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quinta-feira, 26 de maio de 2016

Entre o portador da luz e o dragão


"A Blade of Grass" é uma catarse performática que, com bem pouco exagero, remete instintivamente ao grande William Friedkin. Não o grande Friedkin de O Exorcista ᵖˢ, mas o grande Friedkin do escalafobético Possuídos (Bug, 2006). Pelo bem da regularidade sequencial, a química entre a parisiense Eva Green e o londrino Rory Kinnear não é tão transgressora e agressora quanto a dos yankees Ashley Judd e Michael Shannon, porém... porém... soa igualmente profunda enquanto experiência. O que talvez seja até mais complexo do que enfiar o pé na jaca de uma vez.

Esperto, o diretor Toa Fraser apenas ligou a câmera e colocou as duas usinas de força dramática num set mínimo. O resultado, claro, é um espetáculo soberbo para aplaudir de pé. Mais um.

Imperdoável nunca ter mencionado Penny Dreadful por aqui. Criada pelo produtor e roteirista californiano John Logan, essa Liga Extraordinária dos sonhos está em sua 3ª temporada pelo Showtime e mantendo uma proficiência assustadora. Habitué em grandes produções, Logan tem na série sua investida mais autoral - por ironia, reminiscente das obras do mago de Northampton - e escreve todos os episódios, prática incomum nesse meio de showrunners e screenwriters.

Isso ajuda a conferir uma unidade invejável ao conjunto, além de nivelar tudo por cima. Não há episódios ruins em Penny Dreadful. Menos ainda atuações ruins.


Mas voltando ao capítulo #4 dessa graphic novel em movimento: é o atestado definitivo que mesmo apresentando visões controversas da cultura pop secular a série extrai delas uma poesia irresistível. Dessa vez, a relação íntima entre Lúcifer e o grande protagonista de Bram Stoker foi uma revelação deveras acachapante. E, à primeira digerida, bastante discutível. Por questões de hierarquia mesmo.

Mas numa segunda revisão, logo me veio à mente a graphic Eu Sou Legião, de Fabien Nury, e sua proposta de uma entidade ancestral puxando as cordas no palco mundano desde tempos imemoriais. O famoso Empalador não foi o início e sim apenas mais um veículo.

Promissor e ainda resolve magicamente as coisas na cadeia alimentar inferno-Terra. Graças a Deus.

Ps: ei, mas espera aí... o Friedkin de O Exorcista também, espetacularmente!

terça-feira, 6 de junho de 2006

VANITY FAIR


"Behold! I send you out as sheep amidst the wolves"

Nada mais propício que um 6/6/6 para falar sobre as maravilhas que só o capeta pode proporcionar. O assunto é vasto! Poderia brincar com aforismos sobre fim do mundo: guerras do "demônio" do leste contra o oeste que provocariam o Apocalipse, o nascimento do anticristo, enfim, um seis de junho de 2006 seria estímulo para abordar muita coisa que já foi feita com o tema, mas também tornaria tudo muito disperso. Então preferi dar uma olhada mais atenta na abordagem que mais me impressionou até hoje, a ponto de perceber que The World's Worst Issues não tem nada a ver com o décimo oitavo anjo.

Até gostaria de falar sobe A Profecia (se tivesse visto), mas, em se tratando do anjo caído e assuntos afins, fico logo com a caracterização que julgo mais perfeita e adequada àquilo que imagino que seria sua persona. Advogado do Diabo (Devil's Advocate, 1997) é daqueles filmes que ficam fácil no meu top ten. Considero-o perfeito em todas as suas possibilidades, inclusive (e talvez principalmente) nos defeitos. Irônico, pois o texto de hoje escolheu um filme que passa ao largo do terror, gênero onde o cramulhão é habituée, e refugia-se em uma mistura de suspense e, sei lá, drama? Os americanos têm uma categoria ótima para este caso: thriller. Designação apropriada para aquilo que é ao mesmo tempo terror, suspense, drama, ficção e, por outro lado, não é nada disto. É o tipo de filme que te estimula, excita, deixa apreensivo, enfim... it thrills you. Simples assim. Curioso como algo banal como a classificação de um filme torna-se complicada ou "desencaixada" quando tentamos enquadrá-lo em categorias cartesianas, racionalmente criadas, e torna-se a coisa mais simples do mundo quando o classificamos segundo um critério emocional, passional, de acordo com o que sentimos enquanto o assistimos.

