quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

À mestra, com carinho

Steven Ringgenberg pens an obituary for one of the first women to draw superhero comics, with standout works throughout...

Publicado por The Comics Journal em Terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Excelente artigo sobre a carreira da Ramona Fradon pelo The Comics Journal. Os trechos sobre a sua passagem-relâmpago pela Marvel (e suas dificuldades com o "método Marvel") e como ela viu a darkinização das HQs nos anos 1980 são sensacionais.

E sigo embasbacado com a pouquíssima repercussão de sua partida entre as quadrinistas mulheres. Tirando as homenagens da Colleen Doran e da Gail Simone, que publicou um belo testemunho, a esmagadora maioria das condolências nas redes sociais é de quadrinistas homens. E olha que procurei.

Faltou respeito e sobrou alienação...

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Com amor, Ramona


Ramona Fradon
(1926 - 2024)

Se foi a legendária Ramona Fradon, do alto de suas gloriosas 97 primaveras.

Uma das maiores pioneiras dos quadrinhos da Era de Prata, embora sua carreira tivesse inciado já entre o pós-Guerra e o pré-Comics Code. Seu primeiro trabalho (não creditado) data de 1949, na Gang Busters #10, da DC. Afirmar que foi uma vida dedicada aos quadrinhos é pouco.

É uma peça fundamental para a representatividade feminina no mundo das HQs. Foi uma das primeiras quadrinistas a se destacarem no mercado mainstream, ao lado de June Tarpé Mills, Dale Messick, Trina Robbins, Marie Severin e de poucas outras corajosas desbravadoras. E numa época em que o machismo e as picaretagens das editoras com os artistas eram a lei.

Meu 1º contato com seu trabalho: Pequenina #9 - Homem-Borracha em Formatinho, da EBAL, lançada no mesmo mês e ano em que nasci. Certamente foi parar em minhas mãos por via de algum escambo com a molecada nos anos 1980. Foi paixão à primeira leitura. O traço cheio de movimento e levemente cartunizado trazia um monte de coisas acontecendo ao mesmo tempo e era impagável. Até hoje. É nítida a sua influência em artistas como Jill Thompson e Amanda Conner.

Fradon também co-criou o Metamorfo, o Aqualad original e a Fogo, a brasileiríssima Beatriz da Costa. Uma agradável honra a nossa.

Não dá pra dizer que foi exatamente uma surpresa. 75 anos de carreira, meu amigo (ela se aposentou no ano passado!). Fazendo o que amava e ainda mantendo o humor à toda prova.

Isso é incrível e maravilhoso muito além das palavras.


Thank you for everything, Ramona Fradon!

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Uma cadáver deliciosa


Uma Morte Horrível é mais uma HQ que jazia nas profundezas da minha pilha de leitura, perdida entre TPBs, HCs, formatinhos e fumettis. Uma injustiça horrível. A bande dessinée (ulalá!) da parisiense Pénélope Bagieu é uma grata surpresa: espirituosa, intrigante e com um toque de agridoce crueldade. Me lembrou aqueles thrillers obscuros exibidos nos Corujões da vida, surpreendendo zapeadores insones com uma trama ligeiramente fora da curva.

...difícil era achar o filme depois, com zero referências naqueles tempos valvulados. Cheguei a fazer pequenas loucuras para solucionar alguns desses mistérios. Outra história.

A obra é o debut da multitarefas Bagieu. Publicada originalmente em abril de 2010, lançada aqui em abril de 2016 e tirada do plástico por um leitor negligente em fevereiro de 2024. Vê como não houve demora?

Não há passado, nem futuro, tudo flui em um eterno presente – Dr. Manhatt... OPA.

A protagonista é Zoé, uma jovem adulta deslocada e sem perspectivas. E um tanto alienada também. Se vira fazendo bicos como hostess e vive com o namorado desempregado e boçal. É o perfeito retrato das gerações pós-millennials-e-lá-vai-ladeira.




É uma HQ que ganha toda a identificação possível já nas primeiras páginas.

