domingo, 16 de junho de 2019

Eu traí o movimento punk, véio!


No atual pega-pra-capar da Panini em busca da liquidez perdida, tanto a oferta quanto a demanda têm ensaiado um desencontro sem precedentes. Ao menos é que tem sido comentado ad nauseum em redes sociais e canais do YouTube. Provavelmente nem sempre é verdade - ou você acha que a editora já não teria puxado o freio de mão, ao invés de jogar mais dinheiro na fogueira? - e, pessoalmente, faço o meu mea culpa: encomendei minha edição de Marshal Law - Edição Definitiva diretamente pelo site da Panini (eufemismo para "pode meter tudo e sem vaselina") logo que pus meus olhos pidões no volumão. Uia.

No meu caso, nem foi opção. Não só amo o Pat Mills, como pulo a cerca com o Kevin O'Neill. Marshal Law sempre foi um dos meus quadrinhos do coração. E foi amor à primeira vista, já que é também o 1º gibi de ultraviolência que li na vida. Ultraviolência na concepção de 1987, claro, mas que batia maravilhas em 1991, quando foi publicado aqui pela Abril. E ainda uma delícia de incorreção política em 2019.

Com prefácio bem sacado de Jonathan Ross (traçando um paralelo de Mills/O'Neill/Law com o punk rock, veja só) e posfácio do próprio Mills, a edição é trampadíssima, trazendo tudo o que já foi publicado do Matador de Super-Heróis - menos os crossovers intereditoras e os livros ilustrados.

É uma belezura.



Com o verme temporariamente fora de ação, agora é só colocar uma playlist punk/hardcore e mergulhar nesse tratado de anarquia no future.

E, claro, rezar pra não ver muitos erros de revisão...

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Música, Ídolos e Midani


André Haidar Midani
(1932 - 2019)

Não me estranha que a partida de André Midani, ontem, 13 de junho, tenha repercutido muito mais pela "grande mídia" do que pela "baixa mídia". Embora qualquer brasileiro acima dos 30 anos tenha vivido e respirado o trabalho de Midani durante toda a vida, a maioria nunca se deu conta disso. Ex-gigante da indústria fonográfica e incrivelmente low profile, Midani participou e moldou a história da música brasileira como um Forrest Gump tupiniquim. Tupiniquim sírio, mas brasileiro com honra ao mérito da malandragem e da boa lábia.

Uma enorme parte do que esse país já produziu de música pop desde 1955 (!) foi por intermédio dele. Isso inclui não apenas discos e artistas, mas gêneros musicais, abertura internacional e modernização da indústria, mesmo com os inúmeros bloqueios da ditadura.

Falar do trabalho de André Midani com artistas é até demais pra comentar. Passou pelo seu crivo uma verdadeira constelação, indo de Tom Jobim, Elis Regina, João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jorge Ben Jor a Tim Maia, Guilherme Aranhtes, Erasmo Carlos, Raul Seixas, Camisa de Vênus e quase todo o Rock Brasil dos anos 80. E isso nem é o começo.

Como leitor véio de publicações musicais, como a finada Bizz e qualquer Caderno Dois ao alcance das mãos, já conhecia o peso e a importância do nome Midani. Mas não tinha ideia do tamanho do peso e o tamanho da importância. Pelo menos até ler Música, Ídolos e Poder: do Vinil ao Download (Ed. Nova Fronteira), que ele escreveu e lançou em 2008.

Meu objetivo era pesquisa, pura e simples. Queria retroceder na timeline da música pop brazuca, até descobrir "o que havia antes". O que tocava no rádio. O que as pessoas cantarolavam por aí. O que era um hit do verão brasileiro no início da década de 1950, muito antes da Bossa Nova, da Jovem Guarda, do Tropicalismo.

Como seria a figura de um popstar nacional daquela época? E o que acontecia ali que sobrevive até hoje, contra todas as probabilidades?

O livro me respondeu a todas essas questões e ainda me ofereceu uma visão muito mais ampla da indústria e, por que não, da essência do nosso país. Fora que é um belíssimo relato de uma vida plena e fora-de-série - se você não se emocionar logo nas primeiras páginas com suas memórias de criança se esgueirando por uma França sitiada pelos nazistas, é porque você tem um pedaço de barbante no lugar desse coração de gelo.

Até concordo com algumas críticas reclamando da excessiva discrição de Midani. Boa praça, no livro ele pouco se aventurou por algum caso mais polêmico envolvendo nossas queridas estrelas. Se tivesse contado 2% do que sabia e do que já viu em todas essas décadas de mainstream canarinho, provavelmente o palco iria desabar. De novo.

Mas a pegada é outra, igualmente recompensadora. E há poucas referências com tanto conhecimento de causa no que tange ao tino para os negócios.

