Mostrando postagens com marcador Vertigo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vertigo. Mostrar todas as postagens

sábado, 21 de março de 2026

Nos vemos no Mundo Interior, Sam Kieth


Sam Kieth
(1963 - 2026)

Essa veio do nada. E doeu pra valer. Se foi o Sam Kieth, um dos meus artistas prediletos desta vida.

Apesar de conhecido, Kieth mantinha uma relação de distância com o mainstream. A independência sempre pulsou forte naquele nanquim. Nos últimos anos, se tornou ainda mais reservado e low profile. Sempre acompanhei o pouco dele que saía por aí, como os registros de seu discreto blog (!), que parou de ser atualizado em 2023. Compreensível, dadas as circunstâncias de sua saúde.

Minha adoração pelo Kieth não é só força de expressão. Tenho tudo o que saiu dele por estas bandas (o que é bem pouco, infelizmente). Dos momentos históricos, como o início de Sandman, aos gibis mais fuleiros, como o crossover do Lobo com o Batman. Sozinho, seu estilo único já valia a imersão. E não era para todos, o que é sempre interessante.

Claro, impossível lembrar do Kieth sem mencionar The Maxx, HQ & animação. É a sua obra-prima, ainda criminosamente inédita por aqui.

E sem esquecer da mini Wolverine/Hulk: A História de Po, um dos quadrinhos mais evocativos, profundos e tocantes que já li. Quem diria. Só mesmo o Kieth para conseguir isso numa história com os dois brucutus da Marvel.

Kieth fazia falta e vai fazer mais ainda. Mas só de estar por aqui no mesmo tempo de vida e me divertir, me surpreender e me emocionar com sua obra já foi um grande privilégio.

Thank you, Sam Kieth.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

O milagre veio do pântano


Painel DC Vertigo de hoje, na New York Comic Con 2025

Nos últimos dias, o andar de cima da DC Comics só tem me dado orgulho. Ontem, o Presidente J. Lee baniu para a Zona Fantasma qualquer chance de uso de IA na produção dos quadrinhos da editora – até quando, não sabemos (mas valeu, patrão!). E hoje, entre os anúncios gibizísticos para 2026, foi anunciada a conclusão da fase de Rick Veitch à frente da revista do Monstro do Pântano.

Veitch dava sequência à fase Alan Moore desde a edição #65. As artes da reta final desse run são de Michael Zulli, Vince Locke, Tom Mandrake e da colorista Trish Mulvihill. E o resgate vai começar com a publicação de uma das HQs mais malditas da história: Swamp Thing #88.

Recapitulando, a edição sairia originalmente em julho de 1989 e traria o encontro entre o Monstro do Pântano e Jesus Cristo, Nosso Senhor & Salvador. Um encontro bem próximo inclusive.

Mesmo com o tema propenso a polêmicas, a DC deu o sinal verde e a edição #88 foi produzida normalmente, com desenhos de Michael Zulli. Mas a editora mudou o rumo da prosa e acabou vetando a publicação, resultando na saída de Veitch em protesto.

Dois meses mais tarde, uma edição #88 foi lançada, com roteiro de Doug Wheeler e sem qualquer relação com o roteiro original. A história tornou-se lenda. A lenda tornou-se mito.

Agora, 36 anos depois, a edição... ressuscitou.


Depois dessa, até o Constantine vai rezar um Pai Nosso.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

A Lenda fica – e o Homem também



Richard Corben
(1940 - 2020)

Se vai Richard Corben, um gigante da ficção científica, do terror e da fantasia. Confesso que preferi esperar um pouco até uma confirmação mais, digamos, oficial. E ela veio, implacável, pela declaração de sua esposa, Dona.

Não é à toa que a notícia só veio alguns dias depois. Com uma vida reservada e de poucas fotos (com aparições em vídeo ainda mais raras), Corben poderia facilmente ter sido o Terrence Malick dos quadrinhos, não fosse uma diferença básica: a carreira tão prolífica quanto longeva. Desenhista, pintor, colorista, roteirista, animador, escultor, um artista completo que tinha entre seus admiradores gente como Alan Moore, Moebius, Robert Crumb, Neal Adams, Druillet e Will Eisner.

É de Corben a 1ª história da 1ª edição da Heavy Metal. Histórico é pouco. Não tenho nenhuma dúvida da sorte de estar aqui no tempo de vida desse mestre. Bem como o fato de que obras memoráveis como Hellblazer: Inferno na Prisão, Banner e Luke Cage MAX não seriam as mesmas sem ele.

E, claro, é sempre bom ter um vislumbre de humanidade em um gênio assim. Sejam nos preciosos momentos em família, sejam nas mesmas dúvidas que todo mundo tem em certo ponto da vida.

Segue um trecho de uma ótima entrevista para a Heavy Metal do Corben quarentão em 1981:
"A maior tragédia da vida é que você não tem sua sabedoria e sua juventude ao mesmo tempo. Quando passei dos trinta, não me incomodou muito, mas passando dos quarenta, estou pensando mais sobre isso. Chegou a hora de fazer uma lista de todas as coisas que você quer fazer da sua vida e depois começar a fazer, porque do contrário será tarde demais. Coisas que eu não consegui alcançar antes, eu me esforço ainda mais. Estou disposto a arriscar mais porque é agora ou nunca!"

Duvido que aquele moleque lá do início teria se decepcionado.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

O meio do fim



Lembro da época em que interromper um bom papo para checar mensagens no celular era considerado uma grosseria capital. Bons tempos. Hoje vemos essa ferramenta que deveria ser maravilhosa e unificadora desmantelando não só as relações entre as pessoas, mas o futuro de nações.

Não tenho celular, mesmo com todos os inconvenientes inacreditáveis que isso me causa. Não faço ideia até quando vou resistir, mas uma coisa posso afirmar: a vista daqui é aterradora. Nunca pensei que um dia me sentiria na pele do John Nada.

Ps: excertos de Unfollow #16-17. Belíssimo quadrinho-soco na boca do estômago.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Vou pregando a caminho do Texas até o fim do mundo com orgulho americano e histórias antigas rumo ao sul para a guerra ao sol e para a salvação às portas do inferno no Álamo


Já parabenizei a editora Panini por publicar o final de Preacher pela 1ª vez no Brasil, mas parabenizo de novo por ser a 1ª editora a completar a série na íntegra por aqui. Chegou hoje o pacotão com os dois encadernados retroderradeiros - Rumo ao Sul e Guerra ao Sol - e umas coisinhas mais.

