Mostrando postagens com marcador giallo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador giallo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Operação Resgate
Edição split: Connelly Begins x Motorista Fantasma




O italiano Dario Argento já estava muito no lucro quando realizou Phenomena (idem, Itália, 1985). O filme foi precedido pelo cult Profondo Rosso, de 1975, pelo hit subterrâneo e masterpiece do giallo Suspiria, de 77, por Inferno, de 1980, e pelo casca-grossíssima Tenebrae, de 82. Uma quadra gótica de dar inveja à qualquer aficcionado e que ainda será descoberta e regurgitada pelo circuitão como se fosse algo recém-inventado por algum "visionário" de Hollywood...

Mesmo inserido em um traçado final que Argento arquitetou - concluído por Opera, de 87, e Trauma, de 93 - Phenomena talvez tenha sido o primeiro passo para uma concepção mais acessível das pirações dark do cineasta. De muitas maneiras, estava conectado ao que andava sendo feito de moderno em thrillers de horror na época - cujas diretrizes básicas foram fornecidas em grande parte por ele mesmo (e Fulci, Lenzi, Bava, Avati...). Em tudo ali, Argento soava mais dinâmico, atual.

Indo tão fundo quanto a poça que meu café fez aqui, o cinema de Argento e Sua Gangue foram essenciais para retirar o terror do estágio trash-exploitation patrocinado por Roger Corman e os condes romenos da Hammer Films.

Esta impressão de abertura, apesar de ser mérito de um conjunto de fatores, inevitavelmente saltava aos olhos só de conferir o cast principal: estrelavam o saudoso Donald Pleasence, que, além da moral de ator respeitável, era figurinha fácil em incursões mais comerciais (fora que ele era simplesmente o Dr. Loomis, arquiinimigo de Michael Myers, em Halloween!), e uma jovenzinha de catorze anos que literalmente encantou Argento, após vê-la num pequeno papel em Era Uma Vez na América, do amigo Sergio Leone.

Jennifer Connelly, além da... do... ah, de tudo... esta mulher é... já exibia timing, carisma e maturidade absurdos em cena. E charme. Valha-me Deus. Sua participação em Phenomena excede o espaço reservado à sua personagem e o arquétipo que ela possa representar - mas já retorno ao ponto.


A premissa era um mix dos elementos mais caros à cinematografia de Argento, sendo que a primeira metade remete a uma estética de suspense slasher e a segunda ao horror surrealista enegrecido por uma pesada atmosfera onírica (já dizia John Carpenter que assistir Argento era como "estar preso num pesadelo"). No primeiro ato, uma jovem dinamarquesa (Fiore Argento, filha do diretor) perde o ônibus e acaba se perdendo também. Procurando por ajuda, a menina vai parar numa casa de campo, onde é recebida na base de correntes e tesouras. A seqüência é bastante tensa, sendo finalizada de maneira crua, chocante, mesmo para os padrões atuais ("Se o cara faz isto com a própria filha, que dirá com o resto" - dogg, filósofo malaio) - por outro lado, a beleza técnica da cena é inegável... nada se compara a um bom exercício de hiper-realismo, ainda que o realizador seja dado ao surrealismo (trocadilho realmente ruim).

No filme, Connelly também é Jennifer, só que Jennifer Corvino, filha de um famoso ator americano, que é enviada à Suíça para estudar num renomado colégio internacional para moças. Logo que a menina chega ao país do sigilo bancário, vemos que ela tem o estranho dom de interagir telepaticamente com insetos. E também sofre com pesadelos tenebrosos e um tipo de sonambulismo hardcore (daqueles de levantar dormindo, ir pra guerra e voltar a tempo do café da manhã). No colégio, ela divide o quarto com Sophie (Federica Mastroianni), uma francesa bobinha mas ordinária com quem rapidamente faz amizade. No entanto, a recepção das demais alunas não é nada hospitaleira e Jennifer já chega batendo de frente com a coordernadora da instituição, a Sra. Frau Brückner (vivida por Daria Nicolodi, ex-esposa do nepotista Dario). Pra completar o cenário, estão ocorrendo vários assassinatos hediondos na região.

