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terça-feira, 27 de agosto de 2024

O culto ao Lagarto Mágico


Na zaga: Cook Craig, Ambrose Kenny-Smith, Michael Cavanagh e Lucas Harwood; No ataque: Stu Mackenzie e Joey Walker

Era mais fácil acertar na loteria do que antecipar o sucesso atual do King Gizzard & the Lizard Wizard. Esperaria isso de outras bandas cult ad eternum, tipo Gallon Drunk, The BellRays ou até o Squirrel Nut Zippers. Mas a evolução das espécies – e da indústria musical – tinha outros planos.

O sexteto australiano foi fundado por Stu Mackenzie, Joey Walker e pelo ex-integrante Eric Moore em 2010, quando estudavam indústria musical na Universidade RMIT, em Melbourne. Conheci em 2019, no pesadão Infest the Rats' Nest. Desde então, o grupo não saiu mais do play e das minhas listas de melhores do ano. E afirmo isso da forma menos deslumbrada possível, visto que os caras são ratos (ou lagartos) de estúdio: só em 2022 eles lançaram cinco álbuns. Contando com o excelente Flight b741, lançado este mês, eles já contam com 26 discos de estúdio. E olha lá se não desovaram mais algum enquanto termino de datilografar.

O mais impressionante é que cada registro trafega por um gênero diferente. Tem pra todo mundo: rock psicodélico, heavy metal, stoner, thrash metal, garage rock, space rock, música eletrônica, progressivo. E sem perder a identidade.

Mas nada é ao acaso. Além de multi-instrumentistas impecáveis, são operários 24/7, trabalhadores heavy duty. E é evidente que souberam, como poucos, ressignificar a desconstrução do disco ao seu favor.

O resultado são os shows concorridíssimos das últimas turnês – sold out na Europa e agora, nos Estados Unidos e Canadá. Ao que consta, o cachê atual da banda gira entre 150 e 300k (Bidens, of course) para datas na América do Norte. Abaixo da linha do Equador, deve ser o triplo do valor mais os rins e as córneas do público.

Mas até nisso o grupo resolveu subverter e está transmitindo cada apresentação do atual rolê em lives no seu canal do YouTube. A ação é qualquer coisa de espetacular. Seguem os shows de sábado e domingo últimos.




De Cleveland/Ohio a Newport/Kentucky são 402 km. Deve ter sido um corre daqueles. 24 horas de busão, toneladas de equipamentos, seis abençoados mais equipe. Operários mesmo.

Logo mais, tem outro.

Ps: as lives são removidas na sequência, mas sempre tem um samaritano que reposta. Lógico que não devem durar muito também.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Obrigado, Sepultura!


Obrigado ao Max Cavalera, ao Iggor Cavalera, ao Jairo Guedz e a todos os que ajudaram a escrever a história da maior banda que este país já teve.

Confesso: dei uma tremida aqui. É muito tempo acompanhando essa jornada.

Ps: Gastão não poderia ter sido uma escolha melhor para o momento.

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Veni, vidi, Victor


O Prong estava na seca de álbuns de estúdio desde o já longínquo ano de 2017. Para quebrar o silêncio de rádio, soltaram um EPzinho matador em 2019, Age of Defiance. Nesse período, o fundador e frontman Tommy Victor aproveitou para lapidar a lineup com uma maratona de shows incendiários. É bom ver ouvir que todo esse preaquecimento valeu muito a pena. State of Emergency é uma sensacional playlist do Spotify. Ou, como diríamos no meu tempo: um discaço.

Isso terá a ressonância de um traço no Ibope, mas o Prong sempre foi uma das minhas bandas preferidas. O grupo veio daquela leva de metal alternativo/pós-hardcore que fervilhou no underground entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990. Os riffs quebrados, estilo para-e-começa, eram uma característica marcante que dividiam com o também nova-iorquino Helmet e o irlandês Therapy?.

Os breakdowns no meio das músicas, embora pesadíssimos, eram quase dançantes. Foi o embrião do nu metal e do groove metal, o DNA que rendeu milhões de doletas para nomes como Slipknot, Disturbed, Five Finger Death Punch e outros que pasteurizaram a fórmula à exaustão. Em contrapartida, Victor, um mestre da rifferama, sempre passou longe dessa dinherama. E não foi por falta de tentativa.

Após o sucesso de Cleansing (1997), o Prong mergulhou numa série de álbuns irregulares e penou com a estabacada nas vendas. Quase baixando as portas, restou ao músico ir tocar guitarra no Danzig e no Ministry. Virou empregado.

Por sorte e (muito) talento, há cerca de dez anos a maré virou. A boa receptividade do excelente álbum Carved into Stone (2012) deu um boost em sua motivação com a banda. Na sequência, vieram os ótimos Ruining Lives (2014), o disco de covers Songs from the Black Hole (2015) e X – No Absolutes (2016) e o também excelente² Zero Days (2017). State of Emergency mantém o alto nível, com algumas particularidades.

Faixa a faixa na faixa:

"The Descent" é o começo forte e atropelante com o qual toda banda heavy metal sonha enlouquecidamente. Direto e já trazendo um breakdownzinho pra fazer a galera pular mais que na Pipoca da Ivete.

A faixa-título, duh, "State of Emergency" é herdeira da música (e também faixa-título) "Beg to Differ", de 1989. É quase uma versão atualizada com equipamentos mais poderosos e modernos. E, claro, agora com uma outra perspectiva sonora.

"Breaking Point" lembra o velho HC nova-iorquino à Cro-Mags/Agnostic Front. Refrão para bater a cabeça até soltar do pescoço.

"Non-Existence" é uma cruza das influências mais caras de Victor: os ícones pós-punk The Stranglers e, principalmente, Killing Joke. Leva jeito de single para rádios rock.

"Light Turns Black" é um exercício de peso e técnica. Nesse ponto já deu para perceber que o baixista Jason Christopher é bem versado na seara pós-punk e que Griffin McCarthy é da nova geração de bateristas technical thrash/death metal de Mario Duplantier (Gojira) e Eloy Casagrande (Sepultura). E toma headbanging debaixo de zilhões de ghost notes.

"Who Told Me" resgata o clima pós-punk novamente, desta vez numa pegada thrash. Lembrei na hora das guitarras dissonantes do Voivod. Aliás, que bela tour seria...

"Obeisance" é o puro suco de Killing Joke.

"Disconnected" é o puro suco do Killing Joke 100% concentrado. Tommy Victor destrava seu modo doppelgänger de Jaz Coleman. Poderia ser uma música do Absolute Dissent, fácil. Nem o próprio Coleman notaria a diferença. E que refrão ganchudo!

"Compliant" parece um lado B do Prove You Wrong (1991). E, de fato, é do lado B de State of Emergency. Delícia de filler.

A velocidade e a letra bairrista de "Back (NYC)" lembram o rock 'n' roll new yorker do Andrew W.K., só que menos festivo e (bem) mais HC porradeiro. É Prong, pô.

"Working Man" é um inesperado cover do clássico laboral do Rush. Boa versão, mas o Firebird fez melhor.