Escolhi um trecho que serve como lição pra vida (especialmente dos sonhadores):

"Os danos que os tecnocratas estão causando à indústria fonográfica, ao cinema, à TV, às publicações, à Broadway e às empresas de publicidade têm que ser confrontados pelos líderes criativos de amanhã, antes que seja tarde. Terão que inverter o lema “lucros e criatividade” para “criatividade e lucros”. No entanto, para alcançar esse objetivo, deverão aprender a entender, e até gostar, do mundo das finanças para se tornarem presidentes de suas organizações, descobrir o prazer de estudar os balanços financeiros das suas empresas, ler através dos números e compreender o que significam. 
Richard Branson, os irmãos Weinstein, Ted Turner, Steve Jobs, Bill Gates, Larry Page, John Hegarty são alguns exemplos que podem servir de inspiração. Os líderes criativos vão ter que aprender a ser tão impiedosos quanto os tecnocratas, aprender o linguajar de Wall Street e convencer todo esse mundo de que somente a criatividade genuína e o planejamento a longo prazo levam a uma lucratividade segura e duradoura. Vão ter o desafio e a responsabilidade de inverter os papéis e conseguir que os tecnocratas trabalhem para eles, em vez deles trabalharem para os tecnocratas."

Descanse em paz, Midani. E obrigado por tudo.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Typhoid Ann

Ann Nocenti, minha heroína particular e reserva moral da Superaventuras Marvel, deu uma entrevista bacanuda para o podcast Women of Marvel.


O episódio completo pode ser conferido abaixo...


...ou aqui, para fazer um agrado às garotas com um buquê de page hits.

Jornalista, roteirista e ex-editora na Marvel, Nocenti sempre rendeu ótimas entrevistas. Ela não é de fazer média: normalmente solta o verbo até o limite possível antes de incomodar (muito) alguém, mas sempre com franqueza e bom humor adoráveis. E, mais importante: zero frescurite. Talvez seja herança da época pré-redes sociais, quando as pessoas conversavam olhando nos olhos e não se ofendiam tão fácil.

Sendo assim, salta aos ouvidos como as podcasters Sana Amanat e Judy Stephens desperdiçam o Fator Nocenti para um bom papo de boteco. Apesar da eventual quadrinhista se mostrar articulada e generosa, a condução é respeitosa e bem chapa branca. E termina dez minutos antes do tempo regulamentar. Sintomático.

Ainda assim, Nocenti fala bastante sobre sua juventude lendo velhas antologias do Pogo (o Bone original) e do Dick Tracy - cujos inimigos caricatos e disformes lhe criou um fascínio por vilões e monstros ainda criança - e sobre a dinâmica interna da Marvel com alguns causos de bastidores da era Jim Shooter - o ponto onde a entrevista poderia ter virado puro rock & roll, não fossem as comportadas apresentadoras/funcionárias da editora.

Outros pontos interessantes: a importância de Louise Simonson e da grande Marie Severin em sua carreira, a perícia de Archie Goodwin em mecânicas de plots, a ocasião em que Mark Gruenwald a pediu para matar a Mulher-Aranha logo num de seus primeiros trabalhos, como é a transição de editor-assistente para mentor ("e então você se demite"), suas crias (Longshot, Mojo, Espiral, Coração Negro), a influência de Chris Claremont na composição de personagens femininas fortes e os conselhos de Dennis O'Neil - também um jornalista - sobre como inserir questões políticas e sociais em gibis de super-herói.

Um dos trechos em que fica evidente a diferença entre as cascas-grossas gerações 1970-1980 e a superprotegida geração pós-milênio, é quando ela comenta sobre a "experiência de campo" necessária para contar uma boa história - coisa a própria Ann conhece bem. Curiosa também era a estratégia quase suicida do processo criativo. Com deadlines absurdas e trabalhando literalmente madrugadas adentro, "trazíamos muitas ideias malucas porque achávamos que elas iriam acabar numa lata de lixo".

A melhor parte, pra mim, é sobre os primórdios da relação com John Romita Jr. e a escalação da dupla, por intermédio de Ralph Macchio, para assumir o Demolidor pós-Miller/Mazzucchelli. Uma senhora responsabilidade. E, claro, o trecho onde que ela fala sobre uma de suas maiores personagens: Mary Tyfoid.

Segundo ela, a vilã tem uma dualidade e contradição equivalentes às do próprio Matt Murdock/Demolidor, que, por sua vez, ainda tem uma queda por garotas malvadas. Tal qual o Destemido, Mary lida o tempo todo com um reflexo distorcido dela própria. E Nocenti não se furtava em ir fundo na ferida. Isso bate com a impressão que sempre tive da personagem, cuja complexidade ia muito além do perfil crazy bimbo de uma Arlequina, por exemplo.

Perturbação de identidade dissociativa num contexto pop com super-heróis e supervilões? Você já via (lia) muito antes de Shyamalan e a trilogia Corpo Fechado.

Num dos meus trechos favoritos, Nocenti reflete sobre a evolução de Tyfoid, ficando mais e mais sombria até virar uma matadora de homens. Ou, nas palavras dela, "alguém que poderia invadir um abrigo para mulheres e checar nos arquivos o que cada homem fez com cada mulher e então ir atrás deles para retribuir cada ferimento".

Uma excelente ideia.