A principal característica destas mortes é a decapitação das vítimas. Na maioria dos casos, as cabeças nunca foram encontradas. Donald Pleasence interpreta o Prof. John McGregor, um entomologista paraplégico que está auxiliando a polícia a elucidar os crimes através da perícia nos cadáveres, consumidos por vermes e larvas de insetos - o que cria um estranho vínculo com as habilidades especiais de Jennifer. Não demora muito até os dois se conhecerem e sentirem uma empatia quase imediata.

O tempo começa a fechar quando as alunas do internato se tornam os novos alvos do serial-killer. Ao mesmo tempo, as crises de sonambulismo de Jennifer ficam mais intensas e parecem estar ligadas sensorial/paranormal/mística/darioargentamente ao frenesi dos assassinatos.

Mas isto é na primeira hora. Depois a coisa parte pro giallo-core de sempre.


A metade final de Phenomena é pra deixar os admiradores de Argento se sentindo em casa. Não chega a soterrar espectador com claustrofobia (pra isto, existe Suspiria), mas a pegada é inconfundível. É como se Jennifer parasse de ter pesadelos para vivê-los ipsi literis. Em certo ponto, a identidade do assassino é envolta em um clima tão obscuro que ele quase se torna uma entidade onipresente dentro do filme. De fato, não dá pra antecipar totalmente o desfecho (ainda bem que teve um - assista e passe por essa paranóia também), já que os indícios dão conta de que ali operam forças que não são deste mundo.

Falando no sobrenatural, não há o que reclamar sobre a exploração dos poderes de Jennifer no filme. Os mesmos são utilizados ao máximo de sua capacidade e assim Argento acabou criando uma perfeita (e igualmente poderosa) contraparte para a ameaça do assassino. Nenhuma chance foi perdida aqui - com o tempo e o aprimoramento, a menina se torna a Fênix Negra dos insetos. E isto não é apenas uma referência en passant: não sei bem porque, mas desconfio que Jean... digo, Jen, iria se adaptar muito melhor numa certa escola em Westchester, NY, do que aquela na Suíça. Se a coincidência for pouca, confira as cenas em que o Professor... hã, McGregor ensina a Jen como controlar seus poderes e o macete pra sair do estado de sonambulismo.

Como se não bastasse, McGregor também é acometido da monumental irresponsabilidade que todo tutor dos quadrinhos tem para com seus jovens pupilos. Não satisfeito com o trabalho da polícia, o bom professor (obcecado em vingar uma antiga assistente) resolve colocar a menina de catorze anos no encalço do maníaco sangüinário. E não pense que existe alguma margem de segurança aí.

Nas duas últimas longas seqüências do filme, o climão de pesadelo generalizado toma conta e Alice, digo, Jennifer, vai descendo até o ponto mais baixo do inferno. Impressionante como ela ainda consegue manter um fiapo de sobriedade diante das situações tenebrosas que passa. Ah, mas isto só dura até o mergulho numa vala escrotíssima cheia de cabeças, membros decepados, tripas, vermes, coliformes e detritos diversos. Perto disto aqui, a chuveirada de suínos em decomposição de Saw 3 é como dividir uma hidro com a Hellen Ganzarolli. Mal deu pra acreditar que ela caiu ali mesmo.

Daí pra frente, alguns lugares-comuns do gênero surgem quase que de forma caricatural, incluindo o final fake, à Jason Voorhees do primeiro filme, e um inusitado final-pra-valer, que combina bizarria e violência gráfica extrema.


Phenomena é um filme estranho, que se alimenta de suas próprias imperfeições. Consegue ser incrivelmente equivocado em alguns momentos e brilhante em outros tantos. A cena em que Jennifer, numa paisagem idílica, segue um inseto para descobrir o paradeiro do assassino é belíssima, por mais esquisito que possa parecer. A bad trip sleepwalker da moça é realmente assustadora e incômoda. O já citado prólogo do filme é primorosamente escrito, filmado, montado e o escambau. Momento clássico mais do que obrigatório.

E sim, há várias outras questões sobre Phenomena a serem debatidas fervorosamente, mas a mais contundente é esta: Jennifer Connelly foi rainha do grito em seu primeiro filme como protagonista (engula esta, Jamie Lee Curtis!).