O filme acerta até na escolha do título. As duas palavras da versão original conseguem, numa tacada só, ser a sinopse, o tema e a matriz do filme; além de, por mais óbvio que seja (e tudo sempre é óbvio depois que é feito), compor um trocadilho perfeito e espirituoso como poucos. Difícil alguém não ter visto, mas somos apresentados a Kevin Lomax, jovem advogado de uma cidade do interior que nunca perdeu um caso na vida, mesmo que não acredite na inocência das pessoas que defende. Seu desempenho chama a atenção de um dos maiores escritórios de advocacia de Nova Iorque que o convida a fazer parte de sua equipe. A possibilidades de independência financeira e realização profissional convencem o jovem advogado que, ao chegar à cidade grande, passa a conviver com o presidente do escritório, John Milton, um envolvente advogado que atua em todo o globo e cuja presença magnetiza o ambiente. Não sei se estaria sendo injusto com Scarface e outras obras que sempre surgem na memória quando falam no nome de Al Pacino, mas o que ele faz com John Milton é literalmente demoníaco. Já ouvi por aí que um bom ator destaca-se em suas falas, mas atores excepcionais destacam-se em seus silêncios. Se esta frase fosse um verbete de um dicionário qualquer, ao lado teria a foto de Pacino em Advogado do Diabo. De preferência na cena da igreja, onde, num olhar só, é capaz de passar desprezo, sarcasmo, orgulho, vaidade e a mais perfeita "filhadaputicidade" que já vi por aí. Costuma-se dizer que o demo possui pessoas, incorpora, coisa e tal. Se for verdade, Belzebu deve estar revoltado, pois Pacino o possuiu, incorporou e chamou de minha nega! E pensar que o próprio Al achou que não estaria à altura do papel. Graças a Deus Pacino foi o Capeta.


Sua encarnação do demônio é, paradoxalmente, das mais simples que já vi. Alguns discordariam. Diriam que é dos mais complexos, que a lógica pela qual funciona não é a do maniqueísmo barato que povoa 90% das obras do gênero, que flutua nos tons de cinza da existência ao invés de sentar-se confortavelmente no trono do lado negro, que aqui adquire tridimensionalidade ímpar, dificilmente percebida em outras obras. Concordo com tudo, mas vejo que esta complexidade só existe se tentarmos ver o filme com a mesma característica cartesiana que torna difícil classificá-lo segundo o gênero. John Milton não deve ser entendido. Há que ser absorvido. Tudo aquilo que acima seria usado para dar a dimensão de um personagem complexo, ouso tomar como argumentos para mostrá-lo como simples ao extremo. Ele não pensa no que faz, deixa que o rio tome seu curso, que as coisas aconteçam como têm que acontecer, por mais que pareça o inverso. Vive em meio ao povo, só anda de metrô e faz da verdade sua maior arma. Simples assim².


Deixe-me dar algumas informações privilegiadas sobre Deus. Deus gosta de
assistir. É um pervertido. Pense nisto. Ele dá ao homem instintos.
Ele lhes dá este dom extraordinário e então o que Ele faz?
Eu juro; pela Sua própria diversão, pela Sua própria e
íntima piada cósmica, Ele estabelece as regras em oposição!
É a maior sacanagem de todos os tempos! Olhe! Mas não toque. Toque,
mas não prove! Prove, mas não engula. Hahahaha… e enquanto
você fica pulando de um pé para o outro, o que Ele está
fazendo? Ele está gargalhando! Ele é um sádico! Um senhorio ausente! Venerar a isto? NUNCA!!


A genialidade do filme te impede de dizer até mesmo que o demônio é mau. Mesmo quando retrata o significado das mulheres para o capeta, a despeito dos exageros de proporções bíblicas dos relatos do Al Satanás, não é diferente das posturas machistas de outrora, mas que ainda hoje perduram aqui e ali, onde o homem fala o que a mulher espera ouvir para conseguir o que quer e apenas o que quer. Claro, o que Charlize Theron (em começo de carreira e já ótima) sofre deliberadamente é um absurdo, mas a pedra fundamental de seu sofrimento, seu marido, não faz nada que tenha sido obrigado e ainda ajuda a tacar umas pás de cal. E ele faz isto porque quer. Em nenhum momento Milton usa de artifícios sobrenaturais para fazer com que Kevin Lomax tome as decisões que toma. Vemos o caos crescendo inexorável e puramente devido aos defeitos daquele que fora feito à imagem do criador. O diabo chega ao cúmulo de ser "bonzinho", propõe o porto seguro para Lomax – insiste na proposta – e mesmo assim ele falha, a vaidade mete o pé na porta com tudo! Toma conta dos eventos. Impressiona.


