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domingo, 31 de maio de 2026

Enquanto isso, na Banca do SAM...

Como amassar o tropo do salvador branco em uma página.


Superaventuras Marvel #141 (março/1994)

Não só não envelheceu, como renovou os votos. Só mesmo a Ann Nocenti. ❤️

Em inglês, sem as "aparadas" da Abril, é ainda melhor.


Daredevil #283 (agosto/1990)

É a coisa mais anti-Chuck Dixon que você verá hoje.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Bem-vindo de volta, Jon


A coisa mais interessante do MCU atualmente é observar como a Disney tenta lidar com o Justiceiro, esse enorme caveirão branco no meio da sala. É um personagem que o público neófito adorou, mas nem sempre (quase nunca) por motivos nobres. No meio do tiroteio ideológico que custou até o símbolo-logo do vigilante nos gibis, a Marvel tenta equilibrar a balança enquanto faz a reintegração de posse de seu anti-herói. Sob esta ótica, o especial O Justiceiro: Uma Última Morte é mezzo thriller de ação mezzo TCC de ciências sociais.

É sempre engraçado ver a Disney pulando de um pé para o outro na tentativa de amaciar o Frank Castle. Dar ao personagem uma motivação suficientemente digna e justificável para metralhar, estripar, empalar, esquartejar e explodir uma galera – e ainda divertir o público como um todo, não apenas o time do bandido-bom-é-bandido-morto. Há um problema óbvio aí que é humanizar um personagem desumanizado. Mesmo bom de narrativa, o diretor Reinaldo Marcus Green não consegue evitar a pieguice que sabota o bom andamento da matança sem piedade.

Na trama, o Justiceiro (Jon Bernthal) encara o que sobrou da Mama Gnucci (Judith Light), que busca uma vendetta pela chacina de sua famiglia após a série da Netflix. Ao mesmo tempo, ele tenta salvar inocentes em pleno caos urbano provocado pelo vácuo de poder. Aposto uma garrafa de Blue Label que não era nisso que Garth Ennis, Steve Dillon e Jimmy Palmiotti pensavam enquanto concebiam o arco original das HQs.

O Justiceiro é uma figura à Monstro de Frankenstein (não confundir com o Franken-Castle). Odiado por muitos e temido por todos, independente da inclinação moral. Castle é um outcast, uma sombra. Além da redenção. Aproximá-lo do cidadão comum é arrancar o que ele tem de mais legal e colocar coisas não tão legais no lugar.

Essa pegada do "Castle Amigão da Vizinhança" gera outro problema, que é a subversão da própria mensagem. Enquanto age como GCM hardcore, ganhando até abraço e lembrancinha de uma criança após trucidar 8 filhotes do capiroto numa lanchonete, Frank acaba remetendo ao Justiceiro original Paul Kersey, da série Desejo de Matar. Especificamente, ao Kersey de Desejo de Matar 3, objeto-mor de idolatria reaça e uma comédia involuntária insuperável para assistir com os amigos.

Quem não lembra do Kersey largando o aço no icônico Risadinha e recebendo uma salva de palmas dos moradores do bairro? Absolute cinema.

Em Uma Última Morte, Castle quase chega lá. E tem até um Risadinha para chamar de seu, mas com tratamento VVIP em comparação e cenas de um maniqueísmo raso e constrangedor (pobre doguinho). Desse modo, a Disney se vale de uma espécie de "candura" para alcançar o gatilho reaça que existe em cada um e assim conquistar a empatia do público médio da plataforma – também conhecido como Geração Z. Nos anos 80, esse malabarismo todo seria obliterado por saraivadas de balas de festim, explosões de verdade, milhares de squibs sanguinolentos e indefectíveis frases de efeito.

Admito, talvez esteja Žižekeando demais com o filme, mas é inevitável. Há muito acontecendo aqui e nem arranhei a lataria.

Voltemos ao basicão.

O roteiro foi co-escrito por Green e pelo próprio Bernthal e, na real, é ruim. Se o ultimato da matriarca Gnucci era compartilhar a localização do edifício de Castle para todos os criminosos da cidade, bastava ele se mudar de endereço. E aquele comerciante pode até ser dedicado, mas abrir as portas no meio de um The Purge é atestado de burrice. E ainda levar a filhinha para o trabalho naquele cenário apocalíptico configura inclusive negligência parental. Justiceiro do Antigo Testamento nele!

A despeito disso e do excesso de sacarina que abre e fecha o média-metragem, Jon Bernthal tem um trunfo incontestável: ele mesmo. O recheio de Uma Última Morte é um rodízio espetacularmente coreografado de tiro, porrada e dinamite. Isso, o Jão entrega como poucos. Literalmente, salva o dia.

E, quem sabe, o futuro.

Nota final: dois Risadinhas e meio (de 5).

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Predadores de edições esgotadas


Resolvi fazer uma coleçãozinha dos Yautjas e Xenomorfos que têm saído pela Marvel/Disney. Tudo seguia tranquilamente com promos e cupons apoiando a causa, mas na zona de guerra que é o fim de ano, acabei deixando passar o Predador Versus Wolverine do ótimo Benjamin Percy com uma caçambada de artistas. Curto o quadrinho e também queria a versão física, mas, em se tratando da Panini, não poderia faltar aquele draminha de sempre.