Num dia qualquer, Zoé conhece Thomas, um escritor de meia-idade que vive recluso em seu apartamento. Mais do que recluso, Thomas parece cultivar um pot-pourri de agorafobia, antropofobia e que mais tiver de fobias sociais.

Diria que esse encontro é o grande gatilho da HQ.


Amargando um bloqueio criativo aparentemente intransponível, Thomas desenvolve uma relação platônica com Zoé, enfim se reconectando com a inspiração há muito perdida. Apesar de todas as diferenças (e talvez por causa delas mesmo), Zoé é alçada ao posto de Musa. E se reconecta com a felicidade e o amor em versão algo excêntrica.

As coisas se complicam com a chegada de Agathe, uma misteriosa personagem do passado de Thomas.

Pode não parecer, mas esse início SergeGainsbourguiano (desculpa aí o mau jeito) vai se desenvelopando mezzo como tramoia neo-noir, mezzo como o capítulo final de um novelão das 8. Não dá para comentar mais do que isso sem comprometer a história – e olha que já dei um show de contorcionismo até aqui.


É notável como Bagieu consegue equilibrar perfis tão distintos e ainda convertê-los em engrenagens essenciais nas reviravoltas. Soa quase como se tivesse escrito o roteiro partindo do final até o início. Coisa de craque, muito embora ela tenha apelado para uma malandragem elíptica perto da conclusão. Sabe como é, para ninguém antecipar o que vinha chegando.

Coisinhas de marinheira de 1ª viagem. Mas acabei simpatizando com o jeitinho brasileiro francês da opção. Afinal, funciona.

O traço da quadrinista é um cartunizado limpo e econômico, passeando por vários ângulos e sempre ao largo da tosqueira estética – vide as splashs bacanudas das páginas 54, 69 e 83. Inclusive, seu estilo até se aproxima da pegada da Margaux Motin (de Placas Tectônicas). Mais como uma cumplicidade artística do que propriamente uma influência. Se rolasse uma colaboração entre as duas, seria um cadáver esquisito imperdível.

O que me leva à única ressalva sobre a cuidadosa edição da Editora Mino.

Uma Morte Horrível foi lançado originalmente com o título Cadavre Exquis. É uma referência ao jogo interativo homônimo criado por surrealistas franceses em meados dos anos 1920. É bastante conhecido, incluindo em nossa jovem província.

“Baseado em um antigo jogo de salão, Cadavre Exquis – Exquisite Corpse, em inglês – era jogado por várias pessoas, cada uma das quais escrevia uma frase em uma folha de papel, dobrava o papel para esconder parte dele e o passava para o próximo jogador para sua contribuição. A técnica recebeu o nome dos resultados obtidos na primeira execução, ‘Le cadavre / exquis / boira / le vin / nouveau’ (‘O cadáver delicioso beberá o vinho novo’).”

Essa brincadeira/técnica coletiva pode ser aplicada tanto em textos quanto em desenhos.

A tradução brasileira "cadáver esquisito" obedece à tradição parônima que temos ao perceber erroneamente o termo inglês "exquisite" como "esquisito", ao invés do correto "delicioso" com o viés de "sabor refinado/sofisticado". É nóis.

Isto posto, Uma Morte Horrível foi uma opção ainda mais... esquisita do experiente tradutor Fernando Scheibe. A analogia com a história é perfeitamente compreensível, mas também aniquila as várias metáforas possíveis que poderiam ser feitas com o título original.

Pessoalmente, não abriria mão desse cadáver. Que é mesmo delicioso.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Milagre de Carnaval

O Rei Momo não é Santo, mas andou operando uns milagres pagãos durante a Festa da Carne: os crossovers DC-Marvel serão finalmente republicados.

Deu no 13th Dimension.

