e Grande Barda. Ah, esses nomes.

Enquanto conclui anos de treinamentos mortais, Bondade relembra seus próprios perrengues em nome da ascensão social e profissional – incluindo éons de humilhações e gaslighting de seus camaradas até a submissão sexual para o chefão de pedra chapiscada.

Paradoxalmente, as Fúrias eram, de certa forma, "protegidas" pelo treino e condicionamento extremos. Quando são oficialmente apresentadas, passam a conhecer o mundo-cão-machista no qual Vovó Bondade se graduou.

Dentre elas, a maior vítima é Auralie, alvo constante de assédio e estupros por um oficial da alta cúpula. Apesar das tentativas de trazer alguma justiça para seu caso, Auralie só encontra indiferença por parte de Bondade e repúdio das demais Fúrias. Sororidade passa longe das hostes apokoliptianas. A única que desenvolve alguma empatia (tardia) é Barda, já a um passo de seu relacionamento com o Senhor Milagre e do passaporte para a liberdade na Terra.


Castellucci teve bastante cuidado com o momentum de sua trama. Tudo está muito bem encaixado na cronologia sem influir nos eventos clássicos. A HQ começa com o assassinato da mãe de Darkseid, Heggra, a mando do próprio. Depois, Scott Free inicia sua parceria com o líder rebelde Himon. Até a sofrida Auralie tem o mesmo destino de sua encarnação original, em Mister Miracle #9, de maio de 1972. Detalhes extras bacanudos que mostram que a roteirista leu todo o Quarto Mundo de Jack Kirby com atenção e mucho gusto.

A coisa só patina um pouco nas elipses da narrativa, nos entrequadros. Alguns cortes são muito truncados, fora que algumas ideias chafurdam no absurdo, como a sequência envolvendo Auralie, Barda e um cadáver desovado num cometa (!). O desenlace é puro nonsense da Era de Prata.

A arte da paulistana Adriana Melo é eficiente e esteticamente agradável – sua "jovem" Vovó Bondade é qualquer coisa de espetacular e implora por arcos com missões solo. A exceção são as cenas de luta, confusas como as de um gibi do StormWatch ou do Justice (lembra disso, Vicente?). A artista também evita aquelas panorâmicas industriais/tecnomedievais de Apokolips, um personagem à parte das sagas Kirbyanas. Se conscientemente ou não, vai saber. Mas ela, com absoluta certeza, teria cacife.

No final, surpreende ver que a chamadinha de capa "A Revolução no Quarto Mundo!" não fica apenas na promessa. A tal revolução, furiosa e feminina, realmente acontece, embora destoe da cronologia jogando tudo pra conta de um provável Elseworld. Uma ousadia que não consegue suprir totalmente a sua (enorme) ambição. Não foi dessa vez.

Deixemos isso, ainda, com a Martha Washington de Frank Miller e com a Halo Jones de Alan Moore. Mas valeu a tentativa.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Leiturinha matinal


Curtinhas da Laerte quando ainda era o Laerte. Benzetacil de nonsense e felicidade na testa. Ganhei de sorteio do Guia dos Quadrinhos.

O lado "ruim" é que destravou uma vontade implacável de mergulhar em minhas velhas edições da Circo, Chiclete com Banana e Piratas do Tietê... que estão no ponto mais difícil da Cordilheira das Caixas – na última fileira embaixo, no canto.

Academia pra quê.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Entre morcegos e lobos


Que leitura. Batman: Gritos na Noite é considerada uma das histórias mais pesadas do Cruzado Encapuzado. E, adivinha, é pesada mesmo. Nem foi necessário recorrer ao Coringa, ao Duas-Caras, ao Espantalho ou qualquer residente do Arkham. Só precisou do elemento humano, no seu mais errático, imperfeito e trágico. Figurinhas tão triviais quanto o colega de trabalho, o vizinho que acena, o parente próximo. E isso é assustador.

O roteiro é do lendário Archie Goodwin, que co-argumentou a premissa com o artista Scott Hampton (Lúcifer, Deuses Americanos). A trama gira em torno de chacinas brutais de famílias de Gotham City, uma nova e poderosa droga que está agitando as ruas e casos de abuso infantil. Temas sombrios por natureza, nunca abordados de forma tão nevrálgica num quadrinho mainstream. Eu, pelo menos, nunca vi.

Lá fora, Gritos na Noite saiu em outubro de 1992. Foi publicada aqui pouco depois, pela Abril, em dezembro de 1993. E foi publicada novamente pela Panini no finzinho do ano passado, exatos 30 anos depois. Acompanhei essa cronologia in loco. Velho é pouco. Mas meu 1º contato não foi dos melhores: na época, achei a história arrastada, a arte muito escura e um tom geral de "quadrinho adulto" que não apeteciam aquele leitor espinhento viúvo de Heróis da TV. Pérolas aos porcos, é o que dizem.

Precisei desses 30 anos – mais seis meses até tirar do plástico (as páginas do bendito couché já começavam a colar) – para adquirir o cabedal necessário para apreciar a graphic com propriedade. Trata-se de uma obra sui generis, perturbadora, atual e necessária.