A edição, lançada em setembro último, já estava esgotada há um bom tempo na loja virtual. O mesmo na Amazon e nos marketplaces oficiais da editora – a saber: Mercado Livre, Magazine Luiza, Americanas e Estante Virtual. A revista sumiu dos canais oficiais. E também de lojas online genéricas como Mundos Infinitos, Comic Boom! e afins, que dispõem de um estoque do tamanho de uma caixa de sapato. Comix virou um sebo virtual.

Daí para a corrida especulativa em torno deste item "raro" se espalhar pela web igual chato em casa de tolerância foi um pulo. Já vimos esse filme N vezes. Mas não custa recapitular a mágica de uma publicação recente com preço de capa de 39,90 ganhando um aumento de 300%, 400%, 500%!




É o Monte Rushmore da cara de pau.

Editorialmente, Predador Versus Wolverine é uma revista enxuta e simples, compilando as 4 partes da mini original em 140 páginas. Carta cartão e miolo com papel, vá lá, couché – em tempos idos, seria um belo de um LWC, o saudoso couché de pobre. Gibi como deve ser. Ou deveria.


Enfim, nada, nada mesmo que justifique a insanidade dessa precificação superfaturada.

A diferença é que os especuladores desta vez estão gozando antes mesmo de botar pra fora. Já na 1ª página do Google se encontra a HQ ainda disponível nas Livrarias Curitiba. E com um bom desconto!


Neste momento do post, a revista ainda está em estoque.*

* Só tive um pequeno contratempo relacionado ao endereçamento (“Não existem opções de entrega para esse CEP”, pfff), no que fui prontamente socorrido pela moça do SAC.

Questão resolvida. Espero que também ajude outros no mesmo barco.

E que se fodam os Mercenários Livres. De todas as plataformas.



Esse é um worst case scenario cada vez mais frequente em se tratando da Panini. Nem mesmo os medalhões parecem escapar disso. Medalhões que historicamente sempre ganharam tiragens elásticas. Mas quem já não passou perrengues idênticos com as populares Sagas do Batman, dos X-Men e do Homem-Aranha?

E pra quê Mefistos a Panini precisa de marketplaces que fatalmente canibalizariam o tráfego consumidor de sua loja virtual? Só porque seu sistema é lento, ineficiente e infestado de bugs? Nada. Simplesmente porque essas gigantes varejistas engolem sites Paninísticos no café da manhã. O alcance é absurdamente maior.

Somando 2 + 2, fica claro que houve uma mudança na política comercial na empresa. Toda essa confusão é resultante dessa nova estratégia que anda gerando anomalias dignas do Mundo Bizarro. Anomalias como assinantes e clientes de pré-vendas sendo os últimos a receber as edições, por exemplo. Ou como o esquisitíssimo caso da Supergirl da Bilquis.

Hoje, os lançamentos da Panini esgotam-reaparecem-esgotam do site em questão de minutos. Tudo por conta dessa reestruturação das tiragens para implementar a tal "Reserva do Site", o pesadelo 2.0 que antes atendia pelo nome de "Distribuição Setorizada". Isso bate com os insights certeiros do Ranieri, do bacanudo canal Nona Dimensão.

Bem-vindo ao caos.

Para desopilar de toda essa zorra (e aquecer para a leitura), nada melhor que rever o crássico embate entre o Yautja e o Carcaju no Super Power Beat Down.


Esses sim, são os melhores no que fazem.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Meu assassino favorito


Gerard Francis “Gerry” Conway
(1952 - 2026)

Editor, autor, roteirista, produtor de TV, formador de caráter. Tivemos a honra e o prazer de desfrutar da carreira de Gerry Conway em vida. Somos privilegiados.

Difícil lembrar de qualquer material relevante dos comics das décadas de 1970 e 1980 que não levou a assinatura dele. Seja na Marvel ou na DC, o homem elevou o nível do jogo. Homem-Aranha, Esquadrão Atari, Justiceiro, Vingadores, Batman, Cinder e Ashe, Conan, Quarteto, Monstro do Pântano clássico, Legião dos Super-Heróis... pode escolher. Nada foi como antes. Ainda bem.

Ver essa lenda partir é lembrar daquela época de forma cada vez mais distante, etérea. Não é fácil, não dá pra negar. Mas também é ter sido testemunha de uma jornada plena, bem vivida e recheada de conquistas – e nem me refiro apenas aos quadrinhos.

Verdadeiramente uma inspiração.

Thank you for everything, Gerry Conway.

sábado, 21 de março de 2026

Nos vemos no Mundo Interior, Sam Kieth


Sam Kieth
(1963 - 2026)

Essa veio do nada. E doeu pra valer. Se foi o Sam Kieth, um dos meus artistas prediletos desta vida.

Apesar de conhecido, Kieth mantinha uma relação de distância com o mainstream. A independência sempre pulsou forte naquele nanquim. Nos últimos anos, se tornou ainda mais reservado e low profile. Sempre acompanhei o pouco dele que saía por aí, como os registros de seu discreto blog (!), que parou de ser atualizado em 2023. Compreensível, dadas as circunstâncias de sua saúde.