E é isso. O disco saiu hoje e já ouvi umas três vezes. Sinal que achei bom mesmo.

Com a palavra, o homem, o Victor.


In Victor veritas!

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Ela esteve na banda


Publicado em dezembro de 2010, I'm in the Band: Backstage Notes from the Chick in White Zombie é uma janela para o que rolou de mais legal na cena alternativa do rock e do metal dos anos 1990. Escrito por Sean Yseult, baixista e co-fundadora do White Zombie, o título ganhou um tapa de seu generoso acervo de imagens e materiais inéditos. O resultado é um mix de álbum de fotos com livro de memórias, repleto de informações de bastidores e de suas impressões daquela cena do barulho.

Para aficcionados da banda e da geração: é obra atemporal, para consultas. E uma delícia.

Em relação à carreira de Yseult (pronuncia-se "Issó"), I'm in the Band começa do ano zero, com ela ainda gurizinha frequentando as aulas de balé. E segue pela sua paixão pela cultura underground até a formação do White Zombie em 1985 – então um grupo de noise/rock de garagem, incensado por gente como Kurt Cobain e o pessoal do Sonic Youth (!) – e envereda na descoberta do metal e no sucesso comercial.

Nesse ponto, salta aos olhos o contraste entre seus dias de porão, se apresentando em clubes como o CBGB, e as gigs-monstro, com apresentações consagradas no Monsters of Rock em Donington e num Hollywood Rock abarrotado no Brasil...

...onde, aliás, passaram dias de rockstar no "Rio de Janiero" e matando "capraihnas" em Copacabana, apesar do medo de terem as mãos decepadas por motoqueiros punguistas from hell com muita pressa. Achei graça. Mas não duvido.


A fuça dos jovens meliantes; flyers operação-de-guerra; o início da virada; a tensão pré-palco




Na alta roda: com Elvira, Danzig, Marilyn Manson, Cramps e Pantera



Confraternizando com Deuses do Rock and Roll



Zé do Caixão, o “Coffin Joe”, encarnando no cadáver da baixista e recebendo a devida homenagem do White Zombie

Além dos registros históricos, Yseult, hoje quase exclusivamente artista plástica, também aproveitou para oferecer sua perspectiva única de um meio majoritariamente masculino. Inclusive o subtítulo do livro, "The Chick in White Zombie" ("a mina do White Zombie"), é o apelido dado a ela por Beavis & Butthead sempre que eles assistiam algum videoclipe do grupo. Não foi fácil. Não é fácil.

A nota destoante vai para a parte física: o brochurão de quase 200 páginas em formato paisagem (wide) é um lutador peso pesado. É preciso preparar bem o terreno antes de começar a aventura e evitar algum acidente irreversível. Também é recomendável lavar as mãos antes do manuseio. As páginas são em couché de alta gramatura e praticamente todas têm fundo preto. Então, se não quiser deixar as digitais impressas ali para a posteridade...

segunda-feira, 10 de abril de 2023

“Respeitável público, com vocês...”


The Butthole Surfers Movie promete destrinchar a trajetória da cultuada banda texana, um dos pilares da música alternativa americana — da verdadeira música alternativa, transgressora, irreverente e barulhenta, anos-luz de engambelações tipo Post Malone, Machine Gun Kelly e Billie Eilish. E o Lollapalooza dos primórdios tem tudo a ver com isso.

As apresentações anárquicas e proibidonas dos Surfers sempre foram lendárias, mas invariavelmente relegadas ao circuito underground. Na primeira edição do Lollapalooza, porém, isso mudou. Foram mais de 20 datas cruzando os Estados Unidos entre julho e agosto de 1991. Lá, os Surfers desfilaram todo o seu repertório de bizarrices, putarias e da mais pura insanidade-na-marca-do-pênalti, como comprovam as "brincadeiras" com fogo e as cenas do vocalista Gibby Haynes empunhando um trabuco em pleno palco e praticando tiro ao alvo sobre as cabeças do público (!!).

O Lolla atual pode ser a epítome do entretenimento gourmet inofensivo, mas houve um tempo em que a millennialzada leite com pera sairia de lá traumatizada...

O doc está cheio de depoimentos de gente como Jim Jarmusch, Richard Linklater, Steve Albini, Flea, Ice-T, Henry Rollins, Thurston Moore (Sonic Youth), Donita Sparks (L7), East Bay Ray (Dead Kennedys), Buzz Osborne (Melvins) e mais um punhado de notáveis. A previsão de estreia é para o final de abril.

A direção é de Tom Stern, que coleta material sobre o grupo desde 1986, quando ainda era um estudante de cinema. A co-produção dele com Noa Durban foi bancada através de um Kickstarter que arrecadou mais que o dobro da meta pretendida.

Pelo visto, muita gente também quer surfar naquele Butthole.

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

“Let me stand next to your fire...”


Assistindo Desastre Total: Woodstock 99 (Trainwreck: Woodstock '99, 2022) tive a sensação de viajar no tempo, mas num outro espaço. Acompanhei o festival a exatos 7.622 km e dois fusos horários de distância do epicentro: no conforto do meu lar, estirado em minha poltrona favorita, com tira-gostos variados e rodadas incessantes de caipirinhas e latinhas de Skol (outra época!). Na tela, headliners raivosos, som no talo e um maremoto humano ensandecido — com pintos e peitos à mostra e balangando via satélite — que ainda hoje deixa atônitos até habitués em megafestivais.

Tudo levava a crer que estava testemunhando a experiência rock and roll definitiva. Mal sabia do inferno social e humanitário que estava se desdobrando ali em tempo real. Ou melhor, até desconfiava...

Lembro que, a certa altura, um VJzinho qualquer pergunta a um garoto sobre as cenas de violência e quebra-quebra da noite anterior. Ele é categórico: "cara, você tem Limp Bizkit, Rage Against the Machine e Metallica se apresentando um depois do outro... queria o quê?"

Aquele momento, vindo de um guri ressacado, foi didático. A escalação do palco principal não tinha a menor ressonância com os auspícios de paz & amor do icônico Woodstock. Foi uma estratégia adotada já na edição de 1994, quando a marca foi ressuscitada no vácuo das primeiras edições do bem-sucedido Lollapalooza. A gasolina estava lá, só faltava o fogo.

Dividido em três episódios, o documentário da Netflix explora esse e outros pontos nevrálgicos que levaram o Woodstock 1999 a uma quase tragédia sem precedentes. O trabalho de pesquisa e resgate de imagens de arquivo é espetacular. E o diretor Garret Price também sabe do peso dos depoimentos de quem esteve in loco e faz uma boa seleção de woodstockers, com artistas, jornalistas, membros do staff do festival e do próprio público.

E ainda foi esperto — e sortudo — o bastante para colher a versão dos promotores Michael Lang e John Scher. Afinal, eles tinham muito que explicar.



Logo nos primeiros minutos, duas cenas surreais dão conta que até os deuses tentaram avisar: o então prefeito local Joseph Griffo inaugura o evento com a tradicional quebra da garrafa de champagne e só consegue na 9ª tentativa; e o momento em que o Soul Brother Nº 1 James Brown recebe o espírito do Rei do Soul Tim Maia (falecido um ano antes) e se recusa a estrear o palco principal enquanto não receber o cachê integral antes do show, mesmo com a banda já tocando a introdução e o público urrando.

