quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

FEROZES & FURIOSOS


Lendo a entrevista hilária que o maleta Rob Liefeld concedeu ao Silver Bullet Comic Books ("I make plenty of mistakes. I'm far from perfect..." - bota far nisso aí, cara), acabei lembrando porque a banda noventista da minha coleção de HQs jaz em uma enorme caixa de papelão. E é um arquivo morto em constante atividade. Foi uma década que eu praticamente não li quadrinho, então, sempre que posso, adiciono mais publicações desse período, via sebo. Cinco anos após a retomada, vejo que, entre descobertas interessantes e idéias originais, o grito da galera era mesmo violência, porrada, ação, mais violência, mais porrada e ação. Entre uma coisa e outra, muita porrada e violência, sempre com bastante ação. É impressionante a quantidade de merda por quadrinho quadrado produzida nos anos 90. Fico feliz de ter sido a década que eu "perdi".

Até entendo o impacto que aquelas capas do Spawn, X-Men, Batman, Wolverine, etc, provocavam. Na época, eram bem maneiras (ou só pareciam maneiras, porque olhando hoje, nem tanto). Mas após a centésima luta sem sentido, diálogos sofríveis e poses de corar banda hard farofa dos anos 80, não haviam mais dúvidas - aquilo era quadrinho ruim... mas ruim com pressão.

O nanquim do artista-símbolo da época, Sua Sisudice Jim Lee, era quem mais tinha culpa no cartório, devido à (má) influência exercida na geral. Seu estilo patolão impregnou 95% dos quadrinhos pop americanos dos anos 90, mas cabe dizer que ele mesmo era tecnicamente OK no que fazia, só pecando pela caracterização facial inexistente dos personagens. Seus influenciados, no entanto, soavam como clones malformados (sendo Liefeld o Nasce Um Monstro da vez).


Como o sucesso foi retumbante (malditos fanboys), artistas consagrados e revelações emergentes abandonaram sua evolução artística natural para aderir ao estilo bad boy de ser. Exigência de mercado = leitinho das crianças.


Cable, abarrotado pra guerra
Os heróis seguiam o perfil "muito múque e pouco cérebro". E as heroínas, coitadinhas, usavam o fio-dental tão atochado no rabo que deviam sentir o gosto do pano. Isso sem falar no sério problema de coluna provocado pelos airbags tamanho extra-HUGE e pelas poses de partir a cervical.

Acho curioso como os roteiros também decaíram nessa muscularização dos quadrinhos. Ficou tudo ridículo e forçado demais, com raríssimas exceções. Herói morria e ressuscitava como quem tivesse saído pra comprar cigarro. Viagens no tempo, realidades alternativas, clones engana-trouxa ("morreu, mas não era ele, era o clone") e por aí vai. Como ainda estou no garimpo quadrinhístico dessa era (já em fase final), é freqüente o meu assombro quando passo pelos sebos.

Eventualmente, alguns diamantes reluzem no percurso - outro dia, descobri em O Incrível Hulk um arco do Homem de Ferro por John Byrne/Romita Jr. que é o cão chupando manga - mas foi em X-Men Gigante #1 que encontrei o equilíbrio do Lado Negro da Força.


Tudo o que os quadrinhos da década de 90 representam pra mim está contido nesta revista. Todos os vícios, chavões, fórmulas exauridas e rombos estruturais condensados maravilhosamente em uma só edição. Leu essa, leu todas. Na capa, a chamadinha já alertava: "260 páginas de AÇÃO, revelAÇÃO e morte (mas com muita AÇÃO)!" Um clássico. O pior é que a história é reverenciada por muitos como sendo um clássico mesmo: A Canção do Carrasco é cotada como uma das melhores sagas pós-Claremont dos mutunas. Nosso Deus. Dêem qualquer história dos Novos Mutantes fase Claremont/Sienkiewicz pra esse pessoal ler e se recolher aos seus cantos fétidos e forrados com edições da X-Force de Nicieza/Liefeld (pra leigos: isto foi uma puta ofensa!).

Em A Canção do Carrasco o Professor Xavier sofre um atentado e é infectado por um tecnovírus. Aí, Ciclope e Jean Grey são seqüestrados por Caliban. Na seqüência, os Cavaleiros do Apocalipse atacam Colossus e Homem de Gelo. Depois é a X-Force que se atraca com os X-Men (e não espere grandes explicações). Cable - que veio de um futuro alternativo - é acusado de ser o autor do atentado. Pra concentrar mais esforços, os X-Men e Bishop - que também veio de um futuro alternativo... essa HQ é praticamente uma rodoviária interdimensional - se unem ao X-Factor. Daí o darkótico Sr. Sinistro aparece pra ajudar a encontrar Apocalipse, provável arquiteto de tamanha x-bagunça. Contudo, o mutante egípcio, que conta com o auxílio dos Cavaleiros da Tempestade, nada sabe. Pra não perder o costume, os X-Men encaram outra batalha nonsense (embora até engraçadinha), desta vez versus a Frente de Libertação Mutante.


Š P Ọ Ỉ L Σ Ř

Tudo vai degradando, degradando, até descobrirem que o vilão Conflyto é o grande manipulador do esquema. Conflyto, adivinha, vem de um futuro alternativo e busca vingança contra Apocalipse, mas acaba lutando mesmo é com Cable, em uma seqüênciazinha cujos desdobramentos são absurdamente parecidos com um momento clássico do bão e véio Esquadrão Atari. Pouco antes do finalzinho, Cable ainda arruma tempo pra morrer-rapidinho-e-já-volta.


Σnd Ọf Š P Ọ Ỉ L Σ Ř




Ciclope e Jean treinam esta posição na Sala de Perigo

A Canção do Carrasco é um exemplar autêntico da chamada Era dos Excessos. O "roteiro" ficou a cargo de Scott Lobdell, Peter David (até tu, Peter?!) e Fabian Nicieza (urgh), e nos desenhos se revezaram Greg Capullo, o atualmente bonzão Brandon Peterson, Andy Kubert (mais perdido que cego em tiroteio) e, heresia maior, Jae Lee - responsável pelos únicos espasmos de talento individual aqui.

Vou ser sincero... guardo X-Men Gigante #1 com o mesmo carinho que um Elektra Assassina ou um Arma X, em posição vertical dentro de um rackzinho super-prático que eu tenho. Lá, ela desfruta da companhia ilustre de V de Vingança e Cavaleiro das Trevas, entre outros notáveis. Ela merece, pela sua excelência em concentrar tanta ruindade de uma só vez. É anti-Arte de primeiro nível.

Pena que não tinha o Rob Liefeld. Aí sim, seria "perfeita".