A arte aquarelada e suja de Hampton é o coração da HQ. O artista trabalha em diferentes tons escuros conferindo uma sensação opressiva, pesarosa e desesperadora à narrativa. É incrível como uma história que investiga a escuridão da alma humana tenha acertado tanto na escolha de seu artista.

A Gotham de Scott Hampton é apavorante. Parece situada n'alguma dimensão fantasmagórica, trevosa e obscura, como o Outro Mundo (Silent Hill) ou o Mundo Invertido (Stranger Things). Ou, melhor ainda, no Umbral.

Como ele mesmo chegou a brincar:
“No que me diz respeito, ninguém em Gotham City tem nada superior a uma lâmpada de 20 watts.”

Definição melhor, impossível.

O contraste entre as cenas escuras e as cenas claras também é espetacular. Literalmente uma supernova direto no olho logo após um longo blecaute.

É uma leitura que demanda tempo e atenção. Não foram poucas as vezes em que precisei acostumar a retina até capturar tudo o que estava acontecendo num quadro.


Assim como não foram poucas as vezes em que achei que havia algo e era apenas a transparência de algum balão na página de trás. Duh.

Sabiamente, Hampton evita qualquer traço de virtuosismo, o que cortaria a sua fina sintonia com a trama. Ainda assim, em vários momentos, acaba lembrando uma cruza dos mestres John J Muth e Richard Corben. O que não é nada mal para um autodidata confesso.

Mesmo esse evidente compromisso com o espírito da história rende cenas que são um convite a uma bela moldura.


Bons tempos em que isso era mais valorizado

Nunca vi um Bruce Wayne no papel do playboy-filantropo-bon vivant tão soturno, tão pouco à vontade, tão Batman. E Jim Gordon, ainda imundo das ruas em suas primeiras horas como Comissário, é o protagonista moral aqui. Complexo, obstinado, falho e, novamente, humano.

Gritos na Noite justifica o título. É um thriller psicológico barra pesadíssima que bem poderia ter sido a fonte de consultas para David Fincher em Se7en (1995). Especialmente fortes são as duas sequências das páginas 51–55, inesperadas para um comic book e difíceis de ler, nauseando o leitor com uma impotência que remete aos próprios personagens. É um quadrinho que te traga para dentro, gostando ou não.

A conclusão, inevitavelmente pós-traumática, sugere até certa natureza elseworld, à Piada Mortal. Algo para refletir.

Difícil saber onde estavam as mentes dos quadrinistas quando escreveram a história. Hampton costuma dizer que é uma HQ muito pessoal, seja lá o que isso quer dizer.

E o veterano Archie Goodwin, falecido em 1998, trabalhou nas revistas Creepy e Eerie na década de 1960, foi editor da Epic Illustrated e, depois, do selo Epic, na Marvel, por dez anos. Estava acostumado com temáticas hardcore e mundo cão, mas nada assim.

A única coisa que sei é que o Batman era seu personagem predileto da DC. E talvez isso tenha sido o suficiente.

domingo, 24 de março de 2024

Báthory Bloody Báthory


Quando Erzsébet foi publicado pela Zarabatana Books em 2017, o editorial tratou de conferir uma aura de mistério em torno do autor. Comercialmente falando, uma malandragem pro. Mas, de fato, pouca coisa se sabia sobre Nunsky. Apenas que ele era do norte de Portugal, cantava numa banda psychobilly (The ID's) e exercitava seu lado quadrinista muito sazonalmente em zines e autorais underground. Ou seja, uma figura quase tão obscura quanto o BZ. Mas o "mistério" não durou muito tempo.

Hoje, sabemos que seu alter-ego é Cláudio Roberto Martini (quem?!), que mantém uma conta no Facebook onde posta tirinhas e projetos (quase) regularmente e que, sem dúvida, Erzsébet é a sua obra mais ambiciosa e fascinante até aqui.

A proposta da HQ é montar uma espécie de biografia livre da Condessa Elizabeth Báthory de EcsedBáthori Erzsébet, em seu húngaro nativo. Apesar de ser uma figura histórica bastante conhecida, ela contabiliza poucas bios, entre elas os filmes Condessa de Sangue, de 2008, com a ótima Anna Friel, e A Condessa, de 2009, dirigido e protagonizado pela Julie Delpy, além da BD francesa A Condessa Vermelha - Erzsébet Bàthory, publicada aqui em 1987 pela Martins Fontes.

Todas elas versões de autor, com toda a liberdade criativa e acuracidade histórica irregular que se espera. Em Erzsébet não é diferente, mas é das mais intrigantes. Capturar a vida e obra da Condessa Vermelha é um trampo capcioso. Mas temos lá o mythos que cruzou séculos rumo à eternidade e que Nunsky usa como mapa.



Elizabeth Báthory (1560-1614) é uma nobre de uma poderosa família dona de vastas propriedades no Reino da Hungria, onde exerce uma profunda influência política e militar. Bem educada e criada sob os rigores do calvinismo protestante, a jovem Elizabeth sofre com enxaquecas e crises de epilepsia. Se casa aos 15 anos com o Conde Ferenc II Nádasdy – um arranjo político que faz das duas famílias praticamente as donas da Transilvânia e da Hungria. Nádasdy logo assume o comando do exército e entra em guerra com os Otomanos (sempre eles!). As campanhas duram meses, o casal pouco se vê depois disso.