Mas o doc não deixa dúvidas sobre quem foram os grandes vilões do evento: os preços hiperinflacionados e as deficiências de infraestrutura.

O Woodstock '99 foi realizado numa antiga base aérea americana, situada em Rome, NY. É um monstro de 3.600 acres onde cada direção era uma verdadeira peregrinação sob o sol escaldante do verão americano. Para economizar nos custos (e, talvez, amortizar um pouco do prejuízo da malfadada edição de 94), a produção contratou seguranças com pouca ou nenhuma experiência, batizou o contingente de "Patrulha da Paz" e tudo certo.

Outra grande ideia para as contas bancárias foi simplesmente não pagar as prestadoras responsáveis pelo saneamento e fornecimento de água, incluindo aí a manutenção dos banheiros químicos. Tenha em mente um público estimado em 200 mil pessoas ao longo de quatro dias e o resultado é um só: o horror, o horror...

O que veio a seguir foi de revirar o estômago. Aquelas imagens eternizadas na cultura pop do público coberto de lama, mergulhando na lama, rolando na lama e até pegando jacarezinho na lama... adivinha: não era lama. Era merda. Muita merda. Merda pra tudo que é lado. Mesmo num calor senegalesco, a falta d'água era frequente nas bicas e nos chuveiros distribuídos na área, mas talvez fosse até uma providência do destino — testes feitos durante o festival constataram que toda a rede de água estava severamente contaminada por fezes. Eles sabiam. Só não avisaram ao público.

E com as barracas de comida e bebida enfiando a faca sem dó (garrafinha de água: US$ 4) era como vislumbrar a derrocada dos antigos ideais, agora pervertidos pela ambição e pelo materialismo. Era o fogo que faltava. Cansado de ser maltratado, humilhado e explorado, o público se voltou contra tudo e contra todos. Inclusive contra ele mesmo.

De certo modo, foi um intensivão de neoliberalismo.


O diretor Price consegue achados tragicômicos em meio aos crescentes riots, como o momento em que um dos membros da equipe faz uma barricada na porta do escritório, como se estivessem cercados por zumbis. E não hesita em se aventurar por terrenos controversos, como o dilema dos artistas de rock pesado num ambiente instável. Pelo contrário. Korn fez um show visceral, com a vantagem da escalação no primeiro (e relativamente calmo) dia. Mas é difícil não ficarmos menos do que convencidos que o Limp Bizkit e seu frontman Fred Durst acirraram bastante os ânimos já exaltados. E que os caras do Red Hot Chili Peppers podiam ter ido dormir sem tocar "Fire" bem no momento em que se propagavam os incêndios que marcaram o fim do festival.

Desastre Total eventualmente cede a algumas concessões. É nítido que Metallica e Rage Against the Machine foram poupados. No caso do primeiro, lembro bem do coro de "Die! Die!", que a banda sempre puxa no meio de "Creeping Death", destoando de toda a estética psicodélica-flower power do evento. E no caso do Rage e sua incendiária apresentação, ao menos foi registrada a arrepiante cena da turba repetindo o mantra/grito de ordem "Fuck you, I won't do what you tell me" enquanto destruíam, pilhavam e violentavam tudo pelo caminho. Mas dá pra botar na conta da metragem.

Não ajudou a romantizada que deram no Woodstock original. Ficou parecendo um piquenique de fadinhas e hobbits no Condado. E não foi nada disso. Outra bola fora envolve a pior faceta do festival, que foram os vários casos de estupro. Já estava quase no final do último episódio e achei que o assunto não seria sequer mencionado, o que teria dado perda total no doc. Mas foi. Em algo como cinco minutos. Pois é.

Também é traçado um perfil da mentalidade machista e privilegiada do jovem-branco-de-fraternidade que predominou no festival. O que foi um dedo na ferida admirável.

A narrativa aniquila qualquer impressão sobre o promotor John Scher que não seja a de um businessman negligente e ganancioso. Mas curiosamente patina em assimilar a figura serena e enigmática de Michael Lang, falecido pouco depois as filmagens. Ele foi co-idealizador e promotor do festival original e, pelas imagens da época, já era um personagem e tanto. Merecia um doc à parte.

O Woodstock '99 teve apenas 4 dias, mas, pelo jeito, rendeu assunto para 23 anos. E contando...

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Pavões do Barulho


Uma das maiores surpresas do jornalismo musical do ano. O jornalista e diretor André Barcinski lançou Pavões Misteriosos originalmente em 2014 pela editora Três Estrelas, do Grupo Folha. É uma das investigações mais completas já impressas sobre o cenário da música brasileira embaixo e fora dos holofotes. Agora, com uma reedição turbinada com 400 páginas extras, vira quase uma Bíblia da bizarrice pop-canarinha.

E Barulho: Uma Viagem pelo Underground do Rock Americano saiu em 1992, pela editora Paulicéia. Foi um livro-evento para todo mundo que curtia rock não-farofa do final da década de 1980 até o início da década de 1990. O material foi resultado de uma viagem de dois meses e ½ fotografando e entrevistando alguns dos pilares da seara alternativa da época —figuras como Steve Albini, Jello Biafra, Ministry, Nirvana, Mudhoney, Ramones, Red Hot Chili Peppers e por aí foi. Algumas destas reportagens inclusive foram editadas na revista Bizz como "amostra grátis" numa série de matérias sensacionais intitulada, logicamente, Barulho. Brodagem pura, só pra ficar nos anos 90.

O que é mais curioso sobre essas futuras reedições (autopublicadas, por sinal) é a discrepância absurda de timing. Pavões foi escrita na mesma pegada analítica e documental de publicações seminais como Mojo, Uncut e a Rolling Stone gringa. Material atemporal para ler, reler e manter sempre ao alcance da mão para consultas. Já Barulho...

Kurt Cobain botou um fim em boa parte daquela história poucos anos depois, quase todos os Ramones se foram, o palco desabou, a indústria morreu, enfim. O único fator que justifica a publicação de Barulho hoje é a força da nostalgia.

Barcinski nunca demonstrou grande interesse em um relançamento do livro —meio um álbum de fotos com textos curtos e diagramação marota pra dar aquele realce— e até se mostrava a favor de seu compartilhamento digital. Certamente, os pedidos de reimpressão da turba carente na casa dos quarenta e alguma pesquisa de mercado (de revivais) devem ter mudado os planos. Um Catarse teria sido um belo termômetro de alcance público.

Também não deixa de ser sintomático que os dois livros tratem da música produzida há, pelo menos, trinta anos. E claro que vou correr atrás dos dois. Pode me chamar de Matusa nostálgico, mas não de ter mau gosto musical.

sábado, 22 de setembro de 2018

Saudações e desejos de maravilhosas bad trips aos bem-aventurados que testemunharão O Melhor Show da Terra deste ano no Brasil


O lendário, lendário, LENDÁRIO Killing Joke irá tocar pela 1ª vez no Brasil domingo, no Carioca Club (SP).