Lógico que a Mary Tyfoid é uma das minhas vilãs do coração. E a primeira a conquistar um lugarzinho na (disputada) estante...

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Mãos à obra, pessoal!


Pessoas da sala de justiça de jantar, como alguns já devem ter percebido há mais ou menos dois anos o Vertigem está parado, entre os diversos contratempos para esta paralisação é que o principal administrador do site, Von Dews, encontra-se com problemas de saúde, problema este que lhe afetaram a visão; a doença retinopatia diabética esta levando-o a cegueira.
Dessa forma parentes e amigos de sua cidade natal estão organizando uma "vaquinha" para que seja feita as cirurgias a fim de lhe recuperar sua qualidade de vida, assim sendo, viemos aqui pedir o auxílio aos diversos frequentadores e adeptos do site Vertigem HQ que se interessem em ajudar possam colaborar com esta "vaquinha" no link abaixo e na conta:
https://www.vakinha.com.br/vaquinha/578529
Caixa Econômica Federal
Agência: 0099
Operação: 013
Conta Poupança :164669-0
Agradecemos a colaboração e apoio de todos. Mesmo que não se possa ajudar, por favor, compartilhe este post. O Von Dews só tem a agradecer a esses mais de 10 anos de existência do site.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Retrospec Maio/2019


2/5¹ - O crossover entre o Quiróptero das Trevas e os Quelônios Ninja migra das HQs para a animação. Difícil vai ser distinguir as ruivas (naturais?) April O'Neil e Barbara Gordon. Cowabatman!

2/5² - Estreia em 24 de junho a 3ª e última temporada de Legion pela FX. Segundo a network, o showrunner Noah Hawley havia mesmo concebido a série para fechar em 3 temporadas. Acredite se quiser.

2/5³ - O trailer e o visual do live-action Sonic the Hedgehog ficaram tão ruins que o diretor Jeff Fowler até agradece a sinceridade.


3/5¹ - Carol Danvers e Vampira agora são M.A.P.S. (melhores amigas para sempre).

3/5² - A morte de Rahne Sinclair, a Lupina, em Uncanny X-Men #17 inicia um bafafá transfóbico dos diabos. Em pânico, o roteirista Matthew Rosenberg twitta correndo uns panos quentes com óleo de amêndoas e massagem Nuru. Ps: a morte de um x-man não é spoiler!

3/5³ - Druuna, da editora Pipoca & Nanquim, sai em pré-venda por R$ 109,90 cada volume (mais caixa) e por R$ 120,00 no valor de capa. Desse jeito vai ser difícil estimular algum volume com esses volumes.

5/5 - Vingadores: Ultimato vira um iceberg no sapato de Titanic e se torna a 2ª maior bilheteria de todos os tempos. Agora "apenas" 600 milhões de trumps o separam de Avatar e do posto de King of the Wooorld!!.


6/5 - Tom Holland adverte todo mundo sobre spoilers de Vingadores: Ultimato antes do trailer de Homem-Aranha: Longe de Casa. É a teia lançando a aranha. Inversão de valores issaí, talquei.


9/5¹ - James Cameron se mostra bom esportista, mas não parabeniza os Russos diretamente. Eu vi o que você fez aí, Jim.

9/5² - Jason Aaron e Goran Parlov estão tramando algo. E eu quero.

10/5¹ - Se vai Miguel Angel Repetto, aos 90. Fumettista emérito, o argentino trabalhou com Héctor Germán Oesterheld e estudou arte com o próprio Alberto Breccia, além de ilustrar Secret Agent X-9, de Alex Raymond. A partir dos anos 1990 passou a colaborar com a Sergio Bonelli Editore e se tornou um dos artistas mais celebrados de Tex. Um mestre da 9ª Arte.

10/5² - Nem os pards resistiram aos caras-pálidas da Salvat: segundo o Tex Willer Blog, a Coleção Tex Gold será encerrada no volume 40, faltando uns 20 volumes pela frente e sobrando uma bela ilustração incompleta na lombada. Quando alguém consegue fracassar vendendo Tex no Brasil é porque a coisa está feia mesmo.


11/5 - Se vai o ator e comediante Lúcio Mauro, aos 92. Dono de uma longeva carreira, Lúcio foi um dos artistas mais prolíficos da velha guarda da televisão brasileira. Da minha geração, são inesquecíveis os personagens Da Júlia (o assessor do "divo" Alberto Roberto, de Chico Anysio) e o eterno Aldemar Vigário, da Escolinha do Professor Raimundo. Gênio.


13/5 - Doris Day faz a sua passagem, aos 97. Atriz, cantora, ativista pelo bem-estar dos animais e talvez a mais famosa All-American Girl do cinema - ou namoradinha da América, se preferir. É parte essencial da história cultural do Século 20. E uma das melhores aliterações da paróquia.


14/5¹ - O sumido Genndy Tartakovky (Samurai Jack, Star Wars: Clone Wars) retorna (do inferno?) com Primal, via [adult swim]. É sangue nos zóio!

14/5² - Jello Biafra se manifesta sobre a polêmica amarelada do cover do Dead Kennedys no Brasil. E arregaça tanto que dá até pena dos ex-companions. Nah, brincadeira... dá pena não.