Durante os períodos de solidão, vagando pelo castelo sob a marcação de sua sogra religiosa e severa, Elizabeth desaba em uma espiral de insanidade. O que começa com crueldades imprevisíveis e gratuitas contra os criados, assume contornos psicopáticos, com a condessa arrancando nacos de carne e sorvendo o sangue de suas vítimas. Se o Leste Europeu não fosse entupido de lendas Strigoi, diria que o Bram Stoker (1847-1912) se inspirou muito ali. Mas a coisa escala mesmo após a morte de Ferenc.

Buscando a juventude eterna, Elizabeth passa a se banhar em sangue humano. A fonte: jovens virgens filhas de plebeus camponeses, considerados cidadãos de 5ª classe pela aristocracia. Fora de suas famílias, ninguém daria falta e/ou se importaria com elas. E começa uma orgia sem limites de carnificina e sangue que contabiliza mais de 650 vítimas.

Eventualmente, a condessa acaba se deparando com escassez de matéria-prima – afinal, após tantos sumiços, os vilarejos passam a evitar o castelo e seu entorno – e ela se vê obrigada a buscar seus insumos nas jovens da nobreza. E é aí que as autoridades começam a se importar.

Elizabeth é pega com a boca na botija (ou na artéria) durante uma revista feita em seu castelo por György Thurzó, Grão-Paladino da Hungria e também o seu primo. Talvez por isso, e pelo brasão de sua família, tenha escapado da fogueira. Elizabeth é julgada e condenada ao confinamento em um quarto selado com blocos, onde permanece até a sua morte, três anos depois.

Fim da história, início da lenda.



A composição estética é o aspecto mais poderoso da narrativa de Nunsky. O release propõe uma cruza entre os estilos de Charles Burns e Jaime Hernandez, no que concordo mais ou menos. Tem muito mais ali das artes medievais, povoadas por figuras chapadas e rígidas – com o diferencial da perspectiva, inexistente nas gravuras clássicas. O quadrinista aplica essa característica de forma sagaz, construindo várias passagens mortificantemente silenciosas que dispensam descrições textuais, mesmo com grandes quantidades de informação atreladas. Ele confia plenamente em sua capacidade gráfica e, mais ainda, na capacidade intuitiva do leitor.

Fora que isso deixa tudo mais macabro e perturbador. Afinal, se estabelece ali uma conexão psicológica quadrinho-leitor que não deveria nem existir em uma mente sã e pura. Viva?

Na HQ, Nunsky veste a camisa do thriller, do terror gótico, o que faz primorosamente. No que tange ao contexto e ambientação da bio, porém, o autor opta por uma leitura mais enxuta. As extensas ramificações da família Báthory e o complexo cenário sociopolítico da região (algo como um Game of Thrones on crack) são explorados apenas superficialmente. Elizabeth teve cinco herdeiros, sendo 3 filhas e 2 filhos. Todas figuras históricas relevantes da época. Isso sem contar os dois filhos não confirmados – um deles com um plebeu, inclusive, quando ela tinha 13 anos. O quadrinho suprime esses fatos, registrando apenas um parto.

Um detalhe curioso sugerido em Erzsébet é que o comportamento doentio da condessa começa exatamente após uma de suas violentas enxaquecas. Não sei se chega a ser uma sugestão de gatilho para suas atrocidades posteriores, mas o fato é que ela não volta mais a sofrer com as dores. Teria sido ali o ponto zero de uma mente enferma?

Uma especulação que parece um grão de areia na praia dessa história.


Hoje, é sabido que havia muito mais por trás da lenda da Condessa Sanguinária. Por exemplo, os 300 depoimentos colhidos para seu julgamento, que ainda constam no Arquivo Nacional Húngaro, são de pessoas que apenas ouviram falar das mortes. Seus quatro servos que supostamente a ajudaram, confessaram os crimes sob tortura – e foram rapidamente para a fogueira após as confissões.

A quantidade de terras, castelos e bens acumulada pela família Báthory era incomparável. E ficou ainda mais concentrada após a morte de Ferenc, o que teria desagradado os aristocratas do reino. Alguns deles, inclusive da Corte da Habsburg, deviam somas vultosas aos Báthory. Fora isso, ainda havia conflitos de interesses entre seus filhos, netos e outras casas influentes (lembra das maquinações Game-of-Thrônicas?). Elizabeth virou um alvo fácil.

Aliás, o famoso carro-chefe da lenda – os banhos de sangue para preservar a sua juventude – foi mencionado pela 1ª vez apenas em 1729, pelo jesuíta László Turóczi. Mais de um século depois.

Elizabeth Báthory pode ter sido uma das assassinas mais cruéis da História. Ou vítima de um dos assassinatos morais mais cruéis da História.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Uma cadáver deliciosa


Uma Morte Horrível é mais uma HQ que jazia nas profundezas da minha pilha de leitura, perdida entre TPBs, HCs, formatinhos e fumettis. Uma injustiça horrível. A bande dessinée (ulalá!) da parisiense Pénélope Bagieu é uma grata surpresa: espirituosa, intrigante e com um toque de agridoce crueldade. Me lembrou aqueles thrillers obscuros exibidos nos Corujões da vida, surpreendendo zapeadores insones com uma trama ligeiramente fora da curva.