Ainda tô rindo da mea culpa do RL sobre o "Cap with boobs"... vai, mané. :P

domingo, 28 de janeiro de 2007

DIABOLE VERTSES EN UN VESES

"Who, in their right mind, could possibly deny the 20th century was entirely mine?"
John Milton (Advogado do Diabo, 1997)

E pelo andar da carruagem, o coisa-ruim anda fazendo uma senhora campanha de publicidade também no século 21. É um tanto desesperador que esta frase tenha sido cunhada numa época pré-11/9, pré-Afeganistão, pré-Iraque, pré-tsunami, pré-mensalão, e por aí vai. Certa vez, li uma teoria sobre o livro/filme O Exorcista que explicava que aqueles eram tempos de crise moral e política nos EUA, somadas aos horrores de uma guerra perdida, à escalada da violência urbana e à ausência geral de valores espirituais. Ou seja... o ambiente perfeito pro demo fazer a festa (começando por garotinhas indefesas). Longe de ser um expert nos aspectos técnicos das manifestações cramulhísticas, imagino que, sendo uma entidade abstrata em nosso plano, a sugestionabilidade coletiva é uma poderosa arma em suas garras. Não que o tinhoso seja o causador da merdaiada em que o ser humano vive se metendo. Seu 'trabalho' é muito mais discreto. Afinal, como profanou humildemente John Milton... "não sou titereiro... apenas preparo o cenário. Você é quem puxa suas próprias cordas".

Na cultura pop convencionou-se tornar a figura do belzebu em algo mais concreto e, nessa, o conceito do anticristo foi prontamente adotado. No cinema, ele aparece mais freqüentemente como uma força invisível e irreprimível (vide o Bzão O Príncipe das Sombras) ou como moleques assustadores com um "666" tatuado em algum lugar do couro (A Profecia, O Bebê de Rosemary). Mas isso é só no caso da paternidade ser do próprio Satan-in-chief. O esquema todo é cheio de regras e estratégias porque o livre-arbítrio, graças a Deus, tá na área.

Nos quadrinhos, essa burocracia infernal, bem mais complicada que uma "simples" possessão (à Etrigan/Jason Blood, da DC), pode ser contornada quando o cão em questão pertence à uma classe inferior - 1/3 dos anjos originais já é um número que demanda alguma pesquisa censitária. Nota-se também que um objetivo de vida mais modesto e não tão ambicioso, tal como "conquistar/destruir o mundo", é um facilitador do processo. Foi assim com o sacana Violador (arquiinimigo do Spawn), da Image, que, se não me falha a memória, é filho de um demônio jurássico old school com uma humana (é isto mesmo, Fivo?).

Já o sinistro Coração Negro, da Marvel, é um caso à parte.


Wes Bentley recebendo o exú Coração Negro: a forma humana do vilão

Criado por Ann Nocenti e John Romita Jr. em 1989, ele debutou numa história do Demolidor (Daredevil vol.1, #270 - publicada no Brasil em Superaventuras Marvel #122). Coração Negro é filho do super-capeta Mefisto, que o concebeu sem envolver qualquer miscigenação - o pequeno Coraçãozinho, além de 100% Negro, é 100% Cramulhão - detalhe que acho interessante. Ensaiando uma versão blasfema do Deus cristão, Mefisto envia seu único filho para a Terra em busca de uma espécie de redenção invertida. E para isto, nada melhor que vilipendiar os valores e ideais de alguma alma justa, incorruptível e altruísta - é ou não é a descrição per se do Demolidor (a.k.a Demônio Audaz)?

Em seus primeiros dias, Coração Negro é instinto puro. Através dos recordatórios, Ann Nocenti (mulher sensacional... ainda vou escrever muito, mas muito sobre ela) detalha minuciosamente cada sensação e etapa do aprendizado da infante criatura das trevas. O resultado lembra o texto de algum documentário estilo Desafios da Vida, com predadores famintos cercando filhotinhos desgarrados. A prosa de Nocenti é ágil e muito bem-sacada, o que impede o roteiro de se tornar pretensioso e enfadonho. Mesmo assim, ela aposta no seguro e suaviza ainda mais a atmosfera com uma participação especial do Homem-Aranha - outro herói sempre às voltas com dilemas éticos e ideológicos.

E Romita Jr., atravessando a primeira e definitiva re(/volu)formulação em seu estilo, insere em sua concepção visual o mesmo clima descomplicado das palavras de Nocenti. Fora que seu design para Mefisto, além de radical, é bem mais aterrorizante que o Conde Drácula cover habitual.


Provavelmente... nunca havia pensado nisso e nem sei se confere de fato... Romita Jr. tenha se reinventado de maneira tão efetiva visando a interação ideal com a narrativa de Nocenti. Acredito mesmo que ele tenha empreendido uma busca pela química perfeita entre suas imagens e o texto dela - deixando pra trás a influência paterna inicial (wow) para descobrir sua verdadeira ID artística, o que resultou numa das melhores parcerias dos quadrinhos, merecedora de TPB's, sketch-books e edições especiais ad nauseum (alô Panini!).

Segue abaixo a história da treta de Murdock e Parker versus o vilão de coração negro. Scans by me.


Peter Fisto: Easy Rider from hell
Sinceramente, tento não esperar muito da adaptação de Motoqueiro Fantasma - onde também estrearão na telona o papai Mefisto (ou Mefistófeles) e Coração Negro (Jr). Apesar dos ótimos previews, teasers e trailers, o figura Mark Steven Johnson sempre será o diretor do decepcionante Demolidor. Mas, olhando pelo lado positivo, grande parte das deficiências que deram as caras em Demolidor (sem trocadilho) serão contornadas pela natureza e poderes sobrenaturais do personagem-título. E o cast é bastante animador. Além de Nicolas "droga-eu-queria-mesmo-era-o-Superman" Cage, também tem o meu tio Sam Elliott, o sempre promissor Wes Bentley, a instituição harley-davidsoniana Peter Fonda e a explosively hot Eva Mendes.

E não sei até que ponto se pode confiar nas declarações do diretor, mas que elas são instigantes, isso são: "Coração Negro é mostrado no que eu considero sua 'forma humana' na maior parte do filme. Mas ao longo da história nós recebemos dicas do que existe debaixo desse disfarce. No clímax descobrimos seu eu verdadeiro - e ele é horroroso. Haverá um pouco do visual clássico da HQ adicionado de alguns elementos de horror".

Mefisto te abençoe, meu filho. Motoqueiro Fantasma estréia nos EUA em 16 de fevereiro. No Brasil, dizem que será em 02 de março.

Na trilha: Paradise Lost, One Second Live.

