Ainda não assisti Emilia Pérez. Apenas acompanhei, junto com o planeta, o desmonte público de sua estrela (cadente) Karla Sofía Gascón na corrida pelo Oscar. Polêmicas à parte, só agora acordei: o diretor do filme, Jacques Audiard, tem dois longas espetaculares no currículo: O Profeta (Un Prophète, 2009) e Ferrugem e Osso (De Rouille et D'os, 2012), obsessões que cultivei com muito carinho num grupo de e-mails que participei.
Seguem minhas impressões rápidas & rasteiras da época conservadas em carbonita pelo Gmail.
22 de jan. de 2011 — O Profeta. Impressionante como uma premissa tão simples (novato "se educando" na prisão) ainda pode render tanto. Mas não é por acaso. O roteiro é um primor. Consegue lidar com situações complexas com uma acessibilidade notável, sem soar didático e sem fazer concessões. E as atuações são fantásticas. A tensão entre os dois protagonistas, Malik e Luciani, é de gelar a espinha. O que foi aquele tiroteio, cara. Puta que os pariu. Filmaço. E o último resquício de credibilidade que o Omelete tinha foi pro saco.*
* mas isso faz tempo, hein.
19 de fev. de 2017 — Ferrugem e Osso é muito bom. Um Rocky realista com foco na Adrian. Drama contundente e concussivo, pungente e pugilista. E a Marion Cotillard é fantástica demais.
De lá pra cá, reassisti ambos algumas vezes e sempre achei a experiência ainda melhor que anterior. Já está na hora de revisitar.
Valeu o lembrete, Karla.
Ps: gafanhoto(a), fecha logo esse navegador e corra atrás desses filmes no streaming/torresmo mais próximo!
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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025
terça-feira, 19 de dezembro de 2023
Rápido & rasteiro: Papai Noel está chegando... 🎅🎄
De volta com a mão-na-rodíssima sessão R&R para garantir a diversão nesse tempo de festas num mundo pré-apocalíptico. Não é à toa que Papai Noel esteja tão puto!
"Então é Natal..." ♪ ♫ ♬
NATAL SANGRENTO / SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT (Charles E. Sellier Jr., 1984) — o infame slasher natalino de 1984, finalmente em versão unrated. De fato, as cenas inéditas são bem pesadas – além de fáceis de serem identificadas pela má qualidade dos recortes, já que os negativos originais foram perdidos – e certamente embaçariam a censura R que o estúdio queria para o lançamento nos cinemas. De resto, atuações ruins, muitos peitinhos, humor involuntário e às vezes se leva a sério demais, sendo que nem o roteiro e nem a direção têm cancha pra isso. Mesmo assim, rendeu quatro sequências e um remake. Crássico.
FELIZ NATAL / CHRISTMAS BLOODY CHRISTMAS (Joe Begos, 2022) — Papai Noel robô perde o controle e massacra meio mundo. Tem chupações descaradas de Hardware: O Destruidor do Futuro e O Exterminador do Futuro, porém, antes do machado comer solto, os diálogos são bem legais. Deu a impressão que o diretor-roteirista queria fazer um Antes do Amanhecer punk rock, mas aí o estúdio pediu gentilmente que ele incluísse sexo, gore, robôs assassinos e temática de Natal. Só pra dar aquela agitada.
FUTURAMA — Futurama é vida. Devo estar no trilionésimo rerun da série de Matt Groening e David X. Mas a ocasião é especial e só pode ser estrelada pelo Papai Noel Robô, uma máquina assassina de todos que foram maus durante o ano em sua lógica distorcida (ou não). A persona sacana à Lobo e o vozeirão do John Goodman (no 1º episódio) completam a mágica. O caminho das pedras: S02E04 - Xmas Story, S03E03 - A Tale of Two Santas, S06E13 - The Futurama Holiday Spectacular e S08E06 - I Know What You Did Next Xmas. Aceitamos Pix.
