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sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

5&20 e os Numerões


Big Numbers é a maior obra inacabada dos quadrinhos. A maior, não a melhor. Por maior, entenda-se como a HQ que gerou mais discussões, especulações e lendas urbanas do porquê foi abandonada. O silêncio dos pais pródigos Alan Moore e Bill Sienkiewicz ficou ensurdecedor com o passar das décadas e o mito ganhou vida. A esta altura do campeonato, qualquer dado novo vai imediatamente para registro.

A história até aqui foi mais ou menos assim: Big Numbers foi lançada em 1990 pelo defunto selo Mad Love, do próprio Moore. Inicialmente, foi projetada como uma graphic de 500 páginas divididas em 12 edições. A trama era complexa e se utilizava de conceitos de Geometria Fractal e Teoria do Caos para abordar os efeitos socioeconômicos da chegada de uma gigante varejista em uma pacata comunidade inglesa. Seria a primeira incursão de Moore fora do gênero fantástico e sua primeira colaboração com Sienkiewicz desde Brought to Light, de 1988. O detalhismo obsessivo de Moore e Sienkiewicz, no entanto, logo cobrou seu preço. A primeira edição saiu em abril de 1990; já a segunda, só em agosto.

Sienkiewicz usava modelos para desenhar e a situação se complicou quando os mesmos ficaram indisponíveis. Ele então larga a série no meio da produção do #3, com apenas 10 páginas finalizadas. Para tentar salvar o projeto, entram no jogo a editora Tundra, de Kevin Eastman (cowabunga!). Após considerarem Jon J Muth, Dave McKean e outros possíveis substitutos na arte, acabam optando por Al Columbia, que era assistente de Sienkiewicz – e certamente muito mais barato. Mas a pressão, tanto da deadline quanto do escopo do projeto, amassam o jovem artista, então com 19 anos, que pira na batatinha, larga Big Numbers antes mesmo de completar a 4ª edição e destrói todos os originais que desenhou – milagrosamente, ainda conseguiram salvar as páginas que ele fez para completar a edição abandonada pelo ex-patrão.

O resto é lenda, cara.

Pessoalmente, sempre achei frescura um quadrinista depender tanto de modelos vivos para criar a sua arte. Isso vale tanto para Sienkiewicz, quanto para Tim Bradstreet e o Mike Deodato Jr. Todos incríveis, mas, antes de tudo, eles são os criativos visuais da equação, pô. Fora que existe um sem-número de recursos difundidos nos comics para dar aquele tapinha na arte e no ritmo dos trabalhos. De referências ao mais puro e deslavado tracing. Até os melhores já apelaram pra isso. Então sempre achei essa desculpa do 5&20 um tanto esfarrapada. Me parece que o motivo era outro (ou simples pretexto para sartar fora) e ele preferiu sair pela tangente. Vai saber.

O fato é que, em raríssimas ocasiões, tanto o Bill quanto o Alan arriscam algumas palavrinhas sobre a maior-graphic-que-nunca-foi. E hoje foi uma delas.

A bit of a dissertation. This showed up in my YouTube feed. On Friday the 13th no less. Be that as it may, It’s...

Publicado por Bill Sienkiewicz em Sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

“Um pouco de dissertação.
Isso apareceu no meu feed do YouTube.
Na sexta-feira 13, nada menos.
Seja como for, é a primeira de duas partes, de aproximadamente quatro horas, de Alan Moore e minha série autoral inacabada, Big Numbers.
Algumas pessoas devem se lembrar. Ou melhor, lembrar de todas as conjecturas, rumores e ruminações sobre o que levou ao seu colapso final.
Não tenho muitos arrependimentos de carreira (sou um cara que aprende com seus erros e com os dos outros e segue em frente), MAS se eu tivesse uma lista dos três primeiros, Big Numbers certamente seria o número 1.
Parei de assistir depois de cerca de dez minutos. Isso não é culpa dos resenhistas (posso ver que eles são sujeitos sérios e conscientes); apenas me ocorreu que já discuti essa obra-prima malfadada inúmeras vezes ao longo dos anos e não tinha certeza se queria rastejar por essa toca de coelho em particular mais uma vez.
Na verdade, e desculpem a digressão, eu fiz uma entrevista filmada de três horas (parte um do que seria um mergulho profundo completo de várias partes) explorando cada fator contribuinte de BN com meu falecido amigo, Jon Schnepp.
Era para os donos de uma revista de cultura pop chamada Complex; seus planos eram se ramificar no mundo da SpikeTV e transformar a entrevista em algum tipo de documentário, série ou exposição; tanto faz.
Infelizmente, Jon já faleceu; as entrevistas restantes nunca aconteceram, a equipe e os produtores desapareceram. A filmagem está por aí em algum lugar.
E embora eu entenda a curiosidade em torno da série – e eu mesmo esteja honestamente curioso para ver como essa equipe aborda sua dissecação – ainda estou esperando por enquanto. Mas para algumas pessoas curiosas por aí, pessoas que não me viram suspirar e dar de ombros e fazer careta e revirar os olhos pessoalmente quando o assunto foi levantado, aqui está o link para a primeira metade.”




