sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Ah, Ota...


Otacílio Costa d’Assunção Barros
(1954 - 2021)

Essa nem o infalível Relatório Ota previa. Sei, sei, faz parte e ninguém anda cantando saúde ultimamente, mas essa foi de foder —e não no sentido gostoso, à Termas 69®.

Tecnicamente, Ota era meu "amigo". Éramos miguxos de Facebook há anos, o que, rigorosamente, significa porra nenhuma, e até bem antes disso, quando ele mantinha um divertidíssimo site oficial aos trancos e barrancos. Mas sempre foi extremamente solícito com minhas perguntas e mesmo com uma autorização —negada— para publicar uma foto hoje bem conhecida de seu acervo pessoal (mas era tão bacana que publiquei mesmo assim). Foi o rei incontestável da tosqueira e da zoeira do quadrinho nacional. E antes de tudo, sabia rir dele próprio, mesmo diante do mais puro descaso.

Pô, Ota é meu herói desde que a época em que matava aula para, entre outras coisas, ler MAD. Aliás, a 1ª vez que li Love and Rockets foi na versão editada por ele na Record, com as gírias e maneirismos brazucas da época. Não me desfaço por nada.

Impossível sintetizar a carreira de um sujeito que começou lá na EBAL, passando pelas presepadas mais picaretas até as editoras de ponta (solta) e as tretas com as mais novas. E, como sabemos, treta com Ota era mato. Brigou com Deus e o mundo. Menos com o dono do bar.

Salve, meu querido.

Obrigado por tudo!

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Tragam-me a cabeça do Hulk!

Preço da gasolina explodindo, conta de energia derretendo a fiação, carne de 2ª a peso de ouro e uma única pergunta monopoliza meus pensamentos: por que diabo a Abril trocou a cabeça do Hulk na edição #30?


Publicada originalmente em The Incredible Hulk #279 (jan/1983), a capa é de autoria de Greg LaRocque. Nela, o Gigante Verde comemora com seus camaradas a aguardada anistia pelo governo americano. O semblante ameno e pacífico explicita o então recém alcançado controle do Dr. Bruce Banner sobre o monstro —os velhotes de plantão leram isso na Hulk #24. Mas, por alguma razão que só Uatu conhece, a capa nacional trazia uma montagem do Verdão com feições mais brutais e grotescas. Como na fase pré-Hulk inteligente.

Em geral, as capas da Abril sempre traziam alterações, em maior ou menor grau. Boa parte era necessária para diagramar a ilustração original com o título do gibi, o logo da editora, o preço e a chamadinha. As futucadas iam do cenário ou cor de fundo até o corte de elementos do desenho. Nessa capa mesmo foram pro caixa prego Reed Richards, Anjo, Quasar, Pássaro da Neve e o Gárgula II à esquerda e, à direita, a Felina ao lado da metade incolor do Sasquatch (efeito colateral da proximidade com a Mulher Invisível?). Retoquezinhos marotos, pro forma. O meio-Langkowski deixo na conta do prazo.

Nunca foi segredo —ao menos, para quem frequentava importadoras e, definitivamente, após a Internet— que a redação da Abril adorava "criar" as próprias capas. Era uma festa só.

Quem não lembra quando o Super-Homem do Garcia-López aterrissou no Nessie do Rei Kirby?



Ou aquela vez em que o Capitão América caiu na 23 de Maio, em São Paulo?


Não é à toa que as capas dos gibis de super-heróis da Abril sempre deram uma nova dimensão à expressão "acho que já vi isso antes". Déjà vu com esteróides.

Na capa de Hulk #30 é evidente que houve mais um desses recortes enxertados na arte original. Ou a simples intervenção de um "decorador" —os artistas das editoras que corrigem as falhas de traço geradas pelo processo de edição, tipo a perna do Wolverine, essas coisas. E no expediente da HQ, constava um núcleo de criação até bem generoso. Mas considero pouco provável, já que aqueles caras mal e mal conseguiam desenhar um Homem-Aranha. Um Homem-Aranha, pelamor do Tio Ben. É visível ali que tanto a expressão quanto o escalpo do Hulk são bem desenhados e finalizados.

O que chama atenção são as sombrancelhas enormes se confundindo com o sombreado cavernoso em torno dos olhos, dando um quê de sinistro à carranca. É Hulk de várzea. Jim Starlin é o 1º corno que me vem à cabeça, mas vai saber.