Não temo estar revelando spoilers quando menciono o capeta, pois, por mais que o fato só venha a ser revelado lá pelo final, é o tipo de verdade daquelas que todos sabem, como inconsciente coletivo, antes mesmo de começar o filme. Nem acho tampouco que esta seja a grande questão da obra.


"Melhor reinar no inferno do que servir no Céu"
________________________Kevin Lomax, citando Paraíso Perdido, de John Milton, o autor


Lá no começo eu disse que o filme acerta até nos seus erros. Pois é... 15 entre 10 pessoas acham Keanu Reeves uma porta. Um boneco de Olinda tem mais presença dramática do que ele. O cara que fez Cigano Igor o usou como meta no seu "laboratório" para composição de personagem. Entretanto, não vejo outra pessoa para ser Kevin Lomax. A opção inicial era Brad Pitt, depois John Cusack e Edward Norton, mas estes são muito mais atores que Reeves. Entendo o seguinte, Lomax não poderia ser interpretado por alguém brilhante. Ele tinha que ser falho. Legitimamente falho. Aliás... ser falho e ser escada. E isso é com ele mesmo. Afinal, John Milton é um personagem cuja verborragia inebria, o tempo inteiro incendeia as sensações com suas interpretações do homem e do cotidiano. Poucas vezes um filme teve tantas frases de efeito. Não é nem uma questão apenas de quantidade, mas principalmente de significado. Tantas frases que dá vontade de decorar e falar por aí de vez em quando. E não são soltas, gratuitas, pois todas se encaixam: usam de elementos alegóricos como céu, inferno e diabo para passar a mensagem básica de que, se as coisas não dão certo, não há nenhuma questão sobrenatural a atribuir culpa senão à própria natureza humana. Perceba que neste post reforço bastante que o filme se faz presente muito mais pela naturalidade do que se sente do que pela frieza do que se pensa.


Por mais que tenha o demônio como seu protagonista, a projeção é idônea. Nada mais natural do que representar os princípios torcidos da justiça do que ver o emissário do inferno como um advogado. Afinal, o advogado observa a lei, não faz justiça. O discurso final é suficientemente bem articulado para ser aplicado tanto a favor de Deus quanto do Diabo. Ninguém pode chegar e dizer que aquilo passa ao largo da verdade. Aqueles que desmerecem religiões podem usá-lo para defender ainda mais seus pontos de vista, da mesma forma que os defensores da fé podem usá-lo exatamente para dar mais força ao que acreditam. No fundo, o que sobra é a responsabilidade de cada um com seu meio e o que fazem com o tal do livre-arbítrio. Os argumentos do personagem de Reeves na defesa de seus clientes eram factuais, mas nem por isto justos. E certamente muito mais tendenciosos que os do próprio Milton.


"Free will. It's like butterfly wings: once touched, they never get off the ground.
No, I only set the stage. You pull your own strings. Free will, it is a bitch!"


Há filmes que, com o tempo, passam a gozar de mais prestígio. Que na época de seu lançamento, sabe-se lá o porquê, tiveram recepção aquém do que era esperado. Advogado é um destes. Ainda hoje não vejo o senso comum o colocando no panteão daquelas obras inabaláveis. Seu diretor, Taylor Hackford, continua desconhecido – era uma versão cinematográfica de one hit band até fazer Ray, filme que vingou muito mais por Jamie Foxx e seu Oscar do que propriamente pela qualidade de roteiro. Claro, teve filmes interessantes no passado, mas nada que chame atenção. Há que se destacar aqui suas opções técnicas para ênfase de elementos necessários, ou metáforas e citações presentes o suficiente para serem notados sem tornarem-se pseudo-personagens. Hackford destaca-se, por exemplo, ao mostrar como a tentação leva o homem ao limite, quando Milton conversa com Lomax no beiral da "varanda" de seu escritório, ou na representação do purgatório em relevo decorando a casa do demônio - dantesco -, onde ele não dorme e "fode todos em todo lugar". Até sincero este demônio se dá ao luxo de ser. Não sei e não creio que tenha sido intencional, mas Pacino não é exatamente um modelo de beleza e é baixinho, o que faz com os outros atores sempre o olhem de cima para baixo: "Underestimated from day one! You'd never think I was a master of the universe now, would ya?"

Sempre quis escrever sobre Advogado do Diabo, mas não é velho o suficiente para abordar como algo bom de antigamente nem novo o bastante para contribuir na avaliação de um lançamento. Só que em 1997 não existiam blogs e, se não aproveitasse o 6/6/6, teria que esperar mais 1000 anos para outra deixa.