Não tenho a menor dúvida de que se alguma editora brasileira resolvesse lançar Big Numbers, mesmo incompleto, iria derrubar o site da Amazon.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Cavaleiro da Lua vs. Cavaleiro da Cuca


Cavaleiro da Lua é o pontapé inicial para o violento universo urbano da Marvel na Disney+? A saga metafísica do vigilante interage com os eventos do UCM? O Cavaleiro da Lua nas telas é o Batman branco? Acertam o tom na 1ª série com um protagonista inédito e ilustre desconhecido do grande público?

Era o que me perguntava há pouco mais de um mês, antes da estreia do programa criado por Jeremy Slater e gerenciado por Mohamed Diab. Em nome do fair play, neste postinho serei um túmulo sarcófago. Mas todas as onze pragas do Egito (10 + spoiler) estarão liberadas nos comentários.

Me limito a observar que:

𓄊 É uma série tão irregular que lembra a confusão de personalidades do seu protagonista: tem poucos momentos de brilho, mas com 1 episódio pra chamar Hórus de meu loro (o #5); tem um final absurdamente anticlimático, mas com pós-créditos OnlyFans que atinge incríveis 2.5 pontos na escala Capitão-América-chamando-o-Mjolnir-de-volta.

𓄊 Dois últimos episódios com delivery CGIístico em alta e trocação semi-kaiju, ainda que tímida.

𓄊 Oscar Isaac, patrimônio pop cultural. E Ethan Hawke continua sendo, mas não por essa série.

𓄊 F. Murray Abraham brilha na voz estrondosa do deus lunar Khonshu (já metendo aqui um mea culpa sapeca pelo Venom precoce do outro dia), mas a atriz e produtora jordaniana Saba Mubarak não fica nada a dever na voz imponente da deusa-Cuca Ammit.

𓄊 A Layla da atriz bareinita May Calamawy nos agraciou com um agradabilíssimo déjà vu da Poderosa Ísis com Shayera Hol. Hmmm.

𓄊 Khonshu é o Keyser Söze do panteão egípcio.

Ps: próxima adaptação - Esfinge? Monolito Vivo? En Sabah Nur pós-Oscar Isaac?
Pps: 5&20 é maluco, mas é responsa.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

As Portas da Quadrinização

Em tempos de lockdown e restrições batendo forte no circuito de entretenimento, a Z2 Comics resgatou um filão bacana para ajudar na liquidez dos artistas: os quadrinhos sobre música. Nos últimos dois caóticos anos, a loja-editora de Josh Frankel e Sridhar Reddy publicou várias graphic novels relacionadas ao universo musical. O checklist —ou line-up?— foi do "Bird" Charlie Parker a Gorillaz, passando por Dio e Anthrax até o esporrento Gwar, entre outros. Coisa fina.

Dos ilustres homenageados, não posso deixar de destacar a graphic comemorativa dos 50 anos do clássico Morrison Hotel, do venerável The Doors.

The Doors present the brand new Morrison Hotel 50th anniversary graphic novel! Order the deluxe edition now, which includes an exclusive 12” vinyl LP picture disc of the iconic album.

Publicado por The Doors em Quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

A HQ recém lançada é escrita pela Leah Moore, a filha do ômi, em colaboração com os remanescentes da banda e ilustrada por um contingente que inclui Jill Thompson, Michael Avon Oeming, Tony Parker, Marguerite Sauvage, Colleen Doran, Guillermo Sanna e mais uma fila que vai daqui até Juazeiro do Norte. O release é quase um medley flower power:
“A antologia Morrison Hotel, escrita por Leah Moore em colaboração com os membros sobreviventes da legendária banda de rock e desenhada por artistas de todo o mundo dos quadrinhos, narrará a influência da banda em algumas das tradições que levaram ao seu status como os arquitetos de contracultura, influenciando artistas, poetas e renegados pelas gerações que virão, tendo como pano de fundo o fim do espírito livre da década de 1960 para a tumultuada década de 1970. Uma década em que mulheres, afro-americanos, nativos americanos, gays, lésbicas e outras pessoas marginalizadas continuaram sua luta por igualdade e muitos americanos se juntaram ao protesto contra a guerra em curso no Vietnã.”
Um material bem interessante, porém de apelo segmentado e que dificilmente aportará por estas bandas. Pelo menos em papel...