...difícil era achar o filme depois, com zero referências naqueles tempos valvulados. Cheguei a fazer pequenas loucuras para solucionar alguns desses mistérios. Outra história.

A obra é o debut da multitarefas Bagieu. Publicada originalmente em abril de 2010, lançada aqui em abril de 2016 e tirada do plástico por um leitor negligente em fevereiro de 2024. Vê como não houve demora?

Não há passado, nem futuro, tudo flui em um eterno presente – Dr. Manhatt... OPA.

A protagonista é Zoé, uma jovem adulta deslocada e sem perspectivas. E um tanto alienada também. Se vira fazendo bicos como hostess e vive com o namorado desempregado e boçal. É o perfeito retrato das gerações pós-millennials-e-lá-vai-ladeira.




É uma HQ que ganha toda a identificação possível já nas primeiras páginas.

Num dia qualquer, Zoé conhece Thomas, um escritor de meia-idade que vive recluso em seu apartamento. Mais do que recluso, Thomas parece cultivar um pot-pourri de agorafobia, antropofobia e que mais tiver de fobias sociais.

Diria que esse encontro é o grande gatilho da HQ.


Amargando um bloqueio criativo aparentemente intransponível, Thomas desenvolve uma relação platônica com Zoé, enfim se reconectando com a inspiração há muito perdida. Apesar de todas as diferenças (e talvez por causa delas mesmo), Zoé é alçada ao posto de Musa. E se reconecta com a felicidade e o amor em versão algo excêntrica.

As coisas se complicam com a chegada de Agathe, uma misteriosa personagem do passado de Thomas.

Pode não parecer, mas esse início SergeGainsbourguiano (desculpa aí o mau jeito) vai se desenvelopando mezzo como tramoia neo-noir, mezzo como o capítulo final de um novelão das 8. Não dá para comentar mais do que isso sem comprometer a história – e olha que já dei um show de contorcionismo até aqui.


É notável como Bagieu consegue equilibrar perfis tão distintos e ainda convertê-los em engrenagens essenciais nas reviravoltas. Soa quase como se tivesse escrito o roteiro partindo do final até o início. Coisa de craque, muito embora ela tenha apelado para uma malandragem elíptica perto da conclusão. Sabe como é, para ninguém antecipar o que vinha chegando.

Coisinhas de marinheira de 1ª viagem. Mas acabei simpatizando com o jeitinho brasileiro francês da opção. Afinal, funciona.

O traço da quadrinista é um cartunizado limpo e econômico, passeando por vários ângulos e sempre ao largo da tosqueira estética – vide as splashs bacanudas das páginas 54, 69 e 83. Inclusive, seu estilo até se aproxima da pegada da Margaux Motin (de Placas Tectônicas). Mais como uma cumplicidade artística do que propriamente uma influência. Se rolasse uma colaboração entre as duas, seria um cadáver esquisito imperdível.

O que me leva à única ressalva sobre a cuidadosa edição da Editora Mino.

Uma Morte Horrível foi lançado originalmente com o título Cadavre Exquis. É uma referência ao jogo interativo homônimo criado por surrealistas franceses em meados dos anos 1920. É bastante conhecido, incluindo em nossa jovem província.

“Baseado em um antigo jogo de salão, Cadavre Exquis – Exquisite Corpse, em inglês – era jogado por várias pessoas, cada uma das quais escrevia uma frase em uma folha de papel, dobrava o papel para esconder parte dele e o passava para o próximo jogador para sua contribuição. A técnica recebeu o nome dos resultados obtidos na primeira execução, ‘Le cadavre / exquis / boira / le vin / nouveau’ (‘O cadáver delicioso beberá o vinho novo’).”

Essa brincadeira/técnica coletiva pode ser aplicada tanto em textos quanto em desenhos.

A tradução brasileira "cadáver esquisito" obedece à tradição parônima que temos ao perceber erroneamente o termo inglês "exquisite" como "esquisito", ao invés do correto "delicioso" com o viés de "sabor refinado/sofisticado". É nóis.

Isto posto, Uma Morte Horrível foi uma opção ainda mais... esquisita do experiente tradutor Fernando Scheibe. A analogia com a história é perfeitamente compreensível, mas também aniquila as várias metáforas possíveis que poderiam ser feitas com o título original.

Pessoalmente, não abriria mão desse cadáver. Que é mesmo delicioso.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Que garota maluca...


Cynthia Bonacossa, a Cynthia B., é quase uma 3x4 do quadrinista brasileiro: uma alma inquieta, sagaz e que ri das próprias desgraças com um sorriso doido no rosto. O único porém é que a autora não esteve tão mal na foto. Entre 2009 e 2015, trabalhou com Allan Sieber e em publicações udigrudi como Golden Shower e Pé-de-Cabra, fez tiras para a Piauí, para a Folha e, de quebra, fez residência na Maison des Auteurs, em Angoulême.

Tudo isso e ainda lembrava a Karen O naquela foto de divulgação. Nada mal mesmo.