NOITE INFELIZ / VIOLENT NIGHT (Tommy Wirkola, 2022) — Duro de Matar com Papai Noel no lugar de John McClane. O cineasta norueguês Wirkola (de Dead Snow, lembra?) aproveita bem a sacada e o filme até zoa com isso. David Harbour, de Stranger Things e Viúva Negra, caiu como uma luva no papel. É o único "herói" da leva, mas não se engane: esse Noel é decadente, beberrão e badass. Divertido demais.
UMA NOITE DE FÚRIA / SANTA'S SLAY (David Steiman, 2005) — revejo Natal sim, Natal não, pra não gastar. As piadas são dementes, o brucutu Bill Goldberg é o próprio Noel from Hell e a Emilie de Ravin...
...é incrivelmente fofa!
(ai, ai)
Fora que o elenco de apoio é surreal para um trashão – Robert Culp, Saul Rubinek, Fran Drescher, James Caan. Tá bom ou quer mais?
Essa maratona é garantia de uma Noite Feliz. Melhor que isso, só uma Noite com Final Feliz.
"Então é Natal..." ♪ ♫ ♬
NATAL SANGRENTO / SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT (Charles E. Sellier Jr., 1984) — o infame slasher natalino de 1984, finalmente em versão unrated. De fato, as cenas inéditas são bem pesadas – além de fáceis de serem identificadas pela má qualidade dos recortes, já que os negativos originais foram perdidos – e certamente embaçariam a censura R que o estúdio queria para o lançamento nos cinemas. De resto, atuações ruins, muitos peitinhos, humor involuntário e às vezes se leva a sério demais, sendo que nem o roteiro e nem a direção têm cancha pra isso. Mesmo assim, rendeu quatro sequências e um remake. Crássico.
FELIZ NATAL / CHRISTMAS BLOODY CHRISTMAS (Joe Begos, 2022) — Papai Noel robô perde o controle e massacra meio mundo. Tem chupações descaradas de Hardware: O Destruidor do Futuro e O Exterminador do Futuro, porém, antes do machado comer solto, os diálogos são bem legais. Deu a impressão que o diretor-roteirista queria fazer um Antes do Amanhecer punk rock, mas aí o estúdio pediu gentilmente que ele incluísse sexo, gore, robôs assassinos e temática de Natal. Só pra dar aquela agitada.
FUTURAMA — Futurama é vida. Devo estar no trilionésimo rerun da série de Matt Groening e David X. Mas a ocasião é especial e só pode ser estrelada pelo Papai Noel Robô, uma máquina assassina de todos que foram maus durante o ano em sua lógica distorcida (ou não). A persona sacana à Lobo e o vozeirão do John Goodman (no 1º episódio) completam a mágica. O caminho das pedras: S02E04 - Xmas Story, S03E03 - A Tale of Two Santas, S06E13 - The Futurama Holiday Spectacular e S08E06 - I Know What You Did Next Xmas. Aceitamos Pix.
NOITE INFELIZ / VIOLENT NIGHT (Tommy Wirkola, 2022) — Duro de Matar com Papai Noel no lugar de John McClane. O cineasta norueguês Wirkola (de Dead Snow, lembra?) aproveita bem a sacada e o filme até zoa com isso. David Harbour, de Stranger Things e Viúva Negra, caiu como uma luva no papel. É o único "herói" da leva, mas não se engane: esse Noel é decadente, beberrão e badass. Divertido demais.
UMA NOITE DE FÚRIA / SANTA'S SLAY (David Steiman, 2005) — revejo Natal sim, Natal não, pra não gastar. As piadas são dementes, o brucutu Bill Goldberg é o próprio Noel from Hell e a Emilie de Ravin...
...é incrivelmente fofa!
(ai, ai)
Fora que o elenco de apoio é surreal para um trashão – Robert Culp, Saul Rubinek, Fran Drescher, James Caan. Tá bom ou quer mais?
🎅 🎄 😈 🎄 🎅
Essa maratona é garantia de uma Noite Feliz. Melhor que isso, só uma Noite com Final Feliz.
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segunda-feira, 27 de março de 2023
Rápido & rasteiro: demônios, lobisomens, psicopatas e fembôs assassinas
Ao lado da pilha de livros e gibis, também há uma pilha de filmes empalando o firmamento. Então, nada como reativar a velha seção "Rápido & rasteiro" para despachar algumas impressões a jato, talvez expandidas mais pra frente em posts dedicados. Ou não.
Simbora!