A conexão Doors/HQ e o mana-a-manos da Leah com os músicos me lembrou uma proposta similar ensaiada em 1993 pela defunta Malibu Comics (que hoje jaz no fundo das gavetas da Marvel). A graphic contava com as incríveis ilustrações do gaúcho Henrique Antonio Kipper, que acabaram não agradando muito o tecladista Ray Manzarek.


Notinha na revista Bizz #94 (maio/1993)

Com todo o respeito ao saudoso mago Manzarek, as artes preliminares eram fantásticas. Mas, segundo consta, o projeto acabou cancelado por "problemas no roteiro".

De todo modo, no mesmo ano, Kipper desenhou para outra "HQ de rock" —e igualmente da realeza. São dele os traços do segmento "Os Espelhos", publicado na antologia Graphic Rock #1: John Lennon, da editora Nova Sampa.


É curtinha e em p&b (colorida faria mais estrago), mas deu aquela vingada.

Enquanto isso, continuo aguardando monasticamente que alguma santa editora publique Voodoo Child: The Illustrated Legend of Jimi Hendrix, com texto de Martin I. Green e uma arte embasbacante do Bill Sienkiewicz. Faz tempo que estou tocando essa air guitar, viu...

sábado, 4 de dezembro de 2021

Homem-Aranha e seus Incríveis Amigos 2

Pode me zoar à vontade: estou curioso sobre Sem Volta para Casa. Mas a curiosidade nem chega perto da expectativa em torno de Homem-Aranha no Aranhaverso 2, continuação do longa animado divertidíssimo, cheio de coração e meio caótico de 2018. E o teaser só instigou, com perdão do pleonasmo.


A sequência final é literalmente uma HQ viva*. E com o Homem-Aranha 2099 nela.

Outubro de 2022 tá muito longe...


* E não é pra menos! 👇

Wawawewa. Am excite. I was fortunate to have worked on this in the conceptual stages. Count me doubly anticipatory.

Publicado por Bill Sienkiewicz em Domingo, 5 de dezembro de 2021

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Na época da National Allied e da Timely é que era bom


O nó nas tripas do 5&20 não deve desatar tão cedo. Afinal, esse é o modus operandi das duas grandes desde sempre. Que o digam as famílias Siegel, Finger e Kirby. Até o caso Scarlett Johansson, ainda que orbitando outra esfera, ilustra à perfeição as constatações do ótimo artigo do Guardian.

Esse trecho é lapidar:

"Starlin negociou um pagamento maior depois de argumentar que a Marvel o pagou mal por usar Thanos como o grande vilão do MCU. O prolífico escritor da Marvel, Roy Thomas, teve seu nome adicionado aos créditos da série Loki da Disney + depois que seu agente fez barulho. Mas esses são os criadores que a Marvel precisa manter felizes; as coisas podem ser muito diferentes se ninguém liga quando você reclama."

Movimentar bilhões de dólares e fazer vista grossa para os criadores usando a velha malandragem do "vai que cola." Tive chefes que faziam isso com troco de padaria e já achava o cúmulo da avareza.

Dizer o quê? "'Nuff said"?

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Os Velhos Mutantes


Nas HQs, os Novos Mutantes enfrentaram sagas espetaculares e monumentais, mas nenhuma comparada à saga de sua 1ª adaptação para o cinema. Os Novos Mutantes é sério candidato ao hall (hell?) dos filmes com bastidores turbulentos – um seleto clube onde se encontram preservados em carbonita O Portal do Paraíso (1980), Street Fighter (1994), A Ilha do Dr. Moreau (1996), Os Chefões (1996) e Quarteto Fantástico (2015), entre outros diamantes do ego humano. Porém, ao contrário destes, a culpa não é do diretor Josh Boone, mas é das estrelas (ah, essa foi boa, vai): a produção, que teve início oficial em julho de 2017, sofreu mudanças de direcionamento após o sucesso de It, ganhou refilmagens para reforçar os aspectos de terror, foi parar na geladeira após a aquisição da Fox pela Disney, teve vários cortes do estúdio até o derradeiro, em que o cineasta o deixou mais próximo de como foi idealizado originalmente, e sua data de estreia foi adiada só Deus sabe quantas vezes.

Ah, e teve a pandemia.

Amém.

