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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Profeta Jonah

Belas e nostálgicas reflexões da Gail Simone em post do Feice.


“Recentemente, estava pensando no CBR.com, o Comic Book Resources. Pelo que ele é agora, que é bom, mas um pouco disperso, eu quase tinha me esquecido de como era antes. Por muito tempo, foi O centro da comunidade de quadrinhos. Criadores renomados estavam lá o tempo todo. Tinha notícias exclusivas.

Acima de tudo, tinha Jonah Weiland supervisionando. E ele se esforçou ao máximo para torná-lo algo especial. MUITA gente encontrou sua primeira comunidade de quadrinhos lá, inclusive eu.

Não sei se existe algo remotamente parecido hoje em dia. O Twitter é tóxico e cheio de bots, e outras plataformas não têm o mesmo alcance ou foco.

Uma coisa que me chamou a atenção ao olhar o gráfico de vendas mais recente. E realmente me impressionou.

Jonah deu colunas para muitos profissionais consagrados. Mas três de suas colunas mais populares eram de pessoas que ainda não tinham feito muito sucesso como criadores de quadrinhos.

Sou eu, Matt Fraction e Robert Kirkman. Acho que o Robert tinha feito algumas coisas, mas nada comparado ao sucesso que ele alcançaria depois, e eu e o Matt éramos bem mais novatos.

Quer dizer, sem querer me gabar. Mas veja o que aconteceu no mês passado. Invincible, Battle Beast e Transformers do Kirkman. Batman do Fraction. Meus Uncanny X-Men e She-Spawn. Quer dizer, entre nós, temos uma boa parte dos trinta quadrinhos mais vendidos e alguns outros além.

Como o Jonah sabia?

E será que o CBR nos ajudou a bombar, ou o Jonah simplesmente tinha uma intuição incrível?

É meio inacreditável que, tantos anos depois, quando nossas colunas já foram esquecidas, a única coisa que nós três temos em comum é que o Jonah achou que merecíamos uma plataforma e realmente nos pagou quando ainda não éramos nomes conhecidos.

Se eu estiver errado em alguma parte da história sobre o Matt e o Robert, peço desculpas, foi sem querer. Eu admiro muito os dois.

Mas, nossa. Jonah previu isso ou não?

EDITADO PARA ADICIONAR: Eu havia me esquecido que a grande KELLY THOMPSON também começou como colunista no CBR. Isso significa que podemos adicionar JEFF e ABSOLUTE WONDER WOMAN, dois dos quadrinhos mais lucrativos dos últimos ANOS, à minha tese de que JONAH WEILAND ERA UM VIDENTE!
”




Louvável quando alguém estabelecido relembra publicamente de seus benfeitores/mecenas em início de carreira. É bonito demais.

Do lado de cá, como público, a empatia com o texto foi imediata. Lembro vividamente de viajar pelas colunas Comics You Should Own, do Greg Burgas, e Comic Book Urban Legends Revealed, de Brian Cronin – ambas descontinuadas há muito tempo e disponíveis apenas pelo Internet Archive, assim como todas as coisas legais do Comic Book Resources raiz.

Mas não só o CBR. Sites que tinha como parada obrigatória do meu itinerário pop cultural seguiram o mesmo caminho: Newsarama, SuperHero Hype!, Silver Bullet Comics, Comics Alliance, JoBlo, Screen Rant... todos descaracterizados e reformulados num padrão Web 2.0 Facebúquico impessoal e indistiguível. Recheados de textos genéricos, circulares e embromativos como só a IA mais sádica poderia gerar. Todos se renderam, sedentos por cliques em seus links patrocinados.

* Todos, com exceção do Ain't It Cool News, fiel ao mesmíssimo layout de 1996. Mas aí o gordacho Harry Knowles, dono da bagaça e ex-figura descolada, fez merda e viu a carreira descendo pela descarga.

Por aqui não foi diferente. O boom de sites nerd/geek/musicais surgido na Internéti-BR durante os anos 2000 foi renovador e empolgante. Universo HQ, Rabisco, Sobrecarga, Prótons, Nona Arte, Fanboy, Gordurama e até o Omelete dos primeiros anos. Muitos colunistas com fome de bola rendendo artigos antológicos ou, no mínimo, divertidos. Zines online. Bons tempos.

Hoje, pra quem curte um conteúdo bacana sobre mainstream, o cenário é de terra arrasada e monetizada. Ou é gibituber (nada contra, mas¹) ou Xzeiro ex-Twitteiro (nada contra, mas²) ou TikToker (tudo contra) ou Zappeiro (tudo contra ad infinitum). Haja peneira e senso crítico. E não parece que vai melhorar.

Acho que isso nem o Profeta Jonah previu.

terça-feira, 18 de março de 2025

A Balada das Fúrias Femininas


Agosto de 1994 foi um divisor de águas. Naquele mês, saía a polêmica Green Lantern #54. Ao mesmo tempo em que a edição choca os leitores com a morte brutal de Alex DeWitt, a namoradinha do Lanterna Verde Kyle Rayner, também dá uma nova carreira à cabeleireira Gail Simone. Seu website Women in Refrigerators – título sem rodeios e autoexplicativo – leva o fato um pouquinho pra fora da bolha nerd e rende contatos com figuras-chave da indústria. Alçada a roteirista, Gail tem breves passagens pelo gibi dos Simpsons e pela Marvel, até que, em 2003, assina com aquela mesma DC Comics da historinha brutal, onde está até hoje.

Claro que a DC não é a única editora historicamente misógina e sexista. A Marvel, tradicionalmente mais progressista, também tem sua cota de esqueletos femininos no armário. Mas é na DC que, por algum motivo, a passada da boiada sempre manteve o cardio em dia. Um exemplo é que logo após cooptar Gail Simone, a distinta publicou a minissérie Crise de Identidade, de Brad Meltzer, com toda a sorte de atrocidades às quais a personagem Sue Dibny foi submetida.