NO EXIT (Damien Power, 2022) — Fugitiva de um rehab, jovem pega a estrada e, durante uma nevasca, acaba isolada num abrigo com mais quatro viajantes. Lá, ela descobre que há um sequestro em andamento, mas não faz ideia de quem está envolvido. Suspense tenso e engenhoso, funcionando em sua maior parte em dois cenários fechados. A iniciante Havana Rose Liu é um achado. E é bom demais rever o sumido Dennis Haysbert.
THE DARK AND THE WICKED (Bryan Bertino, 2020) — Dois irmãos retornam à fazenda onde cresceram para ajudar sua mãe a cuidar do pai moribundo. Logo eles percebem que alguma coisa descambou para o lado do tinhoso durante o tempo em que estiveram afastados. Slow burn com atmosfera densa e perturbadora, elenco afiado, sustos bem colocados e ao menos uma cena genuinamente arrepiante (a do padre). Promissor esse diretor e roteirista Bryan Bertino.
THE CURSED (Sean Ellis, 2021) — Em uma área rural da França no final do século 19, um assentamento cigano é massacrado a mando de um grupo de landlords. A sequência, diga-se, é de uma cinematografia tão brutal quanto genial. E lógico que, em meio à carnificina, rola aquela maldição vingativa contra os algozes. Terrorzão de época cruzando lobisomens, The Thing e Os Invasores de Corpos '78 (!) num mix bizarro, mas eficiente.
ANYTHING FOR JACKSON (Justin G. Dyck, 2020) — Casal sênior sequestra uma jovem grávida para um ritual satânico que trará seu netinho de volta à vida. A dupla de atores é ótima: Sheila McCarthy e o carismático Julian Richings, o "Morte", da série Sobrenatural. É bem inusitada a situação dos dois personagens: pragmáticos (e aparentemente ateus convictos) apelando para magia barra-pesada como crianças tentando dirigir um caminhão. É claro que só pode dar merda. Boa diversão, apesar da produção a toque de caixa ofuscar alguns momentos.
ALONE (John Hyams, 2020) — Thriller survival horror de John Hyams, filho do grande Peter Hyams. O primeiro ato é uma espécie de versão feminina de Encurralado, do Spielberg, mas em vez de um magrinho de óculos às voltas com um provável bully, é uma mulher às voltas com prováveis abusadores. O diretor consegue nos colocar atrás dos olhos da protagonista e é aterrorizante a sensação de medo, paranoia e impotência, mesmo em situações simples e cotidianas. A tensão me manteve engajado até o último segundo. Não conhecia o trabalho da atriz Jules Willcox e foi uma grata surpresa, bem como a presença assustadora de Marc Menchaca (o Russ Langmore, de Ozark). O filme está disponível na Apple TV, Telecine e Globoplay com o título Sozinha.*
* não confundir com outro Alone, também de 2020 e remake de um zombie movie sul-coreano com trama copiada de um dos segmentos mais bacanas de World War Z — o do carinha que fica ilhado em seu apê durante um apocalipse zumbi. Prefira o livro.
ORPHAN: FIRST KILL (William Brent Bell, 2022) — O caso do prequel que supera o original. O filme começa mostrando a primeira "adoção" da vilã eternizada pela ótima Isabelle Fuhrman e fecha a primeira metade seguindo o mesmo padrão do anterior (de 2009!). Quando você está prestes a bocejar, o roteiro te dá um carrinho criminoso e a história então se torna completamente imprevisível. Surpreendente. Daria até para elaborar a ideia e desenvolver uma temporada de uma série. Hmm...
M3GAN (Gerard Johnstone, 2022) — Atualização ChatGPT de Brinquedo Assassino. O filme traz algumas breves discussões sobre o uso indiscriminado da tecnologia no dia a dia e algumas referências pop (a boneca tocando a melodia de "Toy Soldiers" no piano vai passar despercebida pela molecada). O problema é que se limita a ser divertidinho. E é praticamente censura livre. Pouquíssimo sangue à mostra, para abranger audiência mesmo. Pena. Mas a dancinha já é icônica.
Simbora!