Com esse perrengue todo, surpreende que o filme consiga entregar uma boa horinha e meia de distração – nada que corresponda à expectativa gerada por aquele longínquo 1º trailer, porém. No geral, forma e conteúdo remetem a um típico piloto de série nos padrões atuais.

Um pouco disso é pelo timing há muito perdido para a invasão dos super-heróis pelo streaming nos últimos anos. Outro pouco pelos flutuantes valores de produção sambando pra deixar tudo mais ou menos nivelado. E outro pouquinho pelo roteiro um tanto fugaz, escrito pelo próprio Boone e por Knate Lee, esticando a trama adaptada da clássica Saga do Urso Místico, de Chris Claremont e Bill Sienkiewicz, enquanto atira umas migalhas ao incerto futuro da franquia.

O primeiro terço da história é conduzido por Danielle Moonstar (Blu Hunt), uma jovem nativa Cheyenne que perdeu o pai e todos de sua reserva em um terrível desastre. Acolhida por um abrigo dirigido pela Dra. Cecilia Reyes (Alice Braga), Danielle descobre que tem o gene mutante e está no, por assim dizer, "desabrochar" de sua mutação (existem metáforas mais sutis). Ela também descobre que não é a única nessa situação: estão lá os internos Rahne Sinclair (Maise Williams), Illyana Rasputin (Anya Taylor-Joy), Sam Guthrie (Charlie Heaton) e o brasileiro¹ Roberto da Costa (o brasileiro² Henrique Chagas Moniz de Aragão Gonzaga... ou simplesmente, Henry Zaga). Isso sem contar o mal que começa a rondar poltergeisticamente pelas instalações.


Como se vê, qualquer peso-galo em terror e ficção-científica já consegue matar todas as charadas do filme só de ler esse plot. Nesses termos, quem esperava um êxtase roteirístico vai fechar o app com sensação de punheta/siririca mal batida. Mas Boone consegue temperar bem esse arroz-com-feijão (putz, perdi a fome) e – aí vai a principal qualidade de Os Novos Mutantes – ainda é bastante ajudado pelo competente elenco, mesmo com todas as constrições e a limitadíssima dinâmica do roteiro.

O brit Charlie Heaton (de Stranger Things) faz uma interessante composição de Sam Guthrie/"Míssil", com um sotaque carregadíssimo do Kentucky. A sempre carismática Taylor-Joy se diverte como a arredia Illyana/"Magia", mesmo com a ingrata missão de ressignificar o dragãozinho Lockheed para o filme. Faltou algum sotaque para a russinha, mas aí já é pedir demais. A estreante californiana Blu Hunt foi uma bela surpresa, juntamente com a excelente Maise Williams (Arya!). A química entre "Miragem" e "Lupina" é, fácil, a melhor coisa do filme, junto com as culpinhas católicas da última.

Já Alice Braga, completamente engessada pelo enredo, exercita uma canastrice nunca antes vista na filmografia da atriz nem aqui, nem em Roliúdi. Faz parte. O que me leva ao brasiliense Henrique Ch... digo, Henry Zaga. Mezzo toy-boy, mezzo alívio cômico, o rapaz esteve em meio a uma controvérsia relacionando o seu Roberto/"Mancha Solar" à prática de whitewashing, o que não poderia estar mais longe da verdade.

De fato, seu casting pode ser o início da quebra de um antigo paradigma que retrata brasileiros invariavelmente como afrodescendentes. Ora, sempre fomos a Pangeia II, a Krakoa adormecida. Além de afrodescendentes, somos nativos indígenas, asiáticos, italianos, alemães, árabes, israelitas, acreanos e por aí vai. Aceitamos até argentinos. Lado a lado ou misturados. E vice-versa.

Nitidamente, faltou ao filme uns trinta minutos a mais para desenvolver melhor o cenário. Afinal, esse núcleo tem alguns dos personagens mais ferrados que vejo em muito tempo. Todas as bagagens pessoais ali são pesadaças e tinham um potencial de assalto psicológico nível Trilogia-Corpo-Fechado-encontra-Penny-Dreadful-e-tomam-um-porre-no-Bar-Zeitgeist-2020.

Mesmo o verniz de terror prometido nas promos é tênue, talvez para não assustar a PG-13zaiada. No fim, acaba lembrando uma versão ainda mais diluída de Aterrorizada, aquele John Carpenter light de 2010.



Spoiler devagar, spoiler bem devagarinho

Incomoda ver a Dra. Reyes dando conta sozinha do complexo, de todo o perímetro e de cinco mutantes. Mesmo com seu poder, impraticável. Ainda mais depois que é revelado que o projeto é bancado pelo Nathaniel E$$ex.