Jennifer já era uma gigante em cena. Sua atuação era um diamante quase lapidado, demonstrando a mesma carga de sensualidade, inteligência e certa introspecção que se vê hoje. A atriz literalmente brinca de empilhar as convenções estilísticas do filme. Mesmo porquê, o cinema de Argento é extremamente hermético, autoral, segmentado por opção - basta ver os diálogos dela com as travadinhas Sophie e Sra. Brückner... a menina passeia livre em cena. Elegante e sagaz, Connelly nunca se entrega ao preciosismo e veste a camisa sempre que necessário. Um show. Só a presença dela já faz valer a assistida.


Infelizmente, a carreira internacional do filme recebeu um duro golpe ao ser lançado nos Estados Unidos. A censura da época - mais slasher que nunca - mutilou quase trinta minutos da produção e o lançou com o não-poderia-ser-mais-genérico título "Creepers". No Brasil, o título original foi mantido, mas a cópia era a mesma editada nos EUA. Só em janeiro de 2006, a versão integral finalmente foi lançada aqui, em DVD, via Works Editora, encartado na edição #6 da revista Cine Monstro.

A trilha sonora de Phenomena é foda. Pra caralho. Argento não titubeou e meteu a antológica Flash Of The Blade, do Iron Maiden, quase inteira durante uma seqüência em que o assassino caça uma vítima. Lá pelas outras tantas, foi a vez da descarrilhante Locomotive, do Motörhead. Motör-fuckin'-head, man. Ficou parecendo um daqueles clipes incidentais de Donnie Darko, só que pra macho. Genial.

E não pára por aí. Bill Wyman, ex-baixista dos Stones participa com uma trilha de arrepiar e Claudio Simonetti também está lá. Simonetti (nascido em São Paulo), que todo fã de horror deveria conhecer, foi tecladista no dino progressivo Goblin, onde compôs para outros filmes de Argento, além do inesquecível tema do mega-clássico Dawn Of The Dead, de George A. Romero, entre outras belezinhas memoráveis. Não é à toa que vários grupos heavy, gothic e prog metal devem as calças pro cara. Influência melódica primordial.

O tema principal de Phenomena também ganhou um "pseudo-clipe", que Simonetti fez entre as gravações do filme. Visto hoje, é tosco no último - como todo clipe daquela era recém-MTVitimizada, aliás. Mas sabe como é... música pronta, câmeras ligadas, cenário em cima, Jennifer Connelly lá de bobeira...


Recentemente, Simonetti fundou a banda Dæmonia, que faz releituras metalizadas para os clássicos que ele compôs para o cinema. O projeto é imperdível.


Próximo!





Lembro como se fosse ontem: meu sonho de consumo adolescente eram o Ford Falcon V8 Interceptor do Mad Max, o De Lorean DMC-12, óbvio, e o Dodge M4S Turbo, de The Wraith, a Aparição (The Wraith, EUA, 1986). Muitos anos depois, ainda não sou milionário e mesmo se fosse, dificilmente conseguiria adquirir este último. Como se tratava de um modelo conceitual, a Dodge só fabricou 1 unidade original (na época, pela bagatela de 6mi US$) e mais seis clones (1mi US$, each) devidamente destruídos durante as filmagens. Desde então, o Pontiac '82 preto da Supermáquina subiu uma colocação na minha lista.

The Wraith é o patinho bonito da filmografia do diretor/roteirista Mike Marvin. O cara simplesmente não fez nada que prestasse depois deste filme, chegando a dirigir até um daqueles pornôs soft reprisados à exaustão no Cine Band Privé. Aqui, no entanto, ele soube dosar energia, boas sacadas e despretensão na medida certa, resultando num filme bastante divertido, mesmo descontando as oitentices típicas (que, por mim, tudo bem).

Aliás, The Wraith não é exatamente um filme de terror, nem suspense, nem sci-fi e nem ação, mas traz características de todos estes gêneros em seu DNA, fluindo simultaneamente. E funciona como um ponto a favor, pois durante o tempo todo se espera uma postura pré-definida que nunca chega e se amarra de forma ainda mais curiosa. Fora que mantém o sensorial sempre no full mode.

Dá quase pra elogiar esta concepção descompromissada (mas não desfocada) da narrativa, só que, pela ficha corrida do diretor, imagino que foi involuntário mesmo.