NO EXIT (Damien Power, 2022) — Fugitiva de um rehab, jovem pega a estrada e, durante uma nevasca, acaba isolada num abrigo com mais quatro viajantes. Lá, ela descobre que há um sequestro em andamento, mas não faz ideia de quem está envolvido. Suspense tenso e engenhoso, funcionando em sua maior parte em dois cenários fechados. A iniciante Havana Rose Liu é um achado. E é bom demais rever o sumido Dennis Haysbert.

THE DARK AND THE WICKED (Bryan Bertino, 2020) — Dois irmãos retornam à fazenda onde cresceram para ajudar sua mãe a cuidar do pai moribundo. Logo eles percebem que alguma coisa descambou para o lado do tinhoso durante o tempo em que estiveram afastados. Slow burn com atmosfera densa e perturbadora, elenco afiado, sustos bem colocados e ao menos uma cena genuinamente arrepiante (a do padre). Promissor esse diretor e roteirista Bryan Bertino.

THE CURSED (Sean Ellis, 2021) — Em uma área rural da França no final do século 19, um assentamento cigano é massacrado a mando de um grupo de landlords. A sequência, diga-se, é de uma cinematografia tão brutal quanto genial. E lógico que, em meio à carnificina, rola aquela maldição vingativa contra os algozes. Terrorzão de época cruzando lobisomens, The Thing e Os Invasores de Corpos '78 (!) num mix bizarro, mas eficiente.

ANYTHING FOR JACKSON (Justin G. Dyck, 2020) — Casal sênior sequestra uma jovem grávida para um ritual satânico que trará seu netinho de volta à vida. A dupla de atores é ótima: Sheila McCarthy e o carismático Julian Richings, o "Morte", da série Sobrenatural. É bem inusitada a situação dos dois personagens: pragmáticos (e aparentemente ateus convictos) apelando para magia barra-pesada como crianças tentando dirigir um caminhão. É claro que só pode dar merda. Boa diversão, apesar da produção a toque de caixa ofuscar alguns momentos.

ALONE (John Hyams, 2020) — Thriller survival horror de John Hyams, filho do grande Peter Hyams. O primeiro ato é uma espécie de versão feminina de Encurralado, do Spielberg, mas em vez de um magrinho de óculos às voltas com um provável bully, é uma mulher às voltas com prováveis abusadores. O diretor consegue nos colocar atrás dos olhos da protagonista e é aterrorizante a sensação de medo, paranoia e impotência, mesmo em situações simples e cotidianas. A tensão me manteve engajado até o último segundo. Não conhecia o trabalho da atriz Jules Willcox e foi uma grata surpresa, bem como a presença assustadora de Marc Menchaca (o Russ Langmore, de Ozark). O filme está disponível na Apple TV, Telecine e Globoplay com o título Sozinha.*
* não confundir com outro Alone, também de 2020 e remake de um zombie movie sul-coreano com trama copiada de um dos segmentos mais bacanas de World War Z — o do carinha que fica ilhado em seu apê durante um apocalipse zumbi. Prefira o livro.

ORPHAN: FIRST KILL (William Brent Bell, 2022) — O caso do prequel que supera o original. O filme começa mostrando a primeira "adoção" da vilã eternizada pela ótima Isabelle Fuhrman e fecha a primeira metade seguindo o mesmo padrão do anterior (de 2009!). Quando você está prestes a bocejar, o roteiro te dá um carrinho criminoso e a história então se torna completamente imprevisível. Surpreendente. Daria até para elaborar a ideia e desenvolver uma temporada de uma série. Hmm...