Aliás, exterminar uma possível mutante Ômega por representar extremo perigo? Ora, Sr. Sinistro do filme, tire essas fitas pretas que você não merece...


Fim do spoiler devagar, spoiler bem devagarinho


Em que pese a empolgação dos garotos nas cenas de ação e o escopo gigantesco do último ato, a coisa acaba esbarrando no teto baixo do orçamento. Então, tirando por menos a montagem enche-linguiça e a falta de traquejo do diretor com a pancadaria super-heróica, posso dormir tranquilo após afirmar que o quebra final é satisfatório.

E que o Urso Demônio é quase aquilo que sonhei em adoráveis pesadelos sienkiewiczianos...

sexta-feira, 23 de março de 2018

Windsor-Smith X Sienkiewicz

Além da saga deveras divertida, a recém-saída Excalibur (vol. 4): Uma Aventura no Tempo - Volume 2 traz um ótimo selecionado de artistas. A surpresa foi a combinação potencialmente explosiva da história "Pessoas (Ir)Reais": nada menos que Bill Sienkiewicz arte-finalizando Barry Windsor-Smith.


Arte-finalizando não, duelando mesmo. Foi o Confronto do Século! Mas já volto aí.

O timing da vez foi, logo após a leitura, ver o editor Alex R. Carr twittando sobre esse mesmo encontro, lançado originalmente em agosto de 1990.


Já o timing sobrenatural da vez, foi ver o post do 5 & 20 revelando que BWS, velho companheiro de copo nas cons da vida, sempre detestou suas tintas.


Ele não comenta se já recebeu alguma explicação mais técnica, mas tenho cá meus chutes. Voltemos ao embate.

Quando arte-finaliza alguém, Windsor-Smith atropela a identidade do desenhista sem pedir licença. É um rolo compressor autoral. O saudoso Herb Trimpe de Homem-Máquina que o diga. Mas temo dizer que desta vez seu lápis imparável encontrou um nanquim irremovível.

Tirando um olhar aqui e uma expressão facial ali, quase não se reconhece a presença do The Smith na história. A pegada suja e caótica com linhas livres e senso de transgressão artística não deixa dúvidas. Fair play à parte, na guerra de estilos, Sienkiewicz levou a melhor.

Existe algum ditado pra ladrão de cena que rouba a cena de outro ladrão de cena?

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Os mutantes atrás das paredes

Com um timing sobrenaturalmente amplificado pelas forças arcanas que permeiam esta data, a Fox liberou um surpreendente trailer de Os Novos Mutantes.


A estrutura e a atmosfera são velhas conhecidas, bem como as homenagens e os "empréstimos" de várias fontes do cinema. Só a cena da parede é um recurso já utilizado em um sem-número de longas, de A Hora do Pesadelo a Dia dos Mortos, sem falar n'outro dos meus filmes de cabeceira, que foi o primeiro que me veio à cabeça enquanto assistia o promo. O que espanta é o tom.

Mesmo após a série Legion, ainda é algo insólito/acachapante ver os mutantes da Marvel figurando num thriller de terror.

E, sabe, gosto disso. Demais. Tenho a (vã?) esperança de que economizem no CGI para não sabotarem esse clima na reta final com um show de luzes coloridas, explosões e pessoinhas digitais.

O elenco parece fabuloso. Anya-Taylor Joy no papel da Illyana (quantos y's!) e Maisie Williams como Rahne são quase transposições literais dos quadrinhos. Já Charlie Heaton não lembra em nada o rocket-man® Sam Guthrie, porém o rapaz é inglês e só por isso já tem crédito na casa. E é sempre legal ver brasileiros marcando presença no mainstream - só aqui temos dois: Henry Zaga como o Mancha Solar, mais a bela e, até há pouco tempo onipresente, Alice Braga como a Dra. Cecilia Reyes.

Mas pretendo ficar de olho mesmo em Blu Hunt como a Danielle Moonstar. Ela bem que poderia ser o gancho futuro para a adaptação da minha saga preferida dos mutuninhas, também uma arrepiante trama de horror.

O "Xis" pra câmera ao lado do Bill Sienkiewicz eles já disseram.


Os Novos Mutantes tem previsão de estreia para 13 de abril de 2018. Outra sexta-feira...

sábado, 15 de julho de 2017

Saga do Urso Místico, sua linda


Os Novos Mutantes - Entre a Luz e a Escuridão, de Chris Claremont & Bill Sienkiewicz. Esse encadernado é parte de um sonho tão antigo que só poderia ser datado via carbono-14.

