quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O Legado Zéfiro

Mais uma rodada por conta do camarada Sandro: no fabuloso documentário curta-metragem Zéfiro Explícito (2012), de Sergio Duran e Gabriela Temer, é passada a limpo a história de Alcides Aguiar Caminha, datiloscopista da Imigração, compositor e alter-ego do mitológico Carlos Zéfiro, o deus pagão dos catecismos.


Anos atrás escrevi algumas linhas em tributo ao Zéfiro, voraz consumidor de catecismos que sempre fui. Mas foi a 1ª vez que tive acesso aos pormenores da história toda pela boca dos próprios envolvidos. Os depoimentos de Ota, Juca Kfouri e do filho do Homem foram bem mais que especiais - foram essenciais. Chegam a ser inspiradores.

Nada mais justo que, em tempos de FICs, FGDQs e CCXPs, o comercialismo desenfreado dê um descanso e o legado desse autêntico patrimônio popular não fique mais uma vez esquecido.

Entrevista quase protocolar no Jô Onze e Meia. O relógio realmente parecia estar correndo para o bom e velho Zéfiro...

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Juiz, júri e rebatedor


The Walking Dead abriu sua 7ª temporada e, enfim, o insidioso Negan saciou a sede de sua Lucille. Após seis meses de suspense em estado sólido, um estranho alívio se instala após a experiência. E com certeza foi uma experiência.

Como era de se esperar, muita gente ficou indignada. Achei uma graça o artigo/bate-bola de dois colunistas do The Verge. Pontuando os argumentos de seu Clube de Desistentes de The Walking Dead estão missivas como "torture-porn mascarado de drama", "o episódio mostra o quão vazia a série se tornou" e, minhas favoritas, "o desprezo pelos espectadores é o maior pecado de The Walking Dead" e a lapidar "respeite sua energia emocional e diga 'não'".

Neste ponto, onde foi preciso recorrer a slogans antidrogas de três décadas atrás, fiquei na dúvida se queriam convencer o leitor ou a eles mesmos - talvez já antecipando a porrada da abstinência.

Mas sou solidário. E não é da boca pra fora: dropei Game of Thrones quando vi as engrenagens daquela máquina de criar-personagens-carismáticos-em-tempo-recorde-só-para-trucidá-los-em-seguida funcionando a pleno vapor. Uma vez conhecendo o truque, parei de me importar. Spoilers de uma ou outra atrocidade cometida na temporada seguinte me mantiveram afastado.

Para mim, que não li os tijolos da franquia literária, não fizeram diferença os possíveis desdobramentos daquilo. Só me pareceu... vazio... arrogante... emocionalmente exaustivo. E acima de tudo, gratuito. Em outro aspecto, porém, havia a grande referência do Casamento Vermelho - momento ainda mais brutal, chocante e inesperado, mas o fruto perfeito de um crescendo narrativo que vinha sendo cultivado sorrateiramente ao longo da série. Com a premiere de The Walking Dead foi o mesmo, com reverência extra à performance descaralhante de Andrew Lincoln.

Talvez não signifique muito para o não-leitor do gibi, puto com o episódio, o fato da série conferir uma tardia dignidade à despedida de um determinado personagem e ainda desenvolver a premissa de Robert Kirkman de uma forma que superou até a original. Não. A melhor dica é que tudo o que aconteceu ali foi essencial para a nova etapa daquele universo, que, garanto, valerá a pena para quem se atrever a chegar lá.

Provavelmente.

Quase acertei, hm? Meio ponto pra mim e estamos conversados.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Gore! Gore! Gordon!



Herschell Gordon Lewis
(1929 - 2016)

Os obituários estavam suspensos, mas essa é daquelas exceções. Afinal, é o padrinho do gore e inventor do splatter, o gore do gore.

Lewis foi um libertino bizarro e tosco do tamanho de um Ed Wood com o lirismo de um Russ Meyer e a cara de pau de um Roger Corman. Estava voando baixo há um tempo, mas é isso aí. Se divertiu muito.










E nós também.

domingo, 28 de agosto de 2016

Защитники Zaschitniki (трейлер)

Registro do trailer #3 dos Supersoldados Sovié... opa, Guardians (2017), marcando a entrada da Mãe Rússia na corrida super-heroística contra os opressores estadunidenses.