M3GAN (Gerard Johnstone, 2022) — Atualização ChatGPT de Brinquedo Assassino. O filme traz algumas breves discussões sobre o uso indiscriminado da tecnologia no dia a dia e algumas referências pop (a boneca tocando a melodia de "Toy Soldiers" no piano vai passar despercebida pela molecada). O problema é que se limita a ser divertidinho. E é praticamente censura livre. Pouquíssimo sangue à mostra, para abranger audiência mesmo. Pena. Mas a dancinha já é icônica.
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domingo, 6 de novembro de 2005
JÁ FOMOS OS DEFENSORES

Antes mesmo de sair o segundo capítulo da Liga da Justiça "tosca", em JLA Classified #4, Keith Giffen já havia espalhado aos quatro ventos que esse seria o último arco que ele escreveria para o grupo. Cascata? Aposto que é, mas também acho que naquele momento ele mesmo acreditava nisso. Afinal, já devia saber que alguns meses mais tarde iria assumir a batuta dos Defensores, supergrupo da Marvel que sempre exibiu um inegável apelo cômico (ainda que involuntário), até mais forte do que a equipe B da Liga. Uma equipe no qual ninguém concorda com ninguém, nenhum dos integrantes tem a mínima empatia e cujos inimigos remetem aos padrões vilanescos mais esdrúxulos da chamada 'Era de Ouro'. De JLA para Defensores? Nada se perde...Mas não me entenda mal. Sempre curti muito os Defensores. Apesar de sua formação ter sido modificada meia-dúzia de vezes (sai Valkíria, entra Daemon Maelstrom, sai Felina, entra Gavião Noturno, etcs), os titulares mesmo eram Namor, Hulk e Surfista Prateado, liderados pelo Dr. Estranho. É que nem o Black Sabbath... com o Dio foi bom, mas com o Ozzy é que era o bicho. Além do mais, os Defensores eram a equipe mais overpower que se tinha notícia. Chegava ser covardia. Só a inclusão do Gigante Esmeralda e do ex-arauto de Galactus já os colocava na posição de supergrupo mais poderoso da Marvel. Da Marvel não... dos quadrinhos. Entretanto, a relação interna do grupo era pra lá de conturbada, principalmente entre Namor e o Surfista. Não raro, os dois se engalfinhavam em pancadarias homéricas, sendo que o Dr. Estranho tentava intermediar a coisa toda a duras penas e o Hulk não estava nem aí. De inimigos, a fina flor de tudo o que a Marvel tinha de mais atual... nos anos 60: Homem-Planta, Nebulon, Xemnu, Calizuma e... adivinha-quem-veio-pra-jantar, Dormammu, o antagonista mais recorrente das histórias em quadrinhos, Sua Majestade O Rei das Entressafras. Talvez por isto mesmo foi o eleito por Giffen e DeMatteis para ser o primeiro inimigo dos Defensores "toscos" (ainda mais).
Nas mãos hábeis de Kevin Maguire, Dormammu ganhou um visual meio s&m, tipo Hellraiser. Mas só mudou aí. Os roteiristas, espertos, praticamente não mexeram em nada. É incrível como os mesmos diálogos, lidos hoje, soam tão ridículos. Às vezes, Defenders periga virar uma história de uma piada só, sempre se baseando em toda aquela grandiloqüência e pompa descabidas - e algum espertinho(a) tirando sarro da clicherama e das situações incrivelmente piegas (lembrei logo do filho do Dr. Evil, de Austin Powers). A premissa, por si só, é quase um emblema do maniqueísmo pop: o demônio Dormammu se une a sua irmã, a impiedosa Umar, dando fim à uma desavença familiar (e milenar) que era a única coisa que o impedia de ser o detentor do Poder Absoluto. E qual é a maior ambição de Dormy agora que é um deus vivo? Dominar a Terra!® Só que sua "querida" irmãzinha tem outros planos...
Aliás, o resgate da personagem Umar foi um achado. Ela parece um mix de Cléo Pires e Angelina Jolie com o senso de humor fúnebre da Mortícia Adams. E além de ser uma gostosa de mão cheia...