Ok, ok... esse sonho vem desde 1989, quando peguei numa banquinha O Incrível Hulk #72, formatinho da Abril em que os mancebos mutunas estreavam seu novo desenhista em muito boa companhia: o Verdão em plena fase John Byrne e um divertido Roger Stern escrevendo seus Vingadores da Costa Oeste - que considero o molde utilizado pela dupla Giffen-Dematteis em sua posterior "Liga tosca". Pois bem, meu bem.

Já na 1ª folheada fiquei assombrado com a pegada vanguardista de Sienkiewicz, mesmo nas dimensões pra lá de compactas do gibizinho. Já conhecia seu estilo peculiar pelo Cavaleiro da Lua fase Moench na revistinha do Capitão América, mas pesava lá a forte influência de Neal Adams e da estética de violência urbana do início dos anos 1980. A diferença daquele momentum criativo para o state d'art atingido em Novos Mutantes chega a ser objeto de estudo.

Em que pesem termos como "atmosfera de pesadelo" e "tensão psicológica" surgindo na mente sem aviso, a fluência gráfica de Sienkiewicz vai muito além disso. Há tantas informações por quadrinho, passagens entre-quadros e splash-pages quanto possível antes da coisa degringolar pro surrealismo.



De quebra, um posfácio muy espirituoso de 5 & 20, mais esboços e estudos de personagens nos extras. Menção honrosa para os bons esforços do líbero Bob McLeod na edição Anual, lá pela meiota do livro, pra dar uma quebra.

E Chris Claremont. O homem era uma força da natureza - isso não é necessariamente um elogio. Na década de 80 ele estava em todo lugar, inevitável. Talvez seja o escritor que melhor se adequou aos ditames da indústria e quid pro quo. Com todos os vícios e virtudes, ignorando categoricamente qualquer tentação autoral, virou um zeitgeist perneta dos quadrinhos mainstream daquela era.

Sua passagem pelo roteiro da jovem equipe não foi diferente. Nesse compilado de nove edições, Claremont brilha tanto quanto apronta: meu absurdo favorito acontece justo na edição da capa, New Mutants #21, quando Illyana, durante um pega com o alien biomecânico Warlock, ressurge inexplicavelmente num traje espacial segurando alguma metranca futurista - uma "looonga história" revelada apenas na edição #63, quatro anos mais tarde.

Toda essa quizumba e uma análise minuciosa do run de Claremont-Sienkiewicz você encontra no belíssimo artigo de Greg Burgas para o CBR.

Pelas minhas contas, em cinco anos, 3/4 daquele sonho foram realizados. Nada mal. Falta então apenas mais um...

...que, por acaso, segue como uma das maiores injustiças do mercado editorial brasileiro de HQs.


Vamos lá, Panini. Você consegue. Nos faça acreditar mais uma vez.

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

ARE YOU TALKIN' TO ME?


E lá se vão praticamente 15 anos desde o lançamento de Hard Boiled, mini-série em clima no future criada por Frank Miller e ilustrada por Geof Darrow. Só a menção desses dois nomes na mesma frase é motivo para estremecer o monitor do fanboy que está lendo. Recém-saído do circuito mainstream dos quadrinhos americanos, Miller resolveu apostar em um segmento menos visado, mais underground, via Dark Horse. E assim ele iniciou uma nova fase (que já acabou, por sinal), mais autoral e com um leque mais amplo de possibilidades. Sem protagonistas diretos, nem compromissos com a redenção de terceiros, ele começou a destrinchar o Sistema em atmosferas que, de tão opressivas, chegavam a ser palpáveis, e quase funcionando como um personagem ativo dentro das histórias. Vide as ótimas Liberdade e, mais tarde, Sin City. Mesmo a bem-humorada Big Guy & Rusty representa bem essa fase. É aí que entra Hard Boiled.

Lendo hoje, nota-se que a série destilava uma inequívoca ironia em relação aos governos, à cultura de massificação, ao poder da mídia, enfim... ao establishment. E o melhor de tudo: sem se prestar à qualquer panfletagem anarquista barata. Muito pelo contrário. Hard Boiled pode ser facilmente confundido com um combo hardcore movido à sexo, perversão e ultraviolência - e tudo sendo elevado à milésima potência, mesmo para os padrões atuais.


A história é uma espécie de Um Dia de Fúria high-tech e nos mostra a via-crúcis particular de Nixon, um pacato cobrador de impostos e pai de família, que está enfrentando uma senhora crise de identidade. Como pano de fundo, conspirações governamentais, sabotagem industrial e uma revolução artificial digna de Metrópolis e Eu, Robô em versões bloody disgusting. O clima geral lembra a Los Angeles de Blade Runner, só que muito mais caótica, claro. Aliás, a narrativa empregada em Hard Boiled exibe um fôlego cinematográfico que só vendo. Não existem aqueles recordatórios em off que Miller tanto gosta e vários ângulos são concebidos como se fossem gigantescos planos-seqüência de um filme.