"Vanity, definitely my favorite sin!"

domingo, 13 de março de 2005

MAGOS, TRAPAÇAS & MIL CIGARROS FUMEGANTES


Em um mundo perfeito, um filme sobre John Constantine teria o Mickey Rourke fase 1981/1990 no papel principal. Aliás, não só o Mickey, mas também um diretor refinado e criador de atmosferas tensas, como Alan Parker, comandando a desconstrução de uma saga gótica pontuada por uma inevitável, mas inesperada, redenção. E um ator austero e obsessivo, imerso em um oceano de introspecção e obscuridade, tal qual Robert De Niro quando resolve ser a Encarnação do Mal. Enfim, tirando uma coisinha aqui e adaptando outra acolá, acho mesmo que o filme Coração Satânico daria uma bela adaptação cinematográfica do mago inglês.

Isso sim seria sonhar com o impossível...


...ao contrário da possibilidade de Gordon Matthew Sumner, o Sting, interpretar o personagem. Além de ser a base que ajudou Alan Moore a captar o espírito de Constantine (e de uma forma ainda mais intensa do que a idealização Rutger Hauer/Lestat de Anne Rice), Sting está por aí, vivinho da silva, com aquela mesma expressão enigmática e, acima de tudo, ainda um bom ator, como sempre foi - vide o seu Barão Frankenstein no belo A Prometida, e, claro, sua pequena e ótima participação em Jogos, Trapaças & Dois Canos Fumegantes.

...sem contar que ele foi o líder do Police, uma boa banda... mas vamos parar de viajar e trabalhar com o que temos. :)

Sabe, talvez seja melhor você não ler o resto se ainda não assistiu ao filme. Não que eu vá revelar algum spoiler sem avisar antes, não mesmo... mas é que fiquei muito feliz ao redescobrir a maravilha que é degustar lentamente uma projeção sem fazer idéia do que está por vir. Entrei na sessão sem saber praticamente nada do roteiro. Deveria ser sempre assim, independente se a experiência for boa ou não. Recomendo.


Pra situar: John Constantine é o personagem mais tridimensional e idiossincrático dos quadrinhos. Nem de longe ele lembra o maniqueísmo e a correção política habitual das HQs. Grande parte de seus êxitos se deve mais a sua malandragem do que aos seus dons sobrenaturais. Mas isso não o impede de expor fraquezas de espírito tão extremas quanto a sua esperteza. Ao mesmo tempo em que mostra o dedão para um Lúcifer babando de ódio, ele foge apavorado de um "simples" serial killer sem rosto. Com o passar dos anos, sempre em contato com os três lados da natureza (o que deixaria qualquer um pirado) e colecionando inimigos no Céu, na Terra e no Inferno, Constantine se tornou uma versão decadente e dissimulada de um molde original que já não era lá essas coisas. Definitivamente, é o sujeito dos quadrinhos a quem eu escolheria pra jogar conversa fora e encher a cara num pub londrino.

A primeira surpresa na produção de Constantine (2005) foi a escalação de Keanu Reeves para viver o personagem. Com o eterno ar californian boy (apesar de ser libanês), Reeves não tem nem 1% da aura enegrecida e espirituosa de Constantine, e só está aqui devido ao seu status de segura-bilheteria pós-trilogia blockbuster. A segunda paulada na nuca dos fãs foi a mudança da naturalidade do mago e de sua localização geográfica. Saem a sua Liverpool natal e as vielas mal-assombradas de Londres, entra Los Angeles, Califórnia. E a parte mais radical da adaptação pára por aí. De resto, são apenas texturas e nuances reinterpretadas e pouco relevantes, mesmo para aqueles admiradores mais xiitas, que têm todas as edições de Hellblazer ainda no plástico.

Só lembrando que um filme não é uma HQ e, portanto, não tem as obrigações de tal - mas sim a ética de oferecer um tratamento digno da fonte.

Depois dessa sentença quase-babaca mas necessária, eu diria que Constantine tem uma premissa que é mais ou menos um greatest hits de muito do que o mago já encarou em sua cronologia quadrinhística. Bem rapidinho e sem detalhes: o filme retrata uma guerra velada entre o Céu e o Inferno, e a tentativa demoníaca de transpor as barreiras divinas para conquistar a Terra e reescrever o Apocalipse. No processo, eles esbarram em vários "intermediários", como o próprio Constantine, seu jovem aprendiz Chas (Shia LaBeouf), Papa Meia-Noite (o ótimo Djimon Hounsou, de Amistad), e em vítimas-chave, como Angela Dodson e sua irmã gêmea, Isabel (ambas interpretadas pela bela Rachel Weisz).