...é uma tremenda ninfomaníaca, capaz de estremecer os alicerces da Torre de Mordo... digo, Dormammu. Atraída fisicamente pelo Hulk (!), Umar, fã de verdura, faz as mais de 100 toneladas de "sustança" do Golias Verde ficarem carentes de vitamina C(atuaba). Com ela, a expressão "enquanto eu tiver língua e dedo..." fica bastante depreciada.
Do lado dos heróis, sem grandes problemas também. Eles mesmos se autodestroem sem o auxílio de terceiros. Namor é uma figura: narcisista crônico, elitista e arrogante ao extremo. Banner/Hulk, depois de tanta desgraça que lhe acometeu na cronologia normal, já está mais pra lá do que pra cá: revoltado, cínico e com uma inequívoca atitude tô-fazendo-hora-extra-no-mundo. Já o Doc Strange vem com sacas daquela ironia cortante que vem sendo amolada desde Vikings, a mini do Thor escrita pelo Garth Ennis. E por incrível que pareça, o Surfista Prateado é o único que ainda não moveu nem uma palha, mesmo faltando apenas 1 edição para o arco terminar. Contudo, não deixa de ser insólita a sua situação: imerso em ponderações sobre o Sentido da Existência (uma constante), o angustiado Surfista se identifica com uma tribo terráquea e acredita que encontrará ali as respostas que tanto persegue. Cabe dizer que o Surfista do Maguire está igualzinho ao C3PO.
Vou te dizer. Esperava mais dos Defensores de Giffen/DeMatteis/Maguire. É melhor do que a última da JLA tosca (mesmo porque, esta já estava bem aquém das anteriores), mas com certeza eles podem fazer mais que isso. Seja como for, os diálogos ainda estão bem malandros, há ganchos realmente espirituosos (o que Umar e Dormammu fazem com o todo-poderoso Eternidade pode parecer blasfêmia pra alguns, mas que foi engraçado, foi), a tiração em cima dos clichês é nonsense total ("Onde está Dormammu? Se eu o conheço bem, deve estar contando ao Estranho cada detalhe do nosso plano. Ele sempre faz isso. Não consegue manter aquela boca flamejante fechada!"), e o Doutor Estranho está impagável nas alfinetadas que troca com o Namor e quando tenta convencer cada Defensor a retornar à equipe.
Mas o ponto alto da revista, na minha humilde opinião, é a dominatrix do inferno Umar, deliciosamente cruel. A menina rouba a cena! Além de ser uma pinup de cair o queixo e um paradoxo interessante a eterna silly-girl Mary Marvel. :)

Estamos pagando o preço por termos deixado Hollywood monopolizar o mercado cinematográfico por todos esses anos. O mundo ao redor desta fábrica de sonhos está se tornando tão bom em produzir sonhos quanto, senão melhor. O que chega por aqui em termos de "novidade estrangeira" é à base de conta-gotas, naquele festival de cinema independente que vai acontecer em um estado que provavelmente não é o seu. Fora isso, é apelar para a última fronteira - avançando via web e treinando a paciência tibetana com aquele download interminável (porque o BitTorrent é lerdíssimo ou porque o e-Mule e congêneres ainda não encontrou fontes suficientes para baixar o arquivo). Isto pra não falar na legenda (a qualidade ou a falta da mesma), já que o idioma das produções não será o inglês. O resultado é Free Zone, Immortel, Guardiões da Noite, Oldboy, 2046, Casshern, Three... Extremes, Haute Tension, Sympathy for Mr. Vengeance e pérolas quetais, sendo exibidas num cinema bem longe de você.
Mas, às vezes, e só às vezes, um barquinho fura o embargo comercial/cultural e se materializa, como que por encanto, bem ali na locadora da esquina. Foi assim com Casshern, e um pouco antes, com Vidocq (França, 2001). Na época em que este filme foi lançado, houve um corre-corre underground que chegava a ser irritante, de tão restrito. Mandei se foder e fui seguir minha vida (=puta merda, todo mundo viu, menos eu!). Confesso que nem lembrava mais quando me deparei com esta jóia rara, hoje no semi-anonimato.
Dirigido pelo escalafobético Jean-Christophe Comar, o filme causou furor na época por ser a primeira produção filmada com as câmeras de alta definição da Sony, as tais CineAlta 24-P. E faz alguma diferença? Ô! Através deste recurso, o diretor optou por uma filtragem mais chapada no contraste de cores e redefiniu o conceito de fotografia e perspectiva digital. Ainda hoje, quatro anos depois, a concepção visual empregada no filme é impressionante. Às vezes chega a lembrar a psicodelia gótica do clip The Perfect Drug, do Nine Inch Nails, como na antológica seqüência do jardim.