Experiência é uma coisa valiosa. Está na cara que Miller já sabia o peso que a arte estilosa de Geof Darrow teria em Hard Boiled. Tanto é que a dinâmica principal se apóia na maior parte do tempo em perspectivas, noções de movimentação e ganchos de ação, em detrimento de textos verborrágicos. Neste caso, uma imagem realmente vale por mil palavras. Pode parecer redundância para conhecedores, mas Darrow dá um show aqui. Cada quadrinho dele é precioso, único, traz mais informações e detalhes que o catálogo inteiro da Image. São verdadeiros mosaicos com trocentas situações acontecendo ao mesmo tempo. E as splash-pages? Só Darrow tem moral para fazer uma seqüência matadora de treze splash-pages, uma atrás da outra (no diálogo entre dois robôs num ferro-velho). É um mestre.


Mesmo sem ser um clássico, Hard Boiled é tudo o que uma grande HQ deveria ser: sarcástica, espirituosa, ágil, repleta de adrenalina, inovadora e muito, mas muito divertida. Em meados de 2001, começaram a pipocar alguns boatos sobre uma possível adaptação cinematográfica. Eles davam conta de que Nicolas Cage ficaria com o papel principal e que David Fincher seria o diretor. Not bad. Nunca mais rolou nada a respeito, mas não custa sonhar...



JIMI HENDRIX - HENDRIX'S APT IN NEW YORK


Este já foi um dos registros piratas mais obscuros e disputados do deus da guitarra. Gravado em algum ponto de 1968, Hendrix viaja sozinho em seu apartamento com o gravador ligado. A fita ganhou forma de acetato, caiu no mundo e virou lenda. Mais do que um simples ensaio, o que se ouve aqui é a amostra da verdadeira essência de um gênio, desta vez despida de toda aquela catarse niilista. Em quase meia hora, Hendrix destila suas influências e desenvolve um diálogo intimista com as seis cordas.

Vale destacar o clima ambient que permeia toda a gravação. Detalhes como o ruído das páginas da partitura sendo viradas, os acordes que ele repete e que vão progressivamente evoluindo a cada nova tentativa e os curiosos improvisos vocais (que Ed Motta chama de embromation), atestando de uma vez por todas que Jimi Hendrix era sim um excelente intérprete. Durante a última música, a belíssima Gypsy Eyes, o telefone começa a tocar insistente ao fundo, mas Hendrix está tão imerso que nem liga e segue em frente, inabalável. Seja lá quem tenha sido, desiste após algumas chamadas e deixa a História seguir seu curso.

Confira aqui o set list e mais infos sobre este clássico não-oficial. E uma curiosidade: nos EUA esse disco foi lançado em 1995 pelo selo Bella Godiva Music, com o título Jimi by Himself - The Home Recordings, e veio junto com a edição especial de Voodoo Child: The Illustrated Legend of Jimi Hendrix, uma belíssima obra escrita por Martin I. Green e ilustrada por ninguém menos que Bill Sienkiewicz. Foda, né?



RÁPIDO & RASTEIRO


  • EVERGREY A Night To Remember * Live 2004  - Esse é obrigatório pra quem irá comparecer em algum dos oito shows da tour que a banda fará no Brasil, a partir de sexta-feira. Essa performance foi gravada no ano passado, no Stora (teatro tradicionalíssimo da Suécia), para um público de 800 privilegiados. Com uma alquimia que mistura heavy, thrash, gótico e gospel, a banda mostra o quão é perfeita e classuda ao vivo também. Destaques? Difícil, mas é bom ver que o vocalista e guitarrista Tom Englund mantém o mesmo alcance e feeling fenomenais on stage. O único vacilo foi terem deixado de fora as maravilhosas The Great Deceiver (do álbum Recreation Day) e In The Wake Of The Weary (do Inner Circle). De resto... melhor que isso, só o DVD.



  • MOTÖRHEAD Everything Louder Than Everyone Else - Show de 1998 gravado em Hamburg (Alemanha). Desnecessário dizer a pedrada demolidora que é isto aqui. Sir Lemmy Kilmister e o repertório do Motörhead são como vinho... ficam ainda melhores com o passar dos anos. E falando em repertório, este duplo ao vivo tem faixas desde o primeiro disco, de 1977, até o Snake Bite Love, de 1998. Eu já fui ao show da banda, então já posso morrer feliz e tranqüilo. É festa no volume máximo regada à álcool, rock'n'roll e groupies peitudas.