Se essa linha básica já soa rebuscada pra você, cultuador de Anjos Rebeldes e Advogado do Diabo, posso dar a boa notícia de que, ao longo do filme, vão pipocando informações e características bem peculiares, pra não dizer insólitas (fruto direto da autenticidade dos quadrinhos), inclusive na reta final, meio paralela ao standard hollywoodiano. Confesso que não esperava tal desenvoltura do diretor Francis Lawrence, mais um vídeo-clipeiro estreando com uma adaptação de HQ (isso já tá ficando surreal), e do roteiro de Kevin Brodbin e Frank Cappello. Mesmo com uma boa concepção para o visual do Inferno - uma metrópole em chamas - o uso do CG no design dos demônios ficou um tanto batido. Os alados ficaram idênticos ao demônio que Eddie Murphy enfrentou em O Rapto do Menino Dourado, e os rastejantes são bem parecidos com os hunters de Resident Evil. Mas eles têm sua função pré-determinada na narrativa, não influenciando picas a quantidade de pixels que os envolvem. No final, são mesmo as caracterizações humanas (e sobre-humanas) que acabam se sobressaindo.

Num lampejo de fé e boa vontade, cometeram um arcanjo Gabriel bem interessante (interpretado na medida pela inglesa Tilda Swinton). Andrógino e perigoso justamente pela sua subserviência cega ao plano divino, Gabriel trava com Constantine alguns dos melhores diálogos do filme - aquele primeiro na biblioteca foi uma maravilha que só. Outro personagem interessante é Balthazar (Gavin Rossdale), um mensageiro do Inferno com um visual clean executivo. Apesar de instigante ao influenciar negativamente sem interferir no livre-arbítrio e de manter uma concorrência meio salafrária (e não-explicada) com Constantine, ele acabou sendo pouco explorado na trama, o que é uma pena. Já Rachel Weisz está em seu auge como atriz, se destacando mesmo em um pop movie como Constantine. Segura, sempre no tom certo, desviando fácil de clichês interpretativos, e, acima de tudo, "linda como um Monet", Rachel está em franca campanha para abocanhar aquele pepino dourado que Hollywood oferece todo ano.

E Keanu. Keanu Reeves é mais um conceito ambulante do que um ator. Ele é sim um ator limitadíssimo, mas ele sabe disso. Espertamente, o cara não arrisca nenhum preciosismo, tons mais altos ou inflexões histéricas. Sua interpretação varia do discreto ao introspectivo, característica sabiamente utilizada em seus "diálogos" com grandalhões da atuação como Al Pacino, Gene Hackman e Frank Langella. Em outras palavras, Keanu não atrapalha. Mas só isso não é o suficiente para um papel como o de John Constantine, já que o mago cultiva uma personalidade bem peculiar: é arrogante, calculista, canalha e um anti-herói por profissão (e opção). Uma má companhia que desvia qualquer um do bom caminho. Tipo Marcelo Nova quando começou a andar com Raulzito.

Mas, por fim, a abordagem preocupada, tristonha e contida de Keanu acaba encontrando um elemento no roteiro como respaldo (um dos lances greatest hits que eu comentei). Além do mais, ótimas seqüências como a do exorcismo hardcore em uma menina endemoniada, logo no começo, e o profissionalismo de Constantine ao enfrentar um monstro escroto (que é a própria letra de Bichos Escrotos em live-action!) e uma revoada de demônios durante um blecaute, são diversão garantida. Dessa vez passa.

A seguir, um comentário com SPOILER. Tenha medo, tenha muito medo...

Marque o texto logo abaixo da imagem.



A medalha de prata da categoria "poderia ser melhor", infelizmente, vai para Lúcifer e seu filho. Quem é leitor assíduo das publicações do selo Vertigo, e conferiu pérolas do calibre de A Opção Estrela-da-Manhã e Cartas na Mesa, vai se decepcionar com o senhor das trevas nesse filme. Interpretado pelo excelente Peter Stormare, "Lu" acaba desperdiçado pelo roteiro, só aparecendo bem no final e se revelando nada mais do que um palhaço do inferno, quase um Coringa das profundezas. Nas graphic novels, ele é perspicaz, insidioso, estrategista, manipulador, calculista e extremamente charmoso... um tour-de-force de atitudes e emoções tão perversamente elaboradas pra levar vantagem em tudo, que só encontra paralelo na quase vilania de Constantine - não por acaso, sua única contraparte à altura. Já o "filho" de Lúcifer é uma decepcionante propaganda enganosa... poderiam ter concebido uma ameaça ainda mais hedionda do que o Tinhoso, mas, fora a possessão no rapaz chicano e a azia cavernosa que ele dá na personagem de Rachel Weisz, em nenhum momento ele mostra sua cara feia. Pena.