A formação permanece a clássica: a marcação tribal do baterista Paul Ferguson, a zaga subsônica do baixista Youth, o ataque abrasivo-percussivo do guitarrista Geordie Walker e a pessoa sui generis de Jaz Coleman, o puto mais imprevisível e carismático do pós-punk, gótico, industrial, noise, thrash, metal alternativo e tudo o mais que ele e seus companions influenciaram desde 1980.

Lógico que não vão tocar tudo (deveriam!). Mas grande parte dos cavalos de batalha estarão lá, conforme atestam os últimos setlists. É ir ao show e emendar com uma sessão de Altered States. Será perfeito.

Um excelente apocalipse (após-punkalipse?) para todos.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Mothra não mora mais aqui


Muito bem, saiu o primeiro trailer oficial de Pacific Rim, a nova brincadeira remunerada do grande Guillermo del Toro (agora me ocorreu que ele largou um filme com anões pra fazer um filme com gigantes). Estrondoso como esperado.


Vamos aos pré-julgamentos. Nota-se o cuidado em conferir uma sensação de peso/impacto/presença aos monstrões, que numa primeira impressão lembram o Kraken do remake de Fúria de Titãs - espero que não tão ineptos - e levam jeito que disparam rajadas atômicas até pelo nariz, na melhor tradição Gojírica (nada daquela asneira com carros explodindo no ar como fizeram no Godzilla americano). Os primos ocidentais do Gundam também parecem bacanas, com um esquema de pilotagem parecido com o do game Slave Zero.

Já os trechos de luta (vale-tudo com monstro gigante! Urruw!!) têm a dinâmica de um Gigantes de Aço made in Brobdingnag. O que é legal, mas bem limitante se ficar só nisso. Precisamos de mechas equipados com canhões de plasma, campos eletromagnéticos, retrofoguetes, supercombos, além de uns mini-nukes na faixa.

E falando em átomos, espero uma boa explicação para a preferência a robôs gigantes multizilionários à bem mais simples e efetiva opção nuclear. Posso pensar em uns dez motivos agora, no susto. Tomara que não me deixem no vácuo nessa.

No geral, o queixo não chegou a se deslocar, mas gostei bastante do que vi. E aproveitando o clima daikaijuesco, segue aí a versão ultraporrada do Helmet para o teminha do clássico Gigantor.


Ps: a Drew Barrymore é muito fofa.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Live on 90's


Quando soube que o Soundgarden finalmente lançaria seu primeiro álbum ao vivo, pensei que seriam registros extraídos de shows pós-reunião. Nada mais natural, já que o grupo se concentrou bastante nos grandes festivais (Lolla, Big Day Out, Download, Voodoo Experience) e estes fornecem um quórum de luxo pra qualquer disco ao vivo. Contudo, Live on I-5, lançado em 2011, traz performances de shows da turnê do Down on the Upside, registradas entre novembro e dezembro de 1996. Seria lançado na mesma época, mas a banda resolveu fechar o boteco sem nem liberar uma saideira.

Sempre achei que o fim do Soundgarden teve a questão financeira como principal gatilho, embora estivesse em seu auge técnico quando encerrou as atividades. A performance registrada em Live on I-5 demonstra bem isso. Graças ao trabalho do produtor Adam Kasper, também o responsável pela captura dos shows (num trampo com 16 anos de gap!), o álbum mostra o grupo mais evoluído e coeso do que nunca. Mesmo a sempre problemática performance on stage do Chris Cornell se sobressai sem grandes chamuscadas.

Do set list, meu Jesus Christ Pose, tenho nem o que falar. É um desfile de hits da antologia Soundgardeana, com "Spoonman", "Let Me Drown", "Slaves and Bulldozers", "Head Down", "Fell On Black Days", "Ty Cobb", "Black Hole Sun", a maravilhosa "Rusty Cage" e muitas outras... sem falar na histeria coletiva provocada por "Outshined" (o produtor se empolgou na masterização aí, mas ainda assim...). De quebra ainda tem dois covers descoladões: "Helter Skelter", do Fab Four, e o clássico Stoogeano "Search and Destroy".

Mesmo sendo parte da reabilitação pública do grupo (missão iniciada pela coletânea Telephantasm, de 2010), Live on I-5 acaba saindo melhor do que a vil encomenda. É um discaço pra ouvir até furar o CD/DVD/BD/HD. E, sem dúvida, de uma das melhores bandas daquela safra.

sábado, 20 de novembro de 2010

O culto à Grande Abóbora


Jim Martin - Milk and Blood
(Steamhammer, 1997)

"Big" Jim Martin era o cara esquisitão do Faith No More. Guitarrista virtuoso (o quanto é possível sem resvalar no shredding), famoso tanto pela pegada setentista quanto pela juba nohawk e os indefectíveis óculos de aro vermelho. Discreto e nem de longe a primeira opção para entrevistas, sempre aparentou indiferença ao sucesso estrondoso da banda, que integrava desde 1983 - Martin deve pertencer a algum Illuminati de músicos imunes à hype, ao exemplo de Krist Novoselic, Izzy Stradlin e John Frusciante.

Após a sua "retirada" do Fenemê no final de 1993, o guitarrista ingressou numa carreira discográfica errática, sobretudo low profile (intencionalmente, imagino). Primeiro, integrou o supergrupo thrasher Voodoocult, em 1995. No ano seguinte, montou o power trio The Behemoth. Lançou apenas um single antes de descobrir que esse nome já pertencia ao grupo polonês de black metal. Se trancou no estúdio e, em 1997, lançou este Milk and Blood, via Steamhammer.

Além da curiosidade em saber como o barbicha soava fora do Frankenstein sonoro que era o Faith No More, também era a oportunidade de identificar mais nitidamente suas digitais no som de seu ex-grupo. Heavy metal rasgado? Com certeza. Uma breve olhadinha nos créditos do The Real Thing basta pra ver que Martin contribuía a conta-gotas no processo de composição, mas a única música de sua autoria exclusiva era pra lá de sintomática: o thrash Surprise! You're Dead!. Isso, fora as co-participações em Zombie Eaters e Woodpecker from Mars, porradas de trincar o crânio que contrabalanceavam perfeitamente a cervical funk melody do disco.

Com esse background, surpreende que no DNA musical de Martin também brotem grooves em profusão. O álbum traz dez músicas próprias e dois covers. A faixa de abertura, Disco Dust, tem palhetadas rápidas sobre um ritmo cadenciado e os backings escarrados do ilustre convidado James Hetfield (o que acabou lembrando o White Zombie do álbum La Sexorcisto: Devil Music, Vol. 1). Na sequência, Fear e Dead seguem a mesma trilha de metal ritmado, por vezes se aproximando do pós-hardcore nova-iorquino, estilo Prong. Investindo em atmosferas mais esparsas e harmônicas, a faixa seguinte, Loser, é a quebra de clima. Guitarra melódica viajandona com levada remetendo às indie bands dos anos 80 (!). Cliff Burton, com quem Martin montou uma banda nos tempos de escola, certamente iria curtir.