  • MOTÖRHEAD BBC Live & In-Session - Gravações extraídas de várias apresentações para a BBC, entre 1978 e 1986. Começa com a participação no clássico John Peel Show, em 1978, segue com uma performance no David Kid Jensen Show, em 1981, e fecha no Friday Rock Show Session, de 1986. Entre uma coisa e outra, tem o Motör tocando no Kerrang! Wooargh!, em maio de 1979. Classic rock'n'roll. Lemmy is God, man. E eu bebo a isto!



  • BRUCE DICKINSON Scream For Me Brazil - Bruce está em alta aqui no BZ... Mas o quê dizer de um cara que, além da carreira impecável no Iron Maiden, só fez discos solo (muito) acima da média? Além de tudo, Bruce ainda é dono de um timing demoníaco ao vivo. O repertório é perfeito: privilegia o sensacional Chemical Wedding (seu melhor álbum solo), pega as melhores do Accident Of Birth, mais duas de Balls To Picasso (incluindo o hit Tears Of The Dragon). Escoltado pela abençoada dupla Adrian Smith/Roy Z nas guitarras e pela cozinha matadora de Eddie Casillas (baixo) e Dave Ingraham (bateria), Bruce mostra que nasceu pra comandar multidões. E não poderia deixar de destacar a energia contagiante do público paulista - participação ativaça da galera. A crowd brazuca sempre foi a mais insana do mundo, sem dúvida alguma. Discaço de rock ao vivo. Até a capa - uma das mais horrorosas que eu já vi - acabou ganhando novos contornos com o tempo. Com certeza foi uma homenagem antecipada à sra. Madman... :D


  • ANTHRAX Music Of Mass Destruction - Já comentei sobre esta belezinha aqui antes, mas voltou a ser um hit pra mim após o show arrasador que eles fizeram por estas paragens. John Bush é um grande frontman (e gente-boa pra cacete!), as bases de Ian Scott continuam psicóticas, os solos de Rob Caggiano são de trincar os dentes, as linhas do baixo de Frank Bello ainda são referências no estilo e a bateria de Charlie Benante é o equivalente sonoro de uma avalanche. E o set list...? Got the Time, Caught in a Mosh, Antisocial, I Am the Law, Indians, Only, Bring the Noise, Fueled, Metal Thrashing Mad... nossa. O Anthrax é tão legal que até Alex Ross é fã. E como diria o bom e velho Dredd... "I Am the Law!"



  • RAINBOW On Stage - Esta aqui é a maior trilha sonora para performances air guitar já registrada na História (aê Chico!). O Rainbow talvez fosse mais um na imensa seara setentista, não fossem o baixista Jimmy Bain, o tecladista Tony Carey, o baterista Cozy Powell e .::Que se Faça a Luz::. o vocalista Ronnie James Dio e o guitarrista Ritchie Blackmore. Maravilha. O disco abre com a doce Dorothy (de O Mágico de Oz) dizendo "We must be over the rainbow", e aí começa a seqüência de clássicos atemporais do naipe de Kill The King, Startruck, Mistreated (do Deep Purple), Sixteen Century Greensleeves e lá vai lenhada. Nossa, e a hora em que o Dio grita "You're all the man", à plenos pulmões, no finalzinho de Man On The Silver Mountain? Meu Jesus. Existe alguma banda assim hoje em dia? Não mesmo...



  • THE JASON BONHAM BAND In the Name of My Father - Homenagem de Jason Bonham e banda ao seu pai, John "Bonzo" Bonham, baterista do Led Zeppelin (se você esteve em Marte nos últimos 30 anos) e o melhor baterista da História do Rock (se você esteve em Plutão). O subtítulo já resume tudo: "The Zepset". Basicamente são 10 clássicos zeppelinianos sendo levados ao vivo. Poderia ser uma bomba pretensiosa, mas não é não. A banda é ótima e dá o sangue nas músicas em belas execuções. O vocal Charles West tem aquele punch do Robert Plant do início (devidas as proporções!), o guitarrista Tony Catania manda muitíssimo bem e o baixista John Smithson é tão cool quanto o John Paul Jones original - e, à exemplo deste, também toca teclado! Grande show. Eu sempre ouço isto aqui, desde que foi lançado. Ah... o Jason é baterista, igual ao pai. E honra tranqüilo o legado da família. Elogio maior que esse, impossível.



  • Na trilha: Speed, do Atari Teenage Riot. E um empate estranho.