A história é aquele chocolate. Você sabe como é, o gosto que tem, mas... Nos cafundós do Arizona, uma gangue de piratas do asfalto faz o rapa em quem transita pelas estradas do perímetro. O líder do bando é o sociopata Packard Walsh (Nick Cassavetes, ele mesmo, filho do grande John e o diretor de Um Ato de Coragem e Alpha Dog) e os demais são Rughead (Clint Howard, ainda mais bizarro na sua fase new wave), o maluco viciado em fluído hidráulico Skank (David Sherrill) e o smeagolzinho expert em carburadores Gutterboy (Jamie Bozian), entre outros buchas com a inscrição "morgue" tatuada na testa.

Em geral, eles "propõem" um racha aos motoristas incautos, valendo o carro do perdedor. Mas isto é só por diversão, já que os bad guys, além de serem trapaceiros assassinos, têm os motores mais envenenados da região. Seus carros já eram tunados antes mesmo de inventarem o termo. Na cola dos punks, está o Xerife Loomis (Randy Quaid), que sempre come poeira atrás de um flagrante e está investigando o assassinato de um rapaz, possivelmente morto pela quadrilha.

Até que um dia, um forasteiro de nome Jake (Charlie Sheen) chega ao lugar e já vai se engraçando pra cima de Keri Johnson (Sherilyn Fenn, a Helena de Encaixotando Helena, novinha e um tesão), ex-namorada do garoto assassinado e território do malvadão Packard. Apesar das ameaças do maluco, os dois estão dispostos a deixar a natureza seguir seu curso.

Tudo se encaminha para mais um homicídio providencial, até que um misterioso carro preto com turbina de F-15 e design futurista surge reivindicando a supremacia das estradas - e jogando bem mais pesado que os vilões. A partir daí, sobram cadáveres, acidentes espetaculares e muito aço retorcido.



Segundo o diretor, o filme é uma adaptação livre de O Estranho sem Nome, um western sobrenatural do Eastwood pós-Leone. Ah, bom. Se é assim, sim. Isso explica muitas coisas, mesmo as não-explicadas. Mas o Mike dem-moderfóquer Marvin conseguiu deixar tudo ainda mais enigmático, principalmente na conclusão (e olha que em O Estranho sem Nome - spoiler - tinha um cowboy que desaparecia no final). Possibilidades não faltam para tentar explicar a natureza fantástica e os incríveis feitos do super-carro...

Ele pode ter vindo do céu (acho que não), do inferno (acho que sim), pode ter sido um fusquinha 76 abduzido e tunado com tecnologia alien, pode ser um projeto secreto do governo americano (eles fazem de tudo lá), pode ter vindo do futuro (exatamente, acabaram as idéias)... é só escolher. Qualquer hipótese faz sentido porque as pistas que Marvin vai deixando durante a história não fazem o menor sentido.

A grande sacada de The Wraith é deixar só uma nesguinha de margem para especulações e logo sentar uma machadada na cabeça do espectador. Os vários rachas que acontecem durante o filme são absolutamente empolgantes e quando o Dodjão M4S dos infernos (será?) dá as caras é porque a coisa vai ficar sinistra pra valer. Em 100% dos casos, as disputas terminam em mortes, despenhadeiros e explosões. Fora os Daytonas, Diplomats, Corvettes, GMC Sierras e Plymouths totalmente carbonizados - nota-se que metade destes foram providenciados pela Dodge himself, além, é claro, do carro "protagonista", o que explica o plotter da empresa num veículo sobrenatural (o mais irônico é que só aparece em alguns breves frames... seria uma tentativa de mensagem subliminar?).

Quanto ao motorista propriamente dito, há pouco o que se revelar. Ele aparece algumas vezes, usa um tipo de armadura bio-mecânica e traz consigo uma arma com luzinhas vermelhas que lembra muito uma calibre doze, dispara igual a uma calibre doze e faz o mesmo estrago que uma calibre doze faz. Fui levado a crer que se trata de uma calibre doze sobrenatural.

De qualquer modo, as seqüências de ação foram reforçadas por uma trilha sonora da hora (na época), que parece ter sido escolhida a dedo, sem limite orçamentário e com a fina flor da farofa oitentista. Pura festinha americana.