Minha adoração pelo Kieth não é só força de expressão. Tenho tudo o que saiu dele por estas bandas (o que é bem pouco, infelizmente). Dos momentos históricos, como o início de Sandman, aos gibis mais fuleiros, como o crossover do Lobo com o Batman. Sozinho, seu estilo único já valia a imersão. E não era para todos, o que é sempre interessante.

Claro, impossível lembrar do Kieth sem mencionar The Maxx, HQ & animação. É a sua obra-prima, ainda criminosamente inédita por aqui.

E sem esquecer da mini Wolverine/Hulk: A História de Po, um dos quadrinhos mais evocativos, profundos e tocantes que já li. Quem diria. Só mesmo o Kieth para conseguir isso numa história com os dois brucutus da Marvel.

Kieth fazia falta e vai fazer mais ainda. Mas só de estar por aqui no mesmo tempo de vida e me divertir, me surpreender e me emocionar com sua obra já foi um grande privilégio.

Thank you, Sam Kieth.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Ao meu amigo Sal


Silvio “Sal” Buscema
(1936 - 2026)

Triste iniciar os serviços do ano com uma notícia assim, mas esse não teve como. Sal Buscema mudou a minha vida (ou ao menos o modo como a levo). E digo até em que mês e ano isso aconteceu: junho de 1984, quando pus a mãos em O Incrível Hulk #12, da Abril. Foi a primeira vez que lia algo por conta própria fora dos cadernos e livros da escola. Meu primeiro gibi. O impacto daquilo carregarei comigo até o dia em que fechar os olhos.

Lógico que a parceria antológica com o roteirista Bill Mantlo era parte indissociável da magia, mas foram os traços dinâmicos e efetivos de Sal que traduziram para aquele molequinho as décadas da fórmula Marvel desde que Jack Kirby deu início à coisa toda. O encantamento foi imediato. Aquelas cenas de ação, as porradarias explodindo painéis e todo aquele frenesi narrativo não conseguia ver em mais lugar nenhum. Nem mesmo hoje, nos comics regulares.

Sal Buscema também trabalhou para a DC, IDW e algumas outras, mas na maior parte da carreira ele foi praticamente sinônimo de Marvel Comics – a mesma carga identitária construída por seu irmão, o lendário "Big" John Buscema. E, da mesma forma, um operário incansável. E um operário que valia ouro em se tratando de Hulk, ROM, Defensores, Homem-Aranha (notadamente o título Spectacular), os Novos Mutantes e por aí foi. Inesquecíveis.

Mesmo notório pelas sequências cinéticas eletrizantes, Sal também era um mestre em transpor emotividade aos personagens, da mais básica à mais complexa. Tudo de forma fluída e cristalina. Mesmo para um gurizinho com pouquíssima noção de mundo.

E volto àquela memorável e, infelizmente, ainda atual Hulk #12.



Muitas vezes, nem mesmo um texto era necessário.


Espetacular, de fato.

Thank you for everything, “Big” Sal.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

De Gálador com muito orgulho, com muito amor

Chega de farra, chega de festa... só que nãoooo! ROM está aqui!


ROM em modo Dirty Harry / Analisando se o display está correto... ah, espera, não é da Panini!

Finalmente consegui botar minhas patas pútridas no ROM da Marvel Legends. Sempre levei aquisições de hominhos com rédea curta, mas esse foi impossível deixar passar. Tanto pela porrada nostálgica na veia quanto pela qualidade absurda da peça. O design é fidedigno ao do herói dos quadrinhos de Bill Mantlo e Sal Buscema – inclusive se destacando do padrão da linha Legends com uma escultura quase toda feita do zero e poucas partes recondicionadas de outras action figures. Com o visual diferentão do Cavaleiro Espacial, não tinha como ser diferente.

A primeira coisa que salta aos olhos é que este ROM em escala 6" é um tanto maior que seus companheiros de linha. Tudo suave: nas HQs ele é realmente um ciborgão da porra.

A peça vem com dois pares de mãos, juntamente com o Analisador e o Neutralizador, idênticos aos dos gibis. De mimos, vem um effect de raio que serve para os dois dispositivos e uma miniatura emborrachada da edição de estreia do Cavaleiro, com a arte do Frank Miller.

No quesito articulação, o bonequinho dá um show – lembrando que ROM e seu design de geladeira antiga deveria ser inviável para os padrões atuais. Vários pontos de articulação, inclusive com articulação dupla nos cotovelos e joelhos e com o corte do giro das pernas escondido pelas botas (boa!). O teste de fogo foi mimetizar a pose de voo horizontal olhando pra frente, como nas HQs. E sim, é possível!

As juntas são bastante firmes (mas evidente que meu guri de 4 anos interior ficará acorrentado no porão durante os manuseios) e não há a menor dificuldade dele ficar em pé, por mais esdrúxula que seja a pose. Aliás, dá pra fazer todas as poses dos quadrinhos do ROM da Marvel – só não fiz ainda a basicona do corner box.

Em outras palavras, diversão para o infinito e além da Nebulosa Negra.