Esse foi osso pra acompanhar. Foram anos a fio, entre incertezas inquietantes e silêncios sepulcrais no hot site da Vertigo. Mas valeu a pena. Dilacerarei-o com a fome de cem mil zumbis.

Excelsior!

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Imperius Rex!


Após um mimimi épico sobre a extinção de A Saga do Monstro do Pântano: Livro Um do planeta Terra, o impossível aconteceu: avisaram-me quando estava disponível! Ninguém da editora, claro.

Muito obrigado, Luwig! Essa foi pouco. Por muito pouco mesmo.

E agora vamos ao Graal #2...

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O Departamento de Aquisições informa:


A Saga do Monstro do Pântano: Livro Um foi removida por tempo indeterminado das nossas projeções orçamentárias.

Vamos esmerilhar... esse encadernado, logo esse, foi o auge negativo da distribuição desastrada da qual a Panini vem se servindo de uns tempos pra cá. Entre lançamentos setorizados, atrasos pavorosos, escassez ou simplesmente ausência dos produtos nos pontos de vendas, todas as regiões vêm sendo prejudicadas - inclusive RJ e SP.

Whoa.

Tranquilo, hoje temos as facilidades da aquisição via internet, mesmo descontando os chatos custos de envio. Mas e quando o pior de dois mundos se encontram? A Panini vem num ritmo de superaquecimento notável para o público e devastador para os bolsos. Priorizar virou palavra de ordem. E claro que nenhum leitor de gibis que se preze iria ser louco pra jogar o Monstro do Pântano do Alan Moore pra 2ª divisão. Ou não?

Talvez desencantado pela recepção que teve o encadernado Monstro do Pântano: Raízes vol. 1 - um material da Era de Bronze, vintage e extremamente segmentado -, o financeiro da editora achou que a obra que simplesmente estourou o escritor inglês no mainstream teria a mesma recepção meia-boca. O que parece um absurdo, eu sei. Mas tá aí a tiragem pingada (esgotada até na loja virtual), o material quase sem extras e o papel pisa brite que não me deixa mentir - apesar de simpatizar com certas ponderações românticas sobre isso, mas que não tira a impressão de tratamento anti-deluxe recebido pela obra.

É até engraçado acompanhar as reclamações no hotsite, evoluindo de edição pedestre para distribuição tenebrosa. E como malandro que é malandro não dorme, o resultado dessa bagunça fumegante não poderia ser outro.

Só me resta desencaixotar as edições em formatinho da Abril e pôr na ordem de leitura. Como era mesmo... começava em Superamigos, depois ia pra Super Powers e aí a série solo, né? Será que tenho todas?

quarta-feira, 7 de maio de 2014

It hurts to set you free


Terminou neste mês o que foi provavelmente a incursão mais bem sucedida do selo Vertigo no Brasil. Vertigo, a revista, estreou em outubro de 2009 baseada no sempre conturbado formato mix - cujo risco comercial foi potencializado pela vasta gama de gêneros e temas que o selo abriga. Se é difícil agradar a todos num cenário com padrões bem definidos, quem dirá com um turbilhão de microcosmos caóticos, complexos e praticamente sem conexões entre si. Títulos tão sui generis como Escalpo, Vampiro Americano, Vikings, Joe o Bárbaro, Casa dos Mistérios e, claro, Hellblazer tiveram vida longa, próspera e eterna enquanto durou. 

Precedida pela Vertigo da Abril (1995-1996), que chegou a 12 edições, e da Opera Graphica (2002-2003), com 10 edições, a Vertigo da Panini Comics foi campeã: 51 edições em 4 anos e meio, com formidável regularidade e distribuição (não a característica mais marcante dos produtos da editora). Um feito num país como o nosso somado às fortes turbulências que vinham lá de fora.

Deve ter cumprido o papel a que foi incumbida, seja ele qual for. Meu chute vai para o objetivo fidelizador. Estamos agora todos (todos?) mais do que prontos para abraçar sem medo a causa dos TPBs e edições deluxe - e quem sabe alguns eventuais Omnibus com tudo em cima. Nunca o termo "título descontinuado" teve um viés tão positivo.

Parabéns à Panini. E vida longa à Vertigo.

Ps: tenho todas. Rá.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

I'm as mad as hell and I'm not going to take this anymore!

É oficial: Preacher vai virar série pela AMC com Seth Rogen e Evan Goldberg como roteiristas e produtores executivos.


Até uns 4 anos atrás essa seria possivelmente uma das melhores notícias envolvendo quadrinhos e televisão já imaginadas. Longe de mim desmerecer a network que deu a luz a Breaking Bad (até porque, nunca assisti), mas sou testemunha ocular dos crimes que a mesma cometeu com a trama original de The Walking Dead. Me pergunta se assisti algum episódio da última temporada? Não consegui. Não, definitivamente a AMC não é mais um porto seguro.

Goldberg é o escritor de Rogen de longa data. São sócios na gangue do diretor Judd Apatow e funcionam muito bem por lá. Adorei as bobajadas nonsense de Superbad, Segurando as Pontas e É o Fim. Também é evidente que os caras são über-nerds e provavelmente conhecem a saga de Jesse Custer de cabo a rabo, mas tenho quase 101% de certeza que a dupla não tem cacife pra segurar o rojão. E, principalmente, defender a criação/criatura de Garth Ennis contra as concessões impiedosas da AMC. E nem vou citar a incursão anterior dos rapazes pelo revoltoso mundo das adaptações.

Lembra daquele velho sonho molhado com Preacher virando série pela HBO? Infelizmente não foi dessa vez, moçada.

Mas que semaninha, hein?

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Y The Last Edition


Fechou. E com regularidade notável. Dez edições em três anos. Deve ser meu lado ainda acostumado com serviços editoriais precários, mas... parabéns à Panini!

Essa merece um lugar de destaque na estante. É daquelas do coração. Daqui a algumas semanas darei uma nova revisitada na trajetória de Yorick, Ampersand, 355 e dra. Allison. E, mais do que certo, me emocionar outra vez. Droga.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

COISAS DO PÂNTANO


Dois personagens que sempre renderam capas sensacionais. Inclusive, esta do Monstro do Pântano é uma das minhas favoritas de todos os tempos, junto com esta outra dele também.

E sempre achei que o Homem-Coisa tinha algo de zumbi. Pra mim esses cadáveres incrustados nele estão em casa.