Daí que Estudante de Medicina, sua estreia autoral, apenas seis anos após pendurar o jaleco de médica para seguir carreira nos quadrinhos, é algo digno de nota. Publicado pela Veneta em 2017, o livro, inclusive, ganhou edição francesa.

Até aí, tudo bueno, tudo azul, com entrevista para o G1 e pá e bola. Mas de lá pra cá, o jaleco retornou da gaveta, vingativo. E foi a vez do nanquim ser pendurado. Ao menos, é o que consta. Brasil pós-2018 não é para fracos.

Estudante de Medicina é um registro semi-autobiográfico de Cynthia no período em que ela cursou Medicina na UFRJ, entre 2006 e 2011. E confesso, é uma HQ que me ganhou já na prévia gratuita... pelos motivos mais escatológicos.


Foi a prévia certa na hora certa. Na época, andava imerso na onda de "vídeos satisfatórios" no YouTube. Mas sem putaria: os vídeos em questão mostram extrações de toda sorte de abcessos, espinhas e cravos tão gigantescos que parece que a qualquer momento vão sair dali e destruir Tóquio. Impressionante a quantidade de trasheiras que se abrigam por baixo da pele.

Em outras palavras, foi amor à 1ª vista. Ou espremida.

Peguei logo que vi. Mas por motivo de pilhadegibis, só li agora. 6 anos para devorar o livro em 1 hora. É uma leitura purulenta/suculenta e divertidíssima.

E um tanto diferente do que imaginei naquela impressão inicial.


A rotina acadêmica pode ser um dos períodos mais complicados na vida de qualquer um – coroando a pós-adolescência, um período já bem pau-no-cu por si só. Com a quadrinista não foi diferente.

Então, o livro acaba priorizando temas mais intimistas baseados em experiências pessoais e/ou de terceiros, a dinâmica caótica dos relacionamentos, dilemas vocacionais, entreveros familiares e pronto, temos aí uma obra coming of age moderninha, extrovertida, morando na Barra e bronzeada pelo sol de Ipanema – não exatamente o Carnaval de vísceras & fluídos humanos que assaltava minha imaginação há anos.

Felizmente, o storytelling de Cynthia é muito cativante. Bem-humorado e salpicado de tons irônicos e autodepreciativos, mesmo quando a homônima protagonista passa por seu momento mais sombrio (sem spoiler). O choque de realidade no finalzinho é, ao mesmo tempo, terno, engraçado e com um puta gosto amargo que me lembrou do final-porrada de A Primeira Noite de um Homem.

Sim, acabei de comparar o gibi com o clássico de Mike Nichols. Nunca me pegarão vivo.


Claro que a coisa toda fica brilhante quando aborda a rotina punk de prontuários, pediatrias e propedêuticas. Ri alto nos perrengues mais, digamos, fisiológico-viscerais e nos bizarros causos hospitalares (o cerumano é muito, muito escroto) – tudo acentuado pelo seu traço "toscomics", que aqui coube à perfeição. Também é difícil não se emocionar com o drama de algumas situações, sempre retratadas com pragmatismo e sensibilidade pela autora.

Daria fácil um Estudante de Medicina 2 - A Revanche só com essas histórias cabulosas de enfermarias e pronto atendimentos.

Sinceramente, é o mínimo que espero se um dia ela pendurar o jaleco mais uma vez.

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quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Vida, o Grande Momento da Morte


As Muitas Mortes de Laila Starr traz uma premissa simplista: a imortalidade está prestes a ser descoberta e, no panteão divino hindu, a Morte é dispensada de suas atribuições. Pior ainda, é remanejada para a Terra, onde viverá como mortal no corpo de Laila Starr, uma jovem suicida. Inconformada, ela parte para uma caçada ao futuro criador da imortalidade, então ainda um bebê de nome Darius. A empreitada, cheia de contratempos, literalmente apresenta à Morte o sentido da vida. E da humanidade.

Lançada aqui em abril pela Devir, a mini em 6 partes foi publicada originalmente em fevereiro de 2022 pela BOOM! Studios. É uma das obras mais ou menos indie da sensação Ramnarayan Venkatesan, o Ram V. Atualmente, o roteirista indiano tem exclusividade com a DC, mas também escreveu para a Marvel até há pouco tempo. Não deixa de ser irônico ele criar uma obra tão existencialista e reflexiva enquanto trabalhava nas revistas solo do Venom e do Carnificina. Isso que é trafegar entre o luxo e o lixo.

O homem é um craque. Com um insuspeito bom humor, confere leveza e fluidez às camadas e transições – além de facilitar a compreensão da complicadinha hierarquia bramânica para os neófitos. A ex-Morte Laila Starr é uma protagonista improvável e irresistível, assim como a sua jornada de crescimento e adequação. Sua trajetória é um contraponto à de Darius e as duas se completam numa espécie de arco coming of age. Isso é novidade.