Me limito à pergunta universal: por que?

Será que a redação da Abril queria suavizar para o leitor médio (ainda) a transição do Hulk burro para o Hulk inteligente? Ou acharam aquele Hulk do LaRocque com cara de bonzinho demais e quiseram aumentar os níveis de testosterona-gama?

Ou, malandramente, tentaram se aproximar do visual do Gigante Verde da série animada exibida aqui na mesma época?



Não duvido, principalmente levando em conta o apelo comercial que os "heróis da TV" tinham com a Abril, algo até comentado pelo Jotapê Martins no podcast do Universo HQ (na marca dos 11'44''). Aliás, tanto Jotapê quanto o veterano editor Leandro Luigi Del Manto, donos de memórias prodigiosas, certamente responderiam essa de bate-pronto.

Por enquanto, a questão segue pegando poeira nos Arquivos de Casos Inexplicáveis da Abril...

...a menos que algum bom(a) samaritano(a) compareça com a elucidação via comentários ou e-mail, no qual serei imensamente grato e ainda parafrasearei o Golias Esmeralda na mesma edição.

domingo, 5 de setembro de 2021

“O pior pesadelo da América branca”


Difícil esquecer o impacto da capa do álbum de estreia do Body Count, de 1992. Na época, o mundo assistia estupefato à onda de violência que varreu as ruas de Los Angeles após a absolvição dos cinco policiais que espancaram Rodney King. Além do próprio vídeo da brutalidade policial que circulava há um ano pelos telejornais do mundo inteiro, algumas cenas dos ataques são hoje históricas, no pior sentido da palavra. O clima era de total convulsão social, política e racial. E, bem no olho do furacão, nenhuma imagem foi tão provocativa quanto aquela capa.

Era como assistir alguém jogando gasolina em um incêndio. Em entrevista para o Metal Injecion, o artista e designer californiano Dave Halili relembrou o brainstorm da obra:
“Queríamos um símbolo de um anti-herói/vigilante — um defensor contra abusos de poder autoritários. A imagem do pesadelo do Cop Killer é uma síntese da angústia urbana, um Frankenstein de Tookie Williams [o fundador da infame gangue Crips] misturada com práticas centrais dos Panteras Negras e outros motivos sinistros. (...) Então, com o que Ice e eu discutimos em reuniões a portas fechadas, tive permissão para desenvolver um simulacro de fantasia para representar a visão e o esquema do Body Count: chocante, hediondo, apavorante, amedrontador, ofensivo, repulsivo, ardente, efetivo, verdadeiro, bela escuridão ou qualquer sinônimo que você deseja adicionar era o nosso compromisso...”
Até aquele ponto, já havia visto minha cota de capas intensas e controversas dentro do punk/hardcore e do thrash/death metal até do 'classic rock' e da música pop. Mas quando vi a ilustração de um gigante negro pronto para a guerra e com a frase "Matador de Policiais" tatuada no peito, já sabia que daria B.O.. Um negro forte, livre, incontrolável e indo atrás de retribuição? Nada é mais aterrorizante para a elite branca, seja de qual país for —o que me lembra os outdoors de um clube de tiro local, estampados com fotos de homens, mulheres e até idosos caucasianos ostentando pistolas com um belo sorriso nos rostos, mas nenhum com uma mísera foto de uma pessoa negra portando as mesmas armas. Risível de tão óbvio.

De alguma forma, a arte de Halili conseguiu transcender a mera apelação e catalisar toda aquela frustração e urgência por justiça, além de levantar uma discussão sobre as consequências da falta de lisura das instituições. Claro, pra mim, também era uma peça altamente influenciada pelos quadrinhos. Desde o 1º momento, olhar para aquela ilustração era como vislumbrar um "What If..." Luke Cage se tornasse o Justiceiro? A tempestade perfeita jamais quadrinhizada.

Além do timing surreal —o disco foi lançado apenas 1 mês antes dos chamados 1992 Los Angeles riots— e da já tensa relação do vocalista Ice-T com as autoridades, a capa teve todo o alcance que pretendia na mídia americana. E além. Halili comentou:
“Quando a controvérsia de Cop Killer atingiu sua massa crítica, eu vi minha pintura de capa sendo exibida nas redes de TV como uma peça de evidência de uma cena de crime pelas mãos do vice-presidente dos EUA Dan Quayle. Até Charlton Heston segurou minha arte na TV. Eu tinha 22-23 anos naquela época.”
E aquele B.O. acabou chegando de fato.