É visível que o filme se preocupa em estabelecer uma conexão mais íntima com o material das HQs. Basta observar que a história não é entregue de bandeja ao público mais preguiçoso e que o próprio Constantine não é banalizado como um bastião na "luta entre o Bem e o Mal". E ainda por cima, conseguiu decodificar o contexto dos quadrinhos para uma linguagem bem mais acessível, sem maiores traumas e sem perder aquela verve tétrica da narrativa. Constantine acaba virando a mesa sobre os pessimistas de plantão (ó eu lá) e se firmando como um lugar-comum agradável para gregos e troianos - ou para fanboys fundamentalistas e o publiquinho fã do final de O Sexto Sentido.

Nesses tempos em que os estúdios são tentados (por Lúcifer?) a descaracterizar totalmente os personagens de HQs em suas adaptações para o cinema, acredite... isso é uma virtude e tanto.

E aos detratores... com a palavra, o próprio John Constantine.



dogg terminou de escrever esse texto ao som de Sympathy For The Devil - a aventura demoníaca de Mick Jagger à base de samba (palavras do próprio). Eu hein... mangalô-pédepato-trêsvezes... :P

domingo, 15 de agosto de 2004

TUDO QUE IRENE ADLER QUERIA


Anos 60? Woodstock? Timothy Leary? Alguém...?

Só dia desses que fui ler Lúcifer - Cartas na Mesa, e o fiz em uma só tacada (3 edições). A história é daquele tipo em que não se consegue parar de ler até chegar ao fim. Leitura imprescindível tanto para seguidores veteranos de Neil Gaiman, quanto para iniciantes nesse mundo de conto de fadas punk.

O argumento surreal de Mike Carey e o belo traço de Chris Weston não deixam nada a dever aos melhores momentos da vida quadrinhística do personagem Lúcifer. Esse, aliás, é uma das personas mais bem-construídas das HQs, nível John Constantine. O cara é (muito) sacana, cruelmente humano (!), e carrega consigo toneladas de perspicácia, astúcia, lucidez e... timing. Sim, Lúcifer tem muito, muito timing. Ele só influi ou aparece na história de forma estritamente estratégica. Enfim, Lúcifer é o capeta.

Bem, leiam as revistas, pois estas merecem a sua valiosa atenção (inclusive a edição #4, que traz uma história genial chamada Nascida com os Mortos).


Essa cena lembra o clip de Sowing the Seeds of Love, do T4F

Originalmente eu ia comentar apenas sobre uma seqüência em particular: a da vingança. Em determinado momento, uma das personagens, Jill Presto, adquire poder para acessar e reposicionar todos os acontecimentos do passado e do futuro de qualquer pessoa (muito bem sacado). E, como não poderia deixar de ser, existem algumas pessoas que "merecem pagar pelo que fizeram".

Achei bem legais as possibilidades desse "poder existencialista" no plano físico. É filosofia em briga de bar. Saca só então, a vingança:


Clique na imagem

Como diria Jello Biafra: Nazi Punks... FUCK OFF!!



Operação Resgate:Quando o Texas era mais do que petróleo e dinastia Bush.


PANTERA
(1990-1997)


Os caras: Philip Anselmo (vocal), Dimebag Darrell (guitarra), Rex Brown (baixo) e Vinnie Paul (bateria).


Os discos: Cowboys from Hell (1990), Vulgar Display of Power (1992), Far Beyond Driven (1994), The Great Southern Trendkill (1996) e Official Live: 101 Proof (1997).

Foram 5 bombas nucleares despejadas no cenário musical ao longo da década de 90. O Pantera fez muito barulho, incomodou, e chegou naquele ponto em que parecia estar em vários lugares ao mesmo tempo, tamanho era o seu sucesso na época. Foram recordes e mais recordes quebrados, todos em seqüência. Mas se eu tivesse que destacar um momento em especial, eu diria que foi a estréia do álbum Vulgar Display of Power, direto em 1º lugar na parada da Billboard. Foi a primeira vez que um grupo de metal extremo alcançou tal feito, e isso arregaçou as portas do mainstream para o quarteto texano. O Pantera foi uma banda que atingiu um incrível sucesso. Incrível mesmo, seus discos venderam muito, sempre na casa dos 7 dígitos. Poderiam tranqüilamente se aposentar e ter uma casa de praia em algum país da América do Sul. Curiosamente, isso só foi acontecer após eles adotarem um estilo bem mais anti-comercial.