Por vezes, lembra a estrutura de Castelo de Areia, de Pierre Oscar Lévy e Frederik Peeters (e que virou filme do Shyamalan), mas a pegada é menos visceral e mais espiritualista. Neste colorido metafísico da condição humana, Neil Gaiman é sempre uma referência, mas talvez Hayao Miyazaki tenha tido uma maior ressonância aqui. Particularmente A Viagem de Chihiro, com o divino e o abstrato personificados por animais (Kah, o corvo funerário) e até objetos e lugares (o templo chinês do Sr. Wei). Filosofia da lisergia.



O traço do desenhista alfacinha Filipe Andrade tem uma discreta exuberância. Com linhas soltas, mas efetivas, as composições passeiam da simplicidade à complexidade. Por vezes, lembra algo entre uma estilização pop à Stuart Immonen/Jamie Hewlett e uma abordagem mais artsy e barroca, mais Ziraldo, mais Tarsila do Amaral. Exagero? Provavelmente. Mas a linda e tocante sequência protagonizada pelo caseiro Bardhan não merecia menos. É a minha predileta, por sinal.

E juro que ainda vi detalhismos à Sergio Toppi no decorrer da leitura. Que, aliás, é tão rápida quando envolvente. Ou talvez por isso mesmo.

São 120 e poucas páginas, mais as belas capas por artistas diversos, que passam voando. Impressiona, portanto, a imersão em temas inesgotáveis como o embate Eternidade X Finitude e a gradual mudança de perspectiva da Morte/Laila Starr, bem como suas novíssimas experiências humanas. Neste último, senti falta de mais background. Um exemplo é a cena em que ela está ficando com uma garota numa festa, no segmento "Virando fumaça", narrado do ponto de vista de um cigarro (!). Óbvio que gostaria de saber como ela chegou até ali, seus erros, acertos e tudo o mais.

O mesmo se aplica às divertidas interações com a deusa Agni, aqui vertida a uma secretária celestial, com Prana, o bon vivant deus da vida, e com Munmun, uma fantasminha simpática (e camarada). O texto de Ram V é delicioso e elas podiam ter durado bem mais. Isso me leva à única reserva que faço à HQ.

É compreensível o mistério sobre a imortalidade e suas consequências, afinal, não é esse o ponto central. Porém, a demissão precoce da Morte gera uma inconsistência cronológica: até a imortalidade ser desvelada, seus serviços seguiriam absolutamente necessários no mundo – e foram em várias ocasiões, só naquele microcosmo.

Mas dá pra arrumar jogando na conta da elipse. De outro modo, isso inviabilizaria a história e essa é daquelas que vão me acompanhar por um bom tempo...

♾️ ★ ✞ ★ ✞ ★ ✞ ★ ♾️



Durante a leitura, uma lembrança recorrente veio à tona com força total: A Desintegração da Morte, do imortal paulistano Orígenes Lessa. Publicado em 1948, o romance é curto e direto, com pouco mais de 100 páginas. Li pela 1ª vez na adolescência.

Fiquei impressionado com a distopia assustadora gerada pela imortalidade e suas consequências. É um take pessimista e paradoxalmente apocalíptico, na linha "cuidado com o que você deseja".


Recomendo demais.

domingo, 4 de dezembro de 2022

Bate-Man & Paulão, a dupla dinâmica!


Atualizar um título é um dos momentos mais melancólicos e nonsense da rotina de colecionar quadrinhos. Melancólico porque é um processo de desapego. É nessa hora que toda aquela magia nostálgica costuma ir pro saco. Nonsense porque, se você já tem o bendito gibi, então por que pegar uma versão nova? Entre prós e contras, existe a praticidade, os extras, a diferença das dimensões, da diagramação, do papel, da impressão e quadrinhofilias afins. A vida não é fácil.

Felizmente, também existem casos como os de Batman: Gótico. Ou Gothic, dependendo do editor.

A HQ saiu originalmente em Legends of the Dark Knight #6 a #10, entre abril e agosto de 1990. O roteiro de Grant Morrison segue uma linha detetivesca com elementos faustianos/sobrenaturais. Como de praxe no título, a trama se passa nos primeiros anos (meses?) do Cruzado Embuçado envergando o capuz. E inclui algumas patacoadas já anacrônicas para a época, como a ridiculamente-elaborada-armadilha-infalível-da-qual-o-Morcego-escapará-no-último-instante. Era o bom e velho Morrison pagando tributo ao seriado sessentista enquanto se deliciava com sua salada de cogumelos, ácido e ecstasy — o café da manhã dos campeões.

A arte trazia Klaus Janson onde não havia nenhum lápis para ele transformar em algo do Klaus Janson que não fosse o dele mesmo. Que é bem irregular, diga-se. Não duvido que tenha tascado o nanquim de primeira. Mas o emprego da retícula Zip-A-Tone ficou show de bola.

No Brasil, a história foi publicada em 5 partes na cultuada Um Conto de Batman em julho de 1991 e encadernada em dezembro do mesmo ano. A Abril estava ligeira (isso, mais a hiperinflação acabaram com minhas preten$ões de acompanhar gibizinhos naquela década). É uma delícia revisitar a obra nos dropzinhos do formato americano original. Ainda é o melhor jeito de ler quadrinhos, mas que, misteriosamente, nunca pegou por aqui.

E o melhor de tudo foi algo que só relembrei agora, atualizando para a versão em capa dura. Foi dali que saíram alguns momentos icônicos da edição nacional de quadrinhos...