Na trilha: Misfits Box Set. "Hallowe-ee-ee-een..."

domingo, 20 de janeiro de 2008

sexta-feira, 27 de julho de 2007

PAGE 4 TART


Essa foi rápida. Imagino que a Pixel Magazine #4 deva estabelecer alguns recordes de leitura dinâmica por aí. Até a disposição contribui pra isso, num eficiente mix de histórias breves com aquele padrão artístico que nunca dura o suficiente pra quem está curtindo. A começar com Promethea, que abre a revista de uma forma até estratégica.

Promethea é mais uma cria vencedora de Alan Moore, em parceria com J.H. Williams III. Colecionou vários prêmios na estante - Eisner incluso - e sua demora em estrear no Brasil pelos meios oficiais é só mais um indício do descaso vigente, et cetera e tal.

Não lembro direito onde li, mas já afirmaram que a personagem é uma versão alternativa da Mulher-Maravilha. Besteira. Pode haver a semelhança meramente estética, mas pára por aí.

O argumento vai fundo em temas como mitologia, fé, arte, períodos históricos e questões metafísicas, sempre com uma cadência típica de aventura pop - mas underground, no sentido que Love & Rockets é pop underground -, vide o papo despachadão entre Stacia e Sophie, logo no início. É a espontaneidade em quadrinhos. Contraste total com o intrincado background criado para a musa-heroína no prólogo. Um hoaxzão pra ninguém botar defeito.

Mais e melhores capítulos virão. Segundo a Pixel, Promethea é título fixo, o que é uma excelente notícia, mesmo com pesos-pesados na concorrência.



Ainda tentando tapar os buracos da cronologia de Hellblazer por aqui de maneira caótica. Ao menos a qualidade do material nivela por cima: A Natureza da Fera foi escrita pelo bonzão Paul Jenkis (Inumanos, The Sentry), desenhada pelo fodão Sean Phillips (Marvel Zombies) e, como reza o texto de abertura, é considerada pelo roteirista como sua melhor história para o mago boêmio John Constantine.

O que seria apenas uma episódio de entressafra, se mostra uma premissa muito instigante, com uma evolução belíssima. É quadrinho com punch literário na escola Neil Gaiman. Sensacional, ainda que aquelas parábolas tenham me lembrado o Paulo Coelho (!).

Esta edição também marca a primeira aparição de Tom, o pastor cigano, também conhecido como o - olha o spoiler - Deus Cristão Todo-Poderoso.



Planetary #16, que traz a história Hark, eu ainda não tinha lido. Desde já, uma das seqüências iniciais mais despirocantes que eu já vi, mesmo com o cinemão marcial chinês em baixa. De cara, mete um roundhouse kick naquela memorável cena à Herói/O Tigre e o Dragão/O Clã das Adagas Voadoras de Wolverine #26. E veio dois anos antes.

No subtítulo da tradicional intro, está escrito "um show de Cassaday". Justo, muito justo. Acho que foi o melhor trampo do homem. Com maestria ele conferiu profundidade, tensão e uma das porradarias mais empolgantes dos últimos anos, além, é claro, da beleza minimalista dos (econômicos) cenários. Cada quadrinho pede uma moldura. A "arte" aqui foi medida ao pé da letra.

O roteiro é sobre a origem da personagem Ana Hark, com Elijah Snow sempre fazendo as vezes do anão de Twin Peaks: sabe tudo, mas não explica nada. Fosse um filme, seria dirigido pelo Michael Haneke (Caché), com os créditos subindo sorrateiros no que ia parecer só a metade da projeção. Ainda assim, uma das histórias incompletas mais bacanas que já li.

Warren Ellis continua atirando cabeça de bode pro leitor roer.



Pra fechar, duas rapidinhas extraídas da maravilhosa Tomorrow Stories: Os Fatos da Vida!! e Pensar, ambas com roteiro de sir Moore. A primeira é um conto de uma piada só, protagonizado pelo guri Jack B. Quick. Humor rasteiro, mas hilário. A segunda vem com uma climéria meio noir e lembra muito o filme O Poder da Sedução, thriller putesco com Bill Pulmann e uma fatalíssima Linda Fiorentino manipulando todo mundo. A conclusão é idêntica. Moore tem crédito na casa, então deixa pra lá.

E cadê a seção de cartas? Pessoal estava levantando umas questões interessantes lá.


Fábulas - 1001 Noites vol. 1/3 com 52 páginas a 6,90. Meio caro, huh?

sexta-feira, 13 de julho de 2007

PIXEL NA COVA DOS LEÕES


Quem dera que Alan Moore fosse brasileiro e escrevesse textos sobre quadrinhos pra Folha ou pr'O Globo. Além de ser um pensador à altura, ele não tem papas na língua (ou no teclado) e com certeza não deixaria de analisar o renascimento comercial do selo Vertigo no Brasil.

Vamos fazer assim: a Pixel Media foi um assombro pela velocidade com que se fez acontecer e pelo tratamento desse material tão esculhambado por aqui - administrado através dos anos por pára-quedistas sem senso de cronologia e com preços ionosféricos. Ainda não dá pra afirmar que a Pixel é a Joana D'Arc do vertigueiro brazuca, mas o mix acachapante da sua publicação principal - aliado ao precinho supreendentemente justo - já é um milagre que a editora operou.

Baixando um pouco a embriaguez orgástica que a Pixel anda me proporcionando, é certo que alguns poucos vacilos têm de ser limados em nome da sincronia. Errinhos de digitação e uma tradução literal que deixa os textos meio truncados são pequenos detalhes a serem lapidados com o passar das edições, espero. Também não sei até onde é produtivo "tentar consertar" as besteiras que fizeram com a cronologia da Vertigo nos últimos anos. Os resuminhos são uma mão na roda e bem escritos, mas ainda não consigo visualizar onde querem chegar, p.ex, com Planetary começando no #13.

Outro fator que considero como médio grau de risco é a presença de André Forastieri, comparecendo como diretor editorial nos créditos (e voltando à velha forma com o belo texto comparando a Vertigo ao movimento punk na edição de estréia). Ora, o velho Forasta foi a alma, o sangue e o múque da Bizz no final dos anos 80/início dos 90. De fato, foi a melhor coisa daquela safra, mesmo quando não se concordava com ele. Depois disso, teve uma rápida passagem pela General (a revista mais legal das que não deram certo) e foi um dos responsáveis diretos pela Conrad, uma das maiores salgadeiras do mercado de HQs. É disto que tenho medo e que ameaça a quase putesca farra mensal dos 9,90 (já aprovados no meu disputado orçamento). Temo que num belo dia a Pixel Magazine apareça com capa dura na banquinha do Seu Zé.