Lógico, podia ter vindo um effect para os retrofoguetes e um effect extra de raios – embora o ROM só use um equipamento por vez, materializado do subespaço, fica a vontade de vê-lo largando o raio pra cima da Espectraiada igual um mano.

Por último, faltou o Tradutor, pô. Item clássico.

Tudo isso é perdoável, afinal a Legends é uma linha de entrada, baratinha neste segmento de hobby playboy. Não dá pra ter tudo.

O mais importante é que eles entregaram. E reafirmaram uma velha certeza...


ROM é digno!!

Felicidade é mato com o ROM enfim 2.0. Mas paro por aí em termos de action figures.

(a menos que lancem também uns Espectros, o Híbrido, os Cavaleiros Hammerhand, Starshine, Terminator, Javelin...)

Ps: obrigado pela dica do ROM, $andro. Te odeio.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Desafiadores do Conhecido

Onde estávamos mesmo? Ah, sim... no novo filme do Quarteto Fantástico.


Após seis décadas de quadrinhos, desenhos e sofridos quatro filmes (3½, na verdade), os primeiros passos de Quarteto Fantástico: Primeiros Passos seguem como os mais difíceis de trilhar. É uma ironia paradoxal. A cronologia é vasta e todos os seus clichês e arquétipos são reconhecíveis a parsecs de distância: um núcleo familiar, ou quase, protagonizando histórias que aliam fantasia, misticismo, mitologia e, claro, ficção científica a um contexto pop-aventuresco para toda a família. É um pacotão de entretenimento vencedor que sempre foi mantido atualizado.

Por algum motivo, no caso do Quarteto, a coisa invariavelmente adquire contornos complexos de concepção, transposição e execução. Talvez por lidar diretamente com o material bruto, bizarro e fantasticamente doidão criado por Jack Kirby e Stan Lee. Mais do que qualquer coisa que fizeram na Marvel, a química da dupla no Quarteto era da pura. A fine entry drug, difícil de reproduzir com integridade fora daquela mídia. Então, cada vez que se cogita um novo filme da "Primeira Família", é um drama, quase como se fosse algo infilmável. Primeiros Passos talvez seja o, arram, primeiro passo do mythos original rumo ao sonho descomplicado de uma franquia de verão.*

* não me refiro à performance nas bilheterias, onde o longa afundou drasticamente nas semanas seguintes, mas ao potencial escapista por excelência. A normalidade de sentar em frente à tevê, abrir uma cerveja e ver super-heróis viajando até um universo de antimatéria para sair no braço com um gafanhoto antropomórfico de metal. É pedir muito?

O diretor Matt Shakman é veterano de séries, de Game of Thrones e The Boys a Succession e WandaVision, quase um test drive da abordagem vintage de Primeiros Passos. Sabia exatamente como lapidar e conferir gravitas ao roteiro formulaico escrito a oito mãos (fora o aveludado par da Kat Wood, coautora da premissa). Particularmente, tinha minhas restrições com a ideia do filme se passar no ano de 1964 de um universo/realidade alternativa, apesar da jornada acachapante pelo Multiverso na série Loki – e não existe nada mais over-the-top no MCU do que Loki. Felizmente, a opção teve 99,9% de aproveitamento.

Os personagens parecem pertencer à tal Terra-828 bem mais do que à ilha de cinismo e irreverência da Terra-616 (ex-Terra-199999). A bela direção de arte futurista retrô à Syd Mead, além de um delicioso e irresistível guilty pleasure, também evidencia o impacto social, político e tecnológico causado pela existência de um Quarteto Fantástico naquele mundo. Algo bem Watchmen, se o Grande Barba me permitir a referência.

A trama é o basicão do sci fi pré-apocalíptico. Lá, o Quarteto Fantástico já existe há quatro anos, é adorado pelo público e, através de sua Fundação Futuro, tem parcerias com todos os governos (menos o da Latvéria!). Coisa, Tocha Humana, Mulher Invisível e Senhor Fantástico são celebridades pop defendendo o Silver Age Way of Life de supervilões da 2ª divisão. Isso até a chegada da Surfista Prateada anunciando a vinda de Galactus e o fim do mundo. A partir dali, a escala deixa de ser global e se torna cósmica.

A transição de escopo é sensacional. Dá pra sentir toda a tensão, medo e incerteza do Quarteto – em especial, de Reed Richards – frente ao imponderável pela 1ª vez. Pedro Pascal anda onipresente e triscando na hiperexposição (falta só fazer comercial da Bombril), mas tem uma grande vantagem: é um excelente ator. Transmite com maestria toda a frustração e impotência de Richards, com seu controle emocional e pensamento lógico ruindo diante de uma ameaça com tecnologia e poder vastamente superiores.

Já o Coisa de Ebon Moss-Bachrach (o Richie, de The Bear), visualmente, é o melhor Coisa que o dinheiro da renderização digital poderia comprar. Fidedigno. No texto e na caracterização de Moss-Bachrach, porém, deixa um pouco a desejar com a voz suave e um perfil bonzinho/paciente/conformado demais. Assim fica fácil para a Gangue da Rua Yancy. Prefiro o Michael Chiklis.