Parece um fan film muito bacanudo. Mas ainda um fan film. Como tenho apreço por caras-de-pau, admito que me parece divertido. O que dizer então de rip-offs de Soldado Invernal/Snake Eyes/Cyborg Ninja, Sue Richards, Chicote Negro e outros notáveis heróicos e/ou vilânicos. O produtor e diretor armênio (!) Sarik Andreasyan não poupou esforços.

De brinde, ainda um urso antropomórfico largando o aço pra cima dos meta-vagabundos com uma prima russa da Ol' Painless.

Urso esse que nem rip-off é. É furto mesmo.


Dzya-dzya Stan e seu komitet já estão maquinando uma retaliação contra Moscou. Mal sabem esses huskies com quem estão se metendo.

Excelsior!

sábado, 20 de agosto de 2016

KERWHACKKK!

Esse é o som de (mais) contas sendo acertadas com o passado.


9/12 títulos anexados à coleção até aqui, uns 75% de aproveitamento. A extensão de clássicos da Salvat tem deflagrado uma justiça tardia para aqueles moleques fissurados numa HQ, mas sem um merréu pra comprar Almanaque Marvel e Almanaque Premiere Marvel... lá pelos idos de 1982-84...

Todos os títulos vêm mantendo alto o nível de relevância histórica, mas os gols de placa são indiscutíveis: Contos de Asgard, Dr. Estranho: Uma Terra sem Nome, um Tempo sem Fim e, pelas hostes de Hoggoth, o Nick Fury pop art/surrealista de Jim Steranko compilado em dois volumes antológicos. Só o caviar da gibizeira.

Com todos esses clássicos grandes, médios e pequenos, nada melhor que um pouco da boa e velha chinelagem quadrinhística. Mas, epa... um pouco não, muita. E chinelagem com todo o respeito à fantástica Marie Severin, ao grande Gary Friedrich e ao melhor desenhista ruim de todos os tempos, Herb Trimpe - que Deus (Jack Kirby) o tenha em bom lugar.

A Coleção Oficial de Graphic Novels, Clássicos vol. XI - O Incrível Hulk: O Monstro Está Solto... ufa... é exatamente o que parece: um gibi de porradaria honesta. Nada de complexidade narrativa, subtramas mirabolantes ou minuciosas análises psicológicas. No Golias Esmeralda pós-Lee/Kirby firulas inexistem. Não raro se aproximava fatalmente dos "gibis" que você rabiscava nas últimas páginas do caderno de matemática. Certo, certo, exagerei, mas esse é o espírito. Imediatismo.

O roteiro de Friedrich garantia o build-up mínimo exigido por Lei, mas ele sabia o que o povão queria. Após alguma contextualização - sempre ágil, sempre enxuta - era só questão de alguns quadr(inh)os para a coisa ficar verde (ha ha!). Perto do Hulk de Trimpe & cia., até o Hulk de Mantlo e (Sal) Buscema ficava parecendo o Woody Allen.

Em que pese a autoria do titio Stan numa história, Roy Thomas rachando outra ao meio com Archie Goodwin e mais outra com Bill Everett, a ordem era esmagar os adversários e ouvir o lamento de suas esposas. Tanto que o encadernado já abre com Hulk desembarcando em Asgard com os dois pés no peito de Heimdall pra seguir esculachando geral, d'Os Três Guerreiros ao Executor, e ainda chamar ninguém menos que Odin, Filho de Bor, para uma conversa ao pé do ouvido.

Após, um tira-teima protocolar com o Rino no mesmo ritmo fanfarrão de sua origem e entreveros com dois desafiantes bizarros o suficiente pra não constarem nem numa galeria onde figuram MODOK e Bi-Fera, além do Mandarim e seu servo autômato monstruoso com feições orientais e... amarelo... sem preconceito sessentista, é claro.

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O green de la green, contudo, é a última história, extraída da - aí sim - clássica Hulk Annual #1 (1968). O assombro fanboy já começa na reprodução da épicaicônica capa original, homenageada e referenciada por décadas em várias esferas da cultura pop - mais uma vez, cortesia de Steranko, esse putardo maldito e talentoso (ainda tem graça chamá-lo de Andy Warhol da 9ª arte?). Nem a publicação atentando ao fato prepóstero de que a edição seguia inédita no Brasil embaçou minha felicidade.