Ao que expus as minhas fobias com cara de Morte a R$ 60 para o Fivo (que está vivo e rende trocas de e-mails que um dia hei de publicar aqui), o cabra me disse pra ter fé porque ele pode ter encontrado um bom formato de business agora. Deus te ouça, meu filho.

Pixel Magazine é mulher gostosa. E nesta terceira edição ela continua rebolando irresistível. Tem Fábulas, a maravilhosa cria de Bill Willingham, mostrando o background do Garoto Azul na história/conto O Último Castelo. Referências visuais ao Senhor dos Anéis e uma Branca de Neve à Brandy (de Liberty Meadows), usados com timing e criatividade, deixam a paisagem ainda mais instigante. Também temos mais um balaço de John Constantine, desta vez extraído de Hellblazer #142. História tão curta quanto visceral, um absurdo de vigor narrativo.

Depois de um copinho de whisky pra relaxar, vem Planetary com a missão de dar um olé nos neurônios do leitor. Retirada da edição #15 original, a história Canções da Criação é Alice no País do Espelho encontra Asdrúbal Trouxe o Trombone. Entendeu? Nem eu. A arte sempre agradável de John Cassaday é o fundo falso ideal para um Warren Ellis abarrotado de cafeína e guaraná em pó. A sensação é a mesma de acordar domingo de manhã no meio da invasão à Normandia, mas quer saber? É genial. Você tenta se encontrar na bagaça e quando acha que vai conseguir, Ellis, com um bom filho da puta, mete as travas da chuteira na cara da linearidade. Troço tão sinistro que rendeu até um texto de apoio moral.

Por fim, The Cobweb, trip psicodélica concebida pelo casal Alan Moore & Melinda Gebbie após várias pitadas de nargilé e cházinho de Santo Daime, desta vez até mais comportada.

Tudo nos conformes, agora só quero saber quando vem a próxima dose de Freqüência Global.


* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *



Estava mesmo interessado em que pé andava o bom e véio Swamp Thing. Segundo o editorial, conferido dinamicamente antes da negociação, a abordagem pretende seguir o padrão de horror instituído na fase clássica de Alan Moore (ele já foi citado por aqui hoje?). Amor em Vão é uma mini em duas partes escrita por Joshua Dysart e rabiscada por Enrique Breccia, e até consegue reeditar em parte o climão sorumbático daquela época.

Em parte, porque o que Moore fez lá foi poesia dark, cordel de encruzilhada da Louisiana. Não dá pra superar. No entanto, Dysart (bróderzão de Mike Mignola, com quem anda colaborando em uma série de projetos) é dedicado e mergulha fundo na podridão que é o universo do Monstrão Pantanoso, resgatando até um inimigo velhusco do herói. O que não deixa de surpreender, vindo do mesmo cara que criou Faça 5 Pedidos, aquele mini-mangá da Avril Lavigne.

A arte de Breccia lembra um Sam Kieth menos farsesco, mas ainda assim despirocado. Desenhar demônios e deformações diversas é com ele mesmo. Seu Monstro do Pântano pouco lembra algo vagamente humano. A interação com as idéias doentias de Dysart resulta numa química insana, especialmente nas cenas mais escatológicas.

E o momento romântico da revista é Fome Animal puro. Yeah!


* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *



Como bom admirador do Doutor Alec Holland, sempre tive curiosidade acerca do material mais antigo do personagem, ainda sob a batuta dos criadores Len Wein e Bernie Wrightson. Falta corrigida agora, com a revista Estréia apresenta O Monstro do Pântano #9, lançada em maio de 1980 pela Editora Brasil-América, a famosa EBAL.

Muito antes da reinvenção definitiva do personagem nos anos 80, o leque de possibilidades temáticas era tão abrangente e nonsense quanto todo o resto da DC durante a Era da Prata, mas o tom notadamente mais sisudo antecipava o que estava por vir.

Na tentativa de reverter sua condição grotesca (sendo que hoje ele é praticamente um Shrek de tão desencanado), o Monstro do Pântano se depara com um alienígena e sua nave avariada. Obviamente rola aquela treta entre as criaturas e as coisas se complicam quando uma operação militar chega ao local para investigar o OVNI - vale destacar uma nota engraçadinha dos editores nesta parte. O nome da história é pra lá de sintomático: O Visitante do Espaço.

Monstro do Pântano da 1ª fase é Roger Corman em quadrinhos.

Esta edição também trouxe, há muito, muito tempo atrás, a segunda parte da origem do herói Nuclear, na época batizado Labareda (e "Tempestade" na dublagem nacional do desenho Superamigos). A história chama-se Abram Alas para um Novo Herói! Parte II e foi republicada tempos depois pela Abril. É uma brasa, mora!


(links down)

Estréia apresenta O Monstro do Pântano #9
Mirror



Na trilha: alguma do Notorious B.I.G. No Dia Mundial do Rock.

terça-feira, 11 de abril de 2006

QUE PAÍS É ESTE


"Estamos em 1988 agora. Margaret Thatcher está entrando em seu terceiro mandato e falando confiante de uma aliança inquebrantável dos Conservadores no próximo século. Minha filha mais jovem tem sete anos, e um jornal tablóide está circulando a idéia de campos de concentração para pessoas com AIDS. Os soldados das tropas de choque usam visores negros, bem como seus cavalos, e suas unidades móveis têm câmeras de vídeo rotativas instalados no capô. O governo expressou o desejo de erradicar a homossexualidade e as pessoas já ficam especulando contra qual outra minoria irá legislar. Estou pensando em reunir a família e deixar o país nos próximos anos. Este lugar está virando uma terra fria e hostil, e eu não gosto mais daqui."
Alan Moore, março de 1988

Anos após a publicação original de V de Vingança, Alan Moore ainda penava com o cenário político de sua terra natal. Fascismo imperialista de extrema direita ditando as regras do jogo, em plena Guerra Fria. Reagan e Thatcher caminhando juntos e antevendo um futuro em chamas. Era desse futuro que tratava V, obra clássica que Moore desenvolveu ao lado do desenhista David Lloyd. Apesar de ainda em início de carreira, Moore discorre com maestria sobre temas não-usuais como favorecimento político, massificação e manipulação da mídia (isso te lembra alguma coisa?). Outro ponto que sempre me interessou em V, foi a opção do autor em observar de perto o impacto dessa repressão extrema sobre o cidadão comum. Mais ainda, sobre os próprios agentes do autoritarismo. O tal "elemento humano" que a Máquina é incapaz de processar com exatidão.