A Sue Richards de Vanessa Kirby, cheia do soft “girl” power, e o maninho Johnny de Joseph Quinn (keep metal, Eddie!) foram a primeira surpresa para mim. Além de cativantes, ambos têm as melhores cenas entre os quatro e decidem a partida com jogadas individuais em momentos-chave. São os grandes protagonistas do filme.

A outra surpresa foi a controversa Surfista Prateada Shalla Bal, numa escalação que se mostrou muito acertada no final das contas. Primeiro, porque Julia Garner é uma atriz espetacular, saltando do aterrorizante ao fragilizado com uma desenvoltura... fantástica. Segundo, a desconstrução da personagem ao longo do filme deixa sua figura ainda mais trágica e humana, com todos os seus erros, adversidades e superações. E terceiro, é dela as sequências de ação mais eletrizantes do filme, com a Surfista de fato surfando em um rio de lava, em perseguição faster-than-light ao Quarteto dentro de um buraco de minhoca e até no campo gravitacional de uma estrela de nêutrons. A tela grande ficou pequena.

E Galactus. Na cena em que ele é apresentado num crescendo nervoso, emergindo lentamente das sombras, confesso que até esqueci de respirar. Sonho realizado #385, check.

Pode ser a saudável influência de James Gunn em assumir o esdrúxulo para o mundo sem medo de ser feliz. O fato é que o velho Galan enfim saiu das páginas em toda a sua glória live action – armadura roxa e balde na cabeça inclusos. O vozeirão basso profondo do britânico Ralph Ineson confere um tom imponente, solene e ancestral ao Devorador de Mundos. O design segue o padrão clássico das HQs quase à risca, com linhas e detalhezinhos high tech ao longo da gigantesca armadura, lembrando a concepção do artista italiano Giorgio Comolo. Na Terra, ele é um arranha-céu ambulante, muito maior que nos quadrinhos.

Logicamente, algumas bolas batem na trave. Ao invés de consumir os planetas diretamente com o auxílio de seus conversores, Galactus tritura os astros em sua nave como se fosse o Unicron. Bem menos impressionante. A nave, aliás, parece ser a Star Sphere que Galactus usa quando sai de Taa II, sua nave-mãe-pai-e-avós com as dimensões de um sistema planetário. Pena não rolar ao menos uma frase com um fanservice maroto.

Outro detalhe esquisito foi a fuga do Quarteto da nave. Como nas HQs, o Galactus do filme pode imobilizar seus oponentes com o pensamento, assim como faz com a Surfista em dado momento. Então não tem muito sentido aquela correria toda, senão o fruto de uma procrastinação galáctica.

Sobre a celeuma em torno da Mulher Invisível empurrando Galactus, posso listar umas notas de argumentação: 1) Sue é uma mãe defendendo o seu filho (além da Terra, óbvio); 2) A verdadeira extensão de seus poderes nos quadrinhos é tema de discussões a perder de vista e é algo que pode e deve ser aplicado à sua contraparte cinematográfica – e sabiamente evitaram o sanguinho no nariz; 3) Por fim, Galactus estava pronto para sua próxima lauta refeição e, portanto, com fome, enfraquecido e nessas condições, como todos sabemos...

Em suma, nada para ver aí, senão orgulho da Sue.

Me incomodou mesmo foi o Toupeira do canastrinho Paul Walter Hauser, numa repaginada clean e hipster do nosso grotesco favorito. E um desperdício pop do H.E.R.B.I.E. que Jon Favreau, Dave Filoni e, raios, James Gunn não deixariam passar.

Quarteto Fantástico: Primeiros Passos é o filme que os Quatro Fantásticos mereciam há tempos. Não é a Mona Lisa do audiovisual, nem a reinvenção do Universo Marvel nos cinemas, mas reinventa a Primeira Família de uma forma genuína e digna. Digna do legado, da influência, dos gibis e, o mais importante, da pipoca.

Ps: só me faltou mesmo o Balde-Galactus.

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Grande Herói Marvel


James Charles “Jim” Shooter
(1951 - 2025)

Herói para muitos, desafeto para outros tantos. Se foi o grande Jim Shooter, figura única e histórica no mercado dos quadrinhos. E alguém com o qual o público mainstream tem uma dívida eterna.

Iniciando a carreira com inacreditáveis 13 anos, Shooter roteirizou Superman, Superboy e a Legião dos Super-Heróis nos anos 1970 para a DC, teve passagens pela Dark Horse e por várias pequeninas, além de fundar a Valiant, a Defiant e a Broadway Comics. Mas, claro, seu grande momento foi como editor-chefe da Marvel no período 1978-1987. As circunstâncias, da entrada à saída, mereciam uma série à parte sobre os bastidores da indústria. Editor linha-dura, Shooter não era fácil, mas foi quem salvou a Marvel da falência antecipada.

Para qualquer um que começou a ler gibis da editora nesse período, Shooter foi formador de caráter. Mesmo que por tabela. Em sua administração, a safra foi imbatível: os X-Men de Chris Claremont/John Byrne, o Demolidor de Frank Miller, o Thor de Walt Simonson, o Quarteto Fantástico de John Byrne, o Homem-Aranha de Roger Stern, os Vingadores dele mesmo e por aí vai até hoje nos desdobramentos cronológicos que valem.