14/5³ - Jonathan Hickman estala os dedos e toda a linha mutante da Marvel é reiniciada.


15/5 - A Renault finalmente lança sua ação publicitária Caverna do Dragão e coloca fim à interminável boataria sobre um filme live-action da sacrossanta (para os brasileiros) série animada oitentista. E eu me pergunto como neguinho é tão cabaço a ponto de acreditar que uma superprodução hollywoodiana sairia do papel com divulgação zero.

16/5 - Chris Rock está desenvolvendo um reboot da franquia Jogos Mortais. Se Danny McBride co-criou uma ótima sequência para o clássico Halloween, porque não o Chris? Parece que já estou vendo a chamadinha: Be careful, nigga, Jigsaw will bust a cap on your ass!

17/5 - Em entrevista ao site Torre de Vigilância, a Salvat (é pessoa física?) afirmou que não tem "nenhuma informação oficial sobre um cancelamento ou pausas na coleção" Tex Gold. Ok, então vamos perguntar à EBAL se ela está sabendo de alguma coisa.

19/5 - Keanu Reeves quer fazer John Constantine de novo. A hora pra pedir é agora, sr. John-acabei-de-tirar-Vingadores-do-topo-Wick.


20/5 - A Panini relança Sandman - Edição Especial de 30 Anos vol. 1 em edição corrigida pero no mucho. Mr. Gaimaaaaaannn!!

21/5 - Parte ao grande desconhecido o ex-repórter e artista Larry Carroll, que ilustrou algumas das capas de discos mais icônicas, polêmicas e sombrias da história: Reign in Blood, South of Heaven, Seasons in the Abyss e Christ Illusion, do Slayeeeeerrr!! Bons tempos quando uma simples capa de LP arrepiava a molecada.

24/5 - Em Cannes, Sylvester Stallone revela que está tentando trazer Stallone Cobra de volta com outro ator e em formato de série streaming. Cobretti vai terceirizar a largação de aço pra cima da vagabundagem.


25/5¹ - Rob Halford dá uma bicuda no celular de um mané durante uma missa do Judas Priest no Rosemont Theater, Illinois. Mais tarde explicou o porquê, mas nem precisava. Ele merece é uma medalha!

25/5² - O Charlie Brown Jr. anuncia turnê comemorativa produzida pelo filho de Chorão com vocalistas convidados. Tcharroladrão.


28/5 - O trailer final de Swamp Thing é a fase Raízes se tivesse sido escrita por um jovem Alan Moore. Abby morena dá pra passar, mas não gostei do swamp-roar do final.

30/5¹ - Todo Dia um Erro em Sandman - Edição Especial de 30 Anos vol. 1 Diferente.


30/5² - Sai o teaser trailer de Rambo: Last Blood (ei, entendi a referência!). Bem family-friendly, se você me perguntar. Quando Sly liberar o Red Bloody Genocide Band Trailer a gente conversa.

30/5³ - Disney e Disney Marvel estão preparando novas refilmagens para The New Mutants, que a esta altura já deve ter sido adiado para o ano 2487 - só Buck Rogers assistirá agora. Lembra quando tudo parecia promissor?

31/5¹ - Após idas e vindas, a Warner confirma Robert Pattinson como o novo Batman do cinema. O quê, achava que seria Jon Hamm, Armie Hammer, Michael Fassbender? Esqueceu que a Warner opera no padrão Bizarro #1? Pattinson é bem mais que o purpurinado de Crepúsculo, é verdade, mas a hora é de recuperação da BatMarca, pelo amor dos morceguinhos. A Warner tinha a obrigação de jogar no seguro e agradar a multidão...

31/5² - Se vai Roky Erickson, aos 71. Solo e com o lendário The 13th Floor Elevators, Erickson foi a personificação do artista maldito e também um herói do rock psicodélico e do garage rock americano. Levou uma vida realmente transgressora. E muito louca. Literalmente.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Um


Dizem que a jornada é mais importante que o destino. Só esqueceram de avisar aos cineastas Joe e Anthony Russo. Vingadores: Ultimato entrega tudo que o público médio não-estúpido espera de um blockbuster de qualidade (e mais), além de concluir espetacularmente as três primeiras fases do universo cinematográfico da Marvel Studios. É o auge de um trabalho ousado e faraônico que levou onze anos num projeto inédito até aqui em dimensão, capital humano e conquistas técnicas.

Para um velho leitor de gibis, a recompensa maior é ver na telona vários daqueles conceitos malucos e infilmáveis até há alguns anos funcionando como se tivessem nascidos pra isso. Neste sentido, é o filme mais eficiente já realizado no gênero, com um Taa II de vantagem sobre os demais. Acima de tudo, por entender que não se trata apenas de som e fúria, mas também de coração, altruísmo e sacrifício, a quintessência dos quadrinhos de super-herói desde sempre. Ultimato não cede um milímetro desses fundamentos, em maior parte, veja só, de raiz marvete.

