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quarta-feira, 4 de maio de 2022

Cavaleiro da Lua vs. Cavaleiro da Cuca


Cavaleiro da Lua é o pontapé inicial para o violento universo urbano da Marvel na Disney+? A saga metafísica do vigilante interage com os eventos do UCM? O Cavaleiro da Lua nas telas é o Batman branco? Acertam o tom na 1ª série com um protagonista inédito e ilustre desconhecido do grande público?

Era o que me perguntava há pouco mais de um mês, antes da estreia do programa criado por Jeremy Slater e gerenciado por Mohamed Diab. Em nome do fair play, neste postinho serei um túmulo sarcófago. Mas todas as onze pragas do Egito (10 + spoiler) estarão liberadas nos comentários.

Me limito a observar que:

𓄊 É uma série tão irregular que lembra a confusão de personalidades do seu protagonista: tem poucos momentos de brilho, mas com 1 episódio pra chamar Hórus de meu loro (o #5); tem um final absurdamente anticlimático, mas com pós-créditos OnlyFans que atinge incríveis 2.5 pontos na escala Capitão-América-chamando-o-Mjolnir-de-volta.

𓄊 Dois últimos episódios com delivery CGIístico em alta e trocação semi-kaiju, ainda que tímida.

𓄊 Oscar Isaac, patrimônio pop cultural. E Ethan Hawke continua sendo, mas não por essa série.

𓄊 F. Murray Abraham brilha na voz estrondosa do deus lunar Khonshu (já metendo aqui um mea culpa sapeca pelo Venom precoce do outro dia), mas a atriz e produtora jordaniana Saba Mubarak não fica nada a dever na voz imponente da deusa-Cuca Ammit.

𓄊 A Layla da atriz bareinita May Calamawy nos agraciou com um agradabilíssimo déjà vu da Poderosa Ísis com Shayera Hol. Hmmm.

𓄊 Khonshu é o Keyser Söze do panteão egípcio.

Ps: próxima adaptação - Esfinge? Monolito Vivo? En Sabah Nur pós-Oscar Isaac?
Pps: 5&20 é maluco, mas é responsa.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

No mundo do Lua


Cavaleiro da Lua, episódio um. So far, so good. E pelos motivos que a maioria deve detestar.

Primeiro, a incógnita que era a Marvel urbana produzida pela Disney+. Não é mais incógnita, a companhia não trabalha isso, a classificação é PG-13. Pelo menos no Da Lua. As cenas de pancadaria/matança —e teriam várias nesta estreia— são omitidas simplesmente mantendo o foco em uma das personalidades do vigilante. Só na volta do "apagão" é que vemos o estrago que ele fez ou a encrenca ainda maior em que se meteu. O que temos são montagens frenéticas que remetem a um Ilya Naishuller (Hardcore Henry) ou a um Guy Ritchie on crack. Na moral? Prefiro isso a outra coreografia de luta fofinha, como foi quase tudo da Marvel até aqui, ou mais um rip-off da clássica cena do corredor de Oldboy.

Segundo, não me irritei com a profunda alteração de sua origem —relendo minha gloriosa Almanaque Premiere Marvel #3 não tive dúvidas da quantidade de schnapps que Doug Moench matou enquanto escrevia aquilo—e que a Lua caia na minha cabeça se Oscar Isaac contracenando com Ethan Hawke não é um tempo de qualidade.

Os efeitos fantasmagóricos e a transformação do protagonista são despirocantes. Nunca tinha ouvido falar no cineasta egípcio Mohamed Diab, mas, diabos, parece mesmo que ele sabe onde o galo cantou.

Claro que nem tudo são flores sob a luz do Lua: Khonshu com trejeito e voz de Cookie Monster/Venom do cinema foi dose. Mumm-Ra deve estar rolando no sarcófago.

Que venham os próximos cinco capítulos (chuto que serão dois para cada personalidade, desfiando a mesma história sob diferentes perspectivas). E, mais importante ainda, que venham os próximos capítulos de Halo, cujos problemas só afetam os gamers. Viva!

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Vem aí Lunar, o Cavaleiro de Prata!


Queira Khonshu que Cavaleiro da Lua exceda o mar de medianidade que tem sido as séries Marvel da Disney+. Elaborando melhor: WandaVision foi perfumaria, What If...? e Gavião Arqueiro foram decepcionantes, Falcão e o Soldado Invernal e, especialmente, Loki moram no meu coração e já passou da hora da régua subir. E o trailer entrega. Oscar Isaac parece genuinamente alucinado —atingindo picos de incríveis 7.5 pontos na Escala Nicolas Cage— e a overdose codinômica de Marc Spector/Steven Grant/Jake Lockley/LunarCavaleiro da Lua está representada.

E, caramba, Ethan Hawke no MCU. Finalmente!

O showrunner Jeremy Slater, que, hã, em outras luas foi um dos roteiristas do nauseabundo Quarteto Fantástico parece ter acertado o tom das loucas aventuras do avatar de Khonshu. Embora seja meio suspeito o trailer revender a cena do Cavaleiro socando alguém no chão, lembrando justamente o The Batman surrando um meliante no teaser quiróptero.