Também houveram as picaretagens (lucrativas) de Guerras Secretas e (fracassadas) do Novo Universo, que, para o bem ou para o mal, mantiveram a marca Marvel em evidência. Faz parte. É business.

No meu caso, aprendi a ler com gibis da Marvel justamente na gestão Shooter. Simples assim.

Herói, sem dúvida.


Thank you for everything, Jim Shooter!

domingo, 25 de maio de 2025

Tenha uma boa jornada, Escritor


Peter Allen David
(1956 - 2025)

Não foi exatamente uma surpresa, mas receber a notícia foi como ser atropelado. A família, lógico, está arrasada. Certeza que gerações de admiradores mundo afora também. Estamos todos na mesma página. Se foi o Peter David.

O fato de ser um dos escritores mais produtivos e aclamados dos quadrinhos mainstream dos últimos 40 anos (se contar, pelo menos, de A Morte de Jean DeWolff pra cá) gerou um nível de adoração que já está repercutindo em incontáveis depoimentos e eulogias pela rede neste exato momento. Merecidíssimo. Em vida, o homem já era uma lenda.

A versatilidade de David era algo que beirava o incomparável. Seja na Marvel, na DC, em seus trabalhos icônicos no Incrível Hulk, Supergirl, X-Factor, Aquaman, Fantasma, Homem-Aranha, A Torre Negra, nas novelizações de filmes, os elogiados trabalhos no Universo Star Trek, Babylon 5 e vários outros – incluindo aí os gibizinhos infantis da A Pequena Sereia. Até onde li, sempre buscando exaltar a dramática, cômica, trágica, altruísta e falha condição humana em meio aos mais fantásticos e esdrúxulos cenários ficcionais.

Esse era o seu maior superpoder: o de sempre colocar a pessoa em primeiro lugar. Uma delícia de ler e uma inspiração para a vida.

Thank you for everything, Peter David!

Vai demorar para o sensorial voltar ao lugar.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Esculachando o sistema por dentro



Not Brand Echh #11, dezembro de 1968

Marie Severin era impagável.

Ainda funciona à perfeição, tanto pra Marvel e DC quanto para o quadrinista indie ralando para sobreviver nessa eterna guerra civil brasileira.

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Trailer de família

Hoje é o dia dos trailers inesperados. Fantástico!


Quarteto Fantástico enfim numa adaptação live action decente e sem tergirversar o material original de Stan Lee e Jack Kirby. E com um crescendo climático que os Vingadores levaram dez anos para construir nas telonas. A Marvel Studios parece dar os primeiros passos para reencontrar o caminho.

É um alívio finalmente ver o Pedro Pascal menos gaiato e mais sério e cerebral com seu Reed Richards. Reed é um racionalista chatão arrogante, pô. Gostamos dele assim. Já Vanessa Kirby soa meio gélida e indiferente como a Sue Richards. A ver. Joseph Quinn acerta no alvo com o Johnny Storm e o Coisa visualmente perfeito de Ebon Moss-Bachrach carece de mais diálogos. A Shalla Bal/Surfista Prateada (já falei que é Luminaris!) ficou bacana e praticamente reedita o pique-pega com o Tocha Humana no filme do Quarteto de 2007. Não vi sinal do John Malkovich. E o rolê Galáctico pelas ruas de NY fecha com um tiro de Nulificador Total.

Além disso, a vibe de recap retrô me dá a impressão de que adotaram a ótima Quarteto Fantástico: História de Vida como bíblia de produção.


Expectativa lá no alto, portanto. Droga.

quarta-feira, 26 de março de 2025

Medicare don't care

Sempre parece que algo errado não está certo quando somos lembrados que a maior economia do mundo tem um dos sistemas de saúde mais onerosos do mundo. É o que senti quando noticiaram que o grande Peter David precisou recorrer ao GoFundMe para cobrir suas despesas médicas.


E é o que sinto agora ao ver o também grande Mike W. Barr seguindo a trilha em direção à terra prometida da vaquinha gringa.

Não tá fácil pra ninguém... ou melhor, it's not easy for anyone.


Para meros mortais, são quantias vultosas – no câmbio de hoje, 860 mil cruzeiros na meta de David e 200 mil cruzados novos na de Barr. Para a Marvel e para DC, onde ambos fizeram contribuições inestimáveis e lucrativas até hoje, uma ninharia.

Claro, a questão é muito mais complexa que isso. Envolve contratos da época e direitos de autor na legislação daquele país. Temas que, convenhamos, poucos têm a competência para discorrer sobre. Ainda mais pro bono.

Só sei que no meu caderninho da justiça, o conjunto da obra desses dois já deveria garantir uma cobertura vitalícia.

quinta-feira, 6 de março de 2025

DD volta ao trabalho


Demolidor: Renascido chega para assumir uma bronca de longa data da Disney+. Não é de hoje que o conteúdo Marvel da plataforma vem sendo hostilizado por uma legião insatisfeita de fanboys da editora – uns quatro ou cinco que gritam por 400 ou 500, em média. Entre as acusações, a de que a megacompanhia não teria cojones para lidar com o material urbano casca-grossa-macho-bagarai dos quadrinhos. Pois bem, só nos primeiros quinze minutos já tem mais porradaria e sangue do que em Pinguim inteiro. E no final das contas, só prova, pela enésima vez, que apenas isso não é garantia de nada.