Heróis que são pessoas antes de tudo e com cada um fazendo a diferença no resultado final; uma admirável preocupação pelo estado psicológico geral; tempo e espaço para cada personagem respirar e se redescobrir; narrativa que sabe onde enxugar e o que priorizar; trama imprevisível no ponto de partida, na condução e na conclusão sem reviravoltas mágicas; e tridimensionalidade: cada integrante do núcleo principal, seja herói, vilão ou zona cinza/azul/verde, tem suas motivações pessoais e age de acordo.

É notável como os roteiristas de Christopher Markus e Stephen McFeely, que também assinam Vingadores: Guerra Infinita, conseguem administrar tantos personagens e variáveis. E ainda manter o foco numa premissa complexa para os padrões mainstream e, por isso mesmo, potencialmente desastrosa. De forma sucinta, o roteiro exerce sua lógica interna apoiado em extrapolações simples, cobrindo assim os pontos cegos enquanto leva o espectador para a brincadeira.

No fim, Ultimato não só se apresenta como uma sequência digna para Guerra Infinita, como expande seu conflito e aumenta as apostas.

O filme tem três atos divididos por um exercício de estilo brutal. O 1º terço amarra as pontas deixadas pelo longa anterior em tempo recorde e investe com mão pesada no drama. Num clima funesto, os sobreviventes tentam juntar os estilhaços de um mundo com 50% a menos de seres vivos e todos os estragos decorrentes disso. A 2ª etapa sobe o tom partindo de um princípio bem difundido na ficção pop - mas com uma dinâmica deliciosamente... quadrinhos - e faz uma verdadeira celebração para quem acompanhou os filmes da Marvel todos esses anos. Já o arco final é a experiência Splash Page de George Pérez definitiva. É todo o pay-off e o fanservice que existem no final do arco-íris. Sangue de Kirby tem poder.

Quase todo o elenco principal está integrado ao seu personagem-avatar num nível Christopher Reeve-é-o-Superman de conversação, além de apresentar suas melhores performances até aqui: Jeremy Renner zera o até então subaproveitado Gavião Arqueiro num bem-vindo acerto de contas com o roteiro, Karen Gillan extrai ainda mais camadas da hermética Nebulosa, Paul Rudd precisa fazer muito em muito pouco tempo e o Homem-Formiga dá conta, Scarlett Johansson se atira, literalmente, na evolução de "Nat" Romanoff, o Capitão América de Chris Evans é a melhor personificação do herói clássico que poderíamos ter hoje e Robert Downey Jr. fecha o ciclo com a redenção do personagem de sua vida.

Chris Hemsworth, por sua vez, tirou a sorte grande. Thor foi um dos poucos que mantiveram uma saga própria nos dois filmes. Em Ultimato, confesso, o susto inicial foi grande, porém coerente. Plus: agora sim o loiro está parecendo um Viking.

E a Situação-Hulk. Personagem que a Marvel Studios penou para achar o tom na telona, algo que só aconteceu em Thor: Ragnarok, quando já era tarde demais para qualquer pretensão cinematográfica do Golias Esmeralda & mitologia. A expectativa por uma virada foi lá pro caixa-prego após a ignorada sistemática em Guerra e agora, em Ultimato.

Pensando bem, isso já vinha sendo estabelecido desde Vingadores: Era de Ultron (2015), com a infame derrota do Verdão para o Hulkbuster (Hulkbusters e esquadrões Caça-Hulk existem para serem esmagados pelo Hulk, oras!). Seus poderes nos gibis nunca foram adotados pelo UCM: nada de saltos quilométricos, palmada sônica, fator de cura e o mais importante e muda-vidas, o "quanto mais furioso, mais forte o Hulk fica". O que sobrou é um Hulk limitado e em estado de calma - em Ultimato, em estado de calma baiana. Mark Ruffalo é um sujeito boa-praça, mas nem de longe é um Dr. Bruce Banner. A trama ainda dá alguma continuidade à sua cronologia nas HQs, despejando o personagem direto na fase do Hulk inteligente, o que resulta apenas e tão somente num Ruffalo Verde. Um Hulkffalo.

Paradoxalmente, é dali que sai uma das referências mais bacanas aos quadrinhos - a clássica imagem do Hulk em Guerras Secretas. E outras, que não sei bem se foram referências de fato ou apenas dissonâncias em minha cachola de gibizeiro: o Verdão doando o braço em Planeta Hulk, a aventura espaço-tempo-apoteótica de Vingadores Eternamente, o "1" do Dr. Estranho para Tony Stark paralelo ao timing de Adam Warlock para o Surfista Prateado em Desafio Infinito, Steve Rogers e Gail no final de Supremos 2 e por aí vai. Essas vieram fluídas e precipitadas como lembranças de velhos amigos. E eu agradeço ao filme por isso.

Surpreendente mesmo foi o resgate de dois grandes personagens por dois atores maiores que a vida: Tilda Swinton reprisando a Anciã e Robert Redford novamente como Alexander Pierce. Redford já havia encerrado a carreira em meados de 2018, mas voltou atrás no final do mesmo ano. Esqueça a mera condição de filme-pipoca. Isso já é cinema grande, meu chapa.