HUGE NEWS! DC AND MARVEL TEAM-UPS to Get New OMNIBUS EDITIONS This Summer. DETAILS:

Publicado por 13th Dimension em Terça-feira, 13 de fevereiro de 2024


Para registro:

DC Versus Marvel Omnibus collects Batman/Captain America #1, Batman/Daredevil #1, Batman/Punisher: Lake of Fire #1, Batman/Spider-Man #1, Daredevil/Batman #1, DC Special Series #27, Darkseid vs. Galactus: The Hunger #1, Green Lantern/Silver Surfer: Unholy Alliances #1, Incredible Hulk vs. Superman #1, Marvel and DC Present Featuring the Uncanny X-Men and the New Teen Titans #1, Marvel Treasury Edition #28, Punisher/Batman: Deadly Knights #1, Silver Surfer/Superman #1, Spider-Man and Batman #1, Superman vs. the Amazing Spider-Man #1, and Superman/Fantastic Four #1.

DC/Marvel: The Amalgam Age Omnibus collects DC Versus Marvel #1-4, DC/Marvel: All Access #1-4, Unlimited Access #1-4, Bat-Thing #1, Bruce Wayne: Agent of S.H.I.E.L.D. #1, Bullets and Bracelets #1, Challengers of the Fantastic #1, Doctor Strangefate #1, Iron Lantern #1, Legends of the Dark Claw #1, Lobo the Duck #1, Speed Demon #1, Spider-Boy #1, Super Soldier #1, Thorion of the New Asgods #1, X-Patrol #1, and more, plus a treasure trove of behind-the-scenes material.

Estão quase todos aí, incluindo minha adorada-salve-salve Os Fabulosos X-Men e os Novos Titãs. ❤️

A saber: a ausência da HQ-evento LJA/Vingadores.

Chuto que a última deverá vir num busão próprio e do tamanho certo para arrombar ainda mais os arrombados que a vendem por preços pornográficos na internet. Será lindo.

Ps: ok, ok, também não sou fã de juntar tudo num X-Busão sem o menor critério qualitativo. Mas é o que tem pra amanhã.

domingo, 11 de fevereiro de 2024

Whoa, Wade, whoa, Wade, whoa, Wade, whoa, Wade...

...o trailer de Deadpool & Wolverine / Deadpool 3 ficou bom bagarai!


Provavelmente vai pegar um pouco para quem não viu Loki e passou batido pela TVA, mas devem mastigar e regurgitar o conceito em dois minutinhos. Além do mais, após Ultimato, a ideia de multiverso viralizou bolha afora. Fora que nem é nova. Taí o crossover entre os universos Bombril & Bamerindus que não me deixa mentir e ainda entregam minha velhusquice. Sopa no mel para os neófitos.

Confesso que acho a metalinguagem dos filmes do Deadpool um pouco demais, mesmo alinhado com o quadrinho. O problema é que esse "God mode" e a autozueira me impedem de me importar o suficiente com as ameaças que o maluco enfrenta – particularmente em Deadpool 2. Mas é indiscutível que ver algo diferente da fórmula Marvel já dá uma injeção de ânimo na veia. E foi só um trailer.

A pergunta, então, se faz inevitável: Deadpool & Wolverine poderá salvar o Universo Cinematográfico Marvel?

Na minha opinião, o MCU tem sido mais dispensado do que assistido, propriamente. É o "não é você, sou eu" das franquias blockbuster interligadas. Algo previsível e inevitável se não apimentarem a relação. E é aí que entra o Wade Wilson.

Ryan Reynolds nasceu pra isso, sem discussão. Assim como Hugh Jackman – sabiamente não revelado – também já nasceu pra isso, uma vez. Surpreso apenas de rever a Morena Baccarin na série. E foi estranho e muito legal me deparar com o Matthew Macfadyen na prévia. Esse cara é fodão (já assistiu Um Refúgio no Passado, nome merda brasileiro para In My Father's Den?) e completamente estranho nesse nicho. E tem outro nome do elenco registrado no IMDb que só podia figurar nesta produção mesmo. Se não ligar para spoiler, vá lá.

No mais, precisei voltar ao ponto 1:47 só para me certificar de que não era o Victor ali. Que susto. E quero o Troféu Cata-Piolho pelo gibi de Guerras Secretas atirado no chão lá no finalzinho. Fiquei bem curioso para ver como o diretor Shawn Levy (Gigantes de Aço, Free Guy) trabalhou as zilhões de referências dessa gigantesca caixa de brinquedos.