V apresentava um naipe de personagens complexos, tridimensionais, cada um enfrentando o seu próprio drama particular. Além de estarem de alguma forma ligados ao status quo, a única relação entre eles era a conseqüência das ações de um terrorista auto-entitulado V (ou "Codinome V"). Nada se sabe a respeito do indivíduo, apenas o que ele mesmo faz questão de deixar claro: travestido de Guy Fawkes (genial idéia de Lloyd, Moore odeia admitir), V faz de sua estréia um tributo ao mesmo e explode as casas do Parlamento britânico. Momentos antes, ele havia trucidado três agentes do governo (policiais à paisana, denominados "homens-dedo") para salvar a desesperada Evey Hammond da morte certa. Isso, logo nas primeiras páginas da graphic novel. A partir daí, Moore traça um painel amargo do que pode acontecer quando as pessoas erradas estão no poder. E faz questão de lembrar que a diferença pode sim ser feita por uma pessoa - ou uma idéia.


Agora, fãs da clássica Vendetta, vamos dar as mãos: que susto levamos, hein. Adaptação cinematográfica hollywoodiana feita no controle remoto por Matrix's Larry & Andy Wachowski? E quando soltaram aquele trailer japonês cheio de caratê e música tecno? Brrrr... gotas frias de suor caindo com efeito bullet-time. Po-rém... pensando friamente, os caras têm sim uma boa experiência no quesito "No Future/Fuck The System" - talvez sejam os profissionais top de linha no assunto atualmente - o que é, sem dúvida, indispensável para dar vazão à abordagem emputecida que Moore impregnou no texto original. E o diretor James McTeigue se mostra um controle remoto daqueles do tipo "universal", hiper-versátil. É dono de uma bela folha de serviços em blockbusters, como diretor de 2ª unidade e diretor assistente (em dois episódios de Star Wars e nos três, oohh... Matrixes), o que, categoricamente, não quer dizer porra nenhuma.

Mas nem tudo foi baixa expectativa. Acho humanamente impossível algum admirador de V não ter comemorado a inclusão de Natalie Portman no cast. Quase não consigo imaginar outra atriz melhor no papel de Evey (quase). A aura inocente, a jovialidade (aparentemente eterna), o olhar mezzo estarrecido mezzo intrigado, e, claro, sua beleza natural irresistível, seja pra homem, mulher ou GLS (desafio qualquer um a não ser um natalieportmanssexual). E ela ainda tem um background interessante com esta motivação em particular. A primeira vez que vi Natalie foi em O Profissional, aquela belezura de filme em que ela, ainda molequinha, fazia um mix de mocinha-em-perigo com sidekick de uma força da natureza ambulante, encarnada pelo Jean Reno. Juntos, eles enfrentavam a personificação de um sistema caótico e corrupto - o melhor papel de vilão do Gary Oldman. E ela roubou a cena dos dois. Perfeita. Já estava preparada para este papel desde aquela época. Tá contratada.

"Não há carne ou sangue dentro deste manto para morrerem. Há apenas uma idéia. Idéias são à prova de balas."
Codinome V

Uma pequena confissão: após meses acompanhando os percalços da produção, não sei porquê cargas d'água, acabei entrando no cinema sem a mínima idéia de quem interpretaria V. Incrível. Pode ter sido apenas uma monumental falta de atenção, mas prefiro acreditar que foi influência direta da revista, que minimizava ao zero absoluto a importância individual neste caso (afinal, ele representava, antes de tudo, "uma idéia").

Corta pra hq novamente (pulem esta parte, desafortunados que ainda não leram V... há spoilers aqui):

Quando li V pela primeira vez, eu já estava tão embriagado por aquele ideal libertário, que cheguei a torcer para que Evey não retirasse a máscara de V, já moribundo. No começo, é claro que estava curioso pra saber como ele era. Mas depois de toda aquela dicotomia revolucionária e subversiva, - e já totalmente "convertido" - fiquei com medo de virar a página e me sujeitar à uma desmistificação abrupta daqueles conceitos - que passei a tomar como preciosas informações. Ou que isso acarretasse o fim daquela viagem (cacete... Moore e seus argumentos que transcendem o final físico da história. Espero que este legado esteja sendo bem rateado por aí, pois de uns dias pra cá ando pensando muito nisto).


Hugo Weaving talvez não tenha o timbre de voz que eu imaginava (detalhe que, neste personagem, leva uns 90% do carisma). Pra mim, seria algo mais suave e melodioso. Em todo caso, até pelo tom áspero e o fôlego filhadaputa, a já conhecida mis-en-scene vocal do ator garantem a diversão (pô, a caricatura que ele fazia com o Agente Smith era demais)... e insólita, diga-se. Recitar riminhas complicadas pouco antes de deitar uns seis na mãozada é digno daquela reprise de Laranja Mecânica. Ultra-violência shakespieriana! Felizmente, as cenas de luta são filmadas de maneira digna, sem muitas novidades modernosas. Aqui não há nenhum pulinho, seguido de loop em 360º e chutinho que joga algum infeliz pra longe. As lutas são honestas, as facas são altamente letais (e estavam na hq... são faquinhas super-idôneas!) e as coreografias são decentes (a melhor foi a da fuga na estação de TV). Pero hay que endurecerse... a seqüência final foi inegavelmente matrixiana. Não que eu vá ignorar o que isso tecnicamente ofereceu de bom até certo ponto, mas ver as faquinhas girando em slow-motion-querendo-ser-bullet-time me irritou sobremaneira. Preciosismo altamente dispensável.