Josh Brolin pode não ter percebido ainda (ou é modesto demais para admitir), mas acabou por personificar um dos maiores vilões do cinema. Thanos é fascinante, perspicaz, tem a sua cota de honra distorcida e acredita piamente que está do lado certo da História. Ameaçador e absurdamente poderoso, Thanos protagoniza, fácil, as melhores e mais engenhosas lutas super-heroísticas já feitas até aqui. Mesmo a Capitã Marvel de Brie Larson - um tanto deslocada pelos cameos pontuais - teve seus melhores minutos numa telona, incluindo aí seu filme solo. O ponto alto, claro, é sua frenética e nervosíssima luta com o Titã Louco.

Há pelo menos uns três ganchos antológicos durante a luta de Thanos contra a "Trindade" - também conhecida como Vingadores Primordiais. E fazia tempo que não via uma sala de cinema virando uma arquibancada em final de campeonato. Especialmente no momento "Capitão, o Digno". Memorável.

Quando Jim Starlin criou Thanos no início da década de 1970, a gênese do Titã não indicava uma carreira muito promissora. O autor mesmo comentou: "Você pensaria que Thanos foi inspirado em Darkseid, mas não era o caso quando eu o apresentei. Nos meus primeiros desenhos de Thanos, se ele parecia com alguém, era com Metron. (...) Roy (Thomas) deu uma olhada no cara com a cadeira ao estilo Metron e disse: 'Aumente esses músculos! Se for para roubar um dos Novos Deuses, então roube Darkseid, o único realmente bom!'"

45 anos depois, Thanos está mais vivo do que nunca, coletando Jóias do Infinito em blockbusters bilionários e se tornando uma referência pop no mundo inteiro. E o que é mais incrível: adaptado sem comprometer sua personalidade. Pra mim, que li e reli as sagas de Thanos infinitas vezes, isso é muito além de um presente.

Toda a sequência final reservada ao personagem é sob medida. O momento da transição do Thanos ambientalista para o Thanos niilista é de arrepiar. Era o passo que faltava para o... Dark Side. E ainda corrobora os pensamentos de Jim Starlin sobre uma futura abordagem da Senhora Morte, a convidada que faltava. Promissor como parece.

Já se vão onze anos desde que saí daquela sessão de Homem de Ferro com um enorme sorriso no rosto e a cabeça fervilhando em pensamentos. Alguns viraram texto; outros, atrelados a uma certa melancolia por tempos idos, foram para o mesmo cantinho da memória que já serviu de palco para grandiosas batalhas emprestadas das páginas dos gibis. Eu sabia que ali era o máximo que o cinema real se aproximaria dos quadrinhos e estava mais do que satisfeito com aquilo. Filme após filme, desafio após desafio, a Marvel Studios foi superando aqueles limites - em maior ou menor grau e com resultados variáveis, mas sempre com bom senso, respeito às duas artes e, principalmente, coração.

Vingadores: Ultimato é sangue, suor e lágrimas. O ápice de uma autêntica odisséia cósmica (epa!) e o registro de que um dia duas formas de arte chegaram tão perto que quase convergiram.

Mesmo sendo o mais épico, ambicioso e visualmente deslumbrante, claro, não é um filme perfeito. Capitão América: O Soldado Invernal (2014) segue no topo da minha lista. E ainda tenho um carinho todo especial por Os Vingadores (2012) pelo impacto sobre este leitor ad eternum de Heróis da TV. Junto com Guerra Infinita, Ultimato habita n'algum lugar no éter entre esses dois.

Algo a se avaliar com o tempo. E com sessões infinitas.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

A saída da zona é a zona do euro

Ou "Decidindo aprender novos idiomas após os 3 primeiros volumes de Lendas do Universo DC: Novos Titãs".


Há uns 2-3 anos, num belo dia de sol, tive uma epifania de colecionador:

"Construirei um muro ao longo da fronteira da minha coleção; só serão admitidas as passagens de clássicos US-UK incontestáveis e/ou materiais europeus crèame de la crèame como os elencados da Métal Hurlant, da Les Éditions Dargaud, da Les Humanoïdes Associés e franco-belgaiadas afins ou qualquer coisa vinda da Norma Editorial. As raras exceções serão investigadas, avaliadas e baculejadas minuciosamente pelos implacáveis agentes da temida KGBZ, mas, a grosso modo, materiais pop-mainstream serão sumariamente deportados - sendo Marvel/DC regulares abatidos à vista."

Afinal, é pra isso que o DC++ (ainda) está aí.

Eu queria uma coleção física sóbria, modal. Uma coleção de gibis de adulto (adultos lêem Thorgal? Pô, espero que sim), por contraditório em termos que isso soe. Melhorar o espanhol, aprender a ler em francês e italiano. Por mais doloroso que fosse, eu precisava romper com a língua da Krissy Lynn.