A quase punk Barsoap Hair traz as guitarras de volta ao topo dos amps. É outra com backings do Hetfield. Em seguida, Mexican Sangwich, que parece material de (fita) demo. Ou sobra de garagem. O que for mais lisonjeiro, já que não é exatamente uma música ruim, tampouco sensacional. Já Navigator, cover eletrizante do The Pogues, é um cowpunk que também seria uma ótima ideia de cover pro Matanza. Clima festeiro total.

A seguir, Around the Sun, com seus 8 minutos, retorna ao clima relaxadão-riponga de Loser, só que num patamar muito mais melódico e progressivo. Bebe garrafadas da fonte do Pink Floyd de Roger Waters (na longa introdução e no andamento) e de Lennon/McCartney (no refrão). Som intrigante, com uma vibração meio mântrica/mística inesperada vinda dele.

Com levada à Caffeine, do FNM, Special Tea chega chutando toda a introspecção pro espaço. O clima pesa de vez com Fatso's World, um death metal lento e cavernoso com os vocais guturais de Jason Newsted (outro convidado metallico), e com uma regravação genérica de Surprise! You're Dead!. O álbum fecha com o "country apache" instrumental Hunter Shepard, sequência natural do som The Grade (faixa-bônus incluída no CD Live at the Brixton Academy, do Fenemê).

O máximo que se pode falar da cozinha escalada por Big Jim é que é competente. O batera Joe Cabral tem um naipe apenas modesto de tempos e não trabalha muito o kit, mas acaba se destacando frente ao baixista Brent Weeks, que se limita a acompanhar as linhas de Jim. Ambos levam uma borrachada de Mike Bordin e Billy Gould.

A engenharia e produção, a cargo do próprio Martin, até que surpreende e consegue reeditar a timbragem que sua guitarra sempre teve no FNM. Mas sai no prejú em relação ao Matt Wallace (produtor dos discos de maior sucesso do Fenemê), já que: 1º. não tem a malícia de um produtor de carreira; 2º. colocou o volume da bateria meia-boca acima do resto; 3º. não conseguiu dar uniformidade ao conjunto variado de ritmos, resultando naquilo que o Fenemê nunca foi em disco algum: irregular.

Descontando que praticamente todo debut solo é irregular e o fato de Big Jim mandar umas vocalizações bacanas (mesmo soterradas na produção), com urros neanderthais, falsetes, trechos quase falados e uns uivos coyotescos à Brujeria, até que sua performance individual é bastante divertida. Das letras, não posso opinar nada. Quando o vocal não está dobrado ou em último plano, está cheio de reverber. E nem achei no Google também - com exceção da Navigator (hino pra marinheiro zoar igual viking bebum em terra firme) e da Surprise! (discurso sádico para tosquiar vítimas no filme O Albergue).

É um CD que eu compraria (e ouviria muito ocasionalmente), caso um dia ganhasse edição nacional. Duvido que aconteça, assim como duvido que seja redescoberto em alguma onda revisionista B. O que, sinceramente, deve ser a última coisa que Jim Martin iria querer hoje. O cara raspou a pelagem sasquatch, saiu fora da festejada reunião FNMística e virou cultivador de abóboras gigantes. E é o 38º no ranking mundial!

Eat those, Syd Barrett.

segunda-feira, 7 de março de 2005

I AM WHAT I AM

...and that's all what i am!


É o Popeye, se fosse criado por Garth Ennis ao invés de Elzie C. Segar. Ambientação nos anos 30 e atmosfera dos primórdios áureos dos quadrinhos (tipo Os Sobrinhos do Capitão, Tintin e o marinheiro citado), mas carregada de escatologia, palavrões, ultraviolência e vileza, típicas de um Vertigo/MAX da vida. Assim é The Goon, cria do desenhista e roteirista Eric Powell. Começei a ler sem maiores expectativas, mas fui fisgado quase que de imediato... É divertidíssimo!

Goon é um aventureiro tough-guy e aparentemente superforte, mas sem maiores explicações (igualzinho ao Popeye em começo de carreira... o espinafre/soro-do-supersoldado foi criado na última hora quando o sailor man começou a fazer sucesso). Junto com Franky, seu manager e parceirão, Goon encara tudo quanto é tipo de missão (acredite... tudo mesmo) e tem uma coleção de inimigos tão variada quanto bizarra: psicopatas, mafiosos, vampiros, lobisomens, robôs, mutantes, monstros sub-aquáticos, ratazanas gigantes, feiticeiros, aberrações genéticas, demônios e principalmente... mortos-vivos em larga escala.




Talvez seja esse oceano de possibilidades que torna as aventuras tão divertidas. Ao mesmo tempo, a mistura - sempre espirituosa - de maniqueísmo (p&b) com mundo-cão (cinzento) é um dos pontos mais peculiares de sua narrativa. Ainda estou lendo a fase indie na Avatar Press, mas pelo que li na coluna de Érico Assis, do Omelete, ele já está em sua 10ª edição pela Dark Horse.

Outra coisa bacana são os 'folhetins educativos' presentes ao longo das HQs. Coisas do tipo "como arrancar o escalpo de um lobisomem" ou "adote um morto-vivo", que eu gentilmente destaquei aí embaixo... clique na imagem.


Eric Powell faz de The Goon um projeto autoral tão bacana quanto Mike Mignola com seu Hellboy ou, no mínimo, Erik Larsen e seu Savage Dragon. E pela trajetória lenta, mas sempre ascendente (o que é essencial), The Goon provavelmente será um hit dentro de alguns anos, com direito a adaptação para os cinemas e tudo. Deus me ouça!


E já que mencionei mortos-vivos... >:)

THE RETURN OF THE TRIOXYN


Você já assistiu isso antes... projeto ultra-secreto envolvendo armas químicas dá errado, e voilá... hordas putrefactas de mortos-vivos esfomeados à caça de cérebros frescos. Essa é a premissa de A Volta dos Mortos-Vivos 4: Necropolis e, caracas, A Volta dos Mortos-Vivos 5: Rave To The Grave. O primeiro filme da série, de 1985, foi uma pérola da nojeira bem-humorada. Já o segundo foi uma paródia acéfala (sem trocadilhos) do primeiro, sendo que este já era uma paródia dos filmes de George A. Romero. No terceiro filme, houve uma reinvenção até interessante, levada a cabo pelo insano Brian Yuzna (de Re-Animator).

Produzidos simultaneamente, o quarto e o quinto episódios ainda não têm data de estréia definida e, pela sinopse divulgada, é uma chupação violenta em cima de Resident Evil: O Hóspede Maldito (!!):

"Julian, Zeke, e seus amigos, são típicos estudantes do colegial curtindo um marasmo teenager-mauricinho, até que um terrível acidente de moto coloca Zeke no hospital, do qual ele desaparece misteriosamente e sem deixar vestígios. Seus amigos investigam seu paradeiro e tudo leva a crer que a famigerada corporação Umbrell... digo, Hybratech está envolvida. A Hybratech conduz perigosos experimentos com o composto Trioxyn-5, um poderoso agente químico capaz de despertar os mortos!"

...e blá-blá-blá...