O produtor Joel Silver andou falando que Alan Moore só ficaria satisfeito com o roteiro se cada palavra do texto original fosse transcrita. Quem dera. Mas o trabalho de adaptação foi respeitoso em relação ao conceito, e, ao mesmo tempo, pra lá de ousado. O resultado foi bastante funcional. Os puristas vão engasgar com a pipoca devido ao efeito impiedoso da condensação e com a semi-inversão na ordem dos acontecimentos (disto eu gostei muito). E os cortes? O supercomputador Destino não aparece, assim como a obsessão do Líder Sutler (o grande John Hurt, desperdiçado). Também não aparecem personagens-chave que fizeram toda a diferença, como a ambiciosa Helen Heyes e a vitimizada Rosemary Almond. O assassinato de Lewis Prothero - ex-"Voz do Destino", rebatizado "Voz de Londres" - foi relegado à uma seqüência padrão que passa longe daquela maravilha ritual vista na hq (aquilo sim era uma vendetta!). Já Gordon Deitrich não pega Evey (muuuuito pelo contrário...), justamente pra não ofuscar uma infeliz opção do roteiro quase na reta final. E Stephen Rea, um ator que eu admiro muito e também nem imaginava que estaria em V, caiu como uma luva no papel de Edward Finch - papel este que seria memorável, caso não tivesse um final tão alterado.


Mas o que aparece transposto literalmente chega a ser emocionante. O processo de "purificação espiritual" a que Evey é submetida ficou uma beleza (e prova que Natalie Portman fica bonita até azul com bolinhas amarelas). As cenas e os flashbacks relacionados à carta sufocante de Valerie ficaram perfeitas, talvez o auge dramático do filme. Ótimas as seqüências de V despachando a amargurada Doutora Delia e o repugnante Bispo Lilliman. Irretocáveis.

Eu defendo até a atualização da geopolítica envolvida. Muito se fala que as referências ali são ao W. Bush way of life, e são mesmo. Fazer o quê, se a Inglaterra andou importando alguns mal-costumes de sua ex-colônia (vide a co-autoria na invasão ao Iraque e o caso Jean Charles)? Não que isso vá acontecer com eles mais pra frente... não apenas com eles. Hoje, esta não é apenas uma visão do futuro da Inglaterra, mas do mundo. Inclusive nós aqui. Sem querer soar condescendente... estamos num país onde milhões de dólares são saqueados de cofres públicos e políticos assumidamente corruptos se beneficiam de acordos para evitarem a cassação, enquanto uma doméstica desempregada fica cinco meses na cadeia por roubar um pote de manteiga. Não se engane, neste exato instante, vivemos no universo de V. Mas em breve teremos mais uma chance de mudar algo - não através da força, ainda bem.

"O povo não deveria ter medo do seus governos. Os governos deveriam de ter medo de seu povo."
Codinome V²

Temos muito o que aprender aí, com todos estes acontecimentos e informações disponíveis, com este filme e seu final apelativo e populista. O pedido por indignação e contestação se confirma quando os créditos sobem ao som do clássico stoneano Street Fighting Man - uma ode ao cara que vai às ruas lutar pelo que acredita. A palavra de ordem não é mais "acorde", e sim "reaja". Nada mal em se tratando de uma mega-produção hollywoodiana.

A revolução definitivamente não será televisionada.

domingo, 13 de março de 2005

MAGOS, TRAPAÇAS & MIL CIGARROS FUMEGANTES


Em um mundo perfeito, um filme sobre John Constantine teria o Mickey Rourke fase 1981/1990 no papel principal. Aliás, não só o Mickey, mas também um diretor refinado e criador de atmosferas tensas, como Alan Parker, comandando a desconstrução de uma saga gótica pontuada por uma inevitável, mas inesperada, redenção. E um ator austero e obsessivo, imerso em um oceano de introspecção e obscuridade, tal qual Robert De Niro quando resolve ser a Encarnação do Mal. Enfim, tirando uma coisinha aqui e adaptando outra acolá, acho mesmo que o filme Coração Satânico daria uma bela adaptação cinematográfica do mago inglês.

Isso sim seria sonhar com o impossível...


...ao contrário da possibilidade de Gordon Matthew Sumner, o Sting, interpretar o personagem. Além de ser a base que ajudou Alan Moore a captar o espírito de Constantine (e de uma forma ainda mais intensa do que a idealização Rutger Hauer/Lestat de Anne Rice), Sting está por aí, vivinho da silva, com aquela mesma expressão enigmática e, acima de tudo, ainda um bom ator, como sempre foi - vide o seu Barão Frankenstein no belo A Prometida, e, claro, sua pequena e ótima participação em Jogos, Trapaças & Dois Canos Fumegantes.

...sem contar que ele foi o líder do Police, uma boa banda... mas vamos parar de viajar e trabalhar com o que temos. :)

Sabe, talvez seja melhor você não ler o resto se ainda não assistiu ao filme. Não que eu vá revelar algum spoiler sem avisar antes, não mesmo... mas é que fiquei muito feliz ao redescobrir a maravilha que é degustar lentamente uma projeção sem fazer idéia do que está por vir. Entrei na sessão sem saber praticamente nada do roteiro. Deveria ser sempre assim, independente se a experiência for boa ou não. Recomendo.


Pra situar: John Constantine é o personagem mais tridimensional e idiossincrático dos quadrinhos. Nem de longe ele lembra o maniqueísmo e a correção política habitual das HQs. Grande parte de seus êxitos se deve mais a sua malandragem do que aos seus dons sobrenaturais. Mas isso não o impede de expor fraquezas de espírito tão extremas quanto a sua esperteza. Ao mesmo tempo em que mostra o dedão para um Lúcifer babando de ódio, ele foge apavorado de um "simples" serial killer sem rosto. Com o passar dos anos, sempre em contato com os três lados da natureza (o que deixaria qualquer um pirado) e colecionando inimigos no Céu, na Terra e no Inferno, Constantine se tornou uma versão decadente e dissimulada de um molde original que já não era lá essas coisas. Definitivamente, é o sujeito dos quadrinhos a quem eu escolheria pra jogar conversa fora e encher a cara num pub londrino.

A primeira surpresa na produção de Constantine (2005) foi a escalação de Keanu Reeves para viver o personagem. Com o eterno ar californian boy (apesar de ser libanês), Reeves não tem nem 1% da aura enegrecida e espirituosa de Constantine, e só está aqui devido ao seu status de segura-bilheteria pós-trilogia blockbuster. A segunda paulada na nuca dos fãs foi a mudança da naturalidade do mago e de sua localização geográfica. Saem a sua Liverpool natal e as vielas mal-assombradas de Londres, entra Los Angeles, Califórnia. E a parte mais radical da adaptação pára por aí. De resto, são apenas texturas e nuances reinterpretadas e pouco relevantes, mesmo para aqueles admiradores mais xiitas, que têm todas as edições de Hellblazer ainda no plástico.