Vigilantismo raiz, presumo feliz.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Antes do amanhecer


Daybreakers (2010) é um tremendo arrojo na filmografia dos irmãos Michael e Peter Spierig. Elenco bacana, orçamento decente (US$ 20 milhões), Lionsgate garantindo os holofotes, enfim, o tratamento classe A que costuma ser um divisor de águas para certas carreiras. Bem diferente de seu longa anterior, o cult trash Canibais (Undead, 2003), um carnival bizarre que misturava meteoritos, zumbis e abduções alienígenas no mesmo pacotão B. As estilosas cenas de ação e o gore transbordante destoavam da narrativa irregular e fora de foco, típica de iniciante splatter, mas rendeu uma bem-vinda moralzinha underground.

E agora, finalmente, eles chegam ao seu primeiro filme "sério". Coincidência ou não, a trajetória dos Spierig Bros. até aqui está bem parecida com o background de gente como Sam Raimi e Peter Jackson. A Academia é o limite!

Outro ponto extra-arte a favor dos manos australianos: o timing. Especialmente em tempos de Crepúsculo e True Blood - ambos destroçados a furiosas mandibuladas pelo astro da produção, Ethan Hawke. E, de fato, o filme é uma opção redentora pra quem já não suporta mais o mela-calcinha em que se transformou o filão dos vampiros.

Aliás, já ouviu falar na "Regra Hawke"? A que reza que ele nunca participou de um filme ruim? Me lembre de passar amanhã em algum cartório de registros e patentes.


A premissa é esperta e consegue evitar o lugar-comum. Em 2019, uma pandemia transformou a maioria dos seres humanos em vampiros. Com isso, a sociedade foi totalmente reorganizada e adaptada às suas novas necessidades, mas não consegue evitar o pior (e o mais óbvio): a escassez de sangue humano. Para contornar a crise, uma gigante farmacêutica tenta sintetizar sangue em laboratório, além de manter um estoque de humanos capturados, Matrix style. Ao mesmo tempo, promove a caça de um grupo de resistência formado pela minoria não-infectada.

A dinâmica do filme é dividida entre personagens-chave e o turbulento contexto social daquele universo - o que representa seu melhor aspecto e acaba sendo explorado menos do que merecia. Com o sangue humano virando artigo de luxo e os sucessivos (e explosivos) fracassos em sintetizá-lo, o clima nas ruas vai ficando cada vez mais desesperador.

Vampiros menos favorecidos são os primeiros a enlouquecer, passando a devorar outros vampiros e originando assim uma subespécie monstruosa e marginalizada. Uma boa sacada foi mostrar os primeiros sinais da mutação aparecendo à medida que a privação de sangue vai se estendendo. É só uma questão de tempo até a crise chegar aos altos escalões. Metáfora social simplista, mas relevante e, definitivamente, uma bela evolução dos Spierig Bros. enquanto roteiristas.

Falar em "química" aqui é até redundante, tendo em vista os nomes do elenco. Hawke está muito bem como o chefe hematologista simpático aos humanos e o sempre competente Sam Neill está melhor ainda como o líder da megacorporação vamp-fascista. Já Willem Dafoe é quem parece mais à vontade, no papel mais livre e caricato do filme: um ex-vampiro (!) estradeiro fissurado em Elvis.

No elenco de apoio, destaques para a ótima Claudia Karvan como a rebelde Audrey e para a linda Isabel Lucas (de Transformers 2), surpreendendo como a filha do personagem de Neill. Sua entrega é tal que chega a roubar a cena do veterano ator.


Mesmo com todo o refinamento conceitual, a mão dos Spierig continua pesadona quando o assunto é podreira e sanguinolência. Estão mais contidos aqui, mas extravasam generosamente em situações pontuais ao longo do filme. Uma das cenas do clímax é um espetacular esquartejamento em bando (do tipo que os zumbis de George A. Romero faziam nos anos 70), filmado num elevador com a câmera em ângulo invertido num efeito nauseante. Decapitações e eviscerações também são reproduzidas com grafismo ímpar.

O visual das subespécies impressiona. As criaturas são uma involução bestial dos vampiros, a meio passo de morcegos antropomorfizados e lembrando vagamente os Rippers, de Blade 2, até pelo fato de se abrigarem nos esgotos. Méritos do designer e supervisor de efeitos Steven Boyle, que já havia feito um bom trabalho na adaptação de 30 Dias de Noite.

A fotografia em tons cinzentos e azulados mantêm uma atmosfera sufocante e opressiva em sincronia com a abordagem dos diretores. Embora utilizem com frequência os recursos tradicionais do gênero terror, os Spierig construíram em essência um sci-fi da velha escola. Em diversos momentos, o filme lembra um Gattaca com vampiros, sensação em parte reforçada pela presença de Hawke, em parte pela distância e cadência entre os personagens.

Numa proposta cheia de inovações, como a cura bastante plausível para o vampirismo, e uma cinematografia que beira o genial, é de se estranhar que Daybreakers derrape feio na última curva. Entre a missão de deixar um final em aberto e tentar amarrar a trama inteira com um banho de sangue generalizado, a perda foi apenas parcial - mas tirou dos Spierig a chance clara que tinham de reinventarem a roda e a moda.