Claro que isso é só uma desculpa pra que os desmortos sejam vomitados de suas covas apodrecidas e sairem em busca de miolos pulsantes (eu sei que miolos não pulsam, mas essa descrição ficou maneira!). O problema é que depois de pauleiras viscerais como Extermínio e Madrugada dos Mortos, ficou bem difícil pra série conseguir surpreender novamente o público fangore.

E dando uma de Grunge, do Gen¹³... se fosse eu no lugar do diretor Ellory Elkahem (Elka-quem?!), botava pra quebrar nas cenas de sexo (dezenas de playmates nuinhas em pêlo) e na violência escatológica (cérebros, tripas... tripas, cérebros...).

É, ué... às vezes a intensidade fala mais alto, e já que o roteiro é batidão mesmo...

Agora, o que eu não faria mesmo é colocar no filme um arremedo descarado do super-zumbi Nemesis. É, aquele mesmo de Resident Evil...


Mais triste ainda é ver o ótimo Peter Coyote (Lua de Fel) figurando no elenco desse filme pra lá de suspeito...

Bom... seja o que Ed Wood quiser.

A propósito, no site oficial tem um mapa da "genealogia living dead". Bastante elucidativo.


O mestre Romero está lá, devidamente centralizado. Eles tinham de ensinar essas coisas nas escolas!

:P


The next: the new fuckin' top 5!!

EVERGREY - THE INNER CIRCLE
(Hellion/2004)


Esse é bem recorrente aqui no top five, mas nunca comentei a respeito. E o negócio é o seguinte... todo o fã de rock pesado tem de ouvir esse disco. É quase uma obrigação didática. Há muito que as bandas da área tentam alcançar o tal álbum perfeito, tarefa que se tornou uma verdadeira caça ao Graal artístico. Não raro, o que se consegue são resultados assépticos, mecânicos e frios - embora "visualmente" magistrais. A harmonia idealizada entre técnica sobre-humana e energia emocional na música ainda está engatinhando, mas já encontra no Evergrey o seu grande representante. E The Inner Circle consegue atingir um nível ainda maior que seu excelente álbum anterior, Recreation Day (2003).

Thrash, progressivo, pop, soft rock, AOR, heavy tradicional, gothic metal e até gospel (!) comparecem de forma extremamente coesa, tornando a textura sonora do Evergrey um elemento único, superior. Esse disco (conceitual, aliás) só não é indescritível porque dá pra comentar ao menos uma coisa ao seu respeito: fenomenal. É impensável destacar apenas uma faixa, e o diamante In The Wake Of The Weary está aí para download como homenagem à sensacional vocalização soul de Carina Englund. Compre, roube, se vire.


THERAPY? - TROUBLEGUM
(A&M Records/1994)


Outro habitué dos 5+. Mas não tem como. O irlandeses do Therapy? cometeram um disco definitivo, atemporal. Calma... não é nada daqueles clássicos irretocáveis, hiper-complicados e altamente respeitáveis (e chatos!). Troublegum é um dos melhores discos de party rock dos anos 90 - incluindo-se aí uma lista de full-lenghts que vai dos clássicos Time's Up, do Living Colour, e The Real Thing, do Fenemê, ao Blood Sugar Sex Magik, do RHCP.

Troublegum é uma maravilha de sonzeira guitar rock. O trio formado por Andrew Cairns (guitarra e vocais), Michael McKeegan (baixo) e Fyfe Ewing (bateria), tira água de pedra com a antiqüíssima equação baixo-guitarra-bateria, com soluções criativas e efetivas (até hoje), repleta de ganchos perfeitos. E a banda não mede esforços. Rola de tudo: hardcore, thrash, power pop, surf rock, industrial rock, e um clima inequívoco de pop rock oitentão.

O Therapy? já fez discos memoráveis (High Anxiety, Infernal Love e a porrada federal Nurse), mas Troublegum é o que equilibra o melhor de uma banda dona de uma química incendiária. Pauladas como Knives, Screamager, Nowhere, Isolation, Trigger Inside - enfim, o disco inteiro - dão choque na alma e fazem bem ao corpo. Rock good vibration é isso aí.

E detalhe... tem a participação mais do que bem vinda de Page Hamilton, líder do Helmet. São dele os acordes de guitarra em Unbeliever. Cai dentro, meu chapa. Isso é trilha sonora de festa americana organizada por gente grande. Pra ouvir no talo.


CRACK UP - DEAD END RUN
(Moonstorm Records/2000)


Death'n'roll. Esse é um tipo de crossover que sempre viveu mais no conceito do que na prática, de fato. Formações extremas e experimentalistas como o Napalm Death fase Lee Dorrian, o Brujeria, o Agathocles e o genial (e sumido) Pungent Stench já bicaram o estilo, mas nunca o tomaram como estrutura-base - mesmo por quê, a viagem dos caras era outra. Restou à banda alemã Crack Up honrar a camisa e se tornar o maior (senão o único) representante do gênero. E não é que a coisa funciona às mil maravilhas?

Com a explosão típica do death jogando a favor de uma pegada rocker, a banda acaba mostrando o quão inédita e, ao mesmo tempo, simples é essa proposta. "Como é que não pensaram nisso antes?"... é a primeira coisa que vem a mente após ouvir pérolas do naipe de Maximum Speed, Dead Good Motherfucker, Better Dancer, Stallknecht, Evenflow (não é a do Pearl Jam!), Rock The Coffin', a sintomática It's Shit e a faixa-título.

Por vezes, a sonzeira parece pop demais (melodias à Beatles rolando ao fundo [!!], refrães pegajosos, riffs), mas acaba sendo incrível constatar que um estilo totalmente anti-comercial poderia rolar no volume 10 sem estranhar. E de uma forma bem mais íntegra do que um In Flames da vida (um Metallica do death).

O único porém desse disco do Crack Up é que eu tenho certeza que ele soaria ainda melhor se eu estivesse pilotando uma Harley Davidson na hora. Ou melhor ainda... esse V8 cavernoso da capa...


ASTRAL DOORS - OF THE SON AND THE FATHER
(Hellion/2003)


Jesus, Maria e José... Tenho até medo de escrever sobre esse que é um dos melhores discos lançados em 2003. Então, nada melhor (pra minha batata) do que expor meu background rockeiro... Existe - quase que sempre - um "interesse científico" da minha parte a respeito de vários estilos de Música. Mas o que eu mais ouço de forma constante e recorrente é o rock'n'roll old school, não tenho como negar. Thin Lizzy, Foghat, Bad Company, Free, Sabbath, Led Zep, Aero, - estamos chegando - Purple, Dio e... - chegamos - Rainbow. A instituição Ronnie James Dio, ao lado do mestre Ritchie Blackmore, integrou o Rainbow, uma das maiores bandas da História do Rock e referência atemporal - inclusive para dinossauros consagrados como Iron Maiden, Judas Priest e, puta que o pariu, acho que todo mundo da cena heavy atual.