Só lembrando que um filme não é uma HQ e, portanto, não tem as obrigações de tal - mas sim a ética de oferecer um tratamento digno da fonte.

Depois dessa sentença quase-babaca mas necessária, eu diria que Constantine tem uma premissa que é mais ou menos um greatest hits de muito do que o mago já encarou em sua cronologia quadrinhística. Bem rapidinho e sem detalhes: o filme retrata uma guerra velada entre o Céu e o Inferno, e a tentativa demoníaca de transpor as barreiras divinas para conquistar a Terra e reescrever o Apocalipse. No processo, eles esbarram em vários "intermediários", como o próprio Constantine, seu jovem aprendiz Chas (Shia LaBeouf), Papa Meia-Noite (o ótimo Djimon Hounsou, de Amistad), e em vítimas-chave, como Angela Dodson e sua irmã gêmea, Isabel (ambas interpretadas pela bela Rachel Weisz).


Se essa linha básica já soa rebuscada pra você, cultuador de Anjos Rebeldes e Advogado do Diabo, posso dar a boa notícia de que, ao longo do filme, vão pipocando informações e características bem peculiares, pra não dizer insólitas (fruto direto da autenticidade dos quadrinhos), inclusive na reta final, meio paralela ao standard hollywoodiano. Confesso que não esperava tal desenvoltura do diretor Francis Lawrence, mais um vídeo-clipeiro estreando com uma adaptação de HQ (isso já tá ficando surreal), e do roteiro de Kevin Brodbin e Frank Cappello. Mesmo com uma boa concepção para o visual do Inferno - uma metrópole em chamas - o uso do CG no design dos demônios ficou um tanto batido. Os alados ficaram idênticos ao demônio que Eddie Murphy enfrentou em O Rapto do Menino Dourado, e os rastejantes são bem parecidos com os hunters de Resident Evil. Mas eles têm sua função pré-determinada na narrativa, não influenciando picas a quantidade de pixels que os envolvem. No final, são mesmo as caracterizações humanas (e sobre-humanas) que acabam se sobressaindo.

Num lampejo de fé e boa vontade, cometeram um arcanjo Gabriel bem interessante (interpretado na medida pela inglesa Tilda Swinton). Andrógino e perigoso justamente pela sua subserviência cega ao plano divino, Gabriel trava com Constantine alguns dos melhores diálogos do filme - aquele primeiro na biblioteca foi uma maravilha que só. Outro personagem interessante é Balthazar (Gavin Rossdale), um mensageiro do Inferno com um visual clean executivo. Apesar de instigante ao influenciar negativamente sem interferir no livre-arbítrio e de manter uma concorrência meio salafrária (e não-explicada) com Constantine, ele acabou sendo pouco explorado na trama, o que é uma pena. Já Rachel Weisz está em seu auge como atriz, se destacando mesmo em um pop movie como Constantine. Segura, sempre no tom certo, desviando fácil de clichês interpretativos, e, acima de tudo, "linda como um Monet", Rachel está em franca campanha para abocanhar aquele pepino dourado que Hollywood oferece todo ano.

E Keanu. Keanu Reeves é mais um conceito ambulante do que um ator. Ele é sim um ator limitadíssimo, mas ele sabe disso. Espertamente, o cara não arrisca nenhum preciosismo, tons mais altos ou inflexões histéricas. Sua interpretação varia do discreto ao introspectivo, característica sabiamente utilizada em seus "diálogos" com grandalhões da atuação como Al Pacino, Gene Hackman e Frank Langella. Em outras palavras, Keanu não atrapalha. Mas só isso não é o suficiente para um papel como o de John Constantine, já que o mago cultiva uma personalidade bem peculiar: é arrogante, calculista, canalha e um anti-herói por profissão (e opção). Uma má companhia que desvia qualquer um do bom caminho. Tipo Marcelo Nova quando começou a andar com Raulzito.

Mas, por fim, a abordagem preocupada, tristonha e contida de Keanu acaba encontrando um elemento no roteiro como respaldo (um dos lances greatest hits que eu comentei). Além do mais, ótimas seqüências como a do exorcismo hardcore em uma menina endemoniada, logo no começo, e o profissionalismo de Constantine ao enfrentar um monstro escroto (que é a própria letra de Bichos Escrotos em live-action!) e uma revoada de demônios durante um blecaute, são diversão garantida. Dessa vez passa.

A seguir, um comentário com SPOILER. Tenha medo, tenha muito medo...

Marque o texto logo abaixo da imagem.



A medalha de prata da categoria "poderia ser melhor", infelizmente, vai para Lúcifer e seu filho. Quem é leitor assíduo das publicações do selo Vertigo, e conferiu pérolas do calibre de A Opção Estrela-da-Manhã e Cartas na Mesa, vai se decepcionar com o senhor das trevas nesse filme. Interpretado pelo excelente Peter Stormare, "Lu" acaba desperdiçado pelo roteiro, só aparecendo bem no final e se revelando nada mais do que um palhaço do inferno, quase um Coringa das profundezas. Nas graphic novels, ele é perspicaz, insidioso, estrategista, manipulador, calculista e extremamente charmoso... um tour-de-force de atitudes e emoções tão perversamente elaboradas pra levar vantagem em tudo, que só encontra paralelo na quase vilania de Constantine - não por acaso, sua única contraparte à altura. Já o "filho" de Lúcifer é uma decepcionante propaganda enganosa... poderiam ter concebido uma ameaça ainda mais hedionda do que o Tinhoso, mas, fora a possessão no rapaz chicano e a azia cavernosa que ele dá na personagem de Rachel Weisz, em nenhum momento ele mostra sua cara feia. Pena.

É visível que o filme se preocupa em estabelecer uma conexão mais íntima com o material das HQs. Basta observar que a história não é entregue de bandeja ao público mais preguiçoso e que o próprio Constantine não é banalizado como um bastião na "luta entre o Bem e o Mal". E ainda por cima, conseguiu decodificar o contexto dos quadrinhos para uma linguagem bem mais acessível, sem maiores traumas e sem perder aquela verve tétrica da narrativa. Constantine acaba virando a mesa sobre os pessimistas de plantão (ó eu lá) e se firmando como um lugar-comum agradável para gregos e troianos - ou para fanboys fundamentalistas e o publiquinho fã do final de O Sexto Sentido.

Nesses tempos em que os estúdios são tentados (por Lúcifer?) a descaracterizar totalmente os personagens de HQs em suas adaptações para o cinema, acredite... isso é uma virtude e tanto.