A corrida inicial rola ao som de Secret Loser, do madman Ozzy Osbourne. Depois tem a Rebel Yell, do papito original Billy Idol, o hit yuppie Addicted To Love, do magnata Robert Palmer, Matter Of Heart, da açucareira Bonnie Tyler, a poseríssima Never Surrender (LOL), do Lion (ROTFLOL), entre muitas outras pérolas pra ouvir no walkman, com o sol a pino, camiseta regata e óculos espelhados.



Apesar do lance com a Dodge ter abocanhado a maior parte dos custos, o filme traz efeitos especiais surpreendentes para a época. Um bom exemplo é o esquema (sacana) que o carro negro tem para destruir os adversários, no qual ele mesmo é pulverizado no processo e se reconstrói entre o fogo e os destroços. Outra cena espantosa é logo no início, quando o carro se materializa no meio de uma encruzilhada (chuta que é macumba!) - algo entre Close Encounters, De Volta para o Futuro e Exterminador do Futuro, versão econômica, mas criativamente promissora.

A propósito, se pensarmos que o possante de O Carro - A Máquina do Diabo é o Hannibal Lecter dos automóveis e Christine, o Carro Assassino é a personagem de Glenn Close em Atração Fatal com tração nas quatro ("A Tração Fatal"), o dodjão preto é o próprio Terminator. Ele mata a sangue frio e sem qualquer cerimônia. O que ele faz no galpão-oficina dos bandidos só pode ser coisa da Skynet. Extermínio automobilístico.

É muito engraçado ver o Nick Cassavetes fazendo papel de galã psicopata no filme. Mais engraçado ainda é o Charlie Sheen como um californian boy metido a fodão, com cabelinho arrepiado e montado numa jurássica XL (que, pelo visto, também é sobrenatural). Naquele mesmo ano ele encarnou um papel que era o total oposto - o junkie de Curtindo a Vida Adoidado. Hoje, fatura os tubos em Two and a Half Men.

Só para registro, sempre fiz uma baita confusão com os nomes de Sherilyn Fenn e Sheryl Lee. Em comum, as duas têm o fato de serem gostosas e musas do David Lynch (participaram de Coração Selvagem e da polêmica Twin Peaks - Fenn era a Audrey e Lee era a própria Laura Palmer, raison d'être da série). E tanto uma quanto a outra amargaram um limbo de produções trashescas durante os anos 90. Atualmente, Sherilyn (uma bela balzaca!) leva uma carreira discreta, com participações esporádicas em seriados famosos e produções made for TV (última frase powered by IMDb®).

The Wraith, a Aparição ainda rende boas sessões até hoje. Como todo bom pop movie. Mas adoraria que o maldito Mike Marvin respondesse algumas perguntas.

Como assim "as instruções estão no porta-luvas"?!


Na trilha: Cars, do Gary Numan.

quarta-feira, 29 de setembro de 2004

Operação Resgate:
Os primos italianos de Evil Dead...



Com raras exceções, o cinema de horror está atravessando uma fase que varia do ruim à pura inexistência. O subgênero conhecido como splatter/gore então, nem se fala. Até velhos mestres, como John Carpenter parecem ter perdido o tino pra coisa (vide o fraco Fantasmas de Marte). O que se vê hoje é o estilo subvencionado ao esquemão pop (Freddy X Jason, O Filho de Chucky), e com poucos representantes genuínos (Madrugada dos Mortos, Extermínio), fora os descendentes natimortos da franquia Pânico, que teimam em não desaparecer de vez. Os tempos são outros, e dificilmente os admiradores de experiências mais radicais irão se satisfazer com alguma obra que não seja do circuito independente ou que não tenha saído do catálogo casca-grossa da Troma Films.

A década de 80 hoje parece pertencer à uma outra era. Nesses 10 anos foram produzidos alguns marcos da carnificina cinematográfica. Eram filmes em que até os revezes técnicos (roteiros esbucarados, defeitos especiais de ponta) se convertiam em pontos positivos. Aliás, justamente por causa deles é que esses filmes ficavam tão divertidos. Da esbórnia total (A Volta dos Mortos-Vivos, Fome Animal), passando pelo ultra-referencial (Evil Dead, Re-Animator), às produções caprichadas (A Hora do Pesadelo, Força Sinistra, O Enigma do Outro Mundo), e atingindo o nível de perfeição (Evil Dead II).