E o quê isso tem a ver com o Astral Doors? A banda sueca é responsável pela atualização dessa vertente tradicional do rock, da melhor maneira que ela poderia soar se fosse concebida hoje pelas formações clássicas do Rainbow, do Deep Purple, do Uriah Heep ou mesmo do Jethro Tull. É heavy rock visceral, orgânico e autêntico, honrando o legado de bandas tão precursoras quanto Cream e o Blue Cheer. Pra quem é straight rocker, o Astral Doors seja talvez o grupo que mais atraia interesse em toda a cena, pois carrega consigo a responsa de um estilo que é um dos mais difíceis de compor e executar - já que o virtuosismo narcisista não tem nenhum apelo aqui.

Desde a abertura, com Cloudbreaker, seguindo com clássicos imediatos como a faixa-título (cuja levada, ao vivo, deve se comparar a Highway To Hell...), a maravilhosa Slay The Dragon, In Prison For Life, The Trojan Horse, Burn Down The Wheel, Rainbow Your Mind e a incrivelmente ganchuda Man On The Rock, esse disco é absurdamente essencial nesses dias tão artificiais e descartáveis. É o feeling e o calor da paixão trazidos novamente para dentro do rock'n'roll. Já não era sem tempo.

"I'm a Man On The Rock... Like Jesus Christ...!!"


...TRAIL OF DEAD - SOURCE TAGS & CODES
(Interscope Records/2002)


Duas verdades... uma - o nome da banda é "And You Will Know Us by the Trail of Dead"... e duas - você precisa conhecê-la. E foda-se o que você miseravelmente caracteriza como estilo, gênero ou abordagem. Foda-se. Foda-se. Foda-se. Não cometa o erro que eu cometi. Essa banda está acima do bem ou do mal, acima de contextualizações. Ela apenas é. ...Trail of Dead, por algum acaso, se utiliza da permissividade outsider rock para dar continuidade a sua cartarse niilista seek and destroy cíclica, a dicotomia auto-impingida, a auto-destruição, ao nirvana. Sources Codes & Tags é mais do que um álbum. É uma experiência, uma bad trip da lisergia movida a feedbacks de acordes saturados. É como tocar o próprio cérebro em um mundo mágico do impossível.

É fatalismo feito onda sonora.

É uma forma de vida.

É perigoso.

...Trail Of Dead transcende tudo isso e esse álbum ainda não é o suficiente.

Sem mais.

Embarque.


dogg... insane in the fuckin' brain

quinta-feira, 25 de novembro de 2004

Antes de dissecar o novo do Helmet, uma citação à um post que li no .:Weapon X:., do compadre .:Logan:. (fala, sumido!). Particularmente, não faço uso do copy/paste, mas essa merece. Ladies and gentlemen... mr. Eddie Vedder:

"Li um artigo de um músico que respeito, o Alice Cooper, em que ele fala que os músicos realmente precisam se manter à parte das discussões políticas. Segundo ele, isto é uma idiotice. Quando ele era criança e seus pais começavam a falar de política, ele corria para o quarto e colocava Rolling Stones no volume mais alto que podia. Eu concordo com o Alice. Não creio que algum de nós quisesse estar fazendo isso tudo... Mas o meu problema é que o volume do meu som não aumenta o suficiente para abafar o som das bombas que caem no Oriente Médio!"

Cara... depois dessa, Eddie é meu bróder.

O TAMANHO DO BARULHO


Page Hamilton, estourando tímpanos ao vivo

Quando apareceu em 1992, com o estouradaço Meantime, o Helmet foi chamado de muita coisa: "reinventores do rock", "o próximo Nirvana", "a banda mais pesada do mundo", "o futuro do death metal", etc. Claro, boa parte disso é viagem de publicitário doido pra faturar algum em cima do hype, mas alguma coisa é verdade, mesmo que relativa.

Com um inovador mix de metal, jazz, noise, experimentalismo e vocais que passeavam da leveza melódica ao urro tipicamente hardcore, o grupo nova-iorquino foi o primeiro de uma geração inteira de bandas de rock. Tudo o que se ouve por aí hoje passa pelo que o Helmet já fez antes. O grunge, o stoner e até o decadente nu-metal. As características mais evidentes eram os riffs estilo "pára-e-começa" (no qual o também new yorker Prong foi precursor), o andamento quebradão das músicas, fraseados jazzísticos e afinação baixa.

Mal comparando, era como se o Black Sabbath fase Ozzy Osbourne tivesse surgido na década de 90. A banda tinha um talento nato para esculpir músicas certeiras, movidas a riffs minimalistas e matadores. São dessa época pauladas como Sinatra, Ironhead, a maravilhosa Give It, o clássico noventista Unsung, a memorável Just Another Victim (parceria com os rappers do House of Pain), Wilma's Rainbow, Milquetoast, Birth Defect... a lista de sonzeiras marcantes não tem fim - mesmo que a crítica dita "especializada" não tenha a mesma opinião.

Após uma reclusão de 7 longos anos, a banda retorna com o aguardado Size Matters (Interscope/2004). Aliás, "banda" em termos, visto que o único remanescente original é o guitarrista e vocalista Page Hamilton. Egresso da cena experimental underground nova-iorquina (já tocou na Band of Susans e na orquestra de guitarras de Glenn Branca), Hamilton sempre exibiu virtuosismo por baixo das toneladas de distorção. Ele, declaradamente, é a mente e o coração do Helmet, contrariando os saudosistas da excelente formação original. Além de Hamilton, seguem o guitarrista Chris Taynor (do Bush, lembra dele?), o baterista John Tempesta (Testament, Rob Zombie e Exodus, um arroz-de-festa metálico) e o baixista Frank Bello (aquele mesmo do Anthrax).

Agora o disco. Size Matters tem um mundo nas costas pra carregar, e o cumpre em boa parte. Mesmo longe de ser o melhor do Helmet (título que pertence ao Betty, de 94), SM é imensamente superior aos paddawans do rock atual. Estão lá o peso irreprimível, a intensidade e o ritmo psicopático que nos acostumamos a esperar da banda. Sinal que Hamilton realmente era o testa-de-ferro. Colecionando pencas de críticas ruins por aí, o álbum só surpreende pela mudança da entonação vocal. Os vocais de Hamilton não trazem mais aquela calma aterradora atrás de uma parede de guitarras saturadas, o que é uma pena. Ele está bem mais melódico, tentando acertar o tal "refrão definitivo" - coisa que ele fazia sem nem ao menos tentar.

Daí saem momentos apenas razoáveis, como See You Dead, Drug Lord, Enemies e Surgery. São boas canções, mas muito aquém do padrão estabelecido pela banda. Por outro lado, a velha energia do Helmet transborda nas outras faixas: a excelente abertura, com Smart (uma pedrada!), Crashing Foreign Cars, Unwound (essa sim, um belo exercício de harmonia), a revoltada Everybody Loves You, a desalinhada Speak and Spell, a cadenciada Throwing Punches e o fechamento chutadão com Last Breath (minha preferida).

Um bom disco, mas que fica bonzão, se você levar em conta que é o primeiro deles após quase 10 anos. "Ô dogg, dá a nota logo aê pô." Ok: 8/10.