Justiça seja feita, o ato de traduzir, que normalmente já é um trabalho traiçoeiro, às vezes adquire contornos demoníacos. Ainda mais quando pipoca um trocadilho intraduzível, como foi o caso deste "Bat" (de "bastão") - "Man". É sensacional, embora completamente alienígena para a nossa realidade.

Nada que a tradução nacional não desse conta com o jeitinho brasileiro na ponta da agulha.


Literalmente, o cara-que-bate. Genial é pouco.

Podia até torcer o nariz para a malandragem da "tradução localizada", não fosse o próprio nome do herói por aqui uma subversão adaptativa clássica — que ninguém liga e até agradece.

No expediente, os créditos da tradução e adaptação são do Estúdio Art & Comics, dos sócios Helcio de Carvalho, Dorival Vitor Lopes e, claro, Jotapê Martins. Este, com toda a certeza, o pai da criança.

Muito embora, ache que, diante de tal abacaxi e com os prazos batendo na canela (Um Conto era quinzenal), é bem possível que o engenhoso Jotapê tenha se inspirado em uma fonte muito louca.


A 1ª aparição de um "Bate Man", em MAD #60, da Vecchi (jun/1979)

E na edição da Panini?

A solução foi surpreendentemente sucinta.


Os créditos são dos manos Diogo Prado (tradução) e Pedro Catarino (adaptação). Faltava ao Jotapê essa contemporaneidade.

Mas sem problema. Na Gothic da Abril, os nomes originais eram meras telas em branco aguardando o talento de um artista. E esse artista era ninguém menos que João Paulo Lian Branco Martins.



Também conhecido como Jotapê Paulão.

Nessa atualizada melancólica e nonsense decidi pelo impagável e pelo sensato: vou manter as duas edições.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Trilhando o caminho


Até anteontem minha experiência com mangás se limitava à versão invertida e ocidentalizada de Akira. Hoje, além de ter a exata noção dessa blasfêmia, tenho me iniciado no mangaverso de maneira estranhamente ordenada. Isso graças à vasta gama de opções que pululam no mercado. Tenho bicado desde aventuras pop e cyberpunkadarias diversas até salseiros, digamos, mais clássicos. E encabeçando o gênero, a cultura, a raça e, pelas barbas de Toshiro Mifune, a maldita ilha inteira, Lobo Solitário, de Kazuo Koike e Goseki Kojima.

...que só conhecia pela fama monolítica, impacto cultural e homenagens solenes de gente como Frank Miller, Bill Sienkiewicz, Matt Wagner e Mike Ploog.

...que também capearam a revista quando foi lançada na 1ª vez nos EUA pela, duh, First Comics em 1987.

...que publicou menos de 1/3 da série antes de fechar as portas. Paraquedismo editorial desconhece fronteiras.

Lobo Solitário estreou em 1970. É alçado à l'état de l'art desde priscas eras, o que, em tese, já faria da atemporalidade uma marca registrada. Do alto de sua invejável autonomia, o que Lobo Solitário menos precisa é da condescendência de um velho gafanhoto como eu. Perfeita desculpa para ser simples, direto e pegar pesado onde e quando for possível. E eis que finalmente li os primeiros passos daquilo que Koike & Kojima aprontaram em seus estúdios há meio século...

Na trama, seguimos Itto Ogami e o simpático Daigoro, seu filhinho de três anos, numa jornada pelo interior do Japão. Apesar da aparência algo simplória e da atitude errática, Ogami é um guerreiro formidável e um estrategista brilhante. Não é muito afeito a discrições: no carrinho do bebê, leva um cartaz anunciando que aluga sua espada e seu filho - sem más intenções quanto ao segundo, que fique claro, a menos que seja para ludibriar algum infeliz até uma morte inevitável e hedionda.

Resumindo, é um assassino profissional capaz das mais ardilosas artimanhas para atingir seus objetivos. Além de conhecer os ditames SunTzuísticos de cabo a rabo e aplicá-los sem piedade ou moderação.

São histórias curtas. Em quase todas, ele está cumprindo ou vai cumprir uma missão... ou não... e é tudo o que se pode comentar sobre o 1º volume sem comprometer as surpresas que vão aparecendo. E o mais incrível: a essência dessas surpresas seguem intactas ainda hoje. Após décadas de pequenas e grandes reviravoltas em ficção e não-ficção em todos os gêneros e estilos, ainda há sacadas em Lobo Solitário que vão pegar no contrapé do marinheiro (ou o ronin, ha-ha) de 1ª viagem.


Nas primeiras folheadas, nota-se na narrativa a cadência inconfundível de um storytelling de western, o que automaticamente estreita relações com o "cinema samurai" de Kurosawa, Kobayashi e fraquinhos afins. Várias passagens lembram um grande plano cinematográfico - particularmente no clima de Harakiri (1962), um clássico do cinema com o qual Lobo Solitário divide vários elementos em comum - se não viu, largue tudo agora e veja... esse merece um lugarzão na lista dos filmes para assistir antes de morrer.