Entre uma coisa e outra, Demons (Demoni, Itália, 1985).


Apesar do jeitão hardcore, Demons vem de linhagem nobre. Seu diretor, Lamberto Bava, é filho de Mario Bava, um dos maiores diretores do gênero na Itália, senão o maior (são dele clássicos cult como Black Sabbath e Black Sunday - A Máscara de Satã, entre muitos outros). Isso sem contar a experiência adquirida através da convivência e trabalhos ao lado de mestres como Dario Argento e Lucio Fulci.

Mesmo sem alcançar o brilhantismo desses diretores, Lamberto sabe apertar onde dói. Ele sempre larga o incauto espectador sozinho, à mercê das sensações mais desconfortantes e situações mais apavorantes. Não é nada assim "putz, que legal essa sanguinolência!", muito pelo contrário. Por vezes, sua narrativa chega a incomodar mesmo. É como ser trancado em um quarto escuro com aqueles saquinhos de brinquedo que produzem uma risadinha sinistra (tá, mas imagina isso na mesma proporção de quando você era criança). Claro que esses rasgos de genialidade doentia terminam onde a diversão sangrenta e irresponsável começa. Aí é se largar e curtir, pois é nesse ponto que Demons oferece um verdadeiro banquete.


Como que seguindo uma espécie de tradição, Demons mantém algumas regras do gênero splatter. Entre eles está uma tonelada perguntas sem resposta (grande... ou melhor, uma enorme parte do filme é assim), personagens hesitantes, cheios de problemas pessoais (para serem esquecidos logo que o couro comer), guerreiros se revelando entre cidadãos comuns (paus e pedras, old style), erros de continuidade, e seqüências maravilhosas de escatologia pesada e violência gratuita, que não exercem qualquer influência na história.


A história é um mix do açougue infernal de Evil Dead com o padrão "Living Dead" da trilogia clássica de George A. Romero. Sempre com um forte ar de conspiração, mas nunca confirmado (lembre-se: sem perguntas), o filme começa com a gracinha Cheryl (Natasha Hovey), desafiando a Lei de Murphy ao desembarcar numa estação de metrô mais sinistra que o castelo do Conde Drácula. Chamariz de serial-killers, logo ela se vê perseguida por um cara esquisitão usando uma máscara prateada (Michele Soavi - um total workaholic, e já explico por quê). Jogando fora uma bela chance de assassinato cruel, o misterioso sujeito apenas entrega um flyer para a inauguração de um cinema. Claro que ela vai (essas meninas) e, mui amiga, leva junto a sua colega Kathy (Paola Cozzo).

No sagüão do cinema, conhecemos os aperitivos do dia: os onipresentes casaizinhos apaixonados, o cafetão machoman Tony (Bobby Rhodes, figuraça) mais duas acompanhantes, um senhor cego (no cinema...) acompanhado de sua esposa "amiga da garotada", os amigos George (Urbano Barberini) e Ken (Karl Zinny), mais uns canapés coadjuvantes.


Em Demons tudo parece ser a origem do Mal. Ao mesmo tempo que isso causa uma certa confusão (afinal, precisamos de explicações!), é, de certa forma, uma boa idéia. Não há nada mais assustador do que não sabermos a natureza do Mal que enfrentamos. Dessa forma, inventamos automaticamente dezenas de interpretações esdrúxulas, apenas e tão somente para nos sentirmos mais confortáveis diante de uma situação difícil e fora do nosso controle. E o pior é que sabemos disso, pois não temos a menor idéia da verdadeira face do inimigo. Então, nesse caso, menos é mais.

Vamos lá... A misteriosa figura de máscara prateada é quem aparentemente arma toda a cilada, mas ele não dá mais as caras, só retornando ao final do filme. No sagüão do cinema, há uma estátua de um guerreiro em cima de uma moto, segurando uma espada samurai em uma mão e uma estranha máscara na outra. Uma das gurias do cafetão pega a máscara para brincar, e acaba se arranhando com ela. Claro que nesse vacilo ela foi "infectada" e logo se transforma em uma criatura demoníaca (aaêêê).