Eugene François Vidocq (Gérard Depardieu) é um detetive na Paris caótica de 1830, à beira de uma revolução após uma abdicada básica de Carlos X. Ríspido, perspicaz e inteligente, Vidocq é considerado o melhor no que faz. Em meio aos distúrbios, uma série de raptos e assassinatos é atribuída à uma criatura aparentemente sobrenatural chamada O Alquimista, e é justamente o novo desafio de Vidocq. Durante um cerco, os dois se enfrentam no mano-a-mano e Vidocq fica dependurado sobre uma fornalha, Obi-Wan style. Quando o Alquimista revela sua verdadeira identidade (calma, não é spoiler!), o detetive, incrédulo, se atira nas chamas. Começa então uma investigação por parte de Etienne (Guillaume Canet), um jornalista que estava escrevendo a biografia de Vidocq.
Um detalhe: Vidocq realmente existiu e é considerado um dos pais da perícia criminal. Sendo assim, é natural que o mote do filme seja desmascarar cada fenômeno místico com um verniz de ceticismo que faria inveja ao Padre Quevedo. Algumas vezes, essa premissa consegue resultados brilhantes, como no engenhoso esquema do "relâmpago assassino" (dá até vontade de matar alguém daquele jeito). Mas é na reta final, quando já estamos mais experts do que os caras do C.S.I., que levamos um tostão daqueles que doem pra valer e tudo que aprendemos cai por terra. O que nos confirma o que esse filme é, de fato: um pop movie de aventura com lingüagem e dinâmica de revista em quadrinhos, muito divertido, inovador no conceito de produção e design, sem deixar para trás as tendências atuais dos filmes de ação (edição rápida e grandes lutas). Tudo isso, com direito à um final-surpresa desconcertante, a participação da belíssima Inés Sastre e um céu que parece saído de um óleo sobre tela vivo e pulsante.Eu poderia chegar aqui e escrever que Vidocq é a adaptação que Do Inferno poderia ter sido (se eu não tivesse gostado de Do Inferno), mas a verdade é que o personagem merecia algumas linhas escritas pelo Alan Moore. É a cara dele.
A propósito, esse filme foi a estréia do diretor Jean-Christophe Comar. Logo depois, ele passou a assinar como Pitof (acredite se quiser, é ele) e, três anos mais tarde, foi pra Hollywood fazer História. Não no bom sentido, claro...
As Páginas do Rock'n'Roll

Uma homenagem ao guitarrista e produtor James Patrick Page, o Jimmy Page, nunca é demais (embora ele provavelmente não deva curtir homenagens em forma de mp3). Muitos ignoram o que o guitar-hero produziu entre o fim do Led Zeppelin, em 1980, e o retorno à parceria com Robert Plant, no discaço No Quarter, de 1994. Uma pena, pois teve coisa (muito) boa aí.

"When all are one and one is all...
...To be a rock and not to roll"
Esses discos aí ao lado ficam até quarta ou quinta, capice?
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quinta-feira, 22 de setembro de 2005
ARE YOU TALKIN' TO ME?

E lá se vão praticamente 15 anos desde o lançamento de Hard Boiled, mini-série em clima no future criada por Frank Miller e ilustrada por Geof Darrow. Só a menção desses dois nomes na mesma frase é motivo para estremecer o monitor do fanboy que está lendo. Recém-saído do circuito mainstream dos quadrinhos americanos, Miller resolveu apostar em um segmento menos visado, mais underground, via Dark Horse. E assim ele iniciou uma nova fase (que já acabou, por sinal), mais autoral e com um leque mais amplo de possibilidades. Sem protagonistas diretos, nem compromissos com a redenção de terceiros, ele começou a destrinchar o Sistema em atmosferas que, de tão opressivas, chegavam a ser palpáveis, e quase funcionando como um personagem ativo dentro das histórias. Vide as ótimas Liberdade e, mais tarde, Sin City. Mesmo a bem-humorada Big Guy & Rusty representa bem essa fase. É aí que entra Hard Boiled.
Lendo hoje, nota-se que a série destilava uma inequívoca ironia em relação aos governos, à cultura de massificação, ao poder da mídia, enfim... ao establishment. E o melhor de tudo: sem se prestar à qualquer panfletagem anarquista barata. Muito pelo contrário. Hard Boiled pode ser facilmente confundido com um combo hardcore movido à sexo, perversão e ultraviolência - e tudo sendo elevado à milésima potência, mesmo para os padrões atuais.