Desde a produção, com a bateria seca, baixo inaudível e as guitarras lá na frente, até a sua temática unidimensional (vio-vio-vio-violeeeennnce!), tudo conspirava para uma longa e produtiva vida no underground. Talvez, justamente por essa simplicidade franciscana, aliada à uma técnica instrumental irrepreensível (mas, sabiamente, sem se prestar como fator de destaque, ao contrário de bandas como Dream Theater e afins), e influências naturais de Metallica circa ...And Justice for All e Sepultura fase Arise, possa ser isolada aí aquela característica que costumamos chamar de "identidade". Por outro lado, a banda jamais perdeu aquele senso melódico, ahn, poser, que era justamente a matéria prima utilizada em álbuns pré-Cowboys. O Pantera nessa época era poser. Mas poser com força mesmo. É até surreal ver hoje alguma foto antiga do machão Dimebag, atolado em maquiagem e com aquele corte de cabelo empinado à Vince Neil, do Motley Crüe.

Muito provavelmente, seu sucesso avassalador (para os padrões do metal extremo) possa encontrar uma explicação definitiva na postura e nas letras transbordantes de ódio e individualismo. Isso, em um país como os EUA, encontra um grande respaldo por parte de um público viciado em raiva, frustração e medo. Catarses via MTV costumam funcionar muito bem por lá, e não foi só com o Pantera não.

Aspectos dicotômicos à parte, musicalmente, o Pantera foi um achado. Seu background hard rock fracassado foi quase que totalmente limado a favor de uma sonoridade metálica, carregada de influências do velho crossover oitentista (D.R.I., G.B.H., S.O.D., etc.) e um talento nato para riffs simples e certeiros - com certeza adquiridos em seus anos de laquê.


Considero que a primeira manobra de 90° na carreira do Pantera foi no Cowboys from Hell, que é o tipo do disco que agrada. É cheio de ganchos, mas sem se render à facilidade pop. Pesado, mas sem sair dos trilhos. É só ouvir belezinhas como Primal Concrete Sledge, Psycho Holiday, Heresy e a faixa-título pra você se convencer de que pode ouvir Pantera no volume 10 sem estranhar (ou se importar). Além de trazer também a magnífica Cemetery Gates, uma balada pesada com um riff tão marcante que nem o Professor X conseguiria tirar da cabeça.

Outro ponto interessante é que, com Cowboys, a banda arrebanhou legiões de fãs provindos das mais diversas tribos, de headbangers e punks até o consumidor padrão de produtos MTV, repetindo dessa forma a mesma comoção de 1983, quando o Metallica estreou com o clássico Kill'Em All.


Cowboys também foi uma excelente preparação para um dos álbuns mais singulares desse boteco chamado ROCK: Vulgar Display of Power mudou as regras das gravadoras e fez a cachoeira cair pra cima. De repente, todo mundo começava a soar como o Pantera, tanto veteranos (Overkill, Fight, do Rob Halford, e Paul Di'Anno, ex-Iron) quanto novatos (Machine Head, Misery Loves Co., Madball). Sabem aqueles discos que atingem a perfeição no que diz respeito à proposta da banda? Nos anos 90 tivemos bastante desses (pretendo comentar sobre cada um, se eu não morrer antes), e Vulgar Display of Power foi a vez do Pantera. Esse disco é daqueles em que o som se remodela conforme o volume, igual aos clássicos do AC/DC, Motörhead e Ramones. Portanto, Vulgar... só no talo.

Não há nenhum destaque específico, pois todas são a medula óssea da banda. Técnica discretamente elegante, fúria aos borbotões, viagens à base de arpejos guitarrísticos, riffs assassinos... e esse nem é o mais pesado da discografia deles. Só É o Pantera, no seu mais sincero. Para registro: Mouth For War é uma das músicas de abertura mais contundentes da História.


Ao que chegamos à porradaria cavalar de Far Beyond Driven, um disco ainda mais minimalista e experimental. A guitarra de Dimebag aqui é o destaque, e ele maltrata a coitada: distorções com o pé cravado no pedal, apitos, reverbers insandecidos e puro ruído atonal dão o tom (trocadilho sem-noção).

Pedradas boas para se ouvir durante uma revolução: Becoming, a ultra-cool 5 Minutes Alone, I'm Broken (metal playboy, ótima pra ouvir no carro), Good Friends and a Bottle of a Pills, Slaughtered e 25 Years. Far Beyond Driven também inaugura a Era das Aberturas-Avalanche: logo de cara, Strenght Beyond Strenght implode os auto-falantes e twiters dos desavisados que esqueceram o som no volume máximo. Música para despertar (e voltar a dormir só no ano que vem).