Como se não bastasse, o filme que está sendo exibido na telona é amaldiçoado. No mesmo estilo documentário-realista de Holocausto Canibal (referência mais pra cá: A Bruxa de Blair), o filme retrata um grupo de amigos sem-noção explorando a tumba perdida de Nostradamus (!) no cu da noite (!!), e, claro, despertando um Mal milenar no processo. Daí, esse Mal "vaza" da telona para o cinema.

Por incrível que pareça, esse subterfúgio acabou se revelando muito funcional dentro da narrativa. À medida que os acontecimentos vão ficando mais macabros no filme que está sendo exibido, as mesmas situações vão se formando nas dependências do cinema. Chega uma hora em que os eventos dos "dois lados" acabam transcorrendo quase em paralelo, culminando na incrível (e nojenta) cena de transformação da prostituta. Sem dúvida, um belo exercício de metalinguagem, e mérito do roteiro, que foi escrito pelo Dario Argento, Franco Ferrini e Dardano Sacchetti, além do próprio Bava.

Outra coisa: um dos rapazes que participam do filme que está sendo exibido (ô troço complicado de escrever) é interpretado pelo mesmo Michele Soavi, o cara esquisitão da máscara prateada. Além disso, ele também é o diretor de 2ª unidade do filme! É ou não é um workaholic? :D


Na platéia, uma das espectadoras se contamina só de ver o filme (sem perguntas...). Indisposta, ela vai ao banheiro e protagoniza uma das cenas mais putrefactas já filmadas. Envolve estouros de bolhas cheias de pus, jorros de sangue podre e enormes dentes pontiagudos rasgando gengivas de fora a fora. Logo, temos nosso 1º demon, pronto para se multiplicar. O modo de contágio lembra muito o dos mortos-vivos mais lambões: qualquer mordida, arranhão ou baforada já é o suficiente. A semelhança acaba por aí. Os demons são ainda mais rápidos que a rapaziada de Extermínio (os atuais campeões morto-vivolímpicos), e não têm aquela fraqueza da cabeça (hehe). A seqüência em que uma legião de demons avança pelos corredores escuros do cinema - com aqueles olhos luminosos - é antológica, ficou muito boa mesmo. Tanto que virou o cartaz oficial.

Logo, a turba entra em pânico, mas o cinema está totalmente selado. É isso aí... daí pra frente, com exceção de uma externa no final, a ação se passa inteira dentro do cinema! Entre um clima pesadão e claustrofóbico, e soluções inovadoras (pra época), o resultado é o já tradicional vâmu-quebrá-tudo com direito a esquartejamentos, decapitações e pancadaria estilo briga de torcida organizada. No final apocalíptico, a influência de Romero chega a ser palpável.


Na esteira do sucesso cult do primeiro filme, Demons 2 foi produzido logo no ano seguinte, em 1986. Lamberto Bava assina a direção e o roteiro novamente é dividido com Argento, Ferrini e Sachetti. Quase toda a equipe original retorna, inclusive alguns atores de destaque, como o carne-de-pescoço Bobby Rhodes.

Demons 2 inicia uma nova história do zero, apenas baseada nos aspectos do primeiro filme, sem, no entanto, ter relação com ele (da mesma forma que Evil Dead II está para o primeiro). Na verdade, o que houve foi uma reedição do filme original, onde só mudaram a ambientação e alguns outros detalhes. E, seguindo à risca o manual de continuações de filmes de terror, Demons 2 traz o triplo de sanguinolência e carnificina por frame rodado. Talvez, pela assumida zoação em cima dos clichês estabelecidos no primeiro filme, a continuação traz ainda menos explicações (!) e seqüências de podreira pra lá de exageradas (mesmo para os padrões gore).


Sai o cinema, entra um prédio residencial ultra-sofisticado. Sai o filme amaldiçoado rolando na telona, entra um filme amaldiçoado rolando na telinha (!). Trata-se de um documentário exibido num canal de TV, sobre uma cidade em quarentena, totalmente devastada após um holocausto epidêmico. Ao que parece, trata-se da mesma cidade onde ocorreram os eventos do filme anterior, mas isso, é claro, fica a cargo da sua imaginação (uma constante...).

O menu dessa vez é o professor de musculação Hank (Bobby Rhodes, machão e impagável), o casal George (David Knight) e a grávida Hannah (Nancy Brilli), a menina Ingrid (Asia Argento, gatíssima hoje em dia, e filha do Dario), o guri Tommy (Davide Marotta), a prostituta Mary (Virginia Bryant) e a aniversariante Sally Day (Coralina Cataldi), sem contar os condôminos com o aluguel atrasado.

