quarta-feira, 15 de junho de 2005

DEVORADOR DE PECADOS É VILÃO DE GENTE GRANDE



Mudando um pouquinho o assunto dos posts, resolvi falar um pouquinho de quadrinhos. Não sou um cara que tem cultura de HQ do tipo vanguardista, procurando novidades aqui e ali que te deixam atordoado. Normalmente as revistas que li deste gênero são todas apresentadas pelo Doggma (Chosen, Wanted e WE3 são bons exemplos), então minha iniciativa fica mais na linha comercial popular mesmo, com clara tendência para o mundo mais "a vida como ela é" da Marvel (ou ao menos como a vida consegue ser, assumindo que há super-heróis em tudo quanto é canto).

Este negócio de HQ é um vício danado. Comecei lá pelos 7 anos de idade e dura até hoje, 21 anos depois. Comprava revistas direto, afinal o velho formatinho Ebal, depois Abril, era baratinho, cabia no bolso. O tempo passou, os preços começaram a ficar indigestos e, lá por 93 ou 94, decidi que este vício precisava ser controlado. Vendi toda a coleção por uma ninharia na GibiCenter, sebo que tem no Méier. Isto posto, achava que me livraria da maldição, mas dois meses depois comecei um estágio e, com o dinheiro entrando, as revistas voltaram e o remorso por ter vendido caixas e caixas duramente colecionadas (só sobrou a coleção do Homem Aranha 2099) veio com força. Recomecei a coleção já sem tanto fôlego para resgatar as antigas, mas mantive o ritmo até ano passado, quando o peso no orçamento mostrou-se comprometedor e as maravilhas gratuitas e up to date do DC++ me convenceram a gostar de ler na tela, aposentando as revistas reais.


Uma das coisas que mais impressionaram ao longo do tempo foi a sensação de ter nascido na época certa de resolverem envelhecer as revistas também. Em 84, quando comecei a ler quadrinhos, o mercado já tinha seus 24 anos de estrada realmente comercial. Batman, Super-Homem, Namor, Capitão América e outros já existiam nos 60's, mas o boom no mercado surgiu e espalhou-se como uma espécie de metástase de heróis que Stan Lee provocou nesta década.

Com a experiência em sebos, percebi que na minha iniciação no mundo dos quadrinhos a linguagem deste veículo muito pouco havia se atualizado ou envelhecido em comparação com aqueles diálogos simples e infantis de antigamente. O foco do mercado ainda era as crianças e tudo foi mudando exatamente com o tempo em que minha percepção das coisas também amadurecia. Um dos marcos desta evolução percebi um ou dois anos depois com a Graphic Novel Deus Ama, Homem Mata (God Loves, Man Kills) dos X-Men, onde, pela primeira vez, vi os mutantes em ação. Pouco depois tive um choque ao ver a seriedade, diálogos, arte, roteiro e dinâmica de Wolverine & Destrutor: Fusão (Wolverine & Havok: Meltdown). Infelizmente as séries mensais não mantiveram este nível, mas a maturação dos personagens mostrava-se clara.


Diversas obras vindouras mantiveram o processo, com roteiros cada vez mais intrincados e dependentes da cronologia pregressa, desenhos, arte-finalização e diagramação avançando progressivamente nos detalhes e realismo (aham... tá certo que temos Rob Liefeld para ser a exceção que confirma a regra), entremeados por diálogos cuja complexidade passa longe da molecada. Culminando no cenário atual onde não há mais volta na cronologia tradicional. Os roteiros distanciaram-se muito do foco infantil, tornando difícil a assimilação e forçando as editoras a tentar estratégias que sempre desviam-se do foco original. Novos Titãs, Novos Mutantes e Young Avengers, cada um ao seu tempo, pretendiam alcançar este público e, mesmo tendo esta linguagem mais "jovem", sua interligação com o universo Marvel/DC os envelhece.

Temos então a iniciativa da Marvel de arregimentar novos leitores ao recomeçar cronologias com sua linha Ultimate. Uma linha que pretendia ser lida por novos olhos acabou tornando-se coqueluche das vistas cansadas de sempre, com versões superando originais através de histórias atualizadíssimas seja no assunto e roteiro, seja na violência que caracteriza o que chamamos de "hoje em dia". A solução veio então na forma de revistas com os heróis tradicionais sem qualquer ligação com as cronologias conhecidas, usando linguagens infantis que o público em questão exige. Não sei se vingou, mas como o mercado está viciado, só o tempo dirá.



Novos Mutantes, Novos Titãs e Young Avengers


Neste envelhecimento do universo de HQ, é interessante perceber que, por envelhecermos juntos, não percebia a inocência dos diálogos de outrora, já que sempre me identificava com as histórias. Hoje, relendo clássicos de antigamente como a Saga da Fênix, percebemos que os diálogos não se comparam com os de hoje, apesar de a história ser irrepreensível. A memória prega peças e causa algumas decepções, mas tudo isto serviu para falar o que se segue:

Meu personagem preferido é o Homem-Aranha. É o cara mais "real" do universo de histórias em quadrinhos tradicional, com contas para pagar, desemprego para lamentar e outras coisas que apenas quem "só se phode" reconhece. Seu início de carreira era realmente infantil, mas sua maturidade veio sendo percebida em saltos e marcos, como A Morte de Gwen Stacy, Guerras Secretas e a experiência com o simbionte, o casamento com Mary Jane e outros. Ainda hoje percebo que o Aranha dos títulos próprios é mais maduro que o Aranha de sagas globais, crossovers e participações em revistas alheias (exceção feita nas revistas do Demolidor). Na linha de marcos da maturidade do Aranha, há um que não é tão reconhecido pelo público, mas que considero a principal fase de transição do Aranha bobo para o Aranha adulto. E esta história é o arco da Morte de Jean DeWolff.




O arco foi publicado lá fora nas revistas Spectacular Spider-Man #107 a #110 com roteiro do megafodônico® (Alcofa rights reserved) Peter David e desenhos competentes à moda antiga de Rich Buckler. Publicado no Brasil pela Abril Jovem nas revistas O Espetacular Homem-Aranha #87 e #88, logo após a edição em que o aracnídeo enfrentou o Senhor do Fogo.

Jean DeWolff era uma capitã de polícia que, coisa rara, reconhecia no Aracnídeo um herói, trabalhando em cooperação. Com o tempo passou a nutrir afeição ao homem por trás da máscara, sentimento não percebido por Peter, mas que correspondia com sincera amizade.




Às vésperas da Guerra de Gangues, ânimos começando a se exaltar, ocorre a morte da capitã de polícia. Dias depois ocorre a morte de um juiz americano, assassinato cometido sob testemunho de Matt Murdock, o Demolidor. Outros assassinatos ocorrem em meio a uma trama muito bem engendrada, com tensão tangível e manipulações inteligentes. Tudo isto prova que não é necessário um vilão super-poderoso e sim um roteiro inteligente.

O arco foi responsável ainda pelo rompante de fúria de Peter Parker mais violento que já vi, com direito a porradaria entre heróis realmente interessante, com desenrolar próximo do que crê-se possível em um mundo real. É aqui também que Demolidor e Homem-Aranha sedimentam sua amizade, e é quando DD descobre qual a atividade alternativa de Peter. Seria a história perfeita para ser adaptada para as telonas quando a Sony resolver fazer a transição do personagem live-action da pós adolescência para herói adulto. Certamente o crossover seria impossível, já que DD é da FOX, mas daria para adaptar a história.


Colocaria aqui as revistas para download, mas são 45 Mb e não arrumei espaço de jeito nenhum.

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