É preciso louvar o esforço da Disney para agradar o público ao restaurar o Demolidor da Netflix enquanto sincroniza com os eventos do MCU. Charlie Cox e o Wilson Fisk de Vincent D'Onofrio já são habituées na nova casa e a produção reescalou a Vanessa da bela Ayelet Zurer e o sinistro Mercenário de Wilson Bethel. Tudo em nome dos bons tempos.

O resgate também incluiu, logicamente, a Karen Page de Deborah Ann Woll e o Foggy Nelson de Elden Henson. Eles voltaram. Mas não muito, só um pouco. Quase nada, pra ser franco.

O negócio é que recaiu sobre a dupla a decisão mais controversa deste início de temporada. Logo de cara. Quem conseguir passar por esta provação de última hora, será recompensado. De alguma forma.


Mesmo com inserções de CGI ruim, o tira-teima Oldboyesco entre Audacioso e Poindexter é eletrizante, visceral e sem freio. O tenso diálogo entre Fisk e Murdock num restaurante vem da excelente inspiração em De Niro e Pacino na cena clássica de Fogo Contra Fogo. A referência ao Justiceiro e aos desdobramentos daquele símbolo no mundo real não passou despercebida, tampouco. Cojones.

Outra boa sacada foi levar à trama o dilema legal do vigilantismo na figura do Tigre Branco Hector Ayala – papel póstumo do ator porto-riquenho Kamar de los Reyes, morto em 2023. Pra mim, pelo menos, foi uma grata surpresa: o Tigre Branco sempre foi um dos meus personagens B prediletos.

Problemas? Alguns de ritmo, sim. O Rei do Crime se candidatando/vencendo para prefeito nova-iorquino em velocidade de dobra, por exemplo. Da mesma safra do vilão dando entrada no xadrez e se tornando o rei do lugar em 30 segundos nos seus áureos tempos de Netflix. Deve ser algum superpoder de carisma setado no nível 11. Mas dá pra abstrair.

Principalmente quando o payoff são sequências como o cliffhanger do ep. 2. Uma catarse brutal e libertadora seguida da "Get Free" do The Vines na orelha. Puro exibicionismo.

Quero mais.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

A vinda do Fantástico

Trataram logo de tirar o Coisa do meio da sala.


Não passa despercebida a atitude Die Hard Silver Age à James Gunn no trailer de Quarteto Fantástico: Primeiros Passos. Não tenho a menor dúvida que o diretor Matt Shakman mergulhou de cabeça nessa fonte. Sem medo de ser feliz, a produção assume todo o colorido, o farsesco, o H.E.R.B.I.E. e o Ben Grimm mais fiel aos quadrinhos desde o Quarteto Furado do saudoso Roger Corman. Assume o fantástico, enfim.

Confesso não estava dando a mínima para a proposta. Mas até a estética retrofuturista, calcada no genial Syd Mead, ficou linda. Só perde mesmo para a Sue Storm Vanessa Kirby, uma mulher nada invisível para 400 talheres. Agora o filme tem a minha atenção.

Se bem que aquele Galactus, assim, na seca, sem nem um drinkzinho antes, ativou os sensores de alerta do Edifício Baxter...

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Épico ROM na Epic


Chutão da Marvel no ângulo: o ROM clássico de Bill Mantlo e Sal Buscema terá uma versão Epic Collection pra chamar de sua. Está lá, entre as solicitações de fevereiro. ROM Epic Collection: The Original Marvel Years Vol. 1 será um brochurão de 432 páginas compreendendo as edições #1 a #20 de ROM (dez/1979-jul/1981)). Uma surpresa que ouriçou num êxtase cósmico os fãs do Cavaleiro Espacial. Todos os oito.

Brincadeira (?).

O fato é que o herói cibernético, mesmo nos Estados Unidos, sempre operou em escala modesta, pra marvete fanboy graduado. Quem dirá aqui no Brasil, 35 anos depois da última publicação. Boletos chegaram, fraldas e cabelos brancos também. Dos bravos guerreiros que sobraram, poucos ainda têm di$posição pra essa coisa de gibi. Então, a republicação via Epic Collection – formato bom-e-barato (você me entendeu) – acaba sendo um passe açucarado para a Panini.

Confesso que fiquei loucamente apaixonado pelos ROMNIBUS. Mas talvez não seja a reeedição épica que precisamos agora. Precisamos da Epic. Mesmo que seja suspeito o fato da Panini até agora não ter dado continuidade a nenhum de seus títulos da série. No caso do galadoriano cromado, seriam necessários ao menos uns 4 volumes para fechar as 75 edições originais*.

* Já fazendo vista grossa para a edição #38, com o crossover com o Mestre do Kung Fu, cujos direitos estão agora revertidos ao Sax Rohme Estate.

De todo modo, é interessante assistir essa nova lua de mel do casal Marvel-Hasbro (Masbro?) com jeitinho de pornozão em VHS embolorado. Ainda mais porque, nos últimos anos, a Casa das Ideias andou pulando a cerca do copyright e cometeu pequenas indiscrições aqui e ali. E acolá.