A história é uma espécie de Um Dia de Fúria high-tech e nos mostra a via-crúcis particular de Nixon, um pacato cobrador de impostos e pai de família, que está enfrentando uma senhora crise de identidade. Como pano de fundo, conspirações governamentais, sabotagem industrial e uma revolução artificial digna de Metrópolis e Eu, Robô em versões bloody disgusting. O clima geral lembra a Los Angeles de Blade Runner, só que muito mais caótica, claro. Aliás, a narrativa empregada em Hard Boiled exibe um fôlego cinematográfico que só vendo. Não existem aqueles recordatórios em off que Miller tanto gosta e vários ângulos são concebidos como se fossem gigantescos planos-seqüência de um filme.
Experiência é uma coisa valiosa. Está na cara que Miller já sabia o peso que a arte estilosa de Geof Darrow teria em Hard Boiled. Tanto é que a dinâmica principal se apóia na maior parte do tempo em perspectivas, noções de movimentação e ganchos de ação, em detrimento de textos verborrágicos. Neste caso, uma imagem realmente vale por mil palavras. Pode parecer redundância para conhecedores, mas Darrow dá um show aqui. Cada quadrinho dele é precioso, único, traz mais informações e detalhes que o catálogo inteiro da Image. São verdadeiros mosaicos com trocentas situações acontecendo ao mesmo tempo. E as splash-pages? Só Darrow tem moral para fazer uma seqüência matadora de treze splash-pages, uma atrás da outra (no diálogo entre dois robôs num ferro-velho). É um mestre.

Mesmo sem ser um clássico, Hard Boiled é tudo o que uma grande HQ deveria ser: sarcástica, espirituosa, ágil, repleta de adrenalina, inovadora e muito, mas muito divertida. Em meados de 2001, começaram a pipocar alguns boatos sobre uma possível adaptação cinematográfica. Eles davam conta de que Nicolas Cage ficaria com o papel principal e que David Fincher seria o diretor. Not bad. Nunca mais rolou nada a respeito, mas não custa sonhar...

Este já foi um dos registros piratas mais obscuros e disputados do deus da guitarra. Gravado em algum ponto de 1968, Hendrix viaja sozinho em seu apartamento com o gravador ligado. A fita ganhou forma de acetato, caiu no mundo e virou lenda. Mais do que um simples ensaio, o que se ouve aqui é a amostra da verdadeira essência de um gênio, desta vez despida de toda aquela catarse niilista. Em quase meia hora, Hendrix destila suas influências e desenvolve um diálogo intimista com as seis cordas.
Vale destacar o clima ambient que permeia toda a gravação. Detalhes como o ruído das páginas da partitura sendo viradas, os acordes que ele repete e que vão progressivamente evoluindo a cada nova tentativa e os curiosos improvisos vocais (que Ed Motta chama de embromation), atestando de uma vez por todas que Jimi Hendrix era sim um excelente intérprete. Durante a última música, a belíssima Gypsy Eyes, o telefone começa a tocar insistente ao fundo, mas Hendrix está tão imerso que nem liga e segue em frente, inabalável. Seja lá quem tenha sido, desiste após algumas chamadas e deixa a História seguir seu curso.
Confira aqui o set list e mais infos sobre este clássico não-oficial. E uma curiosidade: nos EUA esse disco foi lançado em 1995 pelo selo Bella Godiva Music, com o título Jimi by Himself - The Home Recordings, e veio junto com a edição especial de Voodoo Child: The Illustrated Legend of Jimi Hendrix, uma belíssima obra escrita por Martin I. Green e ilustrada por ninguém menos que Bill Sienkiewicz. Foda, né?

Na trilha: Speed, do Atari Teenage Riot. E um empate estranho.
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