Desesperada com a polêmica, a Sire/Warner Bros. optou por uma nova tiragem com a capa completamente preta e apenas com o nome da banda. Depois, alterou a pintura original por conta própria, removendo o "Cop Killer" do peito do vigilante e inserindo digitalmente o nome do grupo.


Tão icônico quanto a capa é esse exemplo de censura sofrível para a posteridade.

Halili ainda trabalhou em vários projetos de Ice-T, incluindo outra capa bastante polêmica, cuja nova tentativa de censura culminou com sua saída definitiva da Warner. Curiosamente, é dele também a capa de Born Dead, o 2º disco do Body Count.

Desta vez, a ilustração mostrava vários bebês brancos deitados em seus berços e um único bebê negro... num caixão. Uma imagética muito mais chocante e terrível que a anterior, mas que, evidentemente, não teve um décimo da repercussão...

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Universo Marvel 171

Jim Shooter nunca foi de medir palavras. Adoro a máxima de Bruce Jones resumindo como era trabalhar com o ex-editor-chefe-e-carne-de-pescoço da Marvel: "I was just in there dodging shots from Shooter." Trocadalho do carilho. Então, nada melhor para animar um evento ou um churrasco da firma que a presença desse ilustre controverso. Sempre rende —e rendeu bastante no Q&A da MegaCon Orlando, que rolou no início deste mês.

Neste trecho, ele conta sobre um telefonema muito suspeito que recebeu da Marvel a respeito de Guerras Secretas. Quase 40 anos depois da saga...


Em tradução livre, leve e solta:

"Esse palhaço me ligou da Marvel, não era editor nem nada. Ele era um executivo da administração de propriedades, o que é um pouco estranho. Ele me perguntou se eu queria escrever uma novelização de Guerras Secretas. E eu disse, bem, que pensaria a respeito. Então ele me mandou uma oferta e a oferta veio com um contrato e o contrato era grosso assim. E quase tudo daquilo era um contrato retroativo de prestação de serviços. E era legalmente coberto de todas as maneiras possíveis, se o tribunal não aceitasse aquilo, até seus filhos iriam pra cadeia. Isso é terrível e era tão somente um enorme e draconiano negócio de prestação de serviços. E haviam duas páginas sobre o quê o acordo realmente era e o acordo era inaceitável de todo jeito. Eu estava, tipo, 'não, não vou fazer isso, não é nem mesmo uma oferta real.' Acho que talvez ele pensava que eu estivesse desesperado ou algo assim. Então, eu recusei e aí recebo uma ligação de seu chefe, David Bogart, e ele é vice-presidente executivo de alguma coisa relacionada às propriedades. E ele pediu desculpas por esse cara subalterno que estava tentando me convencer a assinar o contrato antes... Ele disse, 'bem, eu realmente não posso falar sobre isso, mas gostaríamos que você assinasse um contrato de prestação de serviços' e, eu disse, 'tudo bem, envie para mim, eu trabalho por encomenda. É seu, apenas me envie a papelada.' E ele disse, 'não, estamos preparados para lhe pagar dez mil dólares para assinar o seu nome.' Eu disse, 'você não tem que me pagar nada, eu sei que foi um trabalho por encomenda, o que eu vou fazer, mentir?' Mas eles não tinham um único pedaço de papel que dissesse que eram os donos do Beyonder, Titânia, Vulcana e de quaisquer outros personagens que colocamos lá, incluindo a nova Mulher-Aranha e toda a coisa do Uniforme Negro, nada, e nenhum pedaço de papel para dizer que eram seus donos. Eu disse, 'você não tem que me pagar, mande o maldito papel, eu assino.' Ele disse, 'pegue o dinheiro, idiota.' Eu disse, 'tudo bem, eu pego.' Então, assinei o contrato e perguntei a ele, 'isso significa que você vai fazer um filme, certo?' Ele respondeu, 'não tenho autorização para falar sobre isso'. E eu disse, 'acho que você acaba de falar.'"

No fim, ele faz breves reflexões sobre a indústria hollywoodiana e o jeitinho à Odorico Paraguaçu de conduzir negócios por lá. Não nestes termos, evidentemente.