Sally surta em sua festa de aniversário (só porque convidaram o seu ex), se tranca no quarto e começa a assistir o tal filme amaldiçoado. O improvável acontece quando um dos demônios do filme começa a atravessar a tela da televisão, ao melhor estilo Samara Morgan, de O Chamado. Em questão de segundos, Sally é demonizada também (o processo continua o mesmo), e a festinha de aniversário ganha contornos aterradores. A seqüência de acontecimentos é mais ou menos essa aí:






Os demons sofreram um upgrade. Seu sangue agora é ácido (!!), igualzinho à certos ETs babões. Além disso, o sangue também passou a ser ultra-contagioso, bastando encostar na vítima para infectá-la (putz!).

O pega-pra-capar é inevitável e como toda desgraça é pouca (e forçação de barra também!), o sistema de segurança automatizado do edifício entra em pane e tranca todas as saídas. Rapidamente, o prédio inteiro é varrido por um furacão demoníaco, que, em poucos instantes, deixa pouquíssimos humanos não infectados. Num esforço derradeiro, uma parte dos sobreviventes desce à garagem subterrânea, na esperança de encontrar uma saída. Acabam cercados por um exército infernal e, a partir daí, o lugar se torna palco de uma porradaria generalizada.



Demons 2 é bastante irregular. Deliciosamente irregular. Mas, mesmo assim, irregular. Existem buracos no roteiro na mesma proporção de uma rodovia federal brasileira, e há uma profusão de cenas sem qualquer influência na história. O roteiro também chega ao final ao troncos e barrancos. Antes da metade do filme, a quantidade de demons é tão grande, que quase não existem mais humanos pro filme acompanhar.

Igual ao primeiro filme, também há várias pistas e questões não esclarecidas ou exploradas devidamente. Na mais inquietante delas, um casal consegue escapar para um prédio vizinho, e lá encontra um estúdio de TV abandonado. Uma coincidência dessas não poderia ser à toa. Será que o filme que deu origem à barbárie estava sendo exibido nas TVs do mundo inteiro ou apenas naquele edifício? Houve uma conspiração por trás de tudo? E se houve, quem foi o fdp? Como eu já avisei... não pergunte.


A série Demons pertence à uma época em que os filmes de terror eram feitos para assustar, não para vender a sua própria marca. Que se dane o sucesso comercial (mas se vier é de bom grado), o barato era brincar de monstro e sair por aí pregando susto. A partir do momento em que o dinheiro começou a entrar, a coisa foi ficando mais séria, e acabou-se a mística.

Lamberto Bava ainda tentou invocar os demons mais uma vez, com o obscuraço La Casa dell'Orco, de 1989. Esse filme não tem qualquer relação com os dois anteriores, a não ser pelo título que recebeu no mercado de VHS: Demons III: The Ogre (dessa vez, os demons saem dos pesadelos de crianças!). Daí em diante, Lamberto caiu no ostracismo cinematográfico, limitando-se a dirigir e produzir filmes e séries para TV.

Mas a derradeira só foi acontecer anos depois. O mestre das trevas Dario Argento (Suspiria, Inferno, Trauma, etcetcetc...) começou a dirigir filmes policiais meia-boca, Sam Raimi (Evils Deads) foi ganhar na loteria com o mega-pop Homem-Aranha, e Peter Jackson (Fome Animal) virou um diretor respeitável, com três superproduções no currículo e um exército de carecas dourados na mão.

Terminou aí uma fase memorável e brilhante no cinema de horror gore.


Antes que eu me esqueça, recomendo esta matéria sobre Demons, e esta outra, sobre Demons 2, ambas escritas por Felipe M. Guerra, um cara que conhece do riscado. Logo depois, tire a poeira do videocassete e alugue os dois Demons, numa tacada só. Vai por mim, eles estarão lá te esperando, no cantinho menos visado da locadora. Diversão garantida.


Na trilha: muito gótico e psychobilly... Meteors, The Cramps, The Faith and The Muse, The Nymphs, algumas do The Cranes... e uma coletânea matadora do The Misfits, fase 77/83.