De quebra, ainda tem o cover viajante de Planet Caravan (do Black Sabbath), que cairia muito bem em um lual com um pessoalzinho na faixa e algumas substâncias. É o Pantera a serviço dos fãs.


The Great Southern Trendkill, ou "O Grande Assassino Sulista de Modismos", traz o Pantera em sua profissão de fé, ainda com a mesma sonoridade, e já ultrapassando o punk melódico e o finado grunge.

Musicalmente, parece ter saído das sessões do disco anterior, apesar de conter momentos mais introspectivos, como 10's, Suicide Note Pt. 1 e Floods (muito próxima dos climas down do Alice in Chains). A abertura, com a faixa-título, é demolidora, War Nerve tem um inusitado jeitão de hit profissional, e Sandblasted Skin com certeza deve quebrar pescoços ao vivo. Mas a vencedora é a carniceira Suicide Note Pt. 2, muito rápida, muito barulhenta, muito psicótica, e me faz bater tanto a cabeça que quase perco as orelhas.


Vendagens lá em cima, turnês invariavelmente sold out, uma banda tecnicamente no auge, e uma seqüência ininterrupta de um álbum a cada dois anos. Próxima parada: Official Live: 101 Proof, o esperado ao vivo do Pantera, que já chama a atenção pela capa. Trata-se de uma (justa) homenagem ao bom e velho Jack Daniels, disparado o melhor whisky que já chapei (que o Chivas não nos ouça).

O álbum traz as apresentações norte-americanas da Tourkill, compreendendo o período de 96 a 97. O quê dizer dessa apresentação?


Eu já assisti a vários shows da banda ao vivo "mesmo", no canal Much Music, e posso garantir: eles são muito, muito bons. Se, sem a carga de estar gravando um "Ao Vivo", os caras arregaçam daquele jeito, pode crer que em Official Live existe uma quantidade ínfima de overdubs, pois eles realmente tocam muito. Mas que existem overdubs, com certeza existem (levantando o volume da platéia em momentos específicos, calibrando a distorção da guitarra na hora dos solos, limando umas entradinhas erradas aqui e ali... um dia farei um post sobre discos "ao vivo" e contarei como o Rob Halford incluiu em seu disco ao vivo uma música que ele nunca tocou em shows, ou como o Helloween gravou um show com o seu baterista antigo e lançou o disco ao vivo com o baterista do Scorpions no lugar dele... puta parênteses, né não?! Acho que vou terminar o texto nele... nah, tô zuando).

Então, os tempos românticos dos "Ao Vivo" já se foram. Momentos como o Viva!, disco clássico do Camisa de Vênus, ou It’s Alive, o clássico do Ramones fase Richie Ramone, ou então o If You Want Blood You Got It, do AC/DC fase Bon Scott, ou o No Sleep Til' Hammersmith, do Motörhead, ou o Kiss Alive I, do, ahn, Kiss, se perderam no tempo e, embora sejam melhores que 99% do que se faz hoje em matéria de rock, não conseguiram fazer a molecada entender que o bom dos discos ao vivo é a energia pulsante, orgânica e a eletricidade natural, com os erros e tudo. Os erros é que eram bons, porra!

Eu vi ninguém menos que o RUSH errando ao vivo, no Maracanã (na 3ª marcação de Overture - The Temples of Syrinx, devidamente retirada do DVD Rush in Rio, uma pena - mas eles eu perdôo), e sabem de uma coisa? Foi autêntico, humano e maravilhoso...!


Mas voltando ao assunto (viajei), podem ter certeza que Official Live, apesar de sua produção irretocável, é bem mais fiel do que se possa imaginar, pois os caras realmente mandam bem.

Estão lá todos os pontos altos desses discos que citei e apenas uma (grande) falha, que é a não-inclusão do clássico Mouth For War. De resto, tudo safo e você ainda leva duas faixas inéditas de lambuja: Where You Come From, um blue-grass metálico com slide guitar Aerosmithiana e I Can’t Hide, uma colisão à mil por hora entre Iron Maiden e Judas Priest. Pra ouvir entornando um Jack Daniels, sem gelo.


Depois disso, eles estrearam no novo milênio com Reinventing the Steel (2000), assunto pra outra vez. A banda acabou logo em seguida, e seus estilhaços deram origem ao conceituado Damageplan, enquanto o vocalista Phil Anselmo se embrenhou ainda mais em seus projetos paralelos (Down, Superjoint Ritual). Mas a incendiária fase noventista ficou na memória.



Post escrito ao som de Rush (Permanent Waves), Metallica (Ride the Lightning) e Pantera (todos esses). Sim, deu tempo e ainda detonei dezenas de copos de café.