Primeiro: hábitos antigos não se perdem fácil. O "palhaço" que o diga. Devia ser um purgatório trabalhar com/pro Atirador. Segundo, muito provavelmente ele acaba de escancarar em praça pública qual será a direção do UCM pós-Kang. E isso é inconcebivelmente grande em escopo. Planejamento a longo prazo, é o que digo. Por último, é um testemunho inconteste do chapéu-seguido-de-bolada-nas-costas que a Marvel acabou de aplicar. Mais um.

Dez mil doletas não é nem 0,01% do bilhão fácil que o estúdio irá faturar com a bilheteria disso —pra não falar nos direitos de co-criação dos personagens citados (e mais um complicado: Venom) e o respectivo merchandising/pé de meia vitalício. Kevin Feige deve estar rolando de rir até agora.

E assim se encerra mais um capítulo de Cambalacho Marvel da Semana.®™

Se estivesse lá, teria dito a Shooter para perguntar antes e atirar assinar depois. E principalmente: "não pegue o dinheiro, idiota."

terça-feira, 24 de agosto de 2021

We will miss you


Charles Robert Watts
(1941 - 2021)

Se foi o sujeito "normal" da instituição The Rolling Stones. O bom, velho e lendário Charlie Watts pertencia à realeza do Rock —melhor ainda, à realeza cultural do século XX— e é irônico que nem fosse exatamente um baterista de Rock. Watts era um músico de skiffle, gênero inglês inspirado nas big bands americanas de jazz dos anos 1920/1930. E foi um músico de skiffle que tocava Rock. Por sessenta anos.

Não é de admirar como seus toques na caixa e no chimbal eram imediatamente reconhecíveis. Ele era o cozinheiro dos sonhos para Keith Richards e Mick Jagger. Seu estilo elegante, consistente e único deu o tom definitivo a standards sacrossantos como "Paint It Black", "Under My Thumb", "Let's Spend the Night Together", "Sympathy for the Devil", "Street Fighting Man", "Jumpin' Jack Flash", "Gimme Shelter", "Tumbling Dice", "Miss You", "Start Me Up" e uma infinidade de outros. Metade das bandas blues rock e hard rock blues-based devem suas existências às baquetas desse senhor. E a outra metade, ao resto do kit.

E ele nem mesmo precisava de um kit. Bastava um air drumming maroto e uma basezinha pré-gravada.


Gênio!

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Antologia, eu quero uma pra viver


Sempre curti antologias. Material DC-Marvel adequado —fruto de seu zeitgeist, emblemático, antológico— tem de sobra. Estivéssemos em um cenário econômico minimamente decente, estaria me refestelando nas investidas da Panini pela linha. Mas já que a editora segue esnobando o apelo fácil das Archive/Epic gringas em favor do couché com capa dura deluxão de 150 minions, lá vai o infeliz aqui submeter boa parte do checklist a uma triagem de fazer inveja ao exército espartano. Tempos desesperados.

Vez ou outra surgem algumas surpresas, como a supimpa mini Batman/Huntress: Cry for Blood, de Greg Rucka, ensanduichada no meio da improvável Arlequina e as Aves de Rapina: Antologia. Vê se pode e que Deus abençoe o Guia dos Quadrinhos.

No caso da Liga da Justiça, renderia uma série de antologias, fácil. Em particular, da Liga pré-Crise, em sua maior parte ainda criminosamente inédita por estas bandas (os drops "clássicos" que fecham os volumes da salgadeira Eaglemoss não contam). Então, Liga da Justiça: Antologia serve sobretudo como um paliativo neste worst case scenario, além de um arquivo razoavelmente compreensivo. Claro que não dá pra mastigar e cuspir 60 anos de cronologia assim, na loucura. Mas é bem divertida a viagem de classe econômica desde a The Brave and the Bold #28 inicial, com breves escalas na Era de Bronze e na Liga tosca até os bad boys dos Novos 52 —sim, estou falando de você, Clark.

E esta Antologia também me trouxe um impacto pessoal extra: a inclusão da 200ª edição de Justice League of America, de março de 1982. Ou melhor, da "Superdimensionada, Estrelada 200ª Edição de... ★★★★★ Liga da Justiça da América ★★★★★", como se rasgavam na chamadinha de capa.

E que capa.