Mas voltando... sim, acho que pode salvar sim.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Que garota maluca...


Cynthia Bonacossa, a Cynthia B., é quase uma 3x4 do quadrinista brasileiro: uma alma inquieta, sagaz e que ri das próprias desgraças com um sorriso doido no rosto. O único porém é que a autora não esteve tão mal na foto. Entre 2009 e 2015, trabalhou com Allan Sieber e em publicações udigrudi como Golden Shower e Pé-de-Cabra, fez tiras para a Piauí, para a Folha e, de quebra, fez residência na Maison des Auteurs, em Angoulême.

Tudo isso e ainda lembrava a Karen O naquela foto de divulgação. Nada mal mesmo.

Daí que Estudante de Medicina, sua estreia autoral, apenas seis anos após pendurar o jaleco de médica para seguir carreira nos quadrinhos, é algo digno de nota. Publicado pela Veneta em 2017, o livro, inclusive, ganhou edição francesa.

Até aí, tudo bueno, tudo azul, com entrevista para o G1 e pá e bola. Mas de lá pra cá, o jaleco retornou da gaveta, vingativo. E foi a vez do nanquim ser pendurado. Ao menos, é o que consta. Brasil pós-2018 não é para fracos.

Estudante de Medicina é um registro semi-autobiográfico de Cynthia no período em que ela cursou Medicina na UFRJ, entre 2006 e 2011. E confesso, é uma HQ que me ganhou já na prévia gratuita... pelos motivos mais escatológicos.


Foi a prévia certa na hora certa. Na época, andava imerso na onda de "vídeos satisfatórios" no YouTube. Mas sem putaria: os vídeos em questão mostram extrações de toda sorte de abcessos, espinhas e cravos tão gigantescos que parece que a qualquer momento vão sair dali e destruir Tóquio. Impressionante a quantidade de trasheiras que se abrigam por baixo da pele.

Em outras palavras, foi amor à 1ª vista. Ou espremida.

Peguei logo que vi. Mas por motivo de pilhadegibis, só li agora. 6 anos para devorar o livro em 1 hora. É uma leitura purulenta/suculenta e divertidíssima.

E um tanto diferente do que imaginei naquela impressão inicial.


A rotina acadêmica pode ser um dos períodos mais complicados na vida de qualquer um – coroando a pós-adolescência, um período já bem pau-no-cu por si só. Com a quadrinista não foi diferente.

Então, o livro acaba priorizando temas mais intimistas baseados em experiências pessoais e/ou de terceiros, a dinâmica caótica dos relacionamentos, dilemas vocacionais, entreveros familiares e pronto, temos aí uma obra coming of age moderninha, extrovertida, morando na Barra e bronzeada pelo sol de Ipanema – não exatamente o Carnaval de vísceras & fluídos humanos que assaltava minha imaginação há anos.

Felizmente, o storytelling de Cynthia é muito cativante. Bem-humorado e salpicado de tons irônicos e autodepreciativos, mesmo quando a homônima protagonista passa por seu momento mais sombrio (sem spoiler). O choque de realidade no finalzinho é, ao mesmo tempo, terno, engraçado e com um puta gosto amargo que me lembrou do final-porrada de A Primeira Noite de um Homem.

Sim, acabei de comparar o gibi com o clássico de Mike Nichols. Nunca me pegarão vivo.


Claro que a coisa toda fica brilhante quando aborda a rotina punk de prontuários, pediatrias e propedêuticas. Ri alto nos perrengues mais, digamos, fisiológico-viscerais e nos bizarros causos hospitalares (o cerumano é muito, muito escroto) – tudo acentuado pelo seu traço "toscomics", que aqui coube à perfeição. Também é difícil não se emocionar com o drama de algumas situações, sempre retratadas com pragmatismo e sensibilidade pela autora.

Daria fácil um Estudante de Medicina 2 - A Revanche só com essas histórias cabulosas de enfermarias e pronto atendimentos.

Sinceramente, é o mínimo que espero se um dia ela pendurar o jaleco mais uma vez.

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