Esqueletos Armaduras do armário de Rick Jones em O Incrível Hulk #136

ROM Epic Collection é tudo o que precisávamos.

(...)

Se bem que “A Saga de ROM, o Cavaleiro Espacial” ® não soa nada mal. Nada mal mesmo.


Atualização 8/12

É, a Panini optou pela facada com giradinha: será ROMNIBUS, mesmo. Em três volumes. E$pectros me mordam.

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Adeus, Baterista


John Cassaday
(1971 - 2024)

Inacreditável é pouco, mas é verdade. Se foi o John Cassaday. Só 52. No curto tempo em que esteve neste lugar, nos maravilhou com sua arte única, repleta de simbolismos e assaltos sensoriais. Nem Planetary de Warren Ellis, nem Surpreendentes X-Men de Joss Whedon, nem Eu Sou Legião de Fabien Nury seriam os mesmos sem ele.

A bem da verdade, qualquer HQ melhorava 300% com seu traço.

Uma porrada dessas por si só já demanda um tempo para assimilar. No mesmo dia da partida de outra emblemática figura então, é dose pra sobrecarregar qualquer buraco negro informacional.

Descanse em paz, Cassaday. E muito obrigado.

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

A volta da Legião Alien


Quase não lembrava que o Predador e os Aliens são propriedade da Marvel desde 2020. Em que pesem dois crossovers de 2023 (Predator versus Wolverine e Predator versus Black Panther), a sensação de espera por material inédito com os Aliens foi de uns 57 anos. E finalmente veio, com pompa e muita circunstância: a mini em 4 partes Aliens versus Avengers tem roteiro de Jonathan Hickman com desenhos de Esad Ribić e a 1º edição chegou às lojas no finalzinho de julho, às vésperas da estreia de Alien: Romulus. Timing impecável. Esses editores Hyperdyne modelo 341-B com inibidores de comportamento são os melhores.

A trama se passa algumas décadas no futuro da "linha do tempo deslizante da Marvel"® e este primeiro capítulo é quase uma intro estendida. Após uma infestação sistematicamente plantada de Aliens, várias civilizações caíram, entre elas o Império Intergaláctico de Wakanda e a Terra. Mesmo os esforços dos meta-humanos foi insuficiente, dada a virulência da reprodução dos Xenomorfos. O planeta foi literalmente tomado por milhões de Aliens. Entre escombros de um mundo pós-apocalíptico, ainda persiste uma pequena resistência formada por Hulk, Capitã Marvel, Valeria Richards, o Homem-Aranha Miles Morales e por um sugestivo "Velho da Weyland".

Neste início, a pegada é de gibi cinematográfico, aos moldes do que Mark Millar fazia em seus tempos de Supremos. Muita ação, algumas dicas importantes espalhadas pelo caminho e um ou dois diálogos preparando os próximos rounds.

É bastante curiosa a efetivação da companhia Weyland no Universo Marvel. Parece que ela sempre esteve lá (e seu logo invertido para o "AVA" da capa reforça a impressão). O mesmo para a dupla de cientistas Shi'ar – e ainda considerando a real natureza de um deles – conduzindo experiências com Facehuggers impregnando Krees e Skrulls. É tão harmonioso e casual que chega a ser, putz, realista.

Esse "entrelaçamento quântico" de dois universos complexos chega a lembrar o mesmo mecanismo do clássico crossover dos X-Men com os Novos Titãs. Além de ser algo particularmente arriscado na perspectiva editorial.

Nos encontros dos Aliens com os super-heróis DC, como Batman, Superman e Lanterna Verde, foi dispensada a segurança do selo Elseworlds e a ação corajosamente se passa no presente da cronologia. Warren Ellis foi mais longe e usou os Aliens para fechar as contas do StormWatch.

Já Hickman, foi, digamos, mais conservador. Afinal de contas, a mini não é exatamente um What If...?. Não pegaria bem com os executivos da Disney um Xenomorfinho estourando o peito da Tia May e isso se tornando automaticamente canônico (viva!). Neste sentido, Aliens versus Avengers se aproxima do futuro sombrio da boa Saga dos Super Seven, da DC, com os super-heróis envelhecidos e derrotados num mundo tomado por uma invasão alien... ígena.

Quanto à adaptação, o próprio Hickman chegou a comentar: "foi complicado encontrar uma maneira de fazer essas duas coisas funcionarem juntas, mas acho que Esad e eu chegamos a algo que funciona para os fãs de ambas as franquias."

Ainda é cedo para um juízo de valor, mas, apesar da média alta, o roteirista parece ter sido pego na curva algumas vezes.

SPOILER

Por exemplo, se Valeria estava impregnada, por que os Aliens a atacavam?

FIM DO SPOILER

Evidente que é só a ponta do iceberg. E vindo da visão macro do Hickman, fiquei na pilha pelo escopo geral desse worst case scenario. O objetivo dessa edição #1 foi cumprido, portanto.

Aliens versus Avengers #2 chega às lojas (e às melhores importadoras do pedaço) em 6 de novembro. Looonge...