A dinâmica dos personagens, de todos eles, dos coadjuvantes até os maiores "vilões", é tão ou mais importante quanto a do próprio protagonista. É ela que nos ajuda a delinear o intrincado perfil de Itto Ogami - por fora, uma personificação do mito do cavaleiro solitário caladão e instintivo do faroeste clássico. E além: você se importa com esses personagens bem mais do que você achou que se importaria no início. Isto é o maior elogio que consigo imaginar para um contexto de ficção.

Lógico que as credenciais de Lobo Solitário impressionam e até intimidam o leitor novato. Primeiro, porque uma das famas que o precedem é a sua acuracidade histórica. Segundo, a relação da premissa com o complexo cenário sócio-político do Japão feudal. Especificamente o chamado Período Edo - do qual sei absolutamente bulhufas, embora uma breve consulta ao Wiki dê conta que foi o último período do sistema militar feudal japonês e uma época de grande turbulência interna. Um pano de fundo repleto de aspectos únicos a serem (bem) explorados numa ficção, mas com algumas arapucas malocadas pelo caminho.

Não dá pra ficar explicando um contexto extenso a todo momento sem soar professoral e atravancar a história. É algo a ser inserido cuidadosa e homogeneamente na trama, de modo que o leitor nem perceba. Com espantosa facilidade, Koike desfia toda aquela enorme carga política e social durante a narrativa, sendo inclusive essencial para o desenvolvimento e tridimensionalização dos personagens. Tal qual em Harakiri. E, ah, aquela técnica da "zona mortal"...

Há também uma inesperada dose de misticismo, muito sutil e harmoniosa com a pegada implícita do autor. Provavelmente não foi nada, mas um flerte com o obscuro sempre vai bem, obrigado.


A arte de Goseki Kojima é um papo de boteco à parte. Chega a ser visceral e, eu diria, até emocional algumas vezes. Especialmente nas sequências de luta. Bem gráficas e cruas, evitam todo e qualquer exploitation que caberia ali, mas com sangue e membros decepados à vontade. As perspectivas são um espetáculo, embora engrenagens de uma concepção muito variável - e até aí não sei se é uma característica de mangá enquanto gênero.

Certos trechos, como a apresentação de personagens-chave e vislumbres grandiosos são primorosamente trabalhados, com a arte-final saltando das páginas como o mais sedutor óleo sobre tela. E, revezando, uma maioria de traços que remetem ao minimalismo estético dos comics underground, mas sem relaxar no senso de composição. Isso cria uma, argh, conjuntura não-linear no aspecto gráfico da história, que, ao invés de soar irregular, me pareceu exatamente o contrário: enriqueceu ainda mais a experiência. Sem dúvida, algo bastante intuitivo de acompanhar.

Algumas lutas são ilustradas como slow-motion e poucas vezes vi algo tão orgânico numa HQ. Na época isso deve ter sido um assombro. Mulheres belíssimas, poético nas sombras e um filho da puta nos vultos. Esse cara-Kojima é um fodão mesmo.

E como avisei que não seria condescendente com a obra (ela não precisa disso²), em pouco tempo de leitura fica evidente a natureza invencível do Lobo Solitário. Itto Ogami palitaria os dentes com as garras do Wolverine e pegaria até o Batman com preparo despreparado. Sua franca superioridade técnica, física, estratégica e intelectual frente aos adversários tem, em parte, uma boa explicação lá pelos desdobramentos finais, o que ameniza bem. Só ali pelas páginas 194-195 é que a providência divina exagera na dose - embora a sequência tenha sido qualquer coisa de arregaçante.

O final do volume 1 é um expresso do inferno pelas veredas dramáticas. Não apenas tira o leitor da zona de conforto como incomoda bastante em determinado momento. É onde finalmente nos damos conta da aterradora extensão moral e ética do protagonista.

Não tem como não parabenizar a Panini por abraçar a empreitada que é relançar Lobo Solitário num formato mais bacana. Após esse arrebatador 1º volume, pretendo seguir a odisseia de Ogami e Daigoro. Já é fácil uma das melhores leituras do ano.

Em contrapartida, a Panini... ah, Panini...


Com o volume tsunâmico de mangás que publica atualmente - vários deles muito bons, inclusive - a nova edição de Lobo Solitário viria para coroar dignamente para essa boa fase do mercado. Mas justo aqui, houve um problema não muito digno: a cola (!) utilizada no acabamento interno da lombada. Não sei se devido à quantidade ou à qualidade da mesma, algumas páginas soltam com facilidade, especialmente as do início e as do fim. Fora que os pontos cegos do miolo ficaram bem ondulados, algo típico de encadernação ruim. Uma simples comparação com as edições de Vagabond ou One-Punch Man já são suficientes pra ver que algo saiu muito errado lá na gráfica.

Além disso, uma tendência bem chatinha que vem acompanhando a editora já há algum tempo também comparece aqui: a miguelagem de verniz na capa. O volume 1 de Lobo Solitário veio mais seco que um deserto. E nem precisava sair besuntando geral: só a reserva de verniz no letreiramento da capa e contracapa e/ou na arte original e na variante americana já bastavam para o toque de classe e altivez que um título desse porte merecia.

Miguelar verniz é o fim da civilização ocidental, Panini. Faça-nos o favor...