George Pérez é um dos filhos da puta mais talentosos que a indústria dos quadrinhos já pariu. E aqui, sua presença cheirava como a melhor novidade dos comics regulares desde sei lá quando. Nem era realmente uma novidade, mas Pérez finalmente desenhando a Liga da Justiça, apesar de já ter experimentado isso numa aventura dos Novos Titãs, pra mim, era como um big evento. E, inadvertidamente, era mesmo, já que aquele foi o canto do cisne do artista no título.

A própria Liga me soava como algo novo e excitante. Em 1986, ainda molequinho e já sem 1 tostão, tinha que escolher cuidadosamente o que iria levar da banquinha. Não era raro conhecer tardiamente alguns medalhões das HQs. Às vezes, o destino conspirava a favor e meu 1º contato pra valer com os Superamigos de papel foi em grande estilo: Super Powers #3, da Abril. Essa li e reli até gastar.

A aventura "Uma Liga Dividida" é hors concours em listas de melhores histórias da equipe em todos os tempos. E na minha também. Na trama, os novos integrantes da Liga são atacados pelos membros originais, que aparentemente não têm nenhuma memória sobre eles. Seu objetivo é reunir os sete meteoritos onde estão os candidatos à soberania de Appellax, planeta dos mesmos aliens que eles enfrentaram em plena Era de Prata (se morda de inveja, Grant Morrison) e que, olha o spoiler, agora os mantêm sob domínio mental. Os fragmentos estão espalhados ao redor do globo —Índico, Zimbábue, Irlanda, Itália, Ilha Paraíso— e aí tem início aquilo que mais fazia a alegria do povão nerd da época: super-herói contra super-herói. Yay!

Não era uma história complexa, tampouco original —é mais ou menos uma versão DC da clássica Vingadores X Defensores, de nove anos antes— e nem creio que este tenha sido o intento do roteirista Gerry Conway, àquela altura titular na Liga por 50 edições. Ao confrontar duas gerações de heróis, Conway exalta todo aquele simbolismo heróico/libertário/inspirador que a superequipe projeta como nenhuma outra, aspecto este que havia sofrido um desgaste natural com o passar dos anos. O foco era revitalização.

Naquele período, as edições comemorativas haviam se tornado um filão interessante para as editoras. E por mais que a Marvel tenha produzido especiais memoráveis como Fantastic Four #200 (nov/1978), Amazing Spider-Man #200 (jan/1980), Thor #300 (out/1980) e Avengers #200 (out/1980 —hmmm, essa talvez não...), ninguém sabia fazer uma festa como a DC. Em JLA #200, a editora reuniu um cast inacreditável para ilustrar as porradarias super-heroísticas.

Temos aí Pat Broderick fazendo Ajax/Caçador de Marte/J'onn J'onnz vs. Nuclear, Jim Aparo com Aquaman vs. Tornado Vermelho, Dick Giordano em Mulher-Maravilha vs. Zatanna, Gil Kane com Lanterna Verde vs. Elektron, Carmine Infantino em Flash vs. Homem-Elástico, Brian Bolland com Batman vs. Arqueiro Verde & Canário Negro e o mestre Joe Kubert desenhando Superman vs. Gavião Negro. Como se vê, uma escalação privilegiando criadores, como Kubert-Gavião Katar Hol e Kane-Elektron/Lanterna Hal Jordan, e artistas regulares de longa data, como Aparo-Aquaman e Broderick-Nuclear. A exceção é o british Brian Bolland, recém-saído da 2000 AD, em seu 3º trabalho para uma arte interna da DC. A maior parte das artes-finais é feita pelos próprios desenhistas, menos Pérez, finalizado por Brett Breeding, os segmentos de Broderick, por Terry Austin, e de Infantino, a cargo do grande Frank Giacoia.

O resultado é o crème de la crème de la crème de la crème...





É a 1ª vez que essa história é republicada por aqui desde aquela jurássica Super Powers —sabe-se lá por que catso a Panini só incluiu o prólogo com a origem resumida da Liga na Coleção DC 70 Anos 5 de 6. Naturalmente, logo que bati o olho na seleção, meu coração pútrido e nostálgico quase saltou pela boca. Finalmente estava próximo de colocar minhas garras nessa história em formato integral. Aquele infame "chuunf" cocainômano pelas páginas pós-retirada de plástico estava mais próximo do que jamais esteve...

...ou quase.

Só pra não perder o costume, na 1ª tiragem do volume a Panini chutou o pênalti direto pra Lua. Simplesmente confundiram a edição JLA #5 (maio/1997) constante no índice e nos créditos da contracapa com Justice League #5 (setembro/1987). A primeira é da fase de Grant Morrison e do Superman elétrico, enquanto a última é a Liguinha de Keith Giffen e J.M. DeMatteis, já representada no encadernado pela edição #1.

E lá fui esperar recall, mais uns meses até uma nova tiragem, solicitar o código de postagem-reversal russa, redigir cartinha explicando a peraltice da editora, empacotar tudo com cuidado, me dirigir até uma agência dos Correios e sentir a espinha congelando com a porrada que a atendente deu com o pacote na quina do balcão. E este foi mais um oferecimento do meu, do seu, do nosso...


★★★★★ Porra, Panini!® ★★★★★


Ainda tive que segurar a abstinência por mais algumas semanas até aquele chuunf restaurador (por isso não faço vídeo unboxing, seria quase tão constrangedor quanto manter um blog hoje). Mas enfim, a nova edição chegou corrigida brand new.

Agora posso viajar sem interferências TOCquísticas pelo desenho estrutural do Satélite da Liga. Melhor base.



E, claro, ver o que o Azulão (literalmente) contava de novo naquele restinho de século e com direito a Batzuada.



Por sinal, essa foi a estreia do Superômi 220V na minha coleção física. Demorei só o necessário.




No fim, tudo deu certo e o bem venceu o mal. Como na Justice League of America #200...

sábado, 14 de agosto de 2021

Sadness Bloody Sadness

Felicidade é o trailer de The Sadness. O sangue jorra como se fosse um maldito gêiser!


O filme se passa em Taiwan e é escrito e dirigido pelo cineasta canadense Rob Jabbaz. À primeira vista, lembra uma adaptação não-oficial de Crossed, o gibi ultraviolento de Garth Ennis e Jacen Burrows. Melhor ainda, lembra uma mistura de Crossed com a igualmente carniceira HQ Blackgas, do Warren Ellis (lembra dele?). Só referência carne de pescoço.

E a sinopse não é exatamente uma lufada de esperança para os dias atuais:
"Depois de um ano lutando contra uma pandemia com sintomas relativamente benignos, uma nação frustrada finalmente baixou a guarda. É quando o vírus sofre mutação espontânea, dando origem a uma praga que altera a mente. As ruas explodem em violência e depravação, à medida que os infectados são levados a praticar as coisas mais cruéis e horríveis que podem imaginar. Assassinato, tortura, estupro e mutilação são apenas o começo. Um jovem casal é levado ao limite da sanidade enquanto tenta se reunir em meio ao caos. A era da civilidade e da ordem não existe mais. Existe apenas 'The Sadness'".
O filme tem rolado em festivais indie desde janeiro e ainda não tem uma data de estreia oficial. Mas já garantiu um lugar de destaque na minha lista.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Esquadrão Classe S


Alguns destes personagens irão morrer até o final da história. Não se apegue!

Na época do 1º filme do Capitão América, pensei como seria bacana um longa com as missões do Comando Selvagem na 2ª Guerra —cheguei até a divagar algo assim no texto. A inspiração imediata seriam os velhos clássicos de aventura de guerra como Os Doze Condenados, Os Canhões de Navarone e Desafio das Águias. Ou seja, um bando de dead men walking atirado no olho do furacão para defender o mundo livre. Por aí se vê que o conceito básico por trás do Esquadrão Suicida não é original, tampouco recente. A própria gênese do grupo criado por Robert Kanigher e Ross Andru e depois "remasterizado" por John Ostrander já remonta aos marcos deste subgênero.

Parecia simples, mas em 2016 veio Esquadrão Suicida de David Ayer, que se embolou todo e foi um flop maior que o do Flamengo na última rodada. Já com O Esquadrão Suicida de James Gunn a história é bem diferente. Ainda que seja a mesma história.

O The Esquadrão é muito mais divertido e empolgante que seu predecessor (o que não é difícil). Esperto, Gunn teve a sacada de que negar o direito do Esquadrão Suicida ser suicida é abrir mão da argamassa que segura o conjunto, com todo o gore, putarias e insanidades que o compõe. E que, provavelmente, foi a não sacada disso que levou a Warner a cometer a pasmaceira do anterior. E que, provavelmente², Ayer tem mesmo uma carta na manga quando acusa o estúdio de ter metido o bedelho na produção e que há um Ayer Cut vingador à espera de uma versão de 4 horas em formato IMAX. Começa abrindo uma conta no Vero, Ayer.

Esse abraço apaixonado na essência do Esquadrão também se estende à parte ridícula dos quadrinhos de super-heróis —se você acha que Wolverine de cinema tem que ter chifres e colante amarelo, tem boas chances de ficar feliz com o filme. O Esquadrão Suicida traz alguns dos maiores fanservices visuais já cometidos em adaptações de gibis. Dos uniformes aos poderes, tudo é explosivamente colorido, extravagante e heterodoxo, sem medo assumir o carnaval quadrinhístico e de ser feliz bizarro. A mesma sensação mesmerizante que tive na época da Liga da Justiça Sem Limites quando a retina fritava com os zilhões de cores dos novos super-heróis e supervilões.

E aqui finalmente chegamos à Terra Colorida Prometida.


Na traminha, a Força-Tarefa X é enviada até a ilha de Corto Maltese (Hugo Pratt's rights reserved?) para destruir uma base científica comprometedora para os EUA. E pronto. O que importa é a jornada e, no caso, também a companhia.

Mesmo sendo de conhecimento geral que, neste ponto da História da Humanidade, a Arlequina da deusa crocante Margot Robbie é imorrível e imatável, é complicado comentar sobre os integrantes do Esquadrão sem incorrer num spoiler cara-de-mamão. Mas dá pra traçar umas considerações vagas de boteco.

Rick Flag não era um problema no 1º e continua bem representado pelo Joel Kinnaman como o cara que comanda seguindo o manual, mas com algum senso de justiça pessoal. Idris Elba é capaz de qualquer coisa neste mundo e encarnar o Sanguinário é algo como pedir pra ele respirar. O alardeado Pacificador do wrestler good boy John Cena tem algumas boas tiradas reservadas pelo roteiro, mas sempre esbarrando no curto alcance interpretativo do maromba. De todo modo, o molde do soldado americano ultrapatriótico/cuzão (tenho a revistinha) está lá e a canastrice Cênica até joga um tempero em cima. Dessa forma, Gunn enfileira nada menos que três peões machos-alfa na linha de frente —um dia no escritório para a geração que cresceu assistindo Predador, mas uma horrível morte por overdose de testosterona para os millennials (devidamente zoados no filme). E claro que isso também rende diálogos/disputas ótimas entre os brucutus.

E eis que aqui temos a mais bem escrita Arlequina da filmografia DC (a Quinzel da Mia Sara não conta: Mia Sara é entidade). Divertida, doida e cativante em partes iguais. E com ótimas cenas —me deu um puta susto na hora daquele tiro. Mesmo com a sequência-de-pancadaria-solo/obrigação-contratual, finalmente acertaram o tom. A Robbie merece. E louvável o fato dela ter uma cena de sexo num filme que já conta com tórridas cenas de nudez.

O que me leva à Caça-Ratos 2... que codinome maravilhoso. Mais maravilhoso ainda é o fato de manterem assim. Ainda que a vibe mellow yellow e introspectiva da portuguesinha Daniela Melchior destoe dos demais, ela serve como um contraponto de humanização em meio a tanta casca-grossice. Também foi espirituoso o cameo de Taika Waititi como seu pai, o Caça-Ratos original, numa belíssima cena que me lembrou A Cidade das Crianças Perdidas, do Jeunet. Mas nada que roube o brilho do "momento fraterno" entre o Sanguinário e sua filha Tyla, quando esta o visita na prisão. Sinceramente, depois daquele diálogo-trocação inacreditável entre Elba e a guria Storm Reid, a parada já estava ganha. E já torço por um filme só com esses dois.

David Dastmalchian passeia como o simplório Bolinha (pai e mãe do Speedball, da Marvel), surpreendentemente funcional em ação e com momentos impagáveis. E claro que não se pode esperar grandes arroubos dramáticos de um personagem como Nanaue, o Tubarão-Rei, além da ironia-mor que é a escalação de Sylvester Stallone para a voz. Valeu pela sanguinolência em profusão.

Alice Braga, nossa brasileira titular em Hollywood, também comparece como a líder de um grupo revolucionário de Corto Maltese. E, como sempre, atua demais em um filme onde isso não é tão necessário e nem recomendável. Deve ser mal de família.


Gostei da maioria das piadas —a do figurante Milton foi uma das melhores, já que me perguntava mesmo de onde tinha saído aquele sujeito. E o ato final, com Starro, o Conquistador fecha com chave de ouro. Impossível não lembrar da icônica cena do Stay Puft. Ao meu ver, foi homenagem até.

De ruim, são as partes que remetem ao primeiro: o momento-melô em que os integrantes do Esquadrão se veem como família (mas já?) e a trilha sonora metida a cool o tempo inteiro. Há tempos o Gunn anda precisando segurar a periquita nesse sentido. Também esperava mais do Pensador do Peter Capaldi, engessado como MacGuffin na maior parte do filme. E a Amanda Waller da espetacular Viola Davis precisa urgentemente de um filme solo. Nos arquivos DC existem premissas às baciadas para isso, todas com potencial para filmaços.

O Esquadrão Suicida é uma daquelas raras retomadas que cumprem seu objetivo como filme autocontido, como filme-franquia e como filme-pipoca. E nessa altura do acidentado DCEU, isso é como transformar o Mar Vermelho em Heineken.

Além disso, onde mais teríamos a chance de ver O Cara Desacoplável em ação?

Ps: atenção para as ceninhas pré e pós-créditos.

Na época da National Allied e da Timely é que era bom


O nó nas tripas do 5&20 não deve desatar tão cedo. Afinal, esse é o modus operandi das duas grandes desde sempre. Que o digam as famílias Siegel, Finger e Kirby. Até o caso Scarlett Johansson, ainda que orbitando outra esfera, ilustra à perfeição as constatações do ótimo artigo do Guardian.

Esse trecho é lapidar:

"Starlin negociou um pagamento maior depois de argumentar que a Marvel o pagou mal por usar Thanos como o grande vilão do MCU. O prolífico escritor da Marvel, Roy Thomas, teve seu nome adicionado aos créditos da série Loki da Disney + depois que seu agente fez barulho. Mas esses são os criadores que a Marvel precisa manter felizes; as coisas podem ser muito diferentes se ninguém liga quando você reclama."

Movimentar bilhões de dólares e fazer vista grossa para os criadores usando a velha malandragem do "vai que cola." Tive chefes que faziam isso com troco de padaria e já achava o cúmulo da avareza.

Dizer o quê? "'Nuff said"?

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Amigo Y

Dia desses estranhei o fato de Y - The Last Man, a série, estar vendida mal e porcamente pela FX on Hulu —ou por sei lá quem compõe o departamento de marketing/assessoria de imprensa desses conglomerados streamicos. Mas eis que um trailer completo finalmente sai e...


...chorei.

Fiquei genuinamente arrepiado já na primeira transposição mais evidente (Hero is my hero). Vi ali não atrizes e ator, mas Hero, Dra. Mann, 355, Yorick e, claro, Ampersand em carne, osso e cromossomos. Pra ser sincero, não fico tão empolgado com uma prévia de série adaptada dos quadrinhos desde o 1º trailer de The Walking Dead, há onze anos.

E isso, meu amigo, é um puta elogio.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Ve con Dios, Hombre!


Joseph Michael "Dusty" Hill
(1949 - 2021)

Dusty Hill, cara. Se foi 1/3 do maior e mais resiliente power trio da história.

Hill era o coração pulsante do ZZ Top. O taifeiro de uma das melhores cozinhas do rock, dono dos grooves southern/blueseiros/tex-mex mais vibrantes já registrados. No baixo, no vocal e no palco, o barbudo era infernal.



Dusty está eternizado no Rock & Roll of Fame desde 2004. Mas nem precisava. Ele já estava eternizado nos corações (e nas playlists) de quem entende de música.

Que semana. E segue 2021...

terça-feira, 27 de julho de 2021

Vá em paz, Seu Orlando!


Orlando Drummond Cardoso
(1919 - 2021)

Falar que o genial Orlando Drummond fez a alegria de várias gerações é até redundância. Ele pertence a um seleto grupo cuja vida se funde com a história do entretenimento brasileiro - onde sua carreira teve início em 1942. O homem é uma lenda.

E o melhor de tudo: foram 101 anos de uma vida plena e incrivelmente produtiva.

Obrigado por tudo, Orlando Drummond.