Mas, acima de tudo, precisava... ou melhor, preciso enxugar a coleção. Urgente. Já perdi de vista o fim da pilha de leitura. Nesse ritmo, não vou mais ler aquilo tudo. Baphomets, provavelmente não conseguirei ler aquilo tudo nem com uma expectativa de vida de 120 anos.

O que me faltava era a motivação. Mas uma boa, boooa motivação. Uma motivação-pé-na-bunda-toma-tento-vagabundo. E a Panini, ah essa Panini, me deu. Não apenas uma, mas duas, três.

A primeira foi salpicada paulatinamente ao longo dos últimos anos em parceria sórdida com a Amazonos preços. Oh, me perdoe, esqueci um adjetivo aqui: os extratosfericamentefilhosdaputa preços. Graças à Panini e aos cowboys amazônicos agora temos um cenário de dumping para chamar de nosso. Lindo. E agora aguenta aquele material que você aguarda há 15, 20 anos sendo lançado pelo preço de dois rins. 120 reais é o novo 9,90 das Super-Heróis Premium.

A bem da verdade, a pernada que a Saraiva e a distribuidora da Abril deram na praça foi a facada com giratória definitiva. Facada esta sendo amortizada, sem amor, nas costas do público com mensais de 60 páginas por quase 11 mangos e historinhas mequetrefes editadas em papel couché e capa dura com detalhes em hot stamp dourado. A bolha estourou, sim. No colo dos leitores.

Outra boa razão é a questão do quê precisar das atuais Image, Dark Horse, Marvel e DC. Acompanhei a coleção das branquinhas da Nova Marvel. Fabulosos/Novíssimos X-Men, Magneto, Deadpool são bacaninhas. Mas tirando o Gavião Arqueiro de Matt Fraction, o Foderoso Thor de Jason Aaron/Esad Ribic e, talvez, os Vingadores de Jonathan Hickman (que não entendi bulhufas, mas um dia quero), não vejo nenhuma delas figurando em minha seleção de releituras sazonais pra vida toda. Acorda, dogg.

Tudo isso aí só pra chegar aos erros de revisão, adaptação, diagramação e virou passeio pra cima da Panini, insistentes e aparentemente integrados à editora por alteração contratual. Dizem que foi sabotagem interna. E que o assunto já foi resolvido sendo que seus reflexos terminam este mês de maio. Pelos novos posts na página Todo Dia um Erro nos Quadrinhos Diferente, o terror ainda continua - incluindo na edição corrigida de Sandman - Edição Especial de 30 Anos vol. 1, após a já antológica chamada do próprio Neil Gaiman na editora.

Mas o pior, pior mesmo, foi a merda cair em algo que me importa muito. Algo que, sempre que releio, me transforma num Anton Ego menininho gibizeiro. E foi com a muito aguardada reedição dos Novos Titãs de Marv Wolfman e George Pérez. Para mim, necessária e imprescindível - mesmo com o tiozão seboso do Terry Long bangeando a Donna a cada duas páginas. Aí foi demais pra mim.

Como dizia o Millôr: "O grande erro da natureza é a incompetência não doer".

É, realmente Gar. Não é justo que isso esteja acontecendo de novo!

terça-feira, 30 de abril de 2019

Retrospec Abril/2019

5/4 - Deadshot was dead by shot.

8/4 - Shazam! 2 a caminho.


10/4¹ - Divulgada a 1ª imagem de um Buraco Negro da História. Será que essa entra na categoria "fotos ou nunca aconteceu"?

10/4² - Sue Richards vai ganhar série solo, também pela 1ª vez na História. Que dia!

11/4 - Preparem suas vitaminas: Druuna voltará ao Brasil pelas mãos peludas da editora Pipoca & Nanquim. Valei-me, São Onan!


12/4¹ - Peter Milligan, Mike e Laura Allred se reúnem para um novo capítulo de X-Táticos, um dos melhores quadrinhos mutantes dos anos 2000 (os melhores, vai). O retorno será em julho na edição especial Giant-Sized X-Statix #1. Urrú!

12/4² - Alvar Mayor, de Carlos Trillo e Enrique Breccia volta ao Brasil pela pequena-mas-valente editora Lorentz (que fez um pequeno-mas-memorável run de Dylan Dog em 2017). A última vez que o quadrinho saiu aqui foi em Aventura e Ficção #14 (Abril), há 30 anos.


13/4 - Paul Raymond se vai, aos 73. Ao longo da carreira, o tecladista e guitarrista inglês integrou ao menos três bandas clássicas: Savoy Brown, UFO e Michael Schenker Group. Fraquinho o homem.


17/4¹ - A chama de Kazuo Koike se apaga, aos 82. Ele foi um dos mais influentes e reverenciados autores do século passado, com obras como Lady Snowblood, Crying Freeman e, principalmente, Lobo Solitário sendo referências absolutas no mundo inteiro.

17/4² - Jim Starlin também é inevitável: KS do Omnibus de Dreadstar alcança sua meta em 12 horas. E eram quase 70 mil trumps.


22/4¹ - Pôster da turnê brasileira do Dead Kennedys toca o terror na política de extrema direita canarinha.