Site oficial

Curiosidades (BZ também tem seção "Contigo" agora!): Page Hamilton namora com Winona Ryder, tradicional maria-cabelo (apesar dele ser careca) e eterna pé-frio de ex-rockeiros consagrados; A banda Soulfly (do Max Cavalera) gravou um cover para In the Meantime, e o Deftones regravou Sinatra; Al Jourgensen, líder do Ministry, já fez um remix para o hino Unsung; O Helmet já fez uma versão para o tema do clássico desenho Gigantor, que saiu no álbum Saturday Morning, só com bandas coverizando temas de desenhos animados.

Bandas contemporâneas relacionadas em sonoridade: Prong, Therapy?, Ministry e Sepultura fase Chaos AD.

Discografia: Strap It On (1990), Meantime (1992), Betty (1994), Born Annoying (1995, coletânea de lados B), Aftertaste (1996), Size Matters (2004).



COM MUITO ORGULHO, COM MUITO AMOR


Pô, nem sei como comunicar isso sem ficar parecendo uma auto-promoção descarada. Mas vou me auto-promover descaradamente assim mesmo: texto escrito por este que vos escreve, no portal dos Melhores do Mundo. Lá eu explico porque o Clark nunca fez um ménage-à-trois com Lois e Lana. É só clicar nessa simpática caveirinha logo abaixo.


Ps.: Essa caveira não tem absolutamente nada a ver com o texto, mas como eu sempre quis publicá-la aqui... Pretexto bem chinfrim, eu sei. :P

quarta-feira, 8 de setembro de 2004

AOS 48 DO 2º TEMPO


Wildcats Version 3.0 foi cancelada na edição #24, após mais uma tentativa de recuperar a posição que a equipe ocupava na década passada. Na verdade, eu sou a pessoa menos indicada para guiar alguém no universo do supergrupo. Sempre os achei um dos símbolos máximos de uma era em que o que contava eram músculos aditivados, poses olímpicas e uma explosão a cada dois décimos de segundo. Nada de roteiros inovadores ou da inventividade e ousadia de gente como Grant Morrison, Warren Ellis e Mark Millar.

Já até comentei isso uma vez, mas o fato é que era decepcionante conviver com o fantasma da Image, e ter de ver medalhões como a Marvel e a DC se adequando às novas regras impostas por McFarlane, Liefeld e cia. Ver escritores com um passado de glórias, como Chris Claremont, se limitando a seguir a tendência e exterminar em série personagens importantes. E olhando para o universo "tradicional", a situação só piorava. Desmembraram os X-Men em zilhares de formações (deveriam ter mudado o nome pra Z-Men), mataram Hal Jordan e Clark, clonaram o Parker, não conseguiram reformular o Steve Rogers. Cara... foi uma época inesquecível, no pior sentido da palavra.

Pra não dizer que foi tudo ruim, as super-heroínas estavam mais gostosas do que nunca. :P


Tudo bem, existe uma legião que idolatra o Jim Lee, principalmente por ele ser "só" o desenhista, mas acho que, nesse caso, o estrago transcendeu o nanquim. Conhece o jargão "uma imagem vale mais do que mil palavras"? As grandes editoras de HQ norte-americanas conhecem, e muito bem. De qualquer forma, isso não vem ao caso.

O fato é que hoje, após o hit estrondoso que foram os Ultimates, a redescoberta de Alan Moore pelo mainstream, e uma renovada percepção de história como fator predominante (Y - The Last Man, Global Frequency, linha MAX, tudo de Neil Gaiman e do selo Vertigo), certas posições estão sendo reavaliadas. Foi o caso do Spawn, do Youngblood e dos Wildcats, que, após uma década inteira de "party everyday", não conseguiram sair da dolorosa ressaca noventista.


Levada a cabo pelo talentoso Joe Casey, a nova - e breve - empreitada dos Wildcats tem como palavra de ordem "realismo super-heroístico". Curioso pela matéria escrita por Érico "difícil de agradar" Assis, fuzilei o DC++ em busca da versão 3 da ex-menina dos olhos da Wildstorm.

Não li tudo, mas já deu pra ter uma boa idéia. Realmente, os pés estão (bem) mais no chão. É tudo muito parado em relação ao carnaval que eram suas antigas aventuras. Mas tem razão de ser. O que não faltam são diálogos quilométricos, conspirações empresariais, espionagem industrial, subcríticas ao capitalismo selvagem e, pasmem, superpoderes também. Achei até que não veria alguém disparando um raio de energia lá. Particularmente, eu gostei. Nunca imaginei que fosse dizer isso um dia, mas eu realmente gostei dessa nova série dos Wildcats.


Apesar da inicativa louvável, o público americano não acolheu muito bem o novo modus operandi dos heróis e remanejou o seu orçamento para outro título (tsc!). Como escreveu Érico "difícil de gostar" Assis, houve uma tentativa de resgatar o público com um arco mais agitado, chamado Coda War.

Não tinha chegado lá ainda, mas não fiquei na fissura. Baixei logo a #19 (edição de estréia da aventura), e o que vi foi um tour de force alucinante, digno das melhores seqüências de ação do Cinema. Imagina (olha só a minha viagem) The Bride (Kill Bill), Boba Fett (Star Wars) e o sisudo Bateau (Ghost in the Shell), se enfrentando naquela batalha em alta velocidade do começo de Akira (o mangá). Um verdadeiro rolo-compressor. Pouquíssimos diálogos e muito sangue. É só porrada, do início ao fim.

Infelizmente, a reação chegou tarde. Wildcats v3 já partiu dessa pra melhor, mas teve uma das melhores tentativas de recuperação de público que eu já vi. Já repassei essa edição-seqüência mentalmente umas 5 vezes em live-action. O "elenco" é aquele mesmo que eu escrevi.

Vale a pena conferir. Só não traduzi por dois motivos: 1 - Poucos diálogos; 2 - Muita preguiça.

01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23

Reup do arquivo cbr (mesmo scan da época) - 06/09/2017

PS.: Diminuí um pouco o tamanho das páginas. Os scanners gringos fazem seus scans do tamanho de uma pessoa real. Será miopia em massa?


SEPARADOS HÁ MUITO, MUITO TEMPO, NUMA MATERNIDADE MUITO, MUITO DISTANTE...


Clique nas imagens pra vê-las no modo "american scan"

O tipo da coisa que só passa pela minha cabeça. E como não poderia deixar de ser, vou compartilhar aqui também. Alguém reparou na semelhança entre o General Grievous (novo vilão de Star Wars) e aquela criatura biomecânica da capa do álbum de estréia do Probot (mega projeto paralelo do Dave Grohl)?

Olhando pra capa do CD e para o design do "maior matador de jedis do Universo", notei algumas similaridades físicas entre os dois. Até a marca cruzando os olhos é parecida (no Probot é do meio pra baixo, no Grievous é do meio pra cima). A arte de capa do Probot foi feita por Away, batera do Voivöd.

O mais interessante é que ao fundo há uma espécie de cidade, com arquitetura bem ao estilo do personagem. Poderia ser o planeta natal do General Grievous também. :P


dogg, curtindo a sonzeira de Eliades Ochoa, um dos coroas do Buena Vista Social Club. Música tradicional cubana com umas doses de tequila. Bom demais.