E aos detratores... com a palavra, o próprio John Constantine.



dogg terminou de escrever esse texto ao som de Sympathy For The Devil - a aventura demoníaca de Mick Jagger à base de samba (palavras do próprio). Eu hein... mangalô-pédepato-trêsvezes... :P

sexta-feira, 14 de janeiro de 2005

AINDA BEM QUE NÃO LEMBRARAM DO FANTASTICARRO


Johnny Storm dando uma de Johnny Blaze


Os melhores 20 segundos do ano, até agora (perdendo só para os deliciosos 56 segundos do selinho na Elektra...). Diferente da patrulhinha modista que ronda por aí, vi no spot do trailer (cacete... spot do trailer... falta mais o quê agora... resumo do teaser?) tudo o que o Quarteto Fantástico representou para as HQs em mais de 40 anos de história: muita ação, aventura, bom-humor, diversão-família e... poderes fantásticos (ahem). A única abordagem mais diferente que eu notei foi a intensa exploração da mídia em cima da equipe, o que sincroniza os personagens com o que andam fazendo atualmente nas HQs, mais notadamente na versão Ultimate e no tom pop de Mark Waid (a histeria acabou me lembrando um pouco o X-Tatics).


O nome de Tim Story nos créditos não me agrada muito, mas, à primeira vista, ele resolveu apostar na simplicidade narrativa das histórias do Quarteto. Nada de muita responsa. O Senhor Fantástico se estica numa ação reflexa, Dr. Destino dispara raios (bem à Conde Dookan, em SW: AdC) pra cima da Mulher-Invisível, que rebate com seu campo de força, e a grande estrela do (sub-) trailer, o Tocha Humana, rasga o céu de fora a fora, e se esquiva de um míssil. Mal posso esperar pelo trailer inteiro (isso é que é se contentar com pouco!).



Agora um alô para os exigentes fanboys (os da patrulhinha) que andam reclamando do Coisa. As contra-missivas criticam a textura da sua pele petrificada (tsc, papo de fanboy mesmo) e da baixa estatura do personagem. Segundo os detratores, o Coisa do filme tomou pra si a naniquez que faltou no Wolverine de Hugh Jackman. Bobagem (ns). Nos primórdios, a pele do Coisa era formada por uma camada epidérmica que parecia rocha vulcânica, não por aquelas placas de pedra que estamos acostumados. Ele também não era o caminhão-tanque que é hoje. Era mais atarracado e um pouco mais alto que uma pessoa normal. Só anos mais tarde que ele adquiriu o visual clássico.

Não sei se foi intencional, mas achei uma opção de design extremamente feliz, comparável à um Hulk cinza nas telonas. Ele pode desenvolver seu aspecto no futuro, até chegar ao shape atual. Para ilustrar melhor, confiram a capa de Marvel Two-in-One #50, que já foi publicada no Brasil, mas não me perguntem onde. Na história, o Coisa volta ao passado até o tempo em que haviam poucos meses desde a sua transformação. O objetivo era "se convencer" a ingerir uma fórmula que o faria humano novamente (ela só funcionava se fosse no início). Daí ele enfrenta sérios problemas com a sua contra-parte do passado. Naquela época, ele vivia enraivecido, amargurado e fisicamente muito diferente, bem mais deformado pela mutação cósmica - e igualzinho ao filme. Cara, rola um porradêro dos bons, vale conferir.

Clique na imagem para ampliar a capa.


Esse dedo não é meu não


Isso posto, vamos mudar os discursos aborrecidos e elogiar a fidelidade ao original... conhecimento de causa é isso aí. O filme pode até ser podrão (não creio), mas que o Coisa ficou muito bom, isso ficou. Nas ótimas cenas em que ele entra em ação (porrando o caminhão e sendo atingido por uma rajada de energia), dá pra perceber uma articulação pra lá de satisfatória. Melhor que o Coisa do Roger Corman... :P


"O HORROR... O HORROR..."


"Ela fica sabendo o que são recorporações... qual é o rio negro, para onde ele se dirige... por que os pássaros mortos se movem... e quem está olhando pelos olhos de seu marido. O cheiro. O fétido cheiro de formigas queimadas esbofeteia a mente de Abby e seus joelhos se dobram ante tamanha força. O nome dele... uma assinatura redigida em ácido... Então ela pensa, 'há quanto tempo estive casada com'... 'quantas vezes nós'... Agora Abigail sabe o que é a coisa ruim e de onde vem o fedor. Vem de si mesma... e ela não consegue se livrar da contaminação... nem queimá-la... abafá-la com perfume... ou raspá-la da pele. Seus sonhos são nojentos e intoleráveis... e seu despertar não é um alívio."

Parece Augusto dos Anjos.

Poesia dark, beleza tétrica, junkie trip gótica. Isso é Alan Moore, sem gelo e batido, não mexido. O Senhor do Caos criou o link definitivo para pesadelos claustrofóbicos através da escrita. Moore elevou as artes ocultas (horror, guri) para um patamar que o gênero sempre almejou. Embora seja difícil traçar um paralelo, foi no horror que Moore mais se encontrou à vontade (o que não o impediu de conceber clássicos em outras linhas narrativas). Infelizmente, em sua mídia mais efetiva - a 7ª arte - o gênero não conseguiu decodificar esse mosaico de humanidade caótica que é Alan Moore escrevendo um conto de terror - ainda que eu tenha apreciado a adaptação de Do Inferno.

A edição #6 da velha Super Powers só atesta o que eu já escrevi sobre essa revista, certa vez. Não negando sua condição de arremedo de Grandes Heróis Marvel, os editores se contentaram em usá-la para finalizar sagas e atualizar a cronologia defasada de certos personagens - como o Monstro do Pântano. Esse arco foi publicado originalmente em The Saga Of The Swamp Thing, do #29 ao #31, e já foi levada ao ar pelo poderoso gRAlactus, mas em condições bem precárias. Resolvi então reescanear essa pérola, com o miraculoso auxílio do Photo "o-melhor-amigo-das-playmates" Shop.

Scans by: doggma

Clique aqui para baixar o arquivo "rar-eado" ou clique 70 vezes aí embaixo.

01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 64 65 66 67 68 69 70


dogg, curtindo muito tudo isso... ouvindo um show do Robbie Williams com a Kylie Minogue... juro que é verdade. A Kylie vyle o sacrifício.