22/4 ²- Após a imensa repercussão, os integrantes do Dead Kennedys divulgam uma nota afirmando que não autorizaram o pôster da turnê brasileira ilustrado pelo artista Cristiano Suarez. E depois apagaram a nota. Ah, mas o Jello Biafra faz uma falta...

23/4 - O ilustrador Cristiano Suarez printa a prova e mostra o pau, digo, mostra que o Dead Kennedys havia sim autorizado o polêmico pôster.


24/4 - Swamp Thing, a série produzida por James Wan, ganha seu primeiro teaser. É realmente um monstro do pântano que se vê ali - e com cameo do Demônio Azul. Mas esse visual, essa fotografia, esses filtros... acho que já vi algo parecido antes, hein.

26/4¹ - E a novela hardcore não acaba: em nota oficial, o Dead Kennedys cancela a turnê brasileira visando "a segurança do público". Uau, o Jello Biafra realmente faz falta.

26/4² - Google também é afetado pelo estalar de dedos de Thanos. É só clicar na Manopla à direita.


28/4 - Capitã Marvel ultrapassa Mulher-Maravilha na bilheteria doméstica. E os anti-Brie Larson pira.

29/4 - O fim de semana de estreia de Vingadores: Ultimato bateu tantos recordes que ganhou até um artigo no Wikipedia.


30/4 - Se vai Peter Mayhew, o eterno Chewbacca, de Star Wars. Cheguei a fazer um pequeno tributo ao Mayhew no BZ certa vez. Ele era meu herói particular, já que além do simpático wookie, ele também foi o temível Minoton, no clássico da Sessão da Tarde Simbad e o Olho do Tigre (1977). Inesquecível Mayhew!

domingo, 28 de abril de 2019

Amo Vingadores: Ultimato 3000



Se eu dissesse para aquele moleque embasbacado com a inesquecível Grandes Heróis Marvel #1 que um dia o mundo inteiro conheceria Thanos... provavelmente ele acreditaria, já que sua visão de mundo, ainda relativamente inocente e sonhadora, permitiria tal devaneio. Mas nada que durasse muito.

Thanos, cara. Thanos.


Como disse o Dr. Estranho na reta final de Vingadores: Guerra Infinita, "estamos no fim do jogo agora". Errado duas vezes: estamos em Vingadores: Ultimato - numa das maiores vaciladas de adaptação de títulos em português; e não estamos só no fim do jogo, mas numa final de campeonato.

Daquelas pra ficar na história.

sábado, 20 de abril de 2019

O salmo da Wax Trax!

Pra quem foi tomado de assalto por aqueles loucos de Chicago no fim da década de 1980, o trailer de Industrial Accident: The Story of Wax Trax! Records é puro deleite de bad trip boa. E "com simpatia".


Só mesmo um doc longa-metragem para descrever a importância da Wax Trax! para a cena alternativa americana. A loja/gravadora fundada por Jim Nash e Dannie Flesher foi seminal durante a efeverscência do pós-punk, da new wave, da eletrônica e do industrial do início dos anos 80. Seus padrões artísticos, estéticos e comportamentais transgressores e anti-establishment se estenderam muito além da seara musical - e continuam até hoje, ironicamente inseridos até no universo pop, ainda que a esmagadora maioria do público (e dos artistas) sequer se dê conta disso.

Em terra brazilis, onde as informações chegavam com alguns anos de atraso e à conta-gotas, o selo teve até certa exposição. Principalmente através da revista Bizz e das matérias do jornalista André Barcinski, incluídas também em seu livro Barulho: Uma Viagem pelo Underground do Rock Americano.

Meu 1º contato com a Wax Trax! foi justamente pela icônica revista. O marco zero foi a capa do Sepultura circa Arise levando um corta-luz das verdadeiras estrelas da edição: o Ministry. "Massacre eletrônico"? Já me ganhou só pelo conceito - lembrando que, naquela época, Internet só existia em filmes, livros e gibis; e como importar discos era para ricos, o jeito era viver de conceitos.

Depois vieram os artigos da célebre turnê Ministry/Helmet/Sepultura e do lançamento dos clássicos The Mind Is a Terrible Thing to Taste e Psalm 69 em terra, oh, brazilis. Finalmente. E assim meu salário de office-boy foi pro sal numa tacada só.

Houveram outras convergências pelo caminho, mas o trecho da estrada com tijolos de ouro foi esse. Embora sejam mais do que raros, tenho certeza que existem por aí outros brasileirinhos sobreviventes que ainda curtem Ministry, Lard, Revolting Cocks, Pailhead, Chris Connelly, KMFDM, My Life with the Thrill Kill Kult, Laibach, The Young Gods e outras pérolas WaxTraxianas que trilharam um caminho semelhante. Isso se as vicissitudes do dia a dia - também conhecidas como família, filhos, plano de saúde, aluguel, IPVA, etc. - não expurgaram essas lembranças e sensações à fórceps, deixando no lugar só um toquinho útil pagador de contas.

Se for o caso, uma sessão de Industrial Accident poderá reativar alguns neurônios há muito adormecidos e causar um grande estrago no seio familiar...