...talvez só um pouquinho.

Hulk com Inumanos não precisa de muito escrutínio. A mera ideia já é coisa de louco. E eu já tinha cantado essa bola antes, mas me sinto na obrigação moral e cívica de avisar: há ali um quebra espetacular entre o Gigante Verde e Raio Negro...


...onde o Hulk leva provavelmente a surra da sua vida.

Boltagon esmaga!


☮  ☮  ☮


Pode me chamar de pessimista, mas confesso que não via isso acontecendo num curto prazo.


Clique para achar os acertos!

A Panini corrigiu os erros do encadernado de A Saga da Fênix Negra, reimprimiu a bagaça deluxe e procedeu com o devido recall. A pentelhação da "carta anexada explicando os motivos da troca" ainda rolou, apesar de mais que escancarados em tudo que tenha tela.

O jogo de volta foi rápido, coisa de uma semana, via PAC reverso, sem custos. Uma merecida massagem shiatsu nesta alma que, desde fevereiro, vem sonhando com gatas de metal indestrutível e uma narração em off repetindo as mesmas sentenças.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

O Paradoxo de Denis

E mais um filme com a indefectível Amy Adams entrando em contato (imediato) com extraterrestres. Não espero de ninguém o mesmo interesse que tenho sobre o tema, portanto já abro logo com o super-trunfo: a direção é de Denis Villeneuve.

De Os Suspeitos. De Sicario. E, puta que lhe pariu, de Incêndios.


Não é o caso típico de um nome respeitado fora do circuitão se queimando no mainstream (não é mesmo, Oliver Hirschbiegel?). Villeneuve é só know-how a este ponto. Ponho fé. E preciso.

Faz algum tempo que impera uma carência de bons filmes "de contato" sob uma ótica mais pragmática ou, no mínimo, propondo especulações sóbrias, pé no chão. Filmes de sci-fi à luz do dia, desprovidos, senão de todo, de uma boa parte da velha fantasia distrativa.

Nos últimos anos não faltaram bolas na trave: Esfera, O Dia em que a Terra Parou - remake, O Enigma de Outro Mundo - prequel; todos com instigantes prólogos de recrutamentos-para-lidar-com-uma-situação-misteriosa-e-extraordinária, mas que rapidamente cederam ao peso de suas promessas. Distrito 9 era diversão e panfleto, outro assunto. Maçãs e laranjas.

Em meio ao mar de frustrações, os únicos que me fizeram sair do cinema pleno de satisfação foi Contato, já quase completando seus 20 anos com fôlego invejável, e o controverso Prometheus, um dos blockbusters mais intrigantes e ousados que já tive o prazer de assistir - e aguardo muito a continuação, mesmo ciente das presepadas de Ridley Scott.

Enfim, escrito isso, gostei do que vi nesta prévia de Arrival (aqui, A Chegada). Parece uma adaptação livre do item "Eles são muito alienígenas" constante no Paradoxo de Fermi, o que, sem dúvida, é uma visão não só fora da zona de conforto hollywoodiana, mas da humana enquanto perspectiva.

Arrival estreia em 10 de novembro.

Dever de casa para o incauto leitor: It Came from Outer Space (1953), o ponto zero... ou melhor, o ponto 0,5 disso que comentei aí e que começa quase despercebido com a xenofobiazinha nossa de cada dia.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

D.C.v D.C.


Pelos números, é quase certo que BrainDead não terá uma vida longa e próspera. Se mantiver a pegada até o final da temporada (única?), ao menos terá crivado seu logo nos neurônios de alguns poucos abnegados.

Ao contrário do que se imaginava... tá bom, do que eu imaginava, BrainDead não tem relação com Braindead, conhecido aqui como Fome Animal, crássico splatter do Peter Jackson moleque catarrento de várzea.

Mesmo assim, a premissa é, digamos, familiar.

Após meteoritos causarem um estrago numa cidadezinha da Rússia em meados dos anos 2010, o mundo dá sinais de que está enlouquecendo. Taylor Swift é o grande ícone jovem, o orçamento mundial está no vermelho e, o mais absurdo, Hillary Clinton e Donald Trump disputam a presidência dos Estados Unidos.