Quando o assunto é idade de consentimento, então, a coisa vira mato. O que queriam fazer com a Mary Marvel foi além de qualquer sensatez. E que o diga o amor-estranho-amor de Slade Wilson e Dana Markov, Hal Jordan e sua bimbo de 13 anos Arisia Rrab (mais tarde, embaraçosamente "consertada" por Geoff Johns para 240 anos!) e prefiro nem mencionar o Terry Long, pelo amor de Nabokov.

A raiz disso tudo parece remontar a uma época em que o escoteirão Superman flertava com suas jovens primas Supergirl e Poderosa como se fosse o sugar daddy das galáxias. Aquele agosto de 1994 pode ser sido um divisor de águas para Gail Simone, mas para a DC, era uma terça-feira qualquer.


São algumas viagens que ficaram após a leitura de As Fúrias Femininas, mini em 6 partes publicada em 2019 lá fora e compilada pela Panini em abril de 2021 aqui dentro. E minhas expectativas com o quadrinho eram o exato oposto desse papo. Com a guarda de elite de Darkseid em pose épica e ameaçadora na capa de Joëlle Jones, imaginei uma aventura de ação militar-espacial 2000 ADística, curta, grossa e divertida. Mas o roteiro da escritora, diretora e indie rocker Cecil Castellucci prefere explorar a cena pelos bastidores. O que, a priori, é uma ideia ótima e, ao mesmo tempo, perigosamente desafiadora.

Poucos terrenos das HQs são tão férteis para analogias ao preconceito de gênero (ou a qualquer preconceito) e à luta pelas causas femininas (ou a qualquer causa) quanto o inferno totalitário de Apokolips. Em particular, as Fúrias Femininas parece que nasceram para isso. A abordagem de Castellucci fica evidente no logo nas primeiras páginas, com a Vovó Bondade supervisionando a 1ª formação da equipe: Auralie, Lashina, Bernadeth, Harriet Louca e Grande Barda. Ah, esses nomes.

Enquanto conclui anos de treinamentos mortais, Bondade relembra seus próprios perrengues em nome da ascensão social e profissional – incluindo éons de humilhações e gaslighting de seus camaradas até a submissão sexual para o chefão de pedra chapiscada.

Paradoxalmente, as Fúrias eram, de certa forma, "protegidas" pelo treino e condicionamento extremos. Quando são oficialmente apresentadas, passam a conhecer o mundo-cão-machista no qual Vovó Bondade se graduou.

Dentre elas, a maior vítima é Auralie, alvo constante de assédio e estupros por um oficial da alta cúpula. Apesar das tentativas de trazer alguma justiça para seu caso, Auralie só encontra indiferença por parte de Bondade e repúdio das demais Fúrias. Sororidade passa longe das hostes apokoliptianas. A única que desenvolve alguma empatia (tardia) é Barda, já a um passo de seu relacionamento com o Senhor Milagre e do passaporte para a liberdade na Terra.


Castellucci teve bastante cuidado com o momentum de sua trama. Tudo está muito bem encaixado na cronologia sem influir nos eventos clássicos. A HQ começa com o assassinato da mãe de Darkseid, Heggra, a mando do próprio. Depois, Scott Free inicia sua parceria com o líder rebelde Himon. Até a sofrida Auralie tem o mesmo destino de sua encarnação original, em Mister Miracle #9, de maio de 1972. Detalhes extras bacanudos que mostram que a roteirista leu todo o Quarto Mundo de Jack Kirby com atenção e mucho gusto.

A coisa só patina um pouco nas elipses da narrativa, nos entrequadros. Alguns cortes são muito truncados, fora que algumas ideias chafurdam no absurdo, como a sequência envolvendo Auralie, Barda e um cadáver desovado num cometa (!). O desenlace é puro nonsense da Era de Prata.

A arte da paulistana Adriana Melo é eficiente e esteticamente agradável – sua "jovem" Vovó Bondade é qualquer coisa de espetacular e implora por arcos com missões solo. A exceção são as cenas de luta, confusas como as de um gibi do StormWatch ou do Justice (lembra disso, Vicente?). A artista também evita aquelas panorâmicas industriais/tecnomedievais de Apokolips, um personagem à parte das sagas Kirbyanas. Se conscientemente ou não, vai saber. Mas ela, com absoluta certeza, teria cacife.

No final, surpreende ver que a chamadinha de capa "A Revolução no Quarto Mundo!" não fica apenas na promessa. A tal revolução, furiosa e feminina, realmente acontece, embora destoe da cronologia jogando tudo pra conta de um provável Elseworld. Uma ousadia que não consegue suprir totalmente a sua (enorme) ambição. Não foi dessa vez.

Deixemos isso, ainda, com a Martha Washington de Frank Miller e com a Halo Jones de Alan Moore. Mas valeu a tentativa.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

À mestra, com carinho

Steven Ringgenberg pens an obituary for one of the first women to draw superhero comics, with standout works throughout...

Publicado por The Comics Journal em Terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Excelente artigo sobre a carreira da Ramona Fradon pelo The Comics Journal. Os trechos sobre a sua passagem-relâmpago pela Marvel (e suas dificuldades com o "método Marvel") e como ela viu a darkinização das HQs nos anos 1980 são sensacionais.

E sigo embasbacado com a pouquíssima repercussão de sua partida entre as quadrinistas mulheres. Tirando as homenagens da Colleen Doran e da Gail Simone, que publicou um belo testemunho, a esmagadora maioria das condolências nas redes sociais é de quadrinistas homens. E olha que procurei.

Faltou respeito e sobrou alienação...