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

NERDS TAMBÉM VENCEM


Invejo pessoas que conseguem, do nada, inventar estórias que prendem a atenção. Claro, não são inventadas exatamente do nada. Se não forem inspiradas por outras leituras, são minimamente inspiradas em suas histórias de vida, mas ainda assim acho admirável conseguir construir um ambiente auto-suficiente, com um mínimo de originalidade, seja nos elementos e seu encadeamento ou a simples forma de contar algo que até já existe. Invejo mais ainda aqueles que não se bastam em contar aquela estória, mas acabam criando uma mitologia própria, com suas leis, sua ordem, sua lógica particular; dão seu nome a um universo. Conhecia poucos que fizeram isto e conseguiram reconhecimento legítimo: Tolkien e George Lucas são expoentes mais óbvios, mas temos ainda, em escopo menor, Monteiro Lobato. Estes exemplos são diferentes do universo de Star Trek e Nárnia, por exemplo, já que o primeiro não foi idealizado por uma pessoa e o segundo é mera derivação do que já existia. Em paralelo, há diversas outras publicações que, se não conseguem criar uma mitologia propriamente dita, ao menos seguem um encadeamento temático que reforça um gênero, como as do Guia do Mochileiro das Galáxias, Fronteiras do Universo e outras.

Pois bem, na virada deste ano fui apresentado – mui tardiamente – a mais um destes caras admiráveis. Orson Scott Card. O nome, quando li, não me era estranho, mas não consegui lembrar de nenhuma referência boa ou ruim de seus livros. Quando me foi oferecido o primeiro, O Jogo do Exterminador (Ender’s Game, 1985, 380 páginas), olhei para a capa – um desenho infantilóide um tanto quanto inadequado ao conteúdo – e pensei “Poxa... já passei da idade de ler livros da coleção vagalume”. O título brasileiro igualmente infanto-juvenil e a sinopse também não ajudaram muito, mas aí a culpa era minha mesmo, já que, sei lá por quais motivos, achei que tinha um ar de Guia do Mochileiro das Galáxias e, perdoem-me os fãs, acho aquilo extremamente chato. Ninguém que eu conheço tinha qualquer referência do livro, mas sou adepto da idéia de que prefiro me arrepender por algo que tenha feito do que por deixar de ter feito. Grata surpresa! Mesmo que o tema não tenha um tiro certeiro nos meus gostos, é inegável que a leitura fácil e bem arrumada, aliada a uma trama que transborda em referências, metáforas e sub-conceitos, atrai a atenção e consegue dar aquela a vontade de chegar logo ao fim.

O livro é ambientado em um futuro indefinido, onde o mundo experimenta um período de paz interna forçada e controle de natalidade, enquanto vive sob o constante receio de ser invadido por uma raça alienígena. Duas tentativas de invasões ocorreram no passado e a iminência de uma terceira faz com que busquem pessoas capazes de fazer a diferença na condução da esquadra estelar terrestre. Com isto, passam a peneirar crianças superdotadas que apresentem as características que encaixem no perfil desejado, caso do protagonista Ender Wiggin, uma criança de 6 anos.

O livro já tem 25 anos e contando. A literatura, aliás... a cultura de ficção científica ao longo deste tempo esgotou uma série de possibilidades que, hoje, fica difícil dizer quem influenciou quem e, mais importante, quem teve a sacada original. Meses atrás, conversando com o Doggma, comentei ter visto na véspera Duro de Matar e achava, depois de tantos anos desde que vi pela primeira vez, que o filme era uma sucessão de clichês. Ele retrucou dizendo que, na verdade, não era uma sucessão de clichês, mas a criação deles. Na época, aquilo era original. Isto muda muito o impacto que a estória tem para quem lê/vê. Não digo que O Jogo do Exterminador é uma compilação de fórmulas, longe disto, mas algumas das soluções apresentadas ao longo do livro parecem fáceis, simples, sem muita elaboração, o que não quer dizer que sejam triviais. Apenas não surpreendem em alguns momentos. Mesmo assim, paradoxalmente, percebe-se que Card tenta fugir de algumas situações-padrão, o que pode ser resultado das revisões que o texto recebeu desde que era um conto publicado em uma revista, até se tornar um livro completo. Em dado momento, achava que Card se perdia ao dar um comportamento e texto adulto para uma criança de 6 anos - não entrarei no mérito de superdotados portarem-se ou não daquele jeito - , mas depois percebi que a opção não foi mero elemento de roteiro. Ao optar pelo uso de uma criança, o livro atinge em cheio o público infanto-juvenil e seus conflitos, mais especificamente os daqueles jovens que têm algum tipo de sentimento de solidão, segregação. Entretanto, o comportamento e linguagem mais madura sem ser rebuscada (com concessões pueris óbvias, como o nome dado aos alienígenas) deixa a porta aberta para o público mais maduro e de mente aberta. Neste ponto, Card consegue ser minucioso em alguns detalhes. O nome do personagem, Ender Wiggin, tem algumas interpretações livres. Ender é quase um anagrama perfeito de “Nerd” e Wiggin tem sonoridade semelhante a “Winning”. Mas Ender é ainda uma brincadeira com “End” e “er”, partícula que, em inglês, denota autor de uma ação. Assim, Ender seria um Terminator, um Nerd Exterminador até no nome. Que criança solitária não encontra conforto em se ver ali?

A minúcia de Card não pára aí. É conhecimento tácito que o grupo de elementos que fazem um veículo cultural invadir a seara da aceitação popular é bem definido, e certamente o mix de conspiração política, ação seqüencial, simbologia religiosa e experimentações com comportamento humano faz parte deste grupo. Conferiu a Ender significado bíblico, messiânico, o que é pule de dez no mercado editorial de seu país, ainda mais se considerar que Card é mórmon e missionário, já tendo morado no Brasil na década de 70. Coloca então a política de 1985 a seu favor, moldando o Pacto de Varsóvia a serviço do enredo sem que, hoje, pareça datado. Ao entrar pelos meandros da política e Estado Militar, traz no bojo a questão da brutalização da infância em exércitos. Mais atual que isto, impossível. Não deixa também de usar um sem número de elementos e significados que tornam óbvio o uso do livro em debates filosóficos. Não fosse por LOST, pouca gente comum dos dias de hoje saberia quem foram John Locke e Desmond David-Hume, mas os arquétipos de ambos são usados no livro, fazendo a união da política, do abuso infantil, e do Escolhido de forma natural e, certamente, com inteligência. Não fosse o simples desenrolar do enredo suficientemente interessante, o uso destes elementos tem mérito por despertar a curiosidade do leitor acerca de fatos e pessoas, o que é sempre algo valioso e caracteriza grandes escritores.

Isto tudo não é suficiente para que se possa dizer que ele construiu uma mitologia. Vale mencionar, o enredo pula etapas e passa superficialmente demais por outras onde um maior aprofundamento seria bem vindo. No começo achei que seriam falhas narrativas, depois percebi que eram deixas propositais para seqüências. E elas existem. Depois de Jogo do Exterminador, que ganhou os principais prêmios da literatura de ficção científica, Orson lançou O Orador dos Mortos, Xenocida e Os Filhos da Mente. Mais recentemente retomou a “franquia”com uma série paralela com Ender’s Shadow, Shadow of the Hegemon, Shadow Puppets e Shadow of Giant, todos com boa repercussão nos EUA. Esta produção forjou o termo Enderverso, onde toda uma dinâmica, física e ordem particular existem e são estressadas a ponto de ganharem solidez. E isto sim me dá motivos para dizer que ele criou uma mitologia. Agradeço ao Carlos por ter dado esta oportunidade de leitura.

Como não poderia deixar de ser, há previsão de O Jogo do Exterminador ganhar versão para o cinema em 2008 pelas mãos de Wolfgang Petersen. Este não é o primeiro contato de Card com o cinema. Ele novelizou o roteiro de Segredo do Abismo (era daí que eu conhecia o nome!).

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

PÁGINAS DA VIDA


Como transformar uma causa nobre em filme de Hollywood? Perguntem a Edward Zwick. Ele sabe. E não estou depreciando esta “sabedoria” ao afirmar isto. De certa forma, o cara pode até ser conscientemente sábio. Afinal, não tenho dúvidas que Diamante de Sangue (Blood Diamond, 2006, EUA) vai ter muito mais audiência do que um Hotel Ruanda da vida jamais sonhou ter. Resta saber se a massa vai pegar o impacto das questões do pano de fundo ou só vai lembrar que Jennifer Connelly é gostosa até mal vestida. Estaria sendo tendencioso ao tomar só este filme como parâmetro, mas uma olhadela no IMDB deixa ver que, além deste, Ed dirigiu O Último Samurai, Coragem Sob Fogo e Nova York Sitiada, entre outros. Sou sincero ao dizer que realmente não lembro bem dos dois últimos, a não ser por NYS ter sido rotulado como filme-Mãe-Dinah ao prever o 9/11. Já n’O Último Samurai, fez a festa com liberdades criativo-poéticas na sua visão da sociedade japonesa do século passado, com direito a Tom Cruise pegando viúva de samurai e o escambau. Se isto não é Hollywood’s Delivery, então eu não sei o que é.

Mas péra lá... o filme é ruim? Claro que não. O Último Samurai também não era, mas meu lado meio purista (nestes casos) deu lá suas reclamadas ao entender que a oportunidade panfletária é boa demais para o maniqueísmo e a fórmula padrão blockbuster. A impressão que dá é a de que um roteirista refugiado de Serra Leoa ofereceu seu script num McDonald’s de Los Angeles e o atendente gritou: “Zwick, pede ao Charles (roteirista do filme) para fazer um McScript nº4 neste aqui.” Tsc...deixa eu parar de reclamar, já que me diverti pacas assistindo.


Diamante de Sangue acontece no fim da década de 90, quando os conflitos na África moldaram esta idéia que a gente tem de “África” como a definição completa de um local, ao invés de um conjunto de países independentes. Não bastando as diferenças tribais, tem ainda a exploração que o “mundo civilizado” faz dos recursos locais. No passado já foi a borracha, petróleo etc. No momento apresentado, eram os diamantes. A Guerra Civil come solta e os dois lados, governo e rebeldes, são bancados pelos comerciantes das jóias. No meio deste ambiente conturbado temos Solomon Vandy (Djimon Hounsou) sendo afastado de sua família e escravizado nas minas de diamantes, quando os rebeldes tomam conta do lugar. Na mina, ele encontra um diamante do tamanho de uma amêndoa, 100 kilates, mas um conflito se inicia e ele o esconde. Entra em cena Danny Archer (Leonardo DiCaprio), um mercenário do Zimbábue¹ descrente da utilidade de conceitos morais que ouve falar do diamante e passa a caçá-lo para conseguir sua paz fora daquele continente. No meio do conflito, surge a jornalista Maddy Bowen (Jennifer Connelly), candidata a catalisadora da provável redenção moral de um e do reencontro com a família de outro.

A despeito da narração inicial, que destaca a ausência de mocinhos em guerras civis como esta, o resto do filme coloca a pecha de vilão nas costas dos infanto-rebeldes-que-ouvem-hip-hop, enquanto o governo posa de mantenedor da ordem. O terceiro elemento é o interesse estrangeiro e a carga moral que move a trama, ou seja, a dondoca que compra a jóia sem se preocupar com a origem da mesma e o executivo que só visa o lucro e banca o conflito. Há de convir que um plot destes é álcool o suficiente criar um roteiro de pegar fogo e dar tapa na cara de espectador, mas a coisa é diluída em litros e litros de ação rambesca e transforma alquilo que tinha potencial para ser uma bagaceira de arrancar tripa em uma Smirnoff Ice. Curioso como, em dado momento, temos uma espécie de metalinguagem, quando Maddy diz que não sente muito futuro no que faz, já que as notícias que consegue ali, longe de ter o impacto que deveriam, vão passar no jornal da noite entre a parte de esportes e o escândalo da última celebridade. Realmente a sociedade não leva o assunto a sério, assim como o filme, mas Joaquin Phoenix conseguiu melhor impacto com frase parecida em Hotel Ruanda.

Às vezes o roteiro se lembra que o background em tela é pesado e volta a tratar o assunto, mas logo depois esquece e volta à ação que diverte e desperdiça. Nesta salada, destaco a seqüência que mostra a guerra civil comendo solta na cidade, quando a câmera nos leva em vielas apertadas e dá a impressão de desespero mesmo, como se estivéssemos vendo tudo numa seqüência de flashes.

Destaco também as atuações. Djimon, como sempre, está ótimo. Seu papel tem peso enorme e ele o carrega com facilidade. Não sou pai, não consigo sintetizar o que alguém que vivesse aquilo poderia sentir naquele caso, mas deve ser realmente um sentimento pungente. Já Jennifer, não acho que seu papel teve lá muita exigência. Assim, posso dizer que ela foi competente. Não é culpa dela se o roteiro a colocou numa situação que não tinha como passar sentimento verdadeiro, assim como não é culpa de DiCaprio ter que parecer canastrão em algumas seqüências.

Recentemente, em um grupo de discussão, foi debatido sobre quem seria melhor, Pitt ou DiCaprio. Lembro ter dito que reconhecia a qualidade do trabalho deste último, mas o problema é que a cara de moleque dele tirava toda a credibilidade da atuação. O rosto de porcelana caia muito bem em Prenda-me se for capaz e Titanic, sem entrar no mérito da qualidade dos filmes, mas não tinha como sentir que um "moleque" tinha o poder e a autoridade de um Howard Hughes. Não tinha como sentir que um "moleque" tinha a obstinação e a garra de Amsterdam Vallon. Não tinha. Agora tem. Finalmente o "moleque" conseguiu cara de homem. Umas rugas aqui e ali deram seriedade e aderência às palavras do ator. O sotaque e maneirismos da África do Sul são... bem... nunca estive na África do Sul e nunca tive como conhecer seus costumes e comportamento, mas não tenho como negar que Leonardo construiu um personagem tridimensional. Ele tem passado, ele tem presente, ele tem vícios, ele tem costumes e tudo isto parece natural. Parece dele. E convence. Conseguiu até fazer uma troca de socos com Djimon parecer verossímil, coisa que, se acontecesse um ano atrás, o negão seria julgado por infanticídio antes mesmo de a porrada estancar. No entanto, mesmo com atuação impecável, o McScript nº4, seus clichês e soluções prontas dão um jeito de fazê-lo parecer um Stallone Cobra aqui e ali. Merece a indicação ao Globo de Ouro.

Seu eu lesse novamente meus textos, teria certeza que não ficaria muito motivado a ver Diamante de Sangue, mas não é o caso. Além de divertir, ainda serviu para informar à minha namorada que, infelizmente, não poderei comprar nunca um diamante para ela. Tenho agora que encontrar desculpas parecidas para outros objetos de consumo...


¹ - O Zimbábue foi colonizado pela Holanda, daí a caracterização da personagem.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

MELHORES DE 2006

Troféu Zombie de Ouro


Acabei de crer: como é difícil fazer uma lista de melhores. Não tem como comparar estilos, abordagens e propostas sem um parâmetro nivelador. Isso não existe, a não ser que se atenha a um único gênero, o que não é o caso. E ainda tem de ser levado em conta o fator "identidade". Como na música. Não é porque John Coltrane e Miles Davis se criaram no jazz que eles são indistingüíveis. Esta que é a beleza da coisa toda. Essa 'organicidade', esse espírito único.

Nunca consumi tanta música quanto em 2006. Isso graças ao MP3. Então, ainda que tardiamente, segue uma lista não dos melhores, mas dos álbuns lançados neste ano que mais me tomaram tempo pra tecer um julgamento. Ou que mais me custaram a passar para outro playlist, pois aquilo tava muito bom e eu queria mais. Não entraram prováveis grandes discos que não me cativaram de primeira (e que deixei para destrinchar "mais tarde"-sabe-Deus-quando), nem bons lançamentos que se limitaram a reeditar seus padrões habituais.

Também não segui ordem nenhuma. Bom... talvez o tamanho das capas entregue o impacto que o respectivo álbum exerceu sobre mim.

Aliás, desde novembro que estou conferindo vários lançamentos de 2007. Muitos deles realmente impressionantes. Deu pena não incluí-los na lista. Mas lista é lista e tem limites. Criá-las... "é uma arte sutil".




A-wop-bop-a-loo-mop-a-lop-bam-boom!



Registro surpreendente este do VAST. E 100% outsider no que se refere ao famigerado "esquemão" ('jabá', aqui no Brasil).

April (On Line Version) foi gravado em um único take e traz versões das músicas que estarão em seu próximo álbum - a ser lançado no início deste 2007 novinho em folha. Como o nome sugere, só está disponível on-line. É, senhoras gravadoras, os artistas já acordaram, só falta vocês...

Pouco conhecido por estes cantos, o VAST ("Visual Audio Sensory Theater") é quase uma one-man-band, sendo Jon Crosby o one-cara. Produtor e multiinstrumentista artesão de atmosferas, ele tem um fraco por brinquedinhos de estúdio de última geração e emula sem dó aquele senso melódico oitentista de arena, mezzo Simple Minds/U2 mezzo Depeche Mode/Jesus & Mary Chain. Nesta pré-versão de April, no entanto, ele se despe da parafernália eletrônica e comete uma session semi-acústica, intimista, soturna e belíssima. Quem não se emocionar com Sunday I'll Be Gone, She Visits Me, One More Day ou I Can't Say No To You é porque tem um cubo de gelo no lugar disso aí que chama de coração.

E pô... se I'm Too Good e I Am A Vampire são tão legais assim e ainda não são as versões finalizadas, faça idéia o que vem por aí...


She Wants Revenge provou com este disco que tem mais que um nome bacanudo. É bastante influenciado pelo... ah, influenciado não... overdosado... bêbado... fumado... cheirado pelo Joy Division. Talvez fosse o que o JD estivesse fazendo hoje se Ian Curtis preferisse um suicídio homeopático à base de ecstasy. Ritmos em sua maioria cadenciados, drum-machines batendo forte no peito, baixão escaneado de Peter Hook e climão sorumbático de rendez-vous gótico.

Iniciados em Sisters Of Mercy, Heavy Current e Bella Morte vão pôr isto no i-pod e agitar uma rave no cemitério mais próximo. Já o resto da humanidade vai ouvir I Don't Want To Fall In Love e ter seus neurônios trabalhando no ritmo dessa música por semanas à fio. Uma das faixas mais grudentas do ano, com certeza. Álbum interessantíssimo. Dica do Kalunga.



Saudades do Sonic Youth fase Daydream Nation. "Rather Ripped", pode ser intrigante, introspectivo e sem concessões, como o SY sempre foi, mas o sentimento que ficou é que Lee Ranaldo, Kim Gordon, Thurston Moore e Steve Shelley alcançaram uma zenicitude tal que largaram esse negócio de distorção pros moleques da nova geração. Como se dissessem "já fizemos nossa parte, e muito bem-feita, agora é com vocês". Mais ou menos por aí.

Pra quem tem alguma história com o SY (leia-se "curte a banda, pelo menos, desde o álbum Goo"), sabe o quanto isto aqui é orgânico, verdadeiro e especial. Mas para quem está passando de bobeira, nunca vai imaginar que o grupo já foi um dos mais furiosos e barulhentos do underground americano.

Ps.: tomei um pusta susto no início de Jams Run Free... é igualzinha a 1979, do Smashing Pumpkins.


Surgido em 1974, o Radio Birdman foi um dos primeiros grupos reconhecidamente punk da Austrália. Apesar da fúria e urgência reformista típicas, neste caso, a geografia teve tudo a ver no som: influências de surf music, acid rock, blues e muito garage rock à MC5/The Stooges davam o tom. O RB era punk, mas o parentesco era mais próximo do AC/DC que dos Sex Pistols.

O álbum de estréia, Radios Appear, de 1977, é daqueles clássicos que se você ainda não ouviu, não diga a ninguém até fazê-lo. E, ainda que não se compare, este Zeno Beach (o primeiro desde Alone In The Endzone, de 81), marca o retorno dos caras em altíssimo nível. Estão lá o trampo bem-sacado das guitarras, o vocal cínico de Rob Younger e o tecladinho super-bonder de Phillip 'Pip' Hoyle, em canções rockers e baladas punk. Quando menos esperei, já tinha ouvido isso umas trocentas vezes.


Fico imaginando como deve ser chato pra concorrência ouvir algo tão simples como esse False Flags e ver que ainda tem de ralar muito nas pick-ups pra chegar ao nível de sofisticação do Massive Attack.

E é apenas um EPzinho. Duas canções que são apenas um talho do que o Massive realmente poderia fazer. Como diria Al Pacino... "Hoo-ha".

Pra ouvir no carro, em direção ao crime.



Há tempos que um álbum de rock brasileiro não pedia tanto pelo acompanhamento de uma cerva trincando de gelada. Finalmente! Segundo Atentado é o novo dos álcoorroristas do Carro Bomba. Blues rock'n'roll louder than bombs de boteco de quinta estourando os auto-falantes.

Se Lemmy ouve isso aqui, vai implorar por uma vaguinha na banda. Porrada nota 11 pra ouvir com 15 grades de Skol em prontidão no freezer.





Ouvi isto em doses cavalares. Assim como Houses Of The Molé, de 2004, as canções de Rio Grande Blood devem ecoar nos pesadelos de George W. Bush sobre como sair do Iraque sem entrar para História como um imbecil genocida (opa, tarde demais). O álbum inteiro é uma lajotada na cara, mas a faixa-título, Lies Lies Lies, The Great Satan, Palestina e Ass Clown são as melhores homenagens que o clã Bush poderia receber.

O disco mais metal do Ministry desde... hum... pensando bem, Rio Grande Blood é o mais metal.


Já fui fissurado no Trail Of Dead a ponto de escrever bêbado sobre o grupo. A veia rock'n'roller esquizóide era irresistível. Fora o elemento "seek and destroy" niilista... os instrumentos destruídos no palco que o digam. Mas parece que Jason Reece e Conrad Keely, o eixo criativo da banda, andam se achando os gênios da raça.

Limaram a zoeira noise e a experimentação, e apostaram em arranjos perfeccionistas e melodias calculadas milimetricamente. Nada de "fuck you" repetida 40 vezes debaixo de distorção por aqui.

Esperava mais. Ficaram parecendo o Beatles produzido pelo Jeff Lynne (lembra de Free as a Bird?). Por várias vezes, a pretensão cutuca o limite máximo permitido. Mas o talento, no entanto, nunca esteve em falta - Witches Web, a faixa-título e Sunken Dreams são só pra quem pode.



Infanticide, a faixa de abertura de Confrontation Street, do Squealer A.D., tem o efeito de uma marretada na orelha. Nas outras doze canções o alvo vai variando. O som (voadora) do Squealer parte do thrash oitentista circa Exodus/Forbidden e o atualiza para os dias de hoje, com equipamentos de gravação mais poderosos e mais eficientes para massacres em larga escala.

Vocal do Gus Chambers, ex-Grip Inc. - aquela banda do Dave Lombardo, do Slayer. Conhece o Slayer? Então...




Soul Of A Man, o novo do Eric Burdon. Ê discão contagiante. Assessorado por uma banda afiadíssima, mr. Burdon (que fez história no The Animals), continua com a classe e o vozeiraço de sempre. Blues, soul, gospel, rhythm'n'blues e southern rock parecem moldados sob medida pro gogó do cara.

Em algum bar de New Orleans, este disco está rolando numa velha jukebox junto com a trilha de The Commitments.




Quando o Blackmore's Night estava em seus primeiros dias, eu achava que era só um agradinho que Ritchie Blackmore resolveu fazer pra esposa, Candice Night, até uma nova reforma do Rainbow. Dez anos depois, e lançando um álbum mais bonito que o outro, o grupo ratifica aquilo que sempre deixou evidente e que pra mim passava batido - eles estão pouco se ferrando com o mundo lá fora e fazem Arte-pela-Arte, como deveria ser sempre.

Em The Village Lanterne, seu folk rock com elementos de música cigana e celta nunca esteve tão doce e envolvente. A voz da bela (e simpática) Candice seduz muito mais com sutileza e simplicidade que o lirismo esganiçado de algumas vocalistas. E Ritchie, anos-luz do riff de Smoke On The Water, faz a cama perfeita para a esposa (sem trocadilhos) com inspiradíssimos arpejos de mandolim e guitarra acústica. Chill out puro.

Quando a versão de Child in Time, clássico do Deep Purple, deu as caras, eu já estava tão hipnotizado pela sereia Candice, que só consegui esboçar um sorriso abobalhado. Aliás, só ela pra convencer o velho e teimoso Ritchie a tocar essa de novo...



Peeping Tom é mais um projeto do Mike "Fenemê" Patton. Segundo o próprio, o objetivo é dar a sua (sub)versão para a tão amada/odiada música pop. Foi a mesma coisa que soltar um demônio da Tasmânia num estúdio de última geração. Se eu fosse dono de uma rádio FM, esse álbum não saía das 10+.

Participações especialíssimas de Norah Jones, Massive Attack e da nossa Bebel Gilberto, na sintomática Caipirinha.





Zakk Wylde e seu Black Label Society nunca foram de meio-termo. Herdeiro legítimo do country/southern rock praticado por bandas como Lynyrd Skynyrd, Blackfoot, Allman Brothers, Guess Who? e sulismos afins, Zakk sempre balanceou álbuns agridoces semi-acústicos com álbuns heavy rock de trincar o crânio.

Assim sendo, Shot To Hell pode ser encarado como o primeiro passo de Zakk em busca de um lugar comum entre os dois mundos. O álbum é quase tão introspectivo quanto o excepcional Hangover Music Vol. VI, de 2004, e quase tão pesado quanto Mafia, de 2005.

Ainda não está na dosagem correta, mas Zakk está cantando melhor e a sua guitarra... bom, digamos que Ozzy ainda deve mantê-lo na banda por mais uns bons duzentos anos.



Southern rock from Kentucky. Primeiro álbum destruidor do Black Stone Cherry! Southern e heavy hard à Mountain/Thin Lizzy com sapecadas stoner, num contexto tão acessível quanto o Black Album, do Metallica. Todas as faixas são matadoras. Ouvi isto até furar o HD.



A line-up instruMEnTAL do finado Pantera - Rex Brown no baixo, Vinnie Paul na batera e a guitarra defenestradora do saudoso Dimebag Darrell - unindo forças com o vovô country David Allen Coe: este é o Rebel Meets Rebel. A banda despacha uma sonzeira country-thrash incendiária do início ao fim. Sem falar que este crossover, além de genial, é impagável. Um dos álbuns mais divertidos do ano.



Copy/paste de um comentário meu em outro lugar:

Jeff Walker Und Die Fluffers é a nova banda do maluco Jeff Walker, ex-baixista do podrão Carcass (HuH!) e alter-ego do El Cynico, um dos coyotes from hell do Brujeria. Como se pode notar, o cara não é lá muito normal, o que dá a dimensão exata do country noise metálico que o grupo pratica (ou seria "vomita"?) em Welcome To Carcass Cuntry.

Participam da zona os também insanos Bill Gould (ex-Faith No More), Shane Embry (Napalm Death), Nicke Anderson (Hellacopters), Ville e Gas (do HIM), e uma porrada de fugitivos do hospício (mais precisamente, da ala reservada aos doentes perigosos). Pra deixar a coisa mais 'instigante', o tracklist deste álbum de estréia é composto por covers de clássicos do blues, country e rock'n'roll.

De resto, só digo que o disco abre com The Man Comes Around (Johnny fuckin' Cash) e fecha com Keep On Rockin' In The Free World (Neil hyper-fuckin' Young).



Tenho de admitir que escutei muito southern rock em 2006. Também nunca matei tantas garrafas de Chivas e Red Label. Brand New Sin, banda parceira de estrada do Black Label Society, chega ao arregaçante terceiro disco me intimando a mudar de bebida. Enquanto preparo o sal e os limões, vou curtindo a trilha - guitarras áridas, bateria esmagadora e vocais curtidos em conhaque de alcatrão garantem um porre de qualidade.

Me gusta Tequila, mucha Tequila!


E o velho Zimmerman segue inabalável e esfregando na cara do mundo o quanto a mardita cultura popular americana é do cacete. O discurso em Modern Times está mais ácido e cínico, e a sonoridade resgata a blueseira de boteco vagabundo.

Destaque para a deliciosa faixa de abertura, Thunder of the Mountain, que tem Alicia Keys no piano, para o arrasta-pé com letrinha sacana de Someday Baby, e para a sensacional Rollin' and Tumblin', cover do cover de Muddy Waters, que deve ter embalado várias cachaçadas do pessoal do Reverend Horton Heat.

Bob Dylan ainda é o cara.



O new beat trip hop tecnudo do Gnarls Barkley transcendeu a "mera" discussão sobre música e cravou sua Crazy ainda no formato de mp3 no topo das paradas, uma semana antes do lançamento oficial. Se a indústria precisava de alguma evidência de que as regras do jogo já mudaram, St. Elsewhere deu o testemunho final. Talvez o que aconteceu com Crazy tenha sido o símbolo máximo dessa virada histórica.

Sem falar que desde de Speakerboxxx/The Love Below, do Outkast, não aparecia uma compilação tão chicleteira de hits.




Obviamente, só tive interesse em conhecer a banda por causa da capa. Os caras realmente sabem como chamar a atenção. O som do Hydrogyn é uma cruza hard entre Bliss e Heart, com peso na medida e refrões ganchudos. A cantora Julie Westlake, além de absurda...



...canta muito bem também. Minhas favoritas deste Bombshell (títulozinho mais do que apropriado) são Breaking Me Down, Look Away SP e Vesper's Song, que eu chamo carinhosamente de 'melô do celular'. Hits fáceis.

Ps.: Numa das versões do álbum, tem um cover de Back In Black, em que a moça segura firme e forte. Em outra versão, ela cai de boca em 18 And Life, do Skid Row. Dá-lhe Julie!



From Dusk Till Doom, do Stonegard, é mutcho loco mermão! O grupo norueguês não respeita limites musicais no doom metal que pratica, trafegando sem cerimônia pelo stoner, death, thrash e até por incursões progressivas/ssistas, sempre com energia aos borbotões.

Mas o maior diferencial é um certo tino pop permeando todas as faixas. Usado a favor do time, tem grandes resultados. Num momento, eles mandam passagens suaves e refrões grudentos que poderiam entrar fácil na grade de qualquer FM, e no momento seguinte, é a trilha sonora de uma avalanche provocada por um vulcão em erupção.

Stonegard é o primo adolescente e metalêro do Tool trampando de roadie no System Of A Down.



Discaço de party rock: What Apology, estréia solo do guitarrista Günter Schulz (ex-KMFDM). Este álbum é rápido, ganchudo, ensolarado e festeiro.

Metal, industrial, hardcore e new wave batidos num liquidificador junto com várias substâncias ilegais. Algo ali entre Young Gods, Devo e Therapy?. A rifferama da oitava faixa, Fear Tactic, remete ao Sepultura fase Arise, mas à esta altura todo mundo já deverá estar pra lá chapado.

E não é à toa que Schulz é considerado um dos melhores guitarristas do gênero. Confira só a Love Will Tear Us Apart do cara, em versão hard rock pumperô.



Sempre surpreendendo. O combo esloveno Laibach já fez muita coisa desde que foi formado, em 1980 (incluindo uma versão electro-industrial pro disco Let It Be, dos Beatles). Agora, com Volk, o grupo quer abraçar o mundo: cada uma das 14 faixas tem o nome de um país diferente, com trechos de seus hinos no idioma original e participação de artistas daquela nacionalidade.

Talvez o fato dos integrantes terem testemunhado uma guerra de perto (a Eslovênia era parte da Iugoslávia), os inspirou a fazer deste álbum um projeto tão humanista e tão... "globalizado" (ops). O resultado ficou emocionante. Todas as faixas são excelentes e por muito tempo depois você vai descobrindo novos detalhes que mudam o cenário inteiro. Minhas preferidas são a irônica America ("O'er the land of the freeee..."), a estilosa Anglia, Rossiya (com um coralzinho de crianças maneiro) e a quase-darkwave Spania.

Um dos raros discos em que o resultado justifica a pretensão.




Em Monochrome, o Helmet retornou à essência do hardcore cerebral que praticava nos primeiros álbuns. É o disco que mais lembra Meantime, seu mega-sucesso de 92. Return to roots total. Está tudo lá: o peso sabbáthico, os vocais de pitbull raivoso e os riffs pára-e-começa. Faltou apenas o jazz (lembra do jazz que tinha?).

Só não sei se a banda ainda tem aquele público que curtia isso tudo na época. Daquele povo todo, acho que só sobrou eu.





Extensas incursões melódicas, tecladões épicos, guitarras esparsas e o vocal olímpico de Bruce Dickinson compõem A Matter Of Life And Death, o álbum mais progressivóide desta nova fase do Iron Maiden. É notável o fôlego de guerreiro asgardiano dos caras, depois de quase trinta anos de guitarrada na cabeça.

Brighter Than A Thousand Suns, The Pilgrim e a faixa-título The Reincarnation Of Benjamin Breeg são trilha pra lutar ao lado do Rei Conan no exército da Aquilônia. E, de preferência, morrer logo em combate pra curtir a eternidade ao lado de belas Valkírias.




Damage Case é uma sensacional antologia da carreira de sir Ian Fraser Kilmister, o Lemmy, do Motörhead. Cobre nada menos que 39 anos (1966-2005) de bons serviços ao rock'n'roll.

Antes de encher a cara ouvindo isto aqui, confira os primórdios de Lemmy no Rockin' Vickers e na excelente Sam Gopal (aqui, já como vocalista/baixista). Também tem três do alucinógeno Hawkwind, incluindo a clássica Motorhead, e as parcerias com a "prima" Wendy O. Williams, com os protopunks do The Damned, com Danny B e Slim Jim (do Stray Cats), e a dobradinha com Dave Grohl no projeto Probot.

Entre uma e outra, balaços do Motörhead e os covers de Tie Your Mother Down (Queen), Whiplash, Enter Sandman (ambas do Metallica) e The Trooper (Iron Maiden).

Lemmy is God!




Mais um dia no escritório do Motörhead. Larga tudo e vá beber cerveja!



No fim das contas, o Muse é rock. Não importa de que jeito. Os caras não se furtam em esmerilhar nos arranjos, na dramaticidade, grandiosidade, soluções melódicas inusitadas e nas nuances tortuosas dos vocais. E ainda subvertem a tríade guitarra-baixo-bateria a tal ponto que desconstrói uma a uma das convenções empilhadas na clicherama que as rádios e a MTV empurram goela abaixo com o rótulo de 'novidade'.

Black Holes And Revelations foi um dos álbuns mais instigantes do ano, e eu ainda estou intrigado com ele. Novas sessions no fone de ouvido se fazem necessárias.





Living With War vai direto na veia e diz logo a que veio. Só de correr o olho no tracklist, você já imagina o que vem por aí. Desde Ohio que eu não vejo (ouço) o Neil Young tão injuriado.

Uma coisa é ouvir o Ministry falando mal. É fácil não levar à sério... aquele bando de (cyber)punks. Agora, ouvir de alguém como o Neil Young...

Presidente Bush... se mata.





O RDP faz crônica urbana direto das trincheiras. O novo disco, Homem Inimigo do Homem, mostra a banda "cada dia mais suja e agressiva". Um furacão sônico. Até agora tô procurando o rumo de casa.

PMs de Satã, Covardia de Plantão e Otário Involuntário já são hinos HC, mas só o fato das florzinhas EMO terem sido estraçalhadas em O Equivocado, já vale o disco.






Solo ou ao lado dos Heartbreakers, Tom Petty é um dos maiores artistas já surgidos na América. E só melhora com o passar dos anos. Highway Companion parece atestar isso em belíssimas rock and roll songs. Simplesmente perfeito.

Ps.: O pessoal do Red Hot Chili Peppers adora.






E lá se vão bons 15 anos desde Opiate, EPzinho de estréia do Tool. Nosso monstrinho cresceu. E está doido pra sair do porão. 10,000 Days deveria vir com o aviso: "Deixai toda a esperança, vós que entrai".

O que se ouve aqui é a ambiência do inferno - instintivo, enegrecido, primal e violento. A sexagésima sexta descendência dos pesadelos de Robert Fripp. É o Pink Floyd, depois de lamber todas as cartelas de ácido de Syd Barrett. Decadente, surreal, opressivo, claustrofóbico, matemático e escrotamente orgânico.

Tool faz na música o que David Lynch faz no cinema e Alan Moore faz nos quadrinhos. É o Augusto dos Anjos do rock.



Jackson, Mississipi. Num calor infernal, no meio de lugar nenhum, três amigos - Peter Hayes, Robert Levon Been e Nick Jago - fanáticos por blues, folk e gospel, partem sorrindo de uma encruzilhada em direção ao estúdio mais próximo. O resultado foi o excelente Howl, de 2005.

O EP Howl Sessions mantém a chama acesa até o próximo pacto do Black Rebel Motorcycle Club. Onde quer que esteja, Robert Johnson está sorrindo e balbuciando "ooo yeah..."




Quem conhece o sueco Astral Doors já sabe o que esperar de Astralism: a recriação do espírito do Rainbow e dos primeiros solos de Ronnie James Dio para os dias atuais, com ataque preciso e produção irretocável.

O perfeito entrosamento de teclado/guitarra, e o vocal raçudo de Nils Patrik Johansson levam o ouvinte de volta no tempo - mais precisamente para alguma apresentação do Dio em 1983, turnê do Holy Diver...




Andy Cairns & crew chegaram quebrando tudo em 2006 com One Cure Fits All. O Therapy? continua aquela usina de ritmos caóticos, baixo pulsante e um paredão de guitarras de moer o cérebro. Hardcore, metal, pós-punk, alternativo, noise, surf music... eles jogam tudo no mix até virar uma coisa só.

Se nos discos anteriores, o grupo andava meio perdido em busca do refrão FMístico perfeito, aqui eles rebuscam a sonoridade visceral e crua dos primeiros discos (Fear Of God poderia ser uma faixa do pesadão Nurse, de 1992).

Só não digo que é o melhor do Therapy? porque em 94 eles gravaram Troublegum.




Rá-rá! E não é que editaram a capa de Christ Illusion, do Slayer!

O terceiro melhor álbum da banda, na minha opinião. Slayer é isto aí.

Slaayeeeer!!

Ps.: apesar disso tudo, o baixista/vocalista Tom Araya é religioso e acredita em Deus. Seria ele um legítimo "traidor do movimento"? :-)





Whatever People Say I Am, That's What I'm Not, estréia do Arctic Monkeys (não confundir com o "Sonic Death Monkeys"...). Detesto participar de coro, mas tenho de admitir... este álbum é muito bacana!

O que me pegou foi a linha de baixo. Legal bagaráe.






Tem bandas que passam pela maior crise de identidade só porque mudou um pouco a afinação dos instrumentos. O Evergrey prefere abordar novos fronts de maneira mais evolutiva.

Em Sunday Morning Apocalypse, a sonzeira continua aquele diamante lapidado, mas nota-se ligeiras modificações na estrutura. Está tudo mais simples, mais fácil. Até mais pop, eu diria. Ouça a faixa Lost e veja se não rola tranqüila nas rádios. Tem até o apelo do nome.

O Evergrey sinaliza novos rumos e o faz com a competência e a classe de sempre. Aprenda, Stratovarius.




Caralho. Os caras tão putos!











Em Come Clarity, o In Flames fez o death metal mais bonito que eu já ouvi. É bonito mesmo. Provaram que há beleza no caos.

Aliás, esta beleza bem poderia ser Lisa Miskovsky, que canta docemente na faixa Dead End. Loucura - loucura - loucuraaa...







Revolting Cocks (aka RevCo) é o pessoal do Ministry + péssimas amizades (Gibby Haynes, do Butthole Surfers, e Jello Biafra, ex-Dead Kennedys, entre "outros") + putas & drogas, numa festa de arromba no estúdio.

Pelo jeito, o rock desta vez foi dos bons. Cocked & Loaded consegue ser tão vulgar e chapado quanto o clássico Linger Ficken' Good, de 93.




Eagles Of Death Metal não, Eagles Of Rock And Roll!

Death By Sexy é festa na garagem.

Yeah!







Anexo de saideira:

Dando uma de umlaut... não tem nada a ver com o que rolou em 2006, mas não custa nada "eternizar" on-line boas (ótimas) lembranças...




Foram fodas. Devia ter guardado o do Motörhead, o do Deep Purple...


Este post é humildemente dedicado ao eterno Godfather of Soul, mister James Brown.