A explicação? A Terra está sendo dominada por alienígenas invasores de corpos. Justo.


A série é invenção do casal Robert e Michelle King (The Good Wife). Entre os produtores, estão David W. Zucker e o alien Ridley Scott, o que não é pouca coisa. A trama é protagonizada pela documentarista indie Laurel Healy, interpretada pela hors-concours Mary Elizabeth Winstead.

Com seu novo projeto encalhado na fase de captação, ela se vê obrigada a aceitar um carguinho no gabinete de seu irmão, o senador democrata Luke Healy (Danny Pino). Lá, ganhamos um intensivão sobre a doce arte de fazer política e inimigos.

Entre o fogo cruzado nos bastidores do Capitólio, Laurel se vê às voltas com coisas ainda mais estranhas que a cota habitual de estranhezas do lugar. Como várias pessoas repetindo as mesmas frases, palavra por palavra, cabeças explodindo no meio de uma acalorada discussão e coisas parecidas.


Os nomes dos episódios parecem tema de mesa redonda com analistas políticos. Tipo "Como o Extremismo Político Está Ameaçando a Democracia no Século 21" (ep. 1), "Fazendo Política: Vivendo à Sombra dos Bloqueios Orçamentários - Uma Crítica" (ep. 2) e por aí vai. As sequências com as rinhas e falcatruas de republicanos e democratas monopolizam e são deliciosas. Sátira política farsesca (ou não) no seu melhor.

Salta aos olhos a química entre Laurel e Gareth Ritter (Aaron Tveit), assessor do congressista republicano e picareta-mor "Red" Weathus, papel do genial Tony Shalhoub. Bons achados também são os sidekicks Rochelle (Nikki M. James) e o hilário Gustav (Johnny Ray Gill), fanboy de conspirações que poderia figurar tranquilamente nos Pistoleiros Solitários.

A dinâmica não faz prisioneiros. Ao mesmo tempo em que tece uma narrativa fácil, nunca se rende ao didático. O que é ótimo a princípio, mas eventualmente requer a caça de alguma info. No 5º episódio, por exemplo, há um trocadilho fulminante envolvendo o termo Sharia. Esse era nível pro. E tem vários mais.

Não é todo mundo que compra esse humor corrosivo e cínico. Mas quem é chegado em artefatos como Veep, Arrested Development, The OfficeParks and Recreation ou Community vai fazer a festa.


Apesar dos aliens influírem diretamente nos rumos da história, eles são quase um detalhe - literalmente, formiguinhas. A fatia sci-fi é sutil, mas frequente - chega a ser generosa no 6º episódio, "Notas Relativas à Teoria Pós-Reagan de Aliança Partidária, Tribalismo e Fidelidade: Passado Enquanto Prólogo" (heh!). Tivemos contatos imediatos de terceiro, quarto e até quinto graus, planos de invasão e até os infames círculos em plantações, mas nada disso do modo tradicional.

Ainda nesse (extra)terreno, particularmente bem sacada foi a explicação para o uso ostensivo - e, até ali, aparentemente gratuito - do hit chicletudo "You Might Think" (The Cars). Tão bacana que se sobrepôs até à forçada de barra do contexto. Essa nem Ellie Arroway viu chegando. Isso, mais os inacreditáveis resuminhos "previously" no início de cada episódio (cortesia do cantor folk Jonathan Coulton) já resolve a vida da série no quesito trilha.

Não sei se BrainDead é o Arquivo X que precisamos hoje - e Mulder & Scully deram uma patinada sinistra naquele final da 10ª "temporada". Também duvido que vá vingar na audiência em algum ponto. Só sei que o pay-off é instantâneo e nossos homenzinhos verdes estão de volta... ainda que sejam formigas. E nem ao menos verdes. Mas são da constelação de Draco, o que rende mais trocadilhos bestas com a capital americana.

E o melhor de tudo, agora a belezura suprema Winstead é oficialmente a nossa mulher para assuntos ufológicos. Revisionou invasores clônicos, invasores de mundos e invasores de corpos num espaço de 5 anos e com uma média muito boa!

E tem algo mais supimpa que ela correndo pelo Capitólio de salto alto e saia executiva